Mostrar mensagens com a etiqueta Sónia Louro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sónia Louro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa. Sónia Louro. «Continuo, pois gosto de pensar que sou eu quem escolho as ilhas onde aporto, mas lembro-me e relembro-me e vejo que o mar que nado não me pertence»

JDACT

Cai chuva do céu cinzento
«(…) A luz baça de dia em que choveu ou trovejou era a mesma dos meus sonhos acordados, mas o comandante não me podia parecer mais vago do que seria se sonhado, apesar do aspecto robusto, gordo até, do rosto quadrado e do bigode tão cheio quanto as suas carnes. Aquela imagem contrastava com o ar etéreo de quem pertence já a outro mundo, como o meu pai, mas era o comandante que me parecia onírico, pensei, desembarcando com o Chevalier de Pas, apertando a minha mão na dele. Tal como não me recordava do olhar do Taco para mim aquando da despedida naquele cais, também não me lembrava do do comandante, que passei a chamar papá. Apenas me recordava do da mamã e dolorosamente me lembrava de que ela estava feliz. Para ser completamente franco, havia um certo prazer neste sofrimento, pois eu não podia ser alheio à felicidade da mamã. Ela estava cansada de estar só e agora já não continuaria só. O que me causava dor, o que me esfrangalhava os nervos, era a minha companhia não ser suficiente para ela não sentir esse cansaço de estar só. E eu fiquei ainda mais cansado.
Como já disse, não me lembrava dos olhares do Taco ou do comandante, mas também havia coisas que não me recordava ter escrito. Por exemplo, encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio. Era isso. Era como se me desconhecesse até nas minhas lembranças.
Houve também quem sentisse as emoções da minha infância perdida em África, muitas vezes pensava que não fui eu. Tenho a impressão que toda a minha infância está em Lisboa, mas mesmo essa já não sei quem a sentiu. Ainda hoje não sei quem sente o que eu estou sentindo. Mesmo as minhas recordações me parecem ser de outras pessoas. Talvez por isso existissem coisas que recordo e tantas que me fugiam nas malhas da memória, mesmo quando estava a comer um bombom de chocolate ou a beber um copo de absinto, há muito que não bebia absinto, fazia-me mal ao fígado. Havia os acontecimentos de África: não sabia se os tinha esquecido ou se apenas os atirara para o fundo de um poço sem fundo. A frase parece absurda, mas apenas significava que essas lembranças continuavam em queda dentro de mim, talvez ainda me fosse possível apanhar algumas. Sabia que nada disto tinha qualquer sentido, por isso mesmo continuava.
Seria de esperar que o tempo provocasse o esquecimento progressivo, mas já percebi que esse esquecimento é selectivo, embora não sinta qualquer intervenção nessa escolha. Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Tudo. Mas há acontecimentos, locais, nomes de ruas que aparecem na minha memória como que a flutuar na massa escorregadia das outras recordações que se perdem e que não sei ao certo se são minhas, do Ricardo Reis, do Álvaro de Campos ou do Alberto Caeiro, ou se são aquelas que, desde que se criaram, continuam em queda para o fundo do tal poço que não tem fundo. Esqueço-me indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar.

Há dias, melhor, há noites, em que as memórias me
afogam no mar que é a minha cama e sinto-me um
náufrago agarrado como última esperança ao meu
cobertor como a um toco. O Chevalier de Pas não
vem em meu auxílio porque já não sou criança,
embora me sinta maís indefeso do que então. Mas
nessa altura era feliz porque não tinha consciência
de nada, da minha fragilidade, da minha solidão
e do amor que era meu e me levaram. Sou mais
indefeso agora porque sei que o sou, era feliz então
porque não sabia que o era.
Náufrago das minhas próprias memórias, nado por
Elas como se dormisse, mas estou acordado e contorno-
as como a ilhas onde habitassem piratas cruéis
ou feras terríveis de várias cabeças com o dom de
dormirem e despertarem à vez. Continuo, pois gosto
de pensar que sou eu quem escolho as ilhas onde
aporto, mas lembro-me e relembro-me e vejo que o
mar que nado não me pertence, as memórias não
são minhas e tudo não passa de uma insónia sem
fim. Afinal não escolho nada e desperto como se
tivesse dormido».

In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Fernando Pessoa. Sónia Louro. «Pelo meio de paisagens perplexas que eu julgava serem as africanas, entre personagens dramáticas, rios cujo nome ignorava, e continuei ignorando»

jdact

Cai chuva do céu cinzento
«(…)… São as cabeças, os corpos, eles todos por inteiro,
são o Caeiro, o Reis e o Campos. Podem ser sem
vida os olhos dos dois primeiros, pois são sempre
sem vida os olhos de um morto e os de um exilado
da pátria, mas os do Campo são vivos, porque
são vivos os olhos de um vencedor e ele vence-me.
Sempre me vence».

Em Janeiro do ano seguinte, em 1896, partimos para Durban: a mamã, eu e o Chevalier de Pas. o tio Gualdino também foi, mas se não fosse o Chevalier de Pas, os trinta dias de viagem ter-me-iam parecido trezentos. Deixava um lugar para chegar a outro e nessa linha que unia Lisboa a Durban sentia em mim a vertigem do novo, a náusea do desconhecido e quem sabe do mar. Em verdade, era a náusea causada pela opressão do mar e do céu, que se uniam até ao infinito, e a do abandono do lar onde eu era a pessoa em torno da qual as outras se moviam. Percorri a bordo do Harwaden Castle, nome muito apropriado para a companhia do Chevalier de Pas, essa linha móvel que separava o mundo conhecido do desconhecido ao mesmo tempo que sentia a minha infância a passar. Restava-me o consolo de pensar: quantas crianças terão visto a sua infância passar a bordo de um castelo e na companhia de um cavaleiro? Apenas eu. Era apenas eu... Tremia então só de pensar na viagem, tremo ainda hoje ao recordá-la. O arrepio do medo daqueles trinta dias ainda me assombravam, por vezes, as noites de insónia.
Qual cavaleiro, o tio Gualdino acompanhou-nos até Durban para proteger a reputação da minha mãe. O meu cavaleiro acompanhou-me também toda a viagem para proteger o resto da minha infância que partia em alto-mar, deitada pela chaminé com o fumo do vapor. A minha mãe estava demasiado enlevada nos seus devaneios de novamente recém-casada e na expectativa de reencontrar o seu marido por procuração. Recordava o olhar da minha mãe nessa altura, era como se estivesse sempre distante, os olhos dela chegaram a Durban antes de o Harwaden Castle. Não conseguia recordar os do tio Gualdino, Taco para mim, no momento da despedida, em Durban. Recordava, contudo, a cor das flores, o comprimento das sombras mortas sobre o alinhamento de calçadas, casas e bancos de jardim pelas ruas que iam dar ao circo onde todos os domingos o Taco me levava porque eu lhe pedia. Ele e a minha tia Maria Xavier não tinham filhos e já tinham passado da idade em que ainda existe essa possibilidade. Afeiçoaram-se, por isso, à ideia de me terem assim que souberam que a mamã se casaria. Isso não me magoava, mas entristecia-me saber que a mamã ponderou começar sozinha uma vida nova, como se eu fosse um empecilho para a sua felicidade. Eu que deveria ser toda a razão da mesma.
Durante a viagem, a mamã apertou muitas vezes o seu rosto contra o meu, quando o meu maior desejo era que me apertasse contra o seu coração. Deveria ter percebido então que ela não me amava. Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Contudo, na minha desolação de criança triste, que nem isso sabia ser então, havia a consolação de me ser permitido estar a seu lado. De facto, podia dizer que ganhei essa permissão. Com o Taco e a tia Maria Xavier a quererem-me para si, com a tia Anica a desejar o mesmo, como poderia não ser esse também o desejo da mamã? Porque não me queria ela para si? No momento em que ela me consultou, soube que era uma batalha de vida ou de morte e, instilado de coragem pelo Chevalier de Pas, escrevi:

«À minha querida mamã:
eis-me aqui em Portugal,
nas terras onde eu nasci,
por muito que goste dela,
ainda gosto mais de ti».

Pedi-lhe perdão depois por tê-la tuteado no poema, mas nunca pedi perdão à criança por tê-la enganado e tê-la feito entrar numa batalha que julgava ser de vida ou de morte, quando na realidade era de morte ou de morte. A criança que eu era morreria sempre naquele campo de batalha. A mamã beijou-me na testa e, mais uma vez, encostou o seu rosto ao meu. Eu acabava de conquistar o direito de estar com ela e esse era o maior prémio que a minha poesia algum dia me daria. Durante toda a viagem, sonhei com o comandante, o marido da minha mãe, aquele que me preferia longe, em suma, o meu novo papá. Ele não ocupava os sonhos que eu tinha dormindo, mas os que eu sonhava acordado. Pelo meio de paisagens perplexas que eu julgava serem as africanas, entre personagens dramáticas, rios cujo nome ignorava, e continuei ignorando, e luzes baças de dia em que choveu ou trovejou, eu sonhava o comandante. Já o tinha visto, mas não me lembrava dele. O Harwaden Castle tinha um calado muito fundo para poder entrar no porto de Durban, fazendo com que as praias e o cais longínquos se mantivessem inalcançáveis por mais tempo. O Chevalier de Pas conseguiu ocupar o ultimo lugar disponível na chalupa que nos levaria para terra. Olhei para a margem na minha frente, não reconheci na floresta brilhante o casario branco de Lisboa e as pequenas hortas para o lado da Amadora. Apesar do sol mais quente, do recorte das praias na costa, da cor e do som de várias aves que eu já conseguia ouvir o meu olhar estava mais saudoso do que curioso naquele momento em que a chalupa calcorreava a pequena ondulação até ao cais. Quando desembarquei, percebi que era melhor, e até mais real, sonhar com o comandante à espera no cais, do que desembarcar nesse mesmo cais junto ao comandante». In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

domingo, 31 de julho de 2016

A Arte no 31. Fernando Pessoa. Sónia Louro. «São as cabeças, os corpos, eles todos por inteiro, são o Caeiro, o Reis e o Campos. Podem ser sem vida os olhos dos dois primeiros, pois são sempre sem vida os olhos de um morto»

jdact

Cai chuva do céu cinzento
«(…)
É noite.
Agora é noite. A noite assemelha-se ao nada e tenho
A impressão de que é sempre noite. Sempre, depois
de depois, virá o dia, mas será tarde, como sempre.
Tudo dorme e é feliz, menos eu. Descanso um pouco,
sem que ouse que durma. E grandes cabeças de
monstros sem ser emergem confusas do fundo de
quem sou. São dragões do Oriente do abismo, com
línguas encarnadas de fora da lógica, com olhos
que fitam sem vida a minha vida morta que os não
fita. Minto sabendo que minto, mas certo de que
acredito. Não são dragões do Oriente do abismo
que me fitam. As suas línguas são vermelhas, mas
os seus olhos não me fitam sem vida, decerto não
todos. São as cabeças, os corpos, eles todos por inteiro,
são o Caeiro, o Reis e o Campos. Podem ser sem
vida os olhos dos dois primeiros, pois são sempre
sem vida os olhos de um morto e os de um exilado
da pátria, mas os do Campo são vivos, porque
são vivos os olhos de um vencedor e ele vence-me.
Sempre me vence.

Somos todos nada, como bem dizia o Dr. Reis, mas eu ainda não sabia essa verdade quando conheci o Cavaleiro e não é à humanidade que me refiro, é apenas a mim. Com ele, a criança sozinha tinha companhia. A minha lucidez cega de criança aprendera que a vida desmoronava a qualquer momento, mas ainda me faltava perceber que ela nunca se volta a erguer. Deixava para trás mais do que podia alcançar, uma quietude de alma que não voltaria a ter: a placidez dos fins de tarde embalados pelos carrilhões da igreja dos Mártires, eram talvez outros, não, eram com certeza esses, a mesa posta para o chá em chávenas de porcelana da China, sabeis que toda a vida cabe numa paisagem de uma chávena de chá chinesa?, a meia-luz do resto de dia filtrada pelos cortinados e toda a atenção das criadas, das tias, da avó e da mamã. Foi assim durante quase dois anos e meio. O mundo era eu.
Agora sou nada. Há algum consolo nestas palavras, pois se agora sou nada, há a certeza intrínseca, pelo menos a impressão, de que terei sido outra coisa em algum momento, mesmo que breve. Talvez alguma coisa que valesse a pena. Contudo, agora, não me resta nada mais do que não fazer nada mais. Mas há, porventura, algo mais que posso fazer. Posso acreditar que um dia não fui nada. Esse dia foram todos os dias antes de perder a mamã, aquele dia muito cedo em que me vi reflectido nos seus olhos sem saber que era feliz até então e que a felicidade tinha chegado ao fim. Era feliz e deixei de o ser mesmo sem ter tido consciência disso durante o processo. A mamã casou-se no fim do ano de 1895 com o noivo ausente, no mesmo dia em que completou 34 anos. Até então os seus olhos eram tristes e melancólicos, mas eram apenas meus e nada mais me interessava.
Após a morte do meu pai, com dois filhos nos braços, deve ter pensado que não se casaria, ou, pelo menos, não voltaria a fazer um bom casamento. Talvez a morte do meu irmão tenha ajudado a que o conseguisse. Naquele dia, o do casamento, foi como se voltasse a viver. Percebi então, ou percebi depois, que entre a morte do meu pai e o casamento com o meu novo papá, ela não passara de um cadáver adiado. Eu olhava-a, dividido entre o deleite de ela ser só minha e o sentimento de culpa do sobrevivente. A partir dali a depressão dela era a minha. E sempre assim foi, mesmo depois de ela ter morrido. A mamã voltou a viver a partir do segundo casamento, mas a minha depressão que nasceu da dela nunca terminou e a partir daí cresceu em mim um tédio das emoções. Não obstante, nunca deixei de amar, pois nunca deixei de a amar, mas desde essa altura sempre tive o cuidado de não converter o afecto em amor. Nunca foi falta de paciência ou incapacidade para amar e me fazer amar. O esforço é que era totalmente desprovido de sentido. Existe prazer na dor, mas existe do mesmo modo um limite para o prazer que conseguimos suportar. Além disso, não posso imaginar nada mais entediante, depois de viver, do que amar e esperar pela recíproca». In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Fernando Pessoa. Sónia Louro. «A barra de chocolate da Regina derrete-se sobre a língua e, indiferente a que não fosse essa a marca da minha infância, misturam-se na minha boca o sabor amargo do chocolate negro e das lágrimas que imagino chorar»

jdact

Cai chuva do céu cinzento
«(…) Sei, contudo, que um dia desci da montanha onde me tinha isolado e junto aos vestígios dos meus passos lentos deixados no solo apareceram outros. Tinha seis anos e olhei para trás e vi o Chevalier de Pas. Soube, instintivamente, que não era ninguém para eu amar ou que nas sombras me amaria, mas que sozinho na noite me faria companhia ao mesmo tempo que tornaria maior o silêncio por trás de todas as portas cerradas. Eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras. Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente. Tinha seis anos, já vo-lo disse. Por vezes, há acontecimentos de ontem que não me recordo ou que são vagos, como o café que tomei ontem com o Almada, na Brasileira, a do Chiado, claro, que a outra é uma Brasileira inferior, uma vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos artísticos que dá pelo nome humano de Brasileira do Rossio. Por outro lado, há acontecimentos da minha infância que recordo com a precisão de um relógio suíço, tal como o dia em que vi o meu Chevalier de Pas, sim, era meu tanto quanto um sonho o pode ser.
Existem também objectos que me fazem regressar a determinados lugares da minha vida onde era meu hábito usá-los. Por exemplo, sempre que vejo um lápis Koh-I-Noor regresso ao meu tempo de universitário em Lisboa, mas neste caso porque nunca os usei. Não queria ser associado àquele molhe de gente comum, imberbe e sem ideias próprias que os usava. Mas há o fumo de um determinado cigarro que já fumei ou os vapores alcoolizados de uma bebida que em determinada época bebi que me fazem, através dos seus odores leves, reviver o passado, o cheiro do absinto faz-me sempre lembrar do Sá-Carneiro. Contudo, quando o cacau roça as minhas pupilas gustativas, sobe por mim uma avalanche de recordações de infância, tão devastadora quanto se aquela descesse a encosta habitada de uma montanha. Não passa de uma pequena e simples barra de chocolate comprada na Casa Suissa, mas à medida que desaparece na minha boca, aparece na minha memória, alegre naquele momento pela recordação, o Chevalier de Pas, o meu soldado de chumbo que não era soldado nem era de chumbo, mas que foi o meu companheiro de infância, tão fiel e presente quanto o soldado de chumbo de uma outra criança.
A barra de chocolate da Regina derrete-se sobre a língua e, indiferente a que não fosse essa a marca da minha infância, misturam-se na minha boca o sabor amargo do chocolate negro e das lágrimas que imagino chorar, misturando-se às memórias de uma infância perdida e perfazendo uma amálgama que mastigo, acreditando relembrar um passado feliz. E revejo o Chevalier de Pas como da primeira vez. Ele disse-me que era um cavaleiro e ainda hoje vejo rebrilhar nos meus olhos os pequenos anéis de ferro da sua túnica metálica, cingida ao corpo por um cinturão castanho mais largo do que a minha mão de criança e a maciez do chocolate suaviza a minha dor que vou trincando aos poucos. Trazia um elmo, segurava-o entre o braço e a cintura. E tinha uma capa vermelha. Disse-me que era o cavaleiro de pá. Não percebi imediatamente o seu nome. Pensei que seria o Cavaleiro do Paço; mais tarde, quando o tornei a ver, disse-me que era o Chevalier de Pá. Só depois de entrar na Saint-Joseph Convent School, e aprofundar o francês que a mamã me ensinara ainda em Lisboa, é que percebi o nome daquele meu amigo: Chevalier de Pas. O sabor morno do chocolate esmoreceu como o de uma água que se escoa pelo ralo e, entre os dentes sem nada para trincarem, desfizeram-se as memórias.
Era o Cavaleiro do Nada, disse, tentando segurar aquela memória com o mesmo desespero de quem quer deter a água entre os dedos. Senti-me, nessa altura, ainda mais próximo dele. Ele era nada como eu que nada era. Mesmo a memória do gozo do chocolate desaparecera, restava-me a consciência amarga e absurda de não ser nada. Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. Nada fica de nada. Nada somos. Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos. Olhei para eles como se estivesse a ver fantasmas saídos de uma espécie de inferno de Dante: o meu passado. À parte Campos, de quem não me conseguia ver livre, como podiam Caeiro e Reis estar aqui? Eu não tinha matado um com tuberculose e exilado o outro no Brasil? Sempre achei impossível escrever na minha própria personalidade; sempre dei por mim, consciente ou inconscientemente, a assumir o carácter de alguém que não existe e através de cuja mediação imaginária escrevo. Sentiria e pensaria eu através deles também? Entranhavam-se em mim como larvas num cadáver. Só me deixariam quando me devorassem por completo, quando já não existisse, quando passasse a não ser nada, o nada. Eram entes diversos em mim. Percebi o seu intento, pretendiam que eu fosse diverso dentro deles. Enquanto eu não estivesse completamente destruído, comeriam até ao último desperdício de mim. Escarafunchariam até ao nada, mas isso eu já era». In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 21 de junho de 2016

Fernando Pessoa. Sónia Louro. «As palavras estão mortas porque nunca as enviei. Para quê enviá-las? Do que me teriam servido? Estou só e pronto! Que dia é esse hoje que escrevi?»

jdact

Cai chuva do céu cinzento
«Desde hoje estou só, escrevi eu um dia à mamã, mais querida para mim do que algum dia eu fui para ela. Outrora, criança, via-me reflectido na humidade azulácea dos olhos da mamã, completamente desprovido da consciência de que aquele momento era irrepetível. O momento quase palpável em que o seu sentimento por mim era tão vívido quanto aquele azul que me mirava ou o som metálico do aro daquelas outras crianças que brincavam lá fora e que eu via através do gradeamento de ferro da janela. Era a janela por onde eu via o mundo, ou acaso seria uma outra. Não, era esta. Era a mesma por onde observei o féretro do meu pai afastar-se. Era a janela por onde observei tudo até já não ter nada que observar ou razão por que observar. Observava tudo como a um mistério, como a alma de criança observa. Observava até que o mistério esmoreceu, ou, porventura, a janela. A janela é hoje outra, por mais que eu tente que seja a mesma.
Recordo a laje da janela, era fria e eu cria. Cria em coisas que hoje já nem sei, mas que recordo e já nem choro. Recordo as palavras que trocámos, a mamã e o seu menino, que relaciono vagamente comigo. Essa ideia vaga é um ténue fio de Ariadne para mim mesmo, que já alguém cortou. Recordo também com a mesma saudade as outras, as palavras que não trocámos, mas que lhe enviei por vapores lentos percorrendo mares lentos entre as duas grandes margens que nos apartavam. Nada regressou. Memórias, tristezas, manhãs de luz baça após uma madrugada de chuva, o prazer de lhe ter escrito..., tudo se perdeu. Tudo se perdeu, não no vórtice do tempo e das mudanças que tudo suga para o fundo de um lugar sem endereço, mas simplesmente porque eram minhas. Eram minhas as palavras e as cartas e a mamã nada guardou daquele tempo que ficou por ter sido escrito. Por um paradoxo filial, aqui mesmo, guardo-as todas. Guardo até hoje todas as cartas que ela me escreveu quando a nossa separação se tornou também geográfica. Contudo, quando ela regressou a Portugal com todos os seus haveres encerrados naqueles baús magoados de viajante perdida, a verdade desatou-se sobre mim como uma manhã sobre a cidade: eu perdera a mamã muito cedo, naquele dia, nos seus olhos azuis, à janela.
Nem uma folha amarrotada, que arrependida e saudosa do filho tivesse salvado do desaparecimento eterno, aqueles baús pesados escondiam. Não voltarei a dizer aquelas palavras que lhe escrevi. Ninguém voltará a lê-las, a começar por ela que provavelmente nunca as releu. Resta-me o consolo de pelo menos as ter lido. Isso já é alguma coisa. Desde hoje estou só, escrevi eu um dia à mamã. Já vo-lo tinha dito? Escrevi-o num dia com lágrimas em que os meus olhos me ardiam e as palavras me fugiam, mas estas estão hoje tão mortas quanto podem estar as palavras que nunca foram lidas. Estas palavras não morreram porque a mamã as deitou fora, estariam assim, talvez, menos mortas, porque ao menos uma vez alguém as teria lido. As palavras estão mortas porque nunca as enviei. Para quê enviá-las? Do que me teriam servido? Estou só e pronto!
Que dia é esse hoje que escrevi? O dia em que o meu pai morreu, quando eu tinha cinco anos? Ou seria um dia do ano seguinte, quando o meu irmão morreu? Ou terá sido quando, com sete anos, julguei que via morrer a minha pátria à medida que o vapor se afastava do cais? Ninguém me dirá que dia foi e eu não saberei qual foi». In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sónia Louro: A Vida Secreta de D. Sebastião. «De frente para as duas mulheres, D. Maria reconheceu de imediato qual delas seria a sua mãe, não porque lhe guardasse qualquer recordação dos vinte e três meses que vivera com ela, mas pelos retratos dela no Paço. A medo, D. Leonor decidiu quebrar o gelo, arriscando um abraço, mas os braços que a envolveram eram o próprio gelo»

 Cortesia de vouestaraquiaroucaonline

«Durante trinta e quatro anos, D. João III segurou com mão de ferro o braço de D. Maria para que esta não visitasse a mãe. Os seus motivos eram sobejamente conhecidos por D. Catarina e até aceites, mas o marido morrera e a influência do seu irmão era maior. Agora tornara-se apenas num assunto de irmãos: o pedido de D. carlos V, que D. Catarina não se iludia tratar-se de uma ordem para, por sua vez, satisfazer o desejo da sua irmã D. Leonor, e havia ainda a rainha viúva da Hungria, D. Maria de Áustria, sua outra irmã, cujas simpatias recaíam para que a sobrinha visitasse a mãe.
Era ela sozinha contra o clã da Casa de Áustria, e agora não tinha o marido com o qual se desculpar junto dos irmãos. É dificil manter uma posição quando todos os oponentes são os irmãos; dá a sensação que se é o traidor da família. Por outro lado, a quem é que se deve mais lealdade, à família de onde se vem ou àquela que se faz? Ela perdera nove filhos. Será que os irmãos apenas conseguiam perceber os interesses de D. Leonor? Era óbvio que D. Leonor era culpada de tal fatalidade, pelo menos no coração de D. Catarina. Foi nessa altura que ela sentiu, pela primeira vez e genuinamente, a falta do marido, não para lidar com os assuntos de Estado, mas para poder fazer frente aos seus irmãos. Se havia algo na vida pelo qual os corações de D. Catarina e D. João III batiam em uníssono, era no desejo de nunca deixar D. Maria de Portugal reencontrar-se com a mãe. D. João III fazia-lhe falta; ele impediria esse reencontro sem qualquer pejo de laços sanguíneos que o contivesse, e D. Catarina aproveitaria a sombra do marido para se escusar com a família. O rei fazia falta à rainha porque ela percebeu que o reencontro entre mãe e filha seria inevitável. D. Catarina não tinha meios de impedi-lo, mesmo com a pouca vontade da própria sobrinha.

Cortesia de saidadeemergencia

D. Maria de Portugal crescera orfão de pai e mãe, um porque morrera de facto, a outra porque a fizera sentir-se assim, e com um débil amor fraternal por parte dos filhos de D. Manuel. No entanto, ela não se iludia. Sabia que não podia esperar muito mais da sua família de Castela. Se a queriam de facto porque mandara o imperador D. Carlos cancelar as adiantadas negociações para o matrimónio com o seu filho D. Filipe?
O casamento de D. Maria com o herdeiro castelhano tê-la-ia tirado de imediato de Portugal, catapultando-a sem mais apelos nem agravos para os braços da sua família espanhola. No entanto, o imperador D. Carlos preferira a ascendência da rainha Maria Tudor de Inglaterra, para noiva do filho. Por isso, que não lhe viessem agora com histórias de encantar sobre o amor que para lá do reino lhe devotavam. Amor por amor, ficaria em Portugal, onde pelo menos pelos seus súbditos era genuinamente amada. Há trinta e quatro anos, quando a mãe se preparava para partir, a cidade de Lisboa opôs-se a que D. Leonor levasse a infanta de Portugal para Castela. Agora andava de novo alvoraçada com a perspectiva de que isso acontecesse:
  • Pois se a mãe a quer ver e a infanta assim o desejar, que se encontrem numa qualquer povoação da raia!
  • Mas que volte logo para o reino, que nada de bom lhe poderá advir de passar a Castela.
Era este género de frases que se ouviam nas tabernas de Lisboa, onde cada súbdito julgava poder controlar por sua vontade as decisões dos seus soberanos... De facto, assim acabou por ser! D. Maria partiu para se encontrar com a mãe, mas numa povoação da fronteira e, mesmo antes disso, prestou um juramento solene de que regressaria.

Cortesia de saídadeemergencia

A infanta de Portugal, como tantas vezes a tinham chamado nesta última semana, provavelmente para não a fazer esquecer a sua verdadeira origem, partiu em Dezembro para Badajoz, acompanhada por uma extensa comitiva de fidalgos e damas. Na realidade, não lhe interessava assim tanto conhecer a mãe. Parecia ser hábito naquela família as mães abandonarem os seus filhos, pois D. Joana, sobrinha da sua mãe, também abandonara o seu filho, D. Sebastião.
Á entrada de Badajoz, uma ostensiva carruagem real esperava no caminho pela passagem da comitiva portuguesa. D. Leonor acompanhada pela sua irmã D. Maria de Áustria não contendo mais a expectativa da espera, decidira ir ter com os portugueses. A infanta portuguesa percebeu que não poderia adiar por mais tempo aquele reencontro, assim como as intençoes da mãe. Apesar dos pedidos dos fidalgos e das damas, D. Maria desceu da sua carruagem, caminhou e entrou sozinha na da máe, fechando de imediato a porta atrás de si para que o tão ansiado reencontro fosse feito longe de olhares alheios.
As duas mulheres de Áustria olhavam mudas para D. Maria enquanto a carruagem retomava a sua marcha, e aquela devolvia-lhes o olhar. Havia um desconforto entre si. D. Leonor imaginara muitas vezes aquele dia, mas a sua imaginação criara uma filha mais calorosa do que aquela que via sentada na sua frente. Lembrou-se inevitavelmente do dia em que a sua posição era inversa: era ela a filha diante de uma mãe que desconhecia e não via há mais de uma década. Tinha na altura dezanove anos e também não fora calorosa para a mãe. Do que se queixava ela  então? Se o tempo tem memória e os nossos gestos se pagam, estes estavam a saldar-se agora.
De frente para as duas mulheres, D. Maria reconheceu de imediato qual delas seria a sua mãe, não porque lhe guardasse qualquer recordação dos vinte e três meses que vivera com ela, mas pelos retratos dela no Paço. A medo, D. Leonor decidiu quebrar o gelo, arriscando um abraço, mas os braços que a envolveram eram o próprio gelo». In Sónia Louro, A Vida Secreta de Dom Sebastião, Saída de Emergência 2008, ISBN 978-989-637-065-7.

Cortesia de Saída de Emergência/JDACT

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sónia Louro: A Vida Secreta de D. Sebastião. «Pensei em pedir ao meu músico, Domingos Madeira, que cantasse para animar a tripulação e, se da boca das crianças sai sempre a verdade, da dos poetas também, mas num e noutro caso nunca reconhecemos a voz do profeta»

Cortesia de vouestaraquiaroucaonline

O Livro do Rei.
«É um dedilhar melancólico, as notas arrumadas em acordes tristes, fúnebres e por isso premonitórios que ainda ouço por vezes de noite. Não são os gritos dos meus soldados, que estes já se confundem com os de outros homens de outras batalhas. Estávamos algures entre Cales e Tânger, no dia 7 de Julho de 1578. O vento era próspero permitindo que os navios seguissem muito chegados de velas desfraldadas. De longe pareciam uma cidade flutuante... Os sobreviventes recuperados da Atlântida. Não, éramos apenas os perdidos, mas ainda não o sabíamos, pois as trombetas, pífaros e tambores que tocavam de toda a parte toldavam-nos os pensamentos, assim como o ar quente e pesado. De proa apontada para a costa da Berbéria, a cadência das ondas repetitiva ameaçava quebrar o bom humor dos homens assaltados pela monotonia. Pensei em pedir ao meu músico, Domingos Madeira, que cantasse para animar a tripulação e, se da boca das crianças sai sempre a verdade, da dos poetas também, mas num e noutro caso nunca reconhecemos a voz do profeta. Se não, atentai na moda que o meu músico me cantou quando lho pedi:
  • «Ayer era rey de España, hoy no lo soy de una villa; ayer villas y castillos, hoy ninguno poseía: ayer tenía criados y gente que me servia, hoy no tengo ni una almena que pueda decir que es mía. Desdichada fue la hora desdichado fue aquel dia en que nací y heredé la tan grande señoría, pues lo había de perder todo junto y en un día! Oh muerte!, por qué no vienes y llevas esta alrna mía de aqueste cuerpo mezquino, pues se te agradecería?». Música de uma lenda sobre D. Rodrigo, o último rei dos Godos, segundo o frade Bernardo da Cruz, Chronica D’el-rei D. Sebastião.
E ainda dedilhado nos gemidos tristes de uma guitarra, que pior agouro poderia eu querer? E acaso haveis reparado que era em Castelhano que ele cantava?

Cortesia de eb23-mdtconceicaosilva.rcts

Não haveria profeta capaz de me demover se nem mesmo a Deus eu dera atenção com todos os sinais que Ele me enviara. «Ayer era rey de España, hoy no lo soy de una villa», cantava-me Domingos Madeira, e até poderia ter sido: «Hoy soy rey de Portugal, y in un mes no lo serié de una villa». E o efeito em mim teria sido o mesmo: nenhum.
O que chamaríeis a um homem que, apesar de todos os conselhos, todas as vozes contra, todos os indícios desfavoráveis, permanece na sua ideia? Teimoso? Voluntarioso? Mimado, por certo? Louco? Com certeza. E afinal não morreu louca a minha bisavó ganhando para a posteridade esse cognome: Joana, a Louca? O meu primo D. Carlos também morrera insano. A loucura estar-me-ia no sangue, pensareis. Estais correcto, mas não mais do que no vosso, pois nunca tivésteis vós um sonho que quisésseis perseguir para além de tudo? Por certo. Dir-me-eis que eu era rei, que deveria ter pensado no meu reino primeiro. Tendes razão. Mas antes de ser rei, nasci constituído pela mesma essência que compõe o vosso corpo, a mesma matéria frágil e quebradiça que ergue o nosso esqueleto e a idêntica substância etérea que o faz caminhar: os sonhos.
Mas porquê fixar-me nos meus familiares loucos, se os tenho bravos também: Carlos V de Espanha, Maximiliano I de Áustria, Filipe, o Atrevido, João, Sem Medo, Carlos, o Temerário. E que maravilhosos cognomes lhes deram! Os inteligentes: D. João II, o Príncipe Perfeito, e D. Manuel, o Venturoso. E ainda os tenho santos: Humberto III, o Santo Saboiano e Luís IX de França, São Luís. Que herança mais dignificante me corria nas veias e fazia o meu sangue revolver-se de puro orgulho. Quantos mais homens no mundo, de ontem, de hoje ou de quando quiserdes, tiveram tanto somatório de glórias dentro de si? Só eu!... Pensando melhor, o meu primo Carlos de Espanha também, mas esse era louco.


Cortesia de saidadeemergencia

Os meus erros, infelizmente, serão mais notados do que os vossos, e no entanto, disponho do mesmo conhecimento do futuro que vós, a mesma incerteza perante o mundo que vós. Nasci homem como vós. Enfim, eu e vós somos iguais, mas ainda assim esperáveis mais de mim. Eu também!
Não julgueis que quero deste modo que me desculpeis. As culpas que carrego, o peso que sinto nos ombros é grande, mas só meu. Culpas que ninguém conhece, que vos contarei e ainda assim ireis duvidar. Não vos censuro, a alma humana é mesmo assim.
Como escreveu Camões, o poeta, e por isso, como vimos também, profeta, porque um e outro se confundem, já que na rima daqueles nascem inesperadas verdades:

«E lá vos têm lugar no fim da idade,
No Templo da suprema eternidade»

Ele estava certo, que na altura pensei que seria por motivos diferentes. Muitas culpas me atribuíram, mais me hão-de dar ao longo dos tempos, sempre... Mas foram elas que me deram um lugar eterno na suprema eternidade. Nada mais do que culpas. Culpas na minha consciência e culpas na memória eterna de um povo. E por elas que me conhecem. São elas que me sustentam.

Culpais-me do domínio espanhol, não vos tiro a razão, mas pelo menos atrasei-o por mais de vinte anos. Achais pouco? Eu também. Mas ainda assim dai-me esse valor, por favor. Sem mim o domínio espanhol era certo, comigo foi-o também, mas eu dei-vos esperança para além da minha vida. Achais pouco de novo? Eu também. Queria ter-vos dado o mundo, mas é a esperança que sustenta um povo.
«Desdichada fue la hora, desdichado fue aquel dia en que naci», cantava Domingos. Então comecemos por aí, pelo dia em que tudo se começou a perder, o dia em que a independência de um reino repousava intranquila nos gritos de uma parturiente, o dia em que nasci». In Sónia Louro, A Vida Secreta de Dom Sebastião, Saída de Emergência 2008, ISBN 978-989-637-065-7.

Cortesia de Saída de Emergência/JDACT