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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Conquista de Madrid. 1706. Vieira Borges. «… a França, constituiu para os Portugueses do tempo, a grande escola da cultura e da civilidade, pelo que se defendia tudo o que viesse daquele país, mesmo que fosse contrário ao espírito nacional»

jdact e sergioveludo

Actores e Interesses
«(…) Desde a paz com a Espanha, em 1668, que o problema mais grave para Portugal, residia na sua situação económica, por um lado devido a uma estratégia económica desenvolvida pelos espanhóis, no sentido de bloquearem o comércio português com os países europeus e, por outro lado, devido às cedências feitas à Inglaterra e à Holanda. Concorrentemente, as questões da colónia de Sacramento, (no actual Uruguai) do tráfego com o Brasil e mesmo com a Índia, constituíam um eixo fundamental, senão mesmo vital, da economia internacional Portuguesa. Era então do mar dos negócios que se podiam esperar compensações e auxílios para Portugal enfrentar quaisquer investidas continentais, quer por parte da França, Quer por parte da Espanha. Para Portugal, a união possível da Espanha ao poderio francês constituía a repetição da situação estratégica em que tinha perdido a independência, em 1580, e daí a inevitabilidade da nossa participação militar na guerra da Sucessão de Espanha, independentemente de uma postura inicialmente neutral.
As prioridades portuguesas, relativamente ao comércio colonial e à sua segurança, ainda sem envolvimento directo na luta pela sucessão do trono espanhol, levaram Pedro II (regente e rei entre 1667 e 1706), secundado pelo seu ministro Cadaval, e influenciado pela existência, na Corte, de um activo e influente partido francês, a optar inicialmente pela França, julgando ser a melhor maneira de conter politicamente a Espanha. Não se estranhe a situação conjuntural, pois até Guilherme III de Inglaterra, em 17 de Abril de 1701, reconhecera Filipe V de Espanha. Com esta opção inicial pela França em que foi reconhecida a realeza de Filipe V, a 18 de Junho de 1701, em troca da cedência de terras a norte do Amazonas, Portugal perdia o seu estatuto de neutralidade e ratificava uma aliança com a França, datada de Outubro de 1700, colocando-se discutivelmente e sem qualquer sentido geopolítico, em oposição aos tradicionais aliados marítimos. A dualidade de interesses políticos e culturais confundia facilmente os portugueses, que só dificilmente entendiam as alianças, a não ser que a Espanha estivesse explicitamente do lado oposto; segundo Veríssimo Serrão, a França, constituiu para os Portugueses do tempo, a grande escola da cultura e da civilidade, pelo que se defendia tudo o que viesse daquele país, mesmo que fosse contrário ao espírito nacional.
Mais tarde, e numa manobra diplomática magistral, com a participação activa de José Cunha Brochado em Paris, deu-se uma reviravolta estratégica, onde as primeiras derrotas dos franceses em Itália e no Reno e a ameaça da frota inglesa às costas de Espanha, terão também contribuído como elementos de pressão. Pedro II, depois de ter solicitado os socorros estipulados na aliança com a França, que lhe foram recusados por impossibilidade, considerou nulos os tratados, e passou, de novo, a uma situação de neutralidade, altura que aproveitou para se rearmar e ganhar poder negocial relativamente à Inglaterra. Apesar de pressionado pela Grande Aliança, Pedro II ponderava a nova aliança, lembrando-se dos sacrifícios impostos pela Restauração, da situação económica desfavorável e das consequências para Portugal de uma nova guerra aqui tão perto, como lhe lembrava o seu diplomata em Londres, Luís Cunha». In João Vieira Borges, Conquista de Madrid, 1706, Batalhas de Portugal, Tribuna da História, Lisboa, 2003, ISBN 972-8799-08-X.

Cortesia de Tribuna/JDACT

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Conquista de Madrid. 1706. Vieira Borges. «A política externa portuguesa era então cautelosa, procurando evitar os conflitos entre a França e a Inglaterra, com uma neutralidade que levaria à recusa do empenhamento em diversas campanhas na Europa»

jdact e sergioveludo

Actores e Interesses
«(…) A Espanha, apesar de ter deixado de ser a grande potência imperial que fora no século anterior, continuava a desempenhar um papel de relevo no xadrez internacional, especialmente der-ido às riquezas oriundas das Américas e ao facto de dispor da terceira armada do mundo, logo a seguir a ingleses e a franceses, o que a tornava numa mais valia aquando da escolha dos aliados. Encontrava-se, no entanto, numa situação económica preocupante, como consequência dos numerosos conflitos em que a monarquia se havia empenhado em função da sua política imperial. Para além da bancarrota na fazenda pública, graves conflitos sociais desencadearam motins anti senhoriais na Catalunha (1687-89), em Valência (1693) e em Madrid (1699). Carlos II não convocava Cortes, as instituições tradicionais não funcionavam, a justiça era ineficaz e, mais importante, não estava assegurada a sucessão ao trono, o que viria a dar origem à guerra. A Holanda, que havia conquistado a sua independência frente à Espanha em 1648, continuava a ser um aliado importante da potência marítima, quer pelo seu poder naval, desequilibrador no âmbito de alianças mais vastas, quer pelo seu posicionamento na Europa. Os seus interesses passavam pela continuidade do seu império, inclinando-se, como no caso de Portugal, para a aliança inglesa ao lado do pretendente da Áustria. Durante a guerra, que atingiu duramente os seus espaços, os efectivos holandeses atingiriam cerca de 140 mil homens, o que é demonstrativo do seu empenho. A Oriente, a Rússia de Pedro o Grande, e os polacos, absorviam o poderio sueco de Carlos XII, um aliado importante para a Franca; segundo o historiador Toynbee, a guerra russo-sueca terá constituído um anexo da guerra da Sucessão de Espanha. Com este cenário global, da luta entre as duas grandes potências, qualquer acendalha levaria a um confronto para decidir da hegemonia europeia. E o explosivo encontrava-se na sucessão de Cados II, rei de Espanha: se um Bourbon, se um Habsburgo, sendo as restantes alternativas de pouca credibilidade.

Portugal na Guerra da Sucessão de Espanha
Portugal, depois da Restauração da Independência em 1640 e do declínio das possessões asiáticas, passou a ser um actor de segundo plano, sem outras veleidades de interferir na política internacional senão a de reagir às pressões externas e preservar a sua posição geoestratégica e o acesso às riquezas transcontinentais com especial ênfase para o Brasil. No final do século XVII e início do século XVIII, a importância crescente do comércio internacional, do ultramar e do controlo das rotas, valorizava o peso da Península Ibérica e de Portugal, que se transformava deste modo numa área estratégica fundamental para a disputa da hegemonia europeia.
Apesar deste acréscimo de peso específico, no final do século XVII, a dispersão do império e a sua necessária reconstrução, constituíam vulnerabilidades indiscutíveis e pressupostos objectivos de todas as decisões, no sentido de limitar a presença portuguesa nas controvérsias da Europa Central. A política externa portuguesa era então cautelosa, procurando evitar os conflitos entre a França e a Inglaterra, com uma neutralidade que levaria à recusa do empenhamento em diversas campanhas na Europa». In João Vieira Borges, Conquista de Madrid, 1706, Batalhas de Portugal, Tribuna da História, Lisboa, 2003, ISBN 972-8799-08-X.

Cortesia de Tribuna/JDACT

sábado, 19 de julho de 2014

Conquista de Madrid. 1706. Vieira Borges. «… na sua interminável guerra contra os Turcos, a qual levaria Portugal, alguns anos mais tarde, à Batalha de Cabo Matapão, e aspirava ao trono de Espanha, no sentido de alargar o espaço dos Habsburgos»

jdact e sergioveludo

Actores e Interesses
«(…) A guerra, então assumida como um mal impossível de excluir, era cuidada na sua análise, para que a violência e a destruição fossem moderadas. Por outro lado, o impacto destas vozes de juristas era ainda maior nas casas reais, em função do menor protagonismo do papa, devido à Reforma protestante. Após Vestefália, surgiu a era dos reis absolutos. O rei Luís XIV ao assumir, em 1661, plenos poderes, como um autêntico vice-rei de Deus, voltou ao tempo dos déspotas italianos do século XV. Mas enquanto estes assentavam o poder nos seus mercenários, os reis absolutos eram sustentados por exércitos profissionais permanentes.
Na perspectiva de Rousseau, de que cada estado só pode ter como inimigos outros estados, e não pessoas, já que não pode haver qualquer relacionamento genuíno, entre coisas de natureza diferente e de que a violência se limita ao choque entre os exércitos, os actores desta época circunscreviam-se fundamentalmente aos estados. Estando a origem da guerra de Sucessão numa luta entre as coroas francesa e austríaca para assumirem o trono espanhol na sequência de Carlos II, estes dois países constituem os principais actores globais, aos quais se pode e deve juntar, a Inglaterra, no âmbito mais geral da luta entre as potências continental e marítima, que dominou as relações internacionais no século XVIII.
No entanto, outros interesses existiam por parte da Holanda, Portugal, Dinamarca, Suécia, Sabóia, Rússia, Polónia e de muitos principados alemães, grande parte dos quais em apoio da Inglaterra e em oposição à hegemonia francesa. Para alguns destes países, e em particular para Portugal e para a Holanda, os verdadeiros interesses estavam presentes nas suas possessões espalhadas pelo ultramar, que interessava salvaguardar Para outros, era o reajustamento de fronteiras e a possibilidade de serem ocupados total ou parcialmente pela França.
Entre todos os actores, o destaque vai naturalmente para a França, que apesar de inferior em forças e recursos aos seus inimigos, pretendia tornar-se no árbitro da Europa, alcançando o domínio do Reno, os Alpes, a tutela da Península Ibérica e a influência sobre os mares próximos. Para alcançar os seus objectivos, a França de Luís XIV precisava de ocupar as possessões da Espanha na Flandres, no Luxemburgo e no Franco-Condado, de fortalecer a sua posição na Alsácia e de submeter, ao seu domínio, os territórios do duque de Lorena. Teria ainda de, na Europa Central, impedir a ascensão de qualquer potência liderante na zona. Na Europa, o império dos Habsburgos incluía o Milanado, Nápoles, Sicília, Sardenha, Baleares e Países Baixos espanhóis, além da própria Espanha; as possessões não europeias incluíam Canárias, Filipinas, Cuba, México, Flórida, Califórnia, Panamá, e à América do Sul, com excepção do Brasil e das Guianas.
Deste modo, a estratégia francesa dos Bourbons passava por obter todos os apoios no continente, no sentido de privar a Inglaterra de pontos de apoio e de relações comerciais indispensáveis. O poder francês continuava a basear-se no forte exército, mas a acção diplomática da França, com a concessão de subsídios a soberanos, com pressões e ameaças de diversa ordem e com o fomento de rivalidades e confrontos entre estados adversários, no sentido de os dividir, reforçava consideravelmente a sua capacidade. Por outro lado, a Inglaterra não descurava os negócios continentais, construindo para os seus desígnios alianças contra a potência hegemónica continental, tendo por base a sua poderosa frota e a sua posição geopolítica. Sendo a marinha o vector prioritário da sua política externa, a sua estratégia de acção passava por utilizar correctamente os recursos financeiros, por um bom sistema de informações, pela liberdade de acção conferida pela sua insularidade, e prioritariamente, por uma acção premeditada de estratégia indirecta, assente entre outras acções na posse de pontos estratégicos de domínio dos mares.
A Áustria, uma grande potência continental, tinha com a França uma rivalidade tradicional. Apesar das suas constantes lutas, tinha revelado a qualidade dos seus recursos militares na sua interminável guerra contra os Turcos, a qual levaria Portugal, alguns anos mais tarde, à Batalha de Cabo Matapão, e aspirava ao trono de Espanha, no sentido de alargar o espaço dos Habsburgos. Com cerca de 100 mil homens em armas, o exército estava mal preparado e equipado para uma guerra que travou especialmente em Itália e na frente alemã». In João Vieira Borges, Conquista de Madrid, 1706, Batalhas de Portugal, Tribuna da História, Lisboa, 2003, ISBN 972-8799-08-X.

Cortesia de Tribuna/JDACT

Conquista de Madrid. 1706. Vieira Borges. «A mortandade que atingiu a Europa com a guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e que ceifou a vida a cerca de 8 milhões de vidas humanas, constituiu uma referência de crítica para juristas e filósofos»

Mapa da Península no século XVIII
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O Rosto da Batalha
«(…) E os pretendentes à coroa espanhola, não eram poucos: uns fundamentavam a sua pretensão em remoto parentesco, como o rei Pedro II de Portugal (descendente de D. Maria, filha dos reis católicos Fernando e Isabel, e mulher do monarca Manuel I), ou mesmo parentesco muito afastado, como o duque de Sabóia (trineto de Filipe II, por sua bisavó D. Catarina); outros tinham maior legitimidade na sua argumentação, como o rei Luís XIV (da parte do seu neto, resultado do seu casamento com a infanta D. Maria Teresa, irmã mais velha de Carlos II), o imperador Leopoldo I da Áustria (sua mãe, D. Maria Ana era irmã de Filipe IV, o pai de Carlos II) e o príncipe da Baviera, José Fernando (neto da infanta D. Margarida Teresa, irmã mais nova de Cados II), que viria a falecer ainda em 1699, frustrando assim os primeiros tratados entretanto acordados em 1698. Depois de inúmeros episódios ao longo dos últimos anos do século XVII, a coroa foi legada, por testamento de 3 de Outubro de 1700, a Filipe de Bourbon, duque de Anjou, neto e pretenso herdeiro de Luís XIV de França, com o apoio tácito do conselho de estado de Castela e da Igreja, este manifestado explicitamente pelo papa Inocêncio XII. Ao aceitar o testamento, Luís XIV sabia que era inevitável a guerra contra os austríacos; mas outros factos concorreram para essa inevitabilidade, entre eles a obrigação do rei de França relativamente aos espanhóis, para que estes lhe concedessem assiento (direito do tráfico de escravos negros com as Índias espanholas), a invasão dos países Baixos espanhóis e a ocupação das praças junto da fronteira com as Províncias-Unidas.
A perspectiva de que as coroas reunidas de França e Espanha viessem a perturbar o equilíbrio europeu com o apoio de dois principados alemães e, no início, de Portugal e do duque de Sabóia, que viriam a alterar a sua posição, levou o imperador da Áustria a aliar-se com Inglaterra, Holanda, Suécia, Dinamarca e quase todos os principados alemães, para imporem acandidatura do arquiduque Carlos de Áustria ao trono de Espanha. Assim, nasceu a7 de Setembro de 1701, em Haia, a Grande Aliança com alicerces lançados pelo duque de Madborough, e que visava impedir a hegemonia francesa e, no fundo, manter o equilíbrio europeu. Entre os objectivos desta Grande Aliança, são de destacar: a satisfação das reivindicações de Leopoldo I da Áustria, à coroa espanhola; a ocupação dos Países Baixos espanhóis para servirem de muralha entre a França e a Holanda, do ducado de Milão com todas as suas dependências e do reino das Duas Sicílias, Nápoles, Sicília e ilhas do mar Mediterrâneo; a posse das praças espanholas na América, eventualmente conquistadas por ingleses e holandeses; e sobretudo, a garantia de que França e Espanha nunca se reuniriam sob a mesma coroa, condição obrigatória para a assinatura da paz.
Filipe de Bourbon, um jovem pouco atraente de 17 anos, viria a ser reconhecido como Filipe V de Espanha, e casou com Maria Luísa de Sabóia então com 13 anos, pelas Cortes reunidas em Madrid e em Barcelona, em Janeiro de 1701, tendo entrado em Madrid, num dia chuvoso de Fevereiro do mesmo ano. Começou então a guerra no norte de Itália, a qual se prolongaria ao longo de cerca de catorze anos, nos teatros de operações mais diversos, como a Alemanha, Países Baixos, norte de França e a própria Península Ibérica entre 1704 e 1713. A guerra só viria a terminar com os tratados de Utreque, de Rastadt e de Baden (1713-1714), curiosamente com o mesmo Filipe V a reinar em Espanha, e com Carlos a ascender ao trono austríaco após a morte de José I.

Actores e Interesses
A mortandade que atingiu a Europa com a guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e que ceifou a vida a cerca de 8 milhões de vidas humanas, constituiu uma referência de crítica para juristas e filósofos. Hugo Grotius (1583-1645) foi um dos mais acérrimos críticos do genocídio generalizado, tendo na sua obra De Jure Belli ac Pacis recomendado moderação no combate, na execução de conquistas, no saque do país inimigo e no trato com a população civil. Alguns anos depois, Thomas Hobbes (1588-1679), afirmava, na sua obra Leviathan (1651), como referência da razão, que todo o homem deve procurar a paz, enquanto tiver esperança de obtê-la e quando isso não for possível, pode buscar e utilizar todos os recursos e vantagens da guerra. Este direito da natureza caracterizava o final do século XVII, tendo por base a busca da melhor paz e a utilização de todos os meios para a defesa». In João Vieira Borges, Conquista de Madrid, 1706, Batalhas de Portugal, Tribuna da História, Lisboa, 2003, ISBN 972-8799-08-X.

Cortesia de Tribuna/JDACT

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Conquista de Madrid. 1706. Vieira Borges. «Poucos portugueses saberão hoje que António Luís Sousa, comandando cerca de 20 mil homens, dos quais 4200 eram ingleses e holandeses, conquistou Madrid após uma campanha ao longo de três meses e ocupou a capital espanhola durante cerca de 40 dias…»

jdact e sergioveludo

O Rosto da Batalha
«Meio século decorrido após a paz de Vestefália, 1648, que tinha estabelecido um novo equilíbrio europeu, o xadrez político não se alterara profundamente aquando da entrada no século XVIII: continuava a marca profunda de Luís XIV e do seu projecto hegemónico para a França, com forças militares entre 200 e 300 mil homens; a oposição à França, no mar, por parte da Holanda e da Grã-Bretanha e, em terra, da Áustria; a importância do necessário equilíbrio europeu, que se baseava numa rede complexa de alianças militares para reduzir o poder das potências hegemónicas; a crescente importância dos mercados americano e asiático, com o incremento do tráfego internacional de mercadorias de grande produção e consumo, o que tornava a própria Península Ibérica, e em particular Portugal, numa área estratégica fundamental. A Guerra da Sucessão de Espanha, considerada a primeira guerra europeia da idade moderna, aparece na sequência de um confronto entre Bourbons e Habsburgos pela conquista do trono da Espanha e enquadra-se num outro conflito mais global, da luta entre a França e a Inglaterra, ambas aspirando à hegemonia da Europa, ao controlo dos territórios ultramarinos indispensáveis e ao consequente desenvolvimento económico e comercial, e às respectivas linhas de comunicação oceânicas.
Falar de territórios ultramarinos e de linhas de comunicação oceânicas é falar da inevitável participação de Portugal na guerra, numa altura em que o país, cerca de sessenta anos depois da restauração da independência, ainda se debatia com problemas de afirmação, aquém e além-mar. A participação de Portugal nesta guerra longa de cerca de 14 anos (1701 - 1714),ao lado de ingleses e holandeses e contra franceses, austríacos e espanhóis, transformou o espaço nacional numa testa de ponte dos aliados e numa fronteira do próprio conflito. É nesta conjuntura que avulta a campanha conduzida pelo marquês das Minas para ferir a Espanha no próprio coração - Madrid.
Conquistar Madrid em 1706, constituiu, para uma parte significativa da sociedade portuguesa de Setecentos, uma maneira de mostrar ao mundo que Portugal, depois de sessenta anos de jugo espanhol, voltava a ser um estado soberano com um papel importante no concerto das nações. Poucos portugueses saberão hoje que António Luís Sousa, comandando cerca de 20 mil homens, dos quais 4200 eram ingleses e holandeses, conquistou Madrid após uma campanha ao longo de três meses e ocupou a capital espanhola durante cerca de 40 dias fazendo aclamar o arquiduque Carlos de Áustria como rei de Espanha, afinal o objectivo político da participação portuguesa. A Guerra da Sucessão de Espanha, à semelhança de outras intervenções militares portuguesas é pouco conhecida, pela forma abreviada e pouco precisa como é abordada pelas Estórias de Portugal, sendo as divergências relacionadas com posições ideológicas e com as simpatias afrancesadas ou britânicas e especialmente, pela forma premeditadamente esquecida como os aliados as tratam.
É sobre esta guerra complicada e, sobretudo, sobre esta campanha desconhecida, vitoriosa e motivo de orgulho das cores nacionais, com a consciência das diferenças relativamente ao actual xadrez das relações internacionais no início do século XXI, onde, cerca de trezentos anos passados, Portugal e Espanha, continuam vizinhos mas agora fortes aliados no concerto das nações democráticas de uma renovada Europa.

Razões da Guerra da Sucessão de Espanha
A Guerra da Sucessão de Espanha teve a sua génese na disputa pela sucessão de Carlos II de Espanha, que faleceu a 1 de Novembro de 1700 e não deixou descendência, apesar dos seus dois casamentos, o primeiro com Maria Luísa de Orleans e o segundo com Ana de Baviera-Neuburg. A morte do último rei Habsburgo espanhol, esperada desde 1665, tornou os preliminares e a própria guerra num autêntico palco da luta entre as potências continental e marítima, no sentido de se atingir um novo equilíbrio político-militar para a Europa, em face da lista de pretendentes». In João Vieira Borges, Conquista de Madrid, 1706, Batalhas de Portugal, Tribuna da História, Lisboa, 2003, ISBN 972-8799-08-X.

Cortesia de Tribuna/JDACT

domingo, 1 de junho de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «… nas negociações de Utrecht, os portugueses tenham feito valer seus interesses territoriais frente aos franceses, a verdade é que a guerra acabou sendo vencida graças mais ao domínio que os representantes portugueses tinham no campo da diplomacia…»

Cortesia de wikipedia

Guerra e diplomacia
«(…) A correspondência dos plenipotenciários franceses ao seu rei dá conta de que estes avaliaram que o estratagema dos ingleses de terem se preparado previamente reunindo documentos e principalmente mapas havia sido muito bem sucedido. Conforme confessariam mais tarde, consideraram que o mapa, apesar de produzido pelos adversários, os conduzira com segurança durante a negociação. Por isso decidiram organizar a mesma estratégia para enfrentar os portugueses. Entre Dezembro de 1712 e Fevereiro de 1713, quando os representantes dessas duas Coroas finalmente se sentaram pela primeira vez à mesa de negociação, os franceses dispunham de mapas e documentos para sustentar suas posições, o que permitiu que insistissem no primado da cartografia para configurar o território situado entre o Amazonas e o Oiapoque. Como relataram a Luís XIV, nós sobrepomos as cartas, nós medimos o terreno. Foi então a vez dos portugueses se espantarem com esse estratagema, copiado dos ingleses. Luís Cunha confessou a seus interlocutores no reino que, quanto às instruções dos franceses, eles ficaram admirados [com] a miudeza delas e os documentos e mapas com que vinham autorizadas. Entre estes havia uma carta que mostrava claramente que o rio Pinzón se encontrava posicionado nas possessões francesas.
Se, desde o primeiro momento, Luis se impressionou com a meticulosidade das instruções que os embaixadores franceses haviam recebido, também não deixou de se queixar de como eram bem diferentes as que ele e o conde de Tarouca possuíam enquanto representantes de Portugal. Não sem razão, reclamou com o cardeal Cunha que nós nos achamos sem uma boa carta daquele estado. As ordens que vieram do reino, trazidas pelo conde, eram genéricas e ambíguas e, quando se sentaram para negociar, Luís se lamentou que o último chegara sem uma boa carta do estado [do Maranhão], nem tampouco da parte do rio da Prata, com a explicação das terras que s.m. ali pretende pelo tratado de aliança, como também as cópias do que se passou sobre a Colônia do Sacramento. Desolado, admitiu que que não tínhamos algum documento ou mapa por onde possamos mostrar que a nossa posse daquela banda vai sempre seguindo o curso do rio Amazonas e completou: Sempre imaginei que o conde de Tarouca vinha provido de todos estes documentos, pois as promessas dos tratados têm mais força quando são assistidas da mesma justiça. Por justiça, Luís se referia a qualquer documento, mapas, tratados, relações, que justificassem a posse histórica de um território e a injusta ocupação do mesmo pela potência inimiga, como os que apresentaram os franceses em que o rio Pinzón se encontrava sob sua soberania. Em Utrecht, mapas começaram a ser utilizados, de forma cada vez mais sistemática, para justificar e definir as fronteiras negociadas entre nações rivais. Luís ainda inquiriu José Cunha Brochado, que já cuidara de negociações com a França em 1710, se ele tinha em seu poder algum documento ou mapa que lhes pudesse guiar, mas se viu frustrado nessa tentativa, pois o antigo embaixador também não havia sido municiado com tais documentos.
Ainda que, ao final, nas negociações de Utrecht, os portugueses tenham feito valer seus interesses territoriais frente aos franceses, a verdade é que a guerra acabou sendo vencida graças mais ao domínio que os representantes portugueses tinham no campo da diplomacia e dos antigos tratados, do que no da geografia ou da cartografia. Essa primeira batalha com os representantes da França foi lição que Luís Cunha levou por toda a vida. A partir de então, passou a advogar incessantemente o uso de mapas como indispensáveis para guiar as negociações diplomáticas que se seguiam às guerras e aos conflitos, insistindo na importância dos mesmos como instrumentos diplomáticos e reiterando sempre a necessidade de Portugal produzir uma cartografia precisa da América para municiar e justificar seus pleitos. Em suas diversas embaixadas que se seguiram a Utrecht, até sua morte em 1749, o embaixador pediu insistentemente que lhe fossem enviados mapas mais precisos que permitissem orientar as negociações em curso. Sua queixa da falta de mapas confiáveis que pudessem enganar a diplomacia fez com que não só defendesse a intensificação da produção cartográfica portuguesa, notadamente das regiões vitais ou fronteiriças na América, Centro-oeste, Minas Gerais, rio da Prata e bacia Amazónica, mas também se tornou um coleccionador de mapas e informações que pudessem ajudar na construção de uma cartografia portuguesa cada vez mais precisa. Nas suas missivas às autoridades no reino insistia na necessidade de se construir uma base cartográfica sólida acerca dos territórios ocupados pelos portugueses na América e foi, em grande parte sob sua influência, que desde o segundo quartel do século XVIII, Portugal deu início a uma verdadeira febre cartográfica do Brasil, especialmente do interior do sueste, das Minas Gerais, e das regiões da foz do rio da Prata e da bacia amazónica, para municiar seus representantes diplomáticos com informações precisas sobre as regiões em disputa». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «O exame dos mapas produzidos por D’Anville e alguns pertencentes à sua colecção revelam que a questão era complexa e podia suscitar diversas interpretações. Num primeiro manuscrito intitulado ‘Carte huilée des embouchures de la rivière des Amazones et côtes voisines’…»

Carta de D’Anville de 1748
Cortesia de wikipedia

Guerra e diplomacia
«(…) Mapas eram importantes não só no teatro da guerra, mas no contexto das negociações diplomáticas que se seguiam a elas. Nesse aspecto, o Congresso de Utrecht (1712-1715) ocupou um ponto de inflexão decisivo no uso da cartografia como instrumento de persuasão política. Em Utrecht, esse novo uso da cartografia em conjunto com documentos e relatos foi experimentado primeiramente pelos ingleses, quando estes, em Dezembro de 1712, foram negociar com os franceses as terras em disputa na América do Norte. As ordens que os embaixadores franceses dispunham sobre quais territórios poderiam ser cedidos eram vagas e imprecisas, pois a instrução não fala nada dos limites que devem dividir por terra a Nova França de um lado, e as possessões inglesas de outro. Isso os colocou em desvantagem frente aos ingleses que, por sua vez, chegaram muito bem preparados, munidos de vários documentos, inclusive mapas. Para negociar, as duas delegações se basearam então numa carta que representava a Nova França, na América setentrional, comunicada pelos ingleses, e na qual eles mesmos tinham traçado, com uma linha rosa, as bordas dos dois estados que eles pretendiam estabelecer desde as margens das terras de Labrador, a leste, até a costa do continente em direção oeste. Os franceses informaram ao rei que, se fosse da sua vontade, a rainha da Inglaterra disponibilizaria o mesmo mapa aos franceses para estes ali traçarem uma outra linha de cor diferente, que marque distintamente o terreno que nós devemos conservar. Note-se aí, novamente, desta feita inserida no contexto do jogo diplomático, a utilização de raias coloridas para apontar os limites pretendidos por ambas as Coroas. Pouco depois de terminadas as negociações entre ingleses e franceses, no início de 1713, chegou a vez dos últimos iniciarem as suas negociações com os portugueses. A posição de Portugal sobre as terras em disputa entre as duas coroas no norte do Brasil era de que a ele pertencia por direito todas as terras do Cabo do Norte, situadas entre o Amazonas e o rio de Vicente Pinzón, ou Oiapoque, e que a possessão dessas terras dava-lhe o direito exclusivo à navegação do rio Amazonas. Aos franceses caberia apenas o território ao norte do Oiapoque, ficando-lhes vedada a navegação do Amazonas. Os franceses, por seu turno, arguiam a dificuldade de identificar exactamente a localização exacta desses acidentes geográficos.
O exame dos mapas produzidos por D’Anville e alguns pertencentes à sua colecção revelam que a questão era complexa e podia suscitar diversas interpretações. Num primeiro manuscrito, de sua autoria, intitulado Carte huilée des embouchures de la rivière des Amazones et côtes voisines, sem datação segura, mas que tudo indica tratar-se de cópia de um mapa português, pode-se ver claramente que o cartógrafo não utiliza como referencial para a demarcação dos limites o Cabo do Norte, mais ao sul, mas, a baía de Vicente Pinzón, mais ao norte; ambos são pontos geográficos distintos no mapa, o que aumenta a possessão portuguesa na área, cuja posse se justifica pela existência de um forte que tomamos dos holandeses, conforme aparece gravado no mapa. Uma comparação dessa mesma carta com a Carte particuliere du cours de la rivière des Amazones ou de Maragnon, de 1729, desenhada por D’Anville a partir de esboço do padre jesuíta Ignácio Reys, revela as dificuldades em relação à geografia local. Nela, o Cabo do Norte, a ilha de Carpori e a baía de Vicente Pinson (sic) são posicionadas no mesmo local. Observa-se que o cartógrafo representa os fortes portugueses da região, ainda que alguns, por essa época, ainda permanecessem em ruínas, como era o caso do Forte do Desterro ou do Exílio, demolidos pelos franceses no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola. Fica claro assim que ambos os mapas apresentam os acidentes geográficos que norteariam a linha divisória de formas distintas: na primeira, há uma separação entre, de um lado, a ilha e o cabo, posicionados mais ao sul e, de outro, a baía situada mais ao norte; na segunda, todos são coincidentes. Robert Dudley na sua Carte de l’embouchure de l’Amazone, separa a baía do cabo, mas não representa essa ilha. Qualquer dessas soluções teriam implicações evidentes no território pretendido pelos portugueses. Ilustrativa é uma das versões impressas da Carte de l’Amérique meridionále, de D’Anville, de 1748, onde, sobre ela, gravou, em vermelho, três possíveis localizações da baía de Vicente Pinzón, sendo que a adoção de qualquer uma delas teria impacto na demarcação da fronteira entre as duas coroas. A primeira identifica a baía com o cabo de Orange, onde se localiza a foz do rio Oiapoc; a segunda, com a ilha de Muracá mais ao sul; e a terceira, com o Cabo do Norte um pouco mais ao sul da anterior. A última opção, a menos desastrosa para os franceses, acabou sendo a utilizada na versão impressa do mapa, sendo que, na versão manuscrita da carta, D’Anville ensaiou os dois últimos posicionamentos da linha de limites». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

domingo, 2 de março de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «… que bem poderia ser, mas que só lhe oferecia uma pequena dificuldade, que era a de poder aquela armada passar ao dito mar que estava rodeado de grandes espaços de terra…»

Cortesia de wikipedia

Guerra e cartografia
«(…) Em 1744, Luís Cunha despachou vários mapas de fortalezas militares que eram palcos de batalhas, no norte da Itália, novo teatro da Guerra da Sucessão Austríaca, como o da cidadela de Tortona, onde os espanhóis haviam aberto uma trincheira ao seu redor. O mapa que remeteu, juntamente com a memória explicativa do que se passava, serviria para ilustrar as movimentações militares que ocorriam na região, permitindo que, em Portugal, se pudesse ter uma ideia exacta do cerco. Segundo ele, que a dita fortaleza se pudesse defender quarenta dias, do que eu duvido. Se ela for atacada como agora se costuma, visto que o conde Gages tem toda a artilharia que era necessária para esta operação e entretanto o marechal Maillbois cobre o dito sitio, estando acampado a São Juliano. As suas observações esclareciam o que podia ser avistado no mapa em questão. Já sobre a vitória que os aliados alcançaram na Sardenha, no cerco da fortaleza de Conty, afirmou que não poderei informar melhor a v.e. desse sucesso que mandando-lhe o mapa da mesma praça, que o jovem conde de Assumar, então residente em casa, tirou do rascunho que o comendador Solar me remeteu e com a relação que o príncipe de Conty mandou à corte. Seguiram ainda mais três pequenos mapas. Um representava o mapa da praça de Fribourg com os ataques, e outros dois eram de fortalezas situadas em Flandres, a de Menin e a de Ipres, onde a guerra também chegara. A associação entre cartografia e guerra é constante na correspondência de outros savants portugueses da época. Em 1727, foi a vez do marquês de Abrantes escrever a Francisco Mendes Góis, que se encontrava em Paris servindo na embaixada portuguesa com Luís Cunha, especialmente encarregado das compras régias, para que adquirisse alguns mapas para a sua colecção. Entre outros tantos, encomendava um que agora vi na gazeta, que na Holanda se estamparam plantas de Gibraltar, em Espanha, e de Cartagena em Índias, como teatros da guerra presente; [e] se chegaram a esta corte também folgarei de as ter para compreensão das gazetas. As instruções do marquês ressaltam essa capacidade dos mapas de dar a ver o que acontecia no teatro do mundo, especialmente no que dizia respeito à guerra. O mapa permitiria ainda que ele visualizasse o que a gazeta veiculava a respeito das disputas, da movimentação das tropas. Um meio de informação complementando o outro.
O marquês ainda recomendou em outro de seus pedidos que o que eu queria era uma carta dos Países Baixos, iluminada ou lavada à moda de Holanda, de sorte que as cores denotem o país que possui França, o imperador na Holanda e nas vizinhas Prússia, Liege, Colónia; uma carta de Europa, com distinção do que possui a casa de Áustria, os reis de Prússia e de Inglaterra. A utilização de cores nos mapas para diferenciar as possessões de uma ou outra Coroa, como a sugerida pelo marquês de Abrantes, era expediente comum e evidenciava as intenções territoriais das diversas cortes europeias num século marcado pelas intenções expansionistas de cada uma delas, empreendidas por meio de guerras, fossem na Europa, fossem nos demais continentes, como era o caso da América. As cores eram tão comumente partes integrantes do mapa que não podem ser desmerecidas como um ingrediente puramente decorativo; nesse caso permitiam visualizar as pretensões territoriais de cada nação no continente europeu, ainda que tais territórios fossem descontínuos entre si. Numa outra missiva, o marquês, desta feita, pede meia dúzia de folhas de papel que representem a Europa sem raias de cores, ou com elas postas. Nesse caso, diferentemente dos mapas anteriores, onde a diversidade de cores era desejada para evidenciar as diferentes possessões que cada Coroa possuía nos cantões da Europa, preferia que os mapas viessem sem as raias divisórias. Dessa maneira ele afirma: teria à disposição mapas onde poderia brincar com as fronteiras, posicionando-as a seu bel prazer, configurando diferentes conformações nacionais, pois o que queria era fazer daqueles nossos projectos sobre a carta, (...) como nós costumávamos discorrer, jogando xadrez. Assim apontava para outro uso dado aos mapas no teatro das guerras europeias. Nesse caso, como num tabuleiro de xadrez, é o leitor/jogador, e não o produtor do mapa, que dispõe e muda as linhas que marcam as fronteiras nacionais. Num contexto de intensa rivalidade entre as nações, como foi o século XVIII, quando as guerras e, depois, os tratados de paz provocavam uma intensa mobilidade de territórios, um mapa sem as fronteiras demarcadas de antemão permitia que seu usuário simulasse os possíveis resultados das guerras e das negociações em curso. Assim, quando esses mapas sem as raias demarcatórias chegam a Lisboa, o marquês agradece ao amigo o facto de terem vindo junto com uma carta cheia de notícias políticas que estimo e lhe agradeço, por se me representar com elas que estamos sobre a carta geográfica fazendo projectos.
Luís Cunha, que prezava a geografia e possuía amplo domínio sobre o assunto é bastante crítico em relação àqueles que não o tinham. Quando, em 1726, uma expedição moscovita se deslocava em direcção ao mar Báltico, comenta que o duque Miguel José Bournonville, embaixador da corte de Madrid em Viena, dissera que o mais certo é que se destinasse ao mar Cáspio, a fim de sustentar as conquistas feitas na Pérsia, ao que ele respondera de forma jocosa que bem poderia ser, mas que só se lhe oferecia uma pequena dificuldade, que era a de poder aquela armada passar ao dito mar que estava rodeado de grandes espaços de terra, reparo de que o duque ficara justamente envergonhado. Sarcástico e sagaz, Luís Cunha comenta que à vista disto eu o tenho por muito mau geógrafo, mas não é ignorante dos seus próprios interesses». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A Guerra da Sucessão Espanhola. O Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville. Júnia Ferreira Furtado. «O engenheiro Manoel Azevedo Fortes foi escolhido o primeiro regente da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa e, sob protecção régia, publicou manuais técnicos que pretendiam orientar a formação dos engenheiros…»

Cortesia de wikipédia

Guerra e cartografia
«(…) Luís Serrão Pimentel (1613-1679) foi o grande representante de uma linhagem de grandes cosmógrafos portugueses ao serviço do Estado, tendo reunido os empregos de cosmógrafo-mor do reino, engenheiro-mor do reino e tenente general da artilharia. Observa-se nas suas qualificações como engenheiro e tenente de artilharia que, inicialmente, a actividade de cosmógrafo abarcava também produzir conhecimentos úteis às actividades militares, tais como planear fortificações, armamentos e produzir mapas para auxiliar o deslocamento de tropas pelo território. Luís Pimentel ocupava o cargo quando se deu a Restauração portuguesa, em 1640. A necessidade de organizar a defesa do reino para resistir às tentativas de recolonização espanhola tornou-se premente. Para melhor preparar um corpo de técnicos especializados, logo nas cortes reunidas em 1641, [Pimentel] propõe a criação de uma aula de fortificação e arquitectura militar na Ribeira das Naus em Lisboa.
Como no restante da Europa, a progressiva especialização do conhecimento cosmográfico, separado do geográfico, também levou em Portugal à divisão do cargo. Foi assim que Luís Pimentel, proprietário de um carácter hereditário, no terceiro quartel do século XVII, o dividiu entre seus dois filhos: Manoel e Francisco. O primeiro ficou como cosmógrafo e lente da aula de Navegação, o segundo como engenheiro e lente da aula de Matemática. A partir deste momento cosmografia e engenharia tornaram-se actividades relativamente distintas em Portugal, mas fortemente conectadas (inclusive pelos laços familiares dos detentores dos cargos de cosmógrafo-mor e engenheiro-mor). Ao primeiro coube principalmente os conhecimentos relativos à navegação marítima e ao segundo, os da arte militar e do território, ambos cada vez mais sob o primado da matemática e da geometria. Monarca ilustrado, João V (1706-1750) promoveu uma série de reformas no seu reinado. Uma delas abrangeu a reorientação na formação de engenheiros militares, com a criação da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa. Os engenheiros militares eram os principais encarregados de produzir uma cartografia de Estado e a Aula Régia formava os engenheiros segundo os mais modernos métodos nas áreas de construção de fortificações, de artilharia militar e da cartografia, constituindo um conhecimento cada vez mais dominado pela geometrização e a matematização do mundo. Consoante com as novas observações e medidas tomadas directamente no território, utilizava instrumentos cada vez mais modernos e aperfeiçoados. Acompanhando essa mesma tendência de especialização do conhecimento e universalização de seus métodos, aulas régias de geografia, voltadas principalmente para as actividades militares, foram criadas em várias cortes europeias nessa mesma época.
O engenheiro Manoel Azevedo Fortes foi escolhido o primeiro regente da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa e, sob protecção régia, publicou manuais técnicos que pretendiam orientar a formação dos engenheiros na maneira adequada de produção das cartas, com vistas à uniformização das técnicas e uma linguagem mais universal. Seus dois livros intitulam-se Tratado do modo o mais fácil de fazer as cartas geográficas assim de terra como de mar, e tirar as plantas das praças (1722) e O Engenheiro português (1729). Estes manuais pretendiam normalizar as formas de representação do espaço, sugerindo, entre outros tantos temas, a adopção de símbolos geográficos mais esquemáticos, as maneiras apropriadas e os instrumentos adequados para a tomada das medidas dos terrenos, as formas como deveriam ser coloridos os mapas e a maneira ideal de representar os acidentes geográficos. No contexto da criação da Academia Real da História Portuguesa, Azevedo Fortes foi nomeado pelo rei para se ocupar das questões de Geografia, reflexo da importância desse conhecimento para a escritura da História. Afinal, esta se desenrolava no interior de um espaço imperial que precisava ser mais bem conhecido, tanto o reino, quanto as conquistas ultramarinas, sendo a confecção dos mapas um importante instrumento para sua realização.
Apontando para essa associação entre guerra e mapas, tendo como palco a Guerra da Sucessão Espanhola, D’Anville desenhou um mapa das operações militares portuguesas que ocorreram entre Almeida, em Portugal, e Ciudad Rodrigo, na Espanha. A carta intitulada Carte des opérations militaires dans la région située entre Alcantara et Almeida, autour de Ciudad Rodrigo, ilustra o recuo progressivo do acampamento espanhol, o avanço das tropas portuguesas comandada pelo 4º. marquês das Minas, António Luís Sousa, em direcção ao território de Espanha, e o sítio montado ao redor de Ciudad Rodrigo, a partir de 2 de Maio de 1706. Este foi um episódio marcante na Guerra, pois nos dois anos anteriores, desde a entrada de Portugal no conflito, as operações militares haviam sido caracterizadas pelo avanço dos espanhóis sobre o seu território, o que devastou as províncias das Beiras e do Alentejo». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, a Guerra da Sucessão Espanhola, o Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «Geografia é palavra grega que significa descrever, desenhar ou pintar a terra. Ambíguo, o verbo significava simultaneamente descrever, desenhar e pintar. Portanto, mapas eram e são uma forma de pintura do mundo»

Cortesia de wikipedia

Guerra e cartografia
«(…) As forças militares chefiadas pelo marquês, que mobilizaram um efectivo de 30.000 soldados entre portugueses, holandeses e ingleses, depois de reassegurar as praças portuguesas nas Beiras, avançaram sobre o forte de Sarça, e ocuparam a imponente fortaleza de Alcântara, em abril de 1706. A entrada em Ciudad Rodrigo, que ocorreu a 26 de Maio, foi determinante na mudança da direcção da guerra: A campanha de 1706 foi triunfal para os portugueses que, sob o comando do marquês das Minas, avançaram pelo território espanhol, entrando pela actual província de Cáceres em Abril, sucessivamente conquistando Alcântara, Plasencia, Almaraz, recuando depois até Coria, seguindo daí até Ciudad Rodrigo. A tomada dessa praça foi o ponto de partida para a conquista de Madrid, o que ocorreu em 28 de Junho. Na capital, o arquiduque Carlos foi simbolicamente proclamado rei pelos invasores. Orientado no sentido leste-oeste, o mapa de D’Anville retrata, como era usual na cartografia militar, o teatro da guerra em torno de Almeida, na fronteira, onde se desenrolaram importantes operações. Dispõe as fortificações espalhadas pelo território (Alcântara, Zarca, Salvaterra, Segura, Coria, Monsanto, Almeida), bem como o relevo e os principais acidentes geográficos (destacam-se os rios Erxas, Alagon, Águeda, Azaba, e a Serra da Gata), além das estradas e núcleos urbanos e, finalmente, as colunas, os destacamentos e os acampamentos de ambas as tropas que se deslocam pelo território. É visível o recuo das tropas espanholas que, em Setembro de 1705, se encontravam às portas de Almeida e que no 1º. de Outubro, haviam recuado até Espeja, já em território espanhol. Também é possível observar os contingentes portugueses que se aproximam de Ciudad Rodrigo e organizam o cerco em torno da imponente fortaleza que protegia a cidade, junto ao rio Águeda. Trata-se, provavelmente, de uma ainda desconhecida colaboração entre D’Anville e Luís Cunha que tem o objectivo claro não só de mapear os combates, mas de enaltecer as habilidades militares do marquês das Minas e o poderio bélico de Portugal na guerra, o que se torna evidente pelo momento escolhido para ser retratado: exactamente quando suas tropas adentram o território espanhol.
Não se pode deixar de atentar que o mapa não apresenta traçada a linha de limite entre as duas nações, fazendo parecer, como era o desejo expansionista da Coroa Portuguesa, que todo esse território fronteiriço se encontrava sob seu domínio, a partir do avanço de suas tropas, o que poderia justificar uma futura negociação de fronteiras. E, de facto, essa pretensão ancorava-se no tratado assinado com a Inglaterra que prometera a futura anexação a Portugal de territórios espanhóis após a guerra. Como não se sabe a data de produção desse mapa, o mais provável é que ele tenha sido elaborado já na vigência do Tratado de Utrecht que pôs fim ao conflito. O documento estabelecia que territórios na Europa poderiam ser trocados pela Colónia do Sacramento e, nesse caso, era interessante para Portugal também demonstrar o seu domínio sobre esta porção fronteiriça do território espanhol, em caso de ser necessário apontar um equivalente de troca. O mais provável é que o mapa tenha sido produzido por volta do ano de 1724, quando D’Anville passou a colaborar com Luís Cunha. Em 1723, estando em Paris, o embaixador recebeu ordens de Portugal para, sob a orientação do marquês de Abrantes, reunir tudo que dissesse respeito à organização das tropas francesas e seus uniformes e ninguém melhor que Hermand, engenheiro chefe do rei da França, para lhe assessorar nessa empreitada. Conseguiu em Outubro que o duque de Orléans, então regente, autorizasse que o mesmo se pusesse a serviço de João V, passando os seus desenhos das tropas, uniformes e armamentos franceses para que fossem copiados. Por ordem do regente, Hermand interrompeu o trabalho que fazia de compilação de documentos sobre assuntos militares para serem usados na educação do delfim (depois Luís XV), para então se dedicar às encomendas do rei de Portugal. Na obra que fazia para o futuro rei contava com a ajuda de D’Anville, pois para deixá-lo a par das manobras militares, os mapas eram ferramentas indispensáveis para dar a ver as batalhas, os movimentos das tropas, a situação das fortificações. Guerra, geografia e cartografia eram temas constantemente interligados; é provável, portanto, que, D’Anville se dedicasse, nesse contexto, a desenhar, a pedido do embaixador, as manobras portuguesas em torno de Almeida e Ciudad Rodrigo.
Na correspondência de Luís Cunha existem outros exemplos de como os mapas podiam ser veículos capazes de materializar, aos olhares distantes, o teatro das guerras e a esse uso da cartografia o embaixador não deixou de estar atento. Em suas diversas embaixadas, para que em Portugal se pudesse ter notícias mais claras dos campos onde se travavam as principais batalhas pela Europa, ficava atento a mapas que pudessem auxiliar nesse fim. Geografia é palavra grega que significa descrever, desenhar ou pintar a terra. Ambíguo, o verbo significava simultaneamente descrever, desenhar e pintar. Portanto, mapas eram e são uma forma de pintura do mundo. No ano de 1740, quando Frederico II da Prússia invadiu a Silésia, no contexto da Guerra da Sucessão Austríaca (1740-1748), Luís Cunha enviou ao reino um novo mapa da guerra de Silésia. Dessa forma as autoridades portuguesas podiam acompanhar o que se passava com as tropas prussianas e austríacas na região. Porém, sabendo do poder que os mapas tinham para desvirtuar a realidade, advertiu que as plantas das praças que o geógrafo lhe ajuntou não são tão fortes nem tão regulares como ele de sua cabeça as quis fazer». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «Foi assim que Serrão Pimentel, dividiu entre seus dois filhos: Manoel e Francisco. O ‘primeiro’ ficou como cosmógrafo e lente da aula de Navegação, o ‘segundo’ como engenheiro e lente da aula de Matemática»

Carte des opérations militaires dans la région située entre Alcantara et Almeida, autour de Ciudad Rodrigo
Cortesia de wikipedia

Guerra e cartografia
«(…) Luís Serrão Pimentel (1613-1679) foi o grande representante de uma linhagem de grandes cosmógrafos portugueses a serviço do Estado, tendo reunido os empregos de cosmógrafo-mor do reino, engenheiro-mor do reino e tenente general da artilharia. Observa-se nas suas qualificações como engenheiro e tenente de artilharia que, inicialmente, a actividade de cosmógrafo abarcava também produzir conhecimentos úteis às actividades militares, tais como planejar fortificações, armamentos e produzir mapas para auxiliar o deslocamento de tropas pelo território. Luís Serrão Pimentel ocupava o cargo quando se deu a Restauração portuguesa, em 1640. A necessidade de organizar a defesa do reino para resistir às tentativas de recolonização espanhola se tornou premente. Para melhor preparar um corpo de técnicos especializados, logo nas cortes reunidas em 1641, [Pimentel] propõe a criação de uma aula de fortificação e arquitectura militar na Ribeira das Naus em Lisboa. Como no restante da Europa, a progressiva especialização do conhecimento cosmográfico, separado do geográfico, também levou em Portugal à divisão do cargo. Foi assim que Serrão Pimentel, proprietário em carácter hereditário, no terceiro quartel do século XVII, o dividiu entre seus dois filhos: Manoel e Francisco. O primeiro ficou como cosmógrafo e lente da aula de Navegação, o segundo como engenheiro e lente da aula de Matemática. A partir deste momento cosmografia e engenharia tornaram-se actividades relativamente distintas em Portugal, mas fortemente conectadas (inclusive pelos laços familiares dos detentores dos cargos de cosmógrafo-mor e engenheiro-mor). Ao primeiro coube principalmente os conhecimentos relativos à navegação marítima e ao segundo, os da arte militar e do território, ambos cada vez mais sob o primado da matemática e da geometria.
Monarca ilustrado, João V (1706-1750) promoveu uma série de reformas em seu reinado. Uma delas abrangeu a reorientação na formação de engenheiros militares, com a criação da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa. Os engenheiros militares eram os principais encarregados de produzir uma cartografia de Estado e a Aula Régia formava os engenheiros segundo os mais novos métodos nas áreas de construção de fortificações, de artilharia militar e da cartografia, constituindo um conhecimento cada vez mais dominado pela geometrização e a matematização do mundo. Consoante com as novas observações e medidas tomadas directamente no território, utilizava instrumentos cada vez mais modernos e aperfeiçoados. Acompanhando essa mesma tendência de especialização do conhecimento e universalização de seus métodos, aulas régias de geografia, voltadas principalmente para as actividades militares, foram criadas em várias cortes europeias nessa mesma época. O engenheiro Manoel Azevedo Fortes foi escolhido o primeiro regente da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa e, sob protecção régia, publicou manuais técnicos que pretendiam orientar a formação dos engenheiros na maneira adequada de produção das cartas, com vistas à uniformização das técnicas e uma linguagem mais universal. Seus dois livros intitulam-se Tratado do modo o mais fácil de fazer as cartas geográficas assim de terra como de mar, e tirar as plantas das praças (1722) e O Engenheiro português (1729). Estes manuais pretendiam normalizar as formas de representação do espaço, sugerindo, entre outros tantos temas, a adopção de símbolos geográficos mais esquemáticos, as maneiras apropriadas e os instrumentos adequados para a tomada das medidas dos terrenos, as formas como deveriam ser coloridos os mapas e a maneira ideal de representar os acidentes geográficos. No contexto da criação da Academia Real da História Portuguesa, Azevedo Fortes foi nomeado pelo rei para se ocupar das questões de Geografia, reflexo da importância desse conhecimento para a escritura da História. Afinal, esta se desenrolava no interior de um espaço imperial que precisava ser mais bem conhecido, tanto o reino, quanto as conquistas ultramarinas, sendo a confecção dos mapas um importante instrumento para sua realização.
Apontando para essa associação entre guerra e mapas, tendo como palco a Guerra da Sucessão Espanhola, D’Anville desenhou um mapa das operações militares portuguesas que ocorreram entre Almeida, em Portugal, e Ciudad Rodrigo, na Espanha. A carta, intitulada Carte des opérations militaires dans la région située entre Alcantara et Almeida, autour de Ciudad Rodrigo, ilustra o recuo progressivo do acampamento espanhol, o avanço das tropas portuguesas comandada pelo 4º marquês das Minas, António Luís Sousa, em direcção ao território de Espanha, e o sítio montado ao redor de Ciudad Rodrigo, a partir de 2 de Maio de 1706. Este foi um episódio marcante na Guerra, pois nos dois anos anteriores, desde a entrada de Portugal no conflito, as operações militares haviam sido caracterizadas pelo avanço dos espanhóis sobre seu território, o que devastou as províncias das Beiras e do Alentejo». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A Guerra da Sucessão Espanhola. O Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville. Júnia Ferreira Furtado. «… observa-se como os mapas podem ser uma arma importante de persuasão política, tanto no contexto das negociações diplomáticas, quanto das guerras que as precedem»

Cortesia de wikipédia

As fronteiras da América meridional
«(…) O processo de produção da Carte de l’Amérique Méridionale se insere nesse amplo contexto de renegociação das fronteiras entre Portugal e Espanha, que estavam definidas, desde 1494, pelo Tratado de Tordesilhas. Porém, ao longo dos dois séculos seguintes, a ocupação desses territórios não se deu de forma tão homogénea como previra o Tratado. Assim, no século XVIII, os limites entre as duas Coroas estavam em litígio tanto na América do Sul, quanto no mar do Sul (Oceano Pacífico), como foi o caso das Molucas. À medida que este século avançava e Portugal interiorizava o povoamento do Brasil, o Tratado de Tordesilhas se tornava um embaraço cada vez maior para seus propósitos de soberania na América. Ao estabelecer a divisão das novas terras americanas, banhadas pelo Oceano Atlântico, entre as duas Coroas, a partir de uma linha imaginária posicionada a 370 léguas a oeste de uma ilha não especificada do arquipélago de Cabo Verde, Tordesilhas atribuía à Espanha o domínio do centro-oeste da América, que vinha sendo sistematicamente desbravado e ocupado pelos portugueses. A imprecisão da localização do Meridiano punha em dúvida as fronteiras exactas entre as duas Coroas no norte do Brasil, nas bacias dos rios Amazonas, Tocantins e seus afluentes; já no extremo sul, a disputa ficava centrada junto ao rio da Prata, onde se localizava a Colónia do Sacramento. A questão da Colónia do Sacramento foi a pedra de toque das negociações portuguesas e espanholas na primeira metade do século XVIII. Luís Ferrand Almeida afirma que, com a activa participação de Luís Cunha, o problema foi longamente tratado pelos representantes de Portugal em Madrid e também noutras cortes, como Viena e Paris, mas sem conseguirem alterar a posição espanhola.
A imprecisão da posição do meridiano de Tordesilhas, o real povoamento que as duas potências ibéricas estabeleceram nas terras descobertas e as disputas em torno dessas regiões limítrofes na América fizeram surgir em Portugal uma corrente de defensores favoráveis a que os limites entre as duas potências no continente americano e no Oceano Pacífico fossem renegociados em conjunto, posição sistematicamente defendida por Luís Cunha nas diversas negociações em que representou Portugal após a Guerra da Sucessão Espanhola (especialmente durante os Tratados de Utrecht, Cambrai, Breda e Aquisgrán). A Colónia do Sacramento, ocupada pelos portugueses, e as Molucas, no Oceano Pacífico, que haviam sido (injustamente) compradas dos espanhóis, segundo Luís Cunha, seriam as duas grandes moedas de troca entre as duas nações, opinião compartilhada pelo geógrafo francês D’Anville, em parecer que escreveu a seu pedido sobre o tema. Esse processo de renegociação das fronteiras luso-espanholas culminará em 1750 com o estabelecimento do Tratado de Madrid.
Foi no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola e das negociações que lhe seguiram, que também versaram sobre as fronteiras entre Portugal e Espanha, que Luís Cunha se tornou cônscio da necessidade de construir uma base cartográfica sólida que permitisse a Portugal tomar a dianteira perante a Espanha no processo de negociação das suas fronteiras na América. Por esta razão, também tomou para si a incumbência de contribuir para a produção de uma cartografia da América Portuguesa, estabelecendo a partir de 1724, quando residia em Paris, uma profícua colaboração com D’Anville, cuja Carte de l’Amérique Méridionale, é a culminância desse processo. Este foi o primeiro mapa a propor um formato triangular do Brasil, bastante semelhante à feição actual. Nesse sentido, é preciso ficar atento para o facto de que, ao contrário do que usualmente se pensa, não raro, é o mapa que precede o território e não o contrário: esse processo pode-se observar claramente nesse mapa, que constrói uma imagem da América Portuguesa, propondo novos limites de fronteiras, que não correspondiam à realidade da época. D’Anville dava expressão cartográfica às pretensões geopolíticas de Luís Cunha que procurava conformar o território americano de acordo com o que acreditava ser do interesse de Portugal. Nessa perspectiva, observa-se como os mapas podem ser uma arma importante de persuasão política, tanto no contexto das negociações diplomáticas, quanto das guerras que as precedem. Neste artigo, o enfoque se dará na utilização da cartografia no teatro da Guerra da Sucessão Espanhola e na negociação em Utrecht que, pela via da diplomacia, tentou solucionar os diferendos territoriais então surgidos, apontando para a transitividade entre a guerra e a diplomacia com a cartografia.


Guerra e cartografia
No século XVIII, mapas estavam em todas as partes. Sustentavam as guerras com suas campanhas militares, as negociações diplomáticas que se seguiam àquelas, as viagens de exploração das terras desconhecidas, os empreendimentos comerciais ou de prospecção mineral, entre outros fins nos quais eram empregados. Havia um conjunto vasto de temas que poderiam ser mais bem visualizados por meio da linguagem cartográfica, como batalhas, movimentações militares, sítios e fortalezas; por isso, uma das aplicações mais antigas da cartografia era a guerra. Por esta razão, a produção de conhecimento geográfico e a confecção de mapas sempre foram fortemente apoiadas pela Coroa portuguesa. Esta protecção se materializou na precoce criação do cargo de cosmógrafo-mor, responsável por promover o desenvolvimento do conhecimento cosmográfico que permitisse a realização das viagens náuticas. Isso significava fazer observações astronómicas, produzir cartas e portulanos, desenvolver instrumentos astronómicos e marítimos, ensinar e preparar os cosmógrafos». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, a Guerra da Sucessão Espanhola, o Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT