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domingo, 31 de maio de 2015

Académico de Número no 31. Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «Gil Vicente é, assim, o único autor dramático português do século XVI cuja obra apresenta reais afinidades com a arte sua contemporânea»

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Obra da Geraçã Humana. Uma Bella Moralidade Quinhentista
«(…) Ainda relacionado com esta intervenção do Anjo, recorda-se o dito de Joam d'Acenha, extasiado com a angélica beleza:
 
Que nam teves[s]e nem ceitil
com minha filha ho casaria,

para o relacionar com estoutro do pastor ao Anjo, no final do Auto da Mofina Mendes:

Dizey senhor sois casado
ou quando embora casaes?

e com o passo do segundo Auto das Barcas:

Anjos ajudade me ora
que vos veja eu bem casados,

para se concluir que se trata de uma diversão tipicamente gil-vicentina. Ainda no prólogo, poderão os estudiosos comprovar a existência de arremedos de dança, tão ao gosto de Gil Vicente, como neste caso e em referência a Joam d'Acenha.

Baila ao som que / faz com a boca.
Tu/ru/lu/ru/ly.
Tu/ru/lu/ru/lã.
Huufaa.

Révah assinala ainda que neste auto se dão indicações precisas quanto ao vestuário da maioria das personagens, o que é habitual nos autos de Gil Vicente de que se conhecem edições melhores do que o texto contido na Copilacam de 1562. Ao estudar o tema dos quatro Doutores e a Santa Madre Igreja, Révah acentua que, de uma leitura, mesmo superficial, da Obra da Geraçã humana ressalta a profunda afinidade com o Auto da Alma, o que já em 1898 Teófilo Braga pusera em relevo. A conclusão vai mais longe ainda: é a Obra da Geraçã humana de 1520, ou de 1521, que explica o Auto da Alma de 1518. É inaceitável a hipótese, continua, de que o misterioso desconhecido, autor famoso da Obra da Geraçã humana, poeta de largos recursos e original, representando um auto perante a Corte, não se houvesse pejado de plagiar um tema de Gil Vicente de forma tão despudorada que toda a assistência se daria conta disso. É, porém, mais razoável admitir que Gil Vicente, autor da Obra da Geraçã humana, utilizasse neste auto um motivo que tinha criado e com ele obtivera grande êxito quando da representação do Auto da Alma. Ao analisar, por último, os argumentos de ordem artística, escreve Révah que a Custódia de Belém não é obra de um ourives qualquer; uma simples observação permite distinguir imediatamente na Custódia a preocupação de agrupar imagens numa ordem arquitectónica simbólica, cujo conjunto reproduz com exactidão o portal da Batalha. Gil Vicente, tornado poeta dramático, adopta desde Dezembro de 1514, data proposta para o Auto da Sibila Cassandra, o novo simbolismo introduzido na arte portuguesa por João Castilho. Gil Vicente é, assim, o único autor dramático português do século XVI cuja obra apresenta reais afinidades com a arte sua contemporânea. Mas deixámos para o fim a objecção de Costa Pimpão que consideramos mais poderosa, digamos, demolidora. Reduz-se a umas simples frases que até hoje não obtiveram resposta ou esclarecimento satisfatório:
  • Se os Autos (Obra da Geraçã humana e Auto de Deos Padre, Justiça e Misericordia) pertencem a Gil Vicente, pertencem, pelo estilo, a um Gil Vicente de segunda ou terceira ordem [...] A linguagem daqueles Autos, sem ser absolutamente inferior (antes aceitável em partes) não tem a dedada de Gil Vicente: falta-lhe geralmente a força, a naturalidade, a vida, o rapto lírico. É demasiado regular e fria, e a regularidade e a frieza não são características vicentinas.
De facto, assim é. Se o tema é digno de Gil Vicente, o estilo, a linguagem nem sempre favorece essa autoria, isto sem embargo de reconhecermos que o importantíssimo conjunto de argumentos apresentados por Révah lhe concede grande força, se bem que sejam desiguais em valor, ao pugnar pela autoria gil-vicentina da Obra da Geraçã humana, sem que, contudo, lhe fosse legítimo concluir, abertamente, pela restituição da obra a Gil Vicente». In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da APHistória/JDACT

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. « A bofee, que Deos mantenha er assim todos e todas que sedes naquestas vodas, bõa Pascoa que vos venha! Benito, aquí estaa la boda»

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Obra da Geraçã Humana. Uma Bella Moralidade Quinhentista
«(…) O passo não tem necessariamente uma significação objectiva: a personagem não seria afastada daquele lugar nem pela Justiça nem pela Força. Ou estariam efectivamente presentes na representação o juiz de Abrantes (a que propósito!) e o porteiro dos Infantes? Argumento de ordem métrica: a Obra da Geraçã humana apresenta três estrofes diferentes, o que nos situa sem dificuldade na rica metrificação vicentina. 75% dos versos do Auto seguem o esquema ABc ABc (as maiúsculas indicam os versos acentuados na 7.ª sílaba, as minúsculas o quebrado, acentuado na 3.ª ou 4.ª sílaba). No conjunto do teatro português do século XVI, esta estrofe só se encontra com representação significativa na obra de Gil Vicente. 11,5% dos versos obedecem ao esquema ABBAACCA, que somente se encontra no primeiro Auto das Barcas, sem exemplo no teatro não vicentino. 13,5 % de versos com o modelo ABBAa CCAc não se encontram sequer em Gil Vicente, o que seria mais uma razão para lhe atribuir a autoria, pois só ele soube utilizar com mestria tal diversidade de ritmos. Révah considera de valor decisivo estes argumentos de ordem métrica: a Obra da Geraçã humana só pode ser de Gil Vicente, e temos de convir em que de facto se trata de razões ponderosas. Nos domínios do vocabulário, da fraseologia e da estilística, as semelhanças com as obras de Gil Vicente são tais que Révah reconhece a necessidade de remeter o leitor para a edição anotada que nesse tempo preparava e que, tanto quanto sabemos, não pôde infelizmente concluir. Recorda, no entanto, dois exemplos que considera elucidativos. No diálogo entre os diabos, diz Abiram:

Demando aa puridade
que me diga a verdade
se a de ser das nossas bandas
este abade.

Abade, forma grosseira de designar Adão, só se encontra em Gil Vicente. Cita dois exemplos, um do Auto da Cananeia, outro do Clérigo da Beira. O segundo exemplo refere-se ao uso da palavra doneguil, usada pelo lavrador Joam d’Acenha, que permitiu corrigir o erro de imprensa deneguil do segundo Auto das Barcas. Trata-se de um vocabulário correspondente ao antigo espanhol doñeguil. No estudo da técnica teatral enriquece-se, segundo Révah, a atribuição do Auto a Gil Vicente, com argumentos considerados decisivos. Começa pelo estudo do prólogo do Auto. Chama a atenção para o facto importante de nele não aparecer, como em Gil Vicente também se não encontra, o Representador, personagem frequente no teatro pós-vicentino.
Em compensação, certos elementos do prólogo da Obra da Geraçã humana apresentam semelhança com passos de obras de Gil Vicente. Por exemplo: o lavrador Gil picote considera os espectadores da representação como convivas de uma boda:

A bofee, que Deos mantenha
er assim todos e todas
que sedes naquestas vodas,
bõa Pascoa que vos venha!

enquanto o pastor Bras, do Auto da Fé, exclama ao entrar em cena:

Benito, aquí estaa la boda.

outra semelhança: Joam d’Acenha, ao entrar, esquece a cortesia devida à assistência, tal como os dois pastores, Bras e Benito do Auto da Fé:

que no hizimos los dos
revellencia quando entramos.

Exemplo também esclarecedor é a intervenção do Anjo, ao explicar aos dois rústicos o tema da arremedaçam. Révah recorda que é igualmente um Anjo a recitar o prólogo do Breve Sumário da História de Deus, e disto há um só exemplo no teatro espanhol do século XVI, mas nenhum outro no teatro português quinhentista». In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da Academia P. de História/JDACT

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «Por outro lado, se o famoso autor é Gil Vicente, quem o desconheceria na época e de que serviria então o anonimato (a que Révah até chama semianonimato)? Isto, não obstante o esforço enorme que realizou para demonstrar…»

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Obra da Geraçã Humana. Uma Bella Moralidade Quinhentista
«(…) Mas como se explica então o anonimato? Esclarece Révah, com argumentação, em nosso entender, aqui um pouco mais frouxa. Il est possible d'expliquer I’anonymat à n’importe quelle date de n’importe quel auto portugais du XVeme siècle. O Auto não foi impresso em 1536, que é apenas um terminus a quo, mas entre 1536 e 1560 (final da actividade de Germão Galharde, que teria sido o impressor). Para evitar a perseguição inquisitorial a Gil Vicente, expressa em particular no Index de 1551 (recorde-se que, das doze obras em vulgar censuradas, sete são autos de Gil Vicente), a edição não traz o nome do autor. Será assim? Parece-nos difícil prová-lo, não tanto por se tratar de um auto chamado de devaçam, não herético, mas principalmente porque a data de 1536 está lá, gravada na portada, e neste ano ainda não havia Indices portugueses..., pelo menos o primeiro conhecido é de 1547. Por outro lado, se o famoso autor é Gil Vicente, quem o desconheceria na época e de que serviria então o anonimato (a que Révah até chama semianonimato)? Isto, não obstante o esforço enorme que realizou para demonstrar que aquela data de 1536 não é a da impressão da obra, mas a da composição da portada, o que se aceitaria se a Obra da Geraçã humana contivesse um colofão com a data precisa da edição, o que não se verifica. Parece-nos até detectar, neste aspecto, uma certa contradição na argumentação de Révah, quando escreve:
  • On peut gager que les premières éditions de nos deux Autos commençaient par une indication semblable à celle du premier Autos (sic) das Barcas: Auto de moralidade composto per Gil Vicente, por contemplaçam da serenissima e muyto catholica raynha dona Lianor nossa senhora: e representado per seu mandado ao poderoso príncipe e muy alto rey dom Manuel, primeíro de Portugal deste nome.
Já se perguntou, Costa Pimpão, e com razão, que tinham os inquisidores que ver com representações doutrinalmente impecáveis? Respondeu-se (Révah) que o Auto de Deos Padre foi definitivamente proibido pelo Index de 1624, sendo embora uma obra de pura devaçam, mas a resposta não satisfaz. Conviria antes citar exemplos retirados dos Indices de 1551, 1559, 1564, ou mesmo 1581 ou 1597. Estudámos o critério determinado no Index de 1624 pelo purificador dos purificadores, Fernão Martins Mascarenhas, a propósito de um outro auto anónimo do século XVI o Dom Andre, e pudemos reconhecer como é bem diferente do que fora seguido em 1551. Outro argumento pró-vicentino apresentado por Révah consiste em afirmar que o Auto foi representado perante a corte do rei Manuel (representação que Teófilo Braga foi o primeiro a referir), e, portanto, só um autor como Gil Vicente teria esse privilégio. E pergunta: como se explicaria que um émulo de Gil Vicente, se o houve, desaparecesse logo completamente da cena literária? Invoca, a propósito, o testemunho de quatro grandes polígrafos da época, que não conheceram outro dramaturgo de renome senão Gil Vicente: André de Resende, Garcia de Resende, Fernando Oliveira e João de Barros. Mas, como se poderá defender que o Auto foi representado na corte, com base somente neste passo de uma fala do lavrador Joam d’Acenha:

Tomay vos hos ovos antes,
e a cestinha com a palha,
ca, bofee, si Deos me valha,
que nem ho Juyz d’Abrantes,
nem ho porteyro dos Infantes
nam me chimparam daqui.

In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da AP. de História/JDACT

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «Mas, ainda que este exemplo faltasse, sabemos, por outro lado, que Gil Vicente não pôde realizar a edição completa e definitiva da sua obra, como lhe ordenara o rei João III»

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Obra da Geraçã Humana. Uma Bella Moralidade Quinhentista
«(…) Uma opinião nos atrevemos, desde já, a emitir: poderá a autoria gil-vicentina do Auto ser controversa, e até legitimamente impugnada por alguns, por faltarem, até hoje, argumentos inequívocos em sua defesa; tudo isto não significará, porém, que a Obra da Geraçã humana haja de pertencer a algum daqueles autores que viveram das varreduras do Mestre, na saborosa e inigualável expressão do Soropita. No Auto não faltam dons artísticos, nem intensidade poética, religiosidade, nem sequer erudição, requisitos estes em geral arredios da quase totalidade da produção dramática dos epígonos, impropriamente chamados discípulos de Gil Vicente. Mas serão os caracteres antes apontados factor indicativo de autoria gil-vicentina, ou deveremos antes abraçar a conclusão formulada por Teófilo Braga em 1898, se bem que alicerçada em débil argumentação? É pois o Auto da Geração Humana uma imitação de Gil Vicente por autor contemporâneo do poeta, e que já nesse tempo se considerava famoso.
Em relação ao Auto de Deos Padre, Justiça e Misericordia, Obra novamente feita, também envolvido nesse pleitear da autoria pró-vicentina, a estrofe sotoposta à portada dá margem a larga reflexão e a sérias dúvidas, no que respeita à possível intervenção de Gil Vicente:

A qual obra vay enmendada
por huü muy famoso autor
que ate aqui andava errada
de mentiras atestada
sem ter nenhuü valor.

Se se pretender estabelecer um confronto, reconhecer-se-á que bem diferente é o que se diz no conhecido colofão: Autos das Barcas que fez Gil Vicente per seu (sic) mão. Corregido e impremido por seu mandado. Seja como for, embora Teófilo Braga não tenha defendido a autoria gil-vicentina da Obra da Geraçã humana, contudo é com ele que se suscita essa hipótese, depois aproveitada e desenvolvida em trabalhos de estudiosos subsequentes. Mas a ideia, mesmo incipiente ou sob color de sugestão, ninguém lha pode negar, e isto ainda não foi dito com suficiente clareza. Foi em Maio de 1948, em duas lições proferidas em 20 e 27 desse mês, mas editadas só em 1949, na Biblioteca de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa, que o saudoso investigador francês Révah, cujos relevantes trabalhos acerca do Teatro Português quinhentista nunca será de mais enaltecer, desenvolveu a tese da autoria gil-vicentina para a Obra da Geraçã humana e para o Auto de Deos Padre, Justiça e Misericordia, dos quais nos interessa neste momento o primeiro. Deste auto, tinha apresentado o ilustre estudioso, nesse mesmo ano de 1948, a primeira edição moderna, com a qual desejava oferecer ao público um texto acessível do Auto que pretendia restituir a Gil Vicente, servindo-se de bem arquitectada argumentação que viria a expor nas lições. Nem todos os especialistas aceitaram de boa mente a tese de Révah, que encontrou em Costa Pimpão o seu mais qualificado e autorizado opositor na época.
Por que motivo se não inclui este auto na Copilacam de todalas obras de Gil Vicente que seu filho, Luís Vicente, publicou em 1562? Eis a primeira objecção que se lhe opôs, tanto mais que a Obra da Geraçã humana tem gravada na portada a data de 1536. Responde Révah de maneira satisfatória: no próprio texto da Copilacam se declara que a edição não é completa (seus filhos reuniram o que puderam encontrar, e daí a não inclusão dos autos anónimos) e, se outras razões não houvesse, aí tínhamos nós o exemplo do Auto da Festa, que nela se não contém, desconhecido dos modernos até 1906, ano em que o conde de Sabugosa o publicou, extraindo-o de uma miscelânea da sua livraria particular. Mas, ainda que este exemplo faltasse, sabemos, por outro lado, que Gil Vicente não pôde realizar a edição completa e definitiva da sua obra, como lhe ordenara o rei João III. Após os trabalhos de Braamcamp Freire, e os seus próprios, Óscar Pratt concluiu, com algum exagero, é certo, que a Copilacam de 1562 é o monumento mais mutilado da literatura portuguesa do século XVI. Isto é quase exacto, e nada há de estranho que nele se não tenha incluído a Obra da Geraçã humana, admitindo que foi Gil Vicente o seu autor, provado como está que lá faltam igualmente outras produções gil-vicentinas. Este é, parece-nos, um argumento que depõe a favor da tese de Révah». In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da AP. de História/JDACT

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Portugal um Destino Histórico. Jorge Macedo. «Não se podem iludir em pirotecnias de particularismos sem função e menos ainda supor que a sempre diversa problemática humana pode ser resolvida com violências ecológicas ou em contratos puramente materiais»

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Palavras Prévias
«As condições em que nos encontramos, reunião de historiadores espanhóis e portugueses, neste lugar e neste momento, tornam-se uma oportunidade relevante para procedermos a uma meditação, de algum modo, em comum, sobre o que sentimos dever salientar quanto ao destino histórico, dos dois estados peninsulares, Portugal e Espanha. E já não o fazemos só entre nós, mas num cenário mais amplo e decerto que mais seguro, para a garantia das conclusões. Fazemo-lo com a certeza imediata da nossa responsabilidade, na Europa e no Mundo. É certo que sempre acabou por ser assim. Mas tal certeza não se manifestava com a mesma velocidade de notícia, comunicação cultural e intercâmbio das medianas, nem nas actuais circunstâncias de pouca sensibilidade imediata aos sacrifícios necessários à criação nacional própria e à sua perenidade. A esse respeito, o tempo de espera é maior.
Com efeito, as preocupações com o desenvolvimento são, hoje, as mais particularmente, exigentes e significativas. Não se podem iludir em pirotecnias de particularismos sem função e menos ainda supor que a sempre diversa problemática humana pode ser resolvida com violências ecológicas ou em contratos puramente materiais, esquecendo os decisivos e múltiplos factores espirituais. Temos visto medidas para preservar o cabrito montês, mas nada vimos ainda que nos defenda da publicidade, da falta de civismo ou da lenta deterioração de valores que levam à subalternização do espírito publico! Se nos não precavermos e aceitarmos como as únicas possíveis generalidades poderosas, só tarde veremos que elas são estéreis em si mesmas, como tais. Pagá-lo-emos em inércia e desinteresse, na perda de criatividade, na desertificação da uniformidade que espreita as grandes hegemonias e na paragem do aproveitamento dos nossos dotes naturais.
Não pode, pois, ser esquecido o longo trajecto histórico dos povos da Península. Foi, por diferentes vezes, comum, mas, sempre, só paralelo. Com isso todos nós temos beneficiado, como comunidade, sejamos poderes, nações, estados ou sensibilidades. As independências não foram vantajosas só para Portugal. As identidades construídas desde remotas proveniências, ao chegarem à insofismável confirmação política, desempenharam um papel decisivo no equilíbrio peninsular que, sendo natural, a todos beneficiou, por diferentes, decisivas, ocasiões e modos. Até hoje.
Não há nações circunstanciais. Isso não quer dizer que uma nação não tenha sempre uma parte de tentativa determinada ou projectada. São realizações humanas, com o sentido de que uma comunidade ou um conjunto de comunidades, por múltiplas condições convergentes, podem encontrar maneiras de explorar formas de desenvolvimento e consulta. São esses meios de conciliação e reforço realizados por actos comuns que lhes permitiram manter o significado que representam as nações. Não é possível considerar este processo como um acaso pois ele se manifesta em actos duráveis e persistentes que ultrapassam as consciências individuais e se concretizam em realizações históricas que compreendem pessoas, lugares, decisões colectivas que conquistaram a continuidade com que se exprimem. O conceito de circunstância é incompatível com o de nação e ainda se torna menos verosímil se o aplicarmos a uma nação, como é a portuguesa, que tem quase nove séculos de existência política. Se nove séculos de independência política são circunstância, o que é então uma permanência? Os sucessos e os insucessos vividos em comum provam que uma nação adquiriu consciência crítica quanto às suas capacidades e conseguiu formular uma interpretação assente nos sucessivos triunfos da sua unidade realizada. E não será isso a sua história? E não poderá definir, ou contribuir para definir, um destino históricoIn Jorge Borges Macedo, Portugal um Destino Histórico, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-127-8.

Cortesia de APHistória/JDACT

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «Os autores da chamada escola vicentina terão sido acaso subestimados, em virtude de uma espécie de sobrevalorização do teatro de Gil Vicente?»

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Obra da Geraçã Humana. Uma Bella Moralidade Quinhentista
«Pertence a Teófilo Braga a primazia na divulgação da Obra Famosissima tirada da Sancta escriptura chamada da Geraçã humana onde se representam sentenças muy catolicas e proveitosas per todo chrístã: Feita per huü famoso autor [...], ao chamar a atenção dos estudiosos para o exemplar, único hoje conhecido, existente num volume-miscelânea da Biblioteca Nacional de Lisboa (cota: Reservados 219 V)
Per huü famoso autor, fórmula invulgar, mesmo rara, mas não única, de aludir à autoria, leva-nos a mencionar um outro opúsculo, que se contém igualmente naquele volume-miscelânea, o n.º 29, assim intitulado:
Trovas / Novamente Feitas / do Moleíro. / Por tres authores muito graves. Que significado se ocultaria nestas designações estereotipadas, para além de meros fins publicitários? Os autores seriam mesmo famosos ou graves? A obra, já de si, era famosíssima... Exemplo mais esclarecedor é, talvez, o caso do Auto de Deos Padre, Justiça e Misericórdia, o n.º 3 da miscelânea, A qual obra vay enmendada / por huü muy famoso autor, como se afirma na parte inferior da portada deste auto cujo estudo corre comummente parelhas com a Obra da Geraçã humana. Ao incluir a Obra da Geraçã humana na rubrica dos autos anonymos, Teófilo Braga faz breve análise da obra e emite certos juízos de que não deveria alhear-se todo aquele que viesse ao depois a ocupar-se do Auto. Lembremo-los:
  • A estrutura do Auto é singularmente poética, e ainda hoje dava um belo tema para uma Oratória musical;
  • Não nos atrevemos a atribuí-lo a Gil Vicente, pelo facto dele ter deixado a sua obra coordenada antes de morrer; antes se poderá julgar tradução do Auto de accusacion contra el Genero humano, que se guarda na Biblioteca de Madrid;
  • A composição é mais antiga do que esta data [1536], não só pela linguagem, mas porque no prólogo se refere aos senhores infantes, isto é, aos filhos do rei Manuel I. O Auto parece imitado na sua estrutura, versificação e simbolismo, do Auto da Alma de Gil Vicente; a designação: Feyta per hum famoso autor bem poderia referir-se ao próprio Gil Vicente. Neste caso, porque não apareceria este Auto junto dos demais coligidos pelo próprio autor, e estando impresso em 1536? É pois o Auto da Geração Humana uma imitação de Gil Vicente por autor contemporâneo do poeta, e que já nesse tempo se considerava famoso.
Teófilo Braga não viria a alterar a posição que assumira acerca de um auto que, não obstante os aliciantes que oferecia, só meio século mais tarde despertaria verdadeiramente o interesse dos estudiosos. Razões de tal desinteresse? Seria caso para repetir aqui a pergunta já em tempos formulada por Maria de Lourdes Belchior Pontes: Os autores da chamada escola vicentina terão sido acaso subestimados, em virtude de uma espécie de sobrevalorização do teatro de Gil VicenteIn Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da Academia P. de História/JDACT

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «Em vida do genial escritor, quem o impediu de escrever e criticar com graciosa soltura de palavras, se as próprias autoridades régias se divertiam com tal procedimento? Foi Gil Vicente verdadeiramente censurado ? Sim…»

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Copilacam de Todalas Obras de Gil Vicente
«(…) Com excepção dos três autos mencionados, de que não apareceu até hoje um exemplar, temos a obra de Gil Vicente quase intacta. É evidente que nos referimos à edição de 1561-1562, uma vez que na edição de 1586 os cortes foram imensos e atingiram: os prólogos de Luís Vicente e de Gil Vicente; as tragicomédias Exortação da Guerra, Templo de Apolo e Romagem de Agravados; as farsas Auto das Fadas, Clérigo da Beira e o Auto dos Físicos; a pregação feita em Abrantes e a carta a El-Rei sobre o tremor da terra. Mas, como já anotou Almeida Fernandes, não são exactamente estas indicações que segue o censor do exemplar de Mafra, mas sim as do Index auctorum damnatae memoriae, impresso em 1625, por ordem de Francisco Martins Mascarenhas. Há, no entanto, certos tipos de intervenção que os índices não previam, e, assim, nós vamos encontrar naquele exemplar, para além de anotações marginais como : na Comédia de Rubena (Toda esta Comedia he prohibida, e não se pode ler sem licença); na Farsa dos Almocreves (toda se prohibe); no Testamento de Maria Parda (daqui por diante todo he prohibido (...) o testam.to de M.ª Parda), três modos de censura, que exemplificaremos:
  • Determinações do Index.: No Auto da barca na primeira Scena, que começa à barca, à barca oulá, no dito da Alcoveteyra Brisida Vaz, se tire o verso que começa seiscentos, &c.; A Cumedia de Rubena repartida em tres Scenas & começa, En tierra de campos, alla en Castilla, &c. acaba ventura bem empregada, toda se prohibe (aliás, como se vê na reprodução que apresentamos, só foi cortada a primeira cena); A Tragicomedia de Dom Duardos da impressam mais antigua se prohibe, por andar outra já correcta da impressam de 1586 pera cá...;
  • Passos proibidos, não riscados no exemplar de Mafra: para além das cenas segunda e terceira da Comédía de Rubena, citemos mais dois exemplos: Do auto intitulado Mofina mendez ... logo no princípio se risque o dito do Frade, começa, Tres cousas acho que fazem, acaba, & hüa gorra d'orelhado; … no Auto da barca 3 que começa, Patudo ve muy saltando, se risque no cabo de todo o auto, & veyo Christo da ressurreiçam, &c. atè, Laus Deo, exclus;
  • Passos apenas riscados no exemplar de Mafra: No Auto dos Reis Magos, fól. 6 r. e v., e fó.7 r. e v.; no Auto da Cananeia, na fala de Belzebu, fól. LXXXII v. e LXXXIII.
Estes são, como disse, apenas alguns exemplos, que se reproduzem em fac-símile. É possível que num fólio inicial, que falta, se contivesse uma legenda manuscrita, à maneira deste Suetónio que se reproduz. A censura do exemplar de Mafra obedeceu à conhecida ordem de que se hão de entre gar ao sancto Officio (maldito), para se riscarem nelles certos passos. que podem fazer dano, ou foi da iniciativa de qualquer superior eclesiástico, que assim mandou proceder para que a obra pudesse ser utilizada pelos frades? Cremos que, dos elementos que apresentámos, se pode deduzir que esta censura obedeceu em grande parte às determinações do Index de 1624 e ao capricho pessoal de qualquer censor improvisado ad hoc.
Quais os efeitos práticos deste tipo de censura? Apenas se verificariam na proibição de representações (que raras vezes se realizariam, não há notícias disso), mas não no conhecimento dos textos. Foi Gil Vicente verdadeiramente censurado ? Sim, naqueles autos que desapareceram de todo e já não constam da Copilacam. Mas o texto desta não deixou de estar acessível (em raros exemplares, é certo, mas ainda assim acessível), não obstante as reduções que sofreu a Copilacam de 1586.
Em vida do genial escritor, quem o impediu de escrever e criticar com graciosa soltura de palavras, se as próprias autoridades régias se divertiam com tal procedimento? Após a morte, não foi difícil cevar na sua obra: no entanto, qual Horácio redivivo, Mestre Gil não só non mortuus est omnis, mas, pelo contrário, tem visto acrescida a sua obra de peças que não foram incluídas na Copilacam, como o Auto da Festa, para não falar de outras que se tem pretendido atribuir-lhe, como o Auto de Deus Padre, Justiça e Misericórdia e a Obra da Geração Humana. Mas, neste último aspecto, a posição que me parece mais prudente é a de Paul Teyssier, há pouco expressa: Não consideramos vicentinos dois autos anónimos que Révah atribui ao nosso autor : o Auto de Deus Padre, Justiça e Misericórdia e Obra da Geração Humana. Nenhum argumento decisivo, de facto, pode ser invocado para justificar esta atribuição, e um método são exige que não se reivindique paru um autor a paternidade duma obra pela simples razão de se julgar que é digna dele». In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da Academia P. de História/JDACT

terça-feira, 15 de julho de 2014

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «A este liuro ajuntey as mais obras que faltauam e de que pude ter noticia. E porque o prologo que a diante vay deregido a elRey vosso auo, que aja gloria, nam ouue effeyto. Esse, com o liuro todo offereço a V. A. ...»

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Copilacam de Todalas Obras de Gil Vicente
«(…) O segundo documento é o Prologo deregido ao muyto alto & poderoso Rey nosso Senhor dom Sebastiam o primeyro do nome, per Luis vicente, de que extraímos este passo significativo: ... por serem cousas algumas dellas feytas por seruiço de Deos, e todas em seruiço de vossos avoos, e de que elles muyto gostarão era razam que se empremissem. E porque sey que ja agora nessa tenrra ydade de V. A. gosta muyto dellas, e as lee e folga douuir representadas, tomey a minhas costas o trabalho de as apurar e fazer empremir sem outro interesse senam seruir V. A. com lhas deregir, e comprir com esta obrigaçam de filho. E porque sua tençam era que se empremissem suas obras, escreueo per sua mão e ajuntou em hum liuro muyto grande parte dellas, e ajuntara todas se a morte o nam consumira. A este liuro ajuntey as mais obras que faltauam e de que pude ter noticia. E porque o prologo que a diante vay deregido a elRey vosso auo, que aja gloria, nam ouue effeyto. Esse, com o liuro todo offereço a V. A. ...
Eis as circunstâncias em que foi impressa a Copilacam quando já corriam, impressos pelo miúdo, autos de Gil Vicente, de que chegaram até nós alguns exemplares, nas chamadas folhas volantes, em número reduzido (citam-se comummente 4). Mas a Copilacam, de 1561-1562, é o texto fundamental para o conhecimento da obra de Gil Vicente, já que a Copilacam, de 1586, embora importante, é um texto terrivelmente mutilado.
O exemplar da Copilacam da Livraria do Convento de Mafra, hoje à disposição dos estudiosos, é o único exemplar que vimos censurado. Mas censurado com que critério? O ano de 1536, a que se atribui a representação, em Évora, da comédia chamada Floresta de Engano, a derradeyra que fez Gil Vicente em seus dias, é também o da introdução da Inquisição (maldita) em Portugal. Em que medida vai o Tribunal exercer a sua intervenção na obra vicentina, que toda ela circulou? Se é sempre de lamentar a perda de uma obra, ou de parte dela, de um autor genial como Gil Vicente (e, neste caso, lamentamos que, até hoje, se não conheça exemplar desses três autos proibidos: Jubileu de Amores, Aderência do Paço e Vida do Paço), havemos de convir em que a sua obra, no conjunto, felizmente nos foi poupada. E até naqueles autos em que os índices eram peremptórios. Folheemo-los:
  • Este he o rol dos liuros defesos por o cardeal Iffante / Inquisidor geral nestes Reynos de Portugal. Anno de 1551: (Dos proíbidos em linguajem). O auto de dom Duardos que nom tiuer censura como foy emendado (incluído na Copílacam);
  • O auto de Lusitania com os diabos / sem elles poderse ha emprimir (saiu na Copilacam com as falas de Dinato e Berzabu);
  • O auto de Pedreanes / por causa das matinas (está na Copilacam, com as matinas);
  • O auto do Jubileu damores (não se conhecem exemplares);
  • O auto da aderencia do paço (não se conhecem exemplares);
  • O auto da vida do paço (não se conhecem exemplares);
  • O auto dos phisicos (vem na Copilacam).
Rol dos Líuros defesos nestes Reinos & Senhorios de Portugal que o Senhor cardeal Iffante Inquisidor geral mandou fazer. Lisboa, 1561. Gil Vicente suas obras correrão da maneira que neste anno de 1561, se Imprimen & nas Impressas ate este anno, guardarse a ho regimento do rol passado.
Catalogo dos Livros que se prohibem nestes Regnos & Senhorios de Portugal… (Lisboa, 1581). Das obras de Gil Vicente, que andão juntas em hum corpo, se ha de riscar o prologo, até que se proueja na emmenda dos seus autos, que tem necessidade de muita censura, & reformação.
E, quanto a censura a Gil Vicente no século XVI, é tudo. Neste caso, não se pode dizer que a Inquisição (maldita) tenha mutilado irremediavelmente a obra vicentina». In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da Academia P. de História/JDACT

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Estudos de História da Cultura Portuguesa. Linguística e Paleo-Etnologia. Justino Mendes Almeida. «Foi iniciativa de seus filhos, Paula e Luís, correspondendo a uma vontade de seu pai, ou antes, a uma ordem régia, expressa num ‘Prologo em que o autor deregia esta copia de suas obras ao muyto alto & excelso Principe elRey’»

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Copilacam de Todalas Obras de Gil Vicente
«(…) Donde se conclui que haverá, possivelmente, um só exemplar completo, infelizmente no estrangeiro; todos os demais são deficientes, o que acentua a raridade da obra. A que se deve esta escassez de exemplares da Copilacam? Pensamos que, primeiro, porque a tiragem não terá sido elevada; depois, porque a publicação dos autos por miúdo desmotivava quanto à aquisição global da obra; por outro lado, a censura que impendeu sobre as obras de Gil Vicente, com todos os seus rigores, e que não aconselharia a posse de exemplares dessa edição; por último, a existência, com poucos anos de diferença, em 1586, de nova edição, obedecendo às determinações e preceitos do rol dos livros defesos, ou do catálogo dos livros que se proíbem neste reino ou do index auctorum damnatae memoriae, levaria ao desprezo, abandono ou destruição dos exemplares de 1562. Note-se que, tanto quanto pudemos comparar, parece não se registarem no texto destes exemplares diferenças como aquelas que se verificam, por exemplo, nos da edição de 1595 das Rhythmas de Lvis de Camões, que determinaram uma nova edição das Éclogas camonianas (Coimbra, 1973), (…) que as tinha editado de acordo com o exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa (actual BNP), veio a conhecer a nossa edição fac-similada, feita em 1968 com base no exemplar da livraria do rei Manuel II, existente em Vila Viçosa.
São, portanto, os que mencionei os exemplares conhecidos da Copilacam de Todalas Obras de Gil Vicente; de entre eles, um se encontra censurado, o exemplar da Livraria de Mafra, o que lhe dá, carácter particular a merecer uma certa atenção.
A Copilacam de Todalas Obras, na edição de 1561-1562, surgiu p.m. vinte e cinco anos após a morte de Gil Vicente. Foi iniciativa de seus filhos, Paula e Luís, correspondendo a uma vontade de seu pai, ou antes, a uma ordem régia, expressa num Prologo em que o autor deregia esta copia de suas obras ao muyto alto & excelso Principe elRey dom Ioam o terceyro deste nome em Portugal, que nam ouue effeyto, por morte de Gil Vicente, nestes termos: ... Determiaua leyxar minhas miserrimas obras por empremir, porque os antigos & modernos nam leyxaram cousa boa por dizer, nem inuençam linda por achar, nem graça por descobrir ... Finalmente que por escusar estas batalhas & por outros respeytos, estaua sem proposito de emprimir minhas obras se V. A. mo nam mandara, nam por serem dinas de tam esclarecida lembrança, mas V. A. aueria respeyto a serem muytas dellas de deuaçam, & a seruiço de Deos enderençadas, & nam quis que se perdessem, como quer que cousa virtuosa por pequena que seja nam lhe fica por fazer; por cujo seruiço trabalhey a copilaçam dellas com muyta pena de minha velhice & gloria de minha vontade, que foy sempre mais desejosa de seruir a V. A. que cobiçosa de outro nenhum descanso.
O nível de intervenção de Paula e de Luís Vicente deduz-se de dois documentos que precedem a Copilacam. O primeiro é o alvará de privilégio real: EU elRey faço saber aos que este aluara virem, que Paula vicente moça da camara da minha muyto amada e prezada tia me disse que ella queria fazer empremir hum liuro e cancioneyro de todas as obras de Gil vicente seu pay, assi as que atee ora andarão empremidas polo meudo, como outras que o ainda nam foram. Pedindome que ouuesse por bem que por tempo de dez annos nam podessem empremir nem vender o dito cancioneyro senam ella, e as pessoas a que ella pera isso desse licença: e que as ditas obras meudas do dito seu pay, que atee ora andarão empremidas, se nam podessem mais empremir nem vender polo meudo. E visto seu requerimento, e por alguns justos respeytos que me a isto mouem, ey por bem e me praz que fazendo ella empremir o dito cancioneyro de todas as obras do dito seu pay, Empressor algum, nem outra alguma pessoa, possa em meus Reynos e senhorios empremir nem vender o dito cancioneyro ...» In Justino Mendes de Almeida, Estudos de História da Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Universidade Autónoma de Lisboa, O Pernix Lysis, Lisboa, 1996.

Cortesia da Academia P. de História/JDACT

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Quatro Orações Camonianas. Academia Portuguesa da História. Aníbal Pinto Castro. «… Porém, logo o castigo que convinha o vingativo Amor me fez sentir, fazendo-me subir ao monte da aspereza que em vós vejo, co pesado penedo do desejo, que do cume do bem me vai cair…»

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Camões e a Língua Portuguesa
«(…) Na farta messe das Rimas, colho como que ao acaso, duas estrofes da canção A Instabilidade da Fortuna, para servirem de ilustração a essa capacidade:

De vontades alheias, que roubava,
e que enganosamente recolhia
em meu fingido peito, me mantinha.
De maneira o engano lhe fingia,
que despois que a meu mando as sojugava,
com amor as matava, que eu não tinha.
Porém, logo o castigo que convinha
o vingativo Amor me fez sentir,
fazendo-me subir
ao monte da aspereza que em vós vejo,
co pesado penedo do desejo,
que do cume do bem me vai cair;
torno a subi-lo ao desejado assento,
torna a cair-me; em balde, enfim, pelejo.
Não te espantes, Sísifo, deste alento,
que às costas o subi do sofrimento.

Destarte o sumo bem se me oferece
ao faminto desejo, porque sinta
a perda de perdê-lo mais penosa.
Como o avaro a quem o sonho pinta
achar tesouro grande, onde enriquece
e farta sua sede cobiçosa,
e, acordando, com fúria pressurosa
vai cavar o lugar onde sonhava,
mas tudo o que buscava
lhe converte em carvão a desventura;
ali sua cobiça mais se apura,
por lhe faltar aquilo que esperava:
destarte Amor me fez perder o siso.
Porque aqueles que estão na noite escura,
nunca sentirão tanto o triste abiso,
se ignorarem o bem do Paraíso.

É por demais evidente que um conhecimento tão vasto e profundo da língua materna só pode compreender-se quando construído sobre uma sólida preparação cultural. Assiste-se, nos nossos dias, à ressurreição de uma afanosa preocupação em proletarizar a figura de Camões. E nenhum mal daí viria ao mundo nem ao Poeta, se tal interpretação fosse rigorosa e não falseasse (?), justamente pela sua falta de rigor, a objectiva visão crítica da sua obra. Por esse caminho, (para mim, muito justo, jdact) aberto não há muitos anos por Aquilino Ribeiro, enveredou agora, com denodada mas leviana afoiteza, José Hermano Saraiva, (A Vida Ignorada de Camões, 1978, que me agradou…jdact) com uma romanesca biografia, na qual o soldado de Ceuta e da Índia surge culturalmente metamorfoseado num laborioso autodidacta que, por não ter podido frequentar Humanidades (?), se limitava a manusear um ou outro livro nos lazeres deixados pelo serviço prestado a soldo em casa dos condes de Linhares, e, mesmo assim, apenas quando a senhora condessa, nas ausências do marido, o não chamava ao feliz usufruto da sua intimidade, para exercer funções mais condizentes com a sedutora fogosidade juvenil dos seus 16 ou 17 anos!... O resto, em matéria de formação cultural, viria mais tarde, ao sabor de uma acidentada experiência, em nada compatível com o que se ensinava nas escolas e muito menos na Universidade (?)».In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia da APHistória/JDACT

Quatro Orações Camonianas. Academia Portuguesa da História. Aníbal Pinto Castro. «Leva na cabeça o pote, o testo nas mãos de prata, cinta de fina escarlata, saínho de chamalote; traz a vasquinha de cote, mais branca que a neve pura; vai fermosa, e não segura»

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Camões e a Língua Portuguesa
«(…) Deste modo, Camões possuía, como nenhum dos poetas seus contemporâneos e como poucos outros em toda a literatura portuguesa, um domínio completo dos recursos da língua portuguesa, desde o estilo mais coloquial ao mais deliberadamente poético. Quando, em momento de folga, o desejo de enganar a saudade com zombeteira ironia o leva a dar a um amigo as suas impressões das damas de Goa, o culto leitor de Petrarca e Boscán sabe encontrar a suprema graça do dizer na linguagem colorida e faceira do quotidiano viver: as notícias acerca das damas são tão obrigatórias numa carta de rapazes como marinheiros à festa de S. Pedro Gonçalves; as senhoras portuguesas caíam de maduras; as da terra, além de serem de rala, não entendiam as delicadezas poéticas, respondendo aos galanteios dos adoradores com üa linguagem meada de ervilhaca, que travava na garganta do entendimento e lançava água na fervura da mor quentura do mundo; e as saudades das belezas de Lisboa, rostinhos de tauxia, que chiavam como pucarinho novo com a água, tornavam-no mais enfastiado daquela carne de salé...
Recorrendo a um nível de linguagem muito próximo deste, criou Camões algumas das suas mais belas composições na medida velha. Recordarei apenas as voltas ao moto Decalça vai para a fonte:

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
saínho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d'ouro o trançado,
fita de cor d'encarnado,
tão linda que o mundo espanta:
chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.

Quando, porém, nos sonetos, nas elegias, nas odes, nas églogas ou nas redondilhas Sôbolos rios, exprime o drama interior do seu incerto estado amoroso, as pungentes lembranças de Sião e as santas reminiscências da Jerusalém Celeste ou o desencantado engano da vida, marcada pelo duro fado, a linguagem camoniana como que se sublima numa extraordinária riqueza sémica e numa etérea eurritmia, para encontrar com imarcescível beleza os signos mais adequados à expressão de estados emocionais ou intelectuais caracterizados pela delicada subtileza psicológica, pela pura abstracção mental, pelo intenso sofrimento moral ou pela angústia escatológica do pecador arrependido». In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia da APHistória/JDACT

domingo, 15 de dezembro de 2013

Quatro Orações Camonianas. Academia Portuguesa da História. Aníbal Pinto Castro. «Camões em fim, auxiliado do seu grande engenho, e sciencia lhe estabeleceo de todo a analogia, e o enriqueceo de vozes, de formulas infinitas extrahidas das Linguas sabias, ou nascidas…»

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Camões e a Língua Portuguesa
«A generosidade das pessoas e das instituições dá por vezes lugar a casos verdadeiramente singulares! É assim que, escassos meses volvidos sobre a minha admissão nesta Academia Portuguesa da História, de tão preclaras tradições e tão operosa actividade ao serviço da cultura nacional, eu me vejo chamado, sendo embora o menos capaz, a colaborar nesta solene sessão que nos congrega em homenagem a uma figura que, pela incomparável dimensão estética da sua obra, pelos ideais a que, com tão peregrina beleza, soube dar expressão e pela perene actualidade da sua mensagem, por assim dizer se consubstanciou com a alma de Portugal. As culpas do delito, pelo menos em boa parte, cabem ao douto Conselho Académico, que me cometeu o encargo. Por mim, entendi ser meu dever aceitá-lo, não fosse a desobediência escondida sob a capa da modéstia, parecer ingratidão para com a Academia que, com tanta benevolência, me acolhera no seu grémio.
No cumprimento do programa estabelecido para a sessão desta tarde, coube-me propor algumas reflexões, reduzidas a breve síntese, sobre um tema tão vasto e multímodo como é o de Camões e a língua portuguesa. Só quando se explorarem e aprofundarem, com demorado rigor científico, os filões apontados pela malograda sagacidade de Serafim Silva Neto para uma história completa da língua portuguesa, poderemos chegar à determinação exacta do papel de Camões no aperfeiçoamento e fixação da língua portuguesa, bem como da decisiva e duradoira influência da sua obra na evolução e unidade do nosso idioma, falado, a partir do seculo XV, desde a Ocidental praia lusitana aos reinos lá da Aurora e aos campos da quarta parte nova.
Mas a crítica setecentista, que estudou muita coisa hoje esquecida ou ignorada, não deixou de ter já uma clara consciência desse papel e dessa influência. Para de tal facto nos certificarmos, bastará uma breve leitura das memórias do padre António das Neves Pereira e de Francisco Dias Gomes, premiadas em 1792 pela Academia Real das Ciências. Particularmente o segundo. Baseado nas teorias explícitas dos autores clássicos acerca da elocução, em especial nas de Aristóteles, Cícero, Quintiliano e Longino, mas sobretudo informado sobre a critica mais moderna de Locke, Condillac ou Du Marsais, e seguindo, antes de todos, o método que Voltaire aplicara no seu comentário às obras de Corneille, Dias Gomes procedeu a um aturado estudo comparativo dos nossos poetas quinhentistas, para traçar o caminho que progressivamente levara a expressão poética desde a dureza do estilo, ainda mal acepilhado pelo estro de Sá de Miranda, à riqueza e variedade do idiolecto camoniano, através da fria elocução de António Ferreira, da harmoniosa suavidade de Bernardes e das rasteira musa de Andrade Caminha. Nem todos os seus juízos, como é evidente, se podem hoje aceitar, já porque a cronologia não permite uma tão regular ordenação, já porque os conceitos estéticos e linguísticos que utilizou carecem naturalmente de adequada correcção. Mas a sua afirmação de que a poesia camoniana representava um ponto culminante no desenvolvimento da riqueza expressiva da língua parece-me não ser passível de discussão, não sendo por isso abusivo ou sequer arriscado manter de pé as conclusões que a singular finura critica do académico exprimia nestas palavras.

Camões em fim, auxiliado do seu grande engenho, e sciencia lhe estabeleceo [o idioma português] de todo a analogia, e o enriqueceo de vozes, de formulas infinitas extrahidas das Linguas sabias, ou nascidas no elaboratorio immenso da sua grande imaginação, com as quaes trouxe os superlativos de huma só fórma em quasi todas as desinencias, que conservão na Lingua Latina, e determinou a indole do Idioma Portuguez, fazendo-o capaz de todos os assumptos, dando-lhe magestade, e harmonia, perspicuidade, e atticismo; fazendo-o finalmente flexível para todos os estylos, e capaz das mais sublimes audacias, para lhe determinar a elegancia, sem se affastar da clareza, qualidades, que ficou conservando como distinctivos perpetuos do seu caracter.

In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia da APHistória/JDACT