Mostrar mensagens com a etiqueta Gordon Urquhart. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gordon Urquhart. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «Porque entrou?, seguida imediatamente de E porque saiu? A primeira pergunta é uma daquelas que continuei fazendo a mim mesmo um milhão de vezes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O meu interesse pessoal pelos novos movimentos eclesiais foi aceso, ou antes, foi reaceso, em fins de 1987. Católico de berço, só recentemente retornei à prática da fé, após um afastamento de dez anos. Um sínodo dos bispos católicos do mundo, celebrado em Roma em Outubro daquele ano, tinha posto em grande evidência a nova proeminência dos movimentos eclesiais; eles estavam sendo sondados pelo Vaticano como modelos do laicato pós-conciliar, para serem os protagonistas da Nova Evangelização de João Paulo. Relatos sobre os novos movimentos, apresentados durante o sínodo, exprimiam as suspeitas de muitos dos presentes. Sabia-se que estas organizações apoiavam com verdadeira paixão a nova centralização, exaltando a autoridade do papado de modo a efectivamente diminuir a autoridade dos bispos. Eles eram considerados por muita gente como de direita, a favor da linha do Vaticano em matéria de teologia e de moral. Havia, além disso, a certeza de que a imprensa não tinha conseguido atravessar o muro de segredo que circunda estas organizações. Isto explica o facto de a reacção diante dos movimentos ter sido muito mais uma atitude de perplexidade que de crítica. Os participantes pareciam perguntar-se qual era o motivo daquela confusão toda. Eu, pessoalmente, estava convencido de que os movimentos só poderiam ser conhecidos a partir do interior, de dentro deles.
Era uma convicção nascida da experiência. Durante nove anos, de 1967 a 1976, eu tinha vivido dentro do estranho mundo de espelhos de uma destas organizações: o Focolare. No que concernia àquele movimento particular, eu tinha a vantagem muito nítida de conhecer tudo por dentro; estava certo de que isto me forneceria a chave para outros movimentos, como CL e NC. Eu tinha alguns indicadores que me permitiam identificar certas coisas: culto de personalidade do líder; uma hierarquia disfarçada mas rígida; um sistema de comunicação interna extremamente eficiente; ensino secreto em diferentes estágios; uma vasta operação de recrutamento baseada em técnicas semelhantes às das seitas; doutrinação dos membros e ambições ilimitadas de influência na Igreja e na sociedade. O conhecimento íntimo que eu tinha de um movimento fornecia-me uma chave decisiva para os outros. E muito cedo comecei a identificar paralelos surpreendentes.
Mas, primeiramente, fui forçado a reexaminar um dos mais difíceis períodos de minha vida: minha própria filiação ao Focolare, a dramática ruptura com as suas estruturas e a longa e dolorosa recuperação, após tentar libertar-me de todas as marcas do movimento em mim. Desde a idade de 17 anos, em 1967, eu tinha sido um membro pleno do movimento, tendo chegado a fazer os votos de pobreza, castidade e obediência em 1974. Em 1972, juntamente com um membro mais antigo, havia fundado uma comunidade masculina do Focolare em Liverpool. Quando deixei a comunidade masculina de Londres, em 1976, depois de seguir todos os complicados trâmites e processos da saída, eu estava dirigindo a secção masculina de jovens do movimento no Reino Unido e na Irlanda (conhecida como a Gen, ou seja, a Nova Geração do Movimento), e era o editor da revista internacional do movimento, intitulada New City. Nem eu, nem os meus superiores podíamos supor que em seis meses o movimento teria perdido todo o poder que durante nove anos tinha adquirido sobre mim, nem que eu teria rompido todos os laços. Quando ingressei no movimento, era um católico devoto, de ir à missa todos os dias. Quando deixei, tinha chegado a identificar de tal maneira o movimento com a Igreja e com o próprio Deus, que abandonei inteiramente a prática da fé durante dez anos.
Os profanos, os de fora, não sabem o que acontece no interior dos movimentos, e, assim, ninguém pode oferecer nenhuma ajuda aos que tentam readaptar-se ao mundo real. Alguns ex-membros do Focolare que tive oportunidade de encontrar não tinham conseguido se libertar completamente da sua influência, mesmo depois de dez ou quinze anos de afastamento absolutamente total. A minha filiação teve repercussões por muitos anos. Quando comecei a ver a experiência com um certo grau de distanciamento e a discutir o problema com alguns amigos íntimos, as primeiras perguntas que eles me faziam eram invariavelmente as mesmas: Porque entrou?, seguida imediatamente de E porque saiu? A primeira pergunta é uma daquelas que continuei fazendo a mim mesmo um milhão de vezes, desde então. Agora mesmo, com a distância e com toda a vantagem de uma visão retrospectiva ampla, continua sendo uma pergunta que não é fácil de responder e que, por conseguinte, não parece valer a pena ser formulada». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «… os críticos dos movimentos a guardar silêncio, as tensões estão aumentando em várias áreas da Igreja e poderiam levar a cisões mais sérias, eventualmente até mesmo ao cisma»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O ponto essencial é que eles têm a virtude fora de moda da devoção fanática à Santa Sé. Eles proclamaram e aplaudiram freneticamente seu apoio em todas as apresentações públicas de João Paulo em todos os lugares do mundo; eles atenderam à convocação de todos os apelos do Papa e defenderam publicamente até as suas posições mais impopulares. Não levou muito tempo para o Papa descobrir que ali estava a força-tarefa de que necessitava. Disciplinados e militantes, os movimentos podiam perfeitamente ser a Armada do Papa. Naturalmente, tratava-se de uma via de mão dupla: os movimentos tinham muito a ganhar com este patrocínio de alto nível. Além disso, tanto eles quanto o Papa tinham em comum um mesmo problema: os bispos locais. CL e NC, em especial, tinham experimentado muitos conflitos em dioceses de todos os cantos do mundo. O Concílio havia reavivado o papel das igrejas locais e, em consequência, a autoridade dos bispos. O conceito de colegiado, ou seja, a autoridade dos bispos como corpo unido com o Papa, tinha sido enfatizado como uma espécie de contrapeso ao conceito de infalibilidade. João Paulo não formulava o problema exactamente nestes termos. Ele gastou toda a década de 1980 procurando manter sob o seu controle os bispos e os seus conselhos nacionais, as famosas Conferências Nacionais de Bispos. A centralização era um conceito sobre o qual os movimentos sabiam muita coisa. Nas suas próprias estruturas, eles nunca deram espaço para a democracia e sempre procuraram defender com paixão a ideia de que não havia cabimento para democracia dentro da Igreja. Este apoio do Papa transformou-se no cartão de visitas dos movimentos às dioceses locais, um cartão de visitas especialmente útil em dioceses onde havia bispos hostis. Em compensação, eles pregavam o evangelho do ultramontanismo.
O arquitecto da restauração no Vaticano era o cardeal alemão Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina e a Fé, mais conhecida como Santo Ofício, ou Inquisição (maldita). Teólogo no Concilio, ele acabou passando sorrateiramente para a direita nos anos 70, e atingindo o auge de sua posição de poder nos anos 80, perseguindo os seus antigos colegas, entre os quais alguns dos mais ilustres teólogos católicos do mundo. Ratzinger acabou deixando a sua assinatura em alguns dos mais duros pronunciamentos disciplinares do Vaticano. As poderosas Conferências Nacionais dos Bispos passaram a ser o alvo preferido dos seus ataques, na tentativa de trazer de volta a autoridade suprema do papado. Não é, pois, de estranhar que ele, o Papa, se tenha transformado no ardoroso defensor dos movimentos, que são, provavelmente, as únicas organizações de algum peso na Igreja que têm todas as qualidades que ele admira. João Paulo é absolutamente franco quando defende a autenticidade e a liberdade de acção dos movimentos: a intensa vida de fé que se encontra nestes movimentos não implica que eles sejam introspectivos ou que simplesmente se fechem numa catolicidade plena e integral (...). A nossa tarefa, tanto como encarregado de um ministério na Igreja quanto na qualidade de teólogo, é a de manter as portas abertas para eles e lhes preparar um espaço.
Não é nenhuma surpresa saber que o entusiasmo de Ratzinger, como, aliás, do próprio Papa, por estes movimentos não conta com a participação de muita gente dentro da Igreja, inclusive de um bom número de bispos e cardeais influentes. O cardeal Martini, de Milão, jesuíta e professor de Sagrada Escritura, é o adversário mais conhecido na Europa: na Igreja da América do Sul também há figuras de proa, como os cardeais Arns e Lorscheider, do Brasil, que têm tomado posição contra os movimentos, criticados por causa de suas posições fundamentalistas e pela sua presença como igrejas paralelas dentro das dioceses locais. A controvérsia que eles desencadearam já provocou divisões no seio das paróquias, entre padres e bispos, entre bispos e o Papa e até mesmo no próprio Vaticano, ou seja, no próprio coração da igreja institucional. Embora o apoio do Papa tenha forçado os críticos dos movimentos a guardar silêncio, as tensões estão aumentando em várias áreas da Igreja e poderiam levar a cisões mais sérias, eventualmente até mesmo ao cisma.
Não obstante, até mesmo os adversários são obrigados a reconhecer o zelo e a eficácia destas novas estruturas. O cardeal Danneels, da Bélgica, um moderado, assinalou que é um facto que a maior parte das conversões de nosso tempo acontecem nesses movimentos, enquanto as nossas estruturas clássicas parecem ficar relegadas à função de proceder às revisões de rotina e garantir o funcionamento normal da máquina. Será que o verdadeiro trabalho missionário na Europa não está sendo feito pelos movimentos e grupos (pequenos ou grandes) que não pertencem às estruturas profundas do povo de Deus, ou, em outras palavras, que não pertencem às dioceses e paróquias?» In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.
                                                                                                                
Cortesia de ERecord/JDACT

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «As estruturas dos movimentos também fizeram deles instrumentos ideais para o projecto papal de uma Nova Evangelização. Estes movimentos são centralizados de maneira muito forte em torno de Roma…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Wojtyla pessoalmente considerava-se um homem do Concilio e, como arcebispo da Cracóvia, no início da década de 1970 chegara até a escrever um livro, Fontes de renovação, no qual explicava como a visão do Vaticano II devia ser implementada. Mas, na mente de Wojtyla, esta visão partia de uma perspectiva polonesa, que envolvia o laicato, mas cujo impulso procedia de cima, da hierarquia. O seu programa como papa deveria, por conseguinte, devolver a ordem ao caos da igreja pós-conciliar: estancar o êxodo de padres, religiosos e freiras; trazer de volta à obediência os teólogos insubordinados; e reimpor a doutrina tradicional, especialmente no campo da moralidade sexual, que ele considerava imutável. Para aqueles que achavam que o Concílio ainda não tinha sido inteiramente implementado, ficou rapidamente muito claro que, sob João Paulo II, a maré havia virado e começava então uma era de restauração.
Mas para um homem da força de João Paulo, restauração não era bastante. Ele também tinha um programa expansionista. Em a sua primeira encíclica, Redemptor hominis, ele exprimiu muito claramente uma visão apocalíptica da paz do mundo para o ano 2000. Por volta de meados da década de 1980, ele dera um nome a esta visão: a Nova Evangelização. Este ficou sendo o programa de seu pontificado, servindo como uma espécie de fórmula resumida dos inúmeros valores tradicionais que ele queria restaurar. Embora o ímpeto missionário de João Paulo seja concebido em escala mundial, o papa tem uma perspectiva particular para a Europa. Aqui, Nova Evangelização significa não apenas uma revitalização dos valores cristãos, mas também a restauração de uma cristandade jamais vista desde o apogeu do Sagrado Império Romano, ou seja, uma Europa Católica do Atlântico aos Urais. Para realizar um programa ambicioso e militante como este, o papa precisava de forças, e nisto ele foi vivo o bastante para perceber que os movimentos tinham em comum algumas configurações que se ajustavam admiravelmente aos seus objectivos e que poderiam ser muito bem aproveitadas sob a sua carismática liderança.
No interior da Igreja, os movimentos pareceram oferecer soluções para muitos dos problemas do pontífice: produziram um número muito grande de vocações ao sacerdócio, à vida religiosa e às novas formas de vida comunitária com estruturas próprias, reforçando assim, de maneira muito intensa, a fidelidade do papa ao celibato sacerdotal; no que concerne à interpretação das Sagradas Escrituras e à teologia, eles são conservadores a ponto de chegarem até uma espécie de fundamentalismo; no que se refere à moral, eles não apenas rejeitam o relativismo condenado por João Paulo, como ainda aplicam rigorosamente entre os seus membros e no interior da sua esfera de influência pastoral os valores morais absolutistas que ele mesmo prega; eles põem a maior ênfase num programa de introspecção espiritual, abandonando a urgência dos temas de justiça e paz, que ficam, assim, relegados a um futuro mundo melhor que o movimento haverá de criar.
As estruturas dos movimentos também fizeram deles instrumentos ideais para o projecto papal de uma Nova Evangelização. Estes movimentos são centralizados de maneira muito forte em torno de Roma (ou de Milão, no caso da CL), com todas as diretrizes sobre actividades espirituais e práticas locais emanando directamente do centro, usualmente o próprio fundador. O sistema de comunicação interna de cada um desses movimentos é altamente sofisticado, acoplado a uma cadeia de comando clara e eficiente, e permite obter respostas imediatas em plano mundial. Estes movimentos congregam pessoas das mais diferentes categorias: crianças, jovens, casais, padres, religiosos de ambos os sexos, e até mesmo bispos. Eles constituem verdadeiras igrejas em miniatura, ou fatias da Igreja, sendo, por isso, auto-suficientes». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «O alvo deles não são principalmente os católicos, nem mesmo os católicos caídos, mas aqueles que estão longe da Igreja (oslontani), os não-crentes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O resultado é um afastamento do mundo. Cada movimento está construindo sociedades inteiramente fechadas sobre si mesmas e auto-suficientes, chegando ao ponto de organizar negócios e aldeias inteiras em que podem criar ambientes não contaminados, exemplos para o mundo de como a Cristandade, numa forma absolutamente livre de entraves, é a única solução para todos os seus males (do mundo). Desta maneira, eles conseguiram reavivar uma forma de triunfalismo de alcance muito maior do que aquele com o qual a Igreja pré-conciliar jamais teria sonhado um dia: nas suas utopias particulares, eles já resolveram os problemas do mundo. Este conceito de uma solução religiosa para todos os tipos de problemas, conhecido na Europa continental pelo nome de fundamentalismo, é muito atacado pelos adversários dos movimentos, tanto no seio da Igreja quanto fora dela. Naturalmente, este dualismo radical igreja-mundo é tão velho quanto a própria cristandade, e muitas seitas que o adotam acabaram montando "comunidades intencionais" como essas que os movimentos estão criando agora. Graças a uma doutrinação rigorosa, os membros chegam a ver cada aspecto de suas próprias vidas, e o mundo, através dos olhos do movimento. Isto significa que, mesmo entre católicos, há maneiras de interpretar o mundo, por meio de "línguas" e culturas específicas, que são totalmente incompatíveis entre si.
Mas uma de suas características mais incômodas é a desvalorização da razão. Do ponto de vista doutrinário, mesmo durante o período pré-conciliar a Igreja sempre ensinou que razão e fé eram compatíveis. A fé não pode contradizer a razão. Os movimentos acabaram, no extremo oposto, rebaixando o papel da razão. Eles são anti-intelectuais e desenvolvem uma militância anti-intelectual, até mesmo a CL, que exerce sua actividade de recrutamento principalmente entre estudantes. Os membros têm de se entregar inteiramente às estruturas e práticas do movimento. A ênfase é na supremacia da experiência sobre a razão. Encorajam-se os iniciados a aceitar e a praticar o que o movimento ensina. A compreensão virá depois, é o que lhes dizem. Como cada um dos adeptos considera ter recebido um papel messiânico, segue-se que a maior parte dos consideráveis recursos e energias dos movimentos é canalizada para actividades de militância missionária. Se essas ambições de proselitismo se limitassem ao campo eclesiástico, os novos movimentos teriam um valor um pouco maior que o de uma simples curiosidade para aqueles que se encontram fora da Igreja Católica. Mas este limite não existe. O alvo deles não são principalmente os católicos, nem mesmo os católicos caídos, mas aqueles que estão longe da Igreja (oslontani), os não-crentes, e até mesmo, até certo ponto, aqueles que se opõem à religião, e tem sido sempre entre estes últimos que os movimentos têm conquistado os seus maiores sucessos. Eles acreditam ter nas mãos o futuro não apenas da Igreja, mas o futuro do mundo inteiro. Por isso as suas ambições estendem-se também aos domínios do poder temporal. Com o zelo fanático que desenvolvem, e com seus imensos recursos de dinheiro e pessoal, têm conseguido brilhantes sucessos na política, nos negócios e na comunicação social, sucessos que são vistos como passos no caminho da criação de uma nova ordem mundial. Um de seus principais objectivos é impor à maioria os seus pontos de vista, que são os da moral da direita mais extremada. E, neste intuito, eles estão dispostos a pôr em acção, como alavanca política, até mesmo a superioridade numérica de que dispõem. Já tomaram parte activa em campanhas contra o aborto e contra as leis do divórcio em países teoricamente católicos como a Itália e a Irlanda.
Por todas suas singularidades, os movimentos tinham muito a oferecer ao papa João Paulo II quando ele ascendeu ao trono papal em 1978. O turbilhão de mudanças nos anos que se seguiram ao Concilio havia sacudido os alicerces da Igreja. Milhares de sacerdotes abandonaram o ministério; grande número de religiosos de ambos os sexos deixaram as suas ordens; animados pelos novos horizontes revelados pelo Concílio, os teólogos que haviam sido os seus arquitectos desejavam ardentemente afastar para mais longe ainda as barreiras doutrinais; a nova autonomia do laicato e a ênfase no papel da consciência sobrepondo-se à inquestionável submissão à autoridade da Igreja levavam os casais a rejeitar a condenação do controle artificial de natalidade, condenação reafirmada em 1968 pela encíclica Humanae vitae; em resposta ao apelo do Concilio por justiça e paz, padres e freiras, especialmente nas Américas, passaram a envolver-se directamente com a política, enquanto outros firmavam um pacto com o marxismo, o mais ferrenho inimigo do catolicismo por mais de um século». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 16 de setembro de 2018

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «… pode dar valor às actividades seculares. Mas como a ênfase é posta no grupo, e não no indivíduo, esta consagração das actividades humanas tem de se realizar dentro do âmbito do movimento»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Com estas origens inteiramente diferentes, um jargão próprio e com as suas exclusividades, à primeira vista estes movimentos parecem ter muito pouca coisa em comum. Uma análise mais cuidadosa revela, entretanto, que eles compartilham muito mais coisas do que seu conservadorismo comum. Uma das características destes movimentos, por exemplo, como era característica também do grande precursor de todos eles, a organização secreta espanhola Opus Dei, era rejeitar todas as definições ou descrições deles mesmos formuladas por estranhos, mesmo que sejam autoridades da Igreja. Eles preferem dizer o que não são a dizer o que são. A recusa de serem enquadrados em definições estreitas é uma expressão do sentimento que eles cultivam de serem chamados para uma missão única.
Assim, não são nem associações nem ordens religiosas. Apesar do facto de serem todos eles altamente clericalizados, se apegam com uma obstinação extraordinária a seu estado de leigos. Como muitas seitas protestantes clássicas, cada um deles alega estar retornando à fé autêntica dos primeiros cristãos. Uma vez o Focolare qualificou-se a si mesmo com a duvidosa expressão os primeiros cristãos do século XX. Estes movimentos também costumam se apresentar como a autêntica expressão do Vaticano. O papa João Paulo endossou vigorosamente este ponto de vista: o grande florescimento destes movimentos e as manifestações de energia e de vitalidade eclesiástica que os caracterizam certamente podem ser considerados como um dos mais belos frutos da vasta e profunda renovação espiritual promovida pelo último concilio. Ele deve saber: como jovem bispo e como teólogo encontrou-se de repente envolvido nesta fantástica virada da vida da Igreja Católica. Esta grande reunião de todos os bispos católicos do mundo, convocados pelo santo papa João XXIII, rejeitou o conceito jurídica e hierarquicamente estático de Igreja Católica pós-tridentina e o substituiu pelo conceito mais dinâmico de Povo de Deus, aumentando assim a importância do laicato. Mas o maior feito do Concílio foi a quebra do dualismo que havia caracterizado o catolicismo.
O papa João havia feito uma alusão a isto quando declarou que a sua intenção ao convocar o Concilio era abrir as janelas da Igreja. A mentalidade clerical que prevalecia até então opunha a Igreja ao mundo, o sagrado ao secular, a alma ao corpo. A Igreja Católica era uma fortaleza da verdade, que tinha todas as respostas, respostas que ela dispensava com autoridade divina. Ela não tinha nada a aprender do mundo. A Igreja pré-conciliar caracterizava-se por um triunfalismo que se exprimia pela pompa monárquica e pela magnificência da corte papal. O mundo e as actividades humanas eram considerados, se não exactamente como um mal, pelo menos como moralmente neutros, a não ser que a Igreja ou seus representantes concedessem a eles um conteúdo especificamente religioso. Daí, antes do Concilio, as cerimónias especificamente religiosas de consagrações, ou de bênçãos, que exprimiam a necessidade de levar a esfera secular para dentro da esfera do sagrado. Em sentido contrário, os padres do Concilio proclamaram que o Mundo e a actividade humana eram bons em si mesmos; não precisavam ser consagrados. Católicos podiam, por conseguinte, viver em harmonia com outros. Entre as verdadeiras convulsões do período pós-conciliar, esta mudança de mentalidade foi provavelmente uma das maiores.
É interessante que, como a Opus Dei, os movimentos que antecederam a este evento, Focolare e Comunhão e Libertação, nunca julgaram conveniente reexaminar as suas atitudes e se reajustar à luz do Concilio, a despeito do facto de inúmeros outros corpos da Igreja, inteiramente integrados à mentalidade vigente, terem sentido a necessidade desta readaptação. Longe de atribuir valor ao mundo, estes movimentos rejeitam a esfera humana como totalmente sem valor, condenando a sociedade nos termos mais virulentos. Os membros são encorajados a integrar todos os aspectos das suas vidas dentro das restrições do movimento, uma vez que todas as influências externas são vistas como fonte de contaminação. Não é possível haver qualquer diálogo com os de fora a respeito de matéria importante de fé, uma vez que os movimentos acreditam que estão de posse da totalidade da verdade e que, por conseguinte, estão em posição de ensinar, nunca de aprender. Eles têm todas as respostas não apenas no domínio espiritual, mas também na esfera secular. Somente uma presença explicitamente religiosa, a própria presença deles, pode dar valor às actividades seculares. Mas como a ênfase é posta no grupo, e não no indivíduo, esta consagração das actividades humanas tem de se realizar dentro do âmbito do movimento». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 10 de junho de 2018

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «Dizem que os fundadores do NC, Kiko Arguello e Carmen Hernandez, sentem-se perfeitamente em casa quando se encontram nos aposentos papais»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Comunhão e Libertação apareceu na Itália no início dos anos 70, como uma violenta reacção dos estudantes conservadores às desordens estudantis dos anos 60, sob a liderança de um padre milanês baixinho, Dom Giussani. Durante os últimos vinte anos, os seguidores do movimento de maior prestígio na Itália, a CL, receberam os apelidos mais estranhos, como lacaios de Wojtyla, monges de Wojtyla, Samurais de Cristo e Stalinistas de Deus. A razão desses apelidos: as actividades agressivas desses militantes em defesa da promoção das crenças e valores católicos tradicionais, bem como a sua devoção total ao papa. O movimento tem provocado uma verdadeira devastação no seio da igreja italiana, bem como no seio da política daquele país, e dispõe de uma vasta rede de operações por todas as regiões da nação e mais um certo número de publicações. Até há pouco tempo, ele dispunha até mesmo de uma ala política, o Movimento Popular, considerado por muita gente como um partido católico independente. Muito embora a visão do mundo que o povo da CL cultiva seja extremamente ligada à do papa (e esta simpatia se traduziria num apoio entusiasmado durante o início dos anos 80), as extravagâncias de alguns membros, tanto no plano religioso quanto no plano político (vale lembrar o envolvimento de bom número de figuras públicas italianas nos recentes escândalos de suborno), levaram o Vaticano a distanciar-se deles a partir de 1990.
O Neocatecumenato foi fundado na cidade de Palomeras Altas, nos arredores de Madrid, em 1964, por um artista espanhol, Kiko Arguello, que mais tarde juntou-se a Carmen Hernandez, uma ex-freira. Depois de ter constituído uma comunidade entre ciganos e nómadas na cidade das cabanas, Arguello e Hernandez decidiram aplicar aquelas técnicas rudes de recrutamento que eles haviam desenvolvido nas paróquias normais que, segundo acreditavam, exprimiam também a mesma necessidade de uma conversão radical. Nos primórdios da igreja cristã, o baptismo era precedido de um estágio de iniciação e de ensino que se chamava o catecumenato. Arguello acredita que os cristãos baptizados de hoje só não são pagãos no nome e que, por conseguinte, precisam submeter-se a um processo de iniciação análogo, embora, nesses casos, esta iniciação ocorra após o baptismo. E foi assim que nasceu o neo, ou seja, o novo catecumenato. A única grande diferença é que, enquanto na igreja primitiva o catecumenato durava três anos, na versão de Arguello ele dura mais de vinte. As diferentes séries de rituais secretos, passagens e os níveis crescentes de comprometimento com o movimento são revelados aos iniciandos de maneira muito gradual. Não é permitido a estes iniciantes fazer perguntas sobre o que vem pela frente e eles não podem revelar a ninguém detalhes do Caminho, nem mesmo a outros membros do movimento que se encontram em níveis inferiores. Depois de efectuar uma mudança estratégica para se estabelecer em Roma, em 1968, exactamente quatro anos após a sua fundação, o movimento espalhou-se rapidamente pelas paróquias da diocese da capital italiana e conheceu então uma fantástica expansão-relâmpago. Hoje, ele está presente em 786 dioceses, com 13 mil comunidades em 3.500 paróquias. O número de filiados é estimado em torno de um milhão. Sinistro nos seus métodos, o Neocatecumenato é também considerado por um bom número de teólogos católicos como herético na sua maneira de ensinar alguns pontos centrais da doutrina cristã. No entanto, paradoxalmente, entre os novos movimentos este é o que está mais estreitamente ligado ao papa, que, teologicamente, é um tradicionalista. Dizem que os fundadores do NC, Kiko Arguello e Carmen Hernandez, sentem-se perfeitamente em casa quando se encontram nos aposentos papais: consta que tomam o café da manhã com o papa, almoçam com ele e têm livre trânsito por todos as salas do palácio». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «O Focolare foi criado na cidade de Trento, no norte da Itália, em 1943, no auge dos bombardeamentos aliados, por uma professora de ensino primário»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Frustrados no seu inquérito, eles pressionaram o vigário e o abade para convocar uma reunião extraordinária do Conselho Paroquial a fim de discutir a divisão que ia aumentando no meio deles. Uma assistência recorde de mais de 200 paroquianos indicava a inquietação generalizada provocada pela presença de um corpo elitista e secreto no seio da sua comunidade. Eles mostravam-se preocupados pelo facto de o vigário dedicar a maior parte do seu tempo à comunidade do NC, levando o resto da paróquia a sentir-se como cidadãos de segunda classe. O grupo de oposição mais cerrada elaborou uma lista de vinte e cinco questões graves, reflectindo assim a convicção crescente de que, embora o movimento aparentemente estivesse operando na paróquia com a aprovação das autoridades eclesiásticas competentes, os métodos utilizados eram métodos de seita. Entre as acusações mais sérias figuravam: relatos sobre utilização de técnicas de lavagem cerebral nos membros; sessões de confissão em grupo; grandes reivindicações feitas em favor do movimento que se auto-intitula o Caminho; e o muro de segredo que cerca a hierarquia do movimento, as suas finanças e o prolongado treinamento dado aos recrutas. O encontro permitiu que estas irregularidades fossem esclarecidas em discussões de grupos com os membros do NC, mas não foi possível obter nenhuma resposta satisfatória. Na verdade, é improvável que os próprios membros do NC, no plano paroquial, tivessem respostas; pois, seguindo a linha de comportamento comum a muitas seitas, a informação é estritamente dosada de acordo com a categoria dos membros.
Embora os membros do NC em Ealing tivessem recusado, ou fossem incapazes de discutir alguns pontos detalhadamente, eles tinham uma resposta-chave que valia para tudo. Esta resposta-chave era o apoio irrestrito ao seu movimento, manifestado nos níveis mais altos da autoridade da igreja: desde o bispo auxiliar da diocese de Westminster, responsável pela área, que na época era Dom Mahon, até, o que era realmente muito mais importante, o próprio papa João Paulo II. Como prova disto, eles tinham um livro reservado em que se encontravam os inúmeros discursos de incentivo pronunciados pelo próprio papa em favor das comunidades do NC nas paróquias de sua própria diocese de Roma. O tom do papa nestes discursos é absolutamente entusiástico: é assim que vejo a génese do Neocatecumenato, a génese do Caminho: alguns espantam-se (....) procurando saber de onde veio a força da Igreja primitiva, e de onde vem a fraqueza da Igreja de hoje, numericamente muito maior. Penso que a resposta está no Catecumenato, neste Caminho (...) em vossas comunidades podem realmente ver como é do baptismo que crescem todos os frutos do Espírito Santo, todos os carismas do Espírito Santo, todas as vocações, toda a autenticidade da vida cristã, no casamento, no sacerdócio, nas diferentes profissões, no mundo, finalmente no mundo.
Postos diante da contradição entre as palavras do papa e aquilo que eles tinham vivido por experiência própria, os paroquianos da Abadia de Ealing que se opunham ao NC concluíram que, das duas uma: ou o papa não sabia daquilo que eles sabiam ou, de alguma maneira, ele havia sido enganado. A hipótese de que ele sabia e aprovava era simplesmente impensável. Pude reconhecer, declarou o papa em 1985, o grande e promissor florescimento dos movimentos eclesiais e os assinalei como uma causa de esperança em toda a Igreja e para toda a humanidade. O Neocatecumenato é exactamente um destes movimentos de nome estranho que conheceu uma expansão rápida dentro da Igreja Católica nos últimos 30 anos, guindado pelo apoio entusiasmado do papa. Dois outros movimentos foram também especialmente favorecidos: Comunhão e Libertação (CL) e Focolare, ambos de origem italiana. Estes são três entre as maiores, e certamente entre as mais ricas e mais poderosas, de várias organizações que são moral, teológica e politicamente de direita, e que reivindicam uma obediência de mais de 30 milhões de católicos espalhados pelo mundo, muitos dos quais receberam o impulso mais forte na década de 1980 com o apoio irrestrito do papa João Paulo. De modo um tanto alarmante, eles parecem prestes a ultrapassar a ala moderada da Igreja Católica no que se refere ao número de adesões; no que se refere ao poder de que desfrutam dentro da Santa Sé, eles já o conseguiram há muito tempo.
Embora todos eles tenham começado no sul da Europa e ainda tenham as suas bases administrativas na Itália, os movimentos são actualmente uma força de influência mundial. O Focolare foi criado na cidade de Trento, no norte da Itália, em 1943, no auge dos bombardeamentos aliados, por uma professora de ensino primário, Chiara Lubich, que tinha então 25 anos. Actualmente, este movimento existe em 1.500 dioceses espalhadas por 190 países e conta com vários milhões de seguidores, dispondo ainda de um núcleo de cerca de 80 mil membros a ele intimamente ligados por votos, promessas ou outras formas de obediência. O toque de clarim do movimento convocando todos para o amor universal e para a unidade de toda a humanidade é baseado numa hierarquia rígida, centralizada em torno da fundadora, que já chegou aos 80 anos. O culto da personalidade de que ela é objecto exprime-se na obediência rigorosa e cega que ela exige dos membros, muito embora ela tenha passado quase dois anos (1992 a 1994) afastada, na Suíça, vítima de uma doença misteriosa. Inútil lembrar os boatos que se espalharam então pelo mundo inteiro semeando suspeitas sobre sua morte. Em 1995 ela voltou à vida pública». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 3 de abril de 2016

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «… aquela ênfase nos orvalhos de pecado que caracterizaram a era pré-Concílio, e isto exposto em termos extremamente severos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Para espanto e horror de seus pais, uma das condições da reconciliação era que nem Rita nem as crianças tivessem mais qualquer contacto com a família, nem mesmo com os irmãos e irmãs, nem com os filhos deles. E tudo isto apesar de nenhum deles ter feito qualquer gesto para precipitar o rompimento, que foi uma decisão pessoal de Rita. Agora, a mãe de Rita só pode ver os netos em segredo; e ela considera particularmente difícil suportar a brutalidade do genro que, como líder do NC, passa a maior parte do seu tempo evangelizando na paróquia. Exilada dentro da sua própria paróquia, ela me traz muitas lembranças infelizes, ela não tem mais a menor esperança de uma solução para as divisões que o NC causou na sua família e ostenta um ar de tristeza permanente. Não acredito mais que Rita largue o movimento. Depois do casamento de Rita, a sua mãe e um grupo de membros da paróquia, preocupados, tentaram desvendar o segredo que cercava a organização que havia crescido de mansinho no meio deles nos dez anos anteriores. Ficaram espantados diante do que descobriram. Longe de ser um grupo marginal, o NC era, naquela época, dirigido pelo vigário da paróquia, padre Michael Hopley, que era, ele próprio, um dos homens de confiança do movimento. Espantoso também era o facto de que o movimento não somente organizava reuniões secretas mas ainda reproduzia em segredo os serviços mais importantes da igreja, embora eles fossem celebrados pelo vigário da paróquia. Isto sugeria que havia como que um sistema de duas camadas, de dois níveis dentro da paróquia. Mas, durante dez anos essas actividades haviam ficado tão bem escondidas que nem mesmo os membros leigos do Conselho, corpo de coordenadores dentro da paróquia da Abadia de Ealing, sequer tinham ouvido falar no nome Neocatecumenato. Porquê todo este segredo? Foram feitos inquéritos em que se procurou ouvir o vigário da paróquia, o abade, que era a maior autoridade dentro da Abadia de Ealing, e até mesmo o próprio cardeal Hume, sobre os aspectos estruturais do NC, sobre sua hierarquia e o seu status como organização católica. Apesar de tudo isto, não se obteve nenhuma resposta satisfatória. Na realidade, desde que havia sido instalado na paróquia, o NC organizava todos os anos, durante o Outono, cursos públicos de introdução, com o propósito de recrutar novos membros. Esses cursos eram anunciados tanto do púlpito quanto em publicações, mas o nome do NC nunca aparecia. No boletim paroquial do domingo, 26 de Outubro de 1986, por exemplo, aparece na lista de actividades previstas para a semana: quem é Deus para voz? Às 8h15, no salão paroquial. Nenhum orador do movimento está identificado. Alguns paroquianos que fizeram este curso durante quinze noites num período de oito semanas descobriram que, longe de obterem resposta à sua indagação, a sua perplexidade havia aumentado. O estado de espírito aberto e positivo que havia transformado a Igreja Católica no início da década de 1960, como resultado das reformas do Papa João XXIII e do seu Concílio Vaticano II, tinha levado os fiéis a uma nova valorização do amor de Deus. Os paroquianos da Abadia de Ealing ficaram, pois, surpresos ao encontrar, nos ensinamentos do NC, ou antes, na sua catequese, aquela ênfase nos orvalhos de pecado que caracterizaram a era pré-Concílio, e isto exposto em termos extremamente severos. Mas, na hora de colher informações sobre as actividades internas do movimento, os paroquianos ficaram a ver navios: de acordo com as normas do NC, eles foram informados de que não eram permitidas perguntas durante os encontros. Compareçam às reuniões nocturnas durante estes 15 dias e encontrarão respostas a todas as suas indagações, era tudo o que eles diziam». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

quarta-feira, 23 de março de 2016

A Armada do Papa. Gordon Urquhart. «A maior parte deles eram membros do NC, de fora da paróquia. Mas havia ainda mais surpresas reservadas. O irmão de Rita, Roberto, recorda: nunca tinha visto nada igual àquilo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A igreja da abadia de São Bento, instalada entre frondosas pracinhas de Ealing, na região oeste de Londres, é o resumo clássico da respeitabilidade e da quietude da classe média inglesa. Dirigida pelos monges beneditinos, a ordem do primaz da Inglaterra, cardeal Hume, a abadia é certamente o menos provável ponto de explosão de um conflito que está agitando a Igreja Católica Romana em dimensão mundial. No entanto, esta paróquia de subúrbio foi dilacerada pela presença de um dos mais poderosos movimentos tradicionalistas da Igreja, que, nos últimos dez anos, espalham-se globalmente a partir do sul da Europa, e agora estão virtualmente estabelecidos em quase todas as regiões do mundo. Gozando de patrocínio do mais alto nível, principalmente do próprio papa João Paulo II, estes movimentos têm, no entanto, encontrado uma severa oposição por parte dos cardeais, bispos e membros do laicado, e tem sido estigmatizados como seitas fundamentalistas. Em 1980, aos 18 anos de idade, Rita estava nos primeiros anos de um curso de bioquímica e tinha pela frente uma carreira promissora. Atraente e independente, ela era uma das quatro filhas de uma família muito bem consolidada, da classe média da paróquia da Abadia de Ealing. De volta à sua casa durante as férias, ela envolveu-se com o movimento do Neocatecumenato. A história dela é a clássica história de uma pessoa recrutada por uma seita. Assim que Rita aderiu ao Neocatecumenato (doravante, NC), a sua família notou a mudança. A sua mãe lembra-se ainda: o assunto dela em casa era somente o movimento; tínhamos brigas constantes a respeito disto; aos poucos ela foi transferindo todas as suas afeições para o NC: eles tornaram-se a sua nova família. Finalmente, quando Rita foi ganhando uma nova série de prioridades, toda a comunicação com a família foi interrompida completamente. Isto foi particularmente duro para o pai de Rita, que não é católico e que mantinha um relacionamento muito estreito com a filha. Actualmente, aos 30 anos, ela encontra-se como que presa num relacionamento infeliz com um homem que tem quase o dobro de sua idade. Há muito tempo abandonou uma brilhante carreira numa empresa farmacêutica para dedicar-se ao ideal do NC de cuidar de crianças. Rita tem três filhos, inclusive um de quatro anos que é autista. A família leva uma vida de gente empobrecida, morando numa casa da comunidade camarária, e o emprego do marido como operário não qualificado está permanentemente ameaçado. Depois de vários anos no movimento, quando chegou aos 26 anos ela informou os seus pais que ia casar-se com um homem da comunidade, um dos subgrupos de cerca de 40 membros em que o NC divide os seus seguidores numa paróquia. A mãe de Rita está convencida de que o casamento com um líder do NC, que tem o dobro da idade dela foi um casamento arranjado, e, de facto, alguns relatos sobre práticas do NC confirmam que de facto existem casamentos arranjados, ou pelo menos favorecidos, nas comunidades do NC. Embora os pais de Rita estivessem arcando com as despesas do casamento, eles não tinham nenhum direito a opinar sobre os preparativos. Receberam uma lista de convidados com mais ou menos 200 nomes, a maioria dos quais simplesmente desconheciam. A maior parte deles eram membros do NC, de fora da paróquia.
Mas havia ainda mais surpresas reservadas. O irmão de Rita, Roberto, recorda: nunca tinha visto nada igual àquilo; quando teve início a cerimónia, quem nos deu as boas-vindas foi um líder do NC que não era membro da paróquia; os convidados foram separados em dois grupos absolutamente distintos: os que eram do NC e os que não eram do movimento. Os do NC formavam naturalmente o maior grupo. Outros membros da paróquia ficaram perplexos diante da missa nupcial que durou duas horas e meia e descreveram a cerimónia como um frenético concerto pop, com exibição dos hipnóticos ritmos espanhóis das canções do NC, todas compostas pelo fundador do movimento, Kiko Arguello. Durante os anos seguintes, as relações entre Rita e a sua família ficaram tensas. Isto foi agravado ainda mais pelas tentativas que ela fez de evangelizar os seus vizinhos, entre os quais uma família de judeus que ficaram ofendidos pelo agressivo proselitismo de Rita, característica do NC. A mãe dela tinha começado a resignar-se àquela situação quando, em meados de 1993, ao visitar um dia a casa da filha, soube que ela tinha ido embora levando os filhos consigo. Mais tarde, recebeu um telefonema de Rita dizendo que o seu casamento se havia tornado intolerável e pedindo que a mãe lhe permitisse voltar para casa com as crianças.
Rita e os filhos permaneceram oito semanas na casa da mãe, e durante este tempo ela não teve nenhum contacto com o marido. Mas este período terminou tão abruptamente e tão misteriosamente quanto havia começado, tornando as relações entre Rita e a sua família mais tensas do que nunca. Certa noite ela desapareceu de casa por volta das 18h30, só regressando quando o resto da família já estava dormindo. No dia seguinte, conseguiu declaração da justiça concedendo-lhe a guarda das crianças, com medo de que o pai delas, que não era inglês, tentasse levá-las para fora do país. Durante o café da manhã ela anunciou que iria voltar para o marido com as crianças». In Gordon Urquhart, A Armada do Papa, tradução de Irineu Guimarães, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-222-2.

Cortesia de ERecord/JDACT