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domingo, 31 de maio de 2015

Uma Pausa para a Luz no 31. O Sentimento do Si. António Damásio. «… a sobrevivência depende de encontrarmos e incorporarmos fontes de energia e de evitarmos toda a espécie de situações que ameaçam a integridade dos tecidos vivos. Desprovidos de capacidade de acção…»

wikipedia e jdact

Em busca do Si
«(…) Se, nesta altura, começarem a ficar preocupados, pensando que estou prestes a cair na armadilha do homúnculo, deixem-me dizer imediata e veementemente que nada devem recear. O modelo-do-corpo-no-cérebro a que me refiro em nada se parece com o rígido homúnculo, essa criatura problemática que habita os antiquados manuais de neurologia. Nada neste modelo se assemelha a uma pequena pessoa escondida dentro de uma grande. O modelo nada percebe e nada conhece. Não fala nem produz consciência. Em vez disso, o modelo é um conjunto de dispositivos cerebrais cuja principal tarefa é a gestão automatizada da vida do organismo. Como veremos mais adiante, a gestão da vida é conseguida através de uma variedade de acções reguladoras, predeterminadas de forma inata: secreção de substâncias químicas, tais como as hormonas, bem como movimentos eficazes nas vísceras e nos sectores musculo-esqueléticos do corpo. O desenrolar destas acções depende da informação fornecida pelos mapas neurais que assinalam, a cada momento, o estado dos diversos departamentos do organismo. Acima de tudo, nem os dispositivos de regulação vital nem os seus mapas corporais são os geradores de consciência, embora a sua presença seja indispensável para os mecanismos que produzem a consciência nuclear. Esta é a questão-chave, no jogo da consciência, o organismo é representado no cérebro, de forma abundante e com diversas facetas, e essa representação está ligada à manutenção da vida. Se esta minha ideia estiver correcta, a vida e a consciência estão indelevelmente entrelaçadas.

Para que serve a Consciência?
Para os leitores que por acaso se surpreendam com a ligação entre vida e consciência, gostaria de acrescentar o seguinte: a sobrevivência depende de encontrarmos e incorporarmos fontes de energia e de evitarmos toda a espécie de situações que ameaçam a integridade dos tecidos vivos. Desprovidos de capacidade de acção, organismos como os nossos não sobreviveriam, uma vez que não encontrariam as fontes de energia necessárias à renovação da estrutura do organismo e à manutenção da vida e não poderiam evitar os perigos presentes no ambiente. Porém, as acções não nos levariam muito longe se não fossem orientadas por imagens. As boas acções precisam da companhia de boas imagens. As imagens permitem-nos escolher entre repertórios de acção anteriormente disponíveis e optimizar a execução da acção escolhida. De forma mais ou menos deliberada ou mais ou menos automática, conseguimos rever mentalmente as imagens que representam as diferentes opções de acção, os diferentes cenários e os diferentes resultados da acção. Podemos seleccionar as acções mais adequadas e rejeitar as que o não são. As imagens também nos permitem inventar novas acções aplicáveis a novas situações e conceber planos para acções futuras.
A capacidade de transformar e combinar imagens de acções e cenários é a fonte de toda a criatividade. Se as acções estão na origem da sobrevivência e se o seu poder está ligado à disponibilidade de imagens orientadoras, é bem plausível que um dispositivo capaz de maximizar a manipulação efectiva de imagens ao serviço dos interesses de um determinado organismo tivesse conferido uma enorme vantagem aos organismos que o possuíssem e tivesse provavelmente prevalecido na evolução. A consciência é, precisamente, esse dispositivo. A novidade pioneira trazida pela consciência foi a possibilidade de ligar o santuário íntimo da regulação da vida à capacidade de manipular imagens. Dito por outras palavras, foi a possibilidade de o sistema de regulação vital, que se encontra situado nas profundezas do cérebro, em regiões como o tronco cerebral e o hipotálamo, se relacionar com o processamento de imagens que representam as coisas e os acontecimentos que existem dentro e fora do organismo. Esta novidade tornou-se numa vantagem porque a sobrevivência num meio ambiente complexo, isto é, a gestão eficiente da regulação da vida, depende de um curso de acção correcto que pode ser melhorado através de previsão e planeamento duas funções que, por seu turno, dependem da manipulação de imagens na mente. A consciência permitiu a ligação entre a regulação da vida interior e a manipulação das imagens». In António Damásio, O Sentimento de Si, O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, 1999, 2004, ISBN 972-1-04757-0.

Cortesia de PEA/JDACT

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os Pensadores. Denis Diderot (1713-1784). «Passa fome, pede dinheiro emprestado e não paga, dá algumas aulas de matemática e redige sermões para sobreviver. Em 1741, encontra Antoinette, atraente mulher, filha de uma pequena comerciante de roupas feitas»

jdact e wikipedia

Vida e Obra
«As obras de Voltaire, assim como as de Montesquieu e Rousseau, desempenharam um papel de primeiro plano na transformação social, política e intelectual do mundo europeu no século XVIII. Não menos importante foi a obra colectiva da qual esses filósofos participaram juntamente com D'Alembert (1717-1783), Quesnay (1694-1774), Turgot (1727-1781), Marmontel (1723-1799), Holbach (1723-1789) e outros: a Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, Artes e Ofícios. O seu principal redator foi Denis Diderot, talvez a personagem mais revolucionária entre todos os franceses da época. Diderot nasceu na pequena cidade francesa de Langres, a 8 de Outubro de 1713, filho de um cuteleiro chamado Didier e de Angélica, sua esposa. Desde cedo é orientado para o sacerdócio, em virtude de possuir, do lado materno, vários clérigos como parentes. Assim sendo, ingressa no colégio jesuíta da cidade natal, onde se revela brilhante aluno, sobretudo em latim e matemática. Com apenas treze anos de idade recebe a tonsura, veste a sotaina e é chamado senhor abade. Os parentes ficam muito contentes, pensando que ele estivesse disposto a seguir a carreira eclesiástica, mas logo se desiludem. Diderot quer apenas estudar e para isso dirige-se a Paris e ingressa no Colégio Louis, le Grand, onde Voltaire estudara anos antes. Aprofunda-se em lógica, física, moral, matemática e metafísica, disciplinas vestidas convenientemente, no ensino da época, em roupagem aristotélica e teológica. Em 1732 torna-se maître des arts pela Universidade de Paris e mostra-se possuidor de considerável erudição em grego, italiano e inglês, adquirida autodidacticamente. As necessidades da vida prática, contudo, precisavam ser satisfeitas e a família opunha-se a sustentar um intelectual. Diderot torna-se então procurador, mas a profissão lhe é tão desagradável que a abandona depois de dois anos. Passa fome, pede dinheiro emprestado e não paga, dá algumas aulas de matemática e redige sermões para sobreviver. Em 1741, encontra Antoinette, atraente mulher de 31 anos de idade, filha de uma pequena comerciante de roupas feitas. Casa-se, apesar dos protestos do pai, que chega a solicitar a sua prisão. Em 1744, nasce uma filha, Angélica, e os problemas de subsistência continuam a atormentá-lo. O abismo entre o casal é cada vez maior: Antoinette representa o prosaico, a ordem, a limpeza, a ignorância, enquanto Diderot é boémio, desordenado e inteligente. Para piorar ainda mais a situação, Diderot arranja uma amante, a sra. Puissieux, também atormentada por problemas económicos.

Uma enciclopédia abala a França
A salvação veio sob a forma de um convite dos livreiros Briasson, Durand e David para que Diderot traduzisse do original inglês a Cyclopédia de Ephraim Chambers, publicada era 1728. Pagar-lhe-iam cem libras mensais. Diderot aceita e põe-se a trabalhar, projectando refazer a obra totalmente. Procura obter o apoio oficial do rei, mas consegue apenas a boa vontade do censor das publicações, desde que os artigos sobre religião, metafísica e filosofia fossem fiscalizados por um teólogo. Diderot convida D’Alembert para ocupar o cargo de codiretor para os assuntos científicos e reúne a intelectualidade francesa na casa da sra. Deffand, a fim de distribuir tarefas. Rousseau encarrega-se da parte de música, Dumarsais fica com a gramática, ao abade Mallet reserva-se a teologia. O próprio Diderot incumbe-se da história da filosofia, ofícios, artes técnicas e de tudo aquilo para o qual não achasse redactor. Além disso, escreveria o Prospecto, ficando para D‟Alembert o Discurso Preliminar. Ao lado do trabalho da Enciclopédia, cuja história seria longa e cheia de vicissitudes, Diderot dedica-se a outras tarefas, em parte porque as cem libras pagas pelos editores não permitiam satisfazer os encargos com Antoinette e a sra. Puissieux, mas sobretudo porque as suas inquietações intelectuais e artísticas exigiam outros meios de expressão. Escreve e publica, em 1746, os Pensamentos Filosóficos, que lhe rendem cinquenta luíses e provocam a sua condenação pelo Parlamento de Paris. O autor sustenta, nessa obra, os direitos da razão e da crítica diante da fé e da revelação, e isso parecia altamente perigoso às autoridades. Mas Diderot está disposto a enfrentar os inimigos. Escreve O Passeio do Céptico e é perseguido pela polícia, que acaba confiscando-lhe o manuscrito. Não se amedronta e redige a Suficiência da Religião Natural e As Jóias Indiscretas, obra que causa escândalo, mas vende bem. Tantas são as críticas, que desiste de imprimir a alegoria O Pássaro Branco, Conto Azul. Entretanto isso de nada adianta e as perseguições sucedem-se, culminando pela prisão no castelo de Vincennes.
Só em Agosto de 1749, cessa a sua incomunicabilidade e Diderot passa a receber a esposa e os amigos. No mesmo ano publica a Carta sobre os Cegos para Uso Daqueles que Vêem, onde coloca um problema de especial interesse para a teoria empirista do conhecimento: pode um cego de nascença, que recupere a visão, perceber a tridimensionalidade do espaço? A Carta conclui por um cepticismo relativista, mas contém em germe o materialismo organicista posteriormente desenvolvido por Diderot e que constitui o traço distintivo e original de seu pensamento dentro da filosofia do século XVIII». In Denis Diderot (1713-1784), Os Pensadores, Abril Cultural, tradução de Marilena Chauí e J. Guinsburg, editor Vitor Civita, 1979.

Cortesia de ACultural/JDACT

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Sentimento de Si. António Damásio. «… tem dentro de si uma espécie de modelo desse mesmo organismo. Este estranho facto, tantas vezes esquecido, é mais do que notável. Considero-o a pista mais importante na descoberta dos possíveis alicerces da consciência»

jdact

Em busca do Si
«(…) A imagem construída nos ecrãs multiplex do seu cérebro mudou de forma notória. Mas enquanto o seu sistema visual mudou submissamente de acordo com os objectos a cartografar, certas outras regiões do seu cérebro, cuja função é regular o processo da vida e que representam vários aspectos do seu corpo, mantiveram-se inalteradas em termos do tipo de objecto que representam. O corpo permaneceu sempre como objecto, e as sim permanecerá até que a morte sobrevenha. Não só o tipo do objecto se manteve precisamente o mesmo, mas também o grau de modificação que ocorreu no objecto, o corpo, foi mínimo. E porquê? Porque apenas uma pequena amplitude de estados corporais é compatível com a vida e o organismo está geneticamente desenhado de forma a manter essa pequena amplitude de estados vitais e equipado para procurar obtê-los, a qualquer preço. Repare na curiosa assimetria que acabo de descrever e que pode ser expressa nos seguintes termos: algumas partes do cérebro têm liberdade para vaguear pelo mundo e, ao fazê-lo, podem cartografar qualquer objecto que as características do organismo lhes permitam cartografar. Por outro lado, certas partes do cérebro, as que representam o próprio estado do organismo, não têm esse mesmo à-vontade. Não têm liberdade de escolha. Só podem cartografar o corpo e fazem-no no interior de mapas relativamente predeterminados. Constituem a audiência cativa do corpo e encontram-se à mercê da sua uniformidade e conformidade.
Existem várias razões por trás desta assimetria. Em primeiro lugar, a composição e as funções gerais do organismo vivo permanecem as mesmas, em termos da sua qualidade, ao longo de uma vida inteira. Em segundo lugar, as modificações corporais que continuamente ocorrem são pequenas, em termos quantitativos. Possuem limites dinâmicos estreitos, uma vez que o corpo, para sobreviver, tem de operar dentro de uma pequena amplitude de parâmetros; o estado interno do corpo deve permanecer relativamente estável em comparação com o ambiente que o rodeia. Em terceiro lugar, este estado de estabilidade é governado a partir do cérebro através de um sofisticado equipamento neural desenhado para detectar variações mínimas nos parâmetros do perfil químico interno do corpo e para comandar acções destinadas a corrigir, directa ou indirectamente, as variações detectadas. Em suma, no teatro de relações da consciência, o organismo constitui a unidade do nosso ser vivo, ou seja, do nosso corpo; e, no entanto, como se verá, a parte do organismo chamada cérebro tem dentro de si uma espécie de modelo desse mesmo organismo. Este estranho facto, tantas vezes esquecido, é mais do que notável. Considero-o a pista mais importante na descoberta dos possíveis alicerces da consciência.
Cheguei à conclusão de que o organismo, tal como é representado no interior do seu próprio cérebro, é um precursor biológico provável daquilo que finalmente se torna o fugidio sentido do si. As raízes profundas do si, incluindo o si alargado que abarca identidade e individualidade, podem ser encontradas no conjunto dos dispositivos cerebrais que de forma contínua e não consciente mantêm o estado do corpo dentro dos estreitos limites e da relativa estabilidade necessárias à sobrevivência. Estes dispositivos representam, de forma contínua e não consciente, o estado do organismo vivo nas suas várias dimensões. Denomino proto-si a actividade que ocorre no conjunto destes dispositivos. O proto-si é o precursor não consciente dos níveis do si que surgem nas nossas mentes como os protagonistas da consciência: o si nuclear e o si autobiográfico».

In António Damásio, O Sentimento de Si, O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, 1999, 2004, ISBN 972-1-04757-0.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 10 de agosto de 2014

O Sentimento de Si. António Damásio. «… a compreensão da biologia da consciência transforma-se na questão de descobrir como é que o cérebro consegue cartografar "ambos" os actores e a relação que estes mantêm. O problema geral da representação do objecto não é particularmente enigmático»

Cortesia de wikipedia

Em busca do Si
«De que modo vimos a saber que estamos a ver um determinado objecto? Como é que nos tornamos conscientes no sentido completo da palavra? Como é que o sentido de si no acto de conhecimento se implanta na mente? O caminho para uma possível resposta a estas perguntas só se tornou claro após eu ter começado a encarar o problema da consciência em função de dois actores principais, o organismo e o objecto, e em função da relação mantida por estes actores ao longo das suas interacções naturais. O organismo em questão é aquele dentro do qual acontece a consciência; o objecto, em questão é qualquer um que se dê a conhecer no processo da consciência; e as relações entre organismo e objecto constituem o conteúdo do conhecimento a que chamamos consciência. Vista nesta perspectiva, a consciência consiste na construção do conhecimento sobre dois factos: que o organismo está envolvido numa relação com um objecto e que o objecto presente nessa relação provoca uma modificação no organismo. Esta nova perspectiva também transforma a realização biológica da consciência num problema tratável. O processo da construção do conhecimento requer um cérebro e requer as propriedades de sinalização através das quais os cérebros conseguem construir padrões neurais e formar imagens.
Os padrões e as imagens necessários ao aparecimento da consciência são nem mais nem menos que os deputados cerebrais do organismo, do objecto, e da relação entre os dois. Nesta perspectiva, a compreensão da biologia da consciência transforma-se na questão de descobrir como é que o cérebro consegue cartografar ambos os actores e a relação que estes mantêm. O problema geral da representação do objecto não é particularmente enigmático. O aturado estudo da percepção, da aprendizagem, da memória e da linguagem deu-nos uma ideia considerável do modo como o cérebro processa um objecto, em termos sensoriais e motores, e uma ideia de como o conhecimento de um objecto pode ser guardado na memória, classificado em termos conceptuais ou linguísticos, e recuperado na recordação ou no reconhecimento. Os pormenores neurofisiológicos destes processos ainda não foram completamente resolvidos, mas os contornos destes problemas são compreensíveis. Do meu ponto de vista, a neurociência tem vindo a dedicar a maior parte dos seus esforços à compreensão da base neural daquilo que vejo como o deputado do objecto. No jogo de relações da consciência, o objecto é mostrado sob a forma de padrões neurais, nos córtices sensoriais apropriados para cartografar as suas características. Por exemplo, no caso dos aspectos visuais de um objecto, os padrões neurais são construídos numa diversidade de regiões dos córtices visuais, não apenas numa ou duas mas em muitas, que trabalham concertadamente para cartografar os vários aspectos do objecto em termos visuais. Porém, do ponto de vista do organismo, as questões são bem diferentes. Para mostrar quão diferentes elas são, vou sugerir ao leitor um exercício.
Levante os olhos desta página e dirija-os para a sala e para as coisas que estão à sua frente, observe-as com atenção e regresse depois à página do livro. Quando levantou os olhos, as várias estações do seu sistema visual, desde as retinas até às diversas regiões do córtex cerebral, deixaram rapidamente de seguir estas palavras para cartografarem a sala que se encontra à sua frente. Quando regressou ao livro, todas essas regiões voltaram mais uma vez a cartografar a página. Agora, dê uma volta de cento e oitenta graus e olhe para o que está atrás de si. Mais uma vez a cartografia da página desaparece de repente para que o sistema visual possa representar a nova cena que está a contemplar. Moral da história: numa sucessão rápida, precisamente as mesmas regiões do cérebro construíram mapas completamente diferentes devido às diferentes disposições motoras que o organismo assumiu e às diversas informações sensoriais colhidas pelo organismo». In António Damásio, O Sentimento de Si, O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, 1999, 2004, ISBN 972-1-04757-0.

Cortesia de PEA/JDACT

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Entre a República e a Acracia. O Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914). António Ventura. «... foi uma das mais destacadas figuras do movimento socialista e libertário português, tradicionalmente pobre quanto a produções autónomas e inovadoras. Assistiu aos grandes debates e testemunhou as transformações profundas operadas em Portugal e no mundo»

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Porquê consagrar quatro ou cinco anos da nossa vida a um determinado personagem, em vez de outro? Precisamente porque ele agrada-me, interessa-me, diverte-me, comove-me, pelos seus méritos, pelos seus triunfos, pelas suas misérias, pelas suas grandezas e, até, pelos seus defeitos e, por vezes, pelos seus vícios. In Jean Orieux, A Arte do Biógrafo, História e Nova História, Lisboa, 1989.

Introdução
«A frase - Ensinar, se soubesse! Sintetiza, em apenas três palavras, toda a vida e obra de Emílio Martins Costa, autor cujo pensamento e acção nos propomos estudar aqui parcialmente. Estamos perante uma figura que, vivendo entre 1877 e 1952, foi coeva das grandes transformações que marcaram a história de Portugal nas últimas décadas de oitocentos e nos primeiros trinta anos do século XX. Participou na revitalização do Partido Republicano a partir de 1897 e na agitação académica que se desenvolveu em Lisboa, com intensidade desigual, entre aquele ano e 1901; bebeu avidamente as ideias novas então em voga, ideias radicais que propunham drásticas transformações da sociedade, ideias maximalistas, aliciantes para uma juventude generosa, sempre disposta a destruir as injustiças ancestrais num ápice e a construir um mundo novo, hipoteticamente mais equilibrado, no momento seguinte.
O caminho que Emílio Costa escolheu e trilhou foi o da independência assumida até às últimas consequências, rejeitando tutelas e preconceitos de qualquer tipo que lhe condicionassem o pensamento e lhe dirigissem a acção. Essa assunção da liberdade como valor supremo, essencial e norteador, levá-lo-á a uma constante revisão de posições, frequentemente geradora de conflitos e de polémicas públicas, por vezes de grande dureza, as quais lhe acarretarão incompreensões e inimizades duradouras. Alguns momentos fulcrais da história do Portugal contemporâneo terão a sua intervenção empenhada e criadora. E o caso do grande debate sobre a questão do regime - Monarquia ou República - travado com particular ênfase a partir do início do século XX.
Sendo conscientemente libertário numa clara opção intelectual e não emocional, ao contrário de tantos outros, Emílio Costa não se esquivou a defender publicamente, numa primeira fase, a colaboração com os republicanos. Foi um dos raros teorizadores, sólido e coerente, do anarquismo intervencionista em Portugal, embora viesse depois a rever esta postura, remetendo-se para um criticismo que, no entanto, estava longe da neutralidade quietista. De facto, contrariando um esteio fundamental do pensamento libertário desde os tempos do grande debate entre Karl Marx e Miguel Bakunine no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores, o apoliticismo, Emílio Costa não se furtava a pontuais tomadas de posição implicitamente políticas, que considerava legítimas e justificáveis em face dos fins a atingir. Distinguia claramente a política, enquanto atitude inerente à sociabilidade humana, e os partidos, em cuja teia nunca se deixou enredar e cuja actividade sempre julgou com desconfiança. Ele próprio confessará, em jeito de balanço, que nunca pertenci ao que se chama um partido político (...) e também devo dizer que nunca votei em eleições oficiais. Nunca contribuí para alguém ser deputado, vereador ou membro duma junta de freguesia. Não reduzia a sua actividade ao campo legal; bem pelo contrário, defendeu a necessidade de outras formas de organização e de acção, de carácter ilegal e revolucionário.
Ao mesmo tempo, traduziu para português as primeiras obras teóricas sobre o sindicalismo-revolucionário francês, inspirado na Carta de Amiens, trabalhos que datam de 1909, originalmente publicados pela Librairie des Sciences Politiques & Sociales na Bibliothèque du Mouvement Socialiste, depois Bibliothèque du Mouvement Prolétarien. Embora dedicasse especial atenção às questões então muito em voga, como o militarismo, a acção directa ou a organização da sociedade futura, não subestimava aquilo que designava por pequenas conquistas, isto é, tudo o que pudesse contribuir para o progresso e para o avanço da humanidade, passo a passo, em direcção a uma sociedade mais justa e mais feliz.
Não era um homem amarrado a ideias preconcebidas, por mais luminosas e salvadoras que pudessem parecer. Talvez seja essa a razão fundamental que explica uma certa resistência em se confundir no colectivo, não obstante ter participado com entusiasmo em grupos de propaganda ou noutras agremiações de diverso tipo. Ele, que estava longe e bem longe de Stirner, cujo pensamento criticou com veemência, e que nunca foi, por isso, um anarquista individualista, preferia actuar a solo em vez de se diluir no anonimato impessoal de um coro, emergindo aqui e ali, nos seus escritos, perspectivas implicitamente elitistas. Mesmo quando integrado em colectivos, a sua voz sobressaía pela qualidade do discurso e pela inovação das propostas». In António Ventura, Entre a República e a Acracia. O Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914), Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-94-0.

Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 16 de abril de 2011

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte IX. «Uma brisa de atenção percorre as alas. Ei-lo que vai chegar, com a morte que ninguém vê e a que não chega nunca. Arautos, tocai! Atendei!»

Cortesia de bibliomanias

«...Senhor Rei do Desapego e da Renúncia, Imperador da Morte e do Naufrágio, sonho vivo errando, faustoso, entre as ruínas e as estradas do mundo!
Senhor Rei da Desesperança entre pompas, dono doloroso dos palácios que o não satisfazem, mestre dos cortejos e dos aparatos que não conseguem apagar a vida!...
Senhor Rei erguido dos túmulos, que viestes na noite e ao luar, contar a tua vida às vidas, pajem dos lírios desfolhados, arauto imperial da frieza dos marfins!
Senhor Rei Pastor das Vigílias, cavaleiro andante das Angústias, sem glória e sem dama ao luar das estradas, senhor nas florestas, nas escarpas, perfil mudo, de viseira caída, passando nos vales, incompreendido pelas aldeias, chasqueado pelas vilas, desprezado pelas cidades!
Senhor Rei que a Morte sagrou Seu, pálido e absurdo, esquecido e desconhecido, reinando entre pedras foscas e veludos velhos, no seu trono ao fim do Possível, com a sua corte irreal cercando-o, sombras, e a sua milícia fantástica, guardando-o, misteriosa e vazia.

Cortesia dedivulgandobd
Trazei, pajens; trazei, virgens; trazei servos e servas, as taças, as salvas e as grinaldas para o festim a que a Morte assiste! Tiazei-as e vinde de negro, com a cabeça coroada de mirtos.
Mandrágora seja o que tragais nas raças, nas salvas, e as grinaldas sejam de violetas E, das flores todas que lembrem a tristeza.Vai o Rei a jantar com a Morte, no seu palácio antigo, à beira do lago, entre as montanhas, longe da vida, alheio ao mundo.
Sejam de instrumentos estranhos, cujo mero som faça chorar, as orquestras que se preparam para a festa. Os servos vistam librés sóbrias, de cores desconhecidas, faustosos e simples como os catafalcos dos heróis.
E antes que o festim comece, passe pelas alamedas dos grandes parques o grande cortejo medieval de púrpuras mortes, o grande cerimonial silencioso em marcha, como a beleza num pesadelo.
A Morte é o triunfo da Vida!
Pela morte vivemos, porque só somos hoje porque morremos para ontem. Pela morte esperamos, porque só podemos crer em amanhã pela confiança na morte de hoje. Pela Morte vivemos quando sonhamos, porque sonhar é negar a vida. Pela morte morremos quando vivemos, porque viver é negar a eternidade! A Morte nos guia, a morte nos busca, a morte nos acompanha. Tudo o que temos é morte, tudo o que queremos é morte, é morte tudo o que desejamos querer.

Cortesia de aparecidaferreira
Uma brisa de atenção percorre as alas. Ei-lo que vai chegar, com a morte que ninguém vê e a que não chega nunca. Arautos, tocai! Atendei!». In Fernando Pessoa, Livro do Dessassossego, Richard Zenith, Assírio e Alvim, 2008, ISBN 978-972-37-1121-9.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT