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sábado, 2 de setembro de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Principais cidades e vilas

«Os besteiros provinham da gente dos ofícios mecânicos, sapateiros, ferreiros, alfaiates, que maioritariamente laboravam nos centros urbanos. Assim sendo, o rol dos besteiros de 1421, publicado nas Ordenações Afonsinas, permite assinalar no mapa os principais povoados, o mesmo é dizer. permite-nos medir a força do povo miúdo, meão e melhor, isto é dos burgueses ou homens dos burgos. O rol tem servido também para calcular o número de portugueses. Seriam um milhão ou mais.

Apuraram-se 4906 besteiros, assim distribuídos: Alentejo 1700, Estremadura 1179,Beira 1077, Entre Douro e Minho 550, Trás-os-Montes 400. Comparando estes números com os 1000 besteiros ordenados pelas Cortes de Guadalajara de 1390 ou os 8000 do reino de França, infere-se que Portugal não descurava os perigos que vinham de Castela nem os riscos que vinham da política do Mar. As preocupações com a segurança levaram João I a criar, em 1392, um corpo de elite, os besteiros de cavalo.

Os números evidenciam o povoamento disperso característico do Norte, em particular da região de Entre Douro e Minho, e o povoamento agrupado do Sul. Indicam também que os lugares mais povoados se situavam na Estremadura, no Alentejo e no Algarve.

Por ordem decrescente e até 30 besteiros, as localidades ordenavam-se do seguinte modo: Lisboa 300, Évora 100, Coimbra 100, Santarém 100, Guimarães 100. Eram os principais centros urbanos do reino: um em Entre Douro e Minho, outro no Alentejo e três na Estremadura. mas Lisboa vinha muito à frente.

Num segundo patamar, ficavam Elvas 80, Beja 80, Setúbal 65, Torres Vedras 62, Almada 60, Braga 50, Guarda,50. O Porto, burgo por excelência, vivia do comércio marítimo, da pesca e da construção naval, mas só participava com 40 besteiros, ao lado de Olivença 40, Estremoz 40,Leiria 40, Tomar 40, Mértola 40.

No último patamar ficavam Valelhas 39, Faria e Rates 33, Pena Maior 32, Alcácer 30. Silves 30, Faro 30, Tavira 30, Serpa 30, Portalegre 30, Avis 30, Vila Viçosa 30, Monsaraz 34, Montemor-o-Novo 30, Abrantes e Punhete 30, Montemor-o-Velho 30, Ponte de Lima 30, Vila Real 30, Terra de Chaves 30, Bragança 30, Pinhel 30, Covilhã 30, Viseu 30. Lafões 30, Castelo Branco 30.

Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos. Nalgumas províncias, as cidades e vilas eram ilhas num mar de ruralidade, dominado pela fidalguia e os senhores eclesiásticos.

Os campos

A massa da população dedicava-se à agricultura e à criação de gado. Havia grandes diferenças entre o Norte, o Centro e o Sul. Nas Cortes de Lisboa de 1427, dizia-se que em Entre Douro e Minho e na Beira não haveria cavões e jornaleiros por dinheiro. Tal não significava que não existissem, desde há muito, cabaneiros, homens que viviam do trabalho braçal, em boa parte pago em géneros, e que não tinham mais que uma cabana. Significava que aí era predominante a economia assente em casais, adubados com o suor familiar e exauridos pela renda feudal». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos,

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo…»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Avanço do mundo mercantil

«João I estabeleceu o imposto da sisa, tornando-o obrigatório para o comprador e o vendedor, fosse fidalgo ou clérigo. Democratizava assim o imposto e a vida pública. Fernão Lopes contabiliza o rendimento do rei em oitenta e dois contos de reais. Os direitos do reino contribuíam com vinte e um milhões, ao passo que o rendimento das sisas subia a sessenta milhões de reais, ou seja, a três quartos. O mundo mercantil ganhava um papel crescente.

Uma companhia de mercadores, formada pelo italiano Persifal e por Rui Garcia Lisboa e Martim Afonso Dinis e Lourenço de Sousa, do Porto, emprestaram ao rei 25 000 coroas de ouro para o casamento da sua filha Beatriz. O reembolso atingirá a soma de 11 535 000 libras. Em 1432 o dote de Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, subirá para 154 000 coroas de ouro, pagas por Pedro Eanes, feitor do rei e mercador português na Flandres.

Vasco Anes, tesoureiro-mor, recebeu do rei em usofruto pelo menos quatro naus e duas barcas. Podia fretar, pôr mestres, escrivães. mercadores, marinheiros, receber o dinheiro dos fretes, os ganhos e empregá-los em mercadorias, tomar contas aos mestres e dar-lhes quitações, sem que lhe peçam contas. Grande depositante na Comuna de Florença, o rei João tornava-se grande armador e encarregava do negócio o seu feitor Vasco Anes. O mundo novo ganhava outro fôlego.

Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo, pode carregá-lo do Porto para Lisboa, porquanto nós temos ordenado que todos os mantimentos se corram de umas partes para outras por todos os nossos reinos.

A estabilidade pública dependia do preço e da abundância do pão. Na década de setenta do século XIV, os preços do alqueire de trigo aumentaram e continuaram em ascensão até 1384. Baixaram, com algumas excepções. até ao final do século XV. A fome consumiu os lisboetas durante o cerco castelhano de 1384. Houve escassez de pão em 1391 e em 1394. Em 1399, a vereação de Lisboa contratou com os mercadores estrangeiros a troca de sal por pão.

Nos anos de 1401 e 1411 muitos castelhanos atravessaram a fronteira em busca de alimento. Nuno Álvares Pereira socorreu-os com o trigo dos seus celeiros. No ano de 1418 perderam-se as colheitas. E em 1422 e 1427 Lisboa e o seu termo recolheram o ouro necessário para mandar vir trigo de fora do reino». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos, 

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «… o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«Os actos mais importantes da governação foram decididos mediante a audição do verdadeiro parlamento nacional: pedidos para a guerra, leis sobre os salários e sobre política económica, queixas dos fidalgos, do clero e dos concelhos, estabelecimento das casas dos infantes, abusos dos funcionários régios, cláusulas do tratado de paz.

Nas Cortes de Lisboa de 1389, João I estabeleceu um pacto com os concelhos: sempre que se deslocassem para guerra de fronteira, as tropas dos municípios receberiam soldo como os fidalgos.

Nas Cortes de Évora de 1408, as três ordens do reino concordaram em contribuir para montar as casas dos infantes Duarte, Pedro e Henrique, mediante o terço do rendimento das sisas, mas a recolha do dinheiro e a compra dos bens ficavam nas mãos dos homens bons, escolhidos nessas Cortes pelos concelhos. O próprio rei confirma a força deste parlamento quando responde à crítica dos fidalgos: não pode deixar de descontar o rendimento das terras da coroa no pagamento das suas quantias, porque assim. em suas Cortes fora ordenado.

Em 1386. o rei João revogou as medidas que proibiam a exportação de mercadorias sem o pagamento da dízima em prata e sem prévio juramento de que trariam em retorno mercadorias de valor igual. Esta decisão incrementava a produção destinada ao mercado interno e à exportação.

O comércio de mantimentos e de armas e a defesa de Ceuta levaram a um incremento da construção naval e da marinharia. uma armada portuguesa auxiliou os ingleses de Henrique V na batalha de Azincourt. No cerco de Ceuta de 1418-1419, a armada de Granada não se atreveu a defrontar a frota portuguesa de socorro. Antes, nos tempos do monarca Fernando, os galiotes eram arrebanhados à força pelos campos e levados em baraços para as galés. Mesmo agora, segundo uma ordenação, datada de 1420, os homens válidos fugiam e desamparavam a terra. Uns pagavam para serem substituídos, outros perdiam os bens e fugiam.

A armação duma galé provocava sempre alvoroço. Tendo em mente estes factos, o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão. Os galiotes passarão a ser contratados mediante o pagamento de soldo, alguns metros de pano e a partilha nos despojos». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos, 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Nunca os concelhos intervieram tão activa e decisivamente na política nacional. Nos cinquenta anos em que João I governou, as Cortes reuniram-se vinte e oito vezes, mais vezes do que em todos os reinados dos séculos XIV e XV»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«A convulsão social, as guerras, a fome, a desvalorização brutal da moeda não ofuscaram a boa memória do rei João. Os sucessos obtidos no campo político e militar refundaram a independência do reino e criaram um capital mítico que rendeu até aos nossos dias.

Nos anos da revolução, as oportunidades de ascensão social permitiram que um escudeiro de quatro rocins, embora filho de mestre e neto de arcebispo, pudesse criar, quase do nada, o maior senhorio de Portugal. Um tanoeiro alçou-se a alcaide da cidade de Lisboa. Um cavaleiro mercador e corsário. filho e neto de mercadores, tornou-se rico-homem, capitão-mor do mar, alcaide-mor de Lisboa, conde de Abranches. na Normandia. e cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Lançaram-se dez pedidos gerais para as despesas da guerra; gastaram-se 280 000 dobras na conquista de Ceuta, 500 000 em casamentos, viagens, expedições às Canárias. descerco de Ceuta; armaram-se frotas; iniciaram-se obras monumentais como a do mosteiro da Batalha; a moeda desvalorizou, segundo Costa Lobo, 1109 vezes. A Coroa e a economia resistiram. Alguns reais de prata, cunhados nos dias da revolução, foram pendurados ao pescoço como talismã.

As queixas principais vieram dos fidalgos. Os senhorios recebiam a renda em dinheiro e deixavam uma parte maior dos excedentes nas mãos dos produtores. Com os excedentes animavam-se as feiras e o comércio. Por outro lado, os concelhos das cidades e das vilas que, de armas na mão e com o dinheiro da sua bolsa, sustentaram a parte maior da guerra, não se esqueceram de pugnar pela libertação dos tributos feudais que oneravam a produção e o desenvolvimento de uma economia progressivamente mercantil.

Assinado o tratado de paz em 1411, o Conselho Régio decidiu em ordenança um efectivo militar de 3200 lanças, assim distribuídas: Capitães 500, Escudeiros de uma lança 2360, Ordem de Cristo e Ordem de Santiago 100 cada, Ordem de Avis e do Hospital 80. Os escudeiros de uma lança subiam a mais de dois terços dos efectivos. O capitão e ex-juiz de Lisboa Antão Vasques comandara mais de 70 lanças, algumas de fidalgos de linhagem. Vemos bem de que lado social estava a força.

As Cortes

Nunca os concelhos intervieram tão activa e decisivamente na política nacional. Nos cinquenta anos em que João I governou, as Cortes reuniram-se vinte e oito vezes, mais vezes do que em todos os reinados dos séculos XIV e XV. Realizaram-se em dez cidades e vilas: à cabeça, Lisboa, Coimbra, Santarém, mas também em Viseu, Braga, Guimarães, Montemor-o-Novo e Estremoz». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos,

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Esse projecto nascia da necessidade de firmar um pé fora, no esforço de segurar a independência política e de acalmar o medo de Castela. E da necessidade de dar emprego aos jovens candidatos a fidalgos»

 

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«A palavra mercador, corrente na época, tinha contra si o episódio evangélico da flagelação dos vendilhões do templo e a condenação jurídica e moral dos empréstimos a juros por parte do Direito Canónico. Por isso, a palavra e a actividade do mercador se escondem por trás de outros vocábulos como homem bom, homem honrado, cidadão e com crescente frequência por trás de criado d’el-rei, escudeiro, cavaleiro e mesmo cavaleiro fidalgo.

Toda a sociedade portuguesa participou, como dissemos, e foi marcada pelo movimento da expansão marítima. Mas, socialmente, os grupos determinantes têm origem urbana, honrados ou náo.

São os que constroem barcos e navegam no Mar Oceano, os que aumentam em caudal as rendas do rei e pugnam pelo fortalecimento da Coroa, os que empregam e acumulam crescentes cabedais, mas que seriam excluídos da direcção nominal suprema.

Do ponto de vista das relações exteriores, a posse de Ceuta implicava a manutenção de um corpo militar permanente, calculado em cerca de três mil homens. Portugal era um cruzado militante. O papa abençoava o seu exemplo e esforço. Esta bênção aliviava a i pressão que pudesse ser exercida por príncipes cristãos, designadamente por Castela, e propagandeava os feitos e o poder militar do eino de Portugal.

A conquista de Ceuta envolveu também, desde logo, um projecto mais largo, o de criar um Portugal Além-Mar em África, ao menos o domínio de outras praças marítimas e ainda o assentamento nas ilhas descobertas e a descobrir. Esse projecto nascia da necessidade de firmar um pé fora, no esforço de segurar a independência política e de acalmar o medo de Castela. E da necessidade de dar emprego aos jovens candidatos a fidalgos.

Vale a pena enumerar a fardagem dos títulos que ostentava o rei de Castela, pela graça de Deus, rei de Castela, de Leão, de Toledo, da Galiza, de Sevilha, de Córdova, de Múrcia, de Jaen, do Algarve, de Algeciras e senhor de Biscaia e de Molina. Pelo seu lado. em 1410, o rei de Aragão estendia o seu domínio às ilhas Baleares, à Sardenha, à Sicília. João I era tão só rei de Portugal e do Algarve, a que juntava agora o título de senhor de Ceuta.

Com os seus navios e corsários, Ceuta controlou nos séculos XV e XVI a navegação que velejava pelo Estreito de Gibraltar. Tornou-se escola de milícia e modelo de arquitectura militar. Nos séculos XVI e XVII, responderá ao corso que flagelava as armadas portuguesas e espanholas que regressavam do Oriente, do Brasil, da costa africana e das Américas». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos,

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) Das praias do Algarve, onde passou amiúde a residir, o Navegador perscrutava as notícias da Berberia, o comportamento dos defensores de Ceuta e a eficiência dos meios afectos à ponte naval entre Lisboa, o Algarve e Ceuta. No cerco de 1418, ele próprio e o infante João embarcaram em auxílio dos sitiados. Um dos barcos ocupados no serviço de Ceuta, no regresso ao Reino, chegou à ilha do Porto Santo. A dimensão atlântica somava-se então à empresa marroquina. Os recursos afectos à manutenção de Ceuta eram muito elevados. Entre eles figuravam parte dos consignados às Ordens Militares e aos bispados do Reino. Em 1419, a pedido de João I, o papa Martinho V decidiu que todos os arcebispos, bispos, demais prelados e pessoas eclesiásticas, seculares e regulares, contribuíssem com 9000 florins anuais, durante três anos, para ajuda à nova cidade cristã. A dificuldade em manter uma colónia europeia em África começou a recortar-se com nitidez: pagamento da guarnição, abastecimento em armas e víveres, manutenção da armada no Estreito, dificuldade no recrutamento de fronteiros e moradores, estabelecimento de uma administração permanente em Ceuta e no Reino, enfim, todo o lançamento da estrutura necessária aos territórios de além-mar. João I procurou suscitar o apoio de outros monarcas cristãos para a guerra contra os Mouros e, para isso, escreveu a Afonso V, rei de Aragão e da Sicília; a resposta, dada em 1420, adiava o auxílio para ocasião favorável. O abastecimento de cereais a Ceuta foi, frequentemente, dado a contratadores portugueses e estrangeiros que iam buscar o trigo a Castela, Sicília e outros lugares. Foi o caso do contrato, feito em 1423, com Luís Eanes, outros portugueses e dois genoveses, Bartholomeu Lomellim e Bartholomeu Baraboto, de 2000 moios de trigo para Ceuta. Surgiu então em Portugal um debate complexo a que podemos chamar a questão de Ceuta, que seria alargado mais tarde à escolha dos diferentes rumos que a expansão poderia assumir. Os dirigentes portugueses preocupavam-se com as despesas permanentes que a manutenção de Ceuta exigia, procuravam soluções expeditas e menos onerosas e questionavam-se sobre o futuro da colónia. Assistiu-se à internacionalização do problema, em que foram parte interessada os países ibéricos, o Papado e os meios financeiros europeus, atentos aos projectos carenciados de avultados recursos. De tudo isto nos dá conta a famosa carta que o infante Pedro escreveu de Bruges, em 1426, a seu irmão Duarte: Do que sentya dos feitos de Cepta per algua vez, senhor, vo-lo razoey; mas a conclusão é que, emquanto asy estiver ordenada como agora está, que é muy bom sumydoiro de gente de vossa terra e d'armas e de dinheiro. E, segundo eu senty d'alguns bons homens de Inglaterra de autoridade e daquy, deixam já de falar na honrra e boa fama que é em a asy terem, e falam na grande indiscrição que é em a manterem com tam grande perda e destruyçom da terra, do que a mym parece que eles hão muyto peor informação do que ainda é. O remedio desto, senhor, per muytas vezes o falastes e o sabeis melhor do que vos eu poderia escrever; parece-me, senhor, que farieis serviço de Deus e voso ordena-lo sem delonga. A solução proposta pelo infante  Pedro não está expressa na carta, mas já fora discutida com o herdeiro da coroa. O infante das Sete partidas beneficiava das viagens pela Europa para colher ensinamentos sobre a forma como ali se considerava a conquista de Ceuta; mostra-se um crítico da situação, mas não podemos julgar, em termos definitivos, se era contra a guerra de África e pelo abandono de Ceuta se, pelo contrário, propunha a conquista de novos e mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos, 

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Interesse pelo Norte de África

«(…) O novo florão nobilitário, situado em solo africano, fazia tornar menos pobre a comparação com o título dos émulos castelhanos dos reis portugueses... Depois da conquista, João I reuniu o Conselho para decidir se deveria manter a posse de Ceuta. A questão figura na Crónica da Tomada de Ceuta, escrita por Gomes Eanes Zurara cerca de 1450, e parece ter sido uma mera formalidade. Como seria possível o abandono de Ceuta depois do enorme esforço militar e financeiro a que o Reino se submetera? A justificação da pergunta parece ser outra. A empresa era muito arriscada; concebida com muita fé e persistência durante vários anos, não deixava de ser um acto de grande temeridade embarcar o rei, os três filhos mais velhos e a grande nobreza do Reino ao mesmo tempo. A situação de insegurança em que Portugal se encontraria em caso de derrota ou de tempestade em que a frota soçobrasse, a incerteza sobre o desenlace da viagem e da batalha e a necessidade de segredo, são razões que explicam a ausência de planeamento para depois da vitória e a questão levantada por João I no Conselho. A resposta, defendida pelo Rei, era óbvia: manter Ceuta portuguesa.

A escolha do capitão suscitou algumas dificuldades porque os principais nobres não estavam dispostos a permanecer em local tão perigoso depois da retirada da frota. O oferecimento que de si próprio fez Pedro Meneses e a subsequente valorização da sua casa oferecem um exemplo da nova situação social portuguesa: a ascensão na escala hierárquica da nobreza através dos serviços prestados no exército e no funcionalismo ultramarino. O monarca João I permaneceu em Ceuta durante alguns dias para prover a cidade de meios de defesa adequados aos ataques que os Mouros não deixariam de fazer. Distribuiu benesses pelos companheiros mais arrojados, como a confirmação do couto de Leomil e a doação de Numão ao marechal Gonçalo Vasques Coutinho. Ao regressar ao Reino, desembarcou em Tavira, cidade onde fez os dois filhos, Pedro e Henrique, respectivamente duques de Coimbra e de Viseu. Ceuta iniciou então a vida que viria a ser habitual nas cidades portuguesas do Norte de África, sujeitas a incursões mouras feitas de surpresa ou a assédios mais ou menos prolongados. Tratava-se de uma ocupação restrita à cidade murada, sendo os arredores aproveitados para recolher lenha, fazer pastar o gado ou entrar em território inimigo. Apesar das dificuldades, o campo vizinho da fortaleza era cultivado, embora as colheitas fossem incertas, porque podiam ser roubadas ou destruídas pelos Mouros. Alguns locais, em particular junto da costa, foram doados pelo rei a particulares, como Bolhões e o Castelo de Larotona. A dinastia merínida, então no poder em Marrocos, atravessava um período de acentuado declínio, pelo que a reacção ao ataque português demorou alguns anos; neste período consolidaram-se as defesas da cidade e a guarnição portuguesa habituou-se à guerra em África, com entradas profundas em Marrocos, e à actividade de corso a partir do porto de Ceuta. A ocupação da cidade magrebina granjeou fama internacional ao monarca português; findavam também os cuidados que a preparação da frota e o segredo sobre o seu objectivo ocasionaram nos países que se consideravam alvos potenciais. Nos meios eclesiásticos saudava-se o facto de poder ser ocupada, efectivamente, uma sé na Berberia. O Dr. Gil Martins, em 1416, no final do discurso que proferiu no Concílio de Constança, sublinhava a importância de Ceuta para a conquista futura da África: portus et clavis est totius Africae [...]. No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon. Depois da intervenção que tivera na preparação da frota e no ataque a Ceuta, eis o Infante investido na direcção da empresa ultramarina, então confinada àquela cidade de Marrocos. O trabalho maior a desenvolver era o da mobilização dos recursos necessários à guarnição da praça e o seu transporte». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela…»

 

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 O Interesse pelo Norte de África

«(…) A primeira conquista no além-mar obrigou à preparação de uma frota capaz de transportar numeroso exército equipado com armas e abastecimentos. Foi necessário mandar construir, comprar e alugar muitos navios. As notícias da época registam galés, galeões, naus, barcas, fustas, cocas e barinéis, entre outros, cuja variedade revela a inexperiência neste género de combate, a insuficiência dos recursos e a dispersão dos seus locais de origem. Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela; esse treino militar deveria ser sensível, sobretudo, ao nível dos comandos, como o demonstra a presença do próprio rei João I, do condestável Nuno Álvares Pereira e homens encanecidos cuja memória perdurou no parecer de João Gomes Silva, alferes do Reino: Ruços, além! É conhecida a presença de estrangeiros na expedição, entre os quais ingleses, alemães, polacos e franceses, que, tal como o exército português, ignoraram, até à passagem por Lagos, qual o destino final da empresa a que prestavam colaboração. A frota foi reunida em duas cidades, Lisboa e Porto, que desta forma assumiam simultaneamente o papel de centros mais importantes do País. A expansão obrigava os Portugueses a acantonarem-se próximo do mar, gerava os seus pólos mais dinâmicos e iniciava o virar de costas a Castela, que perdurou até aos nossos dias. O infante Pedro, filho segundo, ocupou-se dos preparativos em Lisboa e o infante Henrique, filho terceiro, no Porto; o Rei e o herdeiro do trono assumiram a direcção da empresa.

Depois de reunida a frota em Lisboa, um infausto acontecimento poderia ter alterado o plano da expedição: em 18 de Julho faleceu de peste a rainha Filipa de Lencastre, que, antes de morrer, abençoara a expedição. A vontade política era tão determinada que apenas cinco dias mais tarde foi dada ordem de partida; no dia 25 de Julho os navios deixaram a barra do Tejo. Em 27 de Julho, em Lagos, pela voz do capelão real frei João de Xira, foi anunciado o destino da frota: Ceuta. A cidade africana foi presa fácil dos Portugueses, bem preparados para a sua conquista. O Rei e o infante Pedro foram cruzar o mar em frente da cidade, em manobra de diversão; o infante Henrique comandou as forças que desembarcaram no lado do morro de Almina e entrou na cidade. Era o dia 21 de Agosto de 1415, verdadeiro acto do nascimento da expansão portuguesa. Os vencedores, senhores da cidade, saquearam as casas, quintais e terrenos, à procura de riquezas; parece que a colheita foi rendosa porque o assédio não fora esperado pelos Mouros e estes pouco tempo tiveram para fugir. A mesquita foi limpa e consagrada a Nossa Senhora da Assunção. No minarete colocaram-se dois sinos encontrados na cidade e outrora roubados em Lagos pelos corsários. Seguiu-se a cerimónia de armar cavaleiros os infantes e muitos outros nobres: feliz ocasião de honrar a nova geração do poder e os altos infantes que asseguravam o futuro da dinastia iniciada por João I, a cujo título de rei de Portugal e do Algarve era agora acrescentado o do senhor de Ceuta». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) A conquista das cidades e as incursões nos campos e aldeias eram aproveitadas para recolher o produto do saque de tudo o que tinha valor: alfaias, gado, cereais. Cada um dos contendores procurava fazer cativos, a fim de obter o dinheiro dos resgates. As praças serviam de base a uma importante actividade de corso feita ao serviço do rei ou dos nobres. Barcos pesqueiros ocupavam-se na exploração dos ricos bancos da orla marítima marroquina. Os períodos de paz eram aproveitados para as trocas comerciais com os diferentes produtos do país, os importados do Sudão, como o ouro e os escravos, ou as especiarias do Oriente. A indústria de tecidos, em particular os destinados ao vestuário e utilizados também para a cobertura durante a noite, assumiu uma importância decisiva depois da instalação dos portugueses em Arguim (cerca de 1448) e na Mina (depois de 1481) porque os Negros estavam habituados a utilizá-los. Ficaram célebres os lambéis como referiu Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo: uma roupa feita como mantas do Alentejo, que tem uma banda vermelha e outra verde e outra azul e utra branca, as quais bandas são de largura de dois e três dedos (...) E esta é a principal mercadoria por que se em Axem resgata o dito ouro, além de outras de menos valia que também praticamos. A obtenção de cereais em Marrocos foi muito aleatória porque estava dependente das colheitas, que nem sempre eram abundantes, e da situação de guerra ou de paz com as diferentes praças. Em 1414, um ano antes da conquista de Ceuta, os Portugueses venderam trigo no reino de Fez. Durante a maior parte do século XV assistimos ao abastecimento das praças lusitanas a partir da Europa. A paz de 1471, o protectorado na região de Azamor, Safim e Meça e o período dos mouros de pazes trouxeram tributos em cereais e outros produtos, além do incremento das compras e do comércio em geral. A reacção xarifina comprometeu quase definitivamente essa época promissora. Os diferentes estratos sociais tinham vantagens económicas com a colonização das praças da África do Norte. A exploração das terras era fonte de rendimentos. Afonso V procedeu a generosas doações no território que lhe pertencia nos termos da paz de Os cargos militares e civis eram asperamente disputados. Os reis favoreciam com moradias, comendas e outras benesses os que se dispunham a servir em África. Os burgueses interessavam-se pelos contratos de abastecimento das diferentes praças, associando-se, se necessário, a comerciantes estrangeiros. Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia. Grande número de particulares, pequenos comerciantes, pescadores e artesãos mantinham relações privilegiadas com Marrocos. Eram homens comprometidos com o abastecimento em víveres, armas, materiais de construção e outros produtos necessários à vida naquelas fronteiras e ao provimento das armadas que ali se dirigiam. Os pescadores algarvios habituaram-se a frequentar os ricos mares das costas marroquinas. O contrabando de todo o género de mercadorias, incluindo as proibidas, como as armas florescia nos portos portugueses, em especial do Algarve. Procuravam obter produtos diversos, como as especiarias, que, embora em quantidades diminutas, afluíam aos mercados norte-africanos. Este comércio fomentava o gosto pelos produtos exóticos que se desenvolvia em Portugal e em toda a Europa». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos

domingo, 31 de maio de 2020

Camões e a Infanta D. Maria no 31. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Onde tão subtis regras lhe mostrasse, que nunca lhe passassem da memoria, em nenhum tempo, as cousas que passasse»

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[…]
No Oriente
Das poesias lyricas escriplas por Camões no Oriente, três sobretudo constituem documentos importantes para a historia da sua paixão pela infanta. São ellas, por ordem chronologica, a elegia 3.a (O poeta Simonides fallando), a canção 10ª (Junto de um secco, duro, estéril monte) e a canção 6.ª (Com força desusada).
A elegia 3.a foi composta, pelo menos em parte, no fim do anno de 1553 ou no começo de 1554, para ser remettida ao seu destino pelas naus que iam partir para o reino (a elegia foi escripta ou pelo menos concluída talvez em Cochim, depois da expedição contra o rei da Pimenta. É possivel, com effeito, que o poeta para alli acompanhasse o vice-rei Affonso Noronha, que ia dar pressa ás naus do reino. Estas, no dizer de Couto, partiram até 15 de Janeiro. M. Perestrello, que voltava na S. Bento, em que fora o poeta, diz que partiram no dia 1 de Fevereiro, 1904).
Para bem se comprehender o estado de espirito do poeta ao escrever esta elegia, cumpre ter presente que, quando elle embarcou para a Índia, o casamento da infanta era cousa definitivamente assente e não devia tardar muito a effectuar-se. O futuro rei de Espanha havia mandado a Lisboa Ruy Gomez Silva, que sobre o assumpto se tinha intendido com João III [(o pouco sincero irmão da infanta ficou preso em uma armadilha que elle próprio tinha preparado, por conselho do activo e astuto Lourenço Pires Távora, embaixador junto de Carlos V. Quando este, formando novos planos políticos, resolveu casar o príncipe seu filho com uma filha do rei dos romanos e destinou a infanta dona Maria para o archiduque Fernando, Lourenço Távora avisou logo João III do novo perigo e aconselhou o alvitre de levar a infanta a não desistir do seu casamento com o filho de Carlos V. Era o meio seguro de inutilizar o novo projecto matrimonial. A infanta, que tanto desejava casar com o sobrinho, accedeu de bom grado ás indicações que neste sentido lhe foram dadas. Mallogrados, porém, dentro em pouco os planos de Carlos V, não restava a João III senão mostrar rosto alegre, e arranjar novos pretextos para adiar o enlace da irmã com o futuro rei de Espanha. Vejam-se as duas curiosas cartas de Lourenço Távora, escriptas em Dezembro de 1550, uma a João III e outra á infanta, e publicadas na Historia de varões illustres do appellido Távora de Ruy Lourenço Távora, Paris, 1648, e na Vida da Infanta dona Maria de fr. M. Pacheco. A carta dirigida á infanta é um modelo de cynismo… diplomático)].
Estava regularizada a questão da entrega do dote e agora o único pretexto que restava ao monarca português era a expressa acquiescencia do imperador, acquiescencia que elle… tinha pejo de soliicitar, apesar das instancias da já outras vezes ludibriada senhora. Oiçamos o próprio João III historiando o caso, quando as suas conveniências politicas lhe fizeram perder o pejo, embora já fosse tarde : Ruy guomcz se despedio de mim &, depoys de ser com o Primcepe, me screueo o Primcepe muitos cõtentamentos da rresposta que lhe mandara pelo dito Ruy guomez, da qual todauia comuinha auisar o Emperador, por ele asy lho ther mãdado. Sabemdo a Imfanta minha Irmaã os termos e que este neguocio estaua & como aymda se auia desperar por rresposta do Emperador, me pedio que eu lhe quisesse despachar huü correo, pelo qual lhe fizesc saber o comtentamento q eu tinha de se este negocio fazer & dos termos em q estaua & do que eu nele acerqua de seu dotte podia fazer. Porque emtemdia q, em quanto o Emperador ysto nam tiuesse sabido de mim, nam poderia o neguocio deixar de pasar a gramde dilaçam ; & com quanto eu em toda cousa deseje sempre dar todo comtentamento posiuel a Imfamte minha Irmãa, nesta em q me falou tiue pejo para o nam fazer como lho aela parecia. Porque deixar de o por em obra como mo rrequcria nam era causa de se o negocio deixar de fazer estamdo elle tamto adiamte como estaua. Do publico, porém, não era conhecido esse pejo, e quando Camões enviou para o reino a elegia 3.a , estava convencido de que a sua bem-amada já se achava em terras de Castella, casada com o principe Philippe.
Que restava ao desolado poeta? Varrer da memoria o seu doce sonho, que já não servia senão para o entristecer e magoar.
Vejamos como elle nos revela o estado da sua alma.

O poeta Simonides, fallando
Co capitão Themistocles um dia,
Em cousas de sciencia praticando,

Um’arte singular lhe promettia,
Que então compunha, com que lhe ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;

Onde tão subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria,
Em nenhum tempo, as cousas que passasse.

Bem merecia, certo, fama e gloria
Quem dava regra contra o esquecimento
Que sepulta qualquer antiga historia.

Mas o capitão claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia
Do passado as lembranças por tormento,

Oh illustre Simonides (dizia).
Pois tanto em teu engenho te confias.
Que mostras á memoria nova via:

Se me desses um’arte, que em meus dias
Me não lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!

Se este excellente dito ponderado
Fosse por quem se visse estar ausente.
Em longas esperanças degradado,

Oh como bradaria justamente:
Simonides, inventa novas artes
Não midas o passado co presente!
[…]
In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

No 31. Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Aquella triste e leda madrugada, cheia toda de mágoa e de piedade, emquanto houver no mundo saudade, quero que seja sempre celebrada»

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De volta de Ceuta
«(…) Como se não ririam dos desastres amorosos do apaixonado poeta os seus inimigos litterarios, os que o apodavam de rústico Magalio, de pomposo Chérilo; os que o tratavam de ignorante, de mau poeta, cujos versos não eram caballinos, antes pareciam de cavallo? Como não deviam irritar o brioso e destemido mancebo, que tinha a consciência do que valia como poeta e que nunca deixou ver as solas dos pés, quando aggredia ou era aggredido, como não deviam irritá-lo, digo, essas más línguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem su amada yedra de si arrancada y en otro muro asida, essas amizades mais brandas que cera, que se accendiam em ódios que disparavam lume que lhe deitava mais pingos na fama que nos couros de um leitão? (escrita da Índia; estou convencido de que entre as amisades de que falla o poeta se contava a de Andrade Caminha, o mal succedido cortejador de dona Francisca de Aragão).
E para acabar de lhe azedar a alma, não faltariam os boatos de que a infanta tinha todo o empenho em não protrahir o seu casamento com o principe das Astúrias.
Foi talvez por pôr a bocca no mau successo dos amores de Camões com a infanta, que Gonçalo Borges, encarregado dos arreios do paço, foi gravemente ferido pelo poeta, na rua de Santo Antão, em pleno dia, quando toda a Lisboa andava na rua para assistir á procissão do Corpo de Deus (16 de Junho de 1552) [a narrativa do facto, contida na carta de perdão, auctoriza, a meu ver, a conjectura de que não foi casual a intervenção do poeta na briga travada entre Gonçalo Borges e os dous cavalleiros mascarados. A immediata retirada destes faz suppôr que o poeta tinha contas a ajustar com aquelle, mas não queria ser o provocador].
Como se sabe, o poeta esteve preso até 7 de Março de 1553 e foi solto por lhe ter perdoado a parte offendida e por ir servir aquelle anno na Índia. E antes de findar o mês, talvez no dia 26, lá saía elle da amada terra, em que lhe ficava o magoado coração.
E tanto mais magoado, quanto ás saudades da infanta accresciam também agora as da menina dos olhos verdes, que, sinceramente compadecida da sorte d'aquelle a quem tanto havia amado e esquecendo profundos aggravos, não quis faltar ao amargurado poeta com o seu perdão nem com as sinceras lagrimas da despedida, na manhã do dia de embarque.

Aquella triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Emquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ella só, quando amena e marchetada
Saía, dando á terra claridade,
Viu apartar-se de uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ella só viu as lagrimas em fio,
Que, de uns e de outros olhos derivadas,
Juntando-se, formaram largo rio.

Ella ouviu as palavras maguadas,
Que poderão tornar o fogo frio
E dar descanso ás almas condemnadas.

(Soneto 20).

E já em pleno mar, é ainda esta doce imagem que o poeta evoca, para arrostar os perigos que o esperavam:

Por cima destas aguas, forte e firme,
Irei aonde os fados o ordenaram,
Pois por cima de quantas derramaram
Aquelles claros olhos, pude vir-me.

Já chegado era o fim de despedir-me;
Já mil impedimentos se acabaram.
Quando rios de amor se atravessaram
A me impedir o passo de partir-me.

Passei-os eu com animo obstinado.
Com que a morte forçada gloriosa
Faz o vencido já desesperado.

Em qual figura ou gesto desusado
Pôde já fazer medo a morte irosa
A quem tem a seus pés, rendido e atado?

Mas, como vamos ver, não era só na menina dos olhos verdes que o poeta ia pensando durante a longa e acidentada viagem para a Índia».
[…]
In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Sabei que busca só, do já cantado no tempo em que eu temia ou esperava. De quem o mal provou, que eu tanto amava, piedade, e não perdão, o meu cuidado»

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De volta de Ceuta
«(…) Pois se nem mesmo em versos que se occupam ex professo da menina dos olhos verdes, Camões deixa de se referir aos seus passados amores!

Passado já algum tempo que os amores
De Almeno, por seu mal, eram passados,
Porque nunca Amor cumpre o que promette,
Entre uns verdes ulmeiros apartado,
Regando por o campo as brancas flores.
Em lagrimas cansadas se derrete.
Quando a linda pastora, que compete

Co monte em aspereza,
Co prado em gentileza.

Por quem o pastor triste endoudecia,
Por a praia do Tejo discorria
A lavar a beatilha e o trançado.

O sol já consentia
Que saísse da sombra o manso gado.

Já acordado daquelle pensamento,
Que tão desacordado sempre o teve,
Viu por acerto o bem que incerto tinha;
E porque, donde o amor a mais se atreve,
Alli mais enfraquece o entendimento,
Não lhe soube dizer o que convinha.
(Egloga 3ª).

Pois se até ao invocar a musa inspiradora para o poema épico que vai emprehender, se presente que o som vem d’uma parte, mas que a pancada é em outra!

Em vós tenho Helicon, tenho Pégaso ;
Em vós tenho Calliope e Thalia
E as outras sete irmãs, co fero Marte.
Em vós deixou Minerva sua valia;
Em vós estão os sonhos do Parnaso;
Das Pierides em vós se encerra a arte.

Com qualquer pouca parte,
Senhora, que me deis de ajuda vossa.

Podeis fazer que eu possa
Escurecer ao sol resplandecente;

Podeis fazer que a gente
Em mi do grão poder vosso se espante
E que vossos louvores sempre cante.

Podeis fazer que cresça de hora em hora
O nome Lusitano, e faça inveja
A Esmirna, que de Homero se engrandece.
Podeis fazer também que o mundo veja
Soar na ruda frauta o que a sonora
Cithara Mantuana só merece.
(Egloga 4.ª')

NOTA: Esta egloga foi dirigida a dona Francisca de Aragão. Na egloga 5.ª, escripta na mesma occasião, e bem assim no soneto 190, allude também Camões á projectada epopea. Em Ceuta ainda não pensava nella, e se vê do soneto 267, manifestamente contemporâneo desta epistola, e dirigido pelo poeta a um seu admirador, que também fazia versos:

Se a fortuna inquieta e mal olhada,
Que a justa lei do ceu comsigo infama,
A vida quieta, que ella mais desama,
Me concedera, honesta e repousada.

Pudera ser que a Musa, alevantada
Com luz de mais ardente e viva flamma,
Fizera ao Tejo, lá na pátria cama,
Adormecer ao som da lyra amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
Que me escurece a Musa fraca e lassa,
Louvor de tanto preço não sustenta,

A vossa, de louvar-me pouco escassa,
Outro sogeito busque valeroso,
Tal qual em vós ao mundo se apresenta.

                                                            

Forçado a desistir dos seus altos pensamentos, não tendo podido conseguir que a menina dos olhos verdes tornasse a olhar para elle, ferido no coração e no amor próprio, o poeta viu-se, com vergonha sua, fabula da gente, começou a servir de assumpto á maledicência.

Vós, que escuitais em rimas derramado
Dos suspiros o som, que me alentava
Na juvenil idade, quando andava
Em outro em parte do que sou mudado,

Sabei que busca só, do já cantado
No tempo em que eu temia ou esperava.
De quem o mal provou, que eu tanto amava,
Piedade, e não perdão, o meu cuidado.

Pois vejo que tamanho sentimento
Só me rendeu ser fabula da gente
(Do que comigo mesmo me envergonho),

Sirva de exemplo claro meu tormento,
Com que todos conheçam claramente
Que quanto ao mundo apraz é breve sonho.
(Soneto 101)

[…]
In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Vejo-vos, pensamentos, alterados e não quereis, de esquivos, declarar-me que é isto, que vos traz tão enleados?»

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De volta de Ceuta
«(…) Olvidada e aborrecida por causa da infanta, exposta á irrisão com expressões equivocas para a sua honra delicada, a menina dos olhos verdes tinha o coração morto para o falso cavalheiro ingrato, que ella tanto havia amado. Para

Falsos amores,
Falsos, maus, enganadores,

bastara uma vez.

Ao desolado poeta não restava senão lastimar a sua sorte e explicar por outros amores a invencível pertinácia da gentil menina.

E pois fé verdadeira, amor perfeito,
Tormento desigual e vida triste,
Junta com um continuo soffrimento
E um mal, em que o mal todo, emfim, consiste.
Não puderam mover teu duro peito
A mostrares sequer contentamento

De ver o meu tormento.
Antes tudo, soberba, desprezaste,

E a outrem te entregaste,
Por nada me ficar em que esperasse.

Senão quando acabasse
A vida, a pesar meu, já tão cumprida.
Perca quem te perdeu também a vida.
(Egloga 4ª).

E a infanta? A infanta continuava a ser a obsessão constante do poeta, apesar dos esforços que elle empregava para afastar do seu espirito as doces lembranças da passada gloria.

Doces lembranças da passada gloria.
Que -me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz uma hora.
Que comigo ganhais pouca victoria.

Impressa tenho na alma larga historia
Deste passado bem, que nunca fora,
Ou fora e não passara; mas já agora
Em mi não póde haver mais que a memoria.

Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado.
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente !
(Soneto 18).

Amor, com a esperança já perdida,
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que mais queres de mi, pois destruida
Me tens a gloria toda que alcancei?
Não cuides de render-me, que não sei
Tornar a entrar-me onde não ha saída.

Vês aqui a vida e a alma e a esperança,
Doces despojos de meu bem passado,
Em quanto o quis aquella que eu adoro.

Nelles podes tomar de mi vingança;
E, se te queres inda mais vingado,
Contenta-te co as lagrimas que choro.
(Soneto 50).

Pensamentos, que agora novamente
Cuidados vãos em mim resuscitais,
Dizei-me: E ainda vos não contentais
De ter, a quem vos tem, tão descontente?

Que phantasia é esta, que presente
Cada hora ante os olhos me mostrais?
Com uns sonhos tão vãos inda tentais
Quem, nem por sonhos, póde ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados
E não quereis, de esquivos, declarar-me
Que é isto, que vos traz tão enleados?

Não me negueis, se andais para negar-me,
Porque, se contra mi 'stais levantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.
(Soneto 93).
[…]
In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT