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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas. Alexandre Honrado. «Entretanto, Vénus tenta convencer Júpiter, seu pai, a pôr-se ao lado desse povo de heróis. Júpiter vive num bloco de apartamentos de luxo. Num belo condomínio privado que se chama Olimpo»

jdact

«Vasco da Gama, ajudado pelos deuses, contrariado pelos deuses, roga ao seu deus, Deus dos cristãos, que o leve à Índia ou, entretanto e para já, a sítio sossegado que possa dar-lhes forças para continuar. – Bute!
Sempre que se falava d’Os Lusíadas, em casa, nas ruas, fosse onde fosse, acorriam logo palavras e palavrinhas que se me afiguravam fantásticas, impenetráveis, misteriosas. Uma delas era a palavra épica, um substantivo feminino cujo oculto significado a minha avó se incumbiu de revelar: - Chama-se épica ao género poético que narra em estilo elevado feitos heroicos de personagens históricos ou lendários. – Pois, muito bem, esclarecido. E então lírico? – Então lírico é assim: um adjectivo masculino. Diz-se do género de poesia que exprime sentimentos delicados da alma do poeta.
 - Pois, muito bem entendido. E epopeia? – É um substantivo feminino. E é um poema extenso em que se contam acções heroicas e grandiosas. – Pois, muito bem, assimilado. E Mitologia? – É um substantivo feminino. É um conjunto dos mitos, que são narrações de uma história ou espécie de palavras sagradas, sancionada pela autoridade e pela tradição, em que se condensa a acção primordial dos deuses. – O quê? – Mitologia é o conjunto dos mitos de uma sociedade ou área cultural. – Enfim. – Aprenderás… - A minha setôra diz que há quatro partes n’Os Lusíadas… - Talvez tenha dito que há quatro partes constitutivas: proposição, invocação, dedicatória e narração. – Talvez. – O poeta explica e define o que vai contar… - É a proposição. – O poeta pede ajuda aos deuses para que o inspirem. – É a invocação. – O poeta dedica a sua obra ao rei. – Ao monarca Sebastião, bem sei. É a dedicatória. – O poeta conta o que se passou, relata a acção, conta uma grande história, por sinal. – É a narração. Narra lá, se não te importas… - Bute.
Esta história mistura heróis e deuses, um Deus único cristão, outro único muçulmano, deixa-nos assim a modos que às voltas com tanta crença e fé. Camões mostra-nos um herói sem força, pelo menos sem a força que conhecemos em outros heróis, Vasco da Gama, que está nas mãos dos deuses. O grande herói, porém, é um herói colectivo: o povo português. Agora, Camões chama uma nova deusa, Calíope, perita em epopeias, para que o ajude a progredir. Com a sua ajuda, descreve em pormenor a terra dos lusitanos: Portugal, o sítio onde a terra se acaba e o mar começa! Entretanto, Vénus tenta convencer Júpiter, seu pai, a pôr-se ao lado desse povo de heróis. Júpiter vive num bloco de apartamentos de luxo. Num belo condomínio privado que se chama Olimpo.
 - Filha, goza a tua mocidade! – Ó pai, eu gosto deles! – Tens de escolher só um… - Ó pai, faz-me a vontade. – Primeiro foi a mania das discotecas, agora são os portugueses. Um dia ainda te apanho de umbigo à mostra e piercing no nariz. – Ó pai, eu amo aquele povo!» In Alexandre Honrado, Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas, Negócio de Ócio, Lisboa, 2002, ISBN 972-98888-0-9.

Cortesia de Negócio de Ócio/JDACT

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas. Alexandre Honrado. «Vasco da Gama escolheu dois marinheiros para irem, antes de todos, a terra, a ver o que por lá havia. O que lá havia era uma tremenda trapaça. “Baco”, o malvado Baco, disfarçara-se de padre, ajoelhara diante de uma cruz feita por ele»

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«Alguns atiraram-se à água mesmo sem saber nadar, e outros fugiram que nunca mais ninguém os viu. Os portugueses saíram vitoriosos, mas danados - coisa que muito nos surpreende, já que tinham a obrigação de saber com quem se metiam muito antes de se meterem, ora essa! Para espanto meu, conta Camões que o tal importante pediu as pazes: mandou propostas, fingiu-se arrependido. E para provar a sua boa vontade, enviou-lhes um piloto, é claro que com a intenção de trair os portugueses e desfazer todos os seus sonhos.

Vem dos homens uma névoa,
tira-lhes toda a razão:
é a raiva que lhes voa
como uma ave sem chão.

Vasco da Gama aceita o piloto, mas não aceita o que ele diz. Ainda bem, o tipo tinha ordens definidas, o que queria era levá-los a uma outra ilha, de nome Quíloa, onde os mouros eram mais poderosos e capazes de vencer estes portugueses e sua artilharia. - Bute , meus! O piloto insistia, os barcos avançavam, o vento soprava, enfim, estiveram a uma unha negra, a uma nesga, a dois palmitos de água de se meterem num grande sarilho. Os ventos começaram de repente a mudar de rumo, viraram os barcos as suas proas, Vasco da Gama suspirou fundo, nem sabia que era Vénus a interceder por ele. - Bute, meus! Mas estariam a salvo? Que ideia. Se estivessem a salvo nem a história se contava, navegava, progredia.
 - Meus, conheço aí uns bacanos na segunda ilha à direita. Bute. O que o piloto traidor queria era levar os portugueses para nova armadilha, terrível ardil, tremenda arola. Dizia ele que conhecia uma cidade de cristãos, onde os portugueses se sentiriam bem acompanhados. Ficava já ao virar da esquina, mais onda menos onda. Foram direitos a Mombaça, só para ver se era verdade. O rei de Mombaça, um importantão, manda-lhes um recadinho floreado, todo cheio de falinhas mansas. - Fixe, meus. Aqui 'tá tudo numa boa. - Bute lá. Vasco da Gama, que acreditava em tudo e em todos um bocado de mais cá para o meu gosto, fica logo convencido. - Meus, a coisa vai. Bute.

O coração a bulir
deixa-me só sem pensar:
não sei se hei-de sentir
se sinta o que sei amar.

Vasco da Gama escolheu dois marinheiros para irem, antes de todos, a terra, a ver o que por lá havia: - Bute, vamos lá. O que lá havia era uma tremenda trapaça. Baco, o malvado Baco, disfarçara-se de padre, ajoelhara diante de uma cruz feita por ele, e rezava, tentando convencer os portugueses de que estavam numa terra cristã. - Meus, assim é que é. Baril. Para que a coisa ficasse mais composta, o rei de Mombaça mandou a Vasco da Gama uma quantidade enorme de presentes. Mas, no meio disto tudo, alguém estava atento. Vénus, a enamorada deusa dos enamoramentos, velava. Foi buscar umas primas, umas amigas, umas conhecidas, e umas outras que nem sabia quem eram mas que serviam muito bem, juntou-as todas e escondeu-se com elas na espuma das águas. - Bute, vamos lá! Empurraram os barcos para longe, salvando os portugueses. Os mouros ficaram aflitos, estes portugueses têm dons de adivinhação!
 - Ai que cena, meus! Fogem os mouros, receosos, o piloto desleal atira-se à água. - Bute, glup! - Bora! Vasco da Gama livrou-se de boa e fica aliviado, pudera! Vai para o espelho mirar-se:
  • És mesmo anjolas, Vasquinho! Nem pareces um capitão, um herói, um fica na história na página maior.
Quem foi que teceu beleza
no pano cru da verdade?
Mesmo brava a Natureza
desconhece crueldade.

In Alexandre Honrado, Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas, Negócio de Ócio, Lisboa, 2002, ISBN 972-98888-0-9.

Cortesia de Negócio de Ócio/JDACT

domingo, 20 de janeiro de 2013

Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas. Alexandre Honrado. «Ou talvez não. E se não fossem? Chegou e pôs-se logo com inquéritos e bisbilhotices, o Vasco da Gama a dizer: “eh lá! Este é um metediço!” Mas o Vasco da Gama só disse com os seus botões, em voz alta meteu os pés pelas mãos…»


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«Vasco da Gama acordou, parece até que foi o primeiro, tratou de limpar ramelas e de se refrescar, chamou os mais preguiçosos, deu-lhes que fazer; alindassem eles os barcos que vinha aí gente graúda. O tal importante não sabia nada acerca dos portugueses, nem do que eram nem em que acreditavam, se eram por Alá se por Deus, coisas que nessa época eram muito importantes e necessárias, não sabia ainda se vinham a toa ou com rumo certo. Tinha até uma desconfiança:
  • pela cor da pele,
  • modos e roupas,
  • se calhar eram Turcos,
  • e isso nem era mau, era mais ou menos,
  • gente da mesma fé entende-se sempre e vai daí talvez.
Ou talvez não. E se não fossem? Chegou e pôs-se logo com inquéritos e bisbilhotices, o Vasco da Gama a dizer: eh lá! Este é um metediço!
Mas o Vasco da Gama só disse com os seus botões, em voz alta meteu os pés pelas mãos, contou tudo e mais o que não devia contar, e ainda por cima usou um intérprete, já que o outro falava uma língua de trapos e rodilhas. Contou tudo, mostrou-lhe as armas que tinha, as ideias em que acreditava.

Quem lá vem traz só a pele
não esconde o amor que tem,
neste mundo pobre dele
que sem ter mal não está bem.

O tal importante olhou para as armas com ar de apalermado. Safa, que aqueles portugueses não faziam a coisa por menos:
  • armaduras, espingardas de aço,
  • pelouras,
  • aljavas,
  • bombardas,
  • chuços.
Os tipos, pensou o importantaço, são assim a modos que ingénuos, mas têm um arsenal capaz de partir a loiça toda! Vasco da Gama confiava. Achava aqueles mouros de ar tranquilo e afável, porque não confiar neles?
Estava enganado. O tal importante sorria e por dentro enchia-se de raivas. Estes portugueses eram perigosos. Tinham armas poderosas. Aquilo metia medo! Ainda por cima, este Vasco e todo sorrisinhos e falinhas mornas... deve estar a querer pregar-nos alguma!
O importante disfarçou, que isto e mais aquilo e talvez mais um bocado e assim assim, sabe-se lá. O que ele não queria era levantar suspeitas. Queria atrair os portugueses para uma armadilha e dar-lhes no lombo. Afinal, maometanos e cristãos. Há muitos anos que andavam a combater-se.
E voltam os deuses a entrar na história. Baco torna, por seu turno, a fazer passar-se por mouro. Dá uma ajuda ao tal poderoso, aconselha-o a matar os portugueses. E quando estes chegaram a praia, para ir buscar os mantimentos prometidos, e o piloto que os guiaria, foram recebidos por uma chuva de setas. Sorte, destreza, reviravoltas de narração:
  • ficaram feridos,
  • maltratados,
  • correram,
  • uma estafadeira pegada, mas nenhum morreu.
Reuniram-se e defenderam-se e mostraram o que valiam: puseram a artilharia aos gritos, o que para os mouros foi um susto dos maiores. Alguns atiraram-se à água mesmo sem saber nadar, e outros fugiram que nunca mais ninguém os viu». In Alexandre Honrado, Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas, Negócio de Ócio, Lisboa, 2002, ISBN 972-98888-0-9.

Cortesia de Negócio de Ócio/JDACT

sábado, 15 de dezembro de 2012

Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas. Alexandre Honrado. «… que lhes fornecerão comida, coisas frescas de comer e água doce de beber, tudo o que quisessem e mais umas coisitas que eles nem sonhavam pedir. Uma aldrabice pegada, garante Camões mais adiante»

jdact e ilustraçao de sergiopires

«Camões usa a expressão Vós, usando pois o vocativo, quando lhe dirige a palavra. O canto I mostra-nos um homem, Vasco da Gama, mais fraco que os poderosos deuses, mas dotado da perseverança dos heróis. Vénus desvia ventos e muda rotas, consegue contrariar Baco que, manhosamente, chegou a fazer passar-se por mouro. Os portugueses passaram um mau bocado e era-lhes bem merecido o descanso.
Como que por mágica coincidência, coisa airosa de história bem contada, avistam terra. Um grupo de ilhas aparentemente desabitadas e com ar ameno e convidativo. Preparam-se para descansar os portugueses.

Loa, louva a maresia,
pois chega agora a bonança,
que na vida a fantasia
é tão real como a esperança.

Descanso sim, mas muito breve, já que coisas mais importantes estavam para diante. A ilha de Moçambique era a mais chegada a costa, e dela vêm surgir alguns batéis. Camões dá-nos uma imagem simpática da gente lusa, pois não desconfiam, antes ficam contentes por verem gente,  já que quem anda no mar só conta estrelas, lavando mágoas na espuma do m ar, guardando segredos na solitária imensidão da água.
A ilha era a de Moçambique, pois bem. Mas quem seriam, de que raça, de que religião, de que parecer, aqueles que vinham nos batéis?

Não há-de ser mais ninguém
não será mistério vão.
E se for que seja alguém
que nos fique em coração.

Vai a ver-se e saem mouros. Mais mouros! Tanta moirama! E estes que faziam ali? Exploravam o comércio das áfricas que, pelos vistos, ali prosperava. Sem desconfiarem, os portugueses vá de contar! Que eram das terras lusas, que vinham a mando do rei, que isto e que aquilo, eu cá sou casado e tu?, então tenho uma filha, e de que clube é que és?, não sei se era este o diálogo se coisa parecida, ficaram ali a dar à língua, nem sei eu que língua falam ora uns ora outros, sei que se entenderam, Camões lá o diz.
Sabemos nós que estes moiros eram uns tramados de uns fingidos. Prometeram aos portugueses muito apoio. Que tinham para eles um bom piloto, piloto de mar, desses que olham para o céu e não se perdem nas águas dos oceanos, e que esse piloto os levava , por montes e vales de marés e água salgada, às terras cobiçadas da Índia, isto num pulinho, vou ali já volto, sempre a direito, ou coisa mais ou menos.
Convencem estes mouros os crédulos dos portugueses:
  • que lhes fornecerão comida, coisas frescas de comer e água doce de beber, tudo o que quisessem e mais umas coisitas que eles nem sonhavam pedir. Uma aldrabice pegada, garante Camões mais adiante.
Certo é que os portugueses se puseram regaladamente a dormir, que no dia seguinte tinham visitas, a começar pelo mouro mais importantão que mandava nas ilhas. Vasco da Gama acordou, parece até que foi o primeiro, tratou de limpar ramelas e de se refrescar, chamou os mais preguiçosos, deu-lhes que fazer; alindassem eles os barcos que vinha aí gente graúda». In Alexandre Honrado, Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas, Negócio de Ócio, Lisboa, 2002, ISBN 972-98888-0-9.

Cortesia de Negócio de Ócio/JDACT

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas. Alexandre Honrado. «Todas as hipóteses foram colocadas: se Júpiter em vez da paz promovesse uma tempestade? Se atirasse sonhos ao ar, fizesse naufragar as barcaças frágeis, os seus ocupantes ainda mais sensíveis? O que vale para um deus a vida de um simples homem?

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«Vasco da Gama conseguiu chegar à Índia, voltou e tornou a ir, trouxe especiarias e boas notícias, serviu o rei e seu filho, o rei João III, rei conhecido pelo cognome de o ‘Piedoso’ e que foi avô de Sebastião, o tal a quem Camões leria o seu poema. A história pessoal de Vasco da Gama foi, em suma, gloriosa.
Camões conta isto de modo muito mais agradável no seu magnífico poema. Por exemplo, diz-nos como saíam os barcos de Portugal, metiam-se pelo Atlântico, que na época era apenas conhecido até ao Cabo da Boa Esperança, antes das Tormentas, zona que é algures na África do Sul de hoje e, se conseguissem passar este, então, podiam dirigir-se para a Índia, a desejada.
Quem navega assim, à mercê dos caprichos da Natureza, descobre que o homem, por mais que se queira fazer gigante, não passa de um pequeno grão de pó na imensidão deste planeta: ora o vento abrandava e as naus paravam; ora o vento enfurecia e as naus rangiam de dor quase a partirem-se; e vinham tempestades e doenças e todos os perigos que seguem como sombras quase sempre as aventuras. Pior do que tudo era não se saber ao certo para onde se ia. Assim ao calhar, a coisa complicava-se. Ninguém, antes dos portugueses, tivera coragem para tanto, que tanto era.

São os ventos da coragem
é a voragem de ser
é a calma da miragem
de um povo a acontecer.

Largaram a Europa, que nessa época nem se chamava Europa, durante muitos anos chamaram-lhe Cristandade, zona de cristãos apesar de ter por lá muitos muçulmanos, e outros que não são agora aqui chamados…
Largaram a Europa e foram-se a África e já estavam nas costas de Moçambique quando os deuses, esses malandros que só aparecem quando não são chamados, se puseram em conferência, quem sabe se com medo destes homens que, tão cheios estavam de coragem, pareciam ainda maiores do que deuses.
O chefe dos deuses, o deus dos deuses, chamava-se Júpiter e era a modos que um presidente, um rei, um director, um general, um tipo importante, logo cabia-lhe a presidência da reunião. Vénus, filha dele, uma rapariguita jeitosa, bonita, digo eu que tinha formas apetitosas, cabelos acobreados, olhos a puxar para o verde de mar com sombras e feitiços, misteriosa, estava presente; Deusa do Amor e da Ternura, era o seu título. Com eles, estavam ainda Baco e Marte. Baco, divertido e excessivo, gostava de copos. Um bebedolas.
Que pena. Há vícios que fazem dos prazeres terríveis condenações. Baco, apesar da elevada taxa de alcoolémia está sempre em desavenças com as brigadas de trânsito e falha miseravelmente sempre que lhe fazem o teste do balão, Baco tem uma faceta divertida: adora festas, é o Deus da Folia. Marte implica com ele. É natural, é o Deus da Guerra. Desprende o cheiro da terra queimada, da morte, do sangue. É um Deus do destruir. Dá-se bem com um dos outros parceiros que estavam neste encontro: Apolo, o Deus da Luz e do Calor, que muitas vezes vai à guerra, embora não a ilumine nem aos seus generais, espalhando apenas a destruição do fogo e das labaredas... Neptuno, o Deus do Mar, também não faltou. Tinha até um punhado de algas no cabelo, e uma concha no cocuruto da cabeça.
Ordem de trabalhos da reunião, ponto único: davam ou não davam uma ajudinha àqueles toscos dos portugueses, pobres diabos que se meteram à água com manias de heroísmos e audácias?

Nas rodas da ilusão
saltam chispas de quimera.
A coragem é um pão
come-o sempre quem não espera.

Todas as hipóteses foram colocadas: se Júpiter em vez da paz promovesse uma tempestade? Se atirasse sonhos ao ar, fizesse naufragar as barcaças frágeis, os seus ocupantes ainda mais sensíveis? O que vale para um deus a vida de um simples homem?
Vénus deixara-se apaixonar pela valentia, pelo homem de olhos grandes, Vasco da Gama, que liderava a frota… Marte reconhecia-lhes a coragem e a valentia… Votaram a favor dos portugueses, portanto. Mas Baco estava com o grão na asa, uns copitos a mais, uma alegria muito próximo da maldade, e discordava, queria mordê-los, esbofeteá-los, assustá-los, desacreditá-los… queria…
No palácio de Júpiter discutia-se acaloradamente. Deuses e homens sempre em caminhos diferentes. Como fazer-lhes entender que são peças soltas de uma história só, e que quem a conta ditará sempre o seu destino?

São os deuses, são as gotas,
é a nuvem a chorar
passos perdidos das rotas
que só eu sei encontrar.



Canto I - Resumo
Camões começa o poema dizendo-nos o que se propõe cantar: a glória dos portugueses, homens que ultrapassaram a ilha de Ceilão, a Taprobana, ao sul da Índia, cometendo grande proeza, comparável à de grandes heróis como Ulisses, Eneias, Alexandre Magno ou o imperador Trajano. Enfrentaram muitas dificuldades, impostas pela Natureza mas também pelos deuses, como o invejoso Baco que chega a mandar-lhes um traidor, um mouro que os engana. Mas entre os deuses há aliados dos portugueses: Vénus, por exemplo, gosta da gente lusa e dá uma ajuda. Tudo isto é contado ao rei Sebastião, rei que nasceu dias depois da morte de seu pai e que assumiu o poder aos 14 anos. Camões usa a expressão Vós, usando pois o vocativo, quando lhe dirige a palavra. O canto I mostra-nos um homem, Vasco da Gama, mais fraco que os poderosos deuses, mas dotado da perseverança dos heróis».
In Alexandre Honrado, Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas, Negócio de Ócio, Lisboa, 2002, ISBN 972-98888-0-9.

Cortesia de Negócio de Ócio/JDACT

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas. Alexandre Honrado. «Quem teria coragem de fazer-se ao largo? Poucos. E em poucos barcos. Três naus e um navio velho, com mantimentos. O comando ficava a cargo de um homem, Vasco da Gama, um capitão de aventuras marítimas tido como muito corajoso»

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«Sentei-me numa pedrinha, Perto das rochas, a atirar seixos para a superfície hoje quieta do mar. Não sei se há quatrocentos e tal anos ficou assim alguém, a ver partir as caravelas portuguesas que levavam a bordo um punhado de aventureiros a querer inventar o Mundo, a desejar descobrir um caminho que por mar conduzisse a essa terra cheia de encantos e riquezas, como todos supunham ser a Índia.
Acho que, se lá estava realmente alguém a ver os barcos afastarem-se, atirando seixos sobre a superfície quieta das águas, havia de ser um portuguesinho, aborrecido por não ir ele também entre os maiores heróis do mundo do seu tempo.

Vai o meu sonho a vogar,
empurra a brisa do céu.
Marinheiro faz-se ao mar
fica em terra um amor seu.

Camões deu-lhes a imortalidade, a esses marinheiros atrevidos. E da forma mais ingrata, pois resolveu dedicar-lhes uma longa poesia, outra aventura. De que servem as palavras num mundo que só dá valor aos actos?
Escreveu Camões em forma de poema uma história verdadeira e agora que estamos numa época em que as histórias verdadeiras saltam todos os dias para as televisões e, assim, para casa das pessoas, acreditamos que Camões se safaria melhor se vivesse entre nós e escrevesse coisas tolas, prosas sem valor, vulgaridades... Em vida sua foi desconsiderado, passou dificuldades, morreu na miséria.
Pensando bem: hoje, se se metesse a escrever poemas, mesmo os mais belos, muito tinha também de penar para fazer-se ouvir e reconhecer. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades neste mundo composto de mudanças?
Enfim. O que nos traz aqui é mesmo outra história. A História de Portugal, tal como Camões a contou em Os Lusíadas, um longo poema que até à actualidade tem feito as delícias de muitos leitores e ouvidores.
Uma obra-prima, bem podes dizê-lo, que continua a agradar.

Quem te disse o poeta
que a poesia morreu?
Que passou como o cometa
na luz acesa do céu?

Tudo, nesse poema, começa com a famosa f rase: as armas e os barões assinalados... O que é que ele queria dizer? Francamente, o que eu dei voltas à cabeça quando li aquilo pela primeira vez! Acredita: fui perguntar à minha avó o significado! Ela, felizmente, sabia. E eu lá fiz o teste de Língua Portuguesa que exigia a minha sabedoria e agilidade.
Afinal, o que ele queria era dizer que aqui, na Península Ibérica, no fim da Europa, de peito encostado ao mar, vivia um povo de marinheiros cheio de vontade de ir mais longe, para ver se em outras terras e paragens podia descobrir glória, riqueza e fama. A vontade era bem definida, aliás: encontrar um caminho marítimo para a Índia, de modo a chegar mais depressa aquele grande território, onde o negócio prometia lucros e os atractivos eram inúmeros.
A Índia, todavia, parecia quase inalcançável! Tanto mar, tanta distância, tanto perigo.

Quem lá vem traz escuridão
ventre de nuvem de chuva;
monstro morto, podridão,
o mistério em cada curva.

Quem teria coragem de fazer-se ao largo? Poucos. E em poucos barcos. Três naus e um navio velho, com mantimentos. O comando ficava a cargo de um homem, Vasco da Gama, um capitão de aventuras marítimas tido como muito corajoso. Vasco da Gama nasceu em Sines, em 1468, morreu em Cochim, na Índia, em 1524. O rei Manuel I encarregou-o do comando da expedição que iria descobrir o tal caminho marítimo e ele lá largou de Portugal em 1497, um ano depois, o italiano Cristóvão Colombo chegava à América e chegou 14 meses depois às Costas de Moçambique.
Vasco da Gama conseguiu chegar à Índia, voltou e tornou a ir, trouxe especiarias e boas notícias, serviu o rei e seu filho, o rei João III, rei conhecido pelo cognome de o ‘Piedoso’ e que foi avô de Sebastião, o tal a quem Camões leria o seu poema». In Alexandre Honrado, Eu curto… Eu gosto dos Lusíadas, Negócio de Ócio, Lisboa, 2002, ISBN 972-98888-0-9.

Cortesia de N. de Ócio/JDACT