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sábado, 21 de novembro de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «Nem a esta altura cessava a pressão: a inexorável tendência para o norte prosseguia. As tribos eram obrigadas a sair dos limites das plantações da Síria ou da Mesopotâmia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não obstante, o deserto se superpovoava da mesma forma em diferentes oportunidades; e então se verificavam sublevações e assaltos entre as tribos aglomeradas, por se acotovelarem mutuamente, em natural disputa do direito de viver. Não podiam ir para o sul, para as areias inóspitas, nem para o mar. Não podiam dirigir-se para o ocidente; porque as íngremes montanhas do Hedjaz estavam completamente guardadas pelos povos da montanha, que tiravam inteiro proveito da sua posição, para defesa. Por vezes, encaminhavam-se para os oásis centrais de Aridh e Kasim e, se as tribos em busca de novo local fossem fortes e vigorosas, obtinham êxito na ocupação de parte deles. Se, entretanto, o deserto não tivesse esta força, seus povos iam sendo impelidos gradualmente para o norte, entre Medina do Hedjaz e Kasim de Nejd, até se encontrarem na bifurcação de dois destinos. Poderiam, então, irromper para o oriente, através do Wadi Rumh ou de Djebel Shammar, no intuito de seguir, se possível, o Batn, para Shamiya, onde se tornariam árabes ribeirinhos do Baixo Eufrates; ou subiriam, a passos lentos, as escadas dos oásis ocidentais, Henakiya, Kheibar, Teima, Jauf e Sirhan, até que o destino as levasse para perto de Djebel Druse, na Síria, ou a dar água aos seus rebanhos nas redondezas de Tadmor, do deserto norte, a caminho de Aleppo ou da Assíria.

Nem a esta altura cessava a pressão: a inexorável tendência para o norte prosseguia. As tribos eram obrigadas a sair dos limites das plantações da Síria ou da Mesopotâmia. A oportunidade e a fome impunham-lhes a convicção relativa às vantagens de possuírem cabras, e, depois, de possuírem carneiros; e por fim começavam a semear, ainda que fosse apenas um pouco de cevada para os seus animais. Já então deixavam de ser beduínos, e passavam a sofrer, como os habitantes das aldeias, as incursões dos nómades que vinham atrás. Insensivelmente, faziam causa comum com os camponeses já fixados na região, e descobriam que eles também eram gente do campo. É assim que vemos clãs, nascidos nos planaltos do Iémen, impelidos, por clãs mais poderosos, para o deserto, onde involuntariamente se tornaram nómadas, a fim de se manterem vivos.

Vemo-los errando, mudando-se todos os anos um pouco mais além, para o norte, ou um pouco mais além, para o oriente, conforme a sorte os conduzia para uma ou outra linha de poços do deserto, até que, afinal, a pressão constante os levava de novo para longe do areal, a caminho das regiões semeadas, em que manifestavam a mesma ausência de vontade do primeiro retraimento em relação à experiência da vida nómada. Esta foi a circulação que manteve o vigor do corpo semítico. Havia poucos, se é que havia algum, semitas do norte, cujos ancestrais não tivessem em qualquer época obscura atravessado o deserto. A marca do nomadismo, esta profunda e aguda disciplina social, se encontrava em cada um deles, na devida graduação.

Se os homens de tribo e os homens de cidade, na Ásia de língua árabe, não fossem de raças diferentes, mas apenas criaturas de diversos graus de evolução social e económica, qualquer semelhança de família deveria ser vislumbrada no funcionamento da sua mente, e seria, assim, apenas razoável que elementos comuns aparecessem no produto de todos aqueles povos. Bem no começo, ao primeiro encontro com eles, verificou-se haver uma nitidez, ou rigidez de crença, universal e quase matemática nas suas limitações, e impenetrável na sua forma impassível. Os semitas não possuíam meios-tons no registo da sua visão. Compunham povos de cores primárias, ou melhor, povos de branco-e-preto, que viam o mundo sempre de perfil. Eram dogmáticos, e desprezavam a dúvida, esta nossa moderna coroa de espinhos. Não compreendiam as nossas dificuldades metafísicas, nem as interrogações introspectivas. Só conheciam a verdade e a inverdade, a crença e a descrença, sem os nossos matizes subtis de reticências hesitantes.

Estes povos eram preto-e-branco não apenas na visão, mas também na sua constituição mais íntima; preto-e-branco não somente na clareza, mas também na justa-posição. Seus pensamentos ficavam à vontade apenas nos extremos. Aplicavam superlativos por gosto. Às vezes, as incoerências pareciam possuí-los por inteiro, em preponderância simultânea e geral; mas nunca tergiversavam: seguiam a lógica de várias opiniões incompatíveis entre si para atingir absurdos fins, sem perceberem o disparate. Com a cabeça fria e a faculdade de julgamento tranquila, imperturbavelmente inconscientes em face do salto, oscilavam de assíntota para assíntota». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, T.E. Lawrence, Literatura, Conhecimento, África,

terça-feira, 7 de julho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «O deserto que desempenhou esta grande função em torno dos oásis, construindo, assim, o carácter da Arábia, variava de natureza»



Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A primeira dificuldade do movimento árabe foi a de se saber onde os árabes se encontravam. Sendo povo resultante de cruzamentos, seu nome havia mudado de sentido, lentamente, de ano para ano. Em tempos remotos, designava um árabe. Existia um país chamado Arábia; mas isto nada significava para o nosso caso. Conhecia-se uma língua denominada árabe; e era nela que nos devíamos apoiar. Tratava-se do idioma corrente da Síria, da Palestina, da Mesopotâmia e da grande península denominada Arábia, nos mapas. Antes da conquista dos muçulmanos, estas regiões foram habitadas por povos diferentes, falando idiomas da família árabe. Chamávamo-los semíticos, mas incorretamente (dando-se o mesmo com termos mais científicos). Contudo, os idiomas árabe, assírio, babilónio, fenício, hebraico, aramaico e siríaco eram aparentados; os vestígios das influências recíprocas, no passado, e mesmo da origem comum, reforçavam-se pelo nosso conhecimento, segundo o qual o aspecto e os hábitos dos povos de língua árabe da actualidade, na Ásia, embora sendo variados como campo de papoilas, ofereciam semelhanças permanentes e essenciais. Podíamos, pois, com perfeita propriedade, denominá-los primos, e primos certamente, embora tristemente, cônscios do seu próprio parentesco.
As regiões de língua árabe, na Ásia, neste sentido, formavam um tosco paralelogramo. A linha norte corria de Alexandria, no Mediterrâneo, através da Mesopotâmia, a caminho do oriente, até ao Tigre. A linha sul era a margem do oceano Índico, desde Aden até Muscat. A oeste, limitava-se pelo Mediterrâneo, pelo canal de Suez e pelo mar Vermelho, até Aden. A leste, pelo Tigre e pelo golfo pérsico, até Muscat. Este quadrado de terra, tão grande como a Índia, formava a pátria dos nossos semitas, onde nenhuma raça estranha conseguiu manter-se por longo tempo, embora os egípcios, os hititas, os filistinos, os persas, os gregos, os romanos, os turcos e os francos o houvessem tentado, por maneiras várias. Todos, ao fim, se viram derrotados, e os elementos dispersos foram absorvidos pelas fortes características da raça semítica. Os semitas, por vezes, alastraram-se para fora dessa área, sendo assimilados pelo mundo exterior. O Egipto, a Argélia, Marrocos, a ilha de Malta, a Sicília, a Espanha, a Cilícia e a França absorveram e fizeram desaparecer colónias semíticas. Somente em Trípoli, na África, e no perene milagre da Judeia, os remotos semitas conservaram alguma coisa da sua identidade e da sua força.
A origem destes povos foi motivo para debates académicos; mas, para a compreensão da sua revolta, as actuais diferenças sociais e políticas se revestiam de importância, e só podiam ser assinaladas após o exame da sua geografia. O continente por eles habitado continha certas grandes zonas, cujas profundas diversidades físicas impunham costumes diversos aos seus nativos. A ocidente, o paralelogramo se emoldurava, de Alexandria até Aden, numa cadeia de montanhas, chamada (ao norte) Síria, e, progressivamente, em direcção ao sul, denominada Palestina, Média, Hedjaz, e, afinal, Iémen. A cordilheira erguia-se à altura média de novecentos metros, com picos de três a quatro mil metros. Voltava-se para oeste, era bem irrigada pelas chuvas e pelas nuvens que vinham do mar, e, em geral, inteiramente povoada. Outro renque de montanhas habitadas, de face para o oceano Índico, formava o lado sul do paralelogramo. A fronteira oriental constituía-se, a princípio, de uma planície aluvial, denominada Mesopotâmia, mas, ao sul de Basra, não passava de litoral ao nível do mar, chamado Kuwait, e depois Hasa, até Gattar. A maior parte desta planície era povoada. Tais planícies e montanhas habitadas emolduravam uma zona de deserto sem água, em cujo coração se encontrava um arquipélago de oásis povoados e dotados de água, chamados Kasim e Aridh. Neste grupo de oásis, ficava o verdadeiro centro da Arábia, o repositório do seu espírito nativo, e a sua mais cônscia individualidade. O deserto envolvia-o todo, mantendo-o livre de contactos.
O deserto que desempenhou esta grande função em torno dos oásis, construindo, assim, o carácter da Arábia, variava de natureza. Ao sul dos oásis, parecia ser um intransponível mar de areia, estendendo-se até perto do populoso escarpamento da margem do oceano Índico, separando-o, a leste, da história da Arábia, e evitando que exercesse qualquer influência sobre a moral e a política árabe. Hadhramaut, como chamavam a esta costa sul, fazia parte da história das Índias Holandesas; e o seu pensamento se projectava para Java, mais do que na direcção da Arábia. A oeste dos oásis, entre estes e as montanhas do Hedjaz, havia o deserto de Nejd, zona de cascalho e de lava, contendo pouca areia. A leste, entre eles e Kuwait, estendia-se outra zona semelhante, de cascalho, mas com algumas grandes faixas de areia fofa, o que tornava difícil a travessia. Ao norte dos oásis, desdobrava-se uma zona de areia, e, depois, uma imensa planície de cascalho e de lava, tomando conta de tudo, entre a linha oriental da Síria e as margens do Eufrates, onde começava a Mesopotâmia. A viabilidade deste deserto norte, para homens e para automóveis, fez com que a revolta árabe obtivesse êxito imediato». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

domingo, 28 de junho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «O homem que se entrega à posse de estranhos leva uma vida brutalizada, porque vende a alma a um bruto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu fui enviado a estes árabes como estranho, incapaz de pensar os seus pensamentos, ou de aderir às suas crenças, mas encarregado, pelo dever, de os conduzir à frente, e de desenvolver ao máximo qualquer movimento seu, proveitoso para a Inglaterra, na guerra que se estava travando. Embora eu não pudesse assumir o perfil moral daqueles povos, devia, pelo menos, ocultar o meu, e passar no meio deles sem provocar atritos, nem discórdia, nem crítica, e sim exercendo, tão-somente, despercebida influência. Embora tenha sido companheiro deles, não desejo ser seu apologista, nem defensor. Hoje, envergando as minhas roupas antigas, eu poderia desempenhar o papel de espectador, obediente às sensibilidades do nosso teatro..., mas é mais honesto assinalar que estas ideias e estas acções, então, transcorreram naturalmente. O que agora parece dissoluto ou sádico, parecia, ali, inevitável, ou mera rotina sem importância. Havia sempre sangue em nossas mãos: tínhamos permissão para isto. Ferir e matar pareciam sofrimentos efémeros, tão breve e desaventurada se nos mostrava a vida. Com a tristeza de uma vida tão grandiosa, a tristeza da punição tinha de ser impiedosa.
Vivíamos para o dia, e morríamos por ele. Quando havia razão e desejo de punir, escrevíamos a nossa lição com a carabina, ou vergastávamos imediatamente a carne imunda do sofredor; e o caso pairava acima de qualquer direito a apelo. O deserto não proporcionava as penalidades requintadamente lentas dos tribunais e das masmorras. Como era natural, as nossas recompensas e os nossos prazeres se dissipavam tão rapidamente como os nossos aborrecimentos; mas, para mim, em particular, aqueles se faziam sentir em número muito menor do que estes. O modo de vida dos beduínos era rude, mesmo para os afeitos a ele, sendo, para os estranhos, simplesmente horrível: assemelhava-se à morte em plena vida. Quando se terminava a marcha, ou a operação, eu não tinha mais energia para registar as sensações; nem, durante as mesmas, me sobrava tempo para apreciar o enternecimento espiritual que, por vezes, se apoderava de nós. Nas minhas notas, o cruel, ao invés do belo, encontrava lugar. Gostávamos mais, sem dúvida, dos raros momentos de paz e de esquecimento; mas eu me recordo mais das agonias, dos terrores e dos erros. A nossa vida não se acha condensada no que escrevi (há coisas que não devem ser repetidas a sangue-frio, por muito vergonhosas); mas o que escrevi fez parte da nossa vida. Peço a Deus que os homens, lendo a narrativa, não aspirem, por amor ao brilho das coisas estranhas, a prostituírem-se, a si e aos seus talentos, servindo a outra raça.
O homem que se entrega à posse de estranhos leva uma vida brutalizada, porque vende a alma a um bruto. Ele próprio não pertence aos estranhos. Pode, portanto, permanecer contra eles, persuadindo-se do cumprimento de sua missão, comprando-os e forçando-os a ser alguma coisa que eles, por vontade e acordo próprios, jamais conseguiriam ser. Depois, esse homem se utiliza das forças do seu ambiente natural, fazendo pressão para que os estranhos abandonem o próprio. Ou, de conformidade com o que aconteceu comigo, imita-os tão bem, que eles, espuriamente, passam a imitá-lo por sua vez. A esta altura, tal homem renuncia ao seu ambiente, e pretende integrar-se no deles; e as pretensões são ocas, sem valor. Em nenhum dos casos ele realiza coisas particularmente suas, nem coisa suficientemente limpa para ser sua (sem ideia de conversão), permitindo que os estranhos manifestem a acção ou a reacção que lhes apraz, em face do silencioso exemplo.
No meu caso, o esforço daqueles anos, para viver em trajes árabes, e para imitar a sua feição mental, roubou-me ao meu eu inglês, levando-me a considerar o Ocidente e as suas convenções com novos olhos: e estes destruíram tudo para mim. Ao mesmo tempo, eu não podia vestir, sinceramente, a pele árabe: tratava-se apenas de uma simulação. Com facilidade se torna infiel um homem, mas dificilmente pode ele ser convertido a outra fé. Desvencilhei-me de uma forma, sem adoptar a outra, tornando-se qual ataúde de Mohammed, na nossa lenda, com o resultante sentimento de intensa solidão na vida, e de estranheza, não relativamente aos outros homens, mas a tudo o que eles fazem. Tais alheamentos se verificam, por vezes, no ser exausto em virtude de prolongado esforço físico e de contínuo isolamento. O corpo vagabundeia mecanicamente, enquanto a mente lúcida o abandona e, situando-se do lado de fora, põe-se a olhar para dentro dele mesmo, com espírito crítico, desejando saber o que o fútil traste fez e por quê. Às vezes, estes eus conversam no vácuo; e então, a loucura se encontra muito perto, como creio que deve ter estado junto do homem que pôde ver as coisas, a um só tempo, através dos véus de dois costumes, de duas educações e de dois ambientes». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «Quando a emoção atingia estes píncaros, a mente embotava-se; e a memória fazia-se branca, até que as circunstâncias voltassem a ser vulgares outra vez»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) À medida que passava o tempo, crescia a nossa necessidade de lutar em prol do ideal, a ponto de já não admitir discussão, e de cavalgar de espora e rédea solta sobre as nossas dúvidas. De bom ou de mau grado, transformou-se afinal em fé. Entregamo-nos à sua escravidão, algemamo-nos à sua malta, curvamos o pescoço, para servir a sua santidade com a máxima devoção. A mentalidade dos escravos humanos comuns é terrível, porque eles perderam apenas o mundo, e nós entregamos não somente o corpo, mas também a alma, à voracidade aniquiladora da vitória. Por nossos próprios actos, fomos esvaziados de moralidade, de vontade e de responsabilidade, como folhas mortas ao vento.
O batalhar perene eliminou de nós todo o cuidado com as nossas vidas, e também com a dos outros. Trazíamos cordas ao redor do pescoço, e, sobre nossas cabeças, pesavam preços que bem mostravam que o inimigo premeditava submeter-nos a horripilantes torturas, se fôssemos aprisionados. Todos os dias, um de nós falecia; e os que prosseguiam vivendo sabiam que eram títeres conscientes no palco de Deus: com efeito, nosso fado era impiedoso, absolutamente impiedoso, enquanto os nossos pés feridos pudessem vacilar para a frente, na estrada. Os fracos invejavam os que se haviam cansado o bastante para morrer; porque o êxito parecia remoto, e o fracasso, próximo e certo, senão total, afigurava-se-nos como sendo uma libertação da fadiga. Vivíamos sempre ou em plena tensão, ou em pleno relaxamento de nervos, ora na crista, ora no cavado das vagas do sentimento. Esta impotência era amarga para nós, e fazia-nos viver apenas para o horizonte à vista, indiferentes às contrariedades que infligíamos ou que suportávamos, porque a sensação física se mostrava miseravelmente transitória. Furacões de crueldade, perversões e cobiças passavam de leve pela superfície, sem nos perturbar; porque as leis morais, que pareciam constituir, outrora, barreiras contra tais incidentes disparatados, deviam ser, então, palavras ainda mais débeis do que as sensações. Viemos a saber que havia angústias excessivamente agudas, mágoas demasiadamente profundas, êxtases infinitamente altos para o nosso eu finito, e portanto, impossíveis de serem registados. Quando a emoção atingia estes píncaros, a mente embotava-se; e a memória fazia-se branca, até que as circunstâncias voltassem a ser vulgares outra vez.
Semelhante exaltação do pensamento, enquanto deixava o espírito vaguear, permitindo-lhe pairar por estranhos ares, fazia-o perder o antigo domínio sobre o corpo. O corpo era inferior em demasia para sentir o infinito das nossas tristezas e das nossas alegrias. Portanto, abandonávamo-lo, como a refugo; deixávamo-lo por baixo de nós, a marchar, mero simulacro respirante, no seu nível desamparado, sujeito a influências de que, em tempos normais, o nosso instinto se afastaria. Os homens eram jovens e robustos; a carne e o sangue, quentes, clamavam inconscientemente pelos seus direitos, atormentando-lhes as entranhas com bizarras aspirações. As privações e os perigos empanavam o calor viril, sob um clima tão torturante como se possa conceber. Não tínhamos recinto fechado onde ficar a sós, nem tecidos espessos para ocultar a nossa natureza. O homem vivia candidamente, em todos os sentidos, com o homem.
O árabe era, por índole, continente; e o uso do casamento universal quase que abolira todas as práticas irregulares nas suas tribos. As mulheres públicas dos raros acampamentos, que encontramos nos nossos meses de vida errante, nada seriam para o nosso número, ainda que a sua oferta repugnante fosse saboreável a qualquer homem de organismo sadio. Tomada de horror perante tão sórdido comércio, a nossa juventude começou a saciar mutuamente as suas poucas necessidades nos seus próprios corpos limpos, conveniência fria, que, por via de comparação, se afigurava assexual e até pura. Mais tarde, alguns passaram a justificar este processo estéril, jurando que os amigos, palpitando juntos sobre areias movediças, com órgãos íntimos em supremo arroubo, encontravam, ali, ocultos na escuridão, o coeficiente sensual de paixão mental capaz de soldar as nossas almas e os nossos espíritos num único esforço flamejante. Outros, ansiosos por punir apetites que não podiam evitar de todo, manifestavam orgulho selvagem na degradação do corpo, oferecendo-se a si próprios para todas as práticas que prometessem sofrimentos físicos ou imundície». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

terça-feira, 16 de junho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «Algumas das falhas da minha narrativa devem ser inerentes às nossas circunstâncias. Por anos e anos consecutivos vivemos de qualquer modo, uns com os outros, no deserto nu, sob o céu indiferente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Geoffrey Dawson persuadiu o All Souls College a dar-me, entre 1919-1920, tempo disponível suficiente para escrever sobre a revolta árabe. Sir Herbert Baker permitiu-me que morasse e trabalhasse nas suas casas de Westminster. O livro assim produzido passou à prova em 1921, quando foi feliz nos amigos que o criticaram. Deve ele em particular sua gratidão ao sr. e sra. Bernard Shaw, pelas incontáveis sugestões de grande valor e diversidade: e por todos os aperfeiçoamentos presentes. Não pretende ser imparcial. Escrevi-o de próprio punho e por minha própria iniciativa. Queira o leitor aceitá-lo como uma narrativa pessoal extraída de memória. Não me foi possível tomar devidamente os apontamentos: com efeito, seria falta de dever para com os árabes eu colher semelhantes flores enquanto eles combatiam. História idêntica poderiam contar todos os meus oficiais superiores, Wilson, Joyce, […] E havia muitos outros líderes ou combatentes isolados a quem não seria justo este relato. Menos justo ainda, evidentemente, como todas as histórias de guerra, com os que não receberam menção, e perdem, como devem, até que tenham sua bravura reconhecida, a sua quota de crédito». In Cranwell, 15 de Agosto de 1926

«Escrevi os Livros 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 10 em Paris, de Fevereiro a Junho de 1919. A Introdução foi escrita entre Paris e o Egipto, na minha ida ao Cairo, a bordo de um Handley-Page, entre Julho e Agosto de 1919. Mais tarde escrevi, na Inglaterra, o Livro 1. Perdi então tudo, salvo a Introdução e os rascunhos dos Livros 9 e 10, ao fazer baldeação num trem na Reading Station. Isso se passou no Natal de 1919. O texto I teria, caso tivesse sido terminado, cerca de 250.000 palavras, pouco menos que a impressão particular de Os sete pilares, na forma pela qual os receberam os subscritores. Minhas notas redigidas durante a guerra, sobre as quais se baseavam grandemente, foram sendo destruídas à medida que era terminada cada secção. Somente três pessoas leram muita coisa do seu conteúdo, antes de eu os ter perdido.

Texto II
Um mês ou mais, depois, comecei em Londres a rabiscar o que me vinha à memória sobre o texto primeiro. Naturalmente dispunha ainda da Introdução original. Completei os outros dez livros em menos de três meses, escrevendo muitos milhares de palavras a cada vez, em demoradas sessões. Assim, o Livro VI foi inteiramente escrito entre um nascer de sol e outro. O estilo sofreu necessariamente a falta de esmero: e dessa forma o Texto II (se bem que apenas introduzisse poucos episódios novos) ultrapassou 400.000 palavras. Corrigi-o em intervalos no decorrer de 1920, confrontando-o com os arquivos do Arab Bulletin e dois diários, além de alguns apontamentos remanescentes. Conquanto péssimo como texto, tornou-se substancialmente completo e exacto. De todo esse texto somente uma página foi por mim lançada ao fogo em 1922.

Texto III
Com a presença do Texto II sobre a mesa, comecei em Londres o Texto III, continuando-o depois em Jidá e Amã durante o ano de 1921, e novamente em Londres até Fevereiro do ano seguinte. Grande cuidado foi exercido na sua composição. Ainda existe esse manuscrito. Contém quase 330.000 palavras.

Textos Impressos Particularmente. Oxford 1922
Apesar de parecer-me difusa e pouco satisfatória a história, conforme foi completada no Texto III, como medida de prudência foi impressa textualmente em folhas não encadernadas em Oxford, no primeiro trimestre de 1922, sob os auspícios do pessoal do Oxford Times. Visto haver a solicitação de oito exemplares e ser muito grande o livro, preferiu-se a forma impressa à datilografada. Cinco exemplares (encadernados em livro para comodidade dos antigos membros da Força Expedicionária do Hedjaz, que se prontificaram a criticá-lo) não foram ainda (Abril de 1927) destruídos.

«Algumas das falhas da minha narrativa devem ser inerentes às nossas circunstâncias. Por anos e anos consecutivos vivemos de qualquer modo, uns com os outros, no deserto nu, sob o céu indiferente. Durante o dia, castigava-nos o calor; e aturdia-nos o vento fustigante. À noite, éramos molestados pelo orvalho, e reduzidos a insignificâncias pelos inumeráveis silêncios das estrelas. Constituíamos um exército sem gala nem acção, centralizado em si mesmo, devotado à liberdade, que é o segundo credo do homem, finalidade tão voraz que tragava todas as nossas energias, e esperança tão transcendente que as nossas primeiras ambições desmaiaram ao seu fulgor». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A Conquista de Arzila pelos Portugueses. 1471. Paulo Mesquita Dias. «Num primeiro momento serão estudadas as conjunturas internas dos reinos ibéricos, Portugal, Castela, Aragão, Navarra e Granada, e do sultanato de Fez…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi face a esta escassez de estudos acerca de Arzila, e particularmente relativos à sua conquista, que surgiu a ideia para a elaboração desta dissertação de mestrado. Essa falta de estudos de caso sobre as conquistas portuguesas em Marrocos, visível não só no que em cima deixamos dito mas também num artigo da autoria de João Gouveia Monteiro e Miguel Gomes Martins, revela-se para nós uma oportunidade, uma vez que nos permite inserir a nossa dissertação de mestrado numa lacuna da historiografia portuguesa, ao estudarmos de forma o mais aprofundada possível a conquista de Arzila, algo que até ao presente momento é inédito. Assim sendo, e face a tudo o que até este momento foi dito, parece-nos importante fazer uma análise mais detalhada daquele que será o objecto de estudo desta dissertação de mestrado. Antes de mais é necessário compreender a conquista de Arzila enquanto um acontecimento situado num tempo e espaço específicos. A dissertação terá o seu início com a escolha do alvo a atacar, passará pelos preparativos feitos para a expedição, humanos e materiais, pela conquista de Arzila propriamente dita, pela ocupação de Tânger e pelo tratado de tréguas assinado com o sultanato de Fez, para terminar com o regresso do rei e boa parte da armada ao reino. Todos estes acontecimentos ocorrem no ano de 1471, mas por vezes será necessário, para melhor ilustrar determinadas situações, recorrer a exemplos de campanhas anteriores, como a conquista de Alcácer Ceguer em 1458, ou posteriores, como a guerra contra Castela de 1475-1479.
Num primeiro momento serão estudadas as conjunturas internas dos reinos ibéricos, Portugal, Castela, Aragão, Navarra e Granada, e do sultanato de Fez, para compreender como estas permitiam, ou não, o lançamento de uma expedição militar em 1471. Para Afonso V era particularmente importante não só ter um reino pacificado a nível interno, mas também ter garantias suficientes de que Portugal não seria invadido por Castela assim a armada zarpasse rumo ao Norte de África. Mais, era essencial conhecer a situação interna do sultanato de Fez por forma a saber quais as hipóteses de sucesso da campanha, face à oposição que seria expectável que se viesse a enfrentar, bem como o alvo mais propício a atacar, Arzila ou Tânger. Sendo consideradas propícias as conjunturas interna e externa e estando escolhido o alvo a atacar, era então chegada a altura de começar a preparar os meios para a campanha. O recrutamento dos homens será estudado de acordo com as crónicas e os registos da chancelaria régia por forma a compreender não só quantos indivíduos participaram na conquista de Arzila, mas também quem eram estes homens, que papéis desempenharam e como foram recompensados pelo serviço prestado à Coroa. Já no que diz respeito aos preparativos materiais, como sejam a compra de mantimentos e armas, defensivas, ofensivas, de cerco etc., bem como o fretamento de navios, será feito recurso a, sobretudo, documentação de chancelaria. Tentaremos ainda compreender como foi possível a Coroa portuguesa pagar a expedição tendo em conta os seus rendimentos à época.
O cerne da dissertação é a conquista propriamente dita, e é sobre o decorrer desta que esperamos construir uma narrativa que permita compreender a forma como julgamos terem tido lugar os acontecimentos. Serão analisados da forma mais completa possível as várias fases do cerco, desde o desembarque até à conquista derradeira, dando especial atenção às figuras que desempenharam papéis mais importantes nas várias fases, desde o rei e do príncipe, até aos condes de Monsanto e Marialva. Também as repercussões da conquista de Arzila são essenciais ao nosso estudo, como a ocupação de Tânger, o assinar da trégua com o sultanato de Fez e o retorno das ossadas do infante Fernando a Portugal, e como tal serão alvo de estudo. Procuraremos ainda analisar as razões que levaram Afonso V a assinar as já referidas tréguas, o que significava o final das suas ambições marroquinas. Estas razões permanecem até hoje alvo de interrogação por parte dos historiadores, pelo que as procuraremos explicar, demonstrando que o rei teria já noção de que não existia em Portugal capacidade material e humana suficiente para conquistar todo o sultanato de Fez.
Este estudo será elaborado tenho em conta sobretudo os relatos legados por Jean Wavrin, borgonhês, contemporâneo dos acontecimentos e bem informado, e por Rui Pina e Damião Góis, funcionários da Coroa portuguesa que escreveram as suas crónicas respectivamente em inícios e meados do século XVI, bem como por outra documentação de tipo narrativo, como sejam os Anais, Crónicas e Memórias Avulsas de Santa Cruz de Coimbra, organizados por António Cruz, da Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Infanta Joana filha del Rei Afonso V: Códice quinhentista, organizada por António Gomes Rocha Madahil, ou dos Anais de Arzila da autoria Bernardo Rodrigues e organizados por David Lopes. Como já tivemos oportunidade de referir, a documentação da chancelaria de Afonso V desempenhará ao longo da dissertação um papel de suma importância. Será, de resto, feito recurso também a colectâneas documentais já publicadas como a Monumenta Henricina e os Descobrimentos Portugueses: Documentos para a sua História de João Martins Silva Marques. Como já antes referimos, os estudos que até ao momento abordaram a conquista de Arzila pecaram pela falta de uso de documentação de chancelaria, uma vez que esta permite trazer nova luz sobre algumas afirmações menos claras dos cronistas, ou mesmo revelar algumas lacunas relativas a datas ou factos que estes cometem». In Paulo A. Mesquita Dias, A Conquista de Arzila pelos Portugueses, 1471, Dissertação de Mestrado em História, Especialidade História Moderna e Descobrimentos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2015.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A Conquista de Arzila pelos Portugueses. 1471. Paulo Mesquita Dias. «… além de ter permitido a curto trecho a ocupação de Tânger e o retorno ao reino das ossadas do infante Fernando, capturado em Tânger em 1437 e falecido em Fez em 1443…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 1471 Afonso V (1432-1481), rei de Portugal, decidiu voltar ao Norte de África para dar continuidade à política de expansão africana da Coroa. O alvo escolhido foi Arzila e, em Agosto de 1471, a vila foi conquistada por uma hoste portuguesa que contou com 23.000 homens de combate. Pouco estudada pela historiografia, a conquista de Arzila é meritória de um lugar de destaque fruto da sua singularidade. Foi uma campanha meticulosamente planeada que incluiu a compra de toneladas de mantimentos e armas e o recrutamento da maior hoste até então levantada em Portugal. As consequências da queda de Arzila perduraram no tempo: Tânger foi abandonada dias depois e o tratado de tréguas assinado com o sultanato de Fez consolidou presença portuguesa na região, tendo esta permanecido imperturbável até ao início do século XVI, e permitiu a Afonso V abandonar de vez os campos de batalha norte-africanos e dar azo às suas ambições castelhanas. O presente estudo insere-se numa lacuna historiográfica face à pouca atenção que a conquista de Arzila granjeou, até ao momento, por parte dos historiadores portugueses. Assim sendo, é estudada não apenas a conquista de Arzila, enquanto acontecimento limitado ao mês de Agosto de 1471, mas também todos os preparativos que foram levados a cabo para permitirem o sucesso da campanha, bem como as consequências da queda de Arzila, mais prolongadas no tempo. Esse estudo é escorado não só nos relatos cronísticos mas também noutras fontes de tipo narrativo e na documentação de chancelaria. É através do cruzamento das várias fontes que é possível detectar e corrigir determinadas lacunas dos cronistas e dos historiadores que os seguiram». In Resumo

A historiografia sobre a presença portuguesa Marrocos
A historiografia portuguesa tem dedicado abordagens bastante variadas ao tema da expansão portuguesa no Norte de África. Porém, os estudos feitos até ao momento não incidem da mesma forma sobre os diferentes períodos da presença portuguesa na região, que tem por datas limítrofes 1415 e 1769. O período mais estudado, por ser considerado o apogeu da presença portuguesa em Marrocos, engloba os séculos XV e XVI1. Relativamente aos primeiros 100 anos de presença portuguesa na região, o que período que aqui nos importa, os estudos de carácter geral de maior importância são as quase centenárias obras de David Lopes, bem como os estudos mais recentes de António Dias Farinha. Assinale-se ainda a importância da Nova História da Expansão Portuguesa, que no seu primeiro volume faz uma síntese de tudo quanto foi produzido acerca de Marrocos até ao final da década de 1990.
No que a temas específicos diz respeito, existem numerosos estudos de qualidade dedicados às várias áreas do conhecimento. A historiografia portuguesa tem visado, no que à presença portuguesa no Norte de África diz respeito, temáticas como a do armamento utilizado pelos guerreiros; a violência decorrente de acções militares; a ocupação e defesa de fortificações; o papel da marinha de guerra portuguesa; o decorrer das campanhas militares na região e a adaptação portuguesa a diferentes formas de fazer a guerra. Mas são os estudos específicos sobre as praças portuguesas no Norte de África que mais têm ocupado os historiadores. De entre estes Ceuta tem sido a cidade mais estudada, seguida de perto por Tânger. É compreensível que Ceuta e Tânger concitem tanto interesse por, respectivamente, terem sido a primeira vitória, e conquista, e a primeira derrota do reino de Portugal durante o processo de expansão para fora dos limites geográficos peninsulares. No entanto, afigura-se mais difícil de compreender o porquê de a conquista de Alcácer Ceguer ainda não ter encontrado o seu historiador, sobretudo tendo em conta que representa a primeira conquista em África de Afonso V. Já a campanha comandada por este mesmo rei em 1463-1464 encontra-se melhor estudada. Por fim, também a conquista de Arzila, ocorrida em 1471, não foi, até ao presente momento, estudada de forma aprofundada. Tal situação afigura-se estranha quando é tido em conta que não só constituiu a última vez que um rei português se envolveu em pessoa numa campanha militar no Norte de África, excepção feita ao rei Sebastião I, como representou uma estabilização da presença portuguesa naquela parte do mundo por mais de 30 anos, além de ter permitido a curto trecho a ocupação de Tânger e o retorno ao reino das ossadas do infante Fernando, capturado em Tânger em 1437 e falecido em Fez em 1443, pondo assim fim aos dois traumas que pesavam na consciência do reino, e do seu rei em particular, desde 1437. A conquista de Arzila foi, de resto, tão significativa para Afonso V que este a comemorou através da encomenda das Tapeçarias de Pastrana, que retratam de forma magistral esta mesma conquista e que constituem uma obra-prima do século XV português.
As obras essenciais para o estudo de Arzila são da autoria de David Lopes e de Fayad el Mostafa, mas nenhuma das duas concede particular enfoque à conquista da vila. Apenas na Nova História Militar de Portugal e na Nova História da Expansão Portuguesa a conquista de Arzila merece estudo mais detalhado. No entanto, os estudos são elaborados fazendo recurso quase exclusivamente aos relatos cronísticos de Rui Pina e Damião Góis, carecendo assim de análises complementares fazendo recurso a documentação da chancelaria régia bem como de outras fontes narrativas. É esta análise complementar que, como veremos adiante, permite a detecção e correcção de lapsos e confusões em que Rui Pina, em particular, incorre. Também as mais recentes biografias de Afonso V e João II registam a campanha de Arzila, sem no entanto lhe concederem grande destaque, o que é natural, dados os objectivos biográficos das obras». In Paulo A. Mesquita Dias, A Conquista de Arzila pelos Portugueses, 1471, Dissertação de Mestrado em História, Especialidade História Moderna e Descobrimentos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2015.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

terça-feira, 14 de abril de 2020

Como eu Atravessei África. Alexandre Serpa Pinto. «Foi pelo seu intermédio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade. Por esse tempo, redigi duas pequenas memórias…»

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Como eu atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico.
Viagem de Benguela à Contra-Costa, através de Regiões Desconhecidas
«(…) Ora essa!..., então desisto eu. Mesmo, eu não creio que a coisa vá a efeito. Nem eu creio muito; mas enfim, se for a efeito, porque não havemos de ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos íntimas relações, e creio bem chegaremos a ser amigos. E porque não? Então, se a expedição for avante, iremos juntos, e escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens. Está dito. Pensa seriamente que o Governo votará uma tão grande verba como a que é precisa para uma empresa destas? Não sei, duvido; e agora ultimamente fala-se menos na expedição. Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a íntima convicção de que a expedição nunca se realizaria. Ainda me encontrei com Capelo nos dias seguintes, e depois separámo-nos. Ele seguiu viagem no couraçado Vasco da Gama para Inglaterra; e eu fui tomar o comando da minha companhia em Caçadores 4, no Algarve. Com o descanso da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira, distinto oficial de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões matemáticas, que ele maneja com inteligência superior. Foi pelo seu intermédio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade. Por esse tempo, redigi duas pequenas memórias, que por intermedio de Luciano Cordeiro chegaram às mãos do Ministro da Marinha, em que tratava do modo de organizar uma expedição de exploração na África Austral.
Passaram-se meses, e não mais me falaram de expedição.
Recebi duas cartas do Capelo, em que me mostrava a sua completa descrença em que a coisa fosse a efeito. Eu mesmo nutria igual descrença. Na Comissão Permanente de Geografia discutiam-se vários projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões. Um dia, vi nos jornais, que o Ministro, o João Andrade Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crédito de 30 contos para uma expedição em África; mas, pouco depois, caiu o Ministério, e foi o José Melo Gouveia encarregado da Pasta das Colónias; quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento. Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornais davam por escolhidos exploradores que eu não conhecia, e às vezes apenas falavam em Capelo. Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos astronómicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Boto, distinto professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já ideias de viajar. O meu tempo era passado entre as carícias da família e os meus livros de estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchegos do lar doméstico, para pensar em trocar a minha vida plácida pelo bulício e azares das viagens.
Seguia com interesse nos jornais as notícias de Lisboa, e vi que o novo ministro, José Melo Gouveia, havia no parlamento apoiado a proposta de João Andrade Corvo, e que fora votada a soma de 30 contos para uma exploração. A morte de Bernardino António Gomes, vítima, talvez, do muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, numa idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de espírito, a morte desse eminente sábio, veio produzir um grande vácuo na Comissão Central de Geografia. Outros, é verdade, tomando grande interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da comissão; mas discussões repetidas iam adiando a prática urgente. Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via possibilidade de se levar a efeito a expedição em 1877; e em vista do que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se aquela fosse a afeito; e devo dize-lo, dava-me isso um certo prazer». In Alexandre Serpa Pinto, Como eu Atravessei África, 1881, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 978-972-104-400-5.

Cortesia de PEuropa-América/JDACT

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Como eu Atravessei África. Alexandre Serpa Pinto. «… que já tinha pensado num distinto Oficial da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capelo, para fazer parte da expedição. No dia seguinte parti para o Norte…»

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Como eu atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico.
Viagem de Benguela à Contra-Costa, através de Regiões Desconhecidas
«(…) Sua Excelência recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispor de pouco tempo, e perguntando-me, o que eu queria? Travou-se entre nós o seguinte diálogo: ouvi dizer, que V. Exa. pensa em enviar à África uma expedição geográfica; e sobre isto venho falar. O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda afabilidade. Já esteve em África?, perguntou-me ele. Já estive em África, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me ocupado muito em estudar questões Africanas. Quer ir fazer uma longa viagem na África Austral? Declaro que hesitei um momento em responder. Estou pronto a ir, disse por fim. Bem; me disse ele, penso em enviar uma grande expedição à África, bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não esquecerei o seu nome. É verdade; me disse, quando eu já ia a sair, que condições e que vantagens pede por esse serviço? Nenhumas, lhe respondi eu, e saí. Fui do Ministério dos Negócios Estrangeiros à Calçada da Glória, Nº 3, e procurei o dr. Bernardino António Gomes, vice-presidente da Comissão Central Permanente de Geografia. Tivemos larga conferência, e o distinto sábio, então todo entregue a questões geográficas, disse-me, que já tinha pensado num distinto Oficial da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capelo, para fazer parte da expedição.
No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizeram arrefecer um pouco o febril entusiasmo que se apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em África. Minha mulher e a minha filha eram laços difíceis de romper, e cada vez que a ideia de me privar das carícias da meiga criança me passava pela mente, arrefecia completamente em mim o ardor das explorações. De um lado, a família, e do outro a África, eram dois poderosos atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a questão. Se eu fosse nomeado Governador de um distrito, podia ir estudar uma parte de África, sem me separar da família. Fui colocado no 4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratória, e apenas um entusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ela se faria; e na sociedade de geografia, de que era Secretario, tinha levantado um alto brado a favor dela. O dr. Bernardino António Gomes, já de idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia já os primeiros sintomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores ilustrações portuguesas do século XIX. Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e ilustrado a quem hoje me prende verdadeira amizade, Luciano Cordeiro.
Todos aqueles a quem falava de exploração, me diziam ser coisa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as coisas em Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um impulso harmónico às explorações Portuguesas em África; por outro lado, sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me são caros. Nutri então a ideia de ir governar, e de me estabelecer em África, nessa África em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus. Fui falar ao Ministro. Dessa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se falando já de explorações. O que o traz por aqui? Venho pedir a V. Exa. o governo de Quilimane, que está vago. O Sr. Corvo riu-se. Tenho missão de maior monta a confiar-lhe; me disse; preciso de si para coisa diferente de governar um distrito em África; e por isso não lhe dou o governo de Quilimane. Então V. Exa. ainda pensa em fazer explorar a África? Eu com franqueza digo, que hoje não creio que a ideia se realize. Dou-lhe a minha palavra de honra, me disse o Ministro, que ou hei-de deixar de ser João Andrade Corvo, ou na próxima Primavera, uma expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na Europa, há de partir de Lisboa para a África Austral. E conta comigo? Conto consigo, me disse, e em breve terá notícias minhas. Saí aterrado do Gabinete do Ministro. Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: não tenho a honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista. Sobrescritei, a Hermenigildo Carlos Brito Capelo-Oficial de guarnição a bordo do couraçado Vasco de Gama. No dia imediato, recebi a seguinte resposta: estou hoje no Café Martinho, às 3 horas. Capelo. Ás três horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam completamente desertas. Só a uma delas estava sentado um primeiro-tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta. Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando ele sentado. Moreno, de olhar plácido; o cabelo-raro, e grisalho, o pequeno bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude. É o sr. Capelo? Sou; é o sr. Serpa Pinto? Já o esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me de África. É verdade. Então está decidido a fazer parte da expedição? Estou; e já nisso falei ao dr. Bernardino António Gomes. Foi ele que me falou no sr.; que compromisso tem? Nenhum. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o dr. Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que, se for à África, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens. Conhece-o? Não o conheço. Falei ao Ministro e ele disse-me, que contava comigo para a expedição. Nesse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto de ir». In Alexandre Serpa Pinto, Como eu Atravessei África, 1881, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 978-972-104-400-5.

Cortesia de PEuropa-América/JDACT

terça-feira, 24 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Sevias, insisti eu, não pode, pelo menos, dizer-me o que aconteceu aos objectos tribais? Ele estudou o céu e não disse nada»

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A Gruta
«(…) Os espíritos dos antepassados não gostariam de me ver ali, explicou ele. Seriam contados segredos. Havia coisas que eu não devia saber. Truculentamente, pensei para comigo: se não souber aqui, esta noite, as coisas secretas, é possível que nunca venha a sabê-las. Era agora ou nunca. Fora da cubata, um grupo de anciãos estava a olhar ansiosamente para o céu da noite, esperando sinais de chuva. Sevias sentou-se ao meu lado, encostado à parede. O seu rosto enrugado mostrava sinais de preocupação. A sua preocupação não era apenas a chuva ou a falta dela, embora isso fosse uma questão crucial tanto para ele como para os outros, na verdade, era a sua própria vida e a da sua família que dependia disso, mas também eu e o meu desapontamento por não ser admitido em todos os segredos tribais. Já lhe tinha dito que o meu trabalho de campo não tinha rendido tanto como esperava.
De cabeça inclinada e com as mãos postas num gesto de súplica, perguntou-me com o esboço de um sorriso: Mushaví, achaste o que procuravas no tempo que estiveste connosco? Distinguia-me muitas vezes com o elogioso nome tribal Mushavi, que geralmente os lembas usam só entre eles e que pensei que talvez pudesse estar ligado a Musawi, a forma árabe de seguidor de Moisés (Musa). Talvez estivesse a tentar seduzir-me chamando-me Mushavi, mas o resto da sua pergunta era incompreensível. Ele sabia perfeitamente que os segredos tribais ainda estavam, na sua maioria, intactos. Sorri e, com toda a paciência que consegui reunir, disse: sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos que não me contou. E não se esqueça de que os anciãos de todos os clãs concordaram em que me devia ser dado acesso a tudo.
Sim, respondeu ele gravemente, mas já lhe expliquei muitas vezes que independentemente do que foi dito nessa reunião dos clãs, há coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos iniciados. Orações, feitiços, encantamentos. Muitos dos nossos segredos não podem ser revelados. Dissemos-lhe isso. O meu irmão, o chefe, disse-lhe isso. Os outros disseram-lhe isso. Teriam de o matar, Mushavi, se aprendesse essas coisas sagradas. É a lei. O seu rosto enrugado tornou-se quase uma expressão de preocupação e ansiedade. Sevias era um homem bom. Em todos os meses que tinha passado no seu kraal, apesar da seca e da incerteza da situação política, tanto dentro da tribo como no país em geral, apesar das dificuldades da família, sempre tinha sido calmo, amável e digno. Percebi agora que nunca tinha sido mais feliz na minha vida do que quando estava sentado a escrever debaixo da árvore grande no kraal de Sevias. Esfregou os pés nus e endurecidos na terra ressequida. Mas quanto aos objectos tribais?, insisti eu. Aquelas coisas que trouxe consigo do norte, de Senna. Falaram-me nisso mas ainda não vi nada disso.
É verdade, disse ele. Trouxemos objectos de Jerusalém há muito tempo e trouxemos objectos de Senna. Objectos sagrados, importantes, de Israel e de Senna. Senna era a cidade perdida original em que a tribo mantinha que tinha habitado depois de sair da Terra de Israel. O professor M.E.R. Mathivha, o chefe erudito da tribo lemba da Africa do Sul, já me tinha contado muita coisa acerca da lenda de Senna. A tribo viera de Senna pelo mar. Ninguém sabia onde era. Tinham atravessado Pusela, mas também ninguém sabia onde era ou o que era. Tinham vindo para África, onde reconstruíram Senna duas vezes. Em suma, foi isso.
Sevias, insisti eu, não pode, pelo menos, dizer-me o que aconteceu aos objectos tribais? Ele estudou o céu e não disse nada. Depois, murmurou: a tribo está espalhada por uma vasta área. Sabe, uma vez infringimos a lei de Deus. Detestamos ratos, que são proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus pelas nações de África. Assim, os objectos espalharam-se e estão escondidos em diversos locais. E o ngoma? Onde pensa que possa estar?, perguntei eu. Era um tambor de madeira usado para guardar objectos sagrados. A tribo tinha seguido o ngoma, transportando-o aos ombros, na sua visita à África. Afirmam tê-lo trazido de Israel há tantos anos que ninguém se lembra quando. Segundo as suas tradições orais, levavam o ngoma à frente deles para combater e ele tinha-os guiado na sua longa caminhada através do continente». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Olhou para mim e depois indicou-me que devia levantar-me e deixá-lo. Triste e perplexo com as suas palavras, voltei para o banco, para o meu bloco de apontamentos»

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A Gruta
«(…) O chefe estava a morrer. Toda a gente o dizia. Tinha um ar cinzento e doente. Fez-me um gesto indicando que devia ir para ao pé dele. Pegou-me na mão e sussurrou-me ao ouvido: os antepassados vieram de Israel. Vieram de Senna. Estão aqui connosco. Adeus, Mushavi. Talvez nos vejamos em Senna. Senna era a cidade perdida de onde tinham vindo e também era o 1oca1 para onde esperavam ir quando morressem. O seu rosto, iluminado pela luz bruxuleante das velas, estava enrugado com os traços da idade e da doença: os olhos estavam tapados por papadas mosqueadas de carne ligeiramente corada. Olhou para mim e depois indicou-me que devia levantar-me e deixá-lo. Triste e perplexo com as suas palavras, voltei para o banco, para o meu bloco de apontamentos, para a máquina fotográfica, e para o gravador. Estava ali na aldeia há tanto tempo que começava a sentir-me em casa, um deles. Tinha bebido uma boa quantidade da cerveja chibuku deles. Após os primeiros tragos, torna-se mais ou menos aceitáve1 e, passado um bocado, absolutamente aceitável. Achei que não era altura para me sentar a um canto a tomar apontamentos e a gravar música lemba. Havia coisas mais importantes a fazer. Tirei a camisa a fim de, pensava eu, me misturar com os homens e as mulheres seminus cujas mórbidas sombras andavam a saltar descontroladamente pelas paredes e que estavam a cair numa espécie de transe a toda a minha volta. A mulher mais velha do chefe atravessou a cubata, inclinou-se para mim com os seios descaídos e enrugados a roçarem-me no ombro, e sussurrou alguma coisa incompreensível em xona, a língua da tribo xona que predominava e no seio da qual viviam os lembas do Zimbabwe.
Comecei a dançar ao ritmo repetitivo dos tambores. Uma das mulheres mais jovens do chefe estava a dançar com os seios nus à minha frente, balançando-se de modo que evidenciava os efeitos do álcool, suplicando aos antepassados, percorrendo os seios com as mãos e, depois, a barriga e as pernas. As tamborileiras aceleravam o ritmo dos tambores. Outra mulher em transe, com os olhos inflamados, libertou-se das roupas e foi para o centro da cubata. Os homens puseram-se à sua volta a admirar-lhe o corpo magro e os seios cheios, incitando-a a continuar. Ela está a falar com os antepassados, disse-me Sevias ao ouvido. Em breve eles responderão. Quando se ouvirem as vozes deles é melhor ir-se embora.
Cerca da meia-noite o ambiente mudou. Imaginei que era chegada a hora dos feitiços do culto e das orações secretas. Essas eram as coisas bem guardadas. Esses eram os códigos orais que governavam as suas vidas e que, sem dúvida, detinham os indícios do seu passado de que eu andava à procura. Esses códigos e feitiços eram, para mim, o cerne da questão. Era nisso que queria participar. Era para isso que ali tinha ido. Os meus braços ergueram-se; o meu rosto virou-se para o tecto de colmo. O suor corria-me em bagas. Tive uma grande sensação de excitação. Tinha sido aceite. Era um deles. Os antepassados iam descer e eu estaria lá para observar o que vinha a seguir. Nunca ninguém de fora tinha observado aquilo. Dentro da cabeça senti abrir-se uma espécie de canal que parecia ser um canal de comunicação com os antepassados israelitas da tribo.
Estava a rejubilar com a eficácia da minha metodologia de investigação de cinco estrelas quando senti um punho bater-me de lado no rosto. Era o punho da mulher mais velha e mais forte do chefe. Caí no chão, em cima do corpo deitado e malcheiroso do maior bêbado de Mposi, uma espécie de vagabundo chamado Klopas que eu já tinha encontrado e cheirado muitas vezes. Durante alguns segundos, perdi a consciência. Fui levado para fora da cubata por alguns dos homens e encostado ao lado da cubata do chefe. Eee..., aborreci a mulher do chefe, disse eu. Lamento. Não lamentava nada. Sentia-me furioso.
Mushavi, disse Sevias inclinando-se por cima de mim. Não aborreceste ninguém. Este golpe foi apenas as boas-vjndas dos antepassados. Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno aviso. Se os antepassados não o quisessem aqui, não lhe teriam dado um golpe ligeiro como este, tê-lo-iam desfeito em pedaços. Agora, tenho de ir porque os antepassados estão a vir ter connosco. Os não iniciados têm de se ir embora». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

sábado, 21 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Um longo chifre de antílope foi introduzido na cubata através da abertura e um som triunfal silenciou o som estridente das mulheres»

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A Gruta
«(…) O chefe mposi sentou-se sozinho. Estava mal de saúde e dava a impressão de estar preocupado. Olhou para o chão de adobe, apoiando a cabeça no punho do seu bastão. Com um movimento rápido, mandou as suas mulheres servirem cerveja. Está ali parada e não está a servir de nada para ninguém! Já estou a servir, ripostou a mais velha das mulheres, erguendo o pote da cerveja com os braços musculosos. Tarde de mais, resmungou ele. O pote de chibuku passou de mão em mão, da direita para a esquerda, sem manifestações de pressa indelicada, como um decantador de Madeira após um jantar de professores em Oxford. O silêncio foi quebrado pelo chefe a chamar pelo nome as quatro mulheres. Eram singularmente diferentes umas das outras em idade, tamanho e beleza. Responderam à vez, ajoelharam-se ao lado umas das outras e começaram a bater palmas. Viraram-se de costas para o chefe, puseram-se em pé e acenderam velas, enquanto outras mulheres começaram a ulular e a assobiar.
Um longo chifre de antílope foi introduzido na cubata através da abertura e um som triunfal silenciou o som estridente das mulheres. O homem que tocava o chifre era alto e bem constituído. Trazia uma saia feita de fitas de pele preta e, à volta da cabeça, tinha uma fita de pele de leopardo. Era o curandeiro. O seu nome era Sadiki, um dos nomes de clãs lembas,nome inequivocamente semita cuja presença na África Central era uma misteriosa anomalia. Foi ele que dirigiu a cerimónia. Tinha chocalhos magagada feitos de abóboras-meninas secas presos aos tornozelos com correias de fibra de casca de árvore. Bateu com os pés no chão de terra da cubata e soprou no chifre, produzindo uma nota persistente. Quatro mulheres idosas que estavam sentadas juntas no banco de adobe que circundava a cubata começaram a bater em tambores de madeira. O resto dos convidados juntou-se atrás do curandeiro, impulsionados para os pequenos movimentos vibrantes da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada, mal se mexendo, perdidos na concentração.
Sadiki estava no epicentro da tempestade de som, dirigindo o seu movimento. Tinha um ar poderoso e magnificente e olhava arrogantemente à sua volta. Mexeu sugestivamente um pé. Depois, uma mão. Seguiu-se o corpo e, colocando-se em frente de um dos tambores, dançou, como David perante a Arca, parando para soprar o chifre de carneiro semelhante ao shofar em que outrora se soprara no Templo de Jerusalém. As tamborileiras pareciam idosas e frágeis de mais para conseguir produzir um som daqueles e apesar disso haviam de tocar tambor durante horas sem parar.
A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza tinha-se apoderado da aldeia. Há muito tempo que não circulavam com tanta liberalidade potes de cerveja. Alguns dos homens, já desabituados de beber, começavam a estar inebriados. A mulher mais velha do chefe parecia já estar possuída pelos espíritos dos antepassados. Olhando para um lado e para o outro, caiu no chão a chorar. Olhando à sua volta com o olhar perdido, levantou o vestido de estilo ocidental acima das nádegas gordas e marmóreas e acima da cabeça. Dançou nua, colocando-se no espaço deixado vago por Sadiki em frente das tamborileiras.
O ritmo acelerou-se outra vez. Sadiki, com o suor a escorrer-lhe pelo peito largo e musculoso, pôs um toucado de penas de águia negra na cabeça da mulher nua. Sevias disse-me que aquilo era para mostrar respeito aos antepassados. Ela continuou a dançar, projectando grandes sombras nas paredes iluminadas por veias. Caiu de joelhos, a chorar convulsivamente, à frente do velho chefe e colocou-lhe ternamente o toucado na cabeça». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Enquanto caminhávamos pela terra ressequida, falou-me dos grandes rebanhos que outrora possuíra, das árvores que se vergavam ao peso dos frutos»

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A Gruta
«(…) No dia seguinte, lamentavam as suas indiscrições nocturnas e murmuravam que os anciãos dos clãs não deviam ter autorizado a minha investigação, que os brancos não tinham nada que se meter nos assuntos deles e que eu devia deixar de tentar penetrar na capa de segredo que envolvia os seus ritos religiosos. Outros tentavam que eu me fosse embora, assustado com as histórias horríveis do que tinha acontecido a anteriores gerações de investigadores que também tinham ido longe de mais por caminhos proibidos. Um deles tinha sido circuncidado à força, depois de ter ousado entrar em Dumghe, a montanha sagrada da tribo. Outro tinha andado a vaguear muito perto de uma gruta sagrada no sopé de Dumghe e tinha sido ferido com uma azagaia tradicional e muito espancado. Escapara por pouco com vida. Quando as minhas esperanças de encontrar o indício essencial no quebra-cabeças da identidade deles começaram a morrer, o mesmo aconteceu com as colheitas nos campos à volta da aldeia. Durante meses, não chovera. Havia apenas algum líquido espesso e lamacento no fundo dos furos hertzianos. Todas as manhãs, as mulheres acartavam água em velhos bidões enferrujados de petróleo equilibrados em cima da cabeça. Quando acabasse aquela, não restaria nada para beber. Excepto cerveja, da loja, para as pessoas com dinheiro. E não havia muita.
Naquela manhã, cedo, antes de o Sol nascer, o chefe tinha convocado uma cerimónia da chuva. O mensageiro do chefe chegara exactamente quando a casa começava a mexer. A fogueira de cozinhar estava a ser acendida e estava a aquecer-se água para chá e para lavagens, que me era trazida todas as manhãs à cubata pela filha do meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro disse a Sevias que era solicitada a sua presença nessa noite. Era um último e desesperado lance de dados. A seca já durava há tanto tempo que as correntes que outrora traziam vida e um ocasional peixe à aldeia tinham desaparecido completamente. Agora, pareciam caminhos de cabras cobertos com uma grossa camada de pó fino. Sem água, em breve a vida na aldeia tornar-se-ia impossível. A tribo teria de se mudar para outro sítio. Mas para onde? A seca abrangia a terra toda. Ao fim da tarde, os anciãos e os notáveis concentraram-se na grande cubata do chefe, no centro do seu kraal, o grupo de cubatas que formava a sua propriedade. Tinham sido convidados para beber chibuku, cerveja de milho fabricada em casa, com a consistência de papa de flocos de aveia, dançar a noite inteira e pedir chuva aos antepassados. Isto era a África mais profunda.
Sevias convidou-me para o acompanhar. Enquanto caminhávamos pela terra ressequida, falou-me dos grandes rebanhos que outrora possuíra, das árvores que se vergavam ao peso dos frutos, do milho que costumava ser tão grande como abóboras. Fomos dos primeiros convidados a chegar. Sentei-me ao lado de Sevias num banco de adobe que existia a toda a volta da cubata e observámos com grande interesse os preparativos para a festa ancestral. Nunca imaginara que me fosse permitido observar uma coisa tão próxima como esta, sem dúvida, estava do âmago do culto deles. Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um bloco de apontamentos. Estava bastante certo de que aquela noite me forneceria material para, pelo menos, um artigo académico dos que produzem forte impressão». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Os lemba mantinham a surpreendente afirmação de serem de origem israelita, embora a presença de israelitas ou judeus na Africa Central nunca tivesse sido confirmada»

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A Gruta
«Era tempo de seca.Em 1987, a minha casa era uma cubata de erva numa zona tribal seca do centro do Zimbabwe, na Africa Meridional, completamente isolada do resto do mundo. Tinha estado a fazer trabalho de campo numa misteriosa tribo africana chamada lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na altura, era leitor de Hebraico no Departamento de Estudos do Próximo e Médio Oriente da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres e de há algum tempo a esta parte essa tribo é o meu principal tema académico.
Como é que passava o meu tempo na aldeia? No calor abrasador do dia, vagueava pelos montes próximos da aldeia e vasculhava os restos da antiga cultura de construção de pedra que os lemba afirmavam ser obra dos seus antepassados distantes. Com a minha pequena espátula, tinha descoberto alguns ossos, peças de cerâmica local e uma ou duas ferramentas de ferro de idade indeterminada. Não era grande coisa para mandar dizer para casa. Depois, lia, escrevia os meus apontamentos e passava grande parte da noite a ouvir as narrativas dos mais velhos.
Os lemba mantinham a surpreendente afirmação de serem de origem israelita, embora a presença de israelitas ou judeus na Africa Central nunca tivesse sido confirmada. Por outro lado, falava-se desde o princípio dos tempos medievais em reinos judeus perdidos na Africa mais negra. O que ouvi dizer foi que a tribo acreditava que, quando saiu de Israel, se instalou numa cidade chamada Senna, algures do outro lado do mar. Ninguém fazia ideia nenhuma de onde se localizava essa misteriosa Senna e eu também não. A tribo tinha-me pedido que achasse a sua cidade perdida e eu tinha prometido tentar. Tudo o que sabia em 1987 acerca da tribo lemba, com 40 000 membros, era que eram pretos, falavam várias línguas bantus como venda ou xona, viviam em vários locais da África do Sul e do Zimbabwe, fisicamente não se distinguiam dos vizinhos e tinham muitos costumes e tradições idênticos aos das tribos africanas entre as quais viviam.
Mas, por outro lado, também tinham algumas lendas e costumes misteriosos que não pareciam africanos. Circuncidavam os rapazes. Praticavam o abate ritual de animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer pombos e várias outras criaturas; sacrificavam animais em lugares altos como os antigos israelitas; e seguiam muitas das outras leis do Velho Testamento. A observação da lua nova era de importância capital para eles, tal como é para os judeus. Os seus nomes de clã pareciam derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semita.
Durante os meses que passei na aldeia a tentar desvendar os seus segredos, nunca encontrei a prova absoluta, a pistola de fumo, que demonstraria que a sua tradição oral, que os ligava ao antigo Israel, era verdadeira. Nunca encontrei uma inscrição numa pedra, um fragmento de uma oração hebraica, um artefacto do antigo Israel. Nem sequer uma moeda ou um caco de cerâmica.
Antes de chegar ao Zimbabwe, tinha passado uns meses com as grandes comunidades lembas da vizinha África do Sul. Aí, os líderes da tribo tinham-me dado uma boa quantidade de informação. Esperava basear-me nisso no Zimbabwe e pedi ao chefe lemba local que facilitasse a minha investigação. O chefe mposi convocou uma reunião dos mais velhos dos clãs lembas e, tentados pela minha promessa de tentar descobrir a sua cidade perdida de Senna, concordaram oficialmente em permitir que investigasse a sua história. Mas depois não me disseram nada que se parecesse com o que eu esperava. Não abriam a boca acerca de nada que tivesse fosse o que fosse a ver com as suas práticas religiosas. Só a minha disponibilidade para me sentar com eles pela noite fora, até o meu uísque soltar a língua dos velhos, é que me permitiu ouvir alguma coisa acerca do seu notável culto». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT