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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Notas acerca das Origens de Portalegre. Uma questão de Geografia Humana. «Diz a tradição que as origens de Portalegre se encontram num povoado antigo localizado por detrás da ermida de S. Cristóvão, próximo do Atalaião, e reza que por ali decorreu a uma lenda de inspiração helénico-romana de amores violentos com referências à pastorícia e a um rio»



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«Olhemos agora o quadro clássico da cidade porque é, sem dúvida uma das mais belas vistas de Portalegre, com a ermida de S. Cristóvão, 1á em cima, à direita, e o extenso terraço no qual sobressaem as torres da alcáçova e, à esquerda, o edifício da Sé, dominando tudo. À nossa frente, temos todo o arrabalde da Devesa ou do Rossio, em cascata, mostrando-nos os muros medievais, a Mouraria, a igreja profanada da Misericórdia, o arco da Devesa, a igreja (nova ) de São Lourenço e a longa rua direita, tudo se encaminhando para o Rossio e, nas nossas mãos, reunimos os elementos fundamentais que nos vão ensinar como nasceu e como se desenvolveu a vila que o monarca Dinis acabou de cercar de muralhas em 1290.
Portalegre é assim, como povoado importante, uma localidade recente. As suas origens são, porém muito antigas, mesmo muito antigas.
Aceitámos que, nos alicerces da área da Sé actual, se encontrem os restos duma antiquíssima povoação castreja, ibérica, celtibérica, lusitana, talvez romana e paleocristã que talvez até date do período megalítico. Aquele belo largo e aquele lindíssimo templo seiscentista destoam amplamente de tudo em volta e repousa sobre os próprios muros da defesa da vila. Ali estiveram edificadas três pequenas igrejas e a sinagoga não deve ter sido longe.
A geomorfologia da cidade actual evidencia-nos que Portalegre se implantou e se desenvolveu fundamentalmente num terraço amplo encimado a Nascente pelo alto onde está a ermida de S. Cristóvão e que termina abruptamente a Ocidente pelo edifício da Sé onde fica a porta do Crato mas pela qual não extravasou nenhuma arrabalde medieval. Só alguns séculos depois aí se instala o portim de S. Pedro, próximo das ermidas de S. Bartolomeu e de S. Pedro.
A fertilidade do solo próximo da vila, sobretudo a Poente, a extensão da vista que dela se observa, a relativa abundância em águas vindas da serra e que correm todas para o Rossio, a encosta enladeirada da mesma serra, rica em floresta, a várzea que separa a cidade do monte da Penha de S. Tomé e a amenidade do clima, tão áspero na serra como é duro na planície, que se alonga a sul e a oeste, são elementos que nos levam a admitir e aceitar essa hipótese.

Diz a tradição que as origens de Portalegre se encontram num povoado antigo localizado por detrás da ermida de S. Cristóvão, próximo do Atalaião, e reza que por ali decorreu a uma lenda de inspiração helénico-romana de amores violentos com referências à pastorícia e a um rio. Frei Amador Arrais, que foi homem de letras e bispo de Portalegre, deixou, nos seus “Diálogos” (1589) e Sotto Mayor, mais tarde (1619), confirmou essa tradição.
Estes dados levaram-nos a que fizéssemos prospecções no terreno e, na realidade, julgamos haver identificado a existência dum povoado ou castro a nascente daquela ermida, no extremo da crista que domina o vale das Covas de Belém onde correm as águas do ribeiro do Baco.
Acreditamos que, na área do terraço geológico onde, no sécu1o XVI , se edificou a Sé episcopal e onde antes existia uma igreja cristã, a igreja de Santa Maria Maior, que tinha próximo mais duas outras igrejas, a igreja de Santa Maria do Castelo e a igreja de S. Vicente, já demolidas (desta última ainda persiste o nome do largo), e talvez até a sinagoga, houvesse também um pequeno povoado castrejo, possivelmente o “Portelo”. Não nos repugna admitir que, por debaixo, possa também ter havido uma mesquita, uma igreja paleocristã ou até um santuário megalítico.
Lembremo-nos de que as antas constituem rum achado banal em toda a região da serra de S. Mamede e que se conhecem vestígios bem perto de Portalegre (Fortios, Monte Nogueiro, Crato, Misericórdia, etc.). O mesmo acontece com os povoados celtibéricos». In Caria Mendes, Notas acerca das Origens de Portalegre. Uma questão de Geografia Humana, Faculdade de Medicina de Lisboa, Actas do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

Cortesia do CRAP/ESEP/JDACT

sábado, 5 de maio de 2012

Notas acerca das Origens de Portalegre. Uma questão de Geografia Humana. «O arrabalde da Devesa ou do Rossio, que é actualmente o arrabalde mais antigo, desce desde o largo das igrejas, que é hoje o largo da Sé, onde nasce uma longa rua direita que passa por debaixo do arco dessa Porta da Devesa, a porta que é a insígnia da cidade, e que vem terminar no local onde todos os caminhos se encontram, o Rossio…»


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«Quando nos debruçamos sobre a leitura dum mapa da região de São Mamede de imediato comprovamos que a cidade de Portalegre se encontra num cruzamento de caminhos importantes que dela se afastam para Norte (Marvão e Castelo de Vide), para Poente (Fortios, Alpalhão, Alter, Nisa, Crato) e para Sul (Monforte, Arronches, Alegrete) e que, para Nascente, a Serra de São Mamede, com a sua cumeada orientada de noroeste para sueste, que é também a orientação da nossa fronteira com a Espanha, parece ter impedido o aparecimento e o desenvolvimento de qualquer povoação importante nessa direcção e que ela constitui como que uma muralha natural que isola Portalegre da outra aba da Serra. De resto, se atentarmos com mais demora, reparamos que Marvão, Castelo de Vide, Alpalhão, Crato, Monforte, Arronches, Campo Maior e Alegrete se dispõem segundo um arco de circulo que vem de Norte, a Poente e a Sul e que estas povoações distam uns 20 - 25 kms de Portalegre. Ora, essa é a distância que, acompanhado ou não de muares, a pé ou em carruagem de tracção animal, se costuma percorrer durante um dia solar.
E se depois fomos analisar as curvas de nível da Serra e da região de Portalegre, verificamos que, além de não existir nela nenhum povoado importante, de facto a Serra de são Mamede tem a configuração de uma robusta muralha natural definindo uma zona geológica, geográfica, c1imática, cultural e histórica própria. No seu declive, já muito próximo  da cidade de Portalegre essa muralha foi reforçada por um forte castelo quadrangular, infelizmente abandonado e nunca estudado, que é o Atalaião, que parece vigiar as terras vizinhas da Espanha e do qual se domina a planura que se estende para Oeste e para Sul e do qual se avista maís duma dezena de povoações importantes, antigas e actuais: Abrantes, Montalvão, Alter, Nisa, Crato, Estremoz, Monforte, etc.
E se em seguida percorrermos as calçadas das ruas estreitas e tortuosas da velha Vila e assim medirmos o perímetro dos muros da defesa fechada a mando do rei Dinis I em 1920, logo concluímos que encontrámos uma povoação tipicamente moçárabe e que, como tal, parece querer continuar. Além da muralha extensa que a cerca, apercebemos que a vila depressa se prolonga para os arrabaldes que transbordaram para lá das suas portas mas, neste aspecto, das portas que estão viradas para a Serra. E que a Vila desde sempre esteve profundamente ligada à serra.
O arrabalde da Devesa ou do Rossio, que é actualmente o arrabalde mais antigo, desce desde o largo das igrejas, que é boje o largo da Sé, onde nasce uma longa rua direita que passa por debaixo do arco dessa Porta da Devesa, a porta que é a insígnia da cidade, e que vem terminar no local onde todos os caminhos se encontram, o Rossio, local ameno, frondoso, rico de água, convidativo ao repouso do caminhante. Junto à porta de Alegrete fica o arrabalde do Corro ou de S. Francisco onde ainda no século XIII se edificou o convento dos frades mendicantes (1229) que, como sempre, foi construído fora dos muros. A porta do Postigo, aparentemente de menor importância, está virada para a Serra e para a ermida de S. Cristóvão, o orago dos caminhantes, dá passagem aos moradores da rua do Cano, da rua dos Clérigos, da Corredoura e da Mouraria». In Caria Mendes, Notas acerca das Origens de Portalegre. Uma questão de Geografia Humana, Faculdade de Medicina de Lisboa, Actas do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

Cortesia do CRAP/ESEP/JDACT