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domingo, 19 de março de 2017

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «Uns poucos mostraram-se muito amistosos, talvez porque pensassem que Ka e Serdar bei eram candidatos e estavam trazendo-lhes latas de óleo de girassol…»

jdact e wikipedia

A nossa cidade é um lugar tranquilo
«(…) Que todos os recém-chegados, mesmo os jornalistas, devessem visitar a polícia, era um costume provinciano que remontava à década de 40. Como era um exilado político recém-chegado ao país depois de muitos anos de ausência e porque, embora ninguém tivesse tocado no assunto, sentira a presença dos guerrilheiros separatistas curdos (PKK) na cidade, Ka não fez objecção. Eles saíram para a neve, atravessando um mercado de frutas e passando pelas lojas de autopeças e ferragens da avenida Kâzim Karabekir, pelas casas de chá onde homens desempregados, deprimidos, olhavam a televisão e a neve caindo, e por lojas de laticínios que exibiam grandes queijos amarelos redondos; levaram quinze minutos para cruzar a cidade em diagonal. No caminho, Serdar bei parou para mostrar a Ka o lugar onde o ex-presidente fora assassinado. Conforme um boato, ele fora morto por causa de uma simples disputa municipal: a demolição de uma sacada ilegal. Capturaram o agressor três dias depois, na aldeia para onde tinha fugido; quando o encontraram escondido num celeiro, ele ainda estava com a arma. Mas houvera tanta bisbilhotice durante os três dias da sua captura que ninguém queria acreditar que ele era o verdadeiro culpado: a simplicidade da sua motivação desapontava. O quartel da polícia de Kars ocupava um comprido edifício de três andares na avenida Faikbey, onde as velhas construções de pedra, outrora pertencentes a russos e arménios abastados, agora, na sua maioria, sediavam órgãos do governo. Enquanto esperavam pelo subchefe de polícia, Serdar bei chamou a atenção para os altos tectos ornamentados e explicou que entre 1877 e 1918, durante a ocupação russa da cidade, aquela mansão com quarenta quartos fora, a princípio, a residência de um rico arménio, e depois, um hospital russo.
Kasim bei, o subchefe de polícia, veio com a sua barriga de cerveja recebê-los no corredor e os conduziu à sua sala. Ka logo percebeu que estavam diante de um homem que não lia jornais nacionais como o Republicano, pois os considerava de esquerda. Notou também que ele não ficou especialmente impressionado ao ver Serdar bei elogiar alguém simplesmente por ser poeta, mas que o temia e respeitava pelo facto de ser proprietário do principal jornal local. Depois que Serdar bei terminou de falar, o subchefe de polícia voltou-se para Ka. O senhor quer protecção? Como? Estou sugerindo apenas um policial à paisana. Para que fique tranquilo. Será que preciso mesmo disso?, perguntou Ka no tom inquieto de um homem cujo médico tivesse acabado de recomendar que passasse a usar uma bengala. Nossa cidade é um lugar tranquilo. Apanhamos todos os terroristas que estavam semeando a discórdia entre nós. Mas ainda assim eu recomendo que se faça isso, por via das dúvidas. Se Kars é um lugar tranquilo, eu não preciso de protecção, disse Ka. No íntimo ele esperava que o subchefe de polícia lhe garantisse novamente que Kars era um lugar tranquilo, mas Kasim bei não repetiu a afirmação.
Eles rumaram em direcção a norte, para Kalealti e Bayrampaşa, os bairros mais pobres. Ali os barracos eram feitos de pedra, tijolos e alumínio corrugado dos lados. Sob a neve que continuava a cair, foram andando de casa em casa: Serdar bei batia numa porta e, se uma mulher atendia, ele perguntava se podia falar com o homem da casa; quando Serdar bei o reconhecia, falava-lhe, num tom que inspirava confiança, que seu amigo, jornalista famoso, viajara de Istambul a Kars para escrever sobre as eleições e também para descobrir algo mais sobre a cidade, para escrever, por exemplo, sobre o porquê de tantas mulheres estarem suicidando-se, e se aqueles cidadãos pudessem dividir com ele suas preocupações, estariam fazendo uma boa coisa para Kars. Uns poucos mostraram-se muito amistosos, talvez porque pensassem que Ka e Serdar bei eram candidatos e estavam trazendo-lhes latas de óleo de girassol, caixas de sabão ou pacotes de biscoitos e de macarrão. Se eles resolviam convidar os dois homens para entrar por curiosidade ou simples hospitalidade, a primeira coisa que diziam a Ka era que não tivesse medo dos cães. Alguns abriam as suas portas, temerosos, imaginando, depois de tantos anos de intimidação por parte da polícia, que se tratava de mais uma batida, e mesmo depois de perceberem que aqueles homens não eram do governo, mantinham-se em silêncio. Quanto às famílias das jovens que se tinham suicidado (em pouco tempo, Ka ouvira falar de seis casos), todas insistiam que as suas filhas não tinham dado previamente nenhum motivo para preocupação, deixando-os a todos horrorizados e consternados com o acontecido». In Orhan Pamuk, Neve, 2002, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2008, ISBN 978-972-233- 910-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «Não era a pobreza ou o desamparo que o perturbavam, mas o que ele haveria de ver inúmeras vezes durante os dias seguintes…»

jdact e wikipedia

A nossa cidade é um lugar tranquilo
«(…) Escondendo, como de costume, a sujeira, a lama e a escuridão, a neve continuaria a falar de pureza a Ka mas, depois do seu primeiro dia em Kars, já não lhe prometia inocência. A neve ali era tediosa, irritante, assustadora. Nevara a noite inteira. Continuou a nevar durante toda a manhã enquanto Ka percorria as ruas bancando o repórter intrépido, entrando nos cafés cheios de curdos desempregados, entrevistando eleitores, tomando notas e , ainda estava nevando mais tarde, quando ele subiu as ruas íngremes e geladas para entrevistar o ex-presidente, o vice-presidente e as famílias das moças que se tinham matado. Mas aquilo não o levava mais de volta às ruas cobertas de neve da sua infância; não o fazia mais pensar, como quando era criança ao olhar pelas janelas das sólidas casas de Nisantas, que estava contemplando a paisagem de um conto de fadas; ele não tinha mais voltado a um lugar onde podia desfrutar a vida de classe média de que sentia tanta falta que chegava a visitá-la em sonhos. Em vez disso, a neve lhe falava de desespero e de aflição.
Naquela manhã bem cedo, antes que a cidade acordasse, e antes de se deixar vencer pela neve, ele fez uma rápida caminhada, passando pelo bairro logo abaixo do Atatürk Boulevard, e tomou o rumo da região mais pobre de Kars, um bairro chamado Kalealti. As cenas que ele contemplou enquanto andava a passos rápidos sob os galhos cobertos de gelo dos plátanos silvestres e dos oleandros, os velhos edifícios russos decadentes, com chaminés apontando de cada janela, a centenária igreja arménia sobranceando os depósitos de madeira e os geradores de eletricidade, o bando de cães latindo para cada transeunte de uma ponte de pedra de quinhentos anos enquanto a neve caía nas águas semicongeladas do rio que corria lá em baixo, as finas fitas de fumaça elevando-se dos minúsculos barracos de Kalealti que quedavam sem vida sob o manto de neve, fizeram-no sentir uma tal melancolia que lhe vieram lágrimas aos olhos. Havia duas crianças na margem oposta, uma menina e um menino que tinham saído cedinho para comprar pão e lá se iam, ora balançando os pães quentes para a frente e para trás, ora apertando-os contra o peito, parecendo tão felizes que Ka não pôde deixar de sorrir. Não era a pobreza ou o desamparo que o perturbavam, mas o que ele haveria de ver inúmeras vezes durante os dias seguintes, as vitrines vazias das lojas de artigos fotográficos, as vidraças cobertas de gelo das casas de chá apinhadas de gente onde os desempregados da cidade passavam o tempo jogando cartas, e as praças vazias cobertas de neve. Aquelas visões lhe falavam de uma estranha e densa solidão. Era como se ele estivesse num lugar de que o mundo inteiro se esquecera, era como se nevasse no fim do mundo.
A boa sorte acompanhou Ka durante toda a manhã, e quando, ao perguntar, as pessoas ficavam sabendo quem ele era, todas queriam apertar-lhe a mão; elas o tratavam como a um famoso jornalista de Istambul, do vice-presidente ao homem mais humilde, todos abriam as suas portas e conversavam com ele. Foi apresentado à cidade por Serdar bei, o editor da Gazeta da Cidade Fronteiriça (tiragem de trezentos e vinte exemplares), que por vezes mandava notícias locais para o Republicano de Istambul (que em geral não eram publicadas). Tinham recomendado a Ka que fizesse uma visita ao nosso correspondente local antes de mais nada, logo que deixasse o hotel pela manhã. Assim que encontrou o velho jornalista escondido no seu escritório, percebeu que o homem sabia tudo o que havia para se saber em Kars. Foi Serdar bei quem primeiro lhe fez a pergunta que ele ouviria centenas de vezes durante sua estada de três dias. Bem-vindo à nossa cidade fronteiriça. Mas o que veio fazer aqui? Ka explicou que viera cobrir as eleições municipais e talvez escrever sobre o suicídio das jovens. Da mesma forma como aconteceu em Batman, essas histórias de suicídio foram exageradas, respondeu o jornalista. Vamos, vou apresentá-lo a Kasim bei, o subchefe de polícia. Por via das dúvidas, eles devem saber que o senhor chegou». In Orhan Pamuk, Neve, 2002, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2008, ISBN 978-972-233- 910-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina»

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Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
«(…) Em meados do século XVI, nasce o Bairro Alto, primeiro bairro moderno, de Lisboa. Os ares considerados mais saudáveis das suas colinas e a construção da igreja de S. Roque pelos jesuítas, onde o rei e os nobres se reuniam, tornam o Bairro Alto na zona mais aristocrática da cidade. Até ao terramoto de 1755, o Bairro Alto distingue-se pelos seus bailes, teatros ao ar livre e tertúlias literárias, que caracterizavam a vida da nobreza lisboeta. É pouco provável que Francisco e Grácia habitassem o Bairro Alto. Devido ao comércio das especiarias a que se dedicava Francisco, talvez morassem perto das Alfândegas, nomeadamente a Alfândega Nova, do lado ocidental do Terreiro do Paço. Ou ainda com maior probabilidade na Rua Nova, na paróquia da Madalena, nas casas de quatro e cinco andares, de fachadas austeras rasgadas por janelas de venezianas e persianas de madeira, habitadas pelos grandes financeiros portugueses e estrangeiros. Com efeito, a rua Nova situava-se perto da antiga judiara grande, a qual apesar das conversões ainda era habitada por muitos cristãos-novos. A rua Nova também não ficava longe das judiarias da Teracenas ou Alfama, ambas situadas em frente da zona do porto e dos estaleiros navais.
Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina, um nome usado pelos sefarditas da época e até hoje. Mas poucos anos depois, em 1535, Francisco Mendes morre, ficando Grácia e o seu irmão Diogo, que dirigia a filial em Antuérpia, como gestores da sua imensa fortuna. A sua morte dá-se num momento dramático da vivência dos cristãos-novos. Em 1515, Manuel I pedira ao papa a instalação do tribunal da Inquisição (maldita) em Portugal para julgar os hereges, projecto que abandona em seguida. O seu filho e sucessor João III começou por aplicar a política de assimilação de Manuel I. Mas a vitalidade da prática judaizante de muitos cristãos-novos e o zelo religioso da rainha dona Catarina, irmã de Carlos V e neta dos Reis Católicos, foram progressivamente convencendo o rei a pedir ao papa Clemente VII a autorização de estabelecimento de um tribunal segundo o modelo espanhol.
Houve um elemento que terá contribuído para influenciar o rei nesse sentido: em 1525 chegara a Faro uma estranha personagem de nome David Reubéni, que se apresentava como emissário das dez tribos perdidas do Oriente, a fim de propôr ao rei uma aliança judaico-cristã para combater os Turcos. Portador de cartas de recomendação do papa, veio para Lisboa passando por Beja, Évora e Santarém e desencadeando à sua passagem um intenso fervor religioso entre a massa de cristãos-novos que o aclamavam como o Messias. Um funcionário da coroa, Diogo Pires, foi mesmo ao ponto de se circuncidar a si próprio e de o seguir mais tarde, mudando o seu nome para Salomão Molkho. Acabaram os dois nas fogueiras da Inquisição (maldita), Reubéni em Badajoz ou em Évora e Molkho em Mântua, mas este acontecimento que se enquadrava num messianismo crescente entre os cristãos-novos, terá provavelmente alertado João III para os perigos do seu alastramento não só entre os cristãos-novos, mas também entre a própria população cristã-velha, e contribuído para a sua decisão de instalar em Portugal a Inquisição (maldita). Graças a hábeis negociações e a uma política de donativos e subornos levadas a cabo por cristãos-novos, entre os quais Francisco e Grácia Mendes, a implantação do tribunal foi sendo adiada. Por pouco tempo: em 1536, a bula Cum ad Nihil Magis, assinada pelo papa Paulo III a 23 de Maio, estabelecia a Inquisição (maldita) em Portugal. O inquisidor geral era Henrique, o próprio irmão do rei...
Francisco Mendes deve ter previsto os acontecimentos e tentado salvar a família e o seu império das garras da Inquisição, porque em 1531 conseguiu obter do papa um breve de protecção para a sua família contra qualquer eventual acusação de heresia, mas morreu prematuramente. À sua morte, a fortuna familiar foi alvo da cobiça real que concebeu o plano de casar a filha de ambos, Ana, com um elemento do Paço, o que lhe permitiria apossar-se de metade da herança. Escreve H. P. Salomon: em 12 de Maio de 1537, o rei declarou explicitamente o seu desejo que a criança fosse imediatamente levada para a casa da rainha para nela estar, e se criar, e aprender todos os bons costumes […] e daí, com a fazenda que lhe seu pai leixou, a casará com uma pessoa honrada [...] Grácia acabara de fazer vinte e sete anos. Mas era dotada de uma personalidade forte e determinada, e o seu ardente apego às tradições ancestrais judaicas que partilhava com o marido nunca lhe permitiria aceitar tal plano, mesmo que ele significasse uma protecção para a sua família. Por outro lado, o próprio facto de o marido a nomear, em testamento, gestora da sua fortuna juntamente com o irmão Diogo era um indício provável de confiança no seu talento para os negócios e de alguma experiência neste campo». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «A família Luna Mendes não é, pois, uma vulgar família marrana. Pertencia ao pequeno número de famílias privilegiadas que souberam tornar-se indispensáveis à coroa»

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Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
«(…) Francisco e o seu irmão Diogo dedicavam-se à compra e venda, para os grandes mercados da Europa do Norte, de pedras preciosas, especiarias e produtos de luxo vindos para Portugal pelas rotas abertas por Vasco da Gama. Muito rapidamente, ascenderam a uma posição de primeiro plano, ocupando um lugar de destaque na praça comercial de Lisboa. Comprando a pronto pagamento carregamentos inteiros de pimenta e especiarias, já tinham em 1525 praticamente o controlo do seu comércio, trabalhando ao serviço do rei, único detentor da importação em grosso. Assim à data do seu casamento, Francisco e o irmão Diogo, que entretanto se estabelecera em Antuérpia, já haviam construído um império que detinha a primazia do comércio de especiarias em toda a Europa. Herman Prins Salomon cita uma carta de privilégios de João III a Francisco Mendes, de 20 de Julho de 1530, que mostra a importância dos Mendes para a coroa portuguesa: [...] que havendo eu respeito aos serviços que Francisco Mendes, mercador, morador nesta cidade de Lisboa, tem feito a el-rei meu Senhor e padre que santa glória haja, e assim a mim, e aos que espero que ao diante me fará, e por ser dos principais mercadores que tratam na minha Casa da Índia, me apraz e hei por bem por lhe fazer graça e mercê [...] A família Luna Mendes não é, pois, uma vulgar família marrana. Pertencia ao pequeno número de famílias privilegiadas que souberam tornar-se indispensáveis à coroa. Não estavam, no entanto, ao abrigo das medidas persecutórias, o que contribuía para manter o sentimento de uma identidade própria e de um destino comum.

Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
Na primeira metade do século XVI, sob o reinado de Manuel I, Lisboa estava no apogeu da sua áurea. Se eu fosse rei de Lisboa, dirá Carlos V, imperador e rei de Espanha (1500-1558), seria em pouco tempo rei do mundo. A expansão marítima e os seus imensos ganhos estiveram na origem do desenvolvimento arquitectónico e cultural da cidade: desse esplendor de outrora restam apenas o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Convento da Madre de Deus, que resistiram ao terramoto de 1755. Mas estes monumentos dão-nos uma ideia do que seria Lisboa nessa época, uma cidade onde todos os sonhos pareciam possíveis. Com efeito, Lisboa fervilha de actividade e dinamismo, num ambiente cosmopolita: desde o século XV, homens de negócios franceses, ingleses, flamengos, lombardos, genoveses, venezianos, milaneses e espanhóis agitam-se na cidade em torno de um porto que regista um movimento de quatrocentos a quinhentos navios de carga. O Terreiro do Paço, construído directamente no areal por gigantescos trabalhos de terraplanagem, torna-se o novo centro da capital, onde se instala a residência real, cujo interior luxuoso reflecte a opulência da época. Nas proximidades encontram-se a Casa da Índia e a Casa da Moeda ligada ao comércio de além-mar, assim como o Arsenal Militar onde Manuel I monta a sua colecção de armas e peças de artilharia.
No ar, espalham-se os odores excitantes da canela e noz-moscada armazenadas na Casa da Índia, crescem os jardins de árvores exóticas que despertam a curiosidade dos lisboetas, exibem-se leões, camelos, elefantes e rinocerontes. É ao longo dessa zona nobre, a Ribeira, escreve Dejanirah Couto, que se vai instalar a nobreza urbana, construindo opulentas e rebuscadas residências, como a Casa dos Bicos edificada em 1523, cujo proprietário Brás Albuquerque se inspira no palácio renascentista dito dos Diamantes, em Ferrara. No Mercado da Ribeira vendem-se hortaliças, peixe, caça, flores e manteigas, para além das especiarias, tâmaras e nozes de coco. Por sua vez, o Terreiro do Paço é ocupado por vendedores ambulantes que negoceiam de tudo um pouco, desde a mais simples quinquilharia até objectos de valor como artefactos em marfim. O ouro e a riqueza do Oriente permitem acumular fortunas rápidas, cujos sinais exteriores se multiplicam rivalizando no exotismo, no fausto e na ostentação. Mas são sobretudo os escravos asiáticos, africanos ou mouros, que emprestam à cidade o seu carácter exótico, levando um viajante espanhol a dizer que Lisboa parece um tabuleiro de xadrez com tantas peças brancas como pretas». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «… a frase ritual do noivo: “com este anel, és consagrada a mim conforme a lei de Moisés e Israel”. Terá Francisco no final quebrado um copo com o pé…»

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Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
«(…) Provavelmente viviam a culpabilidade da conversão. Mas não estavam sós, os laços familiares e comunitários ainda permaneciam e nas datas sagradas fechavam os cortinados e abriam os livros rezando ao Deus que amavam acima de tudo e a quem juravam fidelidade eterna. Revelavam o segredo às crianças que cedo deixavam de o ser, impunham-lhes o peso de um silêncio que as acompanharia para sempre. No seu desespero, aguardavam ansiosamente por um salvador, o Messias tão desejado. Em 1528, aos dezoito anos e já órfã do pai, Grácia casa-se com Francisco Mendes Benveniste, natural de Sória em Castela, de onde veio, ainda criança, em 1492. Na medida do possível, os judeus conversos casavam-se entre si para manter a tradição judaica de geração em geração. Foi certamente, como era costume entre os marranos, um casamento duplo: um primeiro casamento judaico em privado, seguido de um casamento católico. Conforme a tradição judaica, a noiva terá ido primeiro ao banho ritual de purificação espiritual, o mikvé, talvez existente na própria casa ou algures na antiga judiaria, e ficado uma semana sem ver o noivo como manda a Lei. A cerimónia propriamente dita ter-se-á realizado na sua própria casa ou na casa do noivo sob o pálio tradicional, a hupá., símbolo do futuro lar do casal, após a assinatura do contrato de casamento, a ketubá, através do qual o noivo se compromete a cumprir todos os deveres conjugais, incluindo o sustento da sua futura mulher. Sob o pálio, Grácia terá rodado sete vezes em torno de Francisco, em lembrança dos sete dias da Criação, e no seu dedo indicador a aliança lembrar-lhe-á para sempre a frase ritual do noivo: com este anel, és consagrada a mim conforme a lei de Moisés e Israel. Terá Francisco no final quebrado um copo com o pé, em sinal de luto pela destruição do Templo de Jerusalém, conforme o salmo Se eu te esquecer, Jerusalém...? Provavelmente, porque essa é a tradição do final de todo o casamento judaico, mas com cuidado para não ser ouvido pelos vizinhos. Consumado o enlace judaico, teve lugar o casamento na igreja, possivelmente na capela particular de Francisco ou na própria catedral, com todo o fausto devido às famílias prestigiadas e poderosas que ambos representavam. Foi certamente um grande acontecimento social com inúmeros convidados, provavelmente com representantes da própria corte, e seguido de banquete sumptuoso, música e dança. Para a jovem Grácia terá sido um teste difícil, o primeiro teste à sua capacidade de dissimulação pública que será obrigada a praticar durante a maior parte da sua vida.
Amaria ela o seu marido, Francisco? Esta é, com efeito, uma pergunta de hoje, não da época. Mais do que o amor o importante era manter o património, a linhagem e, no caso dos marranos, a tradição judaica. Há, no entanto, fortes indícios de que Grácía tenha acompanhado activamente o marido no seu zelo religioso judaico, no apoio aos seus correligionários, incluindo o esforço para impedir a instauração da Inquisição (maldita) em Portugal. A sua viva inteligência ter-lhe-á também permitido aprender rapidamente e até colaborar com Francisco nos seus prósperos negócios». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «O ambiente familiar de Grácia/Beatriz terá sido, sem dúvida, um exemplo de uma família marrana, cristã por fora, judia de alma»

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«(…)
A matança de Lisboa que ocorreu lá em Lisboa…
Sobre esta pronunciou-se assim Léon Poliakov, historiador do anti-semitismo: uma política pérfida e desprovida de princípios, enquanto, com uma grande rigidez de princípios, os Reis Católicos ofereceram aos judeus a escolha entre o judaísmo no exílio e o cristianismo em Espanha. A escolha foi cruel; mas os Reis Católicos demonstraram, à sua maneira, mais respeito pela fé alheia. E Jerónimo Osório, humanista português do século XVI, considera que através de um acto iníquo e injusto cometido contra as leis e contra a religião, o rei permitiu que através da simulação religiosa, a religião fosse indignamente profanada. As diferentes atitudes dos Reis Católicos e do rei português reflectiam, antes de mais, situações internas e posições religiosas diferentes. Não há dúvida que, na sua perspectiva, os Reis Católicos demonstraram mais respeito pela fé alheia, e até pela sua própria, ao permitir a escolha entre a expulsão e a conversão. Mas não foram apenas os motivos religiosos que determinaram essa escolha. Em Espanha existia, desde as perseguições de 1391, um grupo importante de cristãos-novos, convertidos voluntária ou coercitivamente, que preenchia as mesmas funções económicas e financeiras do que os judeus, o que no limite permitia dispensar a presença judaica. Em contrapartida, em Portugal apenas existiam judeus. Não havia, antes das conversões de 1497, um número significativo de cristãos-novos que pudessem assumir as mesmas funções desempenhadas pelos judeus. Terá sido provavelmente esse o principal motivo da diferença de políticas entre Espanha e Portugal, nomeadamente da política manuelina de não deixar partir os judeus, convertendo-os à força.

Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
Entre os convertidos, encontrava-se a família de Grácia, assim como a do seu futuro marido Semah Benveniste, aliás Francisco Mendes. Grácia tinha três irmãos: Brianda, Guiomar e Aires Luna. Como acima referimos, Luna era o nome de baptismo do pai Álvaro Luna. Mas sobre a sua infância e adolescência não há nenhuma informação. Podemos então dar largas à imaginação: vemos uma menina viva e inteligente, com uma educação esmerada, relativamente protegida por uns familiares marcados pela tragédia das expulsões e das conversões, uma menina de semblante um pouco grave cuja sensibilidade a faz intuir o medo e o sofrimento da dissimulação; vemos uma menina que muito cedo sabe que não se chama Beatriz, mas sim Grácia, ou antes que se chama as duas coisas; que muito cedo aprende a distinguir o que tem de esconder e o que pode ou, aliás, deve mostrar; uma menina em cuja casa aprende a ser fiel à religião antiga à qual se entregará apaixonadamente durante toda a vida. Uma casa onde certamente também aprendeu o significado da palavra solidariedade para com os seus irmãos de infortúnio.
O ambiente familiar de Grácia/Beatriz terá sido, sem dúvida, um exemplo de uma família marrana, cristã por fora, judia de alma. Respeitavam o Sbabat, na medida do possível, abstinham-se dos alimentos proibidos, provavelmente comiam pão ázimo na Páscoa e jejuavam no Yom Kipur, o Dia do Perdão. Ao mesmo tempo, iam à igreja, baptizavam os filhos, casavam pela religião cristã, enterravam os seus mortos em cemitérios cristãos, tinham cruzes e até imagens religiosas nas suas paredes. Mas ao entrar na igreja talvez marcassem a sua reserva mental repetindo baixinho, como tantos outros marranos: não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Manuel I reagiu severamente punindo o que não soubera prevenir. Mandou prender e encarcerar os principais cabecilhas do massacre e retirou a Lisboa, por dois anos, os seus privilégios e liberdades»

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A matança de Lisboa que ocorreu lá em Lisboa…
«(…) Esse ódio iria degenerar rapidamente em manifestações violentas. A primeira dá-se a 24 de Maio de 1504 quando um grupo de cristãos-novos é insultado na rua Nova, desencadeando uma rixa, durante a qual quarenta jovens foram presos e condenados ao degredo em S. Tomé. Apesar da intervenção da rainha revogando a deportação, este incidente é já um sinal da tragédia que se abaterá dois anos mais tarde sobre os cristãos-novos. Esta tragédia tem como pano de fundo uma situação em Lisboa de epidemia de peste, de seca e de fome. Os cristãos-novos eram o bode expiatório ideal da situação de sofrimento real da população, para mais sentindo-se esta abandonada pela corte de Manuel I que se tinha refugiado em Abrantes.
Tudo começou com uma denúncia às autoridades da celebração de uma ceia pascal judaica com a presença de marranos sentados à mesa posta com pão ázimo e ervas amargas. Segundo algumas versões, após irrupção da polícia no local do crime (?!) foram presos dezasseis cristãos-novos, os quais depois da intervenção real e à custa de substanciais subornos terão sido libertados, provocando a ira popular que reclamava um castigo pelo fogo. Mas a gota que fez transbordar o vaso, foi o que se passou na igreja do convento de S. Domingos, a 19 de Abril de 1506. Nesse dia, pelas três horas da tarde, estava reunida uma multidão de fiéis em oração pelo fim da peste e pela clemência divina quando da cruz que pendia sobre o altar emanaram uns raios de luz provocando a histeria colectiva: milagre, milagre!, gritava a multidão em êxtase. Entre os presentes estava um cristão-novo que terá dito Como pode um pau seco fazer milagres?, ou segundo a versão de Ibn Verga Mais valia um milagre da água de que tanto precisamos do que um milagre pelo fogo. O certo é que, num clima de fanatismo e excitação colectiva, o imprudente cristão-novo foi imediatamente levado para fora, linchado e o seu cadáver decepado. O irmão que acorreu para prontamente indagar a razão por que o matavam foi também assassinado e ambos os corpos queimados no largo fronteiriço.
Em seguida, instigada por dominicanos gritando Heresia, Heresia! Destruam esse povo abominável!, a populaça correu pelas ruas da cidade massacrando todos os cristãos-novos que encontrava e arrastando em seguida os corpos até ao largo de S. Domingos onde eram queimados, vivos ou mortos. Um alemão que deixou um testemunho detalhado deste massacre conta que três monges percorriam a cidade aos gritos de Misericórdia e morte aos Judeus!, seguidos por uma turba enfurecida de homens e mulheres, à qual se juntaram centenas de marinheiros estrangeiros, que estrangulavam e queimavam os judeus, incluindo mulheres e crianças, e saqueavam as suas casas. Cerca de duas a três mil pessoas foram assim assassinadas em três dias com requintes de malvadez, mulheres grávidas atiradas pelas janelas e aguardadas em baixo por lanças empunhadas, bebés estilhaçados contra os muros, violações, desmembramentos, autos-de-fé... A matança parou por exaustão, mas também porque e já havia pouco para matar, os sobreviventes tinham fugido, alguns com a ajuda de cristãos-velhos.
Manuel I reagiu severamente punindo o que não soubera prevenir. Mandou prender e encarcerar os principais cabecilhas do massacre e retirou a Lisboa, por dois anos, os seus privilégios e liberdades. Os dois frades que instigaram o movimento acabaram na fogueira e muitos outros foram enforcados ou privados dos seus bens. Mas a matança de Lisboa teve consequências importantes. No seguimento do profundo traumatismo sofrido e graças às pressões dos cristãos-novos, Manuel I revogou a proibição de saída destes de Portugal, decretada em 1499. No dia 1 de Março de 1507 publicou um decreto autorizando os que assim o desejassem a partir para países cristãos com as suas famílias e bens, e a regressar, se e quando o quisessem, sem perda de direitos e regalias, o que se aplicava mesmo aos que tinham partido ilegalmente. O monarca Manuel I tentava assim ainda manter a sua disponibilidade à integração dos cristãos-novos, esperando ao mesmo tempo desembaraçar-se dos elementos judaizantes mais activos. Na verdade, toda a sua política se soldou pelo fracasso. Isso mesmo terá ele concluído ao decidir solicitar ao papa, em 1515, a autorização para instalar a Inquisição (maldita) em Portugal. Não levou o projecto avante, como é sabido. Esta só será instalada em 1536 por João III. Mas o facto é revelador da política dúbia e oportunista do rei Afortunado». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A Mulher de Pedra. Tariq Ali. «Seguiu-se a vez de Halil. Ele nunca deixara de estar em contacto connosco e fizera questão de comunicar regularmente com o pai de Orhan. Deu-nos uma ajuda preciosa no decorrer dos tempos difíceis»

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A melancolia de Salman
«(…) Quanto a mim, não via Salman há quase quinze anos. Ele saíra de casa quando eu tinha treze anos. Guardava dele a imagem de um homem alto e magro, o cabelo negro e espesso, e uma voz profunda e melódica. Senti-me surpreendida quando vi pela primeira vez a sua silhueta no terraço. Por um momento, julguei tratar-se do nosso pai. Salman envelhecera. Ainda não fizera cinquenta anos, mas tinha o cabeio branco e ralo. Parecia mais baixo do que da última vez em que o vira. O corpo aumentara de volume, o rosto tinha demasiada carne, coxeava ligeiramente enquanto caminhava e os seus olhos apresentavam uma expressão triste. Cruel Egipto. Por que razão o fizera envelhecer assim? Abraçámo-nos e beijámo-nos. A sua voz era distante. E agora já és mãe, Nilofer. Estas foram as únicas palavras que me dirigiu nesse dia. O modo como falara exprimira surpresa, como se o facto de alguém trazer crianças ao mundo se tivesse transformado numa espécie de novidade. Por um qualquer motivo, o comentário e o tom de voz de Salman irritaram-me. Não sei ao certo porquê, mas lembro-me de me sentir vagamente zangada. Talvez porque sugerisse uma recusa em me considerar ou em me tratar como uma mulher adulta. A seus olhos eu continuava a ser uma criança. Antes que eu tivesse tempo para pensar numa resposta adequada, Petrossian foi buscá-lo para que ele pudesse ter uma audiência privada com o nosso pai.
Seguiu-se a vez de Halil. Ele nunca deixara de estar em contacto connosco e fizera questão de comunicar regularmente com o pai de Orhan. Deu-nos uma ajuda preciosa no decorrer dos tempos difíceis, certificando-se de que nos alimentávamos e vestíamos convenientemente quando Dmitri e a maioria dos gregos de Konya se tinham visto privados dos respectivos empregos, o que acontecera como forma de castigo. Vira Halil pela última vez quando ele chegara a Konya sem avisar, estava-se então numa bela tarde de Primavera. Na altura, Orhan tinha três anos, mas nunca esquecera o tio, ou melhor, o seu bigode, o qual tinha o condão de o irritar de todas as vezes que o via. Olhei para Halil. Estava bonito como sempre, e o uniforme ficava-lhe bem. Era com frequência que me perguntava como é que o membro mais travesso da minha família conseguira aceitar a disciplina e as rotinas do Exército. Enquanto me abraçava, ele sussurrou-me ao ouvido: ainda bem que aqui estás. Ele contou alguma história ao Orhan? Acenei. Yusuf Pasha? E quem mais? Qual das versões? Soltámos uma gargalhada. Quando estávamos prestes a seguir o resto da família e a entrar em casa, Halil reparou numa nuvem de poeira que se erguia ao longe, na estrada que conduzia à nossa casa. Tinha de ser uma carruagem, mas quem é que poderia estar lá dentro? Iskander Pasha era conhecido por toda a família devido aos seus hábitos nada sociáveis e ao seu mau feitio. Como consequência, eram poucas as pessoas que visitavam a nossa casa de Istambul sem terem sido convidadas, e sou incapaz de me recordar de uma só vez que tivéssemos recebido visitas aqui. A hospitalidade tradicional era qualquer coisa de estranha para o meu pai, no que respeitava à sua própria família alargada. Mostrava-se particularmente hostil em relação aos primos direitos e respectivos filhos, mas podia igualmente mostrar-se distante dos irmãos. Por tudo isto, as visitas inesperadas haviam sempre constituído uma surpresa agradável para nós enquanto crianças, sobretudo em se tratando do tio Kemal, que nunca chegava sem uma carruagem carregada de presentes. - Estamos à espera de alguém hoje? Não. Halil e eu ficámos no terraço, à espera que a carruagem chegasse. A dada altura, entreolhámo-nos e deixámos escapar uma gargalhada nervosa. Quem seria capaz de se atrever a chegar daquela maneira à casa do nosso pai? Quando éramos muito pequenos, a casa pertencia ao nosso avô, e, nessa altura, estava sempre repleta de convidados. Três dos quartos de dormir encontravam-se sempre preparados para receber os amigos mais chegados do avô, que podiam entrar e sair sempre que lhes apetecesse. Todos os membros do pessoal sabiam que eles podiam chegar a qualquer hora, acompanhados pelos seus próprios criados. Contudo, isto passara-se há muito tempo. Pouco depois de o meu pai se ter transformado no dono da casa, deixara bem claro não serem ali bem-vindos os velhos amigos do avô. O facto assumira as proporções de um escândalo familiar. A avó levantara objecções numa linguagem estranhamente forte para ela, mas o meu pai não se deixara convencer. O seu estilo era completamente diferente e nunca simpatizara com as sanguessugas que haviam frequentado a casa durante o tempo do seu pai, transformando a vida das criadas mais atraentes em qualquer coisa de miserável». In Tariq Ali, A Mulher de Pedra, 2000, tradução de Lucília Rodrigues, Publicações Europa América, Contemporânea, 2002/2003, ISBN 972-105-125-X.






Cortesia de PEAmérica/JDACT

A Mulher de Pedra. Tariq Ali. «Estava deitada na cama num quarto às escuras, uma compressa fria a cobrir-me o rosto e a testa. Estava a descansar, tentando acalmar uma forte dor de cabeça que teimava em não se ir embora»

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O Verão de 1899
«(…) Estava paralisado, incapaz de mexer as pernas, incapaz de pronunciar uma só palavra que fosse e, tal como o indicavam os seus olhos, os minutos que passava em estado de consciência eram gastos a implorar a Alá para que este pusesse fim à sua presença neste mundo. Alá ignorou as suas súplicas e, aos poucos, Iskander Pasha começou a recuperar. A vida regressou às suas pernas. Com a ajuda de Petrossian, recomeçou a andar, mas o dom da fala desaparecera para sempre. Nunca mais voltaríamos a escutar a sua voz. De então em diante, os seus pedidos e ordens passaram a ser escritos em pequenos pedaços de papel, os quais não eram levados numa pequena bandeja de prata.
Assim, todos os dias, depois da refeição do fim da tarde, reuníamo-nos em grupo no velho quarto com a varanda sobranceira ao mar. Uma vez confortavelmente instalados, o meu pai beberricava um pouco de chá pelo canto da boca, a trombose afectara-lhe cruelmente o rosto e, enquanto o neto de Petrossian, Akim, lhe ia massajando os pés com suavidade, ele recostava-se e insistia connosco para que lhe contássemos histórias. Sempre me fora difícil mostrar-me descontraída na presença do meu pai. Ele sempre se mostrara um homem exigente. Extremamente intolerante Para com a mais pequena crítica ao seu comportamento, passado ou presente, encontrava sempre defeitos nos outros.
Os meus irmãos e a minha irmã, que haviam sido convocados para junto do seu leito vindos de diferentes áreas do Império, mostravam-se convencidos de que a doença o transformaria em alguém menos intolerante. Eu tinha a certeza de que eles estavam enganados.

A melancolia de Salman
Estava deitada na cama num quarto às escuras, uma compressa fria a cobrir-me o rosto e a testa. Estava a descansar, tentando acalmar uma forte dor de cabeça que teimava em não se ir embora. Foi no dia em que Salman e Halil chegaram, para verem o nosso pai. Eu não me encontrava no terraço, junto com o resto da família e todos os criados, para os ver sair do nosso velho coche, que, flanqueado de ambos os lados por seis soldados de cavalaria, os transportara desde Istambul. posteriormente, a minha mãe contou-me o quanto a imagem do meu pai, sentado imóvel numa grande cadeira, os abalou. Ambos se deixaram cair de joelhos, cada um do seu lado da cadeira, e beijaram-lhe as mãos. Foi Halil, no seu uniforme de general, o primeiro a compreender que os silêncios depressa se podem tornar opressivos.
Sinto-me muito feliz por ainda estar vivo, Ata. Ninguém me poderia ter ajudado se Alá tivesse decidido fazer de nós órfãos. Este bruto do meu irmão teria dado ordens a Petrossian para que me estrangulasse com uma corda de seda. A ideia era de tal forma ridícula que o rosto do velhote se iluminou com um sorriso, um sinal para a ruidosa gargalhada que varreu toda a assembleia e me acordou bruscamente. Contudo, a dor de cabeça desaparecera e eu levantei-me da cama de um salto, humedeci o rosto com água e desci as escadas a correr para os cumprimentar. Cheguei a tempo de ver Halil apertar Orhan nos braços. Fez cócegas com o seu bigode no pescoço do rapaz e em seguida atirou-o ao ar, abraçando-o com carinho assim que ele voltava a descer. Depois apresentou Orhan ao tio que ele nunca vira. O meu filho fitou o novo tio com um sorriso tímido e, desajeitado, Salman deu uma palmadinha na cabeça do rapaz». In Tariq Ali, A Mulher de Pedra, 2000, tradução de Lucília Rodrigues, Publicações Europa América, Contemporânea, 2002/2003, ISBN 972-105-125-X.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Mulher de Pedra. Tariq Ali. «Sonhos inúteis. A nossa vida nunca se alterava. Uma vez no meio familiar da sua cidade e do seu país, o meu pai de pronto adoptava o comportamento e os maneirismos de um aristocrata turco»

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O Verão de 1899
«(…) Iskander Pasha duvidava dos motivos que tinham levado o filho mais novo a fazer semelhante escolha e, neste aspecto, não andava muito longe da verdade. O meu pai agia sempre com o mesmo refinamento e elegância com que se movimentara nos salões parisienses onde, durante muitos anos, exercera as funções de embaixador da Sublime Porte junto da República Francesa. Isto era o que nos contava o nosso irmão mais velho, Saiman, que fora autorizado a acompanhá-lo e fizera os seus estudos superiores na Academia de Paris, facto que o transformara num amante de tudo o que fosse francês, com excepção dos homens. Sempre que o meu pai regressava de Paris trazendo consigo móveis novos, tecidos e quadros de mulheres nuas para a ala ocidental da casa, e perfumes para as suas esposas, o nosso estado de espírito melhorava consideravelmente. Halil sussurrava: talvez, desta vez, ele se tenha transformado num homem moderno. Ríamos todos, ansiosos. Talvez pudéssemos realizar na nossa casa um baile de Ano Novo. Usaríamos vestidos, dançaríamos e beberíamos champanhe, exactamente como o nosso pai e Salman faziam em Paris e Berlim. Sonhos inúteis. A nossa vida nunca se alterava. Uma vez no meio familiar da sua cidade e do seu país, o meu pai de pronto adoptava o comportamento e os maneirismos de um aristocrata turco.
Desde o dia em que fugira para me casar, esta era a primeira vez que voltava a ser convidada para regressar à velha casa de Verão, se bem que apenas na companhia de Orhan. Dmitri e a minha adorável Emineh ficaram em casa. Talvez para o ano, prometera a minha mãe. Talvez nunca!, ripostara eu aos gritos, furiosa. A minha mãe visitara-me por três vezes, mas sempre em segredo, levando roupas para as crianças e dinheiro para mim. Agia como intermediária e, muito lentamente, as relações com o meu pai acabaram por ser restabelecidas. Começámos a comunicar um com o outro. Ao fim de dois anos a trocar cartas bem educadas e insuportavelmente formais, ele convidou-me papa levar Orhan até à casa de Verão. Sinto-me feliz por ter aceite o seu convite. Estive prestes a recusá-lo. A minha vontade era insistir que não iria ter com ele a menos que também pudesse levar a minha filha comigo, mas Dmitri, o meu marido, convencera-me de que estava a ser teimosa e idiota. Agora sinto-me satisfeita por não ter deixado que o orgulho levasse a melhor. Caso tivesse pedido desculpas pelo meu acto de desafio e implorado a seus pés para que me compreendesse, há muito que teria sido perdoada. Contrariamente à impressão que possa ter criado, Iskander Pasha não era um homem cruel nem vingativo. Tratava-se de uma criatura do seu tempo, inflexível e ortodoxo, na forma como lidava connosco.
Nessa primeira noite, enquanto Orhan dormia saí de casa e pus-me a caminhar por entre os pomares, o cheiro familiar a tomilho e à árvore da pimenta a despertar um número infinito de recordações. A Mulher de Pedra ainda lá estava, e dei por mim a segredar-lhe: regressei, Mulher de Pedra. Regressei com um rapazinho. Senti a tua falta, Mulher de Pedra. Houve muitas coisas que não pude contar ao meu marido. Nove anos é muito tempo, quando não se pode falar dos nossos próprios desejos. Três dias depois de o meu pai ter contado a Orhan a história de Yusuf Pasha, sofreu uma trombose. A porta do seu quarto encontrava-se entreaberta. As janelas que levavam à varanda estavam abertas de par em par e uma brisa suave trouxera consigo o cheiro doce dos limões. A minha mãe costumava entrar no quarto dele logo de manhã cedo para abrir as janelas, de modo que ele pudesse sentir o odor do mar. Naquela manhã, entrou no quarto e viu-o a respirar de maneira estranha, deitado de lado. A minha mãe fê-lo voltar-se. O rosto do meu pai apresentava-se mudo e pálido. Os seus olhos fixavam um qualquer ponto distante e, de maneira instintiva, ela soube que eles procuravam algo situado fora desta vida. O meu pai sentira o toque gelado da morte e não desejava prolongar a sua existência». In Tariq Ali, A Mulher de Pedra, 2000, tradução de Lucília Rodrigues, Publicações Europa América, Contemporânea, 2002/2003, ISBN 972-105-125-X.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «O “apartheid”, escreve Maria Tavares, permanecia religioso e rácico: os cristãos-novos seriam a gente de nação e a religião seria transmitida pelo sangue»

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«(…) Casavam entre si, habitavam na antiga judiaria, alguns continuavam a falar e a possuir livros em hebraico. Iam à igreja e baptizavam os filhos, mas continuavam a manter de forma mais ou menos secreta as práticas de judaísmo e o sentimento da sua pertença à comunidade. Contrariamente ao judaísmo espanhol que foi perdendo gradualmente a sua energia ao longo de um século de perseguições (1391-1492), de conversões forçadas ou voluntárias e emigrações, o judaísmo português é apanhado pelo decreto de expulsão em 1496, com a sua vitalidade praticamente intacta. O aparecimento de um cripto-judaísmo ou marranismo tão forte e organizado, escreve Yerushalmi, deve-se à coincidência entre o desaparecimento do culto judaico público e o movimento de conversão geral. É como se agora a norma para os judeus, como grupo social, fosse a conversão. De certa maneira, o judaísmo agora definia-se assim. A dimensão comunitária da conversão dos judeus de Portugal dava-lhes o sentimento de partilharem um destino comum, um destino doloroso, mas comum. Diz Samuel Usque, na sua obra Consolação às Tribulações de Israel: ... nunca nas almas lhes tocou mácula, antes sempre tiveram imprimido o selo da antiga Lei.
As conversões em massa, longe de resolverem o problema judaico, revelaram claramente a inadequação desta solução. Aos olhos do povo a situação agora era muito mais perigosa: sob a capa cristã, a sua influência tornava-se mais insidiosa e a clivagem entre velhos e novos cristãos mais evidente do que nunca. Não só porque estes últimos continuavam a judaizar mas porque, paradoxalmente, as conversões e a proibição real de inquérito à fé antiga libertaram-nos de alguma forma das limitações económicas e sociais de que eram alvo enquanto judeus. Todo o ódio acumulado no passado contra os judeus transferiu-se assim para os novos cristãos.
Antes das conversões, actuavam dentro de limites bem definidos e claramente demarcados. Viviam sob um regime específico, limitados por leis restritivas, em bairros separados e pagavam impostos extraordinários. Era um inimigo, mas um inimigo visível, reconhecível. Abolidas as antigas restrições jurídicas, o inimigo tornava-se irreconhecível e portanto muito mais perigoso.
Do seu ponto de vista, o povo não deixava de ter razão. A politica assimiladora de Manuel I favoreceu de facto a inserção dos cristãos-novos que acederam assim a todas as estruturas económicas, científicas, institucionais, e até eclesiásticas, vindo a ocupar cargos de grande importância e poder. A nobreza, a Igreja, as magistraturas, os cargos municipais, o direito de vizinhança, as universidades, as ordens militares, tudo de repente passou a ser acessível aos cristãos-novos sem que o seu passado judeu fosse um obstáculo. O ódio aos cristãos-novos era, pois, cada vez maior, designavam-nos por perros, cam, arreneguado judeu, e à assimilação na sociedade cristã não seria conseguida, nem pela coerção, nem pelos privilégios. O “apartheid”, escreve Maria Tavares, permanecia religioso e rácico: os cristãos-novos seriam a gente de nação e a religião seria transmitida pelo sangue». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

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domingo, 29 de maio de 2016

A Mulher de Pedra. Tariq Ali. «Tinha escutado outras histórias sobre Yusuf Pasha contadas por tias e tios pertencentes ao outro ramo da família, descendentes de um tio-avô a quem o meu pai detestava e cujos filhos nunca haviam sido autorizados a visitar-nos»

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O Verão de 1899
«(…) Então, certo ano, e sem qualquer aviso, dez mil soldados gregos mataram o seu patrono persa, fizeram os seus oficiais prisioneiros e marcharam da cidade que hoje se chama Bagdad para a Anatólia. Nada lhes fez frente. Perante isto, o povo não demorou muito a compreender que, se apenas dez mil soldados podiam fazer uma coisa destas, então, os chefes e os governantes eram desnecessários... Yusuf Pasha ainda não concluíra a sua história, mas a expressão que cobriu o rosto do sultão bastou para interromper o seu discurso. Calou-se e não se atreveu a fitar de frente aquele que era o seu senhor. Quanto ao sultão, deixara-se dominar pela raiva, levantara-se e saíra da sala de rompante. Yusuf Pasha receou o pior. Tudo o que ele tinha em mente era alertar o amigo da juventude para os perigos da indolência e da sensualidade, bem como da influência sufocante dos eunucos. Quisera recordar ao amo a lei eterna, a qual ensina que tudo é temporário. Em vez disso, o sultão escolhera interpretar a história como uma referência de mau agouro em relação à dinastia otomana. Em relação a si mesmo. Qualquer outra pessoa teria sido executada, mas é provável que tenham sido as mesmas recordações de infância a fazer com que a misericórdia acabasse por levar a melhor. Yusuf Pasha recebeu um castigo bastante ligeiro. Foi exilado de Istambul. Para sempre. O sultão não desejava viver na mesma cidade que ele. E foi assim que ele aqui veio parar com a família, a este lugar selvagem e isolado, rodeado de rochas antigas, e decidiu que seria aqui que construiria o seu palácio no exílio. Sentia muito a falta de velha cidade, mas nunca mais voltou a ver o Bósforo.
Consta que também o sultão sentiu a falta da sua companhia, sendo muitas as vezes em que desejou a sua presença. Porém, os cortesãos, que sempre haviam invejado a influência exercida por Yusuf Pasha, arranjaram maneira de fazer com que os dois amigos jamais se voltassem a encontrar. É tudo. Estais satisfeita, minha pombinha? E vós, Orhan, sereis capaz de recordar aquilo que eu disse de um dia o repetir aos vossos filhos, quando eu já não me encontrar entre vós? Orhan sorriu e fez que sim com a cabeça. Quanto a mim, mantive um rosto inexpressivo. Sabia que o meu pai se limitara a contar meias verdades. Tinha escutado outras histórias sobre Yusuf Pasha contadas por tias e tios pertencentes ao outro ramo da família, descendentes de um tio-avô a quem o meu pai detestava e cujos filhos nunca haviam sido autorizados a visitar-nos, quer aqui quer em Istambul.
Todos eles haviam contado histórias bastante mais excitantes, bastante mais reais e infinitamente mais convincentes. Contavam como Yusuf Pasha se apaixonara pelo escravo branco que era o favorito do sultão e de como ambos tinham sido descobertos quando copulavam. O escravo fora executado no mesmo instante e os seus órgãos genitais atirados aos cães que se reuniam no exterior da cozinha real. Segundo esta versão, Yusuf Pasha fora açoitado em público, sendo depois banido da corte para viver em desgraça durante o resto da vida. No entanto, talvez a versão do meu pai também correspondesse à verdade. Talvez não existisse uma só narrativa capaz de explicar o facto de o nosso antepassado ter caído em desgraça. Ou talvez ninguém soubesse qual o verdadeiro motivo, daí que todas as versões existentes fossem falsas. Talvez.
Não tinha qualquer vontade de ofender o meu pai depois de um tão longo afastamento, daí que me refreasse e não o continuasse a interrogar. Perturbara-o profundamente há muitos anos atrás, quando me apaixonara por um mestre-escola que ali se encontrava de passagem, fugira com ele, tornara-me sua mulher e mãe dos seus filhos e apreciara a poesia que ele fazia, poesia esta que agora me parece bastante má, mas que, na época, me parecia muito bela. Infelizmente, a poesia fora sempre a verdadeira profissão de Dmitri, mas o certo é que ele tinha de ganhar a vida. Fora por isso que começara a leccionar. Era a forma por meio da qual conseguia ganhar algum dinheiro e cuidar da mãe. o pai dele morrera na Bósnia a combater pelo nosso Império. Fora o tom suave da sua voz enquanto recitava os poemas por si compostos que começara por me tocar o coração.
Tudo isto teve lugar em Konya, onde eu me encontrava a passar um tempo com a família da minha melhor amiga. Fora ela quem me dera a conhecer as maravilhas de Konya. Tínhamos visitado os túmulos dos velhos reis seljúcidas e espreitado para dento das casas pertencentes às comunidades sufis. Foi aqui que me encontrei com Dmitri pela primeira vez. Na época, eu tinha dezassete anos e ele quase trinta. Eu queria escapar à atmosfera asfixiante que se vivia em minha casa. Dmitri e a sua poesia surgiram a meus olhos como a estrada para a felicidade. Fui feliz durante algum tempo, mas nunca o bastante a ponto de obscurecer a dor que sentia por haver sido banida daquela que era a casa da minha família. Sentia a falta da minha mãe, e não demorei muito a sentir saudades do conforto característico da nossa casa. Acima de tudo, sentia a falta dos verões que passávamos aqui, nesta casa com vista para o mar. Claro que eu quisera sair de casa, mas sempre de acordo com os termos por mim estabelecidos. O édito emitido pelo meu pai declarando-me uma marginal constituíra um golpe deveras rude para mim. Na época, odiava-o. Odiava a sua mentalidade limitada. Odiava o modo como ele tratava os meus irmãos, sobretudo Halil, que, qual garanhão rebelde, se recusava a ser disciplinado. Por vezes, o meu pai chicoteava-o em frente de toda a família. Eram estas coisas que me faziam odiar tanto o meu pai. Contudo, a vontade de Halil permanecia inquebrantável. O meu pai considerava-o um anarquista preguiçoso e incapaz de sentir qualquer forma de respeito, daí que se tenha mostrado verdadeiramente surpreendido quando Halil se alistou no Exército, e, graças à história da nossa família, não demorou muito a ser promovido e a assumir o desempenho de deveres a realizar no palácio». In Tariq Ali, A Mulher de Pedra, 2000, tradução de Lucília Rodrigues, Publicações Europa América, Contemporânea, 2002/2003, ISBN 972-105-125-X.

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domingo, 22 de maio de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Teve esta política de Manuel I o resultado esperado? O rei acreditava, sem dúvida, na possibilidade de uma assimilação e de uma integração autênticas. Mas na verdade esta política não funcionou»

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«(…) Aliás, é curioso notar que é neste decreto que o marquês de Pombal se vai basear, perto de três séculos mais tarde, para suprimir as distinções e incapacidades legais dos cristãos-novos: mando que a Lei do Senhor D. Manuel I, expedida no Primeiro de Março do Anno de mil quinhentos e sete; e a outra Lei do Senhor Rei Dom João o III, dada em dezasseis de Dezembro do Anno de mil quinhentos e vinte e quatro, em que proibiam a sediciosa e ímpia distinção de Cristãos Novos e Cristãos Velhos, sejam extraídas do Meu Real Arquivo da Torre do Tombo, e de novo publicadas, e impressas com essa para fazerem parte dela, como se nela fossem inteiramente incorporadas. O decreto do marquês de Pombal, aliás do rei José I, de 25 de Maio de 1773, baseia-se também, com algum cinismo histórico, no bom relacionamento sempre havido em Portugal entre os reis portugueses e os judeus...
Para além de proibir as inquirições ao passado judeu dos cristãos-novos, uma outra tentativa de assimilação dá-se com a alteração dos nomes. Aos judeus agora baptizados seriam dados vulgares nomes cristãos: João Fernandes, Gonçalo Rodrigues, Jerónimo Henriques, António Dias, Luís Álvaro, Estevam Godinho, Maria Caldeira, Leonor Ribeira. Não tem fundamento a ideia muito vulgarizada de que seriam adoptados nomes de árvores. Estes pertenciam regra geral à nobreza e foram atribuídos apenas a algumas personalidades cristãs-novas de prestígio. Mas, para além de tentativa de integração, a alteração do nome significava o esforço para apagar e destruir a identidade judaica anterior. Permaneceu, no entanto, a dualidade do nome, um nome cristão público, outro secreto judaico, para os que não aceitavam como sua a nova fé imposta. Grande parte dos convertidos por Manuel I, depois de baptizarem na igreja os seus recém-nascidos, davam-lhes o nome judaico no segredo das suas casas, procurando assim manter o vínculo da tradição ancestral, como forma de resistência à assimilação forçada. As crianças eram pois portadoras de dois nomes e duas identidades. É como vimos o caso de Grácia Nasi, nome ibero-judaico, mas baptizada como Beatriz de Luna.
Assim, a imposição de um nome cristão, longe de significar a tão desejada integração dos cristãos-novos, tornou-se, pela manutenção ou adopção do nome hebraico, um elemento de distanciação e reserva mental face à fé violentamente imposta. Outras duas medidas tendentes à assimilação dos cristãos-novos foram a proibição de casarem entre si, medida que pouco foi aplicada, e o baptismo das antigas judiarias, agora denominadas ruas novas ou vilas novas. Estas seriam reocupadas pelos seus antigos locatários, embora sem a discriminação legal anterior, sobretudo no Porto, Évora e Lisboa. As casas desocupadas seriam entregues a cristãos-velhos, o que era estimulado pelo rei para promover a convivência, mas também a vigilância sobre os conversos. Finalmente a 21. de Abril de 1499 seria publicada uma lei proibindo aos cristãos-novos a saída do reino, sob pena de perda dos bens móveis e de raiz a favor da coroa, exceptuando as viagens de negócios e na condição de deixar as mulheres e os filhos no reino. Temia-se assim que fossem para as terras dos mouros, retornando ao judaísmo e, sobretudo, que levassem consigo os seus bens.

... Saiba, Senhor que o judaísmo faz parte dos males incuráveis
Teve esta política de Manuel I o resultado esperado? O rei acreditava, sem dúvida, na possibilidade de uma assimilação e de uma integração autênticas. Mas na verdade esta política não funcionou. Obrigados a abraçar uma religião que lhes era estranha, a maioria dos judeus terá permanecido fiel ao judaísmo, pelo menos inicialmente. O cronista judeu Salomão Ibn Verga, exilado de Espanha e ele próprio arrastado pelas conversões compulsivas, escreve na sua obra Shebet Yehuda (O Ceptro de Judá): que proveito tirará a Nossa Senhoria e Rei em deitar água benta sobre os judeus, passando a chamá-los Pedro ou Pablo, enquanto eles permanecem ligados à sua fé, como Akiba ou Tarfon? ( ....) Saiba, Senhor que o judaísmo faz parte dos males incuráveis. Na verdade, convertidos em massa e de um só golpe, grande parte dos judeus cristianizados mantinham vivas, pelo menos nos primeiros anos, as suas estruturas comunitárias, os seus laços de solidariedade e sobretudo a consciência da sua identidade religiosa judaica». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

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domingo, 17 de abril de 2016

A Mulher de Pedra. Tariq Ali. «No seu trono sentava-se um grande rei, que respondia pelo nome de Ciro. Nesse ano auspicioso, Ciro foi proclamado rei dos reis na Babilónia, uma região que é agora governada pelo nosso grande e sábio sultão»

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«(…) Depois de, com um inclinar respeitoso da cabeça, perguntar se o meu pai necessitava de mais alguma coisa e de ter obtido uma resposta negativa, Petrossian e o neto que ele andava a treinar com vista a ocupar o seu lugar na nossa casa deixaram-nos a sós. Passou algum tempo antes que alguém falasse. Eu já me esquecera do quanto este espaço podia ser calmo, bem como da rapidez com que me acalmava os sentidos. Quereis saber os motivos que fizeram com que Yusuf Pasha fosse mandado para aqui há duzentos anos? Curiosa, acenei afirmativamente, incapaz de ocultar a excitação que sentia. Agora que era mãe de dois filhos, era considerada como sendo suficientemente madura para escutar a versão oficial. O meu pai deu início ao discurso empregando um tom de voz que tanto tinha de íntimo quanto de autoritário, como se os acontecimentos que estava a descrever tivessem ocorrido na semana anterior e ele os tivesse presenciado, ao invés de terem tido lugar há duzentos anos, num palácio nas margens do Bósforo, em Istambul. Contudo, enquanto falava, fez questão de ignorar por completo o meu olhar. Os seus olhos cravaram-se fixamente no rosto do pequeno Orhan, ocupados a registar a reacção da criança. Talvez o meu pai estivesse a recordar a sua própria infância e a forma como escutara a história pela primeira vez. Quanto a Orhan, fora enfeitiçado pelo avô. Os seus olhos brilhavam de divertimento e de antecipação enquanto o meu pai assumia a entoação larga e exagerada de um contador de histórias da aldeia.
Tal como era seu desejo, o sultão mandou chamar Yusuf Pasha ao fim da tarde. O nosso antepassado chegou junto dele e esboçou as suas vénias. Crescera junto com o sultão. Conheciam-se bem. Uma criada colocou uma taça de vinho à sua frente. O sultão pediu ao amigo para recitar um poema novo. Nesse dia, Yusuf Pasha sentia-se esquisito. Ninguém sabe porquê. Ele era de tal maneira um cortesão perfeito que, normalmente, todo e qualquer pedido do seu soberano era tratado como uma ordem vinda do céu. O seu raciocínio era de tal maneira veloz que conseguia inventar e recitar uma quadra no preciso instante em que esta lhe era pedida. Mas não foi assim que as coisas se passaram naquela tarde. Ninguém sabe porquê. Talvez o tivessem obrigado a abandonar o leito de uma amante e o facto o fizesse sentir zangado. Talvez estivesse pura e simplesmente farto de ser um cortesão. Talvez estivesse a sofrer de uma profunda indigestão. Ninguém sabe porquê.
Quando o sultão constatou que o amigo permanecia em silêncio, sentiu-se genuinamente preocupado. Quis saber como estava ele de saúde. Ofereceu-se para mandar chamar o seu próprio médico. Yusuf Pasha agradeceu-lhe, mas recusou a oferta. Olhou em volta e outra coisa não viu para além de escravas e de eunucos. Apesar de não haver nada de novo no facto, o certo é que, naquele dia, isso perturbou o nosso antepassado. Ninguém sabe porquê. Ao fim de um longo silêncio, pediu ao sultão que o deixasse falar, sendo-lhe tal direito concedido. Ó grande governante e fonte de todo o saber, sultão do mundo civilizado e califa da nossa fé, este vosso criado implora-vos perdão. A musa inconstante abandonou-me, e hoje é impossível que qualquer verso entre nesta cabeça vazia. Com a vossa permissão, esta noite assumirei o papel de contador de histórias, mas imploro a vossa majestade sublime que escute com atenção, uma vez que aquilo que estou prestes a dizer corresponde à verdade. Por esta altura, a curiosidade do sultão não podia ser mais genuína, e toda a corte esboçou um movimento à medida que se inclinava no intuito de escutar as palavras de Yusuf Pasha. Quinhentos e trinta e oito anos antes do nascimento do santo cristão, Jesus, existia um poderoso Império na Pérsia. No seu trono sentava-se um grande rei, que respondia pelo nome de Ciro. Nesse ano auspicioso, Ciro foi proclamado rei dos reis na Babilónia, uma região que é agora governada pelo nosso grande e sábio sultão. Nesse ano, o Grande Império Persa parecia invencível. Dominava o mundo. Era admirado pela sua tolerância. Os persas aceitavam todos os credos, respeitavam todos os costumes e, nos seus novos territórios, adaptavam-se às diferentes formas de governo. Tudo parecia correr bem. O Império florescia, lidando com os inimigos como um homem enxota uma mosca.
Duzentos anos depois, os herdeiros de Ciro tinham-se tornado peões nas mãos dos eunucos e das mulheres. Os sápatras do Império mostravam-se agora desleais. Os seus oficiais, corruptos, insensíveis e ineficazes. As enormes riquezas da Mesopotâmia iam salvando o Império do colapso, mas, quanto mais se adiava a queda, maior e mais esmagadora esta foi no momento em que acabou por se dar. E foi assim que os gregos adquiriram influência. A sua língua espalhou-se. E foi assim que, muito antes do nascimento de Alexandre, a rota das suas conquistas foi antecipadamente traçada». In Tariq Ali, A Mulher de Pedra, 2000, tradução de Lucília Rodrigues, Publicações Europa América, Contemporânea, 2002/2003, ISBN 972-105-125-X.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Mulher de Pedra. Tariq Ali. «Eu também decidi esperar, recordando as rotinas características das tardes dos meses estivais. Sem pronunciar uma palavra, o meu pai pegou na mão de Orhan e puxou o rapazinho para junto de si»

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O Verão de 1899
«(…) Na nossa família corriam muitas versões da história de Yusuf Pasha algumas das quais bastante hostis em relação ao nosso antepassado, mas estas eram quase um exclusivo daqueles tios-avós e tias-avós cujo lado da família fora deserdado a favor do meu. Todos sabíamos que Yusuf Pasha compunha poemas eróticos e que, com a excepção de um punhado de versos que passara oralmente de uma geração para a outra, fora tudo queimado. Por que razão fora a poesia destruída? E por quem? Antes do exílio, costumava colocar estas perguntas ao meu pai pelo menos uma vez no ano. Ele esboçava um sorriso e ignorava-me por completo. Julgava que talvez o meu pai se sentisse embaraçado por discutir semelhante assunto com os filhos, sobretudo com a filha. Porém, agora, não foi assim que as coisas se passaram. Talvez fosse o facto de Orhan estar presente. Esta era a primeira vez que ele via Orhan. Talvez o meu pai quisesse passar a história para um elemento masculino da geração mais nova. Ou talvez ele se estivesse apenas a sentir descontraído. Só mais tarde compreendi que ele pressentia o desastre que estava prestes a abater-se sobre a sua pessoa.
A tarde estava quase a chegar ao fim e o calor continuava a fazer-se sentir. O sol seguia o seu caminho rumo a Ocidente. Os seus raios eram agora de um vermelho-dourado, o que envolvia todos os recantos do jardim numa onda de magia. Nesta velha casa, nada viera alterar a rotina estival. As velhas magnólias com as suas folhas largas brilhavam aos últimos raios de sol. O meu pai acabara e acordar depois de uma sesta refrescante. O seu rosto mostrava-se descontraído. À medida que envelhecia o sono produzia nele os efeitos de um elixir. As rugas que lhe sulcavam a testa pareciam evaporar-se. Ao olhar para ele, compreendi o quanto sentira a sua falta durante estes últimos nove anos. Beijei-lhe as mãos e repeti a pergunta. Ele sorriu, mas não respondeu imediatamente. Aguardou. Eu também decidi esperar, recordando as rotinas características das tardes dos meses estivais. Sem pronunciar uma palavra, o meu pai pegou na mão de Orhan e puxou o rapazinho para junto de si. De seguida, começou a afagar-lhe a cabeça. Orhan conhecia o avô a partir de uma fotografia pouco nítida que eu levara comigo e colocara junto à minha carna. A medida que ele crescia, fui-lhe contando histórias da minha infância e da velha casa sobranceira ao mar.
Foi então que apareceu o velho Petrossian, o mordomo da casa, que estava com a nossa família desde o dia em que nascera. Um rapazinho, não muito mais velho do que Orhan, seguia-o transportando uma bandeja. O velho Petrossian serviu um café ao meu pai, exactamente como o vinha fazendo há trinta anos, até mesmo mais, e, provavelmente, tal como o seu pai servira o meu avô durante todos os anos em que estivera com ele. Os seus hábitos não haviam conhecido qualquer alteração. Tal como era seu costume, ignorou-me completamente na presença do meu pai. Quando eu era uma garotinha, isto costumava aborrecer-me imenso. Deitava-lhe a língua de fora ou esboçava um qualquer gesto mal-educado, mas nada do que eu fizesse conseguia alterar o padrão do seu comportamento. à medida que fui crescendo, aprendi a ignorar a sua presença. Ele acabou por se tornar invisível a meus olhos. Seria imaginação minha ou ele hoje esboçara um sorriso? Sim, fizera-o, mas como forma de reconhecer a presença de Orhan. Um outro elemento do sexo masculino entrara naquela casa e Petrossian sentia-se satisfeito». In Tariq Ali, A Mulher de Pedra, 2000, tradução de Lucília Rodrigues, Publicações Europa América, Contemporânea, 2002/2003, ISBN 972-105-125-X.

Cortesia de PEAmérica/JDACT