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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar. Luis Sepúlveda. «Kengah mergulhou a cabeça para agarrar o quarto arenque e por isso não ouviu o grasnido de alarme que estremeceu o ar: - Perigo a estibordo! Descolagem de emergência!»

jdact

Mar do Norte
«Banco de arenques a bombordo! - anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio. Iam com seis horas de voo sem interrupções e, embora as gaivotas-piloto as tivessem conduzido por correntes de ares cálidos que lhes haviam tornado agradável aquele planar sobre o oceano, sentiam a necessidade de recobrar forças, e para isso não havia nada melhor que um bom fartote de arenques. Voavam sobre a foz do rio Elba, no Mar do Norte. Viam lá do alto os barcos alinhados uns atrás dos outros, como pacientes e disciplinados animais aquáticos à espera de vez para saírem para o mar largo e ali orientarem os seus rumos para todos os portos do planeta. Kengah, uma gaivota de penas cor de prata, gostava especialmente de observar as bandeiras dos barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes. - As dificuldades que os humanos têm! Nós, gaivotas, ao menos grasnamos o mesmo em todo o mundo, comentou uma vez Kengah para uma das suas companheiras de voo. - Pois é. E o mais notável é que às vezes até conseguem entender-se, grasnou a outra.
Mais para além da linha de costa, a paisagem tornava-se de um verde intenso. Era um enorme prado em que se destacavam os rebanhos de ovelhas pastando ao abrigo dos diques e das preguiçosas velas dos moinhos de vento. Seguindo as instruções das gaivotas-piloto, o bando do Farol da Areia Vermelha tomou uma corrente de ar frio e lançou-se em voo picado sobre o cardume de arenques. Cento e vinte corpos perfuraram a água como setas e, ao regressar à superfície, cada gaivota segurava um arenque no bico. Saborosos arenques. Saborosos e gordos. Era mesmo do que precisavam para recuperar energias antes de continuarem o voo para Den Helder, onde se lhes juntaria o bando das ilhas Frísias.
No plano de voo estava previsto que seguiriam depois até ao estreito de Calais e ao canal da Mancha, onde seriam recebidas pelos bandos da baia do Sena e de Saint-Malo, com os quais voariam juntas até chegarem aos céus da Biscaia. Seriam então umas mil gaivotas que, como uma rápida nuvem cor de prata, iriam aumentando com a incorporação dos bandos de Belle-Ïle e de Oléron, dos cabos de Machicaco, do Ajo e de Peñas. Quando todas as gaivotas autorizadas pela lei do mar e dos ventos voassem sobre a Biscaia, poderia começar a grande convenção das gaivotas dos mares Báltico, do Norte e Atlântico.
Seria um belo encontro. Era nisso que Kengah pensava enquanto dava conta do seu terceiro arenque. Como todos os anos, iriam escutar-se interessantes histórias, especialmente as contadas pelas gaivotas do cabo de Peñas, infatigáveis viajantes que voavam às vezes até às ilhas Canárias ou às de Cabo Verde. As fêmeas como ela iriam entregar-se a grandes festins de sardinhas e lulas enquanto os machos instalariam os ninhos à beira de uma escarpa. Neles poriam os ovos, neles os chocariam a salvo de qualquer ameaça e, quando tivessem crescido às gaivotinhas as primeiras penas resistentes, chegaria a parte mais bela da viagem: ensinar-lhes a voar nos céus da Biscaia. Kengah mergulhou a cabeça para agarrar o quarto arenque e por isso não ouviu o grasnido de alarme que estremeceu o ar: - Perigo a estibordo! Descolagem de emergência! Quando Kengah tirou a cabeça da água viu-se sozinha na imensidade do oceano». In Luis Sepúlveda, Historia de Una Gaivota y del Gato que le Enseño a Volar, 1996, História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, Asa Editores, Pequenos Prazeres, Porto, 2002, ISBN 972-41-1848-7.

Cortesia de ASA/JDACT

sábado, 27 de março de 2010

Alexandre O'Neill: A Vanguarda e Constância

(1924-1986)
 Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.
Autodidacta, O'Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens «A Ampola Miraculosa», mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar».
Em 1951, no «Pequeno Aviso do Autor ao Leitor», inserido em Tempo de Fantasmas, Alexandre O'Neill demarcou-se como surrealista. A influência deste corrente manifesta-se em poemas como «Diálogos Falhados», «Inventário» ou «A Central das Frases» e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a «bicicleta» e a «máquina de costura».

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado).

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

A poesia de Alexandre O'Neill concilia uma atitude de vanguarda, (surrealismo e experiências próximas do concretismo), que se manifesta no carácter lúdico do jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos «inventários» surrealistas. Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira aos «donos» de Portugal, destruindo a imagem de um «proletariado heróico» criada pelo neorealismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.
Escolhas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo (bem patente no trabalho simbólico do rato em «O Poema Pouco Original do Medo» ou a revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental, revelador de um certo desespero perante o marasmo do país (meu remorso, meu remorso de todos nós). Este humor reflecte a própria organização social, pela integração nela operada do calão e da gíria.
Tinha uma atracção especial pelo fado, nascendo muitos poemas como «Gaivota», musicado por Alain Oulman para a voz de Amália Rodrigues. Foi crítico de televisão sob o pseudónimo de A. Jazente. Recebeu o prémio da Associação de Críticos Literários em 1982.



Cortesia de mjrscorreia
JDACT