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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Animalia. Presença e Representações. Heranças. Maria Isabel Gonçalves. «Quanto ao aracnídeo, Ésquilo mostra compreender a repulsa que por ele habitualmente sente a natureza feminina ao imaginar uma das Danaides a dizer que seria levada pelo Arauto…»

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Heranças. Animais, imagens e símbolos nos poetas greco-latinos
«(…) Outra imagem originalíssima, a da mortandade que os Gregos infligiram aos Persas em Salamina, está ligada ao mar e inspira-se na dureza da pesca do atum: eles batem-lhes com pedaços de remos ou restos de destroços e partem-lhes as espinhas, como a atuns, peixes apanhados na rede. Enchem o mar salgado soluços misturados com queixumes, até que a noite sombria tudo pára (Os Persas). Terminaremos a referência a imagens das tragédias de Ésquilo com o aproveitamento das formigas e da aranha. As primeiras reflectem a triste situação dos homens: viviam escondidos em grutas sem sol, como formigas trabalhadoras (Prometeu), antes de Prometeu lhes dar a conhecer o fogo. Está explícita a diligência do insecto, que acabara por se tornar simbólica. Quanto ao aracnídeo, Ésquilo mostra compreender a repulsa que por ele habitualmente sente a natureza feminina ao imaginar uma das Danaides a dizer que seria levada pelo Arauto, vendo-o como aranha [...], sonho, sono negro (Suplicantes).
No mesmo século V a. C., temos na comédia de Aristófanes outro marco importante do emprego de imagens animais, não apenas pelo número de empregos, mas, como já veremos, pela frequente subversão do processo. Recorde-se que Aristófanes viveu boa parte da sua vida numa época de grande liberdade, na qual, porém, a demagogia se ia despudoradamente instalando. Crítico lúcido e implacável, os animais servem-lhe na perfeição para retratar pessoas e costumes detestados. Para não falarmos dos falsos sonhos proféticos, que utilizam espécies convencionais, recordemos o recurso a animais insólitos. Alguém esperaria ver como padrão de agilidade..., uma pulga? E alguém esperaria ver como figuração de um ser aprisionado um..., escaravelho preso pela pata? Pois bem, é o que faz Aristófanes quando, respectivamente, imagina um bárbaro a apreciar uma bailarina (Tesmofórias); ou o espírito de Estrepsíadas preso a coisas terrenas, segundo Sócrates (Nuvens). Noutros casos, Aristófanes surpreende-nos pela actualidade. Não poderemos deixar de pensar que as suas divertidas imagens continuam a poder aplicar-se... Eis como vê os demagogos: a nossa cidade encheu-se destes subletrados, charlatães, macacos popularuchos, sempre a enganar o povo (Rãs).
Típico do comediógrafo é o uso de nomes de animais como termo carinhoso irónico. Assim, por exemplo, no Pluto (1010-1011), uma avenha diz que o seu jovem amante lhe chamava patinha e pombinha. Referência especial merecem também os animais compósitos imaginados por Aristófanes, quando quer chegar a determinados fins e não há espécie autêntica que o satisfaça. Para caracterizar um cobarde, pensa, na sua metamorfose imaginária, em camelo-cordeiro, sei no qual coexistiria a mansidão e a vontade de fugir (Aves); Filóstrato, dono de casas de passe, parece ao comediógrafo, pela sua astuta falta de vergonha, um cão-raposa (Lisístrata) e Caronte promete a Dioniso ouvir no Hades melodiosas rãs-cisnes (Rãs). Estamos, afinal, perante o processo que os mais velhos se recordarão de ter sido retomado pelo artista brasileiro Jô Soares, num programa humorístico que há anos passou na televisão. E bastará, quanto a Aristófanes». In Maria Isabel Gonçalves, Animais, Imagens e Símbolos nos Poetas Greco-Latinos, Animalia, Presença e Representações, coordenação de Miguel Alarcão e Outros, Lisboa, Edições Colibri, 2002, ISBN 972-772-353-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 13 de março de 2014

Animalia. Presença e Representações. Heranças. Maria Isabel Gonçalves. «A Eurípides devemos, por exemplo, o emprego metafórico de ‘cadela’ com intenções insultuosas. A ‘cadela’ não pode deixar de ser Helena. Também lhe devemos o primeiro uso da oposição ‘pomba / falcão’, a retratar perseguido e perseguidor»

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Heranças. Animais, imagens e símbolos nos poetas greco-latinos
«(…) Temos de reconhecer que não haverá trecho mais belo e, ao mesmo tempo, mais patético sobre a vida de um fiel amigo do homem: os bons tempos, a velhice miserável, a morte, de alegria, ao rever o seu senhor. E não esqueçamos que data do século VIII a. C. ! Depois de Homero não pára a utilização de animais em imagens do homem. Uns mais, outros menos, todos os poetas a elas recorrem. Alguns poemas há, porém, dignos de serem salientados. A Hesíodo (séc. VII a. C.) ficamos a dever, por exemplo, um delicado trecho que, por assim dizer, prenuncia a tábula esópica. Para ilustrar a chamada lei do mais forte, o autor da Teogonia escreve um breve apólogo em que um falcão exerce a sua prepotência sobre um pequeno rouxinol. Este:

miserável, trespassado pelas garras curvas, lamentava-se, mas o falcão disse-lhe, impetuosamente: Porque gritas, infeliz? És presa de um muito mais possante. Irás aonde te levar, por muito bem que cantes. Conforme queira, comer-te-ei ou soltar-te-ei. Tolo é quem quer comparar-se a alguém mais forte: não vence, e a vergonha aumenta a dor (Trabalhos e Dias).

Após Hesíodo, um dos poetas mais originais é, sem dúvida, Simónides de Amorgo (séc. VI a. C.) que nos deixou uma curiosa Sátira contra as mulheres, na qual, aliás, desenvolve um tema anteriormente tratado por Focílides. Apesar de não esconder a existência de mulheres tão trabalhadoras como a abelha (entre parênteses diga-se que a imagem vem de Hesíodo, mas referida ao homem...), Simónides espraia-se pelos defeitos femininos que mais detesta. Para os identificar, escolhe viários animais, alguns dos quais se fixaram também com valor simbólico. Deste modo, representa pela porca a mulher que não cuida de si nem da casa; a mulher espertalhona, mas velhaca, pela raposa; a mulher rezingona, pela cadela; a mulher que só trabalha à força de ameaças, pela burra; a mulher que não apenas é dada à luxúria, mas também rouba, pela doninha (animal que, ao longo dos séculos, começou a ser cada vez menos utilizado); a mulher vistosa e vaidosa, pela égua; e a mulher feia e maliciosa, pela macaca. E assim se vão fixando mais alguns valores. Nos tragediógrafos do século V a. C. voltamos a encontrar um manancial de imagens idênticas às homéricas. Como, porém, a temática da tragédia está muito próxima da da epopeia, limitar-nos-emos a referir alguns valores.
No domínio de que vimos tratando, Sófocles mostra-se pouco original e tem marcada preferência por aves como modelo: até a valorosa Electra chora o pai como rouxinol gemedor. A criação sofocliana mais interessante será o termo injurioso kivadoç, que Ájax dirige a Ulisses. Tratando-se do mais astuto dos heróis, está bem aplicado este raposão (que assim podemos traduzir o vocábulo grego). A Eurípides devemos, por exemplo, o emprego metafórico de cadela com intenções insultuosas. A cadela não pode deixar de ser Helena. Também lhe devemos o primeiro uso da oposição pomba / falcão, a retratar perseguido e perseguidor (Andrómaca). Ésquilo é o poeta mais produtivo. Demoremo-nos um pouco nas suas imagens. O leão reaparece com os valores habituais e também, pela primeira vez, como espelho da majestade de Agamémnon, na tragédia com o mesmo nome (1258-1260). O rouxinol e o cisne concretizam manifestações da tristeza de frágeis heroínas, como, por exemplo, os lamentos de Cassandra, ao pressentir a morte. Primeiro, Cassandra lembra um rouxinol que não pára os seus queixumes; depois, como um cisne, geme num último canto, o canto da morte. Está implícita a conotação da melodia dos respectivos cantos, já que à voz doce do rouxinol se associava a do cisne, que se acreditava cantar melodiosamente antes de morrer.
A andorinha transmite uma das ideias mais originais de Ésquilo, que a utiliza como modelo de ininteligibilidade aplicado à linguagem de Cassandra, bárbara para os ouvidos de Clitemnestra. Mais curiosas ainda duas utilizações do galo, que aparece pela primeira vez. Numa, temos uma luta de galos para retratar uma luta de cidadãos contra cidadãos; noutra, temos a figuração da sobranceria de Egisto, que lembra ao tragediógrafo um galináceo vaidoso». In Maria Isabel Gonçalves, Animais, Imagens e Símbolos nos Poetas Greco-Latinos, Animalia, Presença e Representações, coordenação de Miguel Alarcão e Outros, Lisboa, Edições Colibri, 2002, ISBN 972-772-353-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano Costa Alegre. «A ilha te fala de rosas bravias com pétalas de abandono e medo. No fundo da sombra bebendo por conchas de vermelha espuma que mundos de gentes por entre cortinas espessas de dor»

Cortesia de wikipedia

«(…) A cana do açúcar, introduzida em 1501 a partir da ilha da Madeira, foi o primeiro produto agrícola de rendimento. Devido à fertilidade do solo e do clima favorável, esta produção rapidamente prosperou registando-se, poucos anos depois, a presença de 60 engenhos de açúcar em toda a ilha. O fabrico de açúcar, o comércio de escravos, a produção da pimenta e a exportação de madeiras eram, no século XVI, a principal fonte de rendimentos de São Tomé. Este regime de capitanias iria permanecer em vigor até 1522, altura em que se aplica novo tipo de administração, agora dependente directamente da Coroa. A ilha de Santo Antão, que posteriormente passou a ser denominada de Príncipe, foi concedida a António Carneiro que manteve essa doação até 1573, altura em que passa a ser administrada como propriedade da Coroa e é anexada a São Tomé. É nessa altura que a capital da província passa a ser Santo António, ilha do Príncipe, que apesar de ter sido afectada pela decadência vivida em São Tomé, oferecia uma atmosfera mais calma para o governo.
Para começo de caracterização do tipo de sociedade que se iria formar, deve-se dizer que o povoamento das ilhas foi feito com africanos vindos da costa africana, filhos judeus arrancados aos pais, artífices e degredados e a cada um destes foi mandado dar uma escrava para a ter e dela se servir, havendo o principal a povoar-se a dita ilha. Como se vê, estava posta em marcha uma situação favorável à miscigenação racial e cultural que caracteriza até hoje a população dos são-tomenses. Aos primeiros habitantes do arquipélago foram concedidos vários privilégios como forma de incentivos, devido ao isolamento do território. Esses privilégios tinham que ver com a possibilidade de resgatar escravos na costa africana, facilidades de comércio com o continente, isenção de pagamento de dízimos, a possibilidade dos mulatos exercerem quaisquer ofícios como os brancos. Com medo de perderem o seu lugar de exclusividade na administração, tendo em conta que o número de mulatos tendia aumentar, os colonos brancos tentam escravizar os mulatos que, já compenetrados do seu papel e lugar na comunidade, acabam por protestar junto do rei Manuel I. Numa carta régia de 29 de Janeiro de 1515, tendo em conta os protestos dos mulatos, o rei decide que a descendência das escravas dadas aos colonos, bem como as mães eram livres e não podiam ser demandadas, elas, seus filhos e filhas, como cativos de El-rei, nem de pessoa alguma.

«Um dia a espuma dos mares,
ao ver em si meu amor,
foi dizer baixinho à praia:
 - A Vénus mudou de cor!»
Poema de Caetano Costa Alegre

Numa outra carta régia datada de 1517, o rei estendia aos escravos dos primeiros povoadores os benefícios que tinha concedido às escravas e aos seus descendentes, bem como aos escravos (e os filhos que tivessem tido) dados pela Fazenda Real aos primeiros povoadores. É deste modo que veremos nascer a classe da elite burguesa dos naturais do arquipélago, os ditos filhos da terra, e com ela o advento de querelas entre as diferentes facções que compunham a sociedade. A propósito dessas pendências Raimundo Cunha Matos diz: A intriga naquelas idades já vomitava a infernal peçonha que infeccionou os novos colonos e seus sucessores, tanto assim que repetiam queixas sobre queixas aos pés do real trono, acusando-se reciprocamente dos mais atrozes crimes. Eles não só se constituíam soberbos e intratáveis […] conservavam o seu harém.
As lutas de interesse envolviam o clero, os governadores, as autoridades e os grandes proprietários. Todos queriam governar, mas nenhum queria se submeter à condição de governado. Os filhos da terra viviam e comportavam-se como se fossem europeus, ou seja, assimilaram os hábitos dos europeus, desde os modos de se vestirem, a culinária, a habitação, etc., mas de maneira ajustada à realidade local, sublinhemos esse aspecto de afirmação diferenciadora (usavam vestuários ligeiros de algodão, porquanto o clima é tropical; as casas apesar de seguir o modelo português era feita de madeira). E uma tal prática estendia-se quer aos membros da elite crioula, quer aos grupos populares. No plano da linguagem, podemos salientar o surgimento dos crioulos, uma forma de veicular a comunicação entre os diferentes grupos que compunham a esfera mestiça, sucedendo que viria a pertencer ao forro tornar-se o crioulo veicular». In Instituto Camões, Repositório da Universidade de Lisboa, 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano Costa Alegre. «… que se faz a transferência da povoação para a baía de Ana Chaves, uma das mais amplas no nordeste da ilha, uma região que permitia uma melhor penetração no território, bem como o desenvolvimento da cultura de cana e o escoamento da produção açucareira»

Cortesia de wikipedia

«(…) Veremos ainda as consequências dos ideais do romantismo na sociedade portuguesa do século XIX. Seguidamente passaremos à tentativa de uma definição para o romantismo, com o surgimento deste movimento na Europa e finalmente em Portugal e com as suas fases. Procuraremos caracterizá-las de modo a realçarmos essas características com alguns textos de autores românticos, sobretudo Almeida Garrett. A ideia da identidade nacional é reforçada, como referimos, a partir do romantismo, por isso neste trabalho iremos ter em conta essa questão, observando as diferentes acepções que os principais teorizadores têm sobre o assunto bem como a maneira como essas ideias se manifestam na literatura.
Um breve historial do percurso da literatura são-tomense antecederá ao estudo do perfil biográfico do autor que nos propomos trabalhar. Tendo em conta que o nosso objecto principal de estudo é o livro intitulado Versos de Caetano Costa Alegre, começaremos por fazer a sua breve apresentação, vendo como se compõe o livro, as suas formas de composição, as dominantes temáticas, com particular referência mas não excessiva à questão da cor da pele. Particular referência sobretudo por esse tema ter sido motivo de análises fora do contexto em que o tema foi desenvolvido, análises que em vez de reflectirem os sentidos poéticos dos textos reflectem as ideologias dos críticos. Finalmente tentaremos mostrar as marcas do romantismo presentes em Versos, realçando o que há de romântico na obra, o sentido conotativo dos textos, os recursos estilísticos mais marcantes na obra, no sentido da afirmação de uma individualidade a que o romantismo confere características nacionais de S. Tomé e Príncipe.
No que tange ao tipo de investigação académica necessária, este trabalho seguirá a metodologia com base em pesquisa de textos, e a bibliografia que utilizaremos como referencial teórico, compreenderá a crítica literária, o ideário romântico na Europa, e muito particularmente em Portugal. Também nos socorreremos de bibliografias que retratam a questão da identidade vista ao longo dos tempos, bem como as ligadas às literaturas africanas de expressão portuguesa, muito especificamente, a de São Tomé e Príncipe. Jornais e Boletins Oficiais servirão de referências bibliográficas para perquirir o autor em estudo.

Contextualização. Historial de S. Tomé e Príncipe
Conforme anotámos na Introdução, abriremos a nossa dissertação neste capítulo com as necessárias considerações contextuais da história para melhor entendermos o autor a que nos propomos estudar, inserindo-o na sociedade da sua época. Faremos uma breve historiografia de São Tomé, sua terra natal, desde a sua situação geográfica, até a formação de sociedade com características muito híbridas. Tendo em conta que o nosso autor partiu muito cedo para Portugal (cerca dos dez anos) e foi a partir de lá que fez os seu estudos e onde começou a escrever, faremos também uma breve contextualização sócio-cultural da época. São Tomé e Príncipe, duas das quatro ilhas (mais Fernando Pó e Ano Bom) que compõem um conjunto vulcânico na zona equatorial da Costa Ocidental Africana, distam uma da outra cerca de 82 milhas, com uma superfície terrestre de 875 km2 e 114km2 respectivamente, estando afastadas do continente africano em 160 milhas, ilha do Príncipe, 180 milhas ilha de São Tomé.
Apesar de não haver documentos fidedignos quanto à exactidão da descoberta do Arquipélago, supõe-se que o descobrimento tivesse decorrido entre os anos de 1470 (São Tomé) e 1472 (Príncipe) durante o reinado de Afonso V. Os seus descobridores foram seguramente João de Santarém e Pêro Escobar que estavam a serviço de Fernão Gomes, nos termos de um contrato que tinha com o rei de Portugal (fora-lhe concedido o monopólio do comércio na Costa da Guiné, com a obrigação de explorar toda a costa sul da Serra Leoa).
De acordo com o princípio de descentralização administrativa adoptada pela Coroa no início da expansão marítima, a ilha de São Tomé foi doada a João Paiva, em 1485, num sistema de capitania, dando assim o início ao seu povoamento, uma vez que esse território era supostamente desabitado aquando do seu achamento. Dificuldades inerentes às características naturais da ilha que na altura não permitiam a exploração económica imediata, e consequentemente, lucros directos. O donatário João Paiva renunciou à capitania, sucedendo o mesmo ao segundo donatário. Só em 1493, e com Álvaro Caminha, o grande impulsionador da colonização da ilha, é que se verificaria o arranque definitivo do povoamento efectivo do território, através de medidas muito concretas destinadas a multiplicar os habitantes e desta forma aumentar a produtividade em benefício da coroa. É-lhe concedida a jurisdição civil e criminal, ampliando os privilégios aos colonos aí estabelecidos ou que viessem a se estabelecer. É também nesta altura que se faz a transferência da povoação para a baía de Ana Chaves, uma das mais amplas no nordeste da ilha, uma região que permitia uma melhor penetração no território, bem como o desenvolvimento da cultura de cana e o escoamento da produção açucareira». In Instituto Camões, Repositório da Universidade de Lisboa, 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

sábado, 21 de setembro de 2013

Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda. Mário Sacramento. «Ora em Fernando Pessoa o que logo (e sempre) nos punge é aquela solução tão por demais levianamente ‘fácil’ da heteronímia. ‘Fácil’, está claro, não porque destituída de talento, pois, ao invés, só foi possível mediante um talento que diremos ‘excessivo’»

Cortesia de wikipedia

O homem e a hora são um só. In Mensagem

Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro. E a minha bondade inversa não é nem boa nem má. In Hora Absurda

Genialidade Absurda
«Na introdução que antepôs às Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues, Joel Serrão escreveu as seguintes palavras que, se bem que o coloquem no polo oposto do que visamos, têm contudo o mérito de chamarem a questão ao terreno que reputamos o mais próprio: Afigura-se-me que o problema dos heterónimos de Pessoa tem a mesma explicação que a dualidade irredutível de Antero: a complexidade da alma humana, acentuada nos temperamentos poéticos geniais, complexidade que não invalida a unidade psíquica das irredutibilidades expressas esteticamente... Se Antero tivesse atribuído ao poeta nocturno e ao apolíneo, que ele foi, nomes diferentes, com uma genealogia, profissão, características somáticas, como Pessoa fez aos seus heterónimos, aí teríamos um complexo problema, de raiz semelhante ao que agora nos preocupa....
Há com efeito em Antero o quer que seja (que não importa agora investigar, mas que distinguimos da tal dualidade, tão convencional em sua abstracta sistematização) que não só confere uma certa legitimidade à hipótese de Serrão, como ainda, num sentido muito mais geral (de que, para nós, tal hipótese não passaria dum aspecto particular) justificou que Pessoa visse nele um precursor da modernidade. Seria fácil, aliás, estabelecer um nexo entre o poeta da razão-em-crise, que ele foi, e os do irracional que se lhe seguiram, reservando a Pessoa, entre uns e outros, a posição intermédia de jongleur dos fragmentos do racional. Do ponto que agora nos importa convém acentuar, contudo, que o que tornou Antero um caso ainda à parte não foi senão a circunstância exacta de ter lutado, em vão embora, contra a corrupção dos tempos, e ter assumido uma posição que em última instância o levaria a acompanhar o seu navio no naufrágio.
Assim, longe de nos quadrar que Antero justifique Pessoa, preferimos que no-lo ajude a compreender à contra-luz. Para o que nos limitaremos a perguntar: Que teria sucedido a Antero se, cativo dum pendor literário sem dúvida aberrante, tivesse permitido que se sentassem à mesa redonda da sua intimidade todas as tendências espirituais de que os Sonetos dão fé, acarinhando-as, impulsionando-as, glosando-as em obras de acomodada e parcimoniosa heteronímia divergente? Formulada a pergunta como foi, torna-se ocioso responder, pois todos reconhecemos que só o fundo de verdade em que a problemática de Antero visou, sem qualquer dúvida, uma resolução pode conferir à sua obra aquela humanidade sem a qual ela não seria. Levado entre combates sempre renovados [a] disputar dia a dia n mão dos Fados / Uma parcela do saber augusto (Espectros), ele mesmo referiu ter essa preocupação influído os poemas de mais aparente evasão, como se depreende do seguinte passo duma carta particular: esse estado de espírito [o carácter desolado de certos poemas], no meio da sua violência, representa um contínuo impulso para a verdade e para o bem, e isso deve ser levado em conta ao poeta. É o que resume, hiperbolizando em- bora, este outro passo da sua correspondência: eu ainda não desisti de abrir, ainda que seja roendo com os dentes e ?t boca em sangue, o muro de bronze do destino.
Quer dizer: ninguém afinal melhor do que Antero permite aperceber o que há de implícito no conceito de personalidade como teor de vida, convergência de tendências, estruturação ideológica, fidelidade a um móbil, e o que por aí mesmo tem sempre de implicar-se numa candidatura ao génio como realização superiormente ímpar de tais condições. Tal como em todos os grandes artistas, a arte de Antero corresponde directamente à problemática do homem servindo-a, só não tendo Antero chegado à fase a que chegam os maiores de por seu turno a servir em virtude de, impossibilitado de atingir a visão unívoca que perseguia, lhe estar vedado esse grau de  identidade da arte com a vida.
Ora em Fernando Pessoa o que logo (e sempre) nos punge é aquela solução tão por demais levianamente fácil da heteronímia. Fácil, está claro, não porque destituída de talento, pois, ao invés, só foi possível mediante um talento que diremos excessivo, mas porque tão comprazida em trilhar um caminho da mais descarnada artificialidade. Isso nos leva a compreender por que teve Fernando Pessoa necessidade de cultivar, tão insistentemente, o mito duma inspiração heterónima premente, misteriosa, imprevisível, de que ele próprio, ao fim e ao cabo, se terá tornado, quem sabe, a própria vítima. É já hoje, de resto, suficientemente conhecida a quota-parte de engenho e humor que entrou nesse mito. E pode facilmente aperceber-se um nexo de necessidade entre essas pretensões e a obra que, denunciando a sua interdependência, dispensa inteiramente, do estricto ponto de vista literário, quaisquer outras conjecturas». In Mário Sacramento, Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda. Contraponto, University of Toronto, Lisboa, 1960.

Cortesia de PCampos/JDACT

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Animalia. Presença e Representações. Heranças. Maria Isabel Gonçalves. «Mesmo em situação desesperada, Ulisses recebe um símile digno do seu valor. Noutros casos, o Poeta salienta diferentes facetas do carácter e sentimentos do senhor de Ítaca. Indignado com as serviçais do palácio…»

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Heranças. Animais, imagens e símbolos nos poetas greco-latinos
«(…) Quanto a heróis em situação de inferioridade, compare-se a imagem dos Troianos com a do valoroso Sarpédon, morto às mãos de Pátroclo. No primeiro caso, para incitar os Aqueus, Posídon lembra que os Troianos já se não mostram tão vulneráveis como antes, quando pareciam tímidas corças que, no bosque, costumavam ser presas de chacais, panteras e lobos, e fugiam, sem forças nem vontade de lutar. Sarpédon, porque lutou valentemente, tem o valor de um touro capaz de enfrentar um leão, ou seja, Pátroclo, mas acaba derrotado: como um leão mata bravo touro fulvo, atirando-se aos bois de andar balanceante, e ele morre, gemendo, nas mandíbulas do leão.
Não se pense, porém, que são apenas mamíferos as espécies utilizadas por Homero nos seus símiles: aves, répteis, peixes e outros animais marinhos ou insectos também fazem parte do imaginário do poeta. Das aves, se indiferenciadas, aproveita sobretudo a fragilidade perante ave mais possante; se especificadas, a superioridade; em ambos os casos, o ímpeto com que levantam voo e a velocidade com que se movem. Dos restantes animais recorre com frequência aos répteis, nomeadamente à perfídia da serpente; aos peixes, sobretudo à sua fragilidade perante grandes animais marinhos; a insectos, principalmente às grandes massas dos enxames, ou ao seu desespero e desorientação, se os enxotam. Apenas quatro outras citações, paraficarmos com uma ideia mais completa do processo. Menelau procura Antíloco, seu companheiro, filho de Nestor, como águia que se diz ser das aves a que mais agudamente olha para o céu, à qual, do alto, não consegue escapar-se a tímida lebre de pés rápidos, embora escondida no mato frondoso. Precipita-se sobre ela e, agarrando-a, rapidamente lhe tira a vida.

Esta imagem do marido de Helena é complexa, porque a águia conjuga a representação da sua atitude perscrutadora com a marca da superioridade de um rei. Neste caso, o herói procurava um amigo. À espreita de um inimigo, o símile pode ser uma serpente, mesmo com um herói tão simpático como Heitor. Esperava Aquiles como serpente na sua lura na montanha espera um homem, farta de veneno e cheia de amarga bílis; lança um terrível olhar e contorce-se diante da toca. Os guerreiros que se dirigem à assembleia são vistos de forma graciosa: saem da pedra côncava como enxames compactos de abelhas sempre saindo novas, voando em cacho para flores primaveris. Vejamos ainda como o épico descreve perseguidores e vítimas, por meio de um símile aquático: como peixes que fogem diante de monstruoso golfinho e enchem os fundos do abrigo que lhes dá um bom porto, estão cheios de medo quem for apanhado, é comido.
Note-se que em Homero o golfinho ainda não adquiriu o sentido de amigo do homem, ligada ao mito dos piratas tirrenos, tão minuciosamente descrito por Ovídio nas suas Metamorfoses. Na Odisseia há símiles idênticos, mas a principal simbologia relaciona-se com os seres fabulosos que materializam os terrores e as dificuldades enfrentadas pelos heróis, o que está fora do âmbito desta apresentação. Para não entrarmos em repetições, recordemos apenas duas referências a Ulisses. Na linha da bravura do leão, que, por vezes, apresenta uma conotação de crueldade, mas variando uma vez mais o seu uso, o poeta imagina o herói faminto como leão dos montes, confiante na sua força, que, batido pela chuva e pelo vento, de olhos em brasa, se atira aos bois, ovelhas e veados selvagens: é o estômago que o impele.
Mesmo em situação desesperada, Ulisses recebe um símile digno do seu valor. Noutros casos, o Poeta salienta diferentes facetas do carácter e sentimentos do senhor de Ítaca. Indignado com as serviçais do palácio, mostra todo o seu desagrado, deixa transparecer uma raiva incontida e denota até um certo mau génio: o seu coração ladrava, como cadela à volta dos tenros filhotes que ladra aos desconhecidos, esperando a luta. Não estranharemos, obviamente, ver ainda o multifacetado herói retratado por símiles que realçam a sua astúcia, evidentemente por meio da raposa, a sua determinação pelo confronto com a força dos tentáculos de um polvo, etc. Da exemplificação apresentada supomos já ser possível concluir que alguns dos animais utilizados em símiles acabam por adquirir força simbólica. Será o caso da bravura do leão, da sanha do lobo, da teimosia do burro. Curiosamente, também se encontra em Homero o primeiro o uso de cão como termo injurioso, por exemplo dirigido aos pretendentes de Penélope (Odisseia). Já a fidelidade canina não aparece pela primeira vez em nenhum símile e sim num dos mais comoventes episódios da Odisseia: o do cão de Ulisses. Diz Homero, ao descrever o regresso a casa do herói, que ninguém reconhece: um cão, deitado, ergueu a cabeça e as orelhas. Era Argo, o cão que o valoroso Ulisses treinara antes de partir para a sagrada Íhon, sem dele ter aproveitado. Outrora os jovens tinham-no levado à caça do veado, da lebre e das cabras monteses. Agora, abandonado, na ausência do dono, jazia ali, estendido sobre um monte de esterco de mulas e bois, donde os escravos vinham buscar com que adubar a grande quinta. Aí jazia Argo, coberto de parasitas. Reconheceu o homem que chegava, Ulisses; e, mexendo a cauda, arrebitou as orelhas. Não teve forças para se chegar ao dono", etc., etc..»

In Maria Isabel Gonçalves, Animais, Imagens e Símbolos nos Poetas Greco-Latinos, Animalia, Presença e Representações, coordenação de Miguel Alarcão e Outros, Lisboa, Edições Colibri, 2002, ISBN 972-772-353-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 18 de maio de 2013

Animalia. Presença e Representações. Heranças. Maria Isabel Gonçalves. «… como cavalo habituado ao estábulo, alimentado na manjedoura com cevada, se liberta da corda e galopa, orgulhoso, pela planície, (…) ergue alto a cabeça e sacode a crina para um lado e para outro e os joelhos levam-no para os pastos das jovens éguas»

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Heranças. Animais, imagens e símbolos nos poetas greco-latinos
«Como já tivemos ocasião de escrever, pertence a Homero o arquétipo das imagens e dos símbolos utilizados na poesia grega e, posteriormente, na latina. Com efeito, são as epopeias homéricas que, pela primeira vez, nos apresentam animais não apenas associados simbolicamente a deuses, à morte e ao tempo, mas também tomados como espelho de comportamentos e sentimentos humanos. Porque a matéria é vastíssima, deixaremos de lado a simbologia do transcendente. Não esqueçamos, no entanto, o facto de também ser nos poemas homéricos que, pela primeira vez, encontramos animais ligados à divindade e, também pela primeira vez, metamorfoses de deuses em animais, vestígio de antigas divindades zoomórficas.
Não esqueçamos igualmente que começam na epopeia homérica as referências a cães selvagens, aves de rapina e até peixes, como índice de morte receada: receada, porque se acreditava não receberem sepultura condigna e, portanto, não serem acolhidos no Hades os corpos devorados por animais necrófagos. Não esqueçamos, por fim, que está na Odisseia a primeira referência a uma ave simbólica da Primavera, o rouxinol, que ainda manterá este valor durante muitos séculos, apesar de a andorinha já aparecer com valor idêntico a partir de Hesíodo. Limitar-nos-emos à associação de animais a circunstancialismos da vida humana. Comecemos pela Ilíada. Poema da guerra, a audácia, bravura, destemor e outras qualidades dos seus heróis são frequentemente descritas, tal como os seus defeitos e fraquezas, por meio de comparações muito elaboradas, os símiles, que transformam simples abstracções em imagens vivas e sugestivas. Assim:
  • os heróis lutam com a bravura de leões ou javalis;
  • com a raiva de javalis acossados por uma matilha de cães;
  • com a sanha de lobos sanguinários;
  • com a persistência de cães de caça;
  • ou até, um tanto inesperadamente, com a teimosia de um burro que nem o medo do pau faz mover.
Assim também, partem para o combate com o garbo de belos cavalos; desesperam com a morte de companheiros como leões a que roubaram os filhotes; defendem os cadáveres de amigos como uma novilha protege a cria, etc., etc. O inimigo ora é apresentado como vítima indefesa de animal mais forte, ora, se se quer sobrevalorizar o herói, como animal igualmente nobre. Alguns exemplos apenas, todos eles tão pictóricos que parecem cenas de um qualquer documentário sobre a vida animal. Heitor luta com os Aqueus:
  • como javali ou leão se volta no meio de cães e caçadores, orgulhoso da sua força, mas eles, agrupando-se em massa, fazem-lhe frente e, das mãos, atiram-lhes lanças sem conta; o seu nobre coração não sente medo ou vontade de fugir: é o valor que o mata. Dá muitas voltas sondando a fila de caçadores e, onde quer que irrompa, a linha cede.
Leão e javali são, portanto, sinónimos neste símile de bravura. O mesmo acontece com o touro.
Outro trecho: Aquiles arma os Mirmídones (ou Mirmidões):
  • como lobos carnívoros, no ânimo dos quais há enorme força, que, nos montes, devoram um grande veado cornudo, despedaçando-o; todos têm as mandíbulas vermelhas de sangue e vão, em bando, a uma fonte de águas negras apanhar à superfície, com as línguas estreitas, a água escura, vomitando o assassínio de sangue.
Atente-se na conotação sangrenta da sanha do lobo e no reforço do horrendo pela associação das águas negras. Bem ao contrário, há pitoresco no símile do burro, representativo da persistência de Ájax Telamónio, ao enfrentar o inimigo:
  • como um burro perto de terra lavrada, ao qual os rapazes se atiram. É lento, pode ser espancado. Entrando no espesso trigal, tosa-o. Os rapazes batem-lhe com paus. Fraca força a deles: dificilmente o expulsam, enquanto se não fartar do pasto.
Mas Homero tinha um certo fascínio pelos heróis troianos, sobretudo por Heitor. Veja-se como realça o garbo do filho de Príamo, confronto repetido noutro passo, aplicado ao belo Príris:
  • como cavalo habituado ao estábulo, alimentado na manjedoura com cevada, se liberta da corda e galopa, orgulhoso, pela planície, acostumado a banhar-se na corrente do rio caudaloso; ergue alto a cabeça e sacode a crina para um lado e para outro; confia no seu orgulho e os joelhos levam-no rapidamente para os pastos das jovens éguas.
In Maria Isabel Gonçalves, Animais, Imagens e Símbolos nos Poetas Greco-Latinos, Animalia, Presença e Representações, coordenação de Miguel Alarcão e Outros, Lisboa, Edições Colibri, 2002, ISBN 972-772-353-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Príncipe dos Poetas Portugueses. Camões. «… assim faleceu o grande poeta, ‘numa pobre casa da calçada de Santana’, ao “abandono”, tendo por companhia unicamente sua mãe, e o fiel escravo, “o jau António”. Em alvará de 31 de Maio de 1582, Filipe II, mandou transferir para D. Ana de Sá a tença de 15.000 réis, por ser muito velha e muito pobre…»


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(Continuação)

«No entretanto, as saudades da pátria amarguravam-lhe o coração, e resolveu voltar a Portugal, acompanhado por um escravo chamado António, natural de Java, que muito se lhe afeiçoara, e que sempre o acompanhou no resto da vida. Pedro Barreto partiu de Goa para Moçambique, de cuja capitania ia tomar posse, e ofereceu a Camões levá-lo consigo, porque seria mais fácil encontrar ali embarcação que levantasse ferro para Portugal. Camões aceitou, mas em Moçambique, por causa duma questão que tivera com Pedro Barreto, ficou reduzido a grande miséria, de que seria vítima, se não arribasse em 1569 a nau Santa Fé, que trazia para Portugal o vice-rei Antão de Noronha, onde alguns amigos do poeta o auxiliaram, dando-lhe roupa.
A nau Santa Fé chegou a Cascais a 7 de Abril de 1570. Camões veio achar Lisboa, depois de dezasseis anos de ausência, devastada pela terrível Peste grande, nome porque ficou sendo conhecida na história. Encontrou sua mãe muito velha e muito pobre, e neste desalento, para maior desgraça, roubaram-lhe ainda o seu livro de versos, e foi furto notório, como escreve Diogo do Couto. Nunca se descobriu o roubador, e Camões não chegou a ver impressa a sua poesia lírica. O seu grande poema, é que conseguiu, depois das maiores dificuldades, um alvará em 23 de Setembro de 1571, para o imprimir, mas só se publicou em princípio de Julho de 1572, sendo-lhe dada em 28 desse mês a tença de 15.000 réis pela sua habilidade e suficiência durante três anos, sendo renovada a 2 de Agosto de 1575.
Camões continuava a ser guerreado, porque o rei Sebastião, projectando a sua viagem a África em 1578, escolheu para cantor da sua futura vitória o poeta Diogo Bernardes. O resto da vida de Camões foi uma completa amargura, e os seus sofrimentos ainda mais se lhe agravaram, quando se recebeu em Lisboa a notícia do desastre de Alcácer Quibir. Na sua grande miséria, o jau, que o acompanhara do Oriente a Lisboa, prestou-lhe o mais dedicado e afectuoso auxílio, chegando a pedir esmola, às ocultas do poeta, para lhe acudir ás instantes necessidades da vida.
Assim faleceu o grande poeta, numa pobre casa da calçada de Santana, ao abandono, tendo por companhia unicamente sua mãe, e o fiel escravo, o jau António. Em alvará de 31 de Maio de 1582, o rei Filipe II, já então de posse de Portugal, mandou transferir para D. Ana de Sá a tença de 15.000 réis, por ser muito velha e muito pobre.
As edições dos Lusíadas são numerosas; o imortal poema está traduzido em todas as línguas. Camões escreveu três comédias:
  • El-rei Seleuco,
  • O Amphitrião,
  • O Filodemo.
Que se representaram em Lisboa. Além dos Lusíadas, compôs formosos versos elegíacos, bucólicos, satíricos, e uma colecção de sonetos muito apreciáveis; Rimas, publicadas em Lisboa em 1595, tendo depois muitas edições.
Têm-se escrito muito acerca do grande poeta; mencionaremos:
  • O Plutarcho portuquez; 
  • Camões, poema do visconde de Almeida Garrett; 
  • Camões, drama do visconde de Castilho, representado no Brasil, e impresso em 1849;
  • Camões, drama de Cipriano Jardim, representado no teatro de D. Maria, por ocasião das festas do centenário, em 1880; 
  • Historia de Camões, por Teófilo Braga; 
  • Diccionario bibliographico, tomos 5, 14 e 15; 
  • Luiz de Camões, romance histórico por António de Campos Júnior, etc.
Em 1867 inaugurou-se em Lisboa a estátua de Camões, na praça que tomou o nome do grande poeta. Em Coimbra também se erigiu um monumento em 1881. Em 10 de Junho de 1880 festejou-se solenemente o terceiro centenário da morte do grande poeta, havendo um pomposo cortejo cívico e brilhantes iluminações. Em Coimbra também se comemorou o terceiro centenário com solenes festejos». In Enciclopédia, Wikipédia.

Cortesia de Enciclopédia/JDACT

Príncipe dos Poetas Portugueses. Camões. «Francisco Barreto, bastante severo, quis assinalar o seu governo pela reorganização dos serviços públicos. Foi nesta crise que escolheu Camões para provedor-mor dos defuntos e ausentes de Macau»

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(Continuação)

«A pobre senhora dispunha somente duns pequenos recursos que seu marido havia trazido da viagem. Manuel de Portugal, sabendo desta dolorosa situação, foi ao paço com Afonso de Noronha, impetrar a clemência real, para que Luís de Camões ficasse em Lisboa, mas só puderam conseguir, que fosse perdoado com a proibição formal de aparecer nos paços, quer de el-rei quer da sua real família, sob pena de ser mandado em ferros para o Brasil, ficando-lhe até fora dos paços proibido de se incorporar com os fidalgos da Corte em qualquer acto público. Camões não queria aceitar semelhante perdão, mas o amigo Manuel de Portugal pediu-lhe que o não rejeitasse, em nome de sua mãe viúva e sem ânimo. Camões resignou-se, e começou a trabalhar na sua imortal obra, Os Lusíadas, poema que lhe resgataria talvez as culpas de que o acusavam, e lhe abriria novamente as portas do paço, porque sendo o príncipe João, filho de João III, muito amante da poesia, contava com a sua protecção, se pudesse conseguir ler-lhe o poema. Assim se passaram dois anos com muitos sacrifícios; D. Ana de Sá restabeleceu-se, e Camões tinha já muito adiantados Os Lusíadas.
Deu-se, porém, um novo incidente, e bem funesto. Era o dia do Corpo de Deus de 1559; quando Gonçalo Borges, moço dos arreios de João III, passava no Rossio para a rua de Santo Antão, dois embuçados riram-se do seu garbo, e acharam-se dali de repente as espadas desembainhadas. Por fatalidade apareceu Camões, e conhecendo os embuçados como seus amigos, atirou uma espadeirada a Gonçalo Borges, que o fez cair do cavalo, já moribundo. Então é que ficou irremediavelmente perdido; foi preso e encerrado na cadeia do Tronco da Cidade, onde jazeu perto dum ano, saindo a 7 de Março de 1553, livre por perdão do próprio Gonçalo Borges, que conseguira restabelecer-se. Tinha, porém, de partir para a Índia na armada, a 24 desse mês, capitaneada por Fernão Álvares Cabral, embarcando na nau Bento. Uma terrível tempestade destroçou a armada, a apenas a nau S. Bento pôde chegar em princípio de Setembro desse ano à Índia, sem ter aportado a Moçambique. Entrando em Goa partiu logo para uma expedição perigosa contra a Chembé; em 1551 esteve no largo e doentio cruzeiro do Mar Roxo junto ao Monte Félix, regressando a Goa na época dos festejos pela nomeação do governador Francisco Barreto, em 1555, em que cooperou com o seu Auto de Filodemo, e em que contraiu os ódios que o fizeram ser mandado para Macau. Segundo os cronistas, a vida em Goa era então muito dissoluta, e Francisco Barreto, bastante severo, quis assinalar o seu governo pela reorganização dos serviços públicos. Foi nesta crise que escolheu Camões para provedor-mor dos defuntos e ausentes de Macau, lugar judicial administrativo, que longe da metrópole das colónias só poderia ser exercido por um homem conhecedor de direito, valente e honrado. Camões partiu para Macau em 1556, regressando a Goa no fim de dois anos em 1558, debaixo de prisão, por ser vítima de novas intrigas. Durante o tempo que esteve em Macau continuou escrevendo o seu imortal poema, vivendo na célebre e memorável gruta, que fica colocada dentro duma quinta, a pouca distância daquela cidade. No centro vê-se hoje o busto de Camões, sobre um pedestal; o busto foi modelado por Bordalo Pinheiro, e fundido no arsenal do exército de Lisboa. No regresso a Goa naufragou na foz do rio Mecong, nas costas do Cambodja, onde se salvou a nado, salvando também a odisseia das glórias portuguesas. Ao chegar a Goa, foi logo recolhido à cadeia, a ali recebeu então a notícia da morte prematura de D. Catarina de Ataíde, sucedida em 1556. A 3 de Setembro de 1558 sucedeu no governo da Índia o vice-rei Constantino de Bragança, e o poeta foi logo posto em liberdade. Em 1561 houve novo vice-rei, o conde de Redondo, que soube aproveitar-se do talento de Camões para trabalhos da sua secretaria. A situação económica do poeta não melhorara, e no ano de 1562 encontramo-lo preso por dívidas a requerimento de Miguel Rodrigues, de alcunha o Fios Secos. Um gracioso memorial dirigido ao conde de Redondo lhe fez recuperar a liberdade. Este vice-rei faleceu em Fevereiro de 1564, e Camões gozando vida mais sossegada, continuou a empregar-se no serviço das armas». In Enciclopédia, Wikipédia.

continua
Cortesia de Enciclopédia/JDACT

Príncipe dos Poetas Portugueses. Camões. «Numa surpresa das ‘tribos kabilas’, de que pôde salvar-se pela sua valentia, perdeu o olho direito, acidente a que ele chama o “fruto acerbo de Marte”. Ao receber-se na Corte esta notícia, houve quem aproveitasse aquela honrosa cicatriz para motejos e sátiras, chamando-lhe cara “sem olhos e poeta dum olho só”»


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«Nasceu em Lisboa em 1524, faleceu nesta mesma cidade a 10 de Junho de 1580. Era filho único de Simão Vaz de Camões, e de sua mulher D. Ana de Sá e Macedo, filha de Jorge de Macedo e aparentada com a casa de Vimioso. Em 1527, declarando-se grande epidemia de peste, João III e a Corte fugiram para Coimbra, e Simão Vaz de Camões acompanhou el-rei, com sua mulher e filho, que apenas contava três anos. Quando o rei João voltou para Lisboa, conseguiu ficar em Coimbra em companhia de seu irmão, Bento de Camões, cónego de Santa Cruz, e mais tarde, atendendo ao estado precário da sua casa, partiu para a Índia em busca de melhor fortuna. D. Ana ficou só com o filho, sendo muito auxiliada pelo cunhado, que se tornou um desvelado protector de seu sobrinho. Aos 10 anos, em 1534, matriculou-se Luís de Camões num dos colégios que tinha o convento de Santa Cruz, onde seguiu o curso de artes, que constava do quatro anos, sendo por isso mais tarde chamado bacharel latino, por Falcão de Resende. Quando a Universidade voltou novamente para Coimbra, em 1537, Luís Vaz, como o poeta era mais conhecido entre os escolares, foi ali matricular-se em Teologia. A sua vida de estudante tornou-se irrequieta e desordeira. O tio Bento de Camões andava muito desgostoso, porque desejava que o sobrinho seguisse a vida eclesiástica, e via-o muito requestador de damas, mostrando pouca vocação para a igreja. Chegando aos 17 anos, em 1541, conseguiu licença para deixar as aulas de Teologia, e seguir o curso de Filosofia. Já então se revelava poeta, e compôs uma elegia à paixão de Cristo, que ofereceu ao tio, que muito lhe agradou a oferta, reconhecendo o seu grande estro poético. Aos 20 anos, em 1544, encontrou-se pela primeira vez na igreja de Santa Cruz de Coimbra, nas festas da Semana Santa, com D. Catarina de Ataíde, dama da rainha D. Catarina, filha de António de Lima, mordomo-mor do infante Duarte, e deste encontro nasceu a ardente paixão, que lhe devia ser bem fatal. Nesse mesmo ano, num sarau a que assistiu na segunda-feira de Páscoa, em casa de Diogo de Sampaio, e em que se combinara um torneio poético entre o poeta da Corte Pedro de Andrade Caminha e Luís Vaz de Camões, Juan Ramon, sobrinho do lente da Universidade Martim Azpileneta, julgou-se ofendido por causa duns versos de Camões, seguindo-se um duelo em que o espanhol ficou ferido, sendo preso o poeta. Os estudantes protestaram, o cónego Bento empregou toda a sua influência, apresentando-se então em casa do referido lente com sua cunhada, D. Ana de Sá, e só no fim de muitas discussões e instantes pedidos é que se conseguiu o perdão de Camões, com a condição de ser desterrado durante um ano para Lisboa.
Luís Vaz partiu então para a capital, depois de se despedir de sua mãe e de seu tio, que ficaram pesarosos com aquela separação. Sendo apresentado na corte literária da infanta D. Maria, conviveu com os poetas daquela época, ganhando a afeição de Manuel de Portugal, ainda seu parente, João Lopes Leitão e Jorge da Silva, também perseguidos por questões amorosas; outros poetas invejavam o esplendor daquele génio privilegiado, rebaixando sempre os seus versos, criticando-os traiçoeiramente; estes poetas eram Jerónimo Corte Real e Pedro de Andrade Caminha, o mais implacável inimigo de Camões. Os amores do poeta com D. Catarina de Ataíde descobriram-se talvez por melindres de outras duas damas de igual nome, uma filha de Álvaro de Sousa, e outra filha do segundo almirante Francisco da Gama. Camões foi então vítima de muitas intrigas, tanto em Lisboa, como em Sintra, onde se reunia a Corte, sendo os seus versos sempre escutados com verdadeiro interesse pelas damas, que os preferiam aos dos outros poetas, o que mais aumentava ainda a inveja de Pedro Caminha. A paixão que D. Catarina de Ataíde lhe inspirara, e que não pudera totalmente dissimular, a sua querida Natércia, como ele lhe chamava nos seus versos, em anagrama do nome de Catarina, as torturas que sofria pelas intrigas que lhe forjavam, para o desprestigiarem e afastá-lo da Corte, tudo o obrigou a desterrar-se, indo viver sem destino para o Alentejo. Espalhada a notícia do cerco de Mazagão, Camões teve a ideia de ir militar em África em 1547. Serviu dois anos em Ceuta, condição então exigida para entrar no gozo duma comenda; aí começou a ver os sintomas da decadência portuguesa, que lhe suscitaram o pensamento de fixar para sempre o quadro da sua grandeza histórica. Numa surpresa das tribos kabilas, de que pôde salvar-se pela sua valentia, perdeu o olho direito, acidente a que ele chama o fruto acerbo de Marte. Ao receber-se na Corte esta notícia, houve quem aproveitasse aquela honrosa cicatriz para motejos e sátiras, chamando-lhe cara sem olhos e poeta dum olho só
Com o regresso de Afonso de Noronha em 1549, que estava despachado vice-rei da Índia, saiu Camões de Ceuta, acompanhando-o para Lisboa, e inscreveu-se então na Casa da Índia em 1550, para sair como homem de guerra na armada que partia nesse ano. O tio Bento já havia falecido, seu pai regressara a Portugal, e vivia em Lisboa com sua mulher, mas faleceu nesse ano de 1550, ficando unicamente D. Ana de Sá, que estava gravemente doente». In Enciclopédia, Wikipédia.

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