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sábado, 9 de abril de 2016

Sancho I. Peregrino e devoto de S. Senhorinha de Basto. Geraldo Coelho Dias. «O túmulo de Santa Senhorinha é venerado na freguesia do mesmo nome e a igreja paroquial, seiscentista, tem várias e pobres referências iconográficas e tumulares à Santa, mas no mosteiro nada subsiste»

Cortesia de wikipedia

«(…) Santa Senhorinha de Basto (924-982, aproximadamente) é uma santa do século X, nascida em território português, perto de Vieira do Minho, prima de S. Rosendo. Foi educada por uma tia, chamada Godinha e também ela venerada como santa e fundadora do mosteiro de S. João de Vieira, a qual aparece referenciada no cartulário bracarense do Biber Fidei. Todavia, a vida de Santa Senhorinha, pouco estudada ainda, foi publicada em latim nos Portugaliae Monumenta Historica-Scriptores e recentemente traduzida para português. Sabemos que os monges beneditinos da antiga Congregação dos Monges Negros de S. Bento do Reino de Portugal, a consideravam monja e abadessa beneditina e como tal a representaram e difundiram o seu culto. Frei Leão de S. Tomás resume a sua vida e descreve o seu mosteiro, situado no fundo do vale, junto ao rio Basto, a três quilómetros do mosteiro de Refojos, no caminho para Arco de Baúlhe. Na realidade, porém, Santa Senhorinha é anterior à introdução da vida beneditina na nossa região, patrocinada pelas determinações do Concílio de Coyança em 1050, favorecida por Afonso VI de Leão. Deste modo, é puro anacronismo vesti-la a ela e à tia de abadessas beneditinas. Quando muito, tanto ela como seu primo S. Rosendo, terão levado um tipo de vida consagrada, que prolongaria no tempo os usos e costumes da região, que ainda conservava a memória do monaquismo de S. Frutuoso.
Tempos depois, em plena monarquia portuguesa, sucedeu que o miraculado filho de Sancho I, feito rei Afonso II, deu privilégios à igreja de Santa Senhorinha de Basto por provisão datada de Guimarães, a 28/2/1220. O rei Afonso III, filho do dito Afonso II, confirmou o couto e ampliou os privilégios, como consta das Inquirições de 1258. Sabe-se que o rei Pedro I, a 15/9/1360, estando em Valença do Minho, honrou Santa Senhorinha fazendo à sua igreja, onda dona Inês de Castro erigira uma capela a S. Gervásio, uma doação do padroado que detinha na igreja de Santa Maria do Salto, no Barroso, dando-nos a entender que esta, já então, era simples freguesia e não mosteiro. Parece que o couto foi extinto por volta de 1620, quando o benefício passou para o morgado da Taipa, em Celorico de Basto. A igreja tinha quatro anexas (Santa Maria do salto, Ourilhe, Painzela, Pedraido), as quais eram da apresentação do respectivo abade que, por isso mesmo, daí colhia os rendimentos.
De Santa Senhorinha se ocupou, modernamente, o arcediago-bispo de Lamego António Castro Xavier Monteiro, em livrinho de 48 páginas. O túmulo de Santa Senhorinha é venerado na freguesia do mesmo nome e a igreja paroquial, seiscentista, tem várias e pobres referências iconográficas e tumulares à Santa, mas no mosteiro nada subsiste. É sabido de todos que as tropas francesas, depois da 2ª Invasão comandada por Soult (16/5/1809), retiraram a toda a pressa pela mágica e dantesca ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão, quase na confluência com o Cávado, na freguesia do Ferral, já no concelho de Montalegre. É ponte muito antiga, romano-medieval, por onde passavam peregrinos a caminho de S. Tiago de Compostela. A ela está ligado um curioso culto dos irmãos S. Gervásio e Santa Senhorinha, que a tradição faz naturais da vizinha região de Basto e que, aqui, teriam atravessado o rio para ir a Compostela e ao mosteiro de Celanova visitar seu primo S. Rosendo. De faco, na região existe uma lenda cde gostoso sabor antropológico-cristão segundo a qual, quando para uma mulher o período de gestação foi atribilado ou já houve caso de nado-morto, se deve fazer o baptismo pré-natal no útero da mãe, extra-sacramental, por um padrinho ali surpreendido, de noite e ao acaso. Este, deitando água do rio sobre o ventre materno, deverá dizer a seguinte fórmula: eu te baptizo, criatura de Deus, pelo poder do Senhor e de Santa Maria. Se fores rapaz, serás Gervaz; se fores menina, serás Senhorinha». In In Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, Peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. XIII, Porto, 1996.

Cortesia da FLUP/JDACT

domingo, 18 de maio de 2014

Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «D. Constança Sanches, ‘dona muito nobre e de muito grande santidade e virtudes, e toda perfeita em virgindade e em fazer esmola aos pobres’, faleceu em 1269»

jdact

Os oito enteados da Rainha Doce
«(…) Os restantes seis filhos que Sancho I teve de gança (como então se dizia) foram fruto dos seus amores com D. Maria Pais Ribeiro, a Ribeirinha, que o rei conheceu na Guarda ou em Coimbra e era sobrinha daquele Martim Moniz que defendeu a porta de Lisboa. A Ribeirinha, mulher fidalga, de grande formosura, também foi amante de Sancho quando a rainha sua mulher vivia. Mas a Ligação prolongou-se após a morte de D. Dulce, em 1198, com suficiente escândalo público para o papa admoestar o rei contra a feiticeira que todos os dias consultava e o bispo de Coimbra lhe solicitar que a expulsasse do paço para que ele o pudesse frequentar... Senhora de Vila do Conde, que  Sancho I, homem ciumento, lhe deixou em testamento com a condição de ela não casar, a Ribeirinha deu ao Povoador vários filhos.
O primeiro chamou-se Rodrigo Sanches e foi um dos chefes do partido senhorial durante o reinado de Sancho II. Fez frente à política de afirmação e centralização do poder real intentada por seu sobrinho e morreu a combatê-la, na lide de Gaia, em 1245. Há-de ter sido um modelo de qualidades e virtudes, a acreditar numa inscrição cuja memória a Monarquia Lusitana conservou: [...] grande cortesão, insigne nas armas, semelhante a Rolando, amável para todos, gracioso e de conversação alegre, folgado de rir e de falar, evitando o incesto (sic), verdadeiro nas promessas, severo para com os inimigos mas pacífico, humilde, de rara bondade e sem engano[…]
Não casou. Mas teve de Constança Afonso de Cambra um filho bastardo: Afonso Rodrigues, que os livros de linhagens não referem. Frade de São Francisco, guardião do Convento de Lisboa, o bastardo de Rodrigo Sanches fez parte do desembargo de Dinis I.
O segundo filho da Ribeirinha chamou-se Gil Sanches, que, diz o conde de Sabugosa, foi o clérigo mais honrado de Espanha e viveu em barregania com D. Maria Garcia Sousa, de quem não teve filhos. Foi também trovador. Seu pai deixou-lhe em testamento oito mil morabitinos, dos que estão em Belver. Morreu a 14 de Setembro de 1236. Seguiram-se Nuno Sanches, que morreu de tenra idade, num dia 16 de Dezembro, e D. Maior Sanches, que, segundo os livros de linhagens, era filha de Maria Aires de Fornelos, e que, segundo a Monarquia Lusitana, teria morrido criança, tal como um seu irmão, Nuno Sanches, de quem nunca mais se ouviu falar. Finalmente, nasceram D. Constança e D. Teresa Sanches.
D. Teresa foi a segunda mulher de Afonso Teles Meneses, rico-homem, senhor de Albuquerque, Medelim, Montalegre, Valhadolid e Madrid, etc., a quem deu quatro filhos: João Afonso, Afonso Teles, Martim Afonso e Maria Afonso. Foi avó do primeiro conde de Barcelos e trisavó de D. Leonor Teles, a mulher do rei Fernando I. Morreu em 1230. Quanto a D. Constança Sanches, nasceu em Coimbra, cerca de 1204. Foi criada por Justa Dias e, quando perfez 20 anos, professou no Mosteiro das Donas de São João, em Coimbra. Contemplada com sete mil morabitinos no testamento de seu pai (1210), adquiriu muitos bens em Torres Vedras e, sobretudo, na vila e termo de Alenquer. Além disso, herdou de sua mãe. Foi grande benfeitora de várias ordens religiosas, a quem deixou chorudos legados ao morrer. O Mosteiro de Grijó ganhou particularmente com a sua generosidade: num documento datado de Abril de 1263, D. Constança fez-lhe muitas mercês, impondo, no entanto, algumas condições, entre as quais que ali fosse rezada uma missa de aniversário, cada ano, pela sua alma; e que uma missa de aniversário fosse rezada também por alma de seu irmão, Rodrigo Sanches, devendo além disso manter-se uma lâmpada acesa diante do altar de Santa Maria.
D. Constança Sanches, dona muito nobre e de muito grande santidade e virtudes, e toda perfeita em virgindade e em fazer esmola aos pobres, faleceu em 1269. E dela se diz (diz pelo menos António Caetano Sousa) que mereceu aparecer-lhe São Francisco e Santo António, certificando-a da sua salvação». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

domingo, 16 de março de 2014

Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «’Martim Sanches’, esse, é considerado “o mais notável dos bastardos de Sancho I”. Homem de grandes e elevados espíritos, teve papel de grande destaque na guerra que se travou entre o rei Afonso II, seu irmão, e o partido senhorial…»


jdact e cortesia de wikipedia

Os Bastardos de Borgonha
«(…) Certo é, que, tendo saído de Portugal, Fernando Afonso foi mestre da Ordem do Hospital na Hispânia, pelo menos a partir de 1198, e depois eleito grão-mestre em 1202, eventualmente em virtude da influência que sua meia-irmã, a condessa Matilde da Flandres, exercia junto do papa Inocêncio III. Tomou parte na 4.ª Cruzada (1202-1204), que, como se sabe, desviou o seu objectivo para conquistar Constantinopla, em vez de se dirigir à Terra Santa. Em 1204 estava em Acre e, no ano seguinte, recebeu uma doação de Balduíno, imperador de Constantinopla. Em 1206 renunciou ao seu cargo e regressou a Portugal, onde, diz a Chronica magistrorum defunctorurn, foi envenenado pela sua gente. O Livro Velho de Linhagens, esse, assegura que Fernando Afonso, ou só Afonso, foi morto em Évora pelos cavaleiros de Santiago, num contexto que parece quase de guerra civil. Sepultado na Igreja de S. João de Alporão, em Santarém, o seu epitáfio diz que morreu em Março de 1207, o que concorda com uma informação do Chronicon conimbricense com poucos dias de diferença. Mas com a morte e sepultura de Fernando Afonso não fica encerrada a história dos primeiros bastardos reais de Portugal. Ainda que Afonso e Fernando Afonso, os dois bastardos referidos por António Caetano Sousa na sua História Genealógica, tenham sido uma e a mesma pessoa, vários são os historiadores, genealogistas e biógrafos do rei Fundador que sustentam ter ele tido, de facto, fora do seu casamento, dois filhos varões. Pelo menos.
Frei António Brandão assegura na Monarquia Lusitana que este segundo bastardo de Afonso Henriques ter-se-á chamado Pedro Afonso, estando a sua existência comprovada por uma doação. que ele próprio fez a Fernando, abade de Alcobaça, e ao seu convento de certa quinta no termo da vila de Tomar. José Mattoso concorda com o autor da Monarquia Lusitana em que se chamou Pedro Afonso o outro bastardo do primeiro rei. Mas afirma também que foi senhor de Arega e Pedrógão, lugares a que deu foral em 1201 e 1206. Trata-se decerto do mesmo Pedro Afonso que foi alcaide de Abrantes em 1179 e alferes do rei entre 1181 e 1183. Este último cargo continuou a exercer no reinado de seu irmão, o rei Sancho I, de quem foi um fiel e dedicado servidor. Terá participado na conquista de Silves. E o rei Sancho designou-o por seu testamenteiro. Do segundo bastardo de Afonso Henriques não há muito mais que se possa dizer. Dos bastardos de Afonso Henriques, só D. Urraca Afonso terá casado, com Pedro Afonso Viegas, um neto de Egas Moniz que foi tenente de Trancoso e Neiva. Desse casamento nasceram três filhos, um rapaz e duas raparigas. Uma delas, D. Sancha Peres de Lumiares, teve copiosa e muito ilustre descendência em Espanha. É por ela que descendem do primeiro rei de Portugal a duquesa de Alba, o duque de Feria, Rafael Medina (filho de Nati Abascal), o marquês de Griñon e o marquês de Cubas, entre muitos outros.

Os oito enteados da Rainha Doce
Sancho I, o Povoador, nascido em 1154, casou em 1175 com D. Dulce (ou Aldonça ou, simplesmente, Doce), que era filha do conde de Barcelona e da rainha de Aragão e podia ser, mas não há a certeza de que fosse, viúva de Armengal, conde de Urgel. Desse casamento nasceram nada menos do que 11 filhos:
  • Afonso, que sucedeu a seu pai;
  • Pedro, que foi conde de Urgel e teve dois bastardos, Rodrigo, eminente em letras, e Fernando Pedro de Portugal, de quem não há mais notícias;
  • Fernando, que foi conde da Flandres;
  • Henrique e Raimundo, que morreram meninos;
  • D. Teresa, beatificada pela Igreja, que foi rainha de Leão;
  • D. Mafalda, também beata, que foi rainha de Castela;
  • D. Sancha, senhora de Alenquer, que foi freira no Mosteiro de Celas e a Igreja igualmente beatificou;
  • D. Branca, senhora de Guadalajara, em Espanha;
  • D. Berenguela, ou Berengária, que foi rainha da Dinamarca, onde não deixou saudades mas deixou uma descendência que expandiu o sangue de Portugal por essa Europa fora; D. Constança, que morreu solteira, aos 20 anos de idade.
Esta numerosa prole de filhos legítimos não impediu o Povoador de ter vários bastardos, mais exactamente: oito, que Sancho há-de ter estimado mas nunca confundiu com os filhos nascidos do seu casamento, como se prova pelo seu testamento. Com efeito, enquanto aos filhos legítimos deixa, a todos igualmente, a quantia de 40.000 morabitinos, tal como faz às filhas, acrescentando ainda propriedades e mais 200 marcos de prata, aos ilegítimos destina apenas 8.000 aos varões e 6.000 às mulheres. Dois deles, Martim Sanches e D. Urraca Sanches, nasceram da relação do monarca com D. Maria Aires de Fornelos, nobili pulchra concubina que foi filhada, por Sancho ainda em vida da doce e discreta D. Dulce. Talvez por isso o autor da Crónica Breve do Arquivo Nacional tivesse escrito que a mãe destes bastardos era uma dona de que se nom pode saber o nome. Terminada a relação, o rei tratou de casá-la com Gil Vasques de Soverosa, um dos fidalgos mais poderosos de Além-Douro.
D. Urraca Sanches foi criada com o irmão em Ponte de Lima e casou com Lourenço Soares, tenente de Lamego e Viseu. Este era neto de Egas Moniz mas também de D. Urraca Henriques, irmã do primeiro rei de Portugal e, portanto, tia-avó de D. Urraca Sanches. Estava viúva em 1220 e ainda vivia em 1256. Mas não deixou descendência. Martim Sanches, esse, é considerado o mais notável dos bastardos de Sancho I. Homem de grandes e elevados espíritos, teve papel de grande destaque na guerra que se travou entre o rei Afonso II, seu irmão, e o partido senhorial, que Estêvão Soares Silva, o arcebispo de Braga, encabeçava e onde Martim Sanches também militava. Após a morte de Sancho I, de quem tinha recebido dinheiro e bens na região de Guimarães, Martim sentiu-se agravado por Afonso II e, saindo de Portugal, tornou-se vassalo do rei de Leão, Afonso IX, que era, aliás, seu primo co-irmão, por ser filho da infanta D. Urraca, irmã de Sancho. Foi nomeado adiantado-régio nos reinos de Leão e Castela. E nessa qualidade interveio em Portugal nos conflitos que opuseram Afonso II às infantas suas irmãs, que irmãs também eram de Martim Sanches, e, depois, ao arcebispo de Braga. Estêvão Soares Silva sofreu as represálias do rei pelas posições que contra ele tinha tomado, incluindo a sua excomunhão, que o papa Honório III confirmou. Essas represálias foram exercidas sobre os bens que o arcebispo possuía em Braga e Coimbra, mas também no território galego de Límia. Ora, deste território era governador Martim Sanches, que pegou em armas e dirigiu-se para Ponte de Lima, onde Afonso II então se encontrava.
Este retirou-se para o Castelo de Gaia, confiando a defesa do território a Mendo Gonçalves Sousa, João Pires Maia e Gil Vasques Soverosa. Os portugueses foram derrotados e tiveram de se retirar para Braga e Guimarães, enquanto os galegos devastavam a região. Depois de humilhar o rei de Portugal, Martim Sanches foi muito favorecido pelo rei de Leão, que lhe deu quatro condados, incluindo o de Trastâmara. Casado com D. Eulália Perez de Castro, não teve semel, querendo dizer semente ou geração». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sancho I. Peregrino e devoto de S. Senhorinha de Basto. Geraldo Coelho Dias. «… foi levado por Egas Moniz em peregrinação à ermida de Santa Maria de Cárquere, Resende, onde foi salvo, por milagre de Nossa Senhora, do aleijão com que nasceu?»

Cortesia de wikipedia

«Todos sabemos que, para os reis cristãos da Idade Média, por mais pecadores e violentos que fossem, a religião fazia parte da sua vida e eles não tinham vergonha de a manifestar em público. Não precisavam de se declarar católicos quando andavam pelo reino, em corte aberta, a administrar justiça, a passar correição às suas gentes ou a fazer inquirições sobre os seus reguengos. A Idade Média era tempo de muitas carências ao nível da vida real e de muito atraso cultural; a ciência médica ainda não conseguira resolver banais problemas de saúde ou vencer doenças mais ou menos naturais. Por isso, Deus e os seus Santos, mesmo para os reis, eram sempre o recurso mais imediato e os grandes protectores para os males do corpo e do espírito. Afinal, os reis também sentiam a sua fraqueza natural e, por isso, não deixavam de rezar por si e pelos seus. Para isso faziam peregrinações à Tera Santa, a Santiago de Compostela e a outros lugares santos espalhados pela cristandade. Dentro dos seus reinos, não raras vezes, aproveitavam as suas viagens de governação para visitar os santuários mais famosos e invocar os santos mediadores, que a devoção do seu povo sentia próximos e chegados ao mundo dos homens, particulares advogados para coisas ruins e males desconhecidos. Na doença e nos infortúnios da vida, todos os mortais eram iguais. Não foi assim que Afonso Henriques, o pai da pátria portuguesa, foi levado por Egas Moniz em peregrinação à ermida de Santa Maria de Cárquere, Resende, onde foi salvo, por milagre de Nossa Senhora, do aleijão com que nasceu? Ora, tal pai, tal filho. Que admira, que também seu filho, Sancho I, lhe seguisse o exemplo, quando a desgraça lhe bateu à porta e pôs seu filho, futuro Afonso II, o Gordo, em grave perigo de vida?
Foi exactamente isso que aconteceu, naquele distante 29 de Maio de 1200, conforme reza a pública-forma duma carta de couto passada em Braga pelo tabelião João Fortes, a 10/XII/1278, transcrita depois no Liber Fidei da Sé de Braga e a cujo conteúdo faz referência frei António Brandão na Monarquia Lusitana, parte IV, Livro 12, capítulo 27. Andava o rei em visita pelas úberes mas ermadas terras de Basto, então chefiadas pelo nobre Gonçalo Mendes, da nobre linhagem dos Sousões. Tinha visitado e pousado, com certeza, no célebre mosteiro beneditino de S. Miguel de Refojos de Basto e, ali, teria exposto aos monges a sua apreensão e desolação, face a uma esquisita doença (lepra?) de seu filho e herdeiro, que viria a ser o nosso rei Afonso II, o Gordo (1185-1223). Nessa altura o príncipe herdeiro teria cinco anos de idade. Aos monges teria, então, o aflito e preocupado progenitor ouvido falar da poderosa intercessão e dos extraordinários milagres de Santa Senhorinha. A igreja da Santa era ali bem pertinho e os religiosos, qua assistiam espiritualmente a igreja da Santa, para lá encaminharam o atribulado pai e impotente rei.
Conforme o próprio monarca narra, em estilo directo, na primeira pessoa, lá se dirigiu a fim de rezar, causa orationis, junto do túmulo da gloriosa Virgem, Santa Senhorinha. Não teve respeitos humanos e, diante dos presentes, com gemidos e suspiros, gemitibus et suspiriis, impetrou a saúde para seu filho Afonso, fazendo a promessa de criar à volta da igreja um couto de protecção, que ele próprio percorreu a pé, mandando que Gonçalo Mendes, senhor da terra, levantasse as pedras de coutação. O documento é autêntico e vem reproduzido entre os documentos de Sancho I». In Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, Peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. XIII, Porto, 1996.

Cortesia da FLUP/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «…temos notícias dessa preocupação quando os duques transferem a residência do castelo de Vila Viçosa para o recém-constituído paço do Reguengo, onde na sala do despacho os escrivães faziam seus registos, como, por exemplo, os das Mercês»

Cortesia de casarealportuguesa

De Chaves a Vila Viçosa e Lisboa. As primeiras Chancelarias.
«Chaves, residência do 1º duque terá sido, naturalmente, a sede do incipiente cartório brigantino. Com D. Afonso, como na mão dos seus sucessores, andariam os papéis indispensáveis ao funcionamento da grande Casa que já era a sua. Nascia com ela o arquivo administrativo; organizá-lo-iam, tão funcional quanto possível, os escrivães da Casa.

Pergaminhos como a escritura da compra da Quinta de Gestaçô, que D. Afonso, ainda conde de Barcelos, fez em 1422. Out.30, quatro anos antes de negociar com o cabido de Santiago o extenso couto da Correlhã, chegaram até nós. Seguindo dentro de velhos arcazes os sucessivos percursos residenciais dos senhores da Casa, de Chaves para Barcelos, Guimarães, Ourém, Vila Viçosa e Lisboa. Quantos se perderam pelo caminho, quantos sofreram o desgaste do manuseamento, quantos devorou a labareda dos incêndios ou da incúria dos homens?

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

A medida que o tempo avança e o património ducal vai engrossando, crescendo o volume documental impõe-se a organização do cartório. Temos notícias dessa preocupação quando os duques transferem a residência do castelo de Vila Viçosa para o recém-constituído paço do Reguengo, onde na sala do despacho os escrivães faziam seus registos, como, por exemplo, os das Mercês.

O século XV é o período mais animado das grandes doações concedidas aos Senhores da Casa de Bragança. Aos chamados bens dotais, que derivam da liberalidade de D. João I e do Condestável, acrescentam-se os bens adquiridos. Instituem-se os morgados e as capelas, escrituram-se foros e arrendamentos. Do Minho e Trás-os-Montes até ao Alentejo, quase a raiar terras algarvias, o património da poderosa Casa de Bragança impõe a necessidade da criação de uma chancelaria própria com seus espaços e seus funcionários.
Admitimos, pois, que tais serviços se tivessem iniciado ainda no séc. XV, embora só no século seguinte tal se possa provar documentalmente. Assim, desde D. Teodósio I e de seu filho D. João I, em Vila Viçosa, provavelmente ainda em parte no Castelo, terá funcionado um arquivo dos papéis da Casa Ducal. Por seu lado, criadas que foram as comarcas brigantinas de Barcelos, Bragança, Ourém e Vila Viçosa com suas ouvidorias; nestas localidades constituem-se cartórios particulares onde vão ficando guardados os documentos que a seu despacho dizem respeito e que só virão à mão do duque quando se justifica.


Cortesia de geocaching e ppmbraga

Aos ouvidores do duque já se referem cartas régias de D. João III. O privilégio de dispor a Sereníssima casa de chancelaria própria vem detrás, referem-se-lhe documentos de 1583 de D. Teodósio II, é lhe atribuído e confirmado por Filipe 3º, respectivamente em 1617.Out.02 e 1638.Mai.31.

Os livros de registo de Mercês, conhecem-se os três do ducado de D. Teodósio II, de cuja elaboração foi encarregado o Lic. Arcádio de Andrade, ouvidor do Duque, e algumas peças soltas de datas anteriores vêm demonstrar que, por existirem serviços de chancelaria privada, do mesmo modo existiria organizado um arquivo documental. O contacto com a documentação que chegou até nós prova-nos que foi com D. João II, o futuro rei Restaurador, que a chancelaria, o arquivo e a livraria da casa Ducal sofreram tratamento e organização mais conveniente. Os livros de registo de consultas da Fazenda e desse tempo, assim como a nomeação do Dr. André Cardoso Godinho como chanceler de sua Casa e de outros magistrados seus, o Dr. Gaspar Vaz de Sousa, por exemplo, desembargador, em datas que se localizam entre 1630 e 1632, e ainda alvarás, consultas, pareceres e despachos da sua gestão administrativa, são mais provas de um trabalho de registo e arquivo organizado.
Na «História Genealógica da Casa Real Portuguesa» é igualmente frequente, como sabemos, a referência ao velho arquivo da Casa de Bragança, com transcrição nas «Provas» de documentos diversos, alguns mesmo mais tarde desaparecidos, sobreviventes outros apenas em certidões do arquivo reorganizado na chancelaria da Casa que hoje felizmente podemos consultar.

A consulta das «Provas» permitem-nos concluir de uma arrumação mínima que o Arquivo já trazia de trás, anteriormente às buscas para a publicação da «História Genealógica» iniciada em 1735». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

(Continua)
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

domingo, 14 de agosto de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «Os originais de todos os papéis que historiam a função e a sobrevivência da Casa Ducal guardavam-se no arquivo real, na Torre do Tombo, com registo ou cópia na mão dos senhores da Casa. Arquivo da Casa de Bragança e arquivo do Estado durante séculos coabitaram nas mesmas instalações oficiais»

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

«Não obstante o seu valioso recheio, que abrange variados núcleos de documentação desde o século XV ao nosso tempo, o Arquivo da Casa de Bragança é ainda pouco conhecido dos historiadores nacionais e estrangeiros. Trata-se de um cartório particular que se tem mantido no Paço Ducal de Vila Viçosa, à guarda da ilustre Fundação que zela pelo seu património. Tal circunstância explica, em grande parte, o recolhimento que tem envolvido tão importante acervo documental, apenas referido por um ou outro investigador que beneficiou da sua consulta.
A publicação de «O Arquivo Histórico da Casa de Bragança» afirma-se, pois, do maior interesse para a cultura portuguesa, pelos dados informativos que a obra revela. Além de uma história breve desse cartório, o leitor toma ainda conhecimento da sua génese e das várias reformas da sua organização. Torna-se assim possível acompanhar a evolução histórica do mencionado Arquivo, bem como a formção dos seus actuais núcleos históricos.
Arquivista da Fundação da Casa de Bragança, o que lhe tem permitido um contacto directo com esses fundos de documentação, o Dr. Manuel Inácio Pestana elaborou com a costumada mestria o presente volume. E mais uma obra que enriquece a sua já extensa bibliografia sobre a multissecular história da Casa Ducal.

Investigador dotado, mereceu ser eleito, em 30 de Junho de 1989, membro Correspondente da Academia Portuguesa da História, a que tem dado o melhor do seu talento e dedicação, com algumas comunicações hauridas no importante fundo brigantino.

Cortesia de marcasdascienciasfcul

Objectivos.
Um arquivo é lugar de pesquisa e um campo de trabalho, um repositório de instrumentos de investigação, um registo da memória dos povos e das nações. Espaço físico onde o tempo parou, onde muitos tempos, todos os tempos, se encontram, lugar onde a história se lê, onde a história se constrói e reconstrói a todo o momento; um arquivo vive também a sua própria história, uma história que raramente é contada. O quanto, o como e o porquê da existência de um arquivo passa muitas vezes ao lado do historiador. Os arquivos, os antigos cartórios documentais, são assim comparáveis aos servidores de quem precisa, e, por quem precisa, imediatamente esquecidos. Fica-se pela citação das fontes, o que também nem sempÍe acontecia, que hoje felizmente é norma da técnica heurística e da ética hermenêutica.

Arquivos de Estado ou de casas particulares, classificados nesta ou naquela categoria segundo a natureza e o predomínio dos seus materiais, os arquivos podem, eles mesmos, contar a sua própria história. E isto que nos propomos fazer: proporcionar o encontro com um antigo e valioso cartório que em fontes documentais próprias se inspira para justificar historicamente e explicar documentalmente a sua existência.
Queremos referir-nos ao arquivo histórico da antiga casa senhorial dos Duques de Bragança, da qual pretendemos evocar as suas origens, as suas glórias e desventuras, evidenciar a quantidade e a qualidade das suas reservas documentais e falar da sua utilidade e funcionalidade no passado, no presente e, evidentemente, no futuro, ao serviço da historiografia portuguesa.
Cortesia de antoniogranjo

Génese do Cartório.
Com origem no casamento do filho bastardo de D. João I com D. Brites Pereira e nas doações e escambos de bens que o antecederam ou lhe sucederam, poderemos dizer que este arquivo existe, isto é, começou a construir-se, não exactamente e apenas no momento da fundação do ducado de Bragança (1422. Maio) mas em data mais remota. Se quiséssemos identificar o seu documento mais antigo - e servindo-nos já das suas próprias fontes - recuaríamos até 1208. Fevereiro.17, data da confirmação por D. Sancho I do foral de Barcelos, concedido por D. Afonso Henriques, seguido de idêntico pergaminho da vila de Rebordãos de 1208. Novembro, terras que, como tantas outras de Entre-Douro-e-Minho e de Trás-os-Montes, vieram a integrar os vastos domínios da futura casa dos duques de Bragança - documentos estes, que, tal como muitos outros dos sécs. XIII, XIV e XV, constam hoje do conjunto de apógrafos setecentistas da chamada Reforma do Cartório, cujos traslados da Torre do Tombo, ordenados por D. José I em 1756 para comprovação dos direitos e privilégios da Casa de Bragança, demonstram e justificam a génese remota do velho arquivo.

Os originais de todos os papéis que historiam a função e a sobrevivência da Casa Ducal guardavam-se no arquivo real, na Torre do Tombo, com registo ou cópia na mão dos senhores da Casa. Arquivo da Casa de Bragança e arquivo do Estado durante séculos coabitaram nas mesmas instalações oficiais. Provam-no documentos que historiam, por exemplo, os incêndios sofridos em diversas data. Instalações e cartórios comuns, organização e funcionamento, portanto, em comum. Acidentes, percalços, vicissitudes, incêndios e destruição também em comum». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

(Continua)
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Óbidos. Castelo: Parte I. «Um ideal cenográfico de Idade Média foi tão efectivo, razão da aparente atemporalidade das ruas do conjunto intra-muralhas, que, na sua sinuosidade, nas suas fachadas brancas e no vislumbre das inventadas ameias, nos transportam para um tempo mítico de um Portugal em formação»


Cortesia de IGESPAR 

«Há uma relação de afectividade neo-romântica para quem visita a vila de Óbidos. Serão poucos os casos no país onde a busca deliberada de um ideal cenográfico de Idade Média foi tão efectivo, razão da aparente atemporalidade das ruas do conjunto intra-muralhas, que, na sua sinuosidade, nas suas fachadas brancas e no vislumbre das inventadas ameias, nos transportam para um tempo mítico de um Portugal em formação.

São ainda obscuras as origens da fortaleza. Ao que tudo indica, a sua posição dominante em relação à extensa lagoa a ocidente, favoreceu a instalação de um primitivo reduto fortificado de origem romana. A Alta Idade Média não deixou vestígios aparentes da sua presença, e será, apenas, na viragem para o século XII que Óbidos voltará a merecer referências documentais precisas. No mesmo impulso expansionista que levou as fronteiras de Portugal até à linha do Tejo, em 1147, a vila passou para a posse de D. Afonso Henriques, ficando para a posteridade uma tradição de tenaz resistência por parte dos muçulmanos (PEREIRA, 1988, pp.19-21). Anos mais tarde, na sequência das investidas almóadas de final do século, coube a D. Sancho I reconquistar a localidade, dotando-a, então, de condições mais efectivas de povoamento e de organização.

Cortesia de IGESPAR 
O ano de 1210 é uma das datas mais marcantes da vila. Nesse ano, foi doada às rainhas, passando a figurar como uma importante localidade da casa das soberanas nacionais. Com presença assídua dos casais régios ao longo das Idades Média e Moderna, Óbidos floresceu e foi sucessivamente enriquecida por obras de arte. O mecenato artístico patrocinado por D. Leonor (século XV) e, especialmente, por D. Catarina (século XVI), marca, ainda hoje, a paisagem arquitectónica da vila.

O castelo e as muralhas de Óbidos evocam a importância da localidade na Baixa Idade Média. Apesar de, em grande parte, serem obra inventiva do século XX, asseguram a todos os que se dirigem à vila a identidade daquele passado emblemático. Desconhecemos a configuração do perímetro amuralhado inicial, contemporâneo da acção dos nossos primeiros monarcas. A torre do Facho, no limite Sul das muralhas e ocupando um pequeno monte, tem vindo a ser atribuída à reforma de D. Sancho I, mas a verdade é que os vestígios materiais inviabilizam uma análise mais pormenorizada. A ser assim, a ligação deste espaço ao monte do castelo ter-se-á dado logo no século XII.

Cortesia de IGESPAR
Mais consensual é a expansão urbana verificada na viragem para o século XIV. Com D. Dinis, Óbidos cresceu para fora das muralhas, ocupando o espaço em torno da igreja de São Pedro (SILVA, 1994, p.23). Paralelamente, deu-se a reforma do sistema defensivo, e consequente actualização do dispositivo militar, campanha que deverá ter conferido a actual configuração ao perímetro amuralhado. Anos mais tarde, D. Fernando terá patrocinado novas obras, tendo a torre de menagem ainda o seu nome.

Dividido em 2 zonas essenciais (o castelejo, onde séculos mais tarde se instalou a Pousada, e o bairro intra-muros), a cerca define um perímetro bastante irregular, de feição rectangular e não oval, como seria mais frequente na castelologia gótica nacional. Entre o castelo propriamente dito (a Norte) e a Porta da Vila (a Sul), a Rua Direita estabelece a comunicação e aparece como o eixo de circulação privilegiado dentro da vila. Sensivelmente a meio, a Praça de Santa Maria é o principal largo do conjunto, ocupando um espaço quadrangular que corresponde ao adro da igreja tutelar da vila.

Cortesia de IGESPAR 
A reinvenção do castelo deu-se na década de 30 do século XX. Por acção da DGEMN, que visava reverter o conjunto à sua imagem medieval, todos os parapeitos foram dotados de ameias, assim como se reedificaram torres e troços que, entretanto, haviam sido destruídos. No final dos anos 40, construiu-se a pousada, no local do antigo paço, e toda a vila foi dotada de uma homogeneidade estética que passou pelo revestimento de cal das fachadas e pelo pavimento uniforme de todas as ruas». In IGESPAR, PAF.

Cortesia de IGESPAR/JDACT

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Doação de Guidintesta: O Castelo de Belver. Parte I

Cortesia de br.olhares
O Castelo de Belver tem na sua génese a concorrência de todo um conjunto de circunstâncias, que em si constituem o suporte da luta que os nossos primeiros monarcas encetaram pela consolidação da Independência e expansão do território português, no sentido do sul muçulmano. O movimento da «reconquista cristã» na Península Ibérica, inserido no quadro do desenvolvimento e expansão da Europa dos séculos XII e XIII (as Cruzadas), está na origem da fundação do reino de Portugal, cujo território, constituído na luta antimuçulmana para sul, até à conquista do Algarve por Afonso III, que marcaria o fim de praticamente cinco séculos de domínio árabe em território hoje português. A outra frente desta mesma luta pela autonomia, situou-se no eixo oriental, contra as quase constantes ambições de absorção de Portugal por parte dos reinos vizinhos de Leão e Castela, que iam mantendo vivo o velho ideal da unificação cristã peninsular.

Afonso Henriques, Sancho I, Afonso II, Sancho II, e Afonso III, são os monarcas que conduzem o processo de expansão e consolidação territorial, que se caracteriza essencialmente pelo primado da mobilização da máquina de guerra, em constante actividade, ora avançado para o sul, ora recuando, ao longo das linhas naturais que arduamente se defendiam. Fortificar, colonizar, seriam os vectores da política real, a melhorar a defesa seria a ocupação do solo por uma população estável, que a qualquer momento pudesse acorrer em sua defesa. Afonso Henriques havia conseguido notáveis progressos no avanço cristão em direcção ao sul, mas a ausência de uma política real de colonização tornou frágeis as possibilidades de defesa das praças conquistadas, nomeadamente no Alentejo. Assim sendo, a ofensiva árabe desencadeada por Iacub Al Mansur em 1190, fez recuar a presença cristã em solo alentejano até à linha do Tejo, com excepção de Évora.

Essencialmente a preocupação de Sancho I no aspecto militar é consolidar o território cristão ao longo da linha do Tejo, dando-lhe possibilidades de defesa e, por isso mesmo, promovendo o seu povoamento progressivo. Na zona compreendida entre Santarém, Abrantes e Vila Velha de Rodão, ao longo do Tejo, vão-se desencadear diversas acções de povoamento e fortificação, cabendo à zona hoje ocupada por Belver, um papel essencial na defesa do referido eixo.
Tal tarefa é atribuída pelo rei à Ordem Militar do Hospital, a quem faz a doação da zona chamada de Guidintesta, que se estendia pelas suas margens do rio Tejo, denominada estrategicamente pelo ponto onde Sancho I manda erguer o Castelo de Belver. A Carta de Sancho I em 13/06/1194) explica:
  • ...«Vobis clomno Alfonso Pelagii Hospitalis... terra que vocatur Guidintesta, in qua concedimus vobis ut faciatis castellum cui imponimus nomen Belver».
Iniciado logo a seguir à doação do rei, Afonso Pais, prior da Ordem dos Hospitalários, o castelo estaria concluído em 1212, passando a funcionar como Casa-Mãe daquela Ordem Militar, substituindo assim a anterior sede situada no Mosteiro de Leça. Segundo o testamento de Sancho I, citado na crónica de Rui de Pina, ficaria à guarda do prior do Hospital, na fortaleza de Belver, uma parte importante dos 500.000 maravedis de ouro e dos 1.400 marcos de prata destinados àquela Ordem, bem como as esmolas que o testamento previra.

Cortesia da CMBelver
Segundo os historiadores, Belver teria funcionado como Casa-Mãe dos Hospitalários durante praticamente um século, até que em 1350 a sede muda para o Crato, por determinação de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que era então o prior daquela Ordem. Em 1390, D. Nuno Álvares Pereira, chefe militar do rei D. João I, encarregou-se da ampliação e melhoramento do Castelo de Belver, sendo a traça destas obras aquela que permaneceu até aos nossos dias, em que se procedeu ao restauro completo deste monumento por parte da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nos anos 40.


Cortesia da CMBelver
Para fazer história deste Castelo, poder-se-á partir de três vectores fundamentais que determinaram a sua funcionalidade no tempo. Assim:
  • Em primeiro lugar, o Castelo de Belver encontra-se ligado ao sistema político-militar próprio do período inicial da História de Portugal, caracterizado pela conquista do território aos muçulmanos e implantação de sistemas defensivos nas zonas geograficamente estratégicas, de modo a consolidar pela defesa e pelo povoamento, o progressivo avanço do território português em direcção ao sul algarvio. A construção e a primeira fase da vida de Belver teriam estas características, que fundamentalmente dependiam do governo da Ordem Militar dos Cavaleiros do Hospital, que tal como as outras ordens religiosas militares se enquadra no espírito da reconquista e da cruzada próprios dos séculos XII e XIII;
  • Em segundo lugar ou o segundo vector que determina a História deste monumento incide já nos finais do século XIV, em que uma vêz estabelecidas as fronteiras definitivas do território português e dominado o perigo muçulmano, se torna necessário garantir a defesa do território face a Castela, sendo essa intenção de Nuno Álvares Pereira quando, em 1390, desencadeia as obras de melhoramentos no perímetro do Castelo. A guerra com Castela, iniciada em 1383, que levaria D. João I ao trono de Portugal por oposição nacional às ambições do rei de Castela, teria o seu lance decisivo na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385, mas no entanto, até que a paz fosse assinada em 1411, foi preocupação do rei e do ajudante do campo garantir ao máximo a estabilidade das fronteiras luso-castelhanas, fortalecendo e melhorando o seu sistema defensivo, como será o caso do Castelo de Belver em 1390;
  • Finalmente, com o passar do tempo, o Castelo foi perdendo a função de centro vital na vida política nacional. Tal como no resto do país, a vida urbana viria a impor-se, a guerra ganharia novas facetas do ponto de vista táctico, alterando-se o terreno e os meios a pelejar. O Castelo de Belver terá sido palco, ainda no século XV, de disputas relacionadas com a política interna, como é o caso do confronto entre Afonso V e o regente D. Pedro.
No século XIV supõe-se que terá de algum modo tomado parte da resistência à ocupação filipina, ao lado de D. António que era o Prior do Crato. Daí em diante, o Castelo foi sendo progressivamente esquecido, até que nos nossos dias, em 1942, a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais procedeu ao restauro dos estragos que lhe causou o seu último e pior inimigo: o tempo.
Merece especial referência neste conjunto monumental, e dentro do seu perímetro, a Capela de S. Brás, erguida perto da torre que defende a fachada norte do castelo, sempre preservada devido ao carinho com que a população sempre a tratou. De estrutura arquitectónica modesta e de pequenas proporções, a Capela de S. Brás tem como principal atractivo o seu belo retábulo do século XVI, construído com a finalidade de abrigar as relíquias que se encontram distribuídas pelos vinte e quatro nichos. este conjunto de talha profusamente trabalhado, de influência nitidamente renascentista é, sem dúvida, um dos mais valiosos que se encontram nas igrejas portuguesas, quer pelo seu valor histórico como pelo seu elevado sentido estético.


Cortesia de castelosdeportugal
Cortesia da CMBelver/JDACT

quinta-feira, 29 de abril de 2010

José Fraústo Basso: O concelho de Nisa na doação da Açafa (Fins do século XII)

Cortesia A Cidade
Nº 1 (Nova Série)/Janeiro a Junho de 1988

Com a devida vénia para a revista A Cidade (Jan-Jun de 1988). Homenagem a José Fraústo Basso.
«Este artigo foi-nos confiado por Fernando Portugal, através do Dr. Brás de Oliveira, Director da Área de Espólios da Biblioteca Nacional, algumas semanas antes do falecimento do autor. A sua inserção nas páginas desta revista é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao Dr. José Fraústo Basso, que foi um amigo e colaborador de A Cidade na sua 1." série.
José Augusto Fraústo Basso nasceu em Nisa a 22 de Agosto de 1901, e ali morreu a 7 de Setembro de 1987. Era filho de Júlìo da Graça Marques Basso e de Maria Augusta Fraústo Basso. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia na sua terra natal onde foi também notário. Ocupou diversos cargos públicos de relevo, com destaque para o de Procurador à Câmara Corporativa (1934), Presidente da câmara Municipal de Nisa (de 1932 a 1942, e novamente a partir de 1948), e Presidente do Grémio da Lavoura da mesma vila. Grande amigo das misericórdias, foi, durante 50 anos, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Nisa. Desempenhou ainda os cargos de Presidente da União Geral das Misericórdias Portuguesas e Vice-secretário da Confederação Internacional das Santas Casas da Misericórdia (Portugal e Brasil). Era Comendador da Ordem de Benemerência. Estudioso da história e da arqueologia local, trabalhou com José Leite de Vasconcelos, Rui de Azevedo, Manuel Heleno, D. Fernando de Almeida, Vera e George Leìsner, publicando alguns trabalhos sobre temática regional em diversos jornais e revistas como O Distrito de Portalegre e A Cidade». In A Revista

Ao ler o livro de Carlos Tomás Cebola «Nisa, A outra História», edições Colibri/CM de Nisa, (2005, Julho) fiquei desejoso de conhecer todo o trabalho realizado pelo Dr. Basso. Apoiado pelas conversas amenas de JCM de Alpalhão e MP (exerceu medicina em Nisa) aqui apresento a minha singela homenagem ao notável nisense. Em breve, falarei sobre o Prof. Carlos Cebola e a investigação que desenvolveu sobre a Outra História de Nisa, que considero muito relevante. Estamos a falar de cidadãos nascidos numa vila que é Mui Notável desde o tempo de D. João I.
   
Em trabalho que, sob o pseudónimo de Zé Nisorro, publicámos em Agosto de 1981, abordámos ligeiramente os problemas da fundação de Nisa e da doação da Herdade de Açafa, efectuada em 1198, segundo uns, ou em 1199 segundo outros, pelo nosso rei D. Sancho I, em favor dos Templários e em troca das igrejas de Mogadouro e de Pedras Rubras. E nesse mesmo trabalho manifestámos o desejo e o propósito de tratar, com maior e com o devido desenvolvimento, em futura oportunidade, o magno e polémico problema dos limites da referida doação da Açafa.
É isso que, volvidos mais de cinco anos, vamos agora tentar realizar, no propósito, porventura imodesto, de contribuir com o resultado do nosso estudo e das nossas investigações, para o esclarecimento e rectificação de um problema sobre o qual se têm debruçado eminentes mestres e historiadores. É que, na realidade, «não basta dizer uma coisa, nem que muitos a digam: é necessário ver os fundamentos com que escrevem», como disse Frei António Brandão na Crónica de D, Sancho I e de D. Afonso II.

Em boa verdade, vamos tentar remar contra a maré dos tempos e contra conclusões, historicamente consideradas incontroversas e irreversíveis, perfilhadas ou admitidas por gentes de muito saber. De resto, já no nosso anterior e aludido trabalho anunciámos, muito claramente, as conclusões que sobre a matéria perfilhamos e que, aliás, já são aceites por diversas entidades que, ultimamente, se têm debruçado sobre o mesmo problema. E para que, logo de início, fique bem expresso o nosso pensamento, repetiremos o que, naquele trabalho, dissemos; julgamos servir a verdade, sem deixar de admitir, evidentemente, que possamos estar errados e de, consequentemente, submeter à apreciação alheia a rectificação dos nossos pontos de vista.
Assim, em 1981., escrevemos:

«É que, segundo nos parece agora, em desacordo frontal com a hipótese que Alexandre Herculano admite e que a generalidade dos autores tem seguido, o tão falado castelo de Terrom (e não Ferron), em tais limites referido (alusão aos limites da doação da Açafa) não se situava nas cercanias da vila de Nisa, nem tampouco o mosteiro de Alpalante, a que na doação também se alude, se situava nas proximidades da actual povoação de Alpalhão, nem ainda Moha de Salor tem qualquer ligação com a ribeira de Nisa».

Não vamos aqui repetir tudo o que escrevemos em 1981,mas é certo que, para bem se compreender o assunto, convém relembrar alguns pontos essenciais já focados. E assim, recordamos o que o grande historiador Alexandre Herculano nos ensina: «Não é possível, apenas à luz dos documentos escritos, atribuir às modernas vilas do Alto Alentejo, uma origem anterior à fundação da Monarquia Portuguesa. No século XII eram contínuas, nessa região, as lutas entre cristãos e Sarracenos e eram constantes as incursões cristãs da Beira nas zonas situadas a sul do Tejo, como também o eram as penetrações dos mouros a norte desse rio. É, por isso, de concluir que, nesses tempos remotos, o Alto Alentejo se encontrava, em geral, despovoaclo e a ninguém, de facto pertencia o respectivo território».
Cortesia A Revista, 1988, nº 1 (Nova Série)/Carlos T. Cebola/José Fraústo Basso/JDACT