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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Hélia Correia. Adoecer. «Queria estar entre iguais e anulava as mensagens de feminilidade. As estudantes olhavam-lhe para os pés que não se achavam escondidos pelas saias de balão como se olhassem um defeito de nascença»


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Manchester,1857

«(…) O edifício, todo em vidro e ferro, foi num instante erguido nos domínios dos Jardins Botânicos, em Old Trafford, um subúrbio longínquo. Era precisa muita raiva social para que os burgueses encarassem uma causa de objectos de arte como a sua própria causa. Os críticos puderam encontrar grosseria no facto de terem incluído música permanente, o que prejudicava a fruição. Trinta mil visitantes por dia provocavam uma barreira que a si própria se detinha, não deixando ninguém aproximar-se e apreciar um quadro em pormenor. Jornalistas estrangeiros, indiferentes ao snobismo da geografia, comparavam o acervo com o do Louvre. As pinturas dos Pré-Rafaelitas eram consideradas repugnantes pelo seu excesso de realidade e o seu desprezo pela perspectiva. Quem atender a certos textos críticos, pensará que ali estava o início do cubismo.

Para quem senhoreava a natureza, para quem lhe assentava a mão na nuca forçando-a a dobrar-se para entrar no domínio da fábrica, a distância era um obstáculo fácil de abater. A Câmara estendeu o caminho-de-ferro propositadamente até Old Trafford. Os visitantes viam o espectáculo dos dois milhares de chaminés, ao 1onge, olhando muito para além do arco triunfal. O negror daquele céu apavorava e tornava os londrinos indulgentes com o ar da capital. Um arrepio um tanto literário os percorria. O grupo que chegou em comboio especial vindo de Sheffield, certo dia de Setembro, distinguiu-se dos outros pelo facto de trazer Lizzie Siddal. Ela fora frequentar a Escola de Arles na cidade que era famosa pela cutelaria e que anos atrás tinha exportado com abundância para Portugal.

Havia ainda alguns familiares no negócio das pratas e do estanho. Tinham a vida assente numa história de sangue nobre e de riquezas usurpadas, como acontece a quase todos nós. Essa falsa memória ronda à volta de certa gente permeável à vaidade e assombra-lhes o olhar, como um fantasma. Pelo retrato de Charles, pai de Lizzie, percebemos que existe no seu corpo um agravo que o torna quase hostil. Mas na geração dela só restava finura de maneiras, o que de forma alguma proviria do baronato de província inglês. Não era o sangue mas a ilusão o que configurava esta família e isso tinha efeitos espirituais.

Lizzie despiu o guarda-pó que a protegera do fumo de carvão e os companheiros afastaram-se um pouco. Ela vestia com certa austeridade, usando saias sem armação, como as trabalhadoras. Só no segundo pré-rafaelismo, que estava justamente a começar, os trajes medievais fizeram estilo, mudando mulheres vivas em imagens. Na Escola de Artes onde, aliás, não fora oficialmente aceite, as raparigas sorriam, no seu modo de sorrir, enervado e cruel, da forasteira. A sua qualidade de londrina e de pintora aceite entre os famosos levava os homens a abrirem-lhe a passagem. Mas naquele mundo fortemente sexuado, a distinção que ela lhes merecia falava mais à ordem do desejo e a sua frieza massacrava-os.

Queria estar entre iguais e anulava as mensagens de feminilidade. As estudantes olhavam-lhe para os pés que não se achavam escondidos pelas saias de balão como se olhassem um defeito de nascença. Lizzie dispunha contra elas de um reduto, um trio que a rodeava Com deferência: a irmã Lydia que a acompanhara a Sheffield, a prima Sarah lbbitt e Annie Drury. Nunca deixou muitas mulheres entrarem na sua intimidade. Era quase forçosa uma conquista, à maneira do amor. Os homens duvidavam da doença que era uma espécie de atributo físico e atraía os românticos com a força que tinham os decotes noutro século. Duvidavam a ponto de, por vezes, se tornarem cruéis, como se houvesse uma armadilha oculta em qualquer tosse. A morbidez literária tinha eivado todas as percepções do erotismo e as eternamente moribundas, como era Lizzie, conheciam a vantagem. Ainda assim, certas mulheres estendiam-lhe os braços maternais. Eram mulheres robustas, de bom peito e que não viam nela uma rival». In Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-160-2.

Cortesia de RD’Água/JDACT

 JDACT, Hélia Correia, Literatura, 

Adoecer. Hélia Correia. «O segundo caixão que aqui desceu levava dentro Elizabeth Siddal em 1862. Sete anos mais tarde, no Outono, à luz de uma fogueira, o portuguee, como era designado com desprezo, mandou abrir a cova»

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Highgate Cemetery,2005

«(…) Durante muito tempo houve somente dois corpos lá em baixo. Gabriele, o pai, teve a cegueira a prepará-lo. Não custava deixar um mundo onde a leitura lhe faltara. Na sala que as elites liberais e os belos exilados frequentavam e onde aquele que viria a ser imperador de França tinha exposto os sonhos juvenis, as conversas perdiam o fulgor. O anfitrião já não iluminava. Os visitantes vinham, sobretudo, agora, por Christina que não deixava de os desconcertar. Eram então serões armadilhados em que o fervor literário dos Rossetti disfarçava mensagens sexuais que se autodestruíam com decência. Gabriele morria confortável, na boa idade, venerado e pobre. O seu trabalho de procriador fora bem sucedido, pelo menos a um primeiro olhar: dois filhos belos, duas filhas devotas. E o seu corpo que conhecera a energia do poema e a energia da revolução confundidas num único argumento gerara realmente, nos rapazes, uma formação de arte e rebeldia. Mas o impacto das ruas abrandava na saia das mulheres e todo o escândalo era domesticado antes de entrar.

O segundo caixão que aqui desceu levava dentro Elizabeth Siddal em 1862. Sete anos mais tarde, no Outono, à luz de uma fogueira, o portuguee, como era designado com desprezo, mandou abrir a cova. Ninguém, a não ser este Charles Howell, se atreveria a tanto. Descendia do marquês de Pombal e executava qualquer tarefa, como um jornaleiro.

 

Manchester,1857

A coisa é, em três quartos, lixo inglês, escreveu Engels a Marx. Do gigantesco número de obras expostas, pouco mais apreciou do que um retrato de Ariosto por Ticiano. Tinha o olhar impressionado pelas imagens da miséria real. Fora gerir as fábricas do pai. Manchester tinha feito novos ricos mas costumava segredar contra si própria a quem tivesse tempo para a ouvir. O cérebro alemão de Friedriech Engels compreendeu que havia um pensamento que acabava de achar um pensador. O dinheiro da família era bastante para sustentar também Marx e a mulher. Se for possível, passem cá no Verão, propõe, porém com clara displicência. A Grande Exposição não o distrai. A arte inglesa conhecia, é certo, alguns atrevimentos. A energia dos vitorianos vibrava contra eles e recolhia, com um suspiro de satisfação. O verdadeiro horror, o das ruelas, dos doentes e dos assassinos, mantinha-se na treva, de perfil. Exceptuando certas expedições de caridade, a cujo estilo não eram estranhos os massacres, só os livros de Dickens estabeleciam um pequeno contacto entre os dois mundos. Esperava-se, entre certos socialistas, que o encontro entre eles sucederia. Isso seria mais perturbador do que as ideias em que Darwin trabalhava. E, no entanto, o inglês comum olhava com cuidado para o chão, preocupado com a porcaria. Dentro do seu percurso, não previa nenhuma outra ameaça. Artistas e mulheres emancipadas apareciam por vezes nas conversas, enquanto se fumava. A digestão tornava-se difícil e interessante. Passava neles um frémito, a lembrança da voz das prostitutas nas esquinas. O génio de Wordsworth ficaria para sempre obscurecido se ele tivesse morado, nem que fosse uma semana, na bruma de Manchester, escrevera um jornalista. Em 1857, uma cidade negra e brutal negava essa má fama com a mais requintada das vinganças. Batia Londres no seu próprio campo. Seis anos antes, a capital organizara a grande exposição universal, que celebrava sobretudo o progresso da indústria. Manchester, com um gosto inesperado, chamou à sua Tesouros da Arte e dedicou-a unicamente às obras que as colecções privadas possuíam. Houve um entusiasmo nos empréstimos. A verdade é que as casas dos ricos mancunianos estavam cheias de preciosidades. A nobreza também se mostrou generosa. Conhece-se a excepção do duque de Devonshire que, em resposta, mandou os emissários ocuparem-se do que lhes competia e regressarem para os seus teares». In Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-160-2.

 Cortesia de RD’Água/JDACT

JDACT, Hélia Correia, Literatura,

domingo, 2 de maio de 2021

Adoecer. Hélia Correia. «Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. À cripta dos Rossetti não se acede de modo confortável»

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Highgate Cemetery,2005

«Se a pátria assinalar uma pessoa como um cão assinala um candeeiro, a minha condição de portuguesa transporá os portões antes de mim e uma espécie de aviso subirá, fazendo com que as aves estremeçam. A lembrança do outro português que uma noite aqui veio abrir a campa pode ser acordada pelos meus passos? Conhecerá a terra o parentesco que liga a minha carne à carne dele, uma composição de sol e enchidos, de subserviência e fantasia? Esta não é a hora das visitas. Erguendo os olhos para a subida, vejo que a hostilidade do lugar levanta, exactamente como um nevoeiro. Precisa de repouso, a terra, e engana-se, supondo que fechou a sua entrada. No interior do círculo, estou eu. Passo furtivamente, receando que alguma identidade, não a minha, mas a do meu país, informe os mortos. O tempo andou aqui com o seu peso, esmagou, quebrou os selos. As encostas abriram fendas. E os caminhantes que parecem rezar dizem apenas em voz baixa a si próprios que a camada do solo superior ainda os protege, ainda isola os seus pés. Que não há perigo de comunicação.

O que está lá no fundo é transtornado pela luz, pelo ar onde circulam pequenas formações da biologia. Os roedores conhecem com certeza modos de comportar-se quando encontram esse súbito vácuo. Mas nós não. Um piedoso corte quebra a linha que vai dos olhos para o pensamento. E os turistas refugiam-se no grupo, amparam-se no braço do vizinho, antecipando algum desequilíbrio. Há um princípio de obscenidade que logo se recolhe sobre si. Se falam sobre Drácula, já baixam ligeiramente a voz. Mas incomodam. Têm um calor próprio, uma espantosa intensidade metabólica. Interpõem-se. Por isso eu espero que eles se retirem, que tomem o caminho para a vila, levando tudo o que não quero aqui, a carne, os seus recursos de alegria.

Eu venho a um encontro pessoal, desses que não consentem testemunhas. Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas onde teve as mãos. Dormi junto a lugares onde dormiu. Nada dela me é estranho. De algum modo, as nossas vidas já se confundiram pois o tema do duplo, o doppelganger, estava inscrito em nós como um padrão. Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. À cripta dos Rossetti não se acede de modo confortável. Eu não sei se o teixo que a ensombra é ainda o mesmo que foi plantado para o primeiro enterro. Os teixos são longevos, isso é certo. As inscrições nas lápides mantêm os nomes dos seus mortos bem legíveis. A humidade inglesa não foi tão implacável como é do seu costume. As chuvas deslizaram pelas pedras como se as respeitassem. Com excepção da que assinala Lizzie. O texto que o buril afundou nela ganhou alguma qualidade orgânica. Águas e águas se depositaram, chamando os musgos para a reprodução. Está deitada na terra, a sua laje, muito verde, marcando uma diferença na família que nunca foi a sua. Apesar de italianos, os Rossetti podiam dar lições de frieza aos londrinos, em especial no modo de tratar noras indesejadas. O único Rossetti que a amou, e, ainda assim, de singular maneira, foi sepultado longe, frente ao mar. Não quis que o enterrassem junto dela. Tinha a certeza de que não se morre e não era a certeza dos cristãos». In Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-160-2.

Cortesia de RD’Água/JDACT

JDACT, Hélia Correia, Literatura,