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quarta-feira, 3 de abril de 2024

Poesia. Nuno Júdice. «Deuses… vós sois animais destruidores… invoco a memória de um fruto amargo, a sabedoria corrompida nos labirintos da inteligência»

jdact

Exílio

«As planícies áridas de uma inspiração antiga deram-me a conhecer

O seguinte, que eu era um poeta único, o Anunciado, o Iluminador das tardes

Violetas do Bósforo e Antineia… e que ninguém, durante os anos

Criadores de uma imaginação múltipla, regressaria às fórmulas arcaicas

Que os medíocres ousaram, furiosos de Resto…

E eles! Devoradores de impressão, que zelo sustenta ainda

Os seus corpos? Antes os influenciasse Saturno, o criador de Obscuridade

Divina… ou ouvissem os horóscopos pronunciados nas margens

Tempestuosas do sul… ou ainda voltassem a um lugar abrigado

A elucidar as profecias e comentários de um povo áugure… mas eles

Não ouviram, nunca, asmatemáticas polares do sonho!...»

[…]

In Nuno Júdice, 50 Anos de Poesia, Antologia Pessoal (1972-2022), Publicações Dom Quixote, 2022, ISBN 978-972-207-457-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Nuno Júdice, Poesia, Cultura, 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Vésperas de Sombra. Nuno Júdice. «Ficou no carro, em frente da porta, observando a atitude dos homens de meia-idade, hesitando uns segundos antes de tocarem à campainha»

jdact

«(…) Nos dias de feira, os Proprietários que saem de suas casas durante um ou dois dias para vir à cidade realizar os seus negócios, realizam também outros negócios durante a noite, aproveitando para se libertarem de longos jejuns, mesmo os casados, porque as mulheres legítimas acabam por perder o apetite do sexo, e afastam-se deles, mudando até para outros quartos nos fundos das casas, como se as suas barrigas se fechassem depois de terem dado os filhos que tinham de dar e os cuidados domésticos as obrigassem a pôr de lado a pose feminina que provoca o desejo, além de que os próprios maridos pouco se importavam com isso, preferindo recorrer ao plano de fora, o Senhor não era excepção a esse ritual, conhecendo perfeitamente o caminho que levava à rua do bordel que, nessa altura ainda não tinha sido encerrado por força da lei; mas nesse ano hesitou antes de entrar, como se não quisesse mostrar uma sofreguidão que já não era capaz de sentir, até porque conhecia quase todas as mulheres que ali estavam, e esse conhecimento antecipado dos gestos do sexo que cada uma delas executava lhe esgotasse o prazer.
Ficou no carro, em frente da porta, observando a atitude dos homens de meia-idade, hesitando uns segundos antes de tocarem à campainha. Apercebeu-se de movimentos no patamar, onde um outro homem conversava com alguém que não via, já na obscuridade da escada, até que o homem acabou por subir, e uma mulher assomou, o rosto jovem mas demasiado pintado, e os cabelos penteados de forma a correrem para cima dos ombros. Os outros avançaram, entrando também eles para esse patamar, onde se demoraram menos tempo do que o cliente anterior, talvez porque a decisão estivesse já formada e tivesse bastado a imagem de Eva para que os últimos escrúpulos tivessem desaparecido, além de que uma decisão de grupo é sempre mais sólida do que a vontade individual, dominada muitas vezes por um remoto sentimento do pecado que nem a consciência de que o mal será redimido por uma futura confissão pode evitar, sobretudo porque essas confissões são sempre penosas, e ainda mais quando o padre que está por detrás das grades é alguém conhecido, capaz de reconhecer a voz que descreve a fuga conjugal, e carregando então no número de terços da penitência, proporcional à responsabilidade social da ovelha desgarrada numa noite de lençóis sujos.
O Senhor saiu do carro, aproximando-se do prédio baixo, de janelas fechadas, mas deixando ver pelas frinchas uma luz que lhe pareceu vermelha, embora não tivesse a certeza de que fosse aquela a luz que servia para iluminar aqueles encontros que serviam de coroação ao fim de festa, um fogo de artifício erótico muitas vezes acabando na decepção com que a mulher dava por findo o acro e despedia o homem, secamente. A luz agitou-se; e percebeu que era um cortinado vermelho que escondia de fora os encontros secretos. Perguntou o que estava ali a fazer, ou porque não entrava, e repetiu instintivamente o gesto de apalpar o sexo, ouvindo de súbito os guinchos dos bácoros e quem os capadores tinham arrancado a força: viu-se na situação deles, e apercebeu-se de que começara a engordar, e que isso o tinha afastado do desejo, mas não da tentação, que agora o despertava, tanto mais que um outro rosto o olhava com acenos provocatórios da porta. Mas a chuva começou a cair com mais força, batendo nas pedras, e obrigou-o a correr de volta para o carro, onde se meteu já completamente encharcado, preparando-se para uma gripe certa, com a humidade que se formava nos vidros a impedi-lo de ver um mundo subitamente ameaçado pelo dilúvio. Voltou para casa devagar, sabendo que iria demorar o dobro do tempo, obrigado a conduzir devagar, com os faróis no máximo mas, mesmo assim, não o deixando ver mais do que um palmo de alcatrão em frente, a não ser quando se cruzava com outros faróis e assistir por instantes, a uma dança de cortinas de água por entre troncos de árvores de que só via as barras brancas da cal.
Continuou a ver esse bailado durante algum tempo, na cozinha, enquanto aquecia o jantar, enquanto os mil ruídos de uma casa velha, numa noite de chuva, lhe traziam sinais de presenças múltiplas, que não entendia, pensando obsessivamente naquele rosto cujo apelo recusara. Ouviu então bater à porta, várias vezes, o que o fez correr para a abrir, já que o toque insistente traduzia o desespero de quem devia estar a apanhar com a água toda do céu, mas não, a figura que estava em frente da porta era a de alguém que reencontrara de passagem, no mercado, e a quem dissera para aparecer, para lembrar uma adolescência em que se tinham cruzado, e ele tinha gostado dela mas, numa idade em que essas coisas não se diziam, só o remorso por se ter calado lhe servia de tormento. Ajudou-a a entrar, e riram-se enquanto ele tentava fechar o grande chapéu de chuva preto, de onde escorria uma cascata que inundava o átrio, quando ele fechava a Porta vencendo a resistência do vento». In Nuno Júdice, Vésperas de Sombra, Quetzal Editores, Lisboa 1998, ISBN 972-564-359-3.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

sábado, 16 de janeiro de 2016

Poesia em Sábado. Vida Breve. Nuno Júdice. «Ah, quem sabe, quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, dum cais; se não deixei, navio ao sol oblíquo da madrugada…»

Cortesia de wikipedia

A varanda de Julieta
«Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais».


Rotina
«Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu, um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça».
Poemas de Nuno Júdice, in ‘Pedro, lembrando Inês
Depósito Legal B-4776-2009

JDACT

sábado, 31 de janeiro de 2015

No 31. Nuno Júdice. Pedro, lembrando Inês. Jazz. «Se o nosso espírito pudesse compreender a eternidade ou o infinito, saberíamos tudo. Até podermos entender esse facto, não podemos saber nada. O zero é a maior metáfora. O infinito a maior analogia. A existência o maior símbolo»

IM
jdact

Estrelas
«Desfaço nas mãos os figos, os fios
Fugazes de Setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o Inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. O que tens aí?, perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
anda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do Inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras, e o húmido murmúrio
do amor?»


Solidão
«Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. É um mundo impenetrável, diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão».
Poemas de Nuno Júdice, in ‘Pedro, lembrando Inês

JDACT

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pedro Lembrando Inês. Poesia. Nuno Júdice. «Um pintassilgo desce pelas escadas da canção, empoleira-se nos seus versos, estende o bico para que o canto não se perca pelo chão. Ainda bem que é para o céu que ele está a olhar…»

jdact

Pedro, Lembrando Inês
O amor, dizes-me
«Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzindo em
breves palavras a sua silenciosa verdade».

Natureza viva
«Um pintassilgo desce pelas escadas
da canção, empoleira-se nos seus versos,
estende o bico para que o canto
não se perca pelo chão. Ainda bem que é
para o céu que ele está a olhar: assim,
não vê os teus cabelos que se espalham
por entre ervas e ramos, nem os teus
braços que se apoiam ao declive da
encosta. No entanto, a tua respiração
canta com ele; e só quando o vento
o enxuta do ramo é que um silêncio
se faz para que, de dentro dele, nasçam o
bater de asas do seu voo e o teu riso, ao
veres um pássaro saltar de dentro do amor».

Anjo da Guarda
«O anjo que desce do espírito com a tarde,
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram».
Poemas de Nuno Júdice, in ‘Poesia: Pedro, Lembrando Inês

In Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001, 2009.

Cortesia de DQuixote/JDACT

O Anjo da Tempestade. Nuno Júdice. «Quanto tempo demoraram a dar pela sua falta? A pergunta insiste, comigo; e o que me inquieta, por outro lado, é não saber se esse homem, celibatário, teria tido alguém que esperava…»

jdact

O Anjo da Tempestade
«(…) O que fixei, porém, foi a imagem desse homem que, a meio caminho da serra e do mar, foi surpreendido pela morte. Sem nunca ter sabido o seu nome, ou o de quem o assassinou, e porquê, guardei como obrigação a necessidade de escrever a sua história, embora não haja ninguém que me possa informar sobre alguma coisa da sua vida, e muito menos tenham restado arquivos ou notícias que informem sobre o assunto. A morte de um homem, em meados do século dezanove, não passa então de uma gota de água no oceano de todas as vidas anónimas de que o tempo se apodera, moldando-as no gesso informe de estatísticas e números sobre os quais, presumivelmente, ficamos a conhecer uma sociedade do nosso passado mais ou menos remoto.
Algumas vezes fiz, ou tentei refazer, esse caminho. Primeiro, numa época em que ele mantinha as características do tempo em que o meu antepassado o fizera: careiros de terra por entre muros que ainda mantinham as pedras em que, no quente mês de Agosto, se iam escondendo osgas e lagartos surpreendidos pela passagem de estranhos; casas perdidas num interior completamente isolado, de onde espreitavam rostos de velhos ou crianças assustados pela devassa da sua solidão, como se nunca ninguém tivesse ousado essa aventura de um interior onde só os pássaros dispunham de liberdade plena para o seu voo; matilhas de cães vadios que, também não se sabe porquê, apareciam a ladrar à nossa passagem. Depois, muito mais tarde, os caminhos foram alargados, até muitos deles serem asfaltados; as casas cresceram ao longo deles, e os habitantes já nada têm a ver com a memória dos lugares, desconhecendo tudo sobre o que ali se terá passado, e nada sabendo de episódios antigos, como essa morte de um homem em plena serra, num local onde a última coisa que se pode imaginar é que alguém, numa tarde de Agosto, possa ser surpreendido por um tiro de arcabuz à queima-roupa.
Numa dessas viagens, posso ter pensado que descobri o lugar em que tudo se passou. Não cheguei até lá: vi o cerro de longe, e indicaram-me ter sido ali que um homem tinha sido encontrado, morto, há muitos anos. Nessa época, posso ter desejado ir até ao local e, varrendo a terra seca do calor, procurado vestígios do crime: uma bala, moedas perdidas de um roubo mal executado, pedaços de couro do vestuário, e até, quem sabe, restos de ossadas que se tenham extraviado, e que me serviriam para um sinistro relicário familiar. No entanto, os meus companheiros dissuadiram-me de ir até ao cerro, talvez por inércia, talvez por se fazer tarde para o regresso, pelo que voltámos atrás, sabendo já que iríamos chegar com a noite a cair sobre a aldeia, nesse tempo em que as horas ainda eram dadas pelo sino de bronze da torre, e não por gravações marteladas em altifalante de igreja. Quanto tempo demoraram a dar pela sua falta? A pergunta insiste, comigo; e o que me inquieta, por outro lado, é não saber se esse homem, celibatário, teria tido alguém que esperava por ele, amante, ou criada, ou uma dessas primas solteiras que, no seu íntimo, sonhavam com um casamento que as libertasse de uma velhice de virgens beatas no círculo do padre». In Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001, 2009.

Cortesia de DQuixote/JDACT

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Poesia. Nuno Júdice. «Tu, que me ensinas o que é o amor, colheste essas rosas selvagens, a sua púrpura brilha no seu rosto. O seu perfume corre-te pelo peito, derrama-se no estuário do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam por entre a brisa dos murmúrios»

Cortesia de wikipedia

Pátio
Onde te encontrei: pomba
que pousa por instantes, que procura
uma saída sobre os muros, e
se perde por entre varandas e cordas.

Lua
Apaga-se um grito negro quando as
foices matinais decepam a noite. É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim dec eifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.

Poemas de Nuno Júdice, in ‘Poesia’

JDACT

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O Anjo da Tempestade. Nuno Júdice. «A repartição dos bens, por outro lado, transformou essa indiferença em hostilidade para com o defunto porque, não tendo deixado testamento, deu azo a que presumíveis herdeiros…»

jdact

O Anjo da Tempestade
«Aí por meados do século dezanove, num cerro do Algarve, a meio caminho entre o mar e a serra de Monchique, um tio-bisavô meu foi assassinado. Imagino que tenha sido no Verão, numa tarde do mês de Agosto mais quente desse século; a meio da tarde, sem uma vibração de vento, pode ouvir-se o bater de asas de uma mosca; mas não se ouvem os passos sorrateiros de um assassino, escondido atrás de umas moitas, e aproximando-se do viajante, pelas suas costas, até chegar a altura certa para desferir o tiro de arcabuz que o levará desta para melhor. O que ia o homem fazer nessa tarde de Verão em que lhe deram um tiro, não é para aqui chamado. Estaria ele a descer da serra até ao mar, de regresso de uma visita aos seus bosques de sobreiros que lhe davam o suficiente para manter a casa e o gado nas propriedades do litoral? Ou estaria a caminho das Caldas, onde iria fazer uma cura de água para os seus ossos que, apesar de sólidos e duros, poderiam começar a acusar o toque da idade nos outonos e invernos que se aproximavam?
O corpo não foi logo encontrado; e é de presumir que entre o seu desaparecimento e a altura em que se iniciaram as buscas tenha decorrido algum tempo, nessa época em que as comunicações não eram o que são hoje, ou seja, o tempo suficiente para que o corpo tenha tido tempo de começar a decompor-se, a ser atacado por animais e aves de rapina, e finalmente a ser pasto de vermes que dele tiraram o que ainda havia para tirar. Coberto por ramos e pedras, de forma mais displicente do que apressada, pelo assassino que, afinal, acabou por não encontrar muito de que se aproveitar, porque um viajante em tão ermo lugar não levaria muito de seu, para além do estritamente necessário para o caminho, o meu tio-bisavô acabou por ser localizado por um grupo de ciganos que, em vez de recolherem os restos para o transportar para uma localidade mais próxima, deram à língua na taberna onde alguém, que soubera da história e conhecia o meu familiar, alertou a autoridade que, subindo até à serra, resolveu o problema, entregando o defunto à família, que lhe deu enterro e pranto, como era devido.
O pranto, porém, não foi além do que as conveniências exigiam, primeiro porque o desaparecimento ocorrera há longos dias, durante os quais a ideia da morte tivera tempo de fazer o seu caminho e preparar os espíritos para o triste acontecimento; e depois porque o homem, solteirão e misantropo, não tinha criado grandes afectos entre próximos, e muito menos entre servidores e colegas de negócio. A repartição dos bens, por outro lado, transformou essa indiferença em hostilidade para com o defunto porque, não tendo deixado testamento, deu azo a que presumíveis herdeiros tivessem guerreado entre si o tempo suficiente para que os bosques de sobreiros tivessem ficado ao abandono, com a consequente perda da cortiça, e campos e gado se perdessem na desavença.
O que nunca terá ficado claro foi a razão por que o meu antepassado remoto foi assassinado. Em meados do século dezanove, sobreviviam ainda alguns bandos de malfeitores que tinham sido animados pelo fim da guerra civil: desertores de um lado ou outro, antigos guerrilheiros do absolutismo ou liberais perdidos na nova ordem, tinham-se reunido em grupos que viviam de roubo a casas isoladas ou assaltos a quem se metia por inóspitos caminhos sem a devida precaução. Protegidos por cúmplices locais, ou dispondo de um conhecimento seguro da região, dificilmente seriam encontrados, e menos ainda quando as próprias forças do reino não tinham nem esse conhecimento da geografia nem as informações necessárias para limpar o terreno. Quando me contaram a história, pouco mais de um século depois, falava-se do assunto como se tivesse ocorrido na véspera; era, no entanto, um homem que não deixara memória, embora muitos anos depois, num velho pacote de fotografias, me tivessem aparecido pessoas que se poderiam ter confundido com ele, com pesadas samarras de viagem e patilhas espessas a encherem o rosto. Era gente que viera depois da sua morte, mas que o poderia ter conhecido, e que ainda guardava uma certa imagem do desconcerto que teria acompanhado a existência de quem conviveu com tão terríveis sucessos». In Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001, 2009.

Cortesia de DQuixote/JDACT

Pedro Lembrando Inês. Poesia. Nuno Júdice. «Então, os santos pegam nas tesouras e começam a tosquia das nuvens. Lá em baixo, nos prados onde as almas se juntam, começa a chover…»

jdact
 
Pedro, Lembrando Inês

Variação sobre rosas
Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

Beatitude
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade do ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.

Poemas de Nuno Júdice, in ‘Poesia: Pedro, Lembrando Inês

In Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001, 2009.

Cortesia de DQuixote/JDACT

sábado, 23 de novembro de 2013

Jazz. Júlio Resende. «A vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde…»

jdact


«A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas».

JDACT

terça-feira, 11 de junho de 2013

Vésperas de Sombra. Nuno Júdice. «Era a altura em que os grandes negócios se tinham já feito, e restavam as pequenas trocas, daqueles que tinham hesitado até ao último minuto, ou então dos homens da montanha, os mais desconfiados, que só depois de verem longamente o comportamento dos animais…»


jdact

«(…) Evitava olhar-se ao espelho, o que só piorava a situação quando, por vezes, dava com o seu reflexo nalgum vidro, e via um rosto a que se tinha acrescentado mais um traço de velhice, rugas, olheiras, cabelos brancos. Não identificava já esse corpo em que se arrastava consigo próprio: não sabia como tinha ido parar dentro daquele invólucro físico que o assustava, com os sinais de um fim que não desejava mas para que não via outra saída. Já antes, porém, tivera momentos em que se aproximara daquele estado, embora tivessem sido passageiros, na altura dos mercados de gado que, no Outono, traziam gente de toda a região ao terreiro onde se negociavam cavalos, bois, porcos, ovelhas, arreios, selas, máquinas, e onde se ferravam mulas, se trocavam promessas ou notas, se comia e se bebia em excesso, sabendo que esse dia anunciava o fim de um ciclo de vida, na véspera da estação que ia acabar com a festa do sol e fechar toda a gente em casa, nos meses de frio e chuva. Era nesses dias que uns homens alugavam o seu serviço insólito, recebendo os bácoros que lhes levavam para que eles, com um canivete afiado, os capassem, provocando guinchos que rompiam os tímpanos.
Era um espectáculo que o impressionava, sobretudo ao ver o modo como os homens não hesitavam no gesto emasculante, e nos grupos que se formavam à sua volta, rindo com o sofrimento dos animais. Com a mão na algibeira, tocava o sexo, para se certificar então de que mantinha intacta a sua virilidade; mas apercebia-se ao mesmo tempo da efemeridade das coisas, o que o impedia de realizar certos negócios para que é necessário um espírito mais disponível e menos angústias. O vento, e partir da tarde, começava a levantar a terra, que deixava uma película castanha nos chapéus, entrava pelos olhos, sujava as lentes dos óculos. Era a altura em que os grandes negócios se tinham já feito, e restavam as pequenas trocas, daqueles que tinham hesitado até ao último minuto, ou então dos homens da montanha, os mais desconfiados, que só depois de verem longamente o comportamento dos animais, de lhes terem apalpado o corpo em busca de inchaços suspeitos, ou olhado a dentição, é que puxavam da carteira e tiravam as notas atadas com cordel, as contavam uma a ume, duas ou três vezes, e lá acabavam por sair com o seu troféu, que iriam alimentar durante um ano para, no ano seguinte, se nada acontecesse, e para isso é que as mulheres haviam de fazer as promessas, que no dia da procissão iriam pagar ao adro da igreja, lhes renderia o triplo do que tinham dado, naquele mesmo sítio.
Era não contar com epidemias, com secas, com acidentes: mas não havia que pensar nisso, que obrigaria a que nada se fizesse e a que o mundo parasse nos seus eixos. Pelo contrário, uma força ancestral obrigava a que os homens se lançassem nesses pequenos negócios, esperando que o dinheiro lhes servisse, um dia, para comprar um pedaço de terra, que já não lhes serviria a eles, mas aos filhos, embora os filhos, quase sempre, acabassem por partir para a cidade e deixar ao abandono essas terras ganhas com o trabalho de uma vida.
O senhor ficava até ao fim: esperava que as tendas se levantassem, que os ciganos desmontassem as suas bancas, e formassem as caravanas em direcção à feira seguinte, e só então ia até ao centro da cidade, observando no caminho os grupos que se tinham juntado no interior das tabernas, onde as bebedeiras eram já evidentes, na preparação de excursões ao bordel que, nesses dias, tinha um ganho acrescentado. O céu tinha-se já coberto inteiramente de nuvens negras; e os primeiros pingos iam começar a cair ao fim do dia, prevendo uma noite de aguaceiro que iria surpreender os homens da montanha, tapando-se com as suas mantas, e avançando com dificuldade nos caminhos de terra transformados em lamaçais, mas avançando apesar de tudo, certos do caminho, porque só os homens da cidade é que se podem dar ao luxo de ter hesitações». In Nuno Júdice, Vésperas de Sombra, Quetzal Editores, Lisboa 1998, ISBN 972-564-359-3.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

Vésperas de Sombra. Nuno Júdice. «Começou a deitar fora o que o ligava ao passado: as cartas de família, postais, fotografias, objectos; esvaziou armários de roupa que já não serviam, a ninguém, mas que por um hábito sentimental tinha vindo a guardar»

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«(…) Mas isso seria abrir excepções que nunca se sabe onde iriam parar; e habituou-se depressa ao mal: o que aquela gente vivia, afinal, fazia parte da sua condição, e ele estava ali apenas de passagem, incapaz de encontrar uma resposta eficaz para além da caridade, que só se praticava perante casos extremos, ou na altura do Natal ou da Páscoa, em que a tradição o obrigava a esses gestos. Com o fim das obras a questão resolveu-se; e voltou para casa, gozando o conforto da civilização, com a luz eléctrica, os esgotos, a água canalizada, embora por algum tempo tivesse exibido uma aparente misantropia que acentuou as desconfianças a seu respeito. A rua tinha sido aberta, então, para fazer a ligação da casa ao esgoto colectivo; e, com a abertura da vala, dizia-se que tinha aparecido o túnel que ia dar a essa caverna onde ele teria os seus encontros amorosos.
Um bêbedo contou que se tinha metido lá dentro, e tinha rastejado no meio de vasilhas cheias de ossos, de tulhas de sal com restos de carne humana, de fotografias antigas, meio roídas pela humidade, de mulheres belíssimas, de quem se tinha perdido o rasto. Viam o seu rosto, com a barba por fazer, assomando-se por trás dos vidros embaciados, espreitando a rua; e pensavam que a única motivação para se ter tornado um recluso era o sentimento de culpa, um remorso inextinguível, que lhe tirara o apetite e o sono. A mulher da farmácia, de resto, contou um dia que o fornecia regularmente com um saco de medicamentos: para o coração, para os rins, para a cabeça, unguentos contra a dor, pomadas para os pés, soporíferos.
O homem mata-se com tantos químicos, dizia; mas a verdade é que ele insistia na vida, e a única altura em que saía era ao domingo de manhã, quando se barbeava, punha o casaco e a gravata preta, e dava a volta à aldeia, a pé, passava em frente da igreja, pouco antes da missa, como se fizesse tenção de ali entrar, e acabava por voltar a casa, sob o olhar assustado da gente mais nova, que só o conhecia da sua fama, e que o olhava como se fosse um fantasma. Ele próprio não saberia explicar porque adoptara aquela vida; talvez o desinteresse pelo mundo lhe tivesse vindo dessa passagem pela casa de campo, e do encontro com uma rapariga por quem se apaixonou, dias antes de ela embarcar para as mondas nos arrozais, no meio do Verão, quando o calor ainda aperta: as mulheres com as pernas metidas dentro de água todo o dia, comidas pelos mosquitos, enterrando-se no lodo, e regressando à noite para os barracões infectos onde tentavam dormir. Quando ela voltou, semanas depois, não a conheceu: tornara-se uma velha, com as pernas disformes, o rosto inchado, o cabelo queimado pelo sol. Viu naquilo uma imagem do seu próprio mundo, que de súbito lhe apareceu com o rosto da decomposição, antecipando a sua própria morte; e deixou de acreditar em si, perdendo a fala, como se tudo o que tinha aprendido ao longo de uma vida se tivesse varrido do seu espírito para dar lugar apenas ao absurdo do ser.
Ela olhou-o, rindo-se, à espera que ele lhe falasse como tinha acontecido antes de ela partir, com as palavras triviais com que o sedutor procura envolver a sua presa; e percebeu que algo se tinha parado dentro dele, quando viu o seu olhar de repente perdido, à procura de uma referência para aquele corpo que lhe parecia definitivamente estranho. A reacção dela foi fugir, como se tivesse acabado de enfrentar o demónio; e ele apercebeu-se de que o seu lugar já não era naquele mundo das leis implacáveis em que sempre acreditara. Passava os dias sentado numa cadeira, absorto em pensamentos que o atormentavam.
Começou a deitar fora o que o ligava ao passado: as cartas de família, postais, fotografias, objectos; esvaziou armários de roupa que já não serviam, a ninguém, mas que por um hábito sentimental tinha vindo a guardar». In Nuno Júdice, Vésperas de Sombra, Quetzal Editores, Lisboa 1998, ISBN 972-564-359-3.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Vésperas de Sombra. Nuno Júdice. «Elas sofriam a prova em silêncio, mesmo as que estavam noivas e que sabiam que esse ‘jus primae noctis’ fazia parte do contrato que tinham estabelecido ao entrar ao serviço da casa…»


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«Da parte dele, era outra a insatisfação, uma angústia de João a fazê-lo procurar amantes, não só a dona da Retrosaria, mas outras que viviam na cidade, e outras ainda no meio das criadas e das mulheres do campo, dando-lhe uma reputação de ogre que o facto de ter uma gruta debaixo de casa, a meio do famoso túnel, ainda tornava mais viva. Nunca lhe passou pela cabeça o casamento, não porque não tivesse tido quem o pretendesse, mas porque a vida de boémia que levara durante os anos em que essa solução poderia ter representado uma escolha de vida estável acabaram por lhe impor o celibato, o que não quer dizer que não sentisse a necessidade de afirmar uma virilidade que afastasse o espectro da velhice prematura que afecta muitos dos que enveredam por esse caminho, gastos pelos trabalhos e pelos ressentimentos trazidos pela idade.
E era debaixo de terra, nessa gruta que, na imaginação do povo, talvez tivesse estalactites e estalagmites, que o viam consumar o amor, como se precisasse de regressar ao útero da grande deusa para recuperar a vitalidade masculina! O que era verdade, dentro da lenda, é que havia na casa uma cave onde se tinham construído umas tulhas que, na altura das matanças do porco, se enchiam de sal, e era aí que se guardavam as carnes para o inverno. Com a humidade, o sal ganhava brilhos húmidos que acentuavam o lado feérico desse subterrâneo mal iluminado; e quem assomava à porta, tinha a impressão de ter entrado num ventre que o condenava ao exílio do mundo, onde o cheiro a salmoura se misturava com o do sangue dos animais, que secara no chão e, apesar das limpezas, deixara manchas que ganhavam com o tempo uma consistência de crosta. No meio da grande sala, de tecto baixo, havia uma mesa de madeira muito usada, onde eram abertos os porcos que tinham sido mortos no quintal; e era aí, diziam, que o Senhor consumava as suas proezas eróticas com as raparigas que entravam ao serviço da casa, e que ele faria pela prova da desfloração, como se elas fossem como essas virgens da Antiguidade, condenadas ao sacrifício ritual no fim do verão para que a morte invernal, que o outono anunciava, pudesse ser exorcizada. E estas histórias, nesse tempo em que não havia televisão e em que só nas casas ricas havia telefonia, serviam para que se passassem mais depressa as noites intermináveis passadas em torno do fogão da cozinha, para aproveitar o calor que vinha do borralho onde se cozinhava o feijão e as sardinhas do jantar.
Elas sofriam a prova em silêncio, mesmo as que estavam noivas e que sabiam que esse jus primae noctis fazia parte do contrato que tinham estabelecido ao entrar ao serviço da casa; e de nada servia terem de suportar o olhar duro das criadas mais velhas, adivinhando na perda das rosáceas e no princípio de olheiras o fim da inocência e compensando a sua frustração interior com os gritos que censuravam a mínima das suas distracções durante as intermináveis limpezas que tinham como resultado que não houvesse nada da casa que não brilhasse, o que iria acabar quando o número de empregadas se foi reduzindo, e só as mais antigas aceitaram continuar, mas desleixadas até acabarem por fazer com que o Senhor se cansasse delas e as dispensasse, o que representou o triunfo do pó sobre o brilho, mesmo nas pratas que deixaram de ser ciclicamente esfregadas para reflectirem como espelhos as madeiras preciosas dos móveis que, depois, começaram a quebrar e a deixar sair os interiores miseráveis dos seus estofos.

Foi quando a chuva começou a entrar pelos buracos das telhas que o Senhor teve um rebate de consciência e mandou fazer algumas obras, refugiando-se numa casa de
campo enquanto os operários pintaram algumas salas, mudaram a instalação eléctrica, transformaram as canalizações. Essa mudança fez com que ele se desse conta de que existia uma outra vida para além da aldeia, com os problemas da sobrevivência, o trabalho a começar ainda com a noite, no horário de inverno, as doenças que era preciso vencer sem médico, porque o único que havia estava na cidade, as agonias dos velhos, amarrados à cama, com o padre a descer da aldeia, à pressa, para dar a extrema-unção. Reagiu com alguma estranheza, a princípio, ao aperceber-se de que aquilo correspondia a um sofrimento real, a que ele poderia nalguns casos dar resposta: pegar no automóvel e levar o doente ao hospital, ou distribuir algum dinheiro para resolver situações mais difíceis». In Nuno Júdice, Vésperas de Sombra, Quetzal Editores, Lisboa 1998, ISBN 972-564-359-3.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

domingo, 4 de novembro de 2012

Cancioneiro. D. Dinis. A Poesia Galaico-Portuguesa. «A voz feminina que se exprime nas Cantigas de Amigo corresponde a uma relação homem-mulher que se baseia numa cumplicidade nascida do facto de que, entre ambos, o amor supera as conveniências sociais»

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Por tudo isto, Dinis I é sem dúvida um poeta com uma voz própria, e este facto terá levado a que a sua extensa produção tivesse, presumivelmente, sido recolhida em volume próprio, que terá feito parte da Biblioteca do rei Duarte, onde se encontra referenciado. Morreu em Santarém, em 1325, mas a sua fama não morreu com ele, sendo a sua qualidade de poeta referida, entre outros, por Camões e António Ferreira, no século XVI; mas já antes deles, Dante e o Marquês de Santilhana o colocam entre outros nomes de relevo na poesia medieval.

A voz humana
A voz feminina que se exprime nas Cantigas de Amigo corresponde a uma relação homem-mulher que se baseia numa cumplicidade nascida do facto de que, entre ambos, o amor supera as conveniências sociais. É talvez uma mulher casada que diz:

‘Bem entendi, meu amigo,
Que mui gram pesar ouvestes
Quando falar nom podestes
Vós noutro dia comigo’

A amada não hesita em desafiar esses condicionalismos, servindo-se de processos como os recados, através de amigas ou da própria mãe, para chegar até, ao amigo. Muitas vezes, o poema nasce numa situação de ausência do amado: ou por ter ido com el-rei ou numa expedição guerreira. É a situação de quem fica, com a soidade do amado, que o poema retrata, acentuando o lado confessional e, ao mesmo tempo, fazendo ecoar a pureza da voz que se lamenta.
Neste diálogo, surge por vezes uma atitude de desagrado, como a que resulta da incredulidade perante as profissões de fé amorosas do amigo:

‘Vós, que em vossos cantares meu
amigo chamades, creede bem
que nom dou eu por tal enfinta rem’.

Mas esta atitude talvez resulte do modo adoptado para essa confissão, o poema, sem dúvida suspeito, pelo facto de transportar códigos e artifícios que lhe retiram toda a sinceridade. Não surpreende, por isso, que o amigo tenha de recorrer à mãe para que esta use os seus bons ofícios de alcoviteira:

‘Roga-m’hoje, filha, o voss’Amigo
Muit’aficado que aos rogasse
que de vós amar nom vos pesasse’.

Neste, pequeno, mundo de amores secretos surgem, entretanto, intrigas, próprias do meio palaciano:

‘Amiga, sei eu bem d’uma molher
que se trabalha de vosco buscar
mal a vos’amigo po-lo matar’.

Mensagens, recados, diálogos, confidências, choros e rogos: estamos aqui num universo carregado de emoção, numa amplitude que vai da credulidade mais ingénua no sentimento do outro até à ira resultante da suspeita de perjúrio, ou da traição, em que a falta à palavra dada corresponde a um dos crimes mais graves dentro do código da honra feudal.


O amor é, sem dúvida, a causa de todo este clima; e o facto de a ele ser atribuído a perturbação dos amantes remete-nos para um universo de loucura, de perda do sem, na linha do filtro amoroso bebido por Tristão e Isolda que os colocou à margem da sociedade, levando mesmo ao desabafo: ‘mais nos varria de nos matar’. A perda da razão social vai pôr, então, o marido numa situação de inimigo, objecto de insultos: irado, mal bravo, sanhudo, esquivo.
O conjunto das oito cantigas paralelísticas, em que a linguagem se depura deixando ver o amor na sua expressão mais lírica, despida das convenções de género, dá-nos toda a medida da percepção do amor feminino pelo poeta». In D. Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização, prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN 972-747-684-8.

Cortesia de Teorema/JDACT

domingo, 28 de outubro de 2012

Cancioneiro. D. Dinis. A Poesia Galaico-Portuguesa. «Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor. Também as cantigas constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual»

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A Poesia Galaico-Portuguesa
«Há na linguagem de D. Dinis, um retomar de muitas fórmulas e lugares-comuns da poesia medieval. Tal facto não deve surpreender, já que o conceito de originalidade é algo que não faz parte desta literatura. Não quer isto dizer que não possamos reconhecer elementos próprios e originais, nomeadamente a afirmação da sua arte poética assim como o reflexo da sua condição real no modo como desenvolve alguns aspectos das cantigas de amor: uma certa ironia no tratamento da soror, quando lhe diz érades bõa pera rei, (Amor,15); e a referência religiosa, em que se pode ver talvez uma influência de seu avô, ao pedir a protecção de Santa Maria, mas também nas referências a Nostro Senhor, a Deus e até no jogo com o terceiro dia da Ressurreição de Cristo (Amigo, 6), quando diz que a coita do amigo é um forte que a donzela já não o poderá guarir.
A sua poética encontra-se, por outro lado, no modo como se define em relação com a tradição provençal. É na Cantiga Proençaes soem bem troban, (Esdmio, l) que a sinceridade é posta acima de qualquer outra qualidade na expressão lírica. É curioso, aqui, a relação que estabelece entre o lema e o ciclo natural, ao censurar os que só escrevem poesia no tempo futuro. Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor.
O facto de ser rei, por outro lado, não o inibe de entrar nos jogos de mal dizer que na maior parte dos poetas dos Cancioneiros, atinge uma violência que não hesita perante a linguagem desbragada e a denúncia de situações em que ninguém é poupado. Também aqui, as cantigas em que o monarca entra neste campo, constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual. É certo que existe alguma ambiguidade no vocabulário relativo a Joam Bolo, que poderá ser interpretado como alusivo à sua homossexualidade (como notou Elsa Gonçalves). No entanto, os poemas podem ser lidos à letra, formando um sentido completamente lógico sem que seja necessário encontrar outras interpretações, embora elas sejam plausíveis. Admitir-se-á, neste caso, que o não ir até ao ponto da denúncia crua que encontramos na generalidade dos poetas resultará da distância que o rei deve guardar em relação aos súbditos. O que ele censura, então, são comportamentos que se afastam dos códigos cortesãos, como o de Meliom Garcia que veste mal e maltrata as duas meninas que trago, o de D. Foam que fala interminavelmente sem perceber que o rei está com sono e quer que ele parta; ou refere aspectos do quotidiano como a doença (a praga) que, como aquele que passava a vida a rogar pragas, ou o desespero de Joam Simiom que perdeu três dos seus animais porque comeram azeitonas.
Por tudo isto, Dinis I é sem dúvida um poeta com uma voz própria, e este facto terá levado a que a sua extensa produção tivesse, presumivelmente, sido recolhida em volume próprio, que terá feito parte da Biblioteca do rei Duarte, onde se encontra referenciado. Morreu em Santarém, em 1325, mas a sua fama não morreu com ele, sendo a sua qualidade de poeta referida, entre outros, por Camões e António Ferreira, no século XVI; mas já antes deles, Dante e o Marquês de Santilhana o colocam entre outros nomes de relevo na poesia medieval». In D. Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização, prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN 972-747-684-8.


Cortesia de Teorema/JDACT