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terça-feira, 22 de março de 2022

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «A família ainda não sabe. E temos esperança de conseguir resolver este assunto sem que chegue ao conhecimento deles, ouviu-se uma voz áspera dizer da porta»

jdact

«(…) Algumas foram reclamadas mais tarde, outras não. De qualquer forma, a Igreja não devolveu as que acolheu durante mais tempo. Não? Porquê? Os mais novos foram entregues às famílias, obviamente os que permaneceram à guarda da Igreja durante muito tempo acabaram por ser educados na religião católica e não sabiam nada de Israel, nem hebreu, nem nada. Esses não foram devolvidos. Foi o caso dos irmãos Finaly? Mais ou menos. Verdade seja dita que Roma mandou devolvê-los aos familiares. E o que aconteceu? As crianças foram enviadas para um convento em Grenoble mas eram muito novas para lá permanecerem. Acabaram por ser entregues a uma creche. A tutora dos miúdos, de quem não me lembro do nome, se é que alguma vez o soube, afeiçoou-se a eles e antes de cumprir a ordem baptizou-os, em 1948. Giorgio escutava com muita atenção, completamente envolvido pelas palavras de Jacopo. Percebera o problema. Pela lei canónica, uma criança baptizada não podia ser entregue a tutores que professassem outra religião. Isto acabou por envolver as autoridades civis. O tribunal de Grenoble deu razão aos familiares, como era justo, e ordenou a entrega imediata aos familiares, depois de infindáveis recursos. Isto já em 1952. O núncio de Paris, na altura o monsenhor Roncalli…

O Bom Papa João, interrompeu Giorgio em jeito de correcção. Exactamente. Na altura não era Papa nem cardeal. O futuro João XXIII, enfatizou a contra gosto, ordenou a entrega dos dois irmãos mas alguém teve a infeliz ideia de os recambiar para Marselha e depois para o País Basco. Foi ainda mais difícil encontrá-los e devolvê-los à família, em Israel. Foi um escândalo internacional, apareceu em todos os jornais… Prenderam a madre superiora, as freiras, a tutora; foi um descalabro diplomático monumental. Em Julho de 1953, finalmente encontraram-nos e levaram-nos para Israel para sempre. Percebo. Obrigado por me elucidar um pouco mais sobre o venerável Pio XII.

Permaneceram em silêncio durante algum tempo. Jacopo estava à espera que ele o dispensasse para poder voltar a casa, tomar um banho e ir aturar os alunos na Sapienza. Giorgio levantou-se e contornou a secretária. Parou na frente de Jacopo, fitando-o de cima para baixo. Guillermo continuava na mesma posição, impávido e sereno. Já ouviu falar do padre Niklas? Jacopo fez de conta que não percebeu. Mais miúdos? Que raio de conversa é esta? Quem? Um jovem padre alemão, acrescentou Guillermo. Esse não é o…, não sabia como continuar. Não é o filho do… Exactamente, interrompeu Giorgio. É o filho do Embaixador da Alemanha em Itália. O Doutor Klaus Grübbe, afirmou Guillermo. Exacto, disse Jacopo, aliviado. É isso. Guillermo e o monsenhor entreolharam-se de modo suspeito. Alguém me vai dizer o que tem o rapaz?, perguntou Jacopo impaciente. Giorgio entregou-lhe um papel. Era um post-it azul.

O que é isto?, quis saber o historiador. Não estava a perceber o sentido da conversa. Um imprevisto. Um imprevisto? Que raio queria o prelado dizer com aquilo? É um assunto muito sensível que pede bastante discrição. Jacopo tentou devolver o bilhete a Giorgio. Pode ficar com ele. Não tenho intenção nenhuma de me meter em assuntos sensíveis e discrição não é qualidade que me tenha calhado. Giorgio não aceitou o pequeno papel. Pigarreou para aclarar a voz como se as palavras estivessem enferrujadas. É um pedido de resgate. O padre Niklas, filho do embaixador da Alemanha, foi raptado há algumas horas em Sant’Andrea. Jacopo engoliu em seco ao ler o bilhete. O que é que os irmãos Finaly…, não quis continuar. Já informaram a família? Giorgio fez um meneio negativo com a cabeça. Não. A família ainda não sabe. E temos esperança de conseguir resolver este assunto sem que chegue ao conhecimento deles, ouviu-se uma voz áspera dizer da porta. Jacopo desviou a cabeça nessa direcção e viu o intendente da Gendarmaria Vaticana, Girolamo Comte. Vestia um fato preto por baixo de um sobretudo cinzento-escuro. Entre, por favor, Comte, pediu o secretário. Estava mesmo a colocar o doutor ao corrente da situação. Os relatores já foram alertados?, quis saber o historiador. O intendente enviou um destacamento de segurança, respondeu Giorgio, acenando com a cabeça na direcção de Girolamo. Como correram as coisas com a Polizia di Stato?» In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Religião, Literatura, Actualidade,

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Diz-se que a noite é sempre boa conselheira, mas é também a coberto dela que se perpetram crimes, que se contam segredos, que se perpetuam mistérios. Jantaram na mesa número 205 do deck 14. Myriam quis que fossem ver a peça que estava em cartaz. Na verdade era mais do que uma, pois chamava-se Musicais da Broadway, um resumo das principais cenas e músicas de Cats, West Side Story, O Fantasma da Ópera e outros clássicos renomados, da batuta de Andrew Lloyd Webber. Não era obra que ficasse na retina, mas foi agradável. Uma espécie de pastiche de digestão fácil porque afinal em férias não há porque se desgastar com dramas ou obras de profundidade dramática excessiva. Recolheram ao quarto já passava das onze da noite. Myriam estava feliz e era esse o objectivo. Estás bem, meu querido?, perguntou-lhe. Pareces muito desligado hoje. Andas bem? Estou bem, Myr. Não te preocupes. Falaste com o Ben esta noite? Falei, mentiu. Vou-lhe ligar novamente à meia-noite, se não te importas. Hoje foi um dia importante para ele. Tão tarde? E ainda mais em Jerusalém, censurou franzindo o cenho. É. Ele pediu. Está bem. Mas não fiques uma hora ao telefone. Já sabes que tenho frio de noite.

Está descansada, querida. Será rápido. A voz sumia-se cada vez mais. Não conseguira falar com o Ben Júnior. O telefone estivera sempre desligado. O assistente não conseguira localizá-lo em lado nenhum. Não estava na propriedade que os Isaac possuíam em Telavive, tão-pouco apareceu na sede da empresa . Temia que o bilhete que recebera ao pequeno-almoço estivesse relacionado com o desaparecimento do filho. Não fazia ideia de quem o enviara, nem quem poderia estar ao corrente do Statu Quo. Fosse como fosse em breve o saberia. Passou o dia a desconfiar de tudo e de todos. Dos empregados sorridentes, dos restantes turistas, independentemente do género; só Myriam escapava à suspeita. Perguntou-se centenas de vezes se o emissor da mensagem estaria no barco, se estaria a observá-lo, se, se, se. Isto num homem que sempre evitou os ses. No dia anterior aportaram em Livorno e visitaram Florença e poderia muito bem ter sido aí que o interlocutor entrara, muito a tempo de sair no dia seguinte, em Nápoles, aproveitando o corre-corre do navio, de porto em porto na costa ocidental italiana. Era uma agulha num palheiro no meio de três mil pessoas. Beijou Myriam carinhosamente na testa e saiu para a piscina.

Não demores, advertiu Myriam antes de ele bater gentilmente à porta. Não sabia que outra resposta dar se não um Será rápido, mas a verdade é que não sabia para o que ia. A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam, mas, neste ponto, a nove minutos da meia-noite, estava em branco. Caminhou pelo corredor do deck 14 em direcção ao elevador. Subiria um lanço e dali à piscina não levaria mais de dois ou três minutos no seu passo lento e nervoso. As pernas tremiam-lhe como se pressentissem um abismo. Passou por alguns turistas que cambaleavam à procura do equilíbrio no regresso ao quarto que não lembravam onde ficava. Os empregados arrumavam a desordem do dia, o lixo que os impudicos lançavam ao chão sem culpa, beatas de cigarro, copos de plástico, pedaços de comida.

Perto da piscina o movimento era menor, estranhamente, ou talvez não. Bem Isaac deu por si ofegante. Não fora grande caminhada, nem havia subidas ou descidas íngremes. Não estava ninguém. A água ondulava ao sabor do gigantesco navio. Iluminação submersa pintalgava a água de um azul-vivo, cujo movimento ondeante a transformava num organismo com vida. Não viu vivalma. Estranho. Mas nada naquele dia fora normal. Consultou o relógio. Onze e cinquenta e sete. Os segundos matutavam na cabeça dele ou seria o coração a latejar nas veias que marcava o ritmo da inquietação. Os três minutos pareceram seis e depois doze, até que chegou a meia-noite e..., nada aconteceu. Verdade que era apenas a hora do seu relógio, talvez ainda não fosse meia-noite no relógio do outro interveniente, fosse ele ou ela quem fosse. Olhou ao seu redor e não sentiu qualquer movimento. A noite estava fria, desagradável. O navio deslizava lentamente para sul, abrindo caminho pelas águas do Tirreno. Dois minutos depois da hora, segundo o seu relógio, ouviu um disparo oco. Não saberia apontar a proveniência dele mas é certo que o que quer que fosse não passou nem perto de si. De qualquer forma sentia-se demasiado exposto. Momentos após o disparo e as dúvidas viu algo a descer no céu, lentamente. Estava a cerca de 50 metros de altura e descia em direcção à piscina. Ao princípio não conseguiu descortinar o que era. Um objecto voador não identificado. Aos trinta metros conseguiu dar um nome ao objecto. Chamava-se paraquedas. Imune à observação atenta de Ben Isaac, o paraquedas manteve a sua descida serena». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade,  

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Desculpe? Que raio de pergunta era aquela? Mera curiosidade, acrescentou. Deixou-o sem palavras. Ou melhor, teria de responder com cuidado para não ser mal interpretado. Acredito que há um mundo para além da morte onde estaremos em comunhão com Deus e... O Céu? Sim. E o Inferno? Para quem não salvou a alma, explicou Rafael. Não estava a ver onde aquilo ia dar. Acha que o turco e o alemão foram para o Céu ou para o Inferno? Gavache tinha o dom de o deixar sem palavras. Huh..., diria que para o Céu. Que homem tão estranho. Então acredita que levaram uma vida digna que lhes abriu as portas do Céu?, insistiu Gavache. Sem dúvida. Então, a seu ver, o que é que eles terão feito para que alguém tivesse planeado tão meticulosamente as suas mortes? O que fizeram… Ou o que sabiam? Gavache deixou a pergunta no ar. Rafael percebeu onde o inspector queria chegar. Não havia porque ocupava aquele posto. Era arguto. E há ainda outra coisa, prosseguiu Gavache. Rafael aguardou. Disse-me que veio por razões pessoais e não em nome do Papa, confirma? Correcto, afirmou Rafael apreensivo.

Mas estes crimes não foram ainda tornados públicos, senhor padre. Não há um jornalista que tenha conhecimento disto. Informámos a Santa Sé por razões muito especiais, o que torna a sua presença aqui muito estranha, concorda? Gavache não esperou pela resposta. Olhou-o directamente. Compreendo que seja amigo de uma das vítimas, mas terá de me responder porque razão apanhou o último avião do dia para vir, em nome pessoal, ajudar na investigação de um crime que ninguém sabe que aconteceu. O corpo do seu amigo ainda nem esfriou. Feita a pergunta e a observação virou-lhe as costas. Devia ser habito fazê-lo. Leve o seu tempo a preparar a resposta. Por…, foi o primeiro pensamento que lhe assomou à mente. Também o segundo e o terceiro. O quarto já foi uma variação menos lesiva. Grande mer… Jacopo acercou-se dele nesse momento, como se nada fosse. Então? O que queria o gajo? Rafael agarrou-o pelos colarinhos e ergueu-o alguns centímetros no ar à falta de parede onde encostá-lo. Meu grande cabr… praguejou. Jacopo agarrava as mãos de Rafael na ânsia de se libertar mas eram como garras possantes cravadas. Que foi?, conseguiu perguntar. Quem te deu a informação da morte do Zafer? Ainda não conseguia ligar aquele nome ao grupo dos mortos. Parecia irreal. Quem? A Secretária de Estado, respondeu a custo o outro. Rafael pousou-o. Digerira tudo mal desde o início. Não era o que se esperava dele. Os olhos abertos raiavam sangue. Estava furioso consigo mesmo. Tu disseste que tinha sido a Irene.

Que me tinha dito que ele apanhara o avião para Paris para ir ver um pergaminho. Não disse que foi a Irene quem me deu a noticia, completou Jacopo. O que é que se passa?, quis saber compondo-se. Quem te mandou dar-me a informação? Estava de costas voltadas a pensar. O Trevor, a pedido do secretário, explicou Jacopo. As ordens eram para virmos para Paris no primeiro voo. Não foi por isso que vieste? Rafael não respondeu. És completamente doido, acusou Jacopo. Eu não quero estar aqui. Vim porque me pagam para isso. Estava muito bem em Roma a moer o juízo à minha mulher. Rafael permaneceu calado, imóvel. Tu vieste mesmo por amizade, não foi? Pensaste que te fui dar a notícia e que a Irene te pediu para vires ver o que se passava? Eles não estavam juntos há anos. Pensaste que eu estava aqui por gostar da tua companhia?

Rafael tornou a olhar para as fotografias do corpo de Sigfried. Gavache chegou nesse preciso momento Chegamos a alguma conclusão?, inquiriu roufenhamente. O inspector disse que informou o Vaticano por razões muito especiais. Quais são? Seja bem-vindo, padre Rafael, saudou Gavache com um meio sorriso. Abriu uma cigarreira em tons prata e tirou outra cigarrilha do interior. Levou-a à boca e procurou o isqueiro para incendiar o prazer. Apalpou os bolsos. Jean Paul, gritou. Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael. Por isto, limitou-se a dizer. Rafael pegou no telemóvel e olhou para ele, depois desviou o olhar para Gavache com uma expressão inquisitiva. O seu amigo teve uma grande presença de espírito, diga-se. Conseguiu ligar o gravador do telemóvel e gravou uma parte do que aconteceu. Talvez porque o aparelho tem um botão dedicado. O seu amigo usava-o recorrentemente para registar ideias e pensamentos. A parte que nos interessa não se percebe muito bem, mas o laboratório já está a trabalhar na gravação. De qualquer forma, há algo aqui bastante explícito. Tirou o aparelho das mãos de Rafael e procurou a gravação que pretendia. O som invadiu a sala.

Qual é o código que (ruído estático) te deu?, perguntava uma voz. Sei que o Vaticano mandou dar os códigos. HT, respondeu aquele que Rafael reconheceu como o amigo. Em que ordem? Não faço ideia. Zafer aparentava estar em grande sofrimento. Isso já vai passar. Foi de grande ajuda, Yaman Zafer. Que o Senhor tenha piedade de ti. O Papa rezará pela tua alma, disse o outro. O resto foram sons desconexos, que podia ser qualquer coisa, mas Rafael sabia. Era Zafer a morrer. Sentia o estertor da morte que acontecera naquele mesmo local. Por fim silêncio. Ouviram-se uns passos e uma frase de despedida. Ad maiorem Dei Glóriam. Gavache desligou o aparelho e encarou Rafael. Esta mer… diz-lhe alguma coisa? Rafael mirou-o com frieza e uma expressão mortífera. O demónio está nos pormenores. O assassino é jesuíta». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Jacopo Sebastiani, intrometeu-se o outro. Qual é a sua função?, questionou Gavache a Jacopo, cumprimentando-o com renitência. Somos amigos da vítima, adiantou-se Rafael antes que Jacopo respondesse. Gavache fitou os dois com displicência. Não queria disfarçar que os estava a avaliar. Diga-me, disse por fim para Rafael, era óbvio quem era o líder, quem é Yaman Zafer? Meteu a cigarrilha à boca e puxou um pouco mais de tabaco. As noites eram o pior do dia. Não há qualquer interesse do Vaticano. Estamos aqui em nome pessoal, como amigos do falecido. Gavache tornou a fitá-los. Ora um, ora outro, fazendo jus à sua função de inspector. Pois, acabou por dizer. O fumo da cigarrilha formava uma nuvem sobre os três homens. A amizade é uma coisa bonita. Conheciam-no há muito tempo? Há 20 anos. Era um conceituado arqueólogo na Universidade de Londres. Talvez conheça algumas das suas publicações, informou Rafael. Precisava de lhe dar alguma coisa. Gavache não era idiota. Não gosto de ler, respondeu o inspector francês de rajada. A vida já é um livro demasiado grande para andar a perder tempo com isso. Ele é arqueólogo e encontrou alguma coisa para o Vaticano? Fez alguns trabalhos sob patrocínio do Santo Padre, sim, confirmou Rafael. Algumas escavações em Roma e Orvieto. Não podia contar tudo. Podemos ajudar em alguma coisa?, ofereceu-se Rafael. Sentia que estava a perdê-lo. Não. Se quer que lhe diga, os amigos só atrapalham nestes casos, confidenciou com desdém. Jean Paul, gritou para alguém que se apresentou por detrás dele, a menos de um metro. Franzino e alto, com as veias do pescoço a sobressaírem. Quem o não conhecesse diria que passava fome.

Aqui, inspector. Escolta estes senhores à cidade. Não precisamos deles. Merci beaucoup. E virou-lhes as costas, levando novamente a cigarrilha à boca. Sigam-me, s'il vous plait, pediu o tal Jean Paul. Naquele momento Rafael olhou para Gavache que brandia umas fotografias que algum técnico lhe havia passado para a mão. Era este o teu plano?, reclamou Jacopo que enfiara as mãos no bolso para combater o frio. Perda de tempo. O demónio está nos pormenores, limitou-se a dizer Rafael que continuava a fitar Gavache. Entretanto, saíram para o exterior, em direcção à viatura de Jean Paul. Já têm os resultados da autópsia, inspector?, perguntou Rafael. Precisava de informações. Sim e não. Sim, temos, não, não sou inspector. Levou uma grande tareia o seu amigo e injectaram-no com cianeto. Morte rápida. Antes assim. Desceram umas escadas de ferro. Os sapatos pesados faziam-no tilintar a cada passo. Algum suspeito? Não, nenhum. Tudo limpo. Nem um fio de cabelo. Quer dizer, o que há mais ali é mer… Quem fez isto escolheu bem o sítio. Não vão encontrar nada, disse Rafael.

Padre Rafael, ouviu-se uma voz chamar. Era uma mulher à porta do armazém. Rafael olhou. O inspector Gavache quer dar-lhe uma palavra, se não se importa. Rafael galgou três degraus de cada vez e tornou a entrar no espaço que, outrora, seria o escritório do armazém. Gavache estava empenhado a discutir com dois dos seus homens. A voz roufenha a sobressair perante todos os outros. Avistou o italiano. Ah, senhor padre. Importa-se que o trate assim? De todo, respondeu Rafael aproximando-se. Passou-lhe umas fotografias para a mão. Conhece?, perguntou o francês com um tom inquisitivo. Rafael olhou as fotografias. Eram três. Em todas um corpo masculino caído num chão que não era aquele. Era mais escuro, sujo também. Uma cadeira de madeira caída ao seu lado. Não conseguia ver o rosto. Este não é o Zafer, proferiu com certeza. Até aí estamos de acordo. Deu-lhe outra foto. O corpo já estava em cima da maca, dentro do saco mortuário. Rafael viu o rosto e reconheceu. Não tinha qualquer identificação com ele. Que nome lhe vamos dar?, perquiriu Gavache na expectativa. Rafael desconhecia como é que o francês relacionou ambos os crimes, mas não ia omitir. Precisava dele para ter acesso ao caso…, aos casos. Sigfried Hammal. Professor de Teologia. Isto foi quando? Hoje. Aqui em Paris?

Gavache negou com a cabeça. Em Marselha. Olhou para os subordinados. Não necessitou dizer uma palavra para eles dispersarem e deixarem-nos a sós. O francês fitava o italiano com um olhar perscrutador O que é que se está a passar aqui?, perguntou de rompante. Um arqueólogo, um teólogo. Duas pessoas ligadas à Igreja mortas da mesma maneira, no mesmo país. Não faço ideia, respondeu Rafael. Não podia baixar o olhar, caso contrário denotaria fraqueza. Tretas. Também era amigo do alemão? Vi-o apenas uma vez. Por que motivo? Já não me recordo. Foi há muito tempo. Há quanto? Talvez há 20 anos. E o arqueólogo era inglês? Turco, mas vivia em Londres quase desde que nasceu. Não considera curioso que você conheça os dois? O que quer dizer com isso? Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos, é que não são suspeitos de rigorosamente nada. A morte livrava de toda a culpa e sofrimento. Era a verdadeira salvação. Acredita na vida para além da morte?, perguntou o francês». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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sábado, 28 de novembro de 2020

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «Parecia fresco, enérgico, ainda que os olhos estivessem raiados de vermelho e se notassem as olheiras em volta deles. Talvez descansasse pouco…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os ladrilhos respiravam debaixo dos pés deles, testemunhas silentes de séculos de passadas que transportavam a história dos actos e dos livros, dos sussurros, das intrigas e dos ideais. Vais dizer alguma coisa?, quis saber Jacopo, ainda irritado, mas com um tom de voz mais suave. Está frio, não está? Jacopo virou-lhe a cara. Aquele sempre fora bom a desconversar. Só tirou o chapéu quando entrou pela porta que Guillermo lhe indicou. Ao fundo, junto à janela, um homem de meia-idade estava recostado na cadeira a passar o dedo pelo ecrã de um iPad. A tecnologia também marcava presença na casa de Deus. Doutor Sebastiani, cumprimentou o homem, levantando-se da cadeira assim que o viu, com um sorriso nos lábios. Bons olhos o vejam. Pousou o tablet em cima do tampo da secretária mostrando o cabeçalho do Il Messagero. Reverendo Giorgio. Não me importava nada de o ver um pouco mais tarde. Estendeu a mão para cumprimentar o prelado. Acenou com a cabeça para o tablet. Ainda acredita em boas notícias? Estou a seleccioná-las para a leitura matinal do Santo Padre. Mas nada de novo, de facto. A Europa está a ruir connosco dentro, respondeu o clérigo, bem-disposto, apesar da hora. O Santo Padre não se cansa de ler sempre a mesma lengalenga? A informação é tudo hoje em dia. Mesmo que seja sempre a mesma coisa. Apontou para uma cadeira que Jacopo, sem cerimónia, aproveitou, e contornou a secretária para retornar à sua. Guillermo ficou em pé, encostado a uma mesa de reuniões.

A que se deve a honra de ser chamado a esta hora da madrugada?, atirou Jacopo sem aguardar que o outro se sentasse. Pois, peço desculpa por tê-lo feito levantar-se tão cedo, doutor Sebastiani. Pode chamar-me só doutor, atalhou o mais velho, corrosivo. Vá directo ao assunto, por favor. Giorgio entrelaçou os dedos e exibiu uma expressão pensativa como se estivesse a delinear uma estratégia para começar a falar. Já ouviu falar dos irmãos Finaly?, acabou por perguntar. Jacopo anuiu com a cabeça e franziu o sobrolho em alerta. A que propósito ele perguntara aquilo? O que é que sabe deles?, quis certificar-se o secretário. A esta hora da noite?, escarneceu o historiador. Giorgio sorriu com condescendência e pousou as mãos em cima da secretária. Jacopo não conseguia perceber se ele tinha dormido alguma coisa ou se não pregava olho desde a noite anterior.

Parecia fresco, enérgico, ainda que os olhos estivessem raiados de vermelho e se notassem as olheiras em volta deles. Talvez descansasse pouco, o que era apanágio do posto que ocupava. Quem servia o Santo Padre oferecia mais do que tempo e dedicação, oferecia a vida. Jacopo ajeitou-se na cadeira e abriu o arquivo de memórias onde, algures entre Pio XII, Adolf Hitler, Segunda Guerra Mundial, Holocausto, nazismo e outros itens relacionados, encontrou o registo correspondente ao dos irmãos Finaly. Era um dossier simples com informação escassa e nunca verificada. Quer mesmo a minha versão?, quis certificar-se. Giorgio anuiu. Prezava o doutor pela sua frontalidade e honestidade intelectual. Queria ouvir a sua versão da história. O que eu sei, e isto é tudo baseado em fontes sem qualquer crédito, portanto, boatos… Não se preocupe. Continue. Eram dois irmãos judios, crianças, que foram escondidos dos familiares depois da guerra, em França. Robert, o mais velho, e Gérald, o mais novo. Fazem parte dos milhares de crianças judias que, supõe-se, não foram devolvidos às famílias. Giorgio suspirou. Parecia incomodado. Mas porque é que estavam à nossa guarda? Jacopo fitou-o perplexo. Não sabe? O alemão voltou a suspirar e levou uma mão ao rosto. Acredite ou não, até hoje nunca tinha ouvido falar deles. Posso ser completamente honesto consigo? Não espero outra coisa, respondeu Jacopo com evidente franqueza. Estou completamente a leste disto tudo.

Foi a vez de o historiador respirar fundo. Olhou para o relógio que trazia no pulso e perdeu a última esperança que tinha de voltar ao aconchego da cama. Já passava das cinco. Tenha em atenção que a informação de que disponho carece de verificação. Se pretender, posso, mais tarde, fazer uma pequena pesquisa e dar-lhe dados mais fundamentados, repetiu a advertência. Comunicada a qualidade da informação, Jacopo recomeçou o seu relato. A partir de 1942 ou 1943, o Papa Pio XII deu ordens a todas as instituições religiosas que albergassem os refugiados de guerra sem olharem à religião. Deviam ser todos vistos como seres humanos. Milhares de pessoas foram acolhidas em mosteiros, conventos, famílias de acolhimento católicas, e onde quer que houvesse espaço. Maioritariamente judeus?, questionou Giorgio. Sim. No início, o Papa, especialmente em Roma, e por via do, na altura, monsenhor Montini, conseguiu negociar com o general das SS Reiner Stahel, que declarou a extraterritorialidade de todas as instituições religiosas. Aqui mesmo, no Vaticano, refugiaram-se milhares de judeus e o Papa esperava que todas as instituições, através desse acordo com Stahel, fossem tratadas de igual forma. Aqui os nazis nunca se atreveram a entrar sem serem convidados. Porém, os alemães, que não eram burros (?) nenhum, lembrou-se nesse momento que estava a falar com um, começaram a fazer inspecções nos mosteiros e nos conventos. Foi uma época muito perigosa. Resumindo, no final da guerra havia, para além dos órfãos, muitas crianças por reclamar». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Religião, Literatura, Reconhecimento, Actualidade, 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «4 de Janeiro de 2003, disse Rafael. Descoberta de um bloco de pedra calcária com inscrições em fenício antigo com um plano pormenorizado para a recuperação do primeiro templo judeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Rafael olhou para ele pela primeira vez. Dispensava a aula de História. Conhecia aquele argumento há décadas. Pagam-te para ensinar isso?, provocou com menosprezo. Depois de décadas de escavações, de sorrisos, de ilusões, de ansiedade, o que é que eles encontraram?, deixou a pergunta no ar, ignorando a ironia de Rafael. Jacopo fez , um círculo com o indicador e o polegar. Zero, proclamou triunfante. Nada. Nada?, questionou Rafael. Nada de nada, reiterou Jacopo. Não encontraram absolutamente nada que comprovasse um só facto narrado no Antigo e no Novo Testamento. E chegaram a outra conclusão: aparecem nomes de personagens e de locais na Bíblia de que nem gregos nem romanos alguma vez ouviram falar. Só são mencionados naquele livro e em mais lado nenhum.

4 de Janeiro de 2003, disse Rafael. Descoberta de um bloco de pedra calcária com inscrições em fenício antigo com um plano pormenorizado para a recuperação do primeiro templo judeu, o do rei Salomão. Foi encontrada no Monte do Templo, na cidade velha de Jerusalém. Ou Haram al Sharif, como lhe chamam os muçulmanos, acrescentou Jacopo visivelmente agradado. O fragmento datava da época do rei bíblico Joás, que reinou há mais de 2500 anos. Se és tão versado na Bíblia então deves recordar-te do capítulo 12, dos versículos 4, 5 e 6, mais especificamente, do Segundo Livro dos Reis, onde se relata que Joás, rei de Judá, ordenou que juntassem todo o dinheiro recolhido no templo para ser utilizado na sua reparação. Alegadamente, proferiu Jacopo com um sorriso. Nunca me deixaram ver tal descoberta. Nem houve mais notícias.

1961, prosseguiu Rafael. A escavação de um anfiteatro antigo, mandado erigir por Herodes, o Grande, em Cesareia, no ano 30 antes de Cristo Nosso Senhor, revela um bloco de calcário, aceite como autêntico. Nele encontra-se uma inscrição parcial. Jacopo e Rafael citam-na ao mesmo tempo.

DIS AUGUSTIS TIBERIEUM

PONTIUS PILATUS

PRAEFECTUS IUDAEAE

FECIT DEDICAVIT.

Jacopo aplaude a sorrir. A Pedra de Pilatos. Um aplauso, caro senhor. Só comprova a existência de Tibério e Pilatos, que nunca esteve em dúvida, e confirma que o posto de Pôncio Pilatos era de prefeito, ou seja, governador e não procurador, argumentou Jacopo. Tens mais? É um trabalho em evolução. Não esqueças que estamos a falar de milénios de história em cima de história em curso. Mas nunca se sabe quando poderão aparecer novos elementos e tu, melhor que ninguém, sabes como é um trabalho moroso. Jacopo levantou os braços e abriu as mãos. Voltem sofistas. Estão perdoados.

Uma chuva miudinha acolheu-os assim que puseram o pé no exterior do terminal, limpando-lhes o rosto e agarrando-se à roupa. Que raio de tempo, protestou Jacopo. A Sûreté enviara um carro para os levar ao local onde Zafer fora encontrado por um drogado que procurava um local privado para subir às alturas. Em vez disso encontrou um velho estendido no chão, inerte, de barriga para baixo, sem vida. O armazém ficava a norte da cidade, longe do bulício turista, das luzes que lhe davam o epíteto. Um conjunto de projectores, alimentados por um gerador que fazia um ruído monumental, iluminava o exterior e interior do armazém. O cadáver já tinha sido recolhido durante a tarde. A perícia recolhera todos os elementos que pudessem revelar mais sobre o criminoso, porque o resto fora bastante claro. Zafer fora atraído ao local de livre e espontânea vontade, levara uma tareia e, por fim, uma injecção de prussiato acabara com o seu sofrimento. Algumas pessoas, vestidas à civil, vagueavam pelo local em algum afazer descontextualizado para quem estava de fora. Outras apenas conversavam sobre o jogo da selecção gaulesa, antevendo o final do longo dia de trabalho.

Rafael Santini?, chamou um homem de gabardina creme e cigarrilha na boca. Rafael foi retirado do mundo de probabilidades e especulações onde estava e levantou-se. O próprio. O senhor é o inspector Gavache? Efectivamente. Estendeu a mão a selar o conhecimento entre dois desconhecidos». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade, 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Tarcísio optou novamente pelo relato conciso e frio dos elementos, por muito que lhe custasse»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) O Statu Quo foi quebrado, atirou, levantando o olhar para um ponto qualquer na parede que tinha um quadro grande do Sumo Pontífice numa expressão neutra. Aguardou a reacção do austríaco. Desenvolve, foi a única resposta, com o sotaque germânico a sobrepor-se ao italiano, normalmente correcto. Tarcísio precisava mesmo da mente aguçada e lúcida do amigo. Nenhuma solução se apresenta sem que tenhamos todos os dados na nossa mão. Tarcísio optou novamente pelo relato conciso e frio dos elementos, por muito que lhe custasse.
Mataram o Aragonês, o Zafer, o Sigfried está desaparecido, assim como o Ben Isaac e o filho, disparou os nomes e os factos à queima-roupa como se mencioná-los o livrasse deles e os transferisse para Schmidt. Sentiu-se egoísta durante uns instantes, mas logo passou. Quando morreram?, questionou Schmidt não transmitindo qualquer emoção. Se os conhecia não transpareceu. Durante a semana. Aragonês no Domingo, Zafer na terça, o Sigfried desapareceu na quarta. Desconhecemos há quanto tempo desapareceu o clã Isaac. Desapareceu a família inteira?, quis saber Schmidt. Sim. O casal e o herdeiro, completou Tarcísio. Quem tens a tratar disso? O nosso oficial de ligação com o SISMI e um enviado especial. Quem? O padre Rafael. Lembras-te dele? Claro que sim. Muito competente. Não precisas de mim, argumentou o austríaco. O assunto está em boas mãos.

Tarcísio não parecia tão convencido. Aliás, antes pelo contrário. Estava alvoroçado e agitado. Batia com um pé no chão como se estivesse ligado à corrente. Se isto nos explode na cara... A Igreja sempre sobreviveu a tudo e a todos, proferiu Schmidt. Não vejo razões para que não sobreviva agora. Não vês? Andam atrás de documentos importantes. Documentos que comprovam que... Que não comprovam nada, contrapôs o austríaco. Não se sabe quem os escreveu nem por que motivos. São apenas palavras. A ordem das palavras fere e mata, atalhou Tarcisio. As palavras têm a força que lhes dermos, discordou Schmidt sem alterar o tom de voz. É isso que defendes agora? Nada precisa da minha defesa. Muito menos a Igreja. Tarcísio levantou-se irritado e começou a andar de um lado para o outro com as mãos atrás das costas. Estamos em guerra, Hans. Estamos em guerra há 2000 anos. Sempre ouvi falar nessa guerra e, no entanto, nem sequer temos exército, ironizou Schmidt.
Não consegues ver o que acontecerá se mãos alheias conseguirem os documentos? Se bem recordo, o Papa Roncalli acautelou esse cenário. O acordo… O acordo acabou, interrompeu Tarcísio, levantando as mãos ao céu. Previa uma duração de 50 anos. Terminou há dias.

Eu sei, Tarcisio. Mesmo assim não acredito que Ben Isaac se aproveitasse dos docu... Por que não? O acordo acabou. Pela primeira vez o padre austríaco olhou-o apreensivo. Porque eu conheci-o aquando da renovação do acordo. Ben Isaac poderá ser vítima, nunca vilão, afirmou o austríaco peremptório. Isso foi há 25 anos. Viste-o duas ou três vezes. Não esqueçamos que ele é..., judeu, disse-o como se se tratasse de uma falha profunda. Nós rezamos a um judeu, Tarcísio. Não é a mesma coisa, desculpou-se o cardeal. Não vejo como possa ser diferente. Ele nunca conheceu outra religião. Jesus fundou a Igreja Católica. Tarcísio, por favor. És o cardeal mais influente da Igreja Católica Apostólica Romana, actualmente. Jesus nunca conheceu a Igreja Católica ou qualquer outra herdeira do nome Dele. Nunca a fundou e, muito menos, pediu que a construíssemos.
O assunto desconfortava Tarcísio. Era um ponto de afastamento entre os dois homens. Exasperava-o este pensamento demasiado livre de Schmidt, só lhe arranjara problemas. Relembrara justamente que essa era a principal razão para que o amigo se encontrasse em Roma nesta noite. Tornou a sentar-se e deixou que o silêncio se espraiasse pelo gabinete. Hans permanecia imóvel, de perna cruzada, o Austrian Eis, imperturbável. Estás preparado para amanhã?, acabou por perguntar Tarcísio. Ver-se-á quando o amanhã vier. Não te vou poder ajudar perante a congregação, Hans. Lamento, avisou o outro desajeitadamente. Lamentava genuinamente». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 22 de abril de 2020

El Director. David Jiménez. «Bien, bien… Todo eso está muy bien, pero pronto entenderás que, en el mundo real, las cosas no son tan fáciles. Yo te voy a ayudar en todo. Sabes?»

Cortesia de wikipedia e jdact

El Despacho
«(…) Y, sin embargo, en contra de lo que pensaba entonces, no sería en aldeas de Afganistán, revueltas en Birmania o entre las ruinas de Sumatra donde más a prueba se iba a poner mi idea de lo que debía ser un periodista, sino en ese despacho desde donde me disponía a disfrutar de inmejorables vistas al poder y lo que este hace a las personas. Conspiraría y traicionaría como había visto hacer a otros por conservar mi pequeña parcela? Confundiría mis intereses con el proyecto noble y necesario que era un periódico? Me convertiría, también yo, en uno de ellos? En mi discurso de presentación ante la redacción recordé mis dificultades para acceder al periódico y dije que no me parecía mala idea que los guardias de seguridad me pararan todos los días antes de entrar, preguntándome quién era y a qué venía. Quizá me ayudaría a recordar que solo era un periodista, no un gerente o un político, y que si mi trasero se acomodaba excesivamente en mi nuevo sillón me convertiría en uno de los segundos. Admití las inconveniencias de mi elección como director, no conocía a muchos de mis compañeros, no tenía contactos en España y sin duda había candidatos con más experiencia, pero me comprometí a aprender rápido y dejé caer la ventaja que quizá compensaba aquellas carencias. Había llegado al puesto sin deberle un favor a nadie. Y sin que nadie me lo debiera a mí.
El día que salga por esa puerta,dije, mi mochila estará igual de ligera que hoy. Terminé mi discurso prometiendo que mi lealtad estaría siempre con mis periodistas y con los lectores y, sin haberlo preparado, me giré hacia los directivos que me flanqueaban diciendo que esse compromiso estaba también por encima de ellos. El Cardenal cambió el gesto y lo recompuso rápidamente con una sonrisa forzada. Aquella misma tarde, en nuestra primera reunión en su despacho de La Segunda, se mostró amable y condescendiente al censurar mi intervención: créeme que entiendo todo lo que has dicho y me parece inteligente, porque ahora es importante que te ganes a la gente y era lo que tenías que decir. En realidade,dije, creo todo lo que les he dicho.
Bien, bien… Todo eso está muy bien, pero pronto entenderás que, en el mundo real, las cosas no son tan fáciles. Yo te voy a ayudar en todo. Sabes?, dije aparcando una discusión que me parecía prematura. Nunca pensé que fueras a tener los huevos. Los huevos? Sí, para traerme. Para hacer la revolución en un diario de la prensa tradicional. Nadie en este país se ha atrevido a hacer nada parecido. El Cardenal sonrió, sin ocultar que le había agradado el comentario: eso es porque no me conoces todavía. Estamos juntos en esto, no lo olvides. Si lo piensas bien, yo estoy más en tus manos que tú en las mías. Eres mi última bala.
Lo que El Cardenal trataba de decirme era que, si las cosas tampoco le salían bien conmigo, los propietarios italianos pedirían su cabeza, no la mía. Había despedido a los dos anteriores directores en menos de dos años, pagando una fortuna en indemnizaciones y desestabilizando el periódico. No sería fácil culpar a un tercero de que las cosas siguieran marchando mal. En realidad, nadie que conociera la historia de la empresa podía aspirar a sobrevivir al nuncio de Milán. Había salido airoso de todas las crisis, ganado todas las batallas internas y eliminado a todos sus rivales, reales e imaginarios, para mantenerse al frente entre olas de despidos, amenazas de bancarrota y asedios políticos. Y todo lo había hecho sin arrugarse el traje, sin una salida de tono o un mal gesto com nadie, operando y deshaciéndose de sus adversarios con la discreta opacidad de un cardenal, encontrando siempre una salida al laberinto de intrigas en el que los demás se perdían. La broma que circulaba por la redacción era que, en caso de apocalipsis nuclear, al día siguiente abriríamos con un titular a cinco columnas: sobrevivieron las cucarachas y El Cardenal». In David Jiménez Garcia, El Director, Libros del KO, SLL, 2019, ISBN 978-841-767-809-8.

Cortesia de LibrosdelKOSLL/JDACT

quarta-feira, 4 de março de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Tarcísio sentou-se ao seu lado. Estavam no seu gabinete, o que para Schmidt era uma novidade, nunca ali havia entrado. Muito espaçoso, uma grande secretária de carvalho…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) A curiosidade jornalística sobrepôs-se ao temor. Calçou-se e pegou no casaco. Já venho. Queres que vá contigo?, voluntariou-se o deus italiano. Sarah fitou o jovem clérigo e analisou-o durante uns instantes. Não. Está tudo bem. Desceram no elevador até ao piso da recepção. Já era noite. Olhou em redor e não viu ninguém. Nem na recepção, que costumava ter sempre alguém atrás do balcão pronto para atender ao hóspede mais incauto ou curioso, estava alguém. Parecia um hotel despido de vida. Como se o mundo tivesse parado durante alguns instantes e fosse desprovido de gente. Sarah e o clérigo não trocaram uma palavra. Ela preferia assim e era um favor que fazia à sua escolta a quem o silêncio também agradava. Cumpria as ordens escrupulosamente e não desejava ser interrogado sobre coisas que não devia, ou não podia, mencionar. Saíram para o exterior. Estava frio, mas não desagradável. Tolerava-se. Pensava em Rafael. Seria ele quem a convocara? Não podia ser mais ninguém. Por essa razão estava tão despreocupada. Não era suficientemente importante para despertar o interesse de jovens clérigos mudos. O carro estava em frente ao hotel, ao fundo das escadas. Um Mercedes de vidros fumados.
O jovem padre abriu a porta do veículo e Sarah olhou para o interior. O queixo caiu-lhe. Dentro, confortavelmente sentado, a saborear um charuto, um homem de vestes escarlates, cruz de ouro a pender no peito, segurava no colo a calota cardinalícia. Boa noite, Sarah Monteiro, cumprimentou.

As conversas entre amigos são contínuas. Ainda que fiquem anos apartados retomam-nas sempre no ponto em que ficaram, empenhando a experiência adquirida no entretanto. As grandes amizades não carecem de comunicação constante e ininterrupta, podem mesmo não dizer nada um ao outro entre encontros que quando se tornam a ver a sensação é a de que se tinham visto no dia anterior. O dia anterior em certas amizades podia ter sido há três anos e meio. Hans Schmidt e Tarcísio fruíam desse género de amizade. Um abraço apertado seguiu-se ao cumprimento entre as mãos direitas. Depois dois beijos. Tarcísio deixou os olhos encherem-se de lágrimas, mas nenhuma se atreveu a descer pelo rosto. Schmidt não chegou a tanto, mas isso não queria dizer que não tivesse saudades do amigo, simplesmente mostrava menos. Daí que sempre tenha sido chamado de Austrian Eis. Como estás, meu querido?, perguntou Tarcísio com um sorriso. Como Deus quer, respondeu o austríaco fitando o piemontês. Senta-te, senta-te, pediu Tarcísio, apontando para um sofá de couro castanho com décadas. Deves estar cansado. Fizeste boa viagem? Muito agradável, disse Schmidt, acatando a oferta de Tarcísio e deixando o corpo repousar no sofá. Cruzou a perna. Sem atrasos, sem percalços.

Tarcísio sentou-se ao seu lado. Estavam no seu gabinete, o que para Schmidt era uma novidade, nunca ali havia entrado. Muito espaçoso, uma grande secretária de carvalho junto a uma das amplas janelas que estavam fechadas a separá-los da noite romana. O silêncio instalou-se constrangedor. Os cartuchos da conversa circunstancial estavam quase esgotados. Jantaste? Queres comer alguma coisa?, ofereceu Tarcísio. Estou bem, Tarcísio, obrigado. Schmidt sempre fora muito frívolo. Raramente sentia fome, por vezes, nos tempos em que estava colocado em Roma, parecia-lhe há séculos, esquecia-se de comer. Chegou a desmaiar de fraqueza por causa disso. O austríaco era obstinado e dedicava-se com afinco à tarefa ou tarefas que lhe tivessem sido imputadas, fosse nos estudos ou, posteriormente, nas funções pastorais. Durante alguns anos esteve arredado dessas funções que lhe davam tanto prazer, auxiliando Tarcísio com deveres mais administrativos e episcopais que entendia serem necessários, mas não o preenchiam. Fosse como fosse, gostasse ou não, sempre as executou com muita proficiência. Tarcísio tinha um enorme apreço pelo homem e pelo clérigo e, um ainda maior, pelo amigo. Vamos falar do teu problema?, inquiriu Schmidt. A sua abordagem aos problemas era simples e directa, não os evitava, nem lhes virava as costas, se existiam tinham de ser solucionados imediatamente para não avassalarem sobre nós mais tarde. Deus protegia os audazes. Tarcísio olhou para o chão à procura das palavras correctas que teimavam em fugir-lhe como água pelos dedos. Decidiu ser directo como o amigo. Schmidt não o permitiria de outra maneira». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Olhou para o rosto e limpou-lhe os olhos marejados. Beijou-a na testa. Sarah olhou-se ao espelho, libertou-se do abraço de Francesco…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) No quarto do Grand Hotel Palatino Sarah sentiu-se indisposta. Por várias vezes as náuseas subiram à boca, ocas, sem conteúdo. Puxava o vómito sentada no chão do quarto de banho com a cabeça no rebordo da sanita. Nada. Francesco assistia impotente. Queres que chame um médico?, perguntou preocupado. Não. Isto já passa, respondeu ela preparando-se para puxar novamente. Não lhe dissera que isto já não era de agora. Os sintomas já se vinham fazendo sentir desde Londres. Vou pedir um chá quente. Vai-te fazer bem. Pegou no auscultador do telefone que tinha no interior do quarto de banho. Sim. Faz isso. Obrigada. E puxou pelo vómito que não trazia nada. Uma aflição oca, um mal-estar vazio. Ai. Que raio, lamentou-se. Francesco fez o pedido e pousou o auscultador. Depois aninhou-se e abraçou Sarah. Queres ir para a cama?, inquiriu carinhosamente. Deixa só ver se isto já acalmou. Sarah sabia que acalmava sempre. Durava alguns minutos e depois era como se nada tivesse acontecido. Francesco fitou a namorada, debruçada sobre a sanita como alguém que se embriagara toda a noite. Não deixava de sentir um enternecimento, uma necessidade de a fazer sentir-se bem. Fitou-a seriamente. Sarah, disse a medo. Sei que não é o momento propício, mas talvez fosse melhor irmos a uma farmácia, contemplou a reacção dela. Porquê? O enjoo acalmara.
Sabes muito bem porquê, querida. Sorriu. Não temos propriamente sido castos nos últimos tempos. Sarah nem sequer queria pensar nisso. Uma gravidez não estava nos seus planos neste momento. Não que tivesse alguma coisa contra Francesco, nada disso, ele seria um pai exemplar, mas... Vou ao médico quando regressarmos, propôs ela. Tens a certeza? Francesco mirava-a com ar condescendente. Sim, tenho. Depois de amanhã resolvemos isso. Ajuda-me a levantar, por favor. Francesco elevou-se puxando-a consigo e abraçou-a com força. Estou contigo para o que der e vier. Não te deixarei ir para comprar cigarros, pronunciou a sorrir. Sarah comprimiu-se de encontro ao peito dele e fechou os olhos. Uma lágrima derramou-se na camisa de Francesco. Sentia-se perdida, e apesar do italiano lindo que lhe afiançava o amor, sentia-se sozinha, sem ninguém que a amparasse... Excepto Francesco, o deus italiano, de Ascoli que oferecera o seu coração à luso-britânica. Nesse momento ouviu-se uma pancada leve na porta.
Deve ser o serviço de quartos, disse Francesco. Estás bem, querida? Olhou para o rosto e limpou-lhe os olhos marejados. Beijou-a na testa. Sarah olhou-se ao espelho, libertou-se do abraço de Francesco e colocou as duas mãos sobre o lavatório, fitando-se, as imperfeições, os olho vermelhos, a lividez do rosto. Estou bem, Francesco. Atendes por favor? Vou só lavar o rosto, pediu continuando a avaliar-se ao espelho. Claro. O deus italiano anuiu e foi abrir a porta onde alguém tornara a bater com um pouco mais de força. Já vai, gritou em italiano antes de sair do quarto de banho. Sarah massajou os olhos com os dedos na esperança que quando os abrisse novamente visse outra mulher à sua frente. Outra cor. Nova disposição. Vontade de seguir em frente. Aquela vontade férrea que a acompanhava quando deixou Rafael no bar há seis meses e passou assim que a fúria e a raiva se esfumaram. Ele deixara-a seguir o seu caminho. Não tornara a ligar, nem a procurá-la. A protecção que Rafael lhe conferia dissolveu-se. Tinha saudades dele, mesmo dos silêncios prolongados. Quando olhava pela janela e não o via, mas sabia que ele andava por ali, como um anjo-da-guarda. Tudo isso terminara há seis meses, depois daquela conversa de um só sentido no Walker's Wine and Ale Bar. Estaria em Roma ou em alguma missão perigosa por esse mundo? Às vezes dava por si a pensar nisso. Apetecia-lhe ligar para ele. Saber como estava. Se estava tudo bem na paróquia dele, como corriam as aulas na universidade. E depois caía em si... E no ridículo da situação. Olá Rafael Queria saber se estás bem. E os meninos na tua paróquia? Os teus alunos? Olha, ainda te amo.
Toda essa diarreia mental parou com a voz de Francesco que vinha do quarto. Ah! Acho melhor vires aqui, Sarah. Sarah passou água pelo rosto e enxugou-o com uma toalha. Foi ao quarto e viu Francesco à porta. O que foi? Acercou-se da porta e viu um prelado jovem, batina negra, tez negra, expressão circunspecta. É para ti, explicou Francesco. Boa noite, cumprimentou Sarah. Boa noite, menina Sarah. Pediram-me que viesse buscá-la. Pediram-lhe? Quem pediu? Que coisa mais estranha. Não estou autorizado a revelar. Lamento, desculpou-se o jovem padre». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Sabes muito bem porquê, querida. Sorriu. Não temos propriamente sido castos nos últimos tempos. Sarah nem sequer queria pensar nisso. Uma gravidez…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) No quarto do Grand Hotel Palatino, Sarah sentiu-se indisposta. Por várias vezes as náuseas subiram à boca, ocas, sem conteúdo. Puxava o vómito sentada no chão do quarto de banho com a cabeça no rebordo da sanita. Nada. Francesco assistia impotente. Queres que chame um médico?, perguntou preocupado. Não. Isto já passa, respondeu ela preparando-se para puxar novamente. Não lhe dissera que isto já não era de agora. Os sintomas já se vinham fazendo sentir desde Londres. Vou pedir um chá quente. Vai-te fazer bem. Pegou no auscultador do telefone que tinha no interior do quarto de banho. Sim. Faz isso. Obrigada. E puxou pelo vómito que não trazia nada. Uma aflição oca, um mal-estar vazio. Ai. Que raio, lamentou-se. Francesco fez o pedido e pousou o auscultador. Depois aninhou-se e abraçou Sarah. Queres ir para a cama?, inquiriu carinhosamente. Deixa só ver se isto já acalmou. Sarah sabia que acalmava sempre. Durava alguns minutos e depois era como se nada tivesse acontecido. Francesco fitou a namorada, debruçada sobre a sanita como alguém que se embriagava todas as noites. Não deixava de sentir um enternecimento, uma necessidade de a fazer sentir-se bem. Fitou-a seriamente. Sarah, disse a medo. Sei que não é o momento propício, mas talvez fosse melhor irmos a uma farmácia, contemplou a reacção dela. Porquê? O enjoo acalmara.
Sabes muito bem porquê, querida. Sorriu. Não temos propriamente sido castos nos últimos tempos. Sarah nem sequer queria pensar nisso. Uma gravidez não estava nos seus planos neste momento. Não que tivesse alguma coisa contra Francesco, nada disso, ele seria um pai exemplar, mas...
Vou ao médico quando regressarmos, propôs ela. Tens a certeza?, Francesco mirava-a com ar condescendente. Sim, tenho. Depois de amanhã resolvemos isso. Ajuda-me a levantar, por favor. Francesco elevou-se puxando-a consigo e abraçou-a com força. Estou contigo para o que der e vier. Não te deixarei ir para comprar cigarros, pronunciou a sorrir. Sarah comprimiu-se de encontro ao peito dele e fechou os olhos. Uma lágrima derramou-se na camisa de Francesco. Sentia-se perdida, e apesar do italiano lindo que lhe afiançava o amor, sentia-se sozinha, sem ninguém que a amparasse... Excepto Francesco, o deus italiano, de Ascoli que oferecera o seu coração à luso-britânica. Nesse momento ouviu-se uma pancada leve na porta. Deve ser o serviço de quartos, disse Francesco. Estás bem, querida?
Olhou para o rosto e limpou-lhe os olhos marejados. Beijou-a na testa. Sarah olhou-se ao espelho, libertou-se do abraço de Francesco e colocou as duas mãos sobre o lavatório, fitando-se, as imperfeições, os olho vermelhos, a lividez do rosto. Estou bem, Francesco. Atendes por favor? Vou só lavar o rosto, pediu continuando a avaliar-se ao espelho. Claro. O deus italiano anuiu e foi abrir a porta onde alguém tornara a bater com um pouco mais de força. Já vai, gritou em italiano antes de sair do quarto de banho. Sarah massajou os olhos com os dedos na esperança que quando os abrisse novamente visse outra mulher à sua frente. Outra cor. Nova disposição. Vontade de seguir em frente. Aquela vontade férrea que a acompanhava quando deixou Rafael no bar há seis meses e passou assim que a fúria e a raiva se esfumaram. Ele deixara-a seguir o seu caminho. Não tornara a ligar, nem a procurá-la. A protecção que Rafael lhe conferia dissolveu-se. Tinha saudades dele, mesmo dos silêncios prolongados. Quando olhava pela janela e não o via, mas sabia que ele andava por ali, como um anjo-da-guarda. Tudo isso terminara há seis meses, depois daquela conversa de um só sentido no Walker's Wine and Ale Bar. Estaria em Roma ou em alguma missão perigosa por esse mundo? Às vezes dava por si a pensar nisso. Apetecia-lhe ligar para ele. Saber como estava. Se estava tudo bem na paróquia dele, como corriam as aulas na universidade. E depois caía em si... E no ridículo da situação. Olá Rafael Queria saber se estás bem. E os meninos na tua paróquia? Os teus alunos? Olha, ainda te amo. Toda essa diarreia mental parou com a voz de Francesco que vinha do quarto. Ah! Acho melhor vires aqui, Sarah. Sarah passou água pelo rosto e enxugou-o com uma toalha. Foi ao quarto e viu Francesco à porta. O que foi? Acercou-se da porta e viu um prelado jovem, batina negra, tez negra, expressão circunspecta. É para ti, explicou Francesco. Boa noite, cumprimentou Sarah. Boa noite, menina Sarah. Pediram-me que viesse buscá-la. Pediram-lhe? Quem pediu? Que coisa mais estranha. Não estou autorizado a revelar. Lamento, desculpou-se o jovem padre.
A curiosidade jornalística sobrepôs-se ao temor. Calçou-se e pegou no casaco. Já venho. Queres que vá contigo?, voluntariou-se o deus italiano. Sarah fitou o jovem clérigo e analisou-o durante uns instantes. Não. Está tudo bem. Desceram no elevador até ao piso da recepção. Já era noite. Olhou em redor e não viu ninguém. Nem na recepção, que costumava ter sempre alguém atrás do balcão pronto para atender ao hóspede mais incauto ou curioso, estava alguém. Parecia um hotel despido de vida. Como se o mundo tivesse parado durante alguns instantes e fosse desprovido de gente». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «Niklas desorientou-se um pouco, mas Luka colocou-lhe uma mão possante no ombro e indicou-lhe o caminho. Por aqui. Atravessamos ali à frente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Alguns filamentos brancos emprestavam ao cabelo um ar grisalho que lhe assentava bem. Era o encanto dos 45 anos que para ele lhe era indiferente, mas fazia as mulheres olharem uma segunda vez para se desiludirem com aquele friso branco no colarinho, o cabeção, sinal de relação, pretensamente exclusiva, com Deus Pai Todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra. Caminhava a passos firmes, senhores de si, que faziam os cabelos loiros do pupilo, com metade da idade, arrepiarem-se de reverência e temor. Lembra-te, Niklas, avisou Luka com uma sedutora voz tonitruante, não lhe dirijas a palavra a não ser que ele ta dirija a ti. Certamente, professor, respondeu, sumido, o jovem. As vielas ao entardecer perdiam as pessoas. Restavam turistas, a maioria de mochila às costas, roupas descomprometidas com casacos por cima, máquina fotográfica pronta a disparar e olhos de estupefacção. A luz alaranjada do sol moribundo que se dignara aparecer naquele dia sem aquecer os corpos tingia as fachadas dos edifícios de um tom encantador, carregado de impressões, que hipnotizava os estrangeiros que passavam. Apesar de estrangeiros, Luka e Niklas não eram turistas, e passavam indiferentes. Prosseguiam a caminhada tenaz com passos gigantes, mais o primeiro, que obrigava o mais novo a esticar bem as pernas para o acompanhar. Viraram à esquerda na Via dei Santi Apostoli e percorreram os poucos metros da rua para depois virarem à direita na Via Cesare Battisti. Seguiram em frente, passando a Piazza Venezia, entraram na Via del Plebiscito, ignorando o colégio da Companhia de Jesus, que ficava do lado esquerdo, e a Igreja de Jesus, na piazza com o mesmo nome, que se erguia ao fundo, e desembocaram no concorrido Corso Vittorio Emanuele II, onde ainda havia bastante trânsito. Faltavam vinte minutos para as sete da tarde. Seriam precisas mais algumas horas para esvaziar as principais artérias da cidade dos milhares de veículos que as entupiam durante o dia.
Niklas desorientou-se um pouco, mas Luka colocou-lhe uma mão possante no ombro e indicou-lhe o caminho. Por aqui. Atravessamos ali à frente. Referia-se a uma passagem para peões a cerca de cem metros. Os homens de Deus seguiam, prudentemente, as regras dos homens…, quase sempre ou sempre que podiam, assim Deus o permitisse. A mão no ombro guiava Niklas, como uma orientação divina, mostrando-lhe o trilho do Senhor, que muito precisaria assim que soubesse para onde se dirigiam. Apesar do temor reverencial sentia-se bem com ele, ou não fosse Luka o seu tutor. Atravessaram a movimentada rua na passagem para peões que Luka indicara e prosseguiram no mesmo sentido, o do Largo di Torre Argentina. Uma vez lá, meteram pela Via del Sudario, junto ao terminal do eléctrico, uma viela estreita que findava na Piazza Vidoni. Depois voltaram à direita, retornando ao Corso Vittorio Emanuele II.
Cravada como se sempre ali tivesse estado erguia-se imponente a Basílica de Sant’Andrea della Valle, com a fachada barroca a apontar para o céu. E a verdade é que pernoitava naquele exacto local, na Corso Vittorio Emanuelle II, defronte para a piazza com o mesmo nome da basílica, há cerca de 350 anos e vira aquela rua ter outros nomes antes deste, enquanto a sua estrutura permanecia imutável, apenas consumida pelo tempo, como hoje. Luka e Niklas subiram os seis degraus até à porta verde. Niklas tentou abri-la. Estava trancada. Está fechada. Não para nós, murmurou Luka enquanto olhava em redor para o movimento da rua. Em seguida, cerrou o punho e bateu duas vezes com vigor. Uma. Duas. Luka voltou a desviar a sua atenção para a rua, ignorando a porta da basílica. E agora, professor?, perguntou Niklas, a medo. Agora esperamos, respondeu o padre alemão sem fitar o jovem.
Duas mulheres, na casa dos 30 anos, passaram e lançaram um sorriso a Luka que lhes retribuiu. O fruto proibido…, sibilou, entre dentes, em alemão. Buon pomerigio, senhor padre. Niklas evitou olhar para as mulheres. Um ressentimento antigo. Provavelmente alguma delas, não estas, terá sido a responsável pelo seu apego à batina e pela oferta do seu coração a Deus Nosso Senhor, ou então não queria simplesmente cair em tentação. Ainda era muito novo para quebrar o voto de castidade que todos vinculava a esta provação celibatária. Terão ouvido, professor? Niklas referia-se à porta da basílica e às pancadas que Luka havia dado na madeira. Nesse preciso momento, ouviu-se a tranca rabujar com a ferrugem. Um homem de idade, descabelado e mal-encarado, surgiu do interior». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «Não havia rasto de nenhum teatino, os membros da ordem que se encarregava de zelar pelo local. Olhou em redor e aproveitou o momento»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No primeiro dia, milagrosamente para os padrões romanos, encontrou lugar para estacionar a poucos metros do edifício. Se o Francês fosse um homem de fé poderia pensar que seria um bom augúrio mas nem ele o era nem se passou nada de especial além da habitual espera. No segundo dia optou por não levar o Mazda. Andou a pé, vigiou as imediações, fingindo, outra vez, ser mais um dos muitos turistas que por ali passavam. Tirou fotografias, atentou na porta de entrada mas não entrou e depois foi, efectivamente, passear. Neste terceiro dia jogara pelo seguro. Substituíra o Mazda por um Alfa Romeo e deixou o hotel a meio da tarde. Às seis e meia já estava estacionado a cerca de cem metros do edifício. A cidade fervilhava com o movimento turístico característico. Inúmeras carrinhas e alguns camiões enchiam as artérias romanas para os provimentos vespertinos. Nada podia faltar às lojas que se esvaziavam a todas as horas do dia. Roma era uma cidade buliçosa e queria estar sempre composta para agradar a todos os seus visitantes. Alheio a tudo isto, o Francês observou a entrada do edifício, como nos dias anteriores. Os turistas ainda eram muitos. Deambulavam a espaços, admirando as fachadas e evitando os condutores mais impacientes que poluíam o ar da cidade, indiferentes aos afazeres dos outros, muito menos importantes que os seus.
Os minutos foram lentos a tornar-se em horas. O Francês comeu uma sanduíche que comprara na noite anterior e bebeu água. A alimentação era totalmente descurada quando estava a cumprir um contrato. Ossos do ofício. Em breve, poderia tornar a dar largas à sua paixão. Até lá, tinha de tolerar o frio e a fome. O combinado era entrar na igreja ao fim da tarde e assim fez. O cliente corrigi-lo-ia se o ouvisse ou perscrutasse os seus pensamentos. Não era uma igreja mas uma basílica. E discorreria sobre as diferenças entre uma e outra, mais as de permeio, como uma igreja ser um templo com mais de um altar, ao contrário de uma capela que só tem um, e muito diferente de uma basílica que é um edifício grande, como este, com uma nave larga, com naves laterais, fileiras de colunas, uma abside semicircular. Não esqueceria de mencionar as catedrais, abadias e santuários. Repetiria as vezes que fossem necessárias até que a informação lhe assentasse no cocuruto, até que a soubesse repetir de cor. Errar era morrer, literalmente, e libertar um homem do erro era dar e não tirar, pois o erro fazia mal e prejudicaria o homem que o abrigasse, mais cedo ou mais tarde. Entrou na basílica como combinado. Desta vez trazia uma mochila comprida às costas, em vez da máquina fotográfica, com as alças enfiadas nos ombros, como se fosse um estudante a caminho da escola.
Os últimos turistas admiravam a fachada barroca, fruto da voluntariedade da duquesa de Amalfi, cujo patrono familiar era o mesmo Andrea que dava nome à basílica. Caminhou até ao altar e observou a imensa nave central, um espaço tão amplo onde caberiam milhares de pessoas. O cliente fora claro. Do lado direito, de quem olha para a nave central a partir do altar. Para que não restassem dúvidas, relembrou as palavras exactas que lhe havia dito, com a habitual voz pausada, no último telefonema. Na sua profissão não havia lugar a mal-entendidos; eram fatais. Os últimos turistas encaminhavam-se, lentamente, para a saída. Não havia rasto de nenhum teatino, os membros da ordem que se encarregava de zelar pelo local. Olhou em redor e aproveitou o momento. Abriu a pequena porta e entrou. Por fora, o confessionário parecia muito mais pequeno. Dentro havia espaço para se sentar e ficar à vontade. Fechou a porta com cuidado para não levantar suspeitas e abriu a mochila em silêncio. Montou o mecanismo em poucos segundos e testou-o. Fora feito por si, manualmente, peça por peça, para poder ser usado em todas as situações. Entreabriu a porta. Uma menina de 10 anos atravessou a nave a correr, fazendo dela o seu imenso parque infantil. Da sua posição tinha um ângulo de visão de quinze metros para cada lado. Era mais que suficiente. A mãe veio buscá-la e deu-lhe a mão para se irem embora. A criança fez birra, tentando uma chantagem emocional que não resultou. O Francês agradeceu. Era melhor ela não andar por ali. A inocência, uma vez perdida, não podia ser recuperada e, pelo contrário, as trevas, uma vez contempladas nunca seriam esquecidas. O Francês era um censor, não um monstro. A birra continuava enquanto a mãe a puxava pelo braço em direcção à porta. O Francês assistiu a tudo isto pela mira telescópica. Ajustou o anel da objectiva e focou os alvos, a mãe e a filha, ensaiando o destino de uma e de outra de dentro do confessionário. Os ângulos estavam ajustados. O resto já não dependia dele. Agora só lhe restava esperar. O pior de tudo era a espera». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A Vida Secreta das Princesas Árabes. Jean Sasson. «Em certa ocasião, disse-me que a viagem representara o fim da sua juventude, pois era demasiado nova para compreender o que a esperava no final da longa deslocação»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A minha mãe casou com o meu pai aos doze anos. Ele tinha vinte. Estava-se em 1946 o ano em que a Segunda Guerra Mundial interrompera a produção petrolífera, O petróleo, a força vital da Arábia Saudita do presente, ainda não trouxera, na altura, grande riqueza à família de meu pai, os AISaud, no entanto o impacto que tinha sobre os seus membros fazia-se sentir em pequenos pormenores. Os chefes das grandes nações haviam começado a prestar vassalagem ao nosso rei. Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês, presenteara o rei Abdul Aziz com um luxuoso Rolls Royce. Verde-metalizado, com um banco traseiro que fazia lembrar um trono: o automóvel refulgia como uma jóia ao sol. Apesar de imponente, algo no automóvel o desiludiu nitidamente, pois o rei ofereceu-o, depois de o inspeccionar, a Abdullah, um dos seus irmãos preferidos. Abdullah, que era tio e amigo chegado de meu pai, colocou-lhe o automóvel à disposição para a sua viagem de lua-de-mel a Gidá. Ele aceitou, para grande deleite de minha mãe, que nunca conhecera semelhante meio de transporte. Em 1946 deixando para trás séculos incontáveis , o camelo era o meio de transporte habitualmente usado no Médio Oriente. Passar-se-iam três décadas antes de o saudita médio trocar o dorso de um camelo pelo conforto de um automóvel. Assim, os meus pais atravessaram alegremente o deserto, durante sete dias e sete noites, até chegarem a Gidá. Malogradamente, o meu pai, na sua pressa em partir de Riade, esquecera-se da sua tenda; este descuido e a presença constante de vários escravos levou a que o seu casamento só fosse consumado depois de chegarem a Gidá.
Aquela viagem poeirenta e cansativa tornou-se uma das recordações mais felizes de minha mãe. Depois dela, dividiu sempre a sua vida entre a altura anterior à viagem e a altura a seguir à viagem. Em certa ocasião, disse-me que a viagem representara o fim da sua juventude, pois era demasiado nova para compreender o que a esperava no final da longa deslocação. Seus pais haviam morrido durante uma epidemia de febre, deixando-a órfã aos oito anos. Aos doze casara com um homem temperamental, propenso a crueldades tenebrosas. Não estava preparada para fazer outra coisa na vida que não fosse servi-lo. Após uma breve estada em Gidá, meus pais regressaram a Riade, pois era aí que a família patriarcal dos AISaud dava continuidade à sua dinastia. O meu pai revelou-se um homem impiedoso, e, como não podia deixar de ser, minha mãe tornou-se uma mulher melancólica. A sua união trágica acabou por dar origem a dezasseis filhos, dos quais onze sobreviveram a infâncias perigosas. Hoje, as suas dez filhas levam vidas controladas pelos homens com quem casaram. O único filho sobrevivente, um importante príncipe e homem de negócios saudita com quatro esposas e numerosas amantes, leva uma vida de grande fausto e prazer.
As minhas leituras levaram-me a saber que sucessores mais civilizados de culturas antigas sorriem diante da ignorância dos seus antepassados, à medida que a civilização avança, o medo da liberdade individual é ultrapassado pelo esclarecimento. A sociedade humana apressa-se, ansiosamente, a ir ao encontro do saber e da mudança. Surpreendentemente, na terra dos meus antepassados pouco mudou desde há um milhar de anos. É certo que surgiram edifícios modernos, os cuidados de saúde mais avançados estão à disposição de todos, no entanto a consideração pelas mulheres e pela sua qualidade de vida continua a ser alvo de um encolher de ombros displicente. É incorrecto, porém, atribuir à nossa fé islâmica a responsabilidade pela posição subalterna que a mulher ocupa na nossa sociedade. Embora o Alcorão determine que a mulher vem a seguir ao homem, muito à semelhança da Bíblia, em que o homem é autorizado a exercer o seu domínio sobre a mulher, o nosso profeta Maomé só preconizou o bem e a justiça para quem pertence ao meu sexo. Os homens que vieram depois de Maomé é que preferiram seguir os costumes e tradições da Idade das Trevas, em vez de seguirem as palavras e o exemplo do Profeta. Este desprezava a prática do infanticídio, um costume vulgar no seu tempo, segundo o qual as famílias se livravam das meninas indesejadas. As próprias palavras do Profeta transmitem veementemente a sua preocupação perante a possibilidade de as mulheres serem alvo de maus tratos e indiferença: que Deus conceda o Paraíso a quem teve uma filha e não a enterrou viva nem a desprezou ou preferiu os filhos varões a ela». In Jean Sasson, A Vida Secreta das Princesas Árabes, 2012, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-674-1.

Cortesia de EASA/JDACT