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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Uma Tapeçaria Inédita da série dos feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «Os elementos iconográficos essenciais são as duas girafas, vindo da esquerda para a direita, uma delas montada por um homem armado com uma lança»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Entretanto casou-se com uma dama riquíssima, Ana Ataíde, que era sua prima, filha dos condes de Monsanto e senhores de Cascais, portanto neta do poderoso António Ataíde, que foi vedor da Fazenda, e um dos maiores amigos do próprio João de Castro. Como hipótese, podemos adiantar que as tapeçarias terão sido encomendadas quando da viagem de Álvaro Ataíde a França, como embaixador, para apresentar os pêsames da Corte Portuguesa a Catarina de Medice, pela morte do monarca Henrique II, e eventualmente tratar do casamento da infanta dona Maria com o imperador Fernando I de Habsburgo. Assim a encomenda poder-se-ia colocar entre 1558 e 1560.
Mas é também possível que fosse a própria Corte a encomendar estas obras, ou pelo menos a patrociná-las fortemente, pois há o precedente da encomenda da série da primeira viagem de Vasco da Gama, por Manuel I, para publicitar a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia e o facto de se ter tornado senhor do Comércio e das Conquistas e Navegações da Arábia, Pérsia e Índia, tapeçarias que ficaram conhecidas como à maneira de Portugal e da Índia, e de que foram feitas diversas séries, ao longo das décadas seguintes. Também nestas o exótico era um tópico, e não teriam alcançado o êxito que tiveram, não fossem as representações das coisas da Ásia. Se escolhermos a tapeçaria menos conhecida do grande público, revelada por nós recentemente, notaremos imediatamente esse exotismo. Os elementos iconográficos essenciais são as duas girafas, vindo da esquerda para a direita, uma delas montada por um homem armado com uma lança. A outra, a que está mais atrás, tem um serviçal a segurá-la, este já dentro de uma cerca, como que a recebê-la. O lado direito está próximo das tapeçarias com temas pastoris.
Opostamente, o lado esquerdo do observador, para além das já referidas girafas, um servo puxa um camelo que está deitado e de que só se vê parte da cabeça e do pescoço. Um outro homem, armado com uma lança, com um turbante na cabeça, o que indicará a sua origem oriental, e com a mão direita pousada no punho de uma cimitarra, espera o resto do cortejo. As flores e os frutos, que parecem laranjas apontam para regiões longínquas e para realidades novas. A vitória de Diu elevou João III ao mesmo nível de Carlos V, quando este conquistou Tunes, e não estando lá presencialmente, estava lá através do seu longo braço materializado na figura do vice-rei. Isto justificaria o facto de não estarem em Portugal, mas sim em colecções de familiares chegados da rainha dona Catarina de Áustria, como aliás aconteceu com muitas obras que vieram do Oriente, e que eram da maior importância, quer política quer material, como os cofres das embaixadas do Ceilão, mas que parece não terem interessado muito aos monarcas portugueses. Também as tapeçarias vulgarmente conhecidas como de Pastrana, dedicadas às conquistas em Marrocos, ou as das glórias de João III e dona Catarina e a sua equiparação aos deuses do Olimpo acabaram no país vizinho.
Alguns autores pretenderam identificar nas tapeçarias os retratos da infanta dona Maria e do infante Luís, ideia que também já perfilhámos, mas que abandonámos, dando hoje total razão aos argumentos de Vasco Graça Moura sobre esta questão. Se assim fosse, estariam representados fora do contexto geográfico e temporal, devendo ser antes Álvaro Castro e dona Ana Ataíde, sua esposa». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Uma Tapeçaria Inédita. Feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «Para a quinta da Penha Verde João de Castro levou certamente muito do que trouxe das suas primeiras viagens, e não trouxe muito mais, nomeadamente o que estava no seu palácio em Goa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Seja este qual for, na placa do lado direito, destaca-se um português montando a cavalo, que parece o mesmo que está sentado à mesa, tendo a montada ajaezamento de luxo e pompa, como as que eram usadas quando o vice-rei saía à rua, em Goa, por exemplo, sendo seguido por militares, um com um mosquete e outro com uma rodela e uma lança. Pode ser a representação da entrada triunfal de João de Castro em Goa, e lembram a iconografia da série de tapeçarias alusivas aos seus triunfos, embora não possa aqui haver mais do que uma mesma fonte documental ou oral. Anota a documentação régia portuguesa que, entre 1550 e 1552, existia na colecção da rainha dona Catarina um cofre de marfim todo lavrado com figuras em redor, com a fechadura e chave de ouro, guarnição de prata, que lhe tinha sido enviado por João de Castro; poderia muito bem ser este. Conhecendo-se a personalidades de João de Castro, e também que averiguadamente morreu pobre, era mais do que natural que fizesse seguir para Lisboa, para João III ou para a sua soberana, aquilo que de mais valioso recebia, no desempenho das suas funções de vice-rei, isto é, de representação do rei ao mais alto nível. Entenderia estas dádivas como ofertas de Estado, e não como presentes pessoais.
Mas as dádivas ao vice-rei João de Castro que estão documentadas nos nossos arquivos não ficaram por aqui. Anotámos também dois grandes anéis de olho-de-gato. Estes anéis tinham olhos-de-gato engastados, e foram avaliados em Goa, em 560 pardaus, pelos lapidários Francisco Pereira e André Marques. Já em 1542 o rei de Kotte lhe havia mandado um outro anel grande, também de olho-de-gato, e mais quatro. Em Novembro do ano seguinte aumentou as dádivas, agora com uma manilha de ouro e pedraria. Ao filho, Álvaro de Castro, ofereceu, em 1545, uma arelhana de ouro com três olhos-de-gato. No ano em que morreu, ainda o monarca de Bisnaga lhe deu um valioso anel de ouro com um enorme rubi roxo, o que era raro, que valia 500 pardaus.
Para a quinta da Penha Verde João de Castro levou certamente muito do que trouxe das suas primeiras viagens, e não trouxe muito mais, nomeadamente o que estava no seu palácio em Goa, pois morreu lá, se bem que esses bens pertencessem aos seus herdeiros. ...Prover de todo o mobiliário e necessidades..., o Palácio da Fortaleza, segundo o holandês Jan Huyghen van Linschoten, era a mais premente tarefa dos novos vice-reis, já que, quando da saída do antecessor, tudo era levado, ficando a parecer ...uma casa destruída e roubada... Quando o novo titular chegava a Bardês, instalava-se no Colégio dos Reis Magos, onde esperava a saída daquele que ia substituir, enquanto os seus servidores compravam o que era necessário para o palácio, pois era do seu salário que deveria prover a manutenção e equipamento. Assim, dos leitos às cadeiras, passando pelos mais comuns instrumentos de cozinha e pelos tecidos, tudo era comprado com dinheiro do vice-rei, que se tornava assim seu proprietário legítimo, pelo que, no regresso, naturalmente embarcava tudo para Lisboa. João de Castro, surpreendido pela morte, ainda em funções, não o fez.
As coisas mais comuns, de uso quotidiano e sem valor significativo, deviam ser vendidas ou oferecidas a servidores e instituições, já que o espaço nas naus da Carreira da Índia era precioso, para as caixas de liberdades e para os fardos com bens de alto preço, pelo que só devia ser embarcado o que efectivamente valesse a pena; veremos a documentação que confirma esta ideia. João de Castro levou para a sua quinta da Penha Verde estelas indianas, conservando-se ainda duas in situ, ao cimo das escadas que conduzem ao espaço onde mandou fazer a capela de planta circular da invocação de Nossa Senhora do Monte, onde desejava ser sepultado. Foi Diogo Couto quem pela primeira vez escreveu sobre inscrições trazidas para o Reino, e criou-se até a lenda de que uma teria pertencido ao famoso templo da Ilha de Elefanta e que tinha sido oferecida a João III por Nuno Cunha. Sabe-se hoje que assim não é, e o mais provável é que estes dois monumentos epigráficos tenham sido trazidos pelo próprio João de Castro, após a sua primeira ida à Índia, ou então tenham sido despachadas para o Reino, conjuntamente com o resto dos seus bens móveis que foram arrolados após a sua morte prematura. Nos textos do vice-rei há referências a lápides escritas em línguas orientais, e é natural que estando a Epigrafia Clássica então em voga em Portugal, sobretudo no círculo da Corte, tivesse querido ficar com exemplares asiáticos que certamente reputava contemporâneos daqueles romanos, que os seus amigos recolhiam nos arredores de Évora.
Mas João de Castro foi também um amante da arte europeia. Possuiu uma belíssima escultura de Nossa Senhora com o Menino, que lhe terá sido oferecida por Carlos V, quando da conquista de Tunes, obra seguramente florentina, mas cujo autos não conseguimos identificar. Também italiano é o relevo que está no altar da sua capelinha de Nossa Senhora do Monte, na quinta da Penha Verde, obra que ele mesmo deve ter traçado, ele que conhecia Vitrúvio e seguramente os outros tratados renascentistas que então já corriam na Península Ibérica em vulgar ou em Latim, e que é já mais evolucionada, num pré-maneirismo, e que pode ser de uma boa oficina de Nápoles ou mesmo de Roma». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Uma Tapeçaria Inédita. Feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «O cofre já consta no inventário do tesouro de Alberto V da Baviera, de 1598, da autoria de Wittelbacher von Fickler. A face principal tem três relevos, sendo o central o mais interessante, e também o mais intrigante»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Um desenho à pena sobre papel, forrado em cartão e aguarelado a castanho e que pertence ao Museu de História da Arte de Viena é a matriz de uma destas tapeçarias, Foi atribuído a Pieter Coecke van Aelst, mas a crítica mais recente rejeita esta atribuição, por motivos técnicos e plásticos, reforçada pelo facto desse artista ter morrido em 1550, sendo favorável a uma autoria de Michael Coxie, desde logo porque viveu até 1592, e só a preparação dos desenhos e cartões teve que levar anos. Uma coisa é a data da encomenda; outra é a feitura das tapeçarias, tarefa que pode ter levado mais do que uma década, o que justificará certas diferenças técnicas e até dos materiais utilizados nelas. Nesta tapeçaria agora apresentada, por exemplo, não é usado o fio de ouro e de prata, o que pode querer dizer que foi das últimas a ser produzida, eventualmente já em período de dificuldade do ou dos encomendantes, para pagar tamanha empreitada. Parece-nos provável que as tapeçarias fossem mandadas para Portugal e pagas, à medida em que eram terminadas, e que quando Álvaro de Castro morreu, em 1575, é provável que a série ainda não estivesse concluída, e a sua conclusão se deva à intervenção de Filipe I, após 1580. No entanto, as incongruências que se podem assacar a este facto, podem eventualmente justificar-se também pela mudança do tapeceiro que as fabricou, Bartholomeus Adriaenz, de Bruxelas para Leiden, em 1561, cidade onde morreu em 1586.
Esta tapeçaria, até agora desconhecida, representará certamente Álvaro de Castro com a mulher, do lado direito do observador, e outras personagens da família e da mesma geração, que pelo trajo têm que ser de alto estado, do lado oposto, a receber um rei ou emissário indiano. Estas figuras já estão representadas noutras tapeçarias desta série, embora com identificações diversas, como já antes vimos. No entanto, é indiscutível que o desenho saiu da mão de quem fez os cartões das outras dez, várias delas com leituras muito difíceis e nas quais muitos autores divergem profundamente. Já a tecitura desta é diferente das restantes, pois não tem fio de ouro nem de prata. Por outro lado também não se vê marca de origem geográfica nem de tapeceiro. No entanto, em tudo o resto é idêntica às que se guardam em Viena, e mesmo o facto de não ultrapassar os 2,80 m de altura é motivo para rejeitar que se trata de uma peça da mesma série que, como vimos antes, e como vários autores notaram, foram feitas ao longo de muito tempo e em circunstâncias diferentes. Aliás, também não há duas exactamente com as mesmas medidas em Viena.
A aquisição de obras de arte ou jóias para oferecer, como simples recordação de viagem, está atestado pelo episódio já relatado, no qual João de Castro pediu a Álvaro de Castro que lhe comprasse, em Diu, algumas, para oferecer às suas filhas; … se puderem achar alguns brincos com orelheiras, ou cousa desta qualidade, pera vossas irmãs, pedi a Rui Gonçalves que as merque… Mas João de Castro também obteve preciosidades exóticas através de outros meios, concretamente, como dádivas de potentados locais. Em 1546, o rei de Bisnaga ofereceu-lhe peças de ouro, um diamante e outras preciosidades e, no ano seguinte, o mesmo rei fazia chegar-lhe às mãos uma pateca com um rubi grande, doze diamantes e esmeraldas, duas das quais de grandes dimensões. Está bem documentada a oferta ao vice-rei de um cofre de marfim, com figuras em relevo, fechadura e chave em ouro, e montagens de prata. Recebeu-o em Setembro de 1547, oferecido por Mayadunne, quando de umas tréguas entre Sitawaka e Portugal. Este cofre está hoje na Residenz de Munique, e provável que seja uma evocação dos acontecimentos heróicos de Diu, em 1546, e da acção de João de Castro, e assim executado logo depois da sua ocorrência. Tem 15 cm de altura, 25 de largura e 14 de fundo, mas as montagens já não são as originais, substituídas em 1570. É possível no entanto que as pedras preciosas, rubis, esmeraldas e ouro, nomeadamente, pertencessem às montagens primitivas.
O cofre já consta no inventário do tesouro de Alberto V da Baviera, de 1598, da autoria de Wittelbacher von Fickler. A face principal tem três relevos, sendo o central o mais interessante, e também o mais intrigante. Podem ver-se dois homens, um vestido à europeia e outro à cingalesa, sentados frente a frente em cadeiras de braços de feição portuguesa, a uma mesa de pernas cruzadas, do género das portáteis que havia para de armar. Comem à mão, como era comum ainda na época, estando as iguarias sobre um prato ou travessa. Ambos têm por trás de si um dignitário ou pagem e as suas vestes e adornos são riquíssimos; com todas as reservas, devemos estar perante a interpretação do encontro entre João de Castro e Sri Radaraksa Pandita, pelo que a obra teria sido oferecida ao vice-rei em Setembro de 1547?? Mas nessa data, o cofre que ele recebeu foi dado por Mayadunne, quando de umas tréguas entre Sitawaka e Portugal, e não pelo rei Bhuvanekabahu ou pelo seu embaixador, o que esteve em Goa e Lisboa, Sri Radaraksa Pandita. Porém, nesse ano de 1547, João de Castro recebeu na capital do Estado Português da Índia outro embaixador de Kotte, Sri Proytila Rala. Será que também levou um cofre do mesmo tipo em que se fez representar, e teríamos assim dois cofres e não um só, posto que até agora só tenha sido identificado um deles?» In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Uma Tapeçaria Inédita. Feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «Os elementos iconográficos essenciais são as duas girafas, vindo da esquerda para a direita, uma delas montada por um homem armado com uma lança»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Entretanto casou-se com uma dama riquíssima, dona Ana Ataíde, que era sua prima, filha dos condes de Monsanto e senhores de Cascais, portanto neta do poderoso António Ataíde, que foi vedor da Fazenda, e um dos maiores amigos do próprio João de Castro. Como hipótese, podemos adiantar que as tapeçarias terão sido encomendadas quando da viagem de Álvaro a França, como embaixador, para apresentar os pêsames da Corte Portuguesa a Catarina de Medice, pela morte do monarca Henrique II, e eventualmente tratar do casamento da infanta dona Maria com o imperador Fernando I de Habsburgo. Assim a encomenda poder-se-ia colocar entre 1558 e 1560. Mas é também possível que fosse a própria corte a encomendar estas obras, ou pelo menos a patrociná-las fortemente, pois há o precedente da encomenda da série da primeira viagem de Vasco da Gama, por Manuel I, para publicitar a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia e o facto de se ter tornado senhor do Comércio e das Conquistas e Navegações da Arábia, Pérsia e Índia, tapeçarias que ficaram conhecidas como à maneira de Portugal e da Índia, e de que foram feitas diversas séries, ao longo das décadas seguintes. Também nestas o exótico era um tópico, e não teriam alcançado o êxito que tiveram, não fossem as representações das coisas da Ásia. Se escolhermos a tapeçaria menos conhecida do grande público, revelada por nós recentemente, notaremos imediatamente esse exotismo. Os elementos iconográficos essenciais são as duas girafas, vindo da esquerda para a direita, uma delas montada por um homem armado com uma lança. A outra, a que está mais atrás, tem um serviçal a segurá-la, este já dentro de uma cerca, como que a recebê-la. O lado direito está próximo das tapeçarias com temas pastoris.
Opostamente, o lado esquerdo do observador, para além das já referidas girafas, um servo puxa um camelo que está deitado e de que só se vê parte da cabeça e do pescoço. Um outro homem, armado com uma lança, com um turbante na cabeça, o que indicará a sua origem oriental, e com a mão direita pousada no punho de uma cimitarra, espera o resto do cortejo. As flores e os frutos, que parecem laranjas apontam para regiões longínquas e para realidades novas. A vitória de Diu elevou João III ao mesmo nível de Carlos V, quando este conquistou Tunes, e não estando lá presencialmente, estava lá através do seu longo braço materializado na figura do vice-rei. Isto justificaria o facto de não estarem em Portugal, mas sim em colecções de familiares chegados da rainha dona Catarina de Áustria, como aliás aconteceu com muitas obras que vieram do Oriente, e que eram da maior importância, quer política quer material, como os cofres das embaixadas do Ceilão, mas que parece não terem interessado muito aos monarcas portugueses. Também as tapeçarias vulgarmente conhecidas como de Pastrana, dedicadas às conquistas em Marrocos, ou as das glórias de João III e dona Catarina e a sua equiparação aos deuses do Olimpo acabaram no país vizinho.
Alguns autores pretenderam identificar nas tapeçarias os retratos da infanta dona Maria e do infante Luís, ideia que também já perfilhámos, mas que abandonámos, dando hoje total razão aos argumentos de Vasco Graça Moura sobre esta questão. Se assim fosse, estariam representados fora do contexto geográfico e temporal, devendo ser antes Álvaro de Castro e dona Ana Ataíde, sua esposa». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

domingo, 11 de novembro de 2012

Uma Tapeçaria Inédita da série dos feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «São tantos os pormenores da paisagem, dos animais, das plantas e dos hábitos orientais, e as acções estão tão próximas dos relatos escritos, que na elaboração do programa iconográfico teve que participar, e com um papel fundamental, alguém que tenha vivido por dentro esses acontecimentos…»



Cortesia de wikipedia

«[…] ao longo das ruas estavam estátuas e muitas pinturas alusivas ao cerco de Diu, entrou sob um riquíssimo pálio, e mandou fazer expressamente um arco triunfal, como os de Roma que celebraram Tito ou outro grande general vitorioso. Mas houve formas distintas de evocar os feitos heróicos do vice-rei, nem sempre com a precisão do registo histórico é certo, formas plásticas, de entre as quais se destacam a série de tapeçarias que lhe foi dedicada, da qual se guardam dez exemplares no Museu de História da Arte de Viena de Áustria, e de que conhecemos outra que é de um particular português.
Ainda dentro do campo das Artes Plásticas, as façanhas do vice-rei João de Castro inspiraram outros autores, como o que pintou as belíssimas iluminuras da obra de Jerónimo Corte-Real, intitulado Sucesso do Segundo Cerco de Diu, estando dom Ioham de Mascarenhas por Capitam e Gvovernador da Fortaleza, Anno de 1546, cujo original está guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. João de Castro aparece referenciado como exemplo de elevação e relevo moral, duro para consigo próprio, vivendo asceticamente, a par dos seus soldados, mas exigindo sempre o tratamento e as galas e honras devidas quando em representação de el-rei.
Não podemos esquecer uma escultura de madeira representando o vice-rei, que um dia encontrámos no estrangeiro, e que conseguimos que um amigo e coleccionado comprasse e trouxesse para Portugal, e serviu para os cartazes da exposição que teve lugar no edifício da Alfândega do Porto, em 1998.
Um dos episódios mais conhecidos sua curta vida de João de Castro, foi o facto de ter cortado as próprias barbas e de as ter enviado, num cofre, à Câmara da cidade de Goa, para que lhe fosse emprestado dinheiro, para a reconstrução das muralhas de Diu. Não esqueçamos que as barbas longas eram, ao tempo, um sinal exterior de importância, dignidade e alto estatuto. Depois da dura batalha, em que tanto se empenhou pessoalmente, e na qual morreu o seu filho Fernando, e tendo ficado os muros da cidade completamente destruídos, mandou o arquitecto Francisco Pires edificar novos baluartes, fossos e cortinas, ao modo que se fizera em Ceuta, que o mesmo é dizer, abaluartados e segundo os processos introduzidos nessa praça magrebina, bem como nas vizinhas de Mazagão e Tânger, por Benedetto de Ravena. Como fosse necessário dinheiro para pagar aos trabalhadores e para comprar mantimentos, decidiu pedir um empréstimo de 20.000 pardaus à cidade de Goa, mas como não tinha nada de valioso para dar como penhor, mandou desenterrar os ossos do seu filho Fernando, que morrera na defesa de Diu, quando foi em seu socorro. No entanto, estando ainda os seus ossos por gastar, optou por cortar publicamente as barbas, metê-las numa caixa de marfim branco e enviá-as às autoridades goesas, por mão de Diogo Rodrigues de Azevedo.
Lembremos esta passagem da crónica da autoria do seu neto, com as palavras postas na boca do próprio vice-rei:
  • “…Eu mandei desenterrar D. Fernando, meu filho, que os mouros mataram nesta fortaleza pelejando por serviço de Deus e de el-rei nosso senhor, para vos mandar empenhar os seus ossos, mas acharam-no de tal maneira que não foi lícito ainda agora de o tirar à terra, pelo que não me ficou outropenhor salvo as minhas próprias barbas que vos aqui mando por Diogo Rodrigues de Azevedo, porque, como já deveis ter sabido, eu não possuo ouro, nem prata, nem móvel, nem cousa alguma de raíz, por onde vos possa segurar vossas fazendas, somente uma verdade seca e breve de que me Nosso Senhor deu…”

A série de tapeçarias cujo tema são os seus feitos, uma “crónica plástica”, como lhe chamou Vasco Graça Moura, designação que Fernando Checa também usou para designar as que relatam a Tomada de Tunes por Carlos V, e que são praticamente contemporâneas, ou um pouco anteriores, estão repletas de alegorias, de evocações de factos reais, e também do seu apego ao que era exótico, na perspectiva do homem europeu. São tantos os pormenores da paisagem, dos animais, das plantas e dos hábitos orientais, e as acções estão tão próximas dos relatos escritos, que na elaboração do programa iconográfico teve que participar, e com um papel fundamental, alguém que tenha vivido por dentro esses acontecimentos, e não estamos a ver ninguém mais indicado do que Álvaro de Castro. A heroicização de João de Castro, a elevação da sua figura por iniciativa dos seus descendentes, se foram eles que encomendaram a série de panos de armar, nobilitavam-nos a eles mesmos. Temos assim, uma junção de um plano meramente histórico com outro claramente simbólico e alegórico, que não foi caso único em obras quinhentistas do género. A hipótese mais plausível é que a encomenda fosse feita por Álvaro de Castro. Depois de algumas dificuldades por que passou após a morte do pai, foi enviado para França como embaixador, onde esteve entre 1559 e 1562, e mais tarde para Roma, e esteve envolvido durante anos, entre outras, nas negociações para o casamento do rei Sebastião com Margarida de Valois, como se sabe uma diligência frustrada». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

continua
Cortesia de Wikipedia/JDACT

domingo, 21 de outubro de 2012

Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. « Ainda dentro do campo das Artes Plásticas, as façanhas de João de Castro inspiraram outros autores, como o que pintou as belíssimas iluminuras da obra de Jerónimo Corte-Real, intitulado Sucesso do Segundo Cerco de Diu, estando dom Ioham de Mascarenhas por Capitam e Gvovernador da Fortaleza, Anno de 1546»

jdact

«O cronista Damião de Góis confirma na sua obra De Bello Cambaico Ultima Comment, de Lovaina e de 1548, “… que toda a Europa falou da batalha de Diu e das vitórias dos portugueses sobre um dos mais poderodos reis do Oriente ...”. No estrangeiro foram impressos mais relatos sobre a heroicidade de Castro, em Diu, nomeadamente, o Don Giovanni di Castro, de Roma e de 1549, e as Nouvelles des Indes, de Paris, estampada no ano seguinte. As próprias Lendas da Índia, de Gaspar Correia, que tão bem conheceu o vice-rei e que foram terminadas antes de 1564, aludem fartamente aos sucessos de Diu. Mais alargado é o âmbito de outros textos, como a crónica escrita pelo neto de João de Castro, Fernando de Castro, filho natural de Álvaro de Castro, intitulada Crónica do Vice-Rei D. João de Castro, no entanto, nem sempre objectiva, pois é claramente um panegírico, para enobrecimento da sua linhagem. É curioso que João de Castro, ao que tudo indica desapegado aos bens materiais, não deixou de organizar um sumptuoso cortejo triunfal, quando da sua entrada em Goa, após os sucessos de Diu. Mais do que a vaidade pessoal, julgamos estar em presença de um acto de Estado, uma homenagem que era devida a quem representava naquele momento o rei de Portugal. Lido nos Clássicos, conhecedor nomeadamente de Vitrúvio, tudo foi organizado como o arquitecto romano de Augusto deixou escrito no Livro IX do seu De Architectura; ao longo das ruas estavam estátuas e muitas pinturas alusivas ao cerco de Diu, entrou sob um riquíssimo pálio, e mandou fazer expressamente um arco triunfal, como os de Roma que celebraram Tito ou outro grande general vitorioso.
Mas houve formas distintas de evocar os feitos heróicos do vice-rei, nem sempre com a precisão do registo histórico é certo, formas plásticas, de entre as quais se destacam a série de tapeçarias que lhe foi dedicada, da qual se guardam dez exemplares no Museu de História da Arte de Viena de Áustria, e de que conhecemos outra que é de um particular português.
Ainda dentro do campo das Artes Plásticas, as façanhas de João de Castro inspiraram outros autores, como o que pintou as belíssimas iluminuras da obra de Jerónimo Corte-Real, intitulado Sucesso do Segundo Cerco de Diu, estando dom Ioham de Mascarenhas por Capitam e Gvovernador da Fortaleza, Anno de 1546, cujo original está guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

NOTA: As iluminuras do Códice Cadaval 31 foram editadas recentemente, numa edição de luxo e de grande fidelidade aos originais: .Jerónimo Corte-Real, Sucesso do Segundo Cerco de Diu, edição de Luís de Albuquerque, Lisboa, 1991.

O vice-rei João de Castro aparece referenciado como exemplo de elevação e relevo moral, duro para consigo próprio, vivendo asceticamente, a par dos seus soldados, mas exigindo sempre o tratamento e as galas e honras devidas quando em representação de el-rei.
Não podemos esquecer uma escultura de madeira representando o vice-rei, que um dia encontrámos no estrangeiro, e que conseguimos que um amigo e coleccionador comprasse e trouxesse para Portugal, e serviu para os cartazes da exposição que teve lugar no edifício da Alfândega do Porto, em 1998.
Um dos episódios mais conhecidos sua curta vida de João de Castro, foi o facto de ter cortado as próprias barbas e de as ter enviado, num cofre, à Câmara da cidade de Goa, para que lhe fosse emprestado dinheiro, para a reconstrução das muralhas de Diu. Não esqueçamos que as barbas longas eram, ao tempo, um sinal exterior de importância, dignidade e alto estatuto. Depois da dura batalha, em que tanto se empenhou pessoalmente, e na qual morreu o seu filho Fernando, e tendo ficado os muros da cidade completamente destruídos, mandou o arquitecto Francisco Pires edificar novos baluartes, fossos e cortinas, ao modo que se fizera em Ceuta, que o mesmo é dizer, abaluartados e segundo os processos introduzidos nessa praça magrebina, bem como nas vizinhas de Mazagão e Tânger, por Benedetto de Ravena. Como fosse necessário dinheiro para pagar aos trabalhadores e para comprar mantimentos, decidiu pedir um empréstimo de 20.000 pardaus à cidade de Goa, mas como não tinha nada de valioso para dar como penhor, mandou desenterrar os ossos do seu filho Fernando, que como dissemos acima morrera na defesa de Diu, quando foi em seu socorro. No entanto, estando ainda os seus ossos por gastar, optou por cortar publicamente as barbas, metê-las numa caixa de marfim branco e enviá-las às autoridades goesas, por mão de Diogo Rodrigues de Azevedo. Lembremos esta passagem da crónica da autoria do seu neto, com as palavras postas na boca do próprio vice-rei:

“…Eu mandei desenterrar D. Fernando, meu filho, que os mouros mataram nesta fortaleza pelejando por serviço de Deus e de el-rei nosso senhor, para vos mandar empenhar os seus ossos, mas acharam-no de tal maneira que não foi lícito ainda agora de o tirar à terra, pelo que não me ficou outropenhor salvo as minhas próprias barbas que vos aqui mando por Diogo Rodrigues de Azevedo, porque, como já deveis ter sabido, eu não possuo ouro, nem prata, nem móvel, nem cousa alguma de raíz, por onde vos possa segurar vossas fazendas, somente uma verdade seca e breve de que me Nosso Senhor deu…”.

In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.


continua
Cortesia de Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Uma Tapeçaria Inédita da série dos feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «Ainda em vida, João de Castro tornou-se uma verdadeira lenda, quer nas terras banhadas pelo Índico quer no Reino e no resto da Europa. Temido por uns e admirado por outros, a sua aura foi crescendo e, a pouco e pouco, o tempo urdiu uma trama de episódios que estão para além da realidade…»



Cortesia de wikipedia

«Em 28 de Fevereiro de 1545, por carta-patente passada por João III, em Évora, João de Castro foi nomeado vice-rei, sucedendo a Martim Afonso Sousa, e a 10 de Setembro chegou a Goa.
A política de rigor e justiça que aplicou não agradou às altas patentes do Estado da Índia, nem a muitos dos naturais daquelas partes, mas facto é que tentou sanear as finanças e terminar com a corrupção que por lá grassava. Resolveu também a questão da anexação dos territórios de Bardês e Salcete, indispensáveis para a auto-suficiência de Goa e da Ilha de Tiswadi, tendo para isso de derrotar as forças do Idalcão. Mas a sua principal acção militar foi a que teve no descerco de Diu, em 1547. Mas não teve descanso, pois logo avançou, para dar combate aos inimigos da presença portuguesa no Índico. João III prorrogou o seu mandato por mais três anos, mas pouco depois de ter chegado a notícia, adoeceu e faleceu, quando contava apenas quarenta e oito anos de idade. Foi sepultado na capela-mor do convento de São Francisco, e os seus restos mortais trasladados para o Reino em 1576, e depositados em São Domingos de Benfica.
Ainda em vida, João de Castro tornou-se uma verdadeira lenda, quer nas terras banhadas pelo Índico quer no Reino e no resto da Europa. Temido por uns e admirado por outros, a sua aura foi crescendo e, a pouco e pouco, o tempo urdiu uma trama de episódios que estão para além da realidade e que entram, pelo menos, no limiar da fábula.
Os feitos guerreiros de João de Castro correram pela Europa do seu tempo, na correspondência diplomática e nos relatos enviados para a Corte pelos agentes régios na Índia, em textos impressos, alguns deles imediatamente após os acontecimentos que relatam, de que se destaca o descerco heróico da cidade de Diu, nos ‘Commentarius de rebus a Lusitanis in India apud Dium gestis anno salutatis nostrae MDXLVI’, impresso em Coimbra, na tipografia de João Barreira, em 1548, da autoria de Diogo de Teive.

NOTA: A tradução é: Relação das proezas levadas a efeito na Índia, junto de Diu, no ano da nossa salvação de 1546. A obra foi publicada por Carlos Ascenso André e por Rui Manuel Loureiro, em 1995, edição Cotovia.

Este humanista teve certamente acesso à crónica da autoria de Leonardo Nunes que incidia sobre este feito, então ainda manuscrita e que só viria a ser impressa muito mais tarde, a primeira das vezes, segundo cremos, em 1925, por iniciativa de António Baião e sob os auspícios da Academia das Ciências de Lisboa. Teive teve que conhecer igualmente a missiva que o próprio vice-rei escreveu a João III, em 16 de Janeiro de 1546, dando-lhe conta do que se tinha passado, hoje guardada na Torre do Tombo, caso contrário o seu relato não teria sido tão fiel.
O cronista Damião de Góis confirma na sua obra ‘De Bello Cambaico Ultima Comment, de Lovaina e de 1548, “… que toda a Europa falou da batalha de Diu e das vitórias dos portugueses sobre um dos mais poderodos reis do Oriente ...”. No estrangeiro foram impressos mais relatos sobre a heroicidade de Castro, em Diu, nomeadamente, o ‘Don Giovanni di Castro’, de Roma e de 1549, e as ‘Nouvelles des Indes’, de Paris, estampada no ano seguinte. As próprias ‘Lendas da Índia’, de Gaspar Correia, que tão bem conheceu o vice-rei e que foram terminadas antes de 1564, aludem fartamente aos sucessos de Diu. Mais alargado é o âmbito de outros textos, como a crónica escrita pelo neto de João de Castro, Fernando de Castro, filho natural de Álvaro de Castro, intitulada ‘Crónica do Vice-Rei D. João de Castro’, no entanto, nem sempre objectiva, pois é claramente um panegírico, para enobrecimento da sua linhagem. É curioso que João de Castro, ao que tudo indica desapegado aos bens materiais, não deixou de organizar um sumptuoso cortejo triunfal, quando da sua entrada em Goa, após os sucessos de Diu. Mais do que a vaidade pessoal, julgamos estar em presença de um acto de Estado, uma homenagem que era devida a quem representava naquele momento o rei de Portugal. Lido nos Clássicos, conhecedor nomeadamente de Vitrúvio, tudo foi organizado como o arquitecto romano de Augusto deixou escrito no Livro IX do seu ‘De Architectura’; ao longo das ruas estavam estátuas e muitas pinturas alusivas ao cerco de Diu, entrou sob um riquíssimo pálio, e mandou fazer expressamente um arco triunfal, como os de Roma que celebraram Tito ou outro grande general vitorioso». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

continua
Cortesia de Wikipedia/JDACT

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «Em 28 de Fevereiro de 1545, por carta-patente passada por João III, em Évora, João de Castro foi nomeado vice-rei, sucedendo a Martim Afonso Sousa, e a 10 de Setembro chegou a Goa»



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«João de Castro nasceu em Lisboa, a 17 de Fevereiro de 1500, filho segundo de Álvaro de Castro, governador da Casa do Cível e vedor da Fazenda no tempo de João II e de Manuel I, e de D. Leonor de Noronha, filha de João de Almeida, 2º conde de Abrantes. Pertencia à alta nobreza portuguesa e, como tal, recebeu esmerada educação, tendo inclusivamente sido discípulo de Pedro Nunes. Privou com o infante Luís, como ele mesmo confessa em texto autógrafo. A formação científica e literária de Castro, a par do infante Luís, é referida pelo próprio na dedicatória que escreveu em 1539, no Roteiro de Goa a Diu, onde diz explicitamente:
  • sendo eu criado de sua real casa, onde a ciência da Cosmografia mais floresceu que noutra parte alguma desta redondeza que habitamos
Com dezoito anos foi para o Norte de África, onde serviu durante nove anos, sendo aí armado cavaleiro. Até 1535, desempenhou vários cargos na Corte, e casou-se com D. Leonor Coutinho, senhora da Casa de Marialva, de quem ainda era primo. Em 1535, esteve com o infante Luís, no ataque a Tunes, organizado por Carlos V e, voltando ao Reino, retirou-se para a sua morada na Serra de Sintra, a quinta da Fonte del-Rei, ou quinta da Penha Verde, que tinha herdado por morte do pai, em 1528.
Dizia que lhe tinha grande afeição, … por ser em terra onde meu pai e avós se criaram ….
No entanto, os contactos com a Corte tinham forçosamente que ser constantes.
Três anos volvidos, embarcou pela primeira vez para a Índia, na armada de Garcia de Noronha, seu cunhado, estando no socorro a Diu, quando do primeiro cerco. Durante estas viagens começou a fazer levantamentos hidrográficos e topográficos e a recolher imagens dos locais por onde passava, que depois lhe serviram para a elaboração dos seus preciosíssimos Roteiros.
Nos anos seguintes comandou navios em várias acções de protecção das nossas praças ou em acções punitivas. Finalmente, depois deste período esgotante, mas também produtivo, e de grande importância para o seu conhecimento da Índia, do Golfo Pérsico e da Costa Oriental da África, regressou a Lisboa, em 1542, sendo nomeado capitão-mor da armada de guarda-costas. No ano seguinte, socorreu as nossas fortificações de Marrocos, coroando-se uma vez mais de glória. A sua presença junto do infante Luís e do seu círculo de eruditos não se quebrou, pois de outro modo não poderia nunca ter produzido uma obra científica como a sua, que vai além da de um excelente técnico, pois denuncia um profundo conhecimento do Humanismo vigente, que então se impunha em força em Lisboa e em Coimbra, depois de ter tido o berço em Évora.


Em 28 de Fevereiro de 1545, por carta-patente passada por João III, em Évora, João de Castro foi nomeado vice-rei, sucedendo a Martim Afonso Sousa, e a 10 de Setembro chegou a Goa. A política de rigor e justiça que aplicou não agradou às altas patentes do Estado da Índia, nem a muitos dos naturais daquelas partes, mas facto é que tentou sanear as finanças e terminar com a corrupção que por lá grassava. Resolveu também a questão da anexação dos territórios de Bardês e Salcete, indispensáveis para a auto-suficiência de Goa e da ilha de Tiswadi, tendo para isso de derrotar as forças do Idalcão. Mas a sua principal acção militar foi a que teve no descerco de Diu, em 1547. Mas não teve descanso, pois logo avançou, para dar combate aos inimigos da presença portuguesa no Índico. João III prorrogou o seu mandato por mais três anos, mas pouco depois de ter chegado a notícia, adoeceu e faleceu, quando contava apenas quarenta e oito anos de idade. Foi sepultado na capela-mor do convento de São Francisco, e os seus restos mortais trasladados para o Reino em 1576, e depositados em São Domingos de Benfica.
Ainda em vida, João de Castro tornou-se uma verdadeira lenda, quer nas terras banhadas pelo Índico quer no Reino e no resto da Europa. Temido por uns e admirado por outros, a sua aura foi crescendo e, a pouco e pouco, o tempo urdiu uma trama de episódios que estão para além da realidade e que entram, pelo menos, no limiar da fábula.
Os feitos guerreiros de João de Castro correram pela Europa do seu tempo, na correspondência diplomática e nos relatos enviados para a Corte pelos agentes régios na Índia, em textos impressos, alguns deles imediatamente após os acontecimentos que relatam, de que se destaca o descerco heróico da cidade de Diu, nos Commentarius de rebus a Lusitanis in India apud Dium gestis anno salutatis nostrae MDXLVI, impresso em Coimbra, na tipografia de João Barreira, em 1548, da autoria de Diogo de Teive. Este humanista teve certamente acesso à crónica da autoria de Leonardo Nunes que incidia sobre este feito, então ainda manuscrita e que só viria a ser impressa muito mais tarde, a primeira das vezes, segundo cremos, em 1925, por iniciativa de António Baião e sob os auspícios da Academia das Ciências de Lisboa. Teive teve que conhecer igualmente a missiva que o próprio vice-rei escreveu a João III, em 16 de Janeiro de 1546, dando-lhe conta do que se tinha passado, hoje guardada na Torre do Tombo, caso contrário o seu relato não teria sido tão fiel». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

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