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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Povos e Culturas. Centro de Estudos. Coordenação de Roberto Carneiro. Alberto Araújo. «Basta considerar a probabilidade de o referido fenómeno do pulular de iniciativas portuguesas viradas para Timor passar da dimensão portuguesa para a escala internacional…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense. 2001
A Fase de Emergência e a Cooperação Luso-Timorense
«(…) Respondendo aos apelos da Igreja de Timor e do CNRT o governo português, através do Comissariado para Apoio à Transição de Timor-Leste e de mais outras instituições, não se tem poupado a esforços no sentido de enviar para Timor, sucessivamente, grupos de professores para missões curtas de três meses e missões mais longas de um a dois anos. É espantoso presenciar, no interior como em Portugal, o pulular de movimentos de solidariedade: organizações e instituições governamentais e não governamentais, iniciativas públicas, privadas, familiares e pessoais, todos de mãos dadas estão envolvidos nos mais diversificados sectores de economia, finanças, segurança e administração, e isso para citar apenas as áreas consideradas prioritárias pelo Encontro de Darwin. Esse Encontro, realizado entre Setembro e Outubro de 1999, foi convocado com carácter de urgência pelo Presidente do CNRT, Xanana Gusmão, vindo o seu início a coincidir com o primeiro dia de libertação definitiva do líder do cativeiro de Jacarta. Envolveu os Órgãos de Direcção do CNRT, Comissão Política Nacional (CPN), Comissão Executiva (CE) e Comissão de Jurisdição e Controlo (CJC), e técnicos das áreas consideradas prioritárias: Administração e Governação, Finanças, Economia, Segurança Nacional. Teve como objectivo a restruturação funcional do CNRT e a definição de um Plano Estratégico de Desenvolvimento para Timor.
O referido pulular de movimentos e de acções é sem dúvida a expressão de insondáveis sentimentos humanos face à situação de emergência e transição e é ou poderá vir a originar os germes de futuros acordos e protocolos de cooperação, incluindo portanto a cooperação cultural. A incerteza reside na perspectiva de que o conceito de emergência parece oposto ao da cooperação e que a situação ou a experiência humana de emergência não garante as condições psicológicas e objectivas em ordem aos verdadeiros acordos de cooperação.

A cooperação/cultural Luso-Timorense e a Fase de Transição
O conceito de Transição, segundo a definição assumida pelo CNRT no referido Encontro de Darwin e de acordo com os termos do Artigo 6.º do Acordo de 5 de Maio, significa o espaço de transferência (…) da autoridade em Timor Leste para as Nações Unidas e durará o tempo que for definido para o termo da gestão do poder pela UNTAET.
Colocar a ideia de Cooperação / Cultural Luso-Timorense no quadro conceptual de Fase de Transição implica termos que enfrentar questões jurídicas e operacionais que afectam o trinómio interessado, Timor Lorosae, Portugal e ONU, trinómio que é na realidade um polinómio. Basta considerar a probabilidade de o referido fenómeno do pulular de iniciativas portuguesas viradas para Timor passar da dimensão portuguesa para a escala internacional e para a igual probabilidade de algumas das potências intervenientes serem motivadas por planos de protagonismo de liderança ou de interesses próprios ao participarem na condução/construção dos destinos da Nova Nação. A transferência de autoridade traz como consequência que a responsabilidade de determinados actos de natureza oficial, incluindo a capacidade jurídica de celebração de acordos formais de cooperação, encontra-se centrada na ONU representada através da UNTAET. O Conselho de Segurança da ONU, em virtude da resolução 1272(1999) de 25 de Outubro de 1999, constituiu a UNITED, Nations Transitional Administration In East Timor (UNTAET) de pleno e total (fully, overall) responsável pela administração de Timor Lorosae (East Timor), com poderes para exercer toda a autoridade legislativa e executiva, incluindo a administração da justiça. Do mandato constam os seguintes elementos: Providenciar a segurança e manter a lei e a ordem em todo o território de Timor Lorosae; estabelecer uma administração efectiva; ajudar no âmbito de desenvolvimento de serviços civis e sociais; assegurar a coordenação e a distribuição da assistência humanitária e assistência à reabilitação e desenvolvimento; apoiar a capacidade construtiva de autogoverno;  prestar ajuda no âmbito de estabelecimento de condições para um desenvolvimento sustentado». In Alberto Araújo, O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Coordenação de Roberto Carneiro, Povos e Culturas, U. C. Portuguesa, nº 7, patrocínio de Comissariado para o apoio à Transição de Timor-Leste, 2001.

Cortesia da U. Católica P./JDACT

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Povos e Cultura nº 7. 2001. Timor Hoje. Garcia Leandro. «A eventual reunificação da península coreana. Os EUA mantinham o controlo sobre todo o conjunto de Arquipélagos do Pacífico interior situados no hemisfério norte»

Cortesia de wikipedia

Timor e a Geo-Política Regional. O post-Vietname/Camboja em 1975
«(…) Vietname e a Indonésia surgiram com ambições expansionistas. A saída dos EUA do Vietname obrigou a RPC a ter de compensar essa influência, temendo o excessivo poder soviético e dos seus aliados. Em 1979, ocorreu a invasão do Camboja pelo Vietname e a deste pela República Popular da China. O Japão continuou a sua ascensão económica e alargou a sua capacidade tecnológica. A zona da ASEAN foi mantendo equilíbrio social e progressividade no desenvolvimento económico. O mar continuou a ser um lago americano. A China e os EUA aproximaram-se (entre 1972 e 1978) e as posições militares extremaram-se da parte da União Soviética com qualquer destas potências.

Os anos 80
Este período foi marcado em todo o mundo pelo efeito Gorbachev e pelas suas iniciativas, mas já apresentava na região alguns indícios desde o início da década: Em 1980, em Camberra surgiu o conceito de Comunidade do Pacífico, com o interesse manifestado pela Austrália, Nova Zelândia e Canadá em se integrarem no conjunto. Na RP da China ocorreram grandes alterações, com a liberalização económica do sistema, a abertura ao investimento e ao know-how estrangeiros, bem como ao turismo. Foi feita uma revisão dos princípios económicos da doutrina marxista-leninista-maoísta, procurando corresponder à satisfação das necessidades das populações. Foram anunciadas as grandes metas de modernização da China para o ano 2000 na agricultura, indústria, Forças Armadas e na tecnologia. A RP da China tornou-se menos internacionalista. Ocorreu a emergência do Japão como uma superpotência económica, não o desejando ser em termos militares. Em 1987, 7 dos 10 maiores bancos mundiais eram japoneses, e em 1988, dos 7 maiores, 6 eram nipónicos. O reforço dos interesses da União Soviética com ambições no Pacífico e um crescimento do seu poder aeronaval. A quebra dos EUA como superpotência económica, com a necessidade de tomar medidas proteccionistas. O Japão tendeu a ocupar o papel de auxílio financeiro desempenhado pelos EUA até então. Agudizou-se o conflito económico Japão-EUA. Os EUA finalmente perceberam que não se resolvem problemas económicos e sociais com ditaduras familiares ou militares e que nem tais sistemas defendiam convenientemente os seus interesses; assim, apoiaram a transição para regimes democráticos. A excessiva influência soviética ocorrida nos anos 75/79 teve agora o seu reflexo, pois a URSS mostrou-se incapaz de manter o apoio económico aos seus satélites, Coreia do Norte, Vietname, Cuba, Nicarágua, etc., face às suas dificuldades internas. Manteve-se o desenvolvimento estável da zona da ASEAN, onde apenas o caso das Filipinas foi excepção.
Singapura, Malásia, Tailândia surgiram com as suas economias em grande expansão; o SE asiático apresentava crescimentos do PNB sem competição em todo o mundo. E a Indonésia emergia como uma potência regional de peso. Registou-se a fulgurante entrada em cena dos 4 tigres asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Singapura). Iniciou-se o retorno da influência dos países europeus (França, Reino Unido, mas também a Alemanha, a Itália, entre outros). Em 10 anos o comércio da CEE com o Pacífico triplicou. Entretanto mantinham-se e foram desenvolvidos grandes dispositivos militares. Dez das maiores Forças Armadas do mundo estavam no Pacífico: EUA, URSS, RP China, Japão, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia, Vietname, Tailândia. Necessidade de serem revistos os sistemas político-económicos dos países comunistas do SE asiático, que estavam à beira da falência, no sentido da sua liberalização e na sequência das tentativas da URSS e da RP da China. Tendência progressiva para a democratização dos regimes (em dez anos doze Nações modificaram os seus sistemas e aceitaram o final do monopólio dos regimes de partido único), sendo de salientar os casos da Coreia do Sul, Taiwan e Filipinas. Iniciaram-se processos negociados no sentido da resolução pacífica de certas situações e de alguns conflitos: A China, perante os casos de Hong Kong, Macau e Taiwan; As questões que opunham a Rússia à China e ao Japão (problemas territoriais); O problema interno do Camboja; Os desentendimentos entre a China e o Vietname; A eventual reunificação da península coreana. Os EUA mantinham o controlo sobre todo o conjunto de Arquipélagos do Pacífico interior situados no hemisfério norte.

A década de 90
Apesar do que disse inicialmente, não se pode analisar a Bacia do Pacífico sem a integrar na aceleração da História que ocorreu após a queda do muro de Berlim. Foi neste contexto que nos encontrámos na década de 90. Como fiz para as fases anteriores tentarei caracterizar o comportamento dos actores durante esse período, introduzindo agora na perspectiva geopolítica a questão de Timor. Com o golpe de Estado falhado na URSS em Agosto de 1991 pôs-se um final à Guerra Fria, ou à III Guerra Mundial como lhe chamou Richard Nixon, mas a Federação Russa não perdeu importância no Extremo Oriente e no Pacífico. Tem passado por enormes dificuldades, mas nunca deixou de ser uma potência a considerar e ainda não aceitou as reivindicações territoriais do Japão». In Garcia Leandro, Timor e a Geo-Política Regional, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, Roberto Carneiro, nº 7, Timor Hoje, 2001.

Cortesia do CEPCEPortuguesa/JDACT

Povos e Cultura nº 7. 2001. Timor Hoje. Garcia Leandro. «… o radicalismo do regime chinês durante a revolução cultural (1966-1976), que correspondeu aos últimos anos do maoísmo, antecipados pela ruptura com a URSS em 1961»

Cortesia de wikipedia

Timor e a Geo-Política Regional. Até ao início da II Guerra Mundial
«(…) A existência de uma grande potência regional, de tendências expansionistas e imperialistas, a única da área capaz de ter acompanhado a revolução industrial, o Japão. Um gigante adormecido, explorado por todos, difícil de controlar, essencialmente religioso, agrícola e comerciante, a China. A presença das grandes potências imperiais, o Reino Unido, a França, a Holanda, os EUA, a União Soviética, mas também parte do Império Português de então em Macau e Timor. A expansão das superpotências que vieram a dominar a segunda metade deste século para a costa da Ásia, os EUA pelo mar e a URSS à custa de sucessivos povos por terra. Um SE asiático pobre, colonizado, essencialmente agrícola. Um relacionamento privilegiado de cada parcela da área com a metrópole colonial em detrimento da relação com o vizinho e com a região.  O poder económico e militar do cristianismo sobre o islão, o budismo, o hinduísmo e outras religiões locais.

O Final da II Guerra Mundial e as suas consequências
A super-potência regional, o Japão, foi completamente aniquilada e vai-se reconstruir à custa dos EUA, quer sob o ponto de vista de arquitectura política quer sob o do financiamento. O seu alinhamento político tornou-se marcadamente pró-americano. Não tendo já o domínio dos mares, o novo Japão teve de se aliar à Potência Marítima dominante. As potências europeias exaustas pela II Guerra Mundial concederam independências, afastando-se da região. Apenas com alguma importância e através de outros se manteve o Reino Unido. Por interesse próprio, mas também para fazer face ao vazio deixado pelas potências europeias e à crescente influência comunista, os EUA alargaram a sua influência na região, que se tornou num lago americano. Em consequência, os EUA criaram uma série de alianças políticas e militares de carácter bilateral e multilateral. A União Soviética expandiu-se ainda mais para leste, apoiou a guerra da Coreia e diferentes movimentos pró-comunistas na região. A vitória comunista na guerra civil chinesa apresentou duas consequências fundamentais: a unificação do país e o receio de que a sua sombra se projectasse sem resistência em todo o SE asiático. Por outro lado os seus líderes sempre foram profundamente nacionalistas. A China tornou-se num modelo mais atractivo do que a União Soviética para os países do Terceiro Mundo. Diversas lutas pela independência, choques étnicos e religiosos, guerrilhas comunistas e guerras civis, marcaram os anos 50 e parte dos anos 60 nos países mais pequenos da região. O Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia estiveram de certo modo afastados deste jogo mantendo as suas ligações preferenciais com o Reino Unido.

A década de 60 até ao final da guerra do Vietname
O contínuo desenvolvimento tecnológico e o crescimento económico do Japão. O envolvimento dos EUA no SE asiático, principalmente no Vietname e no Camboja. Apoio americano ao desenvolvimento económico e estabilidade de alguns países como modo de barrar o caminho para a sua comunização, casos da Coreia do Sul e de Taiwan. O conjunto de resultados das lutas anti-comunistas no SE asiático desde o final da II GM apresentou-se equilibrado, mas com base em regimes ditatoriais de esquerda ou de direita. Ocorreram vitórias da direita na Malásia, na Indonésia e nas Filipinas e derrotas no Vietname, Camboja e Laos. Na Península Coreana houve que optar pela sua divisão. Surgiu um conjunto de países do Sul que criaram em 8 de Agosto de 1967 a ASEAN (Association of the South East Asian Nations) querendo formar uma zona de paz fora destes conflitos, mas eles próprios com grandes problemas internos. De qualquer modo, e embora recusando uma aliança militar, estes países estavam alinhados pelos EUA (Filipinas, Tailândia, Singapura, Malásia e Indonésia). Ocorreu também a retracção do dispositivo militar britânico e a sua entrada para o Mercado Comum. Foi ainda marcante na época o radicalismo do regime chinês durante a revolução cultural (1966-1976), que correspondeu aos últimos anos do maoísmo, antecipados pela ruptura com a URSS em 1961.

O post-Vietname/Camboja em 1975 teve consequências geopolíticas e geoestratégicas que alteraram todo o equilíbrio regional
Foi a época em que se atingiu o pico mais elevado da influência comunista no mundo. Neste período ocorreu A revolução portuguesa de 1974 e as suas consequências em Macau e Timor abalaram a região, tendo este último sido invadido pela Indonésia em 27 de Dezembro de 1975, após uma guerra civil iniciada em Agosto e a saída do governador para a Ilha do Ataúro. A retracção do dispositivo americano cedendo bases no continente e a consequente quebra de prestígio, que em ligação ao caso Watergate provocaram a perda de força dos executivos americanos. Regimes comunistas radicais implantados no Laos, Vietname e Camboja. Posições de apoio para as frotas russas nas antigas bases americanas do Vietname (Danang e Camrhan)». In Garcia Leandro, Timor e a Geo-Política Regional, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, Roberto Carneiro, nº 7, Timor Hoje, 2001.

Cortesia do CEPCEPortuguesa/JDACT

Povos e Cultura nº 7. 2001. Timor Hoje. Garcia Leandro. «… o aumento do poder aquisitivo por parte das populações, criando mercados anteriormente inexistentes e fazendo crescer as trocas comerciais inter-Bacia em detrimento de outras relações tradicionais»

Cortesia de wikipedia

Timor e a Geo-Política Regional
«(…) Não se pode compreender bem a situação actual de Timor sem se conhecer o longo caminho seguido pelos povos e nações da Bacia do Pacífico desde a II Grande Guerra, e com mais significado a partir da década de 80. Trata-se da região que mais se tem modificado desde a II Grande Guerra e onde desde o início da década de 80 se começou a desenvolver e a aprofundar o conceito de interesses comuns entre os países a ela pertencentes, ou seja, o conceito de Comunidade do Pacífico. Contrariamente ao que ocorreu no resto do globo, estas alterações não foram consequência da queda do muro de Berlim em 1989, nem do final da Guerra Fria. Foi toda uma progressão que veio a ocorrer desde os anos 60, principalmente após o final da guerra do Vietname e que merece uma análise cuidada. Por que se tornou esta região hoje tão importante para o sistema global? São de recordar duas afirmações feitas na década de 80 pelos responsáveis das duas superpotências. Em Outubro de 1984, Ronald Reagan afirmou: O Pacífico é onde o futuro do mundo se encontra. Mais tarde, em Julho de 1986, em Vladivostok, Mikhail Gorbachev dizia: A situação no Extremo Oriente, na Ásia e nas vastidões oceânicas vizinhas, onde somos habitantes permanentes e navegadores de longa data, é para nós de interesse nacional e de Estado. Foi o reconhecimento formal de um novo fenómeno político e económico.

Razões para a importância crescente da bacia do pacífico
Há razões que, acumuladas e inter-relacionadas, justificam não só as afirmações citadas mas também a importância crescente da Bacia do Pacífico, onde Timor Leste se encontra. Ao tentar efectuar esta análise considero de salientar as seguintes doze razões: 1. O Pacífico ocupa uma área quase igual à de todos os outros oceanos (Atlântico, Índico e Árctico); 2. Ao seu redor e no seu interior vive cerca de 72% da população mundial; 3. O conflito Norte-Sul é menos forte ali do que noutras partes do globo; 4. Quatro das maiores potências mundiais, EUA, Federação Russa, Japão, China, nele têm as suas costas, também algumas potências crescentes a ele pertencem, como sejam o Canadá, a Austrália e a Indonésia; 5. O crescente interesse da ex-URSS na região Ásia-Pacífico, que não será alterado pela Federação Russa, e o facto de a área ser considerada essencial para os EUA (mesmo após a implosão da União Soviética); 6. A recuperação económica japonesa pós-II GM e o seu alinhamento político-estratégico com os EUA e a Europa; 7. A vitória da revolução comunista chinesa (1949) e a evolução da República Popular da China, tanto internamente como no seu posicionamento internacional; 8. A descolonização europeia do SE asiático, criando um diversificado conjunto de Estados, hoje só existem territórios não autónomos nas ilhas dispersas nos vários arquipélagos do oceano (dependências dos EUA, Reino Unido, França, Austrália, Nova Zelândia); 9. Investimentos ocidentais, japoneses e árabes (petrodólares) que, ligados às características de alguns povos e regimes políticos da Região, criaram os chamados milagres económicos; 10. Em consequência, o aumento do poder aquisitivo por parte das populações, criando mercados anteriormente inexistentes e fazendo crescer as trocas comerciais inter-Bacia em detrimento de outras relações tradicionais; 11. A excelente reacção de certas economias regionais à introdução de novas tecnologias, bem como uma elevada mobilidade empresarial e da mão-de-obra às solicitações do mercado; 12. O facto de, desde o início de década de 80, se ter vindo a desenvolver um relacionamento inter-Bacia e parecer começar a consolidar-se a consciência de interesses regionais conjuntos que culminaram com as Cimeiras da APEC (Asia Pacif Economic Cooperation) de Novembro de 1993 em Seatle, Outubro de 1996 em Manila e Setembro de 1999 em Auckland, na Nova Zelândia.

O percurso histórico dos actores da bacia do pacífico
Para percebermos o percurso ocorrido até hoje e podermos tirar conclusões, iremos acompanhar os povos e os países da Região pelos períodos em que dividi os últimos setenta anos: Até à II Guerra Mundial; Final da II Guerra Mundial e as suas consequências; Os anos 60 e princípios da década de 70; Post-Vietname (1975); Os anos 80; A década de 90». In Garcia Leandro, Timor e a Geo-Política Regional, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, Roberto Carneiro, nº 7, Timor Hoje, 2001.

Cortesia do CEPCEPortuguesa/JDACT

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Povos e Culturas. Centro de Estudos. Coordenação de Roberto Carneiro. Alberto Araújo. «Desde cedo e mais recentemente os indicadores de necessidades manifestados nomeadamente pela camada juvenil parecem demonstrar que não existem fronteiras claras, sequência hierárquica e temporal entre as necessidade de base e de topo»

Cortesia de wikipedia

O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense. 2001
Condições internas
«(…) Condições internas é apenas uma das possíveis expressões para significar algumas das variáveis que poderão ser interessantes em ordem a compreender a realidade histórica de Timor Lorosae, em si e na actual conjuntura, e para situá-la como sujeito ou objecto, ou melhor dito, como co-sujeito, na definição de espaços de cooperação bilateral e multilateral entre as entidades envolvidas. Debruçando-nos sobre a Cooperação Luso-Timorense, a expressão, ao ter Timor Lorosae como referência fundamental e palco de acções, engloba também o outro termo do binómio, Portugal. Se não se pode ter a visão das partes sem o todo, e vice-versa, ou seja: se não se pode falar do futuro de cooperação luso-timorense sem falar da Cooperação no seu todo; se não se pode ter a visão de Timor Lorosae sem ter presente, por um lado, a visão do Timor Ocidental e a Indonésia, o contexto social e geopolítico da região Ásia/Pacífico e, por outro lado, a visão de Portugal e CPLP, da Europa, UNTAET e Comunidade Internacional: aparece bem claro que a expressão vem colocar-nos face a uma questão singularmente complexa.
Nessa ordem de coisas a expressão condições internas assume triplo sentido: primeiro, é sinónimo do conceito de situação e engloba o conjunto de dados objectivos e concretos, de substantivo(s), que determinam e se tornam imprescindíveis ao pretendermos abordar a actual fase mais ou menos longa da História de Timor Lorosae, Fase de Emergência e de Transição; segundo, representa o conceito de condicionante, de verbo, na medida em que a situação histórica e os dados de facto definem os princípios operacionais, as metodologias e as estratégias a coordenar nos sucessivos procedimentos; terceiro, implica um conjunto de princípios a priori e a posteriori que deverão justificar e normalizar toda a acção e todo o conjunto de princípios inerentes.

Fase de Emergência e Transição
Na óptica do triplo sentido atrás proposto, a Fase de Emergência e de Transição constitui referência imprescindível não só de tipo de projectos de Cooperação como de toda e qualquer acção que vise Timor Lorosae no presente e nos próximos tempos. Tanto para os nossos concidadãos timorenses como para os interlocutores internacionais esse duplo conceito de Emergência e Transição tornou-se um domínio comum, um espaço de diálogo e de (inter)acções.

A Fase de Emergência e a Cooperação Luso-Timorense
O CNRT definiu como Fase de Emergência o tempo entre 30 de Agosto de 1999 e Dezembro de 2000 com possível prolongamento para mais alguns meses, o tempo caracterizado pela múltipla precariedade (carências, lacunas, necessidades) que afecta a nossa população, nomeadamente desde os trágicos acontecimentos subsequentes à proclamação dos resultados do referendo. O programa/objectivo é responder, de forma o mais célere e adequado possível, àquelas necessidades básicas que nos colocam no mesmo patamar que os outros animais, ao mesmo tempo que nos distinguem deles, e que alguns psicólogos humanistas como Maslow situam na base da pirâmide de motivações existenciais e da hierarquia de necessidades vitais: as necessidades de natureza fisiológica e biológica (fome, sede, sono, ausência da dor e de tensão, expressão sexual) e de segurança (ausência de medo, tranquilidade, conforto, ambiente estável e ordenado).
Desde cedo e mais recentemente os indicadores de necessidades manifestados nomeadamente pela camada juvenil parecem demonstrar que não existem fronteiras claras, sequência hierárquica e temporal entre as necessidade de base e de topo, ou que a cultura timorense parece apresentar modelos diferentes ou inversos aos maslovianos e das sociedades socialmente mais evoluídas. O bispo Basílio Nascimento, da diocese de Baucau, muito depressa compreendeu a educação não só como função psicológica de ocupação do tempo ou de simples necessidade natural de aprendizagem, mas também como certa necessidade de auto-estima e de auto-realização, começando a abrir escolas logo que possível, salvo erro, desde Setembro/Outubro de 1999. Muito rapidamente as escolas, funcionando em barracas, em casas sem tecto, debaixo de árvores e não importa onde, revelaram um tal nível de interesse e de afluências que se sentiu a importância de reciclagem de professores timorenses disponíveis e a formação de formadores no terreno». In Alberto Araújo, O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Coordenação de Roberto Carneiro, Povos e Culturas, U. C. Portuguesa, nº 7, patrocínio de Comissariado para o apoio à Transição de Timor-Leste, 2001.

Cortesia da UCatólicaP/JDACT

Povos e Culturas. Centro de Estudos. Coordenação de Roberto Carneiro. Alberto Araújo. «No círculo aberto da presente reflexão os interlocutores são fundamentalmente os concidadãos timorenses que têm à sua roda um número infinito de irmãos portugueses e lusófonos»

Cortesia de wikipedia

O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense. 2001
«Portugal está agora em condições de reconstruir, com renovado sentido estratégico, a teia de relações seculares que sucessivas gerações de portugueses foram tecendo, ao longo dos séculos, por esse mundo fora e que constituem um património extraordinário».

Considerações
«Colocar a questão em termos de O Futuro da Cooperação…, poderia conduzir o debate à dimensão de probabilidades ou à visão profética. Tal alternativa, que vulgarmente distingue a fé científica da fé religiosa, não se tornaria geradora de impasses se admitirmos a hipótese de que, num certo ponto e mais cedo ou mais tarde, ambas as perspectivas acabarão por se cruzar, possibilitando espaços de identificações onde a aventura de abordagem de interrogações cosmológicas e antropológicas poderia abrir novos horizontes. Entretanto, dado que há questões concretas, importantes e urgentes directa ou indirectamente relacionadas com a problemática em foco, certamente que estamos todos interessados em ultrapassar tudo aquilo que possa constituir fonte de polémicas de divisões e concentrar todas as atenções em construir plataformas de consenso e de acção.
Ultrapassar e resolver de forma positiva as fontes de divisionismos, de lutas partidárias e fratricidas, e canalizar todos os recursos para a reconstrução do país tão destruído é o espírito da reconciliação nacional para a qual todos, desde os mais antigos aos mais recentes responsáveis de toda a desordem, todos são fraternalmente interpelados. Fazer o levantamento de todas as formas e meios para viabilizar e garantir o futuro da cooperação luso-timorense e, enfim, de qualquer iniciativa que vise participar na construção de uma nova nação para o novo milénio e para sempre, não deixará de deparar com dificuldades e obstáculos: é uma aventura que implica riscos; mas vale a pena todo o risco quando a esperança é grande e bela a recompensa: a independência de uma nação irmã: Timor Lorosae.
Onze meses após o acontecimento, o Referendo, que juntou morte e vida ou morte(s) (dos heróis que deram a vida pela liberdade) e nascimento (de uma nova nação), o Povo de Timor Lorosae continua irreversivelmente empenhado na reconstrução nacional, esperançado em ver (re)nascer a vida e a nova vida de paz, de liberdade e independência. Ele tem clara consciência de que, se a luta foi difícil, mais difícil ainda é e será a construção da independência. Treze meses após o Acordo de 5 de Maio entre a ONU e os governos de Jacarta e de Lisboa, Portugal, apesar da transferência (…) da autoridade em Timor Leste para as Nações Unidas (Art. 6), continua na linha de frente, ao lado do povo timorense, ambos empenhados em criar as condições necessárias para garantir a capacidade, viabilidade, estabilidade e qualidade de Independência da nova nação.
No círculo aberto da presente reflexão os interlocutores são fundamentalmente os concidadãos timorenses que têm à sua roda um número infinito de irmãos portugueses e lusófonos (irmão é uma expressão particularmente típica do espírito tradicional timorense) e do mundo inteiro, todos unidos na mesma vontade e compromisso: colaboração, cooperação, participação. E uma das formas dessa participação/cooperação reside naquela atitude filosófica da reconciliação nacional: sair de si próprio, caminhar ao encontro dos irmãos (para fora de si) e redescobrir-se a si próprio (voltar a si) numa plataforma de entrecruzamentos do pensar e do ser, individual e colectivo, todos conscientes da sua nova natureza de serem células dinâmicas de uma e mesma Nação. Dado que se trata de um primeiro encontro, está fora da minha intenção qualquer pretensão de ser perfeito e rigoroso, exaustivo, categórico e concludente. Terei atingido alguns dos objectivos se surgirem outras reflexões mais ricas e profundas, mais técnicas e científicas, e se a necessidade de profissionalismo na abordagem das questões inspirar os concidadãos vocacionados para a especialização em matérias de Cooperação». In Alberto Araújo, O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Coordenação de Roberto Carneiro, Povos e Culturas, U. C. Portuguesa, nº 7, patrocínio de Comissariado para o apoio à Transição de Timor-Leste, 2001.

Cortesia da UCatólicaP/JDACT

sábado, 24 de novembro de 2012

Povos e Culturas. As Crianças de Timor como Testemunho da Guerra e da Destruição. Maria de Jesus Barroso e Duarte de Bragança. «No acordo estabelecido entre Portugal e a Indonésia sob os auspícios das Nações Unidas ficou estabelecido que caso a proposta indonésia fosse derrotada, Timor regressaria à situação que tinha antes de 1975, ‘seria reconhecida a soberania portuguesa no território’»


jdact e cortesia de wikipedia

Timor
«Em todos os conflitos, e o mundo actual é, infelizmente, fértil neles, as crianças são as principais vítimas. Em Timor não escaparam a essa terrível regra. Testemunhas dos crimes mais brutais, elas conservaram nas suas mentes imagens, dificilmente apagáveis, de cenas do horror e da violência de que os seus pais e parentes mais próximos foram vítimas. As que escaparam conseguiram sobreviver sem grandes estragos físicos aparentes. Lembro-me de, em Díli, uma médica da nossa Missão me ter chamado a atenção para o facto de que as crianças que estava tratando e que, portanto, tinham sobrevivido, não acusavam desidratação e outros traumas físicos visíveis.
Aliás, a doçura do povo timorense e o seu cuidado com os mais pequenos, fez que muitos deles fossem poupados às carnificinas de que os adultos foram o principal alvo. Mas há que cuidar, urgentemente, das crianças, não só física como psicologicamente. Dar-lhes os cuidados, a atenção e o afecto de que necessitam para viver e crescer. Dar-lhes abrigo, reconstruindo as casas para as receberem, formando os adultos, profissionais ou voluntários, para as saberem cuidar devidamente. Levantar as escolas, as paredes que caíram, os tectos que desabaram e que têm de voltar a ser espaços de alegria, formação e educação, convívio e conforto, são tarefas urgentes e indispensáveis. Estamos, a Cruz Vermelha, a Fundação Pro Dignitate e a União das Misericórdias, também angariando livros e toda a espécie de material escolar para que elas possam frequentar as escolas e reganhar o tempo perdido com a guerra fratricida que feriu, e ainda fere, ai de nós! - aquele martirizado povo.
No âmbito da Cruz Vermelha pensei, depois de uma conversa com o padre Vítor Melícias, que talvez pudéssemos ajudar os timorenses a construírem e organizarem uma Sociedade Nacional da Cruz Vermelha para poderem, por si sós, responder prontamente aos pedidos de ajuda que chegam e chegarão ainda de muitos pontos desse território.
Mas entretanto, e enquanto não nos for confirmada a aceitação, por parte dos timorenses, dessa ideia, já mandámos reconstruir uma casa que será destinada a um lar para crianças que tenham perdido os seus pais. A nossa grande preocupação tem sido, e continuará a ser, a de desencadear acções de socorro às crianças, apresentando projectos e aceitando realizar projectos que nos sejam propostos pelas autoridades governamentais e pela Igreja timorenses e que tenham como objectivo a protecção e reintegração da criança na sociedade.Dizia Fernando Pessoa: ‘mas o melhor do mundo são as crianças’, é a profunda consciência dessa afirmação que nos move. Elas são o melhor do mundo e a sua sobrevivência, em paz e em dignidade, é condição também de sobrevivência desse mundo. Cuidar das crianças timorenses, livrá-las da morte, da fome, da doença, da ignorância, respeitar e fazer respeitar, em suma, os seus direitos inalienáveis, é lançar os alicerces para um Timor de paz, de tolerância e de fraternidade, um Timor onde o sol nasça e envolva, no seu calor e luz, todo o seu tão sacrificado povo e sobretudo as suas crianças». In Maria de Jesus Barroso.

Timor
«Quando em Setembro de 1999, após 25 anos de ocupação e terror, os timorenses foram consultados, espantaram o Mundo com a sua coragem e civismo e irritaram profundamente os militares indonésios ao recusarem, claramente, a anexação ao país vizinho. No referendo foi-lhes perguntado se aceitavam a proposta de uma autonomia alargada debaixo da soberania indonésia. Caso recusassem a proposta, a administração indonésia retirar-se-ia do território. No acordo previamente estabelecido entre Portugal e a Indonésia sob os auspícios das Nações Unidas ficou também estabelecido que caso a proposta indonésia fosse derrotada, Timor regressaria à situação que tinha antes de 1975, ou seja, seria reconhecida a soberania portuguesa no território. Dizia também que neste caso ficaria aberto o caminho para a futura independência do território. No entanto, nem os dirigentes portugueses nem os timorenses, aceites por consenso pelo povo mas não legitimados por alguma eleição, têm o direito de decidir o futuro do povo timorense sem o consultar, e neste momento a única consulta feita foi o referendo.
Portanto, a situação jurídica de Timor continua a ser a que era em 1975 apesar de o governo de Lisboa ter entregado a resolução do problema timorense, e agora a administração do território, às Nações Unidas». (Continua). In Duarte de Bragança, duque.

In Maria de Jesus Barroso e Duarte de Bragança, Timor Hoje, Povos e Culturas, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, U. C. Portuguesa, nº 7, 2001, patrocínio de Comissariado para o apoio à Transição de Timor-Leste.

Cortesia da U. Católica P./JDACT

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Oriente de Expressão Portuguesa. Timor, Goa e outros Confrontos Etnográficos. António Almeida. «A ilha de Timor tem a forma elipsoidal, sendo atravessada longitudinalmente por uma cadeia de serras, cujo ponto mais elevado é superior à altitude do Pico nos Açores; a montanha recebe o apelido de Tàta-Màiláu, o avô dos montes»



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«Na Oceânia, a leste do arquipélago da Sunda, situa-se a ilha de Timor. Timor quer dizer nascente, Oriente, palavra bem sugestiva para os Portugueses, o Oriente obstinadamente procurado e percorrido em todas as direcções pelas nossas armadas nos tempos áureos da Expansão!
Nesta ex-terra de Portugal vivem, além dos Europeus, Chineses de Macau, Muçulmanos de proveniências diversas e os naturais, em número aproximado de meio milhão, repartidos em 31 grupos etnolinguísticos, já estudados pela Missão Antropológica de Timor. Timor, com superfície equivalente a um terço da área do Continente, é banhado ao norte pelo mar de Banda, o “mar-mulher”, e ao sul. pelo mar da Austrália, o “mar-homem”, segundo as expressivas designações dos Timorenses:
  • mar-mulher por estar quase sempre calmo,
  • mar-homem por normalmente se mostrar agitado!...
A ilha de Timor tem a forma elipsoidal, sendo atravessada longitudinalmente por uma cadeia de serras, cujo ponto mais elevado é superior à altitude do Pico nos Açores; a montanha recebe o apelido de Tàta-Màiláu, o avô dos montes. Conforme o simbolismo dos nativos, a ilha outra coisa não é do que um gigantesco crocodilo, emergido do oceano!... Ao jacaré, animal reverenciado por muitos Timorenses, chamam avô, manifestando-lhe a sua veneração por meio de estilos ou práticas mágico-religiosas, que consistem em sacrifícios de porcos, de cabritos e de outros animais domésticos, abstendo-se de molestá-lo, mesmo quando o repelente lagarto consiga matar e deglutir algum compatriota; neste caso particular, o crocodilo incarna o espírito de Deus justiceiro, sendo, por isso, a sentença aceite resignada e respeitosamente.
O réptil aparece frequentemente no folclore local; no dorso de um jacaré-voador, dizem os nativos, chegou a Timor o primeiro representante da raça branca: um “Malae”, ou seja um Português. “Malae” é o nome gentílico dado aos estrangeiros em geral, mas, enquanto para nos classificarem basta esta palavra, para os demais povos estranhos há que acrescentar adjectivos qualificativos, às vezes bem antipáticos, ainda que quase sempre perfeitos retratos.
Entre as montanhas de Timor abrem-se vales profundos e, no tempo de chuvas, nestas depressões acumulam-se águas diluvianas, despenhadas dos cumes em catadupas indomáveis, indo avolumar desmedidamente as ribeiras, que destroem tudo na sua furiosa passagem, arruinando estradas e caminhos, derrubando árvores e pontões, impedindo as comunicações temporariamente.
Se as ribeiras de Timor, em regra sem préstimo para a navegação, provocam os prejuízos apontados, algumas delas fornecem água para inundar as várzeas marginais, em que se cultiva o arroz, a gramínea de que principalmente se sustentam os Timorenses.
Quantas vezes, ao percorrer as terras do distrito de Goa, me quedei a observar aspectos etnográficos e de geografia humana confrontáveis com os de Timor e de outras terras portuguesas, por exemplo, os que respeitam à orizicultura: arranjo e cultivo das várzeas, colheita e debulha do arroz, verificados no nosso Continente. Com efeito, em Goa como em Timor, os arrozais aquáticos dispõem-se em canteiros ladeados de baixos camalhões de terra batida, assemelhando-se a plantação e a ceifa do arroz, bem como a debulha, feita com os pés dos homens. Se os arrozais goeses lembram os das margens dos rios Vouga, Mondego e Sado e as mulheres que cortam o arroz parecem as ceifeiras do Alentejo, já as várzeas timorenses são pisadas e revolvidas com as patas dos búfalos.
Em Goa emprega-se a enxada ou o arcaico arado de madeira, vindo dos tempos védicos, e outros instrumentos puxados por búfalos ou por bois». In António Almeida, O Oriente de Expressão Portuguesa, Timor, Goa e outros Confrontos Etnográficos, separata do volume 84 de Estudos, Ensaios e Documentos, Pangim, Índia, Fundação Oriente, Centro de Estudos Orientais, Lisboa, 1994, ISBN 972-9440-27-1.


Cortesia da F. Oriente/JDACT