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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco»

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«Tom virou-se depressa para que o homem não o visse. Agora tinha que decidir como resolver aquilo. Estava furioso o bastante para derrubar o fora-da-lei com um soco e pegar sua bolsa. Mas a multidão não o deixaria fugir. Precisaria explicar-se, não só a quem estava ali, como também ao xerife. Tom estava dentro do seu direito, e o facto de o ladrão ser um fora-da-lei significava que não teria ninguém para testemunhar pela sua honestidade; enquanto Tom evidentemente era um homem respeitável e um pedreiro. Provar tudo isso, porém, levaria tempo, talvez semanas, se acontecesse de o xerife estar em outra parte do condado; e poderia ainda haver uma acusação de romper a paz do rei, se houvesse uma briga.

Não, seria mais sábio pegar o ladrão sozinho. Era possível que o homem não fosse passar a noite na cidade, pois não tinha casa ali e talvez não conseguisse hospedagem se não pudesse, de um modo qualquer, provar ser um homem respeitável. Assim sendo, precisava ir embora antes que os portões fechassem, ao cair da noite. E havia apenas dois portões. Ele provavelmente voltará por onde veio, disse Tom dirigindo-se a Agnes. Vou esperar lá fora, junto do portão leste. Alfred cuida do portão oeste. Você fica na cidade e vê o que o ladrão faz. Conserve Martha ao seu lado, mas não deixe que ele a veja. Se precisar mandar um recado para mim ou para Alfred, mande-o pela menina.

Certo, concordou Agnes, tensa. O que devo fazer se o ladrão vier na minha direção?, perguntou Alfred, que parecia excitado. Nada, respondeu o pai com firmeza. Veja que estrada ele segue e espere. Martha irá me buscar e cuidaremos dele juntos. Alfred pareceu ficar desapontado, e Tom acrescentou: Faça o que digo. Não quero perder meu filho, como também não quero perder meu porco. Alfred aquiesceu, relutante. Vamos nos separar, antes que ele note nossa presença aqui. Vamos.

Tom saiu imediatamente, sem olhar para trás. Podia confiar em Agnes para levar a cabo o plano. Dirigiu-se rapidamente para o portão leste e deixou a cidade, atravessando a oscilante ponte de madeira onde empurrara o carro de boi naquela manhã. Bem na sua frente ficava a estrada de Winchester, no rumo leste, sempre recta, como um longo tapete desenrolado sobre colinas e vales. À esquerda, a estrada pela qual ele, e presumivelmente também o ladrão tinha chegado a Salisbury, a Portway, fazia uma curva sobre uma colina e desaparecia. O ladrão certamente iria pela Portway. Tom desceu a colina e passou pelas casas que se agrupavam na encruzilhada, tomando por fim a Portway. Precisava se esconder. Caminhou pela estrada, procurando um lugar adequado. Seguiu adiante umas duzentas jardas sem encontrar nada. Olhando para trás, viu que tinha ido muito longe: não podia mais distinguir as feições das pessoas na encruzilhada, de modo que não saberia se o homem sem lábios havia saído da cidade e tomado a estrada de Winchester. Examinou a paisagem novamente. A estrada era margeada de ambos os lados por valas, que teriam servido de esconderijo com tempo seco, mas que nesse dia estavam cheias de água. Logo depois de cada vala, a terra se amontoava. No campo, do lado sul da estrada, algumas vacas pastavam o restolho do capim. Tom notou que uma delas estava deitada na extremidade do pasto, uma elevação que dominava a estrada, e era parcialmente escondida pelo monte de terra que acompanhava a vala. Com um suspiro, refez os passos. Saltou a vala e deu um pontapé na vaca, que se levantou e foi embora. Deitou-se no lugar seco e quente que ela deixara. Puxou o capuz sobre o rosto e se acomodou para esperar, desejando que tivesse tido a ideia de comprar um pedaço de pão antes de sair da cidade.

Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco. Tom tinha um pouco de medo de se machucar, mas se preocupava muito mais em ficar sem seu dinheiro. Esperava que a mulher e a filha estivessem bem. Agnes podia se cuidar, ele sabia; e mesmo que o fora-da-lei a reconhecesse, o que poderia fazer? Ficaria apenas em guarda, mais nada. De onde estava deitado, Tom podia ver as torres da catedral. Quisera ter tido um momento para dar uma olhada por dentro. Estava curioso acerca do tratamento dado às pilastras da arcada. Normalmente eram pilares grossos, com os arcos nascendo do topo de cada um deles: dois na direcção norte e sul, para a ligação com os pilares vizinhos na arcada; e um na direcção leste ou oeste, cruzando a nave lateral». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca»

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«Uma mulher com os lábios pintados de vermelho desnudou os seios para ele, que sacudiu a cabeça e apressou o passo. Secretamente sentia-se atraído pela ideia de ir para a cama com uma estranha, à luz do dia e pagando, mas em toda a vida nunca experimentara isso.

Pensou mais uma vez em Ellen, a fora-da-lei. Havia alguma coisa intrigante nela também. Era muitíssima atraente, mas aqueles olhos fundos e intensos intimidavam.

Um convite feito por uma prostituta fez com que Tom se sentisse irritado por um momento, mas o encanto gerado pela lembrança de Ellen ainda não se dissolvera, e de repente ele teve ímpetos de correr de volta para a floresta e cair sobre ela.

Chegou no adro da catedral sem ver o ladrão. Levantou os olhos para os encanadores, que prendiam o chumbo na estrutura triangular das vigas do telhado sobre a nave.

Ainda não tinham começado a cobrir o telhado de meia-água das naves laterais da igreja, de modo que ainda era possível ver os meios arcos de apoio que conectavam a parte externa com a nave principal, escorando a metade de cima da construção. Ele os apontou para Alfred. Sem aqueles suportes, a parede da nave cederia e vergaria para fora, por causa do peso das abóbadas de pedra na parte de dentro, explicou. Está vendo como os meios arcos se alinham com os contrafortes na parede da nave? Alinham-se também com os pilares da arcada da nave, no lado de dentro. E as janelas, com os arcos da arcada. Linhas fortes com linhas fortes, linhas fracas com linhas fracas. Alfred deu a impressão de estar se sentindo frustrado e ressentido. Tom suspirou.

Viu Agnes vindo do lado oposto, e sua mente retornou ao problema imediato. O capuz de Agnes ocultava-lhe o rosto, mas ele reconheceu o queixo lançado para a frente, seu andar seguro. Operários de ombros largos afastavam-se para que passasse. Se ela esbarrasse no ladrão e houvesse uma briga, pensou ele, seria bem equilibrada.

Você o viu?, quis saber ela. Não. E obviamente você tampouco. Tom esperava que o ladrão não tivesse deixado a cidade. Certamente não iria sem antes gastar um pouco de dinheiro, que não tinha utilidade na floresta. Agnes estava pensando a mesma coisa. Ele está aqui, em algum lugar. Vamos continuar procurando. Vamos voltar por ruas diferentes e nos encontrar no mercado.

Tom e Alfred refizeram seu caminho atravessando o adro e saíram pelo portão. A chuva encharcava-lhes o manto e por um segundo Tom pensou numa jarra de cerveja e numa tigela de caldo de carne, junto à lareira de uma cervejaria. Depois pensou em como trabalhara duro para comprar o porco, viu de novo o homem sem lábios brandindo o porrete na cabeça inocente de Martha, e sua cólera o aqueceu.

Era difícil procurar sistematicamente porque não havia ordem nas ruas. Elas ziguezagueavam, de acordo com o lugar onde as pessoas tinham construído suas casas, e havia muitas curvas acentuadas e becos sem saída. A única rua recta era a que levava do portão leste à ponte levadiça. Na sua primeira pesquisa, Tom ficara próximo das rampas do castelo. Dessa vez ele examinou as cercanias indo até a muralha da cidade e retornando ao interior. Ali estavam as casas mais pobres, as construções mais mal executadas e as prostitutas mais velhas. As cercanias da cidade ficavam num nível mais baixo que o centro, e assim o lixo da região mais rica descia com a água da chuva pelas ruas até se alojar na base da muralha. Algo similar parecia acontecer com as pessoas, pois aquele distrito tinha mais do que a cota justa de aleijados e mendigos, crianças famintas e mulheres machucadas, assim como de bêbados irremediáveis. Entretanto, não se via o homem sem lábios em parte alguma.

Por duas vezes Tom localizou um homem com o mesmo porte e aparência e aproximou-se dele, só para ver que tinha o rosto normal. Terminou a busca no mercado, e ali estava Agnes esperando por ele impacientemente, o corpo tenso e os olhos faiscantes. Eu o achei!, disse entre os dentes. Tom sentiu uma onda de excitação misturada com receio. Onde? Entrou numa locanda ali, perto do portão leste. Leve-me lá.

Eles rodearam o castelo até a ponte levadiça, desceram a rua recta até ao portão leste, depois se meteram num labirinto de vielas ao pé da muralha. Tom viu a locanda um momento depois. Não era sequer uma casa, apenas um telheiro inclinado sobre quatro pilares, encostado à muralha, com um fogo alto na parte de trás, onde um carneiro girava num espeto e um caldeirão borbulhava. Era quase meio-dia e o lugar estava cheio de gente, na maioria homens. O cheiro da carne fez o estômago de Tom roncar. Ele esquadrinhou a pequena multidão com os olhos, com medo de que o proscrito tivesse ido embora durante o curto período de tempo que haviam gasto para chegar ali. Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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sábado, 9 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Levarei Alfred. Tente não deixar que o fora-da-lei a veja. Não se preocupe, disse Agnes, inflexível. Quero aquele dinheiro para alimentar meus filhos. Tom tocou no seu braço e sorriu. Você é uma leoa, Agnes»

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«Tanto Tom quanto Agnes pararam para encará-lo, e como bloquearam seu caminho, ele não pôde deixar de vê-los. Bem?, exclamou, intrigado com aqueles olhares fixos e impaciente para passar.

Foi Martha quem quebrou o silêncio. É o nosso porco!, gritou excitadamente. É mesmo, confirmou Tom, olhando para o açougueiro de igual para igual. Por um instante uma expressão furtiva cruzou o rosto do homem, e Tom percebeu que ele sabia que o porco fora roubado. Mas ele disse: Acabei de pagar cinquenta pence por este porco, o que faz com que seja meu. Seja quem for a pessoa a quem deu seu dinheiro, o porco não era dela. Sem dúvida foi por esse motivo que você pagou tão pouco. De quem o comprou? De um camponês. Você o conhecia? Não. Escute. Sou o açougueiro da guarnição. Não posso pedir a cada fazendeiro que me venda um porco ou uma vaca que traga doze homens a fim de jurar que o animal é dele, e que pode vendê-lo, se quiser.

O homem virou-se de lado como se fosse embora, mas Tom pegou-o pelo braço e o deteve. Por um momento o açougueiro ficou zangado, mas depois deu-se conta de que se se metesse numa briga teria de largar o porco e, se uma das pessoas da família de Tom conseguisse apanhá-lo, o equilíbrio do poder se modificaria e precisaria provar sua propriedade. Assim, ele se conteve e disse: Se quer fazer uma acusação, vá ao xerife. Tom pensou na sugestão e abandonou-a. Não tinha provas. Em vez disso, perguntou: - Como era o homem que lhe vendeu o meu porco? Como todo o mundo, respondeu o açougueiro, com uma expressão velhaca. Ocultava a boca? Agora que estou pensando nisso, sim. Era um fora-da-lei, escondendo uma mutilação, disse Tom amarguradamente. Suponho que não pensou nisso. - Está chovendo demais!, protestou ele. Todos estamos embuçados. Basta que me diga há quanto tempo ele vendeu o porco e afastou-se. Ainda agora. E para onde foi? Para uma cervejaria, creio. A fim de gastar meu dinheiro - disse Tom, enojado. Ande, suma daqui. Pode ser que seja roubado um dia, e então vai querer que não haja tanta gente ansiosa por comprar uma barganha sem fazer perguntas. O açougueiro ficou zangado e hesitou, como se pensasse em replicar; mas pensou melhor e desapareceu.

Por que deixou que ele fosse embora?, perguntou Agnes. - Porque ele é conhecido aqui e eu não, disse Tom. Se lutasse, iriam me considerar culpado. E como o porco não tem meu nome escrito no traseiro, quem pode dizer se é meu ou não? Mas todas as nossas economias... Ainda podemos pegar o dinheiro do porco, disse Tom. Cale-se e deixe-me pensar. A altercação com o açougueiro o enfurecera e ele aliviava a frustração falando asperamente com Agnes. Em algum lugar desta cidade há um homem sem lábios e com cinquenta pennies de prata no bolso. Tudo o que temos a fazer é encontrá-lo e tirar o dinheiro dele.

Certo, disse Agnes determinadamente. Você volta pelo caminho que viemos. Vá até o adro da catedral. Eu seguirei em frente e me aproximarei da catedral pelo outro lado. Depois retomaremos pela rua seguinte, e assim por diante. Se ele não estiver nas ruas, estará numa casa de cerveja. Quando o vir, fique perto e mande Martha me avisar. Levarei Alfred. Tente não deixar que o fora-da-lei a veja. Não se preocupe, disse Agnes, inflexível. Quero aquele dinheiro para alimentar meus filhos. Tom tocou no seu braço e sorriu. Você é uma leoa, Agnes.

Ela o fitou nos olhos por um momento e de repente, ficando na ponta dos pés, beijou-o na boca, rápida mas intensamente. Depois virou-se e atravessou de volta à praça do mercado, com Martha a reboque. Tom ficou olhando, preocupado com ela, a despeito de sua coragem; depois seguiu na direcção oposta com Alfred. O ladrão parecia pensar que estava perfeitamente seguro. Claro, quando roubara o porco, Tom estava se dirigindo para Winchester. Ele seguira na direcção contrária, a fim de vender o porco em Salisbury. Mas a fora-da-lei, Ellen, dissera que a Catedral de Salisbury estava sendo reconstruída, fazendo com que Tom mudasse de plano e, inadvertidamente, descobrisse o ladrão. No entanto, como pensava que Tom nunca mais o veria, havia uma chance para pegá-lo desprevenido.

Foi caminhando lentamente ao longo da rua lamacenta, tentando parecer bem à vontade enquanto olhava as portas abertas. Queria ser o mais discreto possível, pois aquele episódio podia terminar em violência e não queria que as pessoas se lembrassem de um pedreiro alto fazendo uma busca na cidade. A maioria das casas eram choupanas de madeira, lama e telhado de colmo, com uma esteira no chão, uma lareira no meio e umas poucas peças de mobília feita em casa. Um barril e alguns bancos faziam uma cervejaria; uma cama num canto com uma cortina significava uma prostituta; um grupo barulhento em torno de uma mesa revelava um jogo de dados». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

 Cortesia de EPresença/JDACT

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Não havia a menor dúvida: o pedreiro conhecia aquele porco, tão bem quanto conhecia Alfred ou Martha. Estava sendo transportado, com perícia, por um homem com a pele rosada e a barriga grande de quem come toda a carne de que precisa e depois um pouco mais: um açougueiro, sem dúvida»

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«Tom sabia que não havia esperanças, mas perguntou: E o palácio? A mesma coisa, disse John. É onde estou usando os homens que sobram. Se não fosse por isso e pelos outros castelos do bispo Roger, eu já estaria dispensando pedreiros. Tom assentiu com a cabeça. Em voz neutra, tentando não parecer desesperado, perguntou: Sabe de algum lugar onde haja trabalho? Estavam construindo no Mosteiro de Shaftesbury no início do ano. Talvez ainda estejam. Fica a um dia de viagem. Obrigado. Tom virou-se para ir embora. Sinto muito, disse John, às suas costas. Você parece um bom homem. Ele afastou-se sem responder. Sentia-se deprimido. Permitira-se ter esperanças demais; não havia nada de raro em não haver trabalho. Mas ficara entusiasmado com a perspectiva de trabalhar novamente numa catedral. Agora podia ter de enfrentar uma muralha monótona, ou trabalhar numa casa feia para algum com dinheiro. Endireitou os ombros e atravessou de novo o pátio do castelo, onde Agnes o aguardava com Martha. Nunca deixava que ela percebesse o desânimo que pudesse sentir.

Sempre tentava dar a impressão de que tudo ia bem, que estava no controle

da situação, e que não tinha muita importância se não houvesse trabalho no lugar, porque certamente encontraria algo na cidade seguinte, ou na outra. Sabia que se exibisse qualquer sinal de aflição ela insistiria para encontrar um lugar onde se estabelecessem, e ele não queria, a não ser que fosse numa cidade onde houvesse uma catedral a ser construída. Não há nada para mim aqui, disse para Agnes. Vamos embora. Ela ficou acabrunhada.

Pensei que, com uma catedral e um palácio em construção, haveria lugar para mais um pedreiro. Ambas as obras estão quase terminadas, explicou Tom. Eles já têm mais homens do que precisam. A família atravessou a ponte levadiça e voltou às ruas apinhadas da cidade. Haviam entrado em Salisbury pelo portão leste, e sairiam agora pelo portão oeste, pois era a direcção de Shaftesbury. Tom virou à direita, conduzindo-os através da parte da cidade que ainda não tinham visto. Parou diante de uma casa de pedra seriamente necessitada de reparos. A argamassa usada na construção era muito ruim, e agora estava se esfarelando e caindo. A água que entrara pelos buracos, congelando, partira algumas pedras. Se ficasse assim mais um inverno o dano seria ainda pior. Tom decidiu mostrar aquilo ao proprietário.

A entrada do andar térreo era um arco amplo. A porta de madeira estava aberta, e no portal viu um artesão sentado com um martelo na mão direita e um furador na esquerda, gravando um desenho complexo numa sela de madeira colocada no banco à sua frente. No fundo Tom pôde ver depósitos de madeira e couro, e um garoto varrendo aparas. Bom dia, mestre seleiro - disse ele. O seleiro ergueu os olhos, classificou Tom como o tipo de homem que faria sua própria sela se precisasse de uma, e cumprimentou-o secamente com um gesto de cabeça.

Sou construtor, prosseguiu Tom. Vejo que está precisando de meus serviços. Por quê? Sua argamassa está-se esfarelando, as pedras estão rachando e sua casa pode não durar outro inverno. O seleiro sacudiu a cabeça. A cidade está cheia de pedreiros. Por que iria eu empregar um estranho? Muito bem. Tom se virou. Que Deus o proteja. Assim espero - disse o seleiro. Sujeito mal-educado, cochichou Agnes, quando se afastaram. A rua dava numa praça onde funcionava um mercado. Ali, numa extensão de meio acre de lama, os camponeses das proximidades trocavam as poucas sobras que podiam ter de grão, leite ou ovos pelas coisas que precisavam e que não podiam fazer, panelas, relhas de arado, cordas e sal. Os mercados geralmente eram coloridos e um tanto turbulentos. Havia um bocado de discussões e regateios bem-humorados, pretensa rivalidade entre barraqueiros vizinhos, bolos baratos para as crianças, às vezes um menestrel ou um grupo de acrobatas, grande número de prostitutas muito pintadas, e às vezes um soldado aleijado com histórias dos desertos orientais e de enfurecidas hordas sarracenas.

Os que faziam uma boa barganha com frequência sucumbiam à tentação de celebrar, e gozavam o lucro com uma cerveja forte, de modo que havia sempre uma atmosfera de desordem por volta do meio-dia. Outros perdiam suas moedas nos dados, o que podia acabar em briga. Mas agora, na manhã de um dia de chuva, com a safra do ano vendida ou armazenada, o mercado estava contido. Camponeses encharcados de chuva faziam barganhas taciturnas com barraqueiros que tremiam de frio, todos ansiosos por ir para casa e sentar diante de uma lareira.

A família de Tom forçou caminho por entre a multidão desconsolada, ignorando as lisonjas desanimadas do vendedor de salsichas e do amolador de facas. Já tinham quase acabado de atravessar a praça quando Tom viu o seu porco. Ficou tão surpreso que a princípio não pôde acreditar nos próprios olhos. Então Agnes disse entre os dentes: Tom! Olhe! E ele soube que ela vira também. Não havia a menor dúvida: o pedreiro conhecia aquele porco, tão bem quanto conhecia Alfred ou Martha. Estava sendo transportado, com perícia, por um homem com a pele rosada e a barriga grande de quem come toda a carne de que precisa e depois um pouco mais: um açougueiro, sem dúvida». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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domingo, 3 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Quem é você? Meu nome é Tom e sou pedreiro. Foi o que pensei. O que o traz aqui? Estou procurando trabalho, respondeu, prendendo a respiração. John sacudiu a cabeça imediatamente. Não posso empregar…»

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«Seguiram o carro de boi até ao canto do adro onde as pedras estavam empilhadas. Os bois, agradecidamente, mergulharam a cabeça no bebedouro. Onde está o mestre construtor?, perguntou o carroceiro a um pedreiro que passava. No castelo, foi a resposta do pedreiro. O carroceiro balançou a cabeça e virou-se para Tom. Você o encontrará no palácio do bispo, creio. Muito obrigado. Eu que agradeço.

Tom deixou o adro com Agnes e as crianças atrás. Refizeram seus passos pelas ruas apinhadas e estreitas até à frente do castelo. Ali havia outra vala seca e uma segunda imensa fortificação de terra que cercava a praça-forte. Atravessaram a ponte. Na casa da guarda, de um lado do portão, um homem corpulento de túnica de couro estava sentado, contemplando a chuva. Trazia uma espada. Tom dirigiu-se a ele: Bom dia. Sou chamado de Tom Construtor. Quero falar com o mestre construtor, John de Shaftesbury. Está com o bispo, respondeu o guarda indiferentemente. Eles entraram. Como a maioria dos castelos, aquele era uma colecção de edifícios de estilos diversos dentro de uma muralha de terra. O pátio ficava a cerca de cem jardas. Em posição oposta à do portão, do lado mais distante, estava a imponente fortaleza, a última cidadela em tempo de ataque, erguendo-se bastante acima das fortificações, a fim de ter boas condições de observação. À esquerda via-se um agrupamento de casas baixas, a maioria de madeira: um estábulo comprido, uma cozinha, uma padaria e diversos armazéns. Havia um poço no meio. À direita, tomando quase toda a metade norte do conjunto, ficava uma grande casa de pedra que obviamente era o palácio. Era construído no mesmo estilo da nova catedral, com pequenos portais e janelas caracterizadas por terem a parte superior arredondada, e tinha dois andares. Era nova; na verdade, alguns pedreiros ainda estavam trabalhando num canto, aparentemente construindo uma torre. A despeito da chuva, havia muita gente no pátio, entrando ou saindo e correndo de uma construção para outra: homens de armas, sacerdotes, comerciantes, operários da obra e criados do palácio.

Tom podia ver diversas portas no palácio, todas abertas, a despeito da chuva. Não estava bem certo do que deveria fazer a seguir. Se o mestre construtor estava com o bispo, talvez não devesse interromper. Por outro lado, o bispo não era um rei, e Tom era um homem livre e um pedreiro em busca de trabalho legítimo, não um abjecto servo com alguma queixa. Decidiu ser ousado. Deixando Agnes e Martha, atravessou com Alfred o pátio lamacento e entrou pela porta mais próxima do palácio. Os dois se viram numa pequena capela com o tecto abobadado e uma janela na outra extremidade, por cima do altar. Perto da porta, um sacerdote estava sentado a uma mesa alta, escrevendo rapidamente em papel velino. Ele ergueu os olhos. Onde está o mestre John?, perguntou Tom bruscamente. Na sacristia, respondeu o sacerdote, indicando com a cabeça uma porta na parede lateral.

Tom não pediu para falar com o mestre. Achou que se agisse como se estivesse sendo esperado perderia menos tempo. Atravessou a capelinha com algumas passadas e entrou na sacristia. Era uma câmara pequena e quadrada, iluminada por muitas velas. A maior parte do chão era tomada por uma caixa com areia, muito rasa. A areia fina tinha sido perfeitamente alisada com uma régua. Havia dois homens dentro da sacristia. Ambos olharam rapidamente para Tom e voltaram sua atenção para a areia. O bispo, um velho enrugado de olhos brilhantes, estava desenhando na areia com uma varinha pontuda. O mestre construtor, usando um avental de couro, o observava com ar paciente e expressão céptica. Tom aguardou em ansioso silêncio. Tinha que causar boa impressão; ser cortês, mas não servil, e demonstrar conhecimento sem ser presunçoso. Um mestre artesão deseja que os aprendizes sejam tão obedientes quanto talentosos.

Tom sabia disso por sua própria experiência como empregador. O bispo Roger estava esboçando um prédio de dois andares com grandes janelas dos três lados. Era um bom desenhista, fazendo linhas rectas e perfeitos ângulos de noventa graus. Fez uma planta e uma vista lateral da casa. Tom pôde ver que jamais seria construída. Aí está, disse o bispo ao acabar. O que é?, perguntou John, virando-se para Tom. Fingindo pensar que ele tivesse pedido sua opinião do desenho, disse: Não se pode ter janelas tão grandes assim numa cripta. O bispo fitou-o irritado. É uma sala de estudos, não uma cripta. Cairá do mesmo modo. Ele tem razão, disse John. Mas é necessário ter luz para poder escrever. John deu de ombros e virou-se para Tom. Quem é você? Meu nome é Tom e sou pedreiro. Foi o que pensei. O que o traz aqui? Estou procurando trabalho, respondeu, prendendo a respiração. John sacudiu a cabeça imediatamente. Não posso empregar você. O coração de Tom pareceu parar. Teve vontade de girar nos calcanhares, mas aguardou polidamente para ouvir as razões. Já estamos construindo aqui há dez anos, prosseguiu John. Muitos dos pedreiros já possuem casas na cidade. Estamos chegando ao fim, e agora tenho mais pedreiros na obra do que preciso na realidade». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

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sábado, 2 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Havia um andaime no lado leste, com uns oito ou nove metros de altura. Os pedreiros estavam na varanda, esperando que a chuva amainasse, mas os seus serventes subiam e desciam as escadas com pedras nos ombros»

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«A cidade era barulhenta, também. A chuva pouco fazia para amortecer o clamor das oficinas de artesãos, dos vendedores ambulantes apregoando suas mercadorias, das pessoas se cumprimentando, barganhando e discutindo, de animais relinchando, latindo e brigando. Que fedor é esse? - perguntou Martha, erguendo a voz acima do barulho. Tom sorriu. Fazia uns dois anos que ela não entrava numa cidade. É o cheiro de gente, respondeu. A rua era apenas um pouco mais larga do que o carro de boi, mas o carroceiro não quis deixar que os animais parassem, com medo de que não voltassem a andar novamente; assim, continuou batendo neles, ignorando todos  os obstáculos, e os bois prosseguiram forçando o caminho por entre a multidão, empurrando para o lado, indiscriminadamente, tanto um cavaleiro montado num cavalo de batalha quanto um morador da floresta com um arco, um monge gordo num pónei, homens de armas, mendigos, donas de casa ou prostitutas.

O carro de boi veio a ficar atrás de um velho pastor que lutava para manter reunido um pequeno rebanho. Devia ser dia de mercado, pensou Tom. Quando o carro passou, uma das ovelhas entrou pela porta aberta de uma venda de cerveja, e num segundo todo o rebanho estava dentro da casa, em pânico, balindo e derrubando mesas, bancos e jarras de cerveja. O chão que pisavam era um mar de lama e de lixo. Tom tinha a capacidade de observar, num relance, a queda da água da chuva num telhado, e a largura da calha necessária para fazer o escoamento; podia ver que toda a chuva que caía sobre os telhados daquela parte da cidade era drenada pela rua onde estavam. Num temporal forte mesmo, pensou, seria preciso um barco para atravessá-la.

À medida que se aproximavam do castelo na parte mais alta da colina, a rua se alargava. Ali havia casas de pedra, uma ou duas precisando de alguns reparos. Pertenciam a artesãos e comerciantes, que tinham suas lojas e oficinas no térreo e moravam no andar de cima. Examinando com o olhar de quem tinha prática aquilo que estava à venda, Tom podia afirmar que aquela era uma cidade próspera. Todos precisam de ter facas e panelas, mas só gente próspera compra xailes bordados, cintos decorados e broches de prata. Em frente ao castelo o carroceiro fez a parelha de bois virar à direita, e Tom e sua família o seguiram. A rua fazia uma curva de um quarto de círculo, rodeando as defesas do castelo. Passando por outro portão, deixaram o tumulto da cidade tão rapidamente quanto tinham entrado nele e ingressaram num tipo diferente de turbilhão: a diversidade agitada mas ordenada de uma área onde se erguia uma grande construção.

Estavam agora do lado de dentro do adro murado da catedral, que ocupava toda a quarta parte da cidade circular, a noroeste. Tom parou por um momento, observando. Só de ver, ouvir e cheirar aquilo ele se sentia emocionado como num dia de sol. Quando chegaram, à rectaguarda do carro de boi, dois outros saíam, vazios. Em oficinas que se estendiam ao longo das paredes laterais da igreja, pedreiros podiam ser vistos esculpindo os blocos de pedra com seus cinzéis e grandes martelos de madeira, dando-lhes as formas que juntas resultariam em plintos, colunas, capitéis, fustes, arcobotantes, arcos, janelas, peitoris, pináculos e parapeitos. No meio do adro, bem longe das outras edificações, ficava a ferraria, cujo clarão do fogo era visível através do portal; o barulho metálico do martelo batendo na bigorna se espalhava pelo adro, enquanto o ferreiro fazia novas ferramentas para substituir as que os pedreiros iam gastando. Para a maioria das pessoas era uma cena de caos, mas Tom via um imenso e complexo mecanismo que ele ansiava por controlar. Sabia o que cada homem estava fazendo e podia ver instantaneamente até que ponto o trabalho tinha progredido. Estavam construindo a fachada leste.

Havia um andaime no lado leste, com uns oito ou nove metros de altura. Os pedreiros estavam na varanda, esperando que a chuva amainasse, mas os seus serventes subiam e desciam as escadas com pedras nos ombros. Mais acima, no vigamento da estrutura do telhado, estavam os encanadores, como aranhas rastejando numa gigantesca teia de madeira, prendendo folhas de chumbo nos pontos de junção das escoras e instalando os canos de escoamento e as calhas. Tom percebeu que a construção, lamentavelmente, estava quase terminada. Se fosse contratado, o trabalho que restava ali não duraria mais que dois anos, não era tempo bastante para ascender à posição de mestre pedreiro, quanto mais de mestre construtor. Mesmo assim, aceitaria o emprego, pois o inverno estava chegando. Ele e a família poderiam sobreviver sem trabalho, caso ainda tivessem o porco. Mas sem ele, Tom precisava arranjar serviço». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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Os Pilares da Terra. Ken Follett.«Pedreiro? Sim. Procurando trabalho. Pode ser que consiga, disse o carroceiro, com neutralidade. Se não for na catedral, talvez no castelo. E quem governa o castelo? O mesmo Roger é bispo e castelão»

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«Salisbury ficava mais perto do que Tom pensara. Por volta da metade da manhã, subiram uma elevação e encontraram do outro lado uma estrada que descia suavemente à frente deles, numa longa curva; e depois dos campos banhados pela chuva, erguendo-se sobre a planície como um barco num lago, viram a cidade fortificada de Salisbury, erigida sobre uma colina. Seus detalhes estavam velados pela chuva, mas Tom pôde distinguir diversas torres, quatro ou cinco, elevando-se bem acima dos muros da cidade. Seu ânimo revigorou-se à vista de tanto trabalho de pedra.

Um vento frio castigava a planície, congelando-lhes o rosto e as mãos, enquanto seguiam a estrada que se dirigia ao portão leste. Quatro estradas se encontravam ao sopé da colina, em meio a algumas casas dispersas, que davam a impressão de terem extravasado da cidade, e foi ali que a eles se juntaram outros viajantes, caminhando com os ombros encolhidos e a cabeça baixa, projectando-se por entre o temporal para o abrigo das muralhas.

Na rampa que dava no portão encontraram um carro de boi com um carregamento de pedra, um sinal muito promissor para Tom. O carroceiro estava inclinado atrás do carro de madeira crua, empurrando com o ombro, acrescentando a própria força à da parelha de bois que subiam a rampa com muita dificuldade. Tom viu uma chance de fazer um amigo. Convidou Alfred com um aceno e os dois puseram os ombros na parte de trás do carro. As imensas rodas de madeira passaram com estrondo por uma ponte de vigas sobre um enorme fosso seco. Era impressionante aquele movimento de terra: a escavação da vala e o transporte da terra para construir a muralha deviam ter consumido centenas de homens, pensou Tom; era um trabalho muito maior que cavar os alicerces de uma catedral. A ponte sobre a vala tremeu e rangeu sob o peso do carro de boi e dos dois vigorosos animais que o puxavam. A rampa acabou, e o carro deslocou-se com mais facilidade pelo caminho plano, quando se aproximaram do portão. O carroceiro endireitou-se, da mesma forma que Tom e Alfred.

Fico-lhe muito agradecido, disse o carroceiro. Para que é a pedra?, perguntou Tom. Para a nova catedral. Nova? Ouvi dizer que estavam apenas aumentando a antiga. O carroceiro assentiu com a cabeça. É o que diziam, dez anos atrás. Mas agora tem mais coisas novas do que velhas. Mais notícias boas. Quem é o mestre construtor? John de Shaftesbury, embora o bispo Roger tenha muito a ver com o projecto. Aquilo era normal. Raramente os bispos deixavam os construtores fazer o trabalho sozinhos. Um dos problemas dos mestres construtores era frequentemente acalmar a imaginação febril dos clérigos e impor limites práticos às suas fantasias. Mas seria John de Shaftesbury quem contrataria os homens. O carroceiro acenou com a cabeça na direcção do saco de ferramentas de Tom. Pedreiro? Sim. Procurando trabalho. Pode ser que consiga, disse o carroceiro, com neutralidade. Se não for na catedral, talvez no castelo. E quem governa o castelo? O mesmo Roger é bispo e castelão.

Claro, pensou Tom. Tinha ouvido falar do poderoso Roger de Salisbury, íntimo do rei durante muito tempo. Eles atravessaram o portal e entraram na cidade. O lugar estava tão atulhado de construções, pessoas e animais que parecia em perigo de explodir e derrubar sua muralha circular, caindo dentro da vala. As casas de madeira erguiam-se uma do lado da outra, tão apertadas quanto espectadores de um enforcamento lutando por espaço. Cada pedaço de terra, por minúsculo que fosse, era utilizado para alguma coisa. Onde duas casas tinham sido construídas com uma passagem entre elas, alguém erguera uma habitação de meio tamanho, sem janelas porque a porta tomava quase toda a frente. Onde quer que o terreno fosse pequeno, até mesmo para a mais estreita das casas, havia uma banca para vender cerveja, pão ou maçãs; e se não houvesse espaço nem mesmo para isso, se ergueria um estábulo, uma pocilga, uma esterqueira ou um barril de água». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulconelli. «Sabei, meu irmão, escreve Filalet, que a preparação exacta das Águias voadoras é o primeiro grau da perfeição e para conhecê-lo é necessário um génio industrioso…»

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«(…) Encontramos nessa imagem o hieróglifo da primeira conjunção, a qual só se opera a pouco e pouco, à medida que se desenrola este labor penoso e fastidioso que os Filósofos chamaram as suas águias. A série de operações cujo conjunto conduz à união íntima do enxofre e do mercúrio tem também o nome de Sublimação. É pela reiteração das Águias ou Sublimações filosóficas que o mercúrio exaltado se despoja das suas partes grosseiras e terrestres, da sua humidade supérflua e se apodera de uma porção do corpo fixo que dissolve, absorve e assimila. Fazer voar a águia, segundo a expressão hermética, é fazer sair à luz do túmulo e trazê-la à superfície, o que é próprio de toda a verdadeira sublimação. É o que nos ensina a fábula de Teseu e de Ariana. Neste caso, Teseu é a luz organizada, manifestada, que se separa de Ariana, a aranha que está no centro da sua teia, o calhau, a casca vazia, o casulo, os despojos da borboleta (Psique). Sabei, meu irmão, escreve Filalet, que a preparação exacta das Águias voadoras é o primeiro grau da perfeição e para conhecê-lo é necessário um génio industrioso e hábil... Para atingi-lo, muito suamos e trabalhamos; passamos até noites sem dormir. Assim, vós que começais agora, persuadi-vos de que não tereis sucesso na primeira operação sem um grande trabalho... Compreendei então, meu irmão, o que dizem os Sábios, ao sublinhar que conduzem as suas águias para devorarem o leão, e quanto menos se empregam as águias mais rude é o combate e mais dificuldades se encontram para alcançar a vitória. Mas para aperfeiçoarmos a nossa Obra necessitamos, pelo menos, de sete águias, e deveria mesmo empregar-se até nove. E o nosso Mercúrio filosófico é o pássaro de Hermes a quem se dá também o nome de Ganso ou de Cisne e

algumas vezes o de Faisão. São estas sublimações que Calímaco descreve no Hino a Delos quando diz, falando dos cisnes:

É uma variante da procissão que Josué fez andar sete vezes à volta de Jerico, cujas muralhas caíram antes da oitava volta. Para assinalar a violência do combate que precede a nossa conjunção, os Sábios simbolizaram as duas naturezas pela Águia e pelo Leão, de igual força mas de compleição contrária. O leão traduz a força terrestre e fixa, enquanto a águia exprime a força aérea e volátil. Postos em presença, os dois campeões atacam-se, repelem-se, despedaçam-se mutuamente com energia até que, por fim, tendo a águia perdido as suas asas, e o leão a juba, os adversários constituem apenas um só corpo, de qualidade média e de substância homogénea, o Mercúrio animado.

No tempo já longínquo em que estudando a sublime Ciência, nos debruçávamos sobre o mistério repleto de pesados enigmas, lembramo-nos de ter visto construir um belo edifício cuja decoração, reflectindo as nossas preocupações herméticas, não deixou de nos surpreender. Acima da porta de entrada, duas crianças, um rapaz e uma rapariga, enlaçados, afastam e levantam um véu que os cobre. Os seus bustos emergem de um emaranhado de flores, folhas e frutos. Um baixo-relevo domina o coroamento angular, mostrando o combate simbólico da águia e do leão de que acabamos de falar e adivinha-se facilmente que o arquitecto teve alguma dificuldade em situar o embaraçador emblema, imposto por uma vontade intransigente e superior...» In Fulconelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos Símbolos Herméticos, Edições 70, 1975, Lisboa, Colecção Esfinge.

Cortesia de E70/JDACT

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terça-feira, 3 de maio de 2022

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulconelli. «… gravada uma cruz. É a expressão do carácter quaternário dos elementos e a manifestação dos dois princípios metálicos, sol e lua, esta martelada, ou enxofre e mercúrio, parentes da pedra, segundo Hermes»

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«(…) Igualmente a vossa pedra tem necessidade de alimento para aumentar o seu poder e esse alimento deve ser gradual, mudado em certo momento. Dai-lhe primeiro leite; seguir-se-á o regime carnívoro, mais substancial. E não vos esqueçais, após cada digestão, de separar os excrementos porque a vossa pedra poderia ser infectada por eles... Segui, portanto, a natureza e obedecei-lhe o mais fielmente que vos for possível. E compreendereis de que maneira convém efectuar a cocção quando tiverdes adquirido perfeito conhecimento do Regime. Assim, apreendereis melhor a apóstrofe que Tollius dirige aos assopradores, escravos da letra: Ide-vos, retirai-vos, vós que procurais com aplicação extrema as diversas cores nos vossos vasos de vidro. Vós que me fatigais os ouvidos com o vosso negro corvo, sois tão loucos como aquele homem da Antigüidade que tinha por hábito aplaudir no teatro, embora lá estivesse sozinho, porque imaginava sempre ter diante de si algum espectáculo novo. Assim sois vós quando, chorando de alegria, imaginais ver-nos vossos vasos a vossa branca pomba, a vossa águia amarela e o vosso faisão vermelho! Ide-vos, digo-vos eu, e retirai-vos para longe de mim, se buscais a pedra filosofal numa coisa fixa; porque ela não penetrará mais os corpos metálicos do que o faria o corpo de um homem nas muralhas mais sólidas... Eis o que tenho a dizer-vos das cores, para que no futuro deixeis os vossos trabalhos inúteis; acrescentarei uma palavra a respeito do odor. A Terra é negra, a Água é branca; o ar, quanto mais próximo do Sol, mais amarelece; o éter é completamente vermelho. A morte, como se diz, é igualmente negra, a vida é cheia de luz; quanto mais pura é a luz mais se aproxima da natureza angélica e os anjos são puros espíritos de fogo. Ora bem, acaso o cheiro de um morto ou de um cadáver não será fastidioso e desagradável ao olfato? Da mesma maneira o odor fétido, para os Filósofos, denota a fixação; pelo contrário o odor agradável assinala a volatibilidade, porque aproxima da vida e do calor. Voltando à parte mais baixa de Notre-Dame, encontraremos em sexto lugar a Filosofia, cujo disco tem gravada uma cruz. É a expressão do carácter quaternário dos elementos e a manifestação dos dois princípios metálicos, sol e lua, esta martelada, ou enxofre e mercúrio, parentes da pedra, segundo Hermes.

Os motivos que ornamentam o lado direito são de leitura mais ingrata; enegrecidos e corroídos, devem sobretudo a sua deterioração à orientação desta parte do pórtico. Varridos pelos ventos de oeste, sete séculos de rajadas desgastaram-nos ao ponto de reduzir alguns deles ao estado de silhuetas rombas e vagas. No sétimo baixo-relevo dessa série, o primeiro à direita, notamos o corte longitudinal do Athanor e o aparelho interno destinado a suportar o ovo filosófico; na mão direita, o personagem tem uma pedra. É um grifo que vemos inscrito no círculo seguinte. O monstro mitológico, cujos peito e cabeça são os da águia e que copia do leão o resto do corpo, inicia o investigador nas qualidades contrárias que necessariamente se devem reunir na matéria filosofal» In Fulconelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos Símbolos Herméticos, Edições 70, 1975, Lisboa, Colecção Esfinge.

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segunda-feira, 2 de maio de 2022

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulconelli. « Que quer isto dizer? Teriam os velhos autores enganado deliberadamente os seus leitores? E porque indicação deveriam os discípulos de Hermes substituir as cores desmaiadas para reconhecer e seguir o caminho certo?»

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«(…) Paracelso, no Livre des Images, fala assim das sucessivas colorações da Obra: Embora haja, diz ele, algumas cores elementares, porque a cor azulada pertence mais especificamente à terra, a verde à água, a amarela ao ar, a vermelha ao fogo, no entanto, as cores branca e negra referem-se diretamente à arte espagírica, na qual se encontram também as quatro cores primitivas, a saber, o negro, o branco,o amarelo e o vermelho. Ora o negro é a raiz e a origem das outras cores; porque toda a matéria negra pode ser reverberada durante o tempo que lhe for necessário, de maneira que as três outras cores aparecerão sucessivamente e cada uma de sua vez. A cor branca sucede à negra, a amarela à branca e a vermelha à amarela Ora toda a matéria, tendo atingido a quarta cor no meio da reverberação, é a tintura das coisas do seu gênero, ou seja, da sua natureza.

Para dar uma ideia da extensão que adquire a simbólica das cores, e especialmente das três maiores da Obra, notemos que a Virgem é sempre representada vestida de azul (correspondente ao negro, como diremos a seguir), Deus de branco e Cristo de vermelho. São essas as cores nacionais da bandeira francesa, que, aliás, foi criada pelo maçom Louis David. Para ele, o azul escuro ou o negro representavam a burguesia; o branco estava reservado ao povo, aos pierrots ou camponeses, e o vermelho à baillie ou realeza. Na Caldeia, os zigurates, que eram normalmente torres de três andares e a cuja categoria pertencia a famosa Torre de Babel, eram revestidos de três cores: preto, branco e vermelho-púrpura.

Até aqui falamos teoricamente, como os mestres fizeram antes de nós, a fim de obedecer à doutrina filosófica e à expressão tradicional. Talvez conviesse, agora, escrever para os Filhos da Ciência, de modo mais prático e menos especulativo e descobrir, assim, o que diferencia a aparência da realidade. Poucos Filósofos ousaram aventurar-se neste terreno movediço. Etteilla, referindo-se a um quadro hermético que teria na sua posse, conservou algumas legendas existentes na parte mais baixa daquele; entre elas lê-se, não sem surpresa, este conselho digno de ser seguido: não vos fieis demasiado na cor. Que quer isto dizer? Teriam os velhos autores enganado deliberadamente os seus leitores? E porque indicação deveriam os discípulos de Hermes substituir as cores desmaiadas para reconhecer e seguir o caminho certo?

Procurai, irmãos, sem desanimardes, porque aqui, como noutros pontos obscuros, deveis fazer um grande esforço. Sem dúvida haveis lido em diversas passagens dos vossos livros que os Filósofos só falam claramente quando pretendem afastar os profanos da sua Távola Redonda. As descrições que fazem dos seus regimes, aos quais atribuem colorações emblemáticas, são de uma perfeita limpidez. Ora, deveis concluir que essas observações tão bem descritas são falsas e quiméricas. Os vossos livros estão fechados, como o do Apocalipse, com selos cabalísticos. Deveis quebrá-los um a um. A tarefa é difícil, reconhecemo-lo, mas vencer sem perigo é o mesmo que triunfar sem glória. Aprendei, então, não em que é que uma cor difere de outra, mas sim em que é que um regime se distingue do seguinte. E, antes de mais, o que é um regime? Muito simplesmente a maneira de fazer vegetar, de conservar e aumentar a vida que a vossa pedra recebeu à nascença. É pois um modus operandi, que não se traduz forçosamente por uma sucessão de cores diversas. Aquele que conhecer o Regime, escreve Filaleto, será honrado pelos príncipes e pelos grandes da terra. E o mesmo autor acrescenta: Não vos escondemos nada, a não ser o Regime. Ora, para não atrair sobre a nossa cabeça a maldição dos Filósofos, revelando o que eles consideraram dever deixar na sombra, contentar-nos-emos em advertir que o Regime da pedra, ou seja, a sua cocção, contém vários outros, ou, por outras palavras, trata-se de várias repetições da mesma maneira de operar. Reflecti, recorrei à analogia e, sobretudo, nunca vos afasteis da simplicidade natural. Pensai que deveis comer todos os dias, para manter a vossa vitalidade; que o repouso vos é indispensável porque, por um lado, favorece a digestão e a assimilação do alimento e, por outro, o renovar das células enfraquecidas pelo labor quotidiano. E acaso não deveis expulsar frequentemente certos produtos heterogéneos, dejectos ou resíduos não assimiláveis?» In Fulconelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos Símbolos Herméticos, Edições 70, 1975, Lisboa, Colecção Esfinge.

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sábado, 22 de janeiro de 2022

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «… Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado»

 

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«(…) Ellen ultimamente começara a perceber isso, confessou ela, adivinhando os pensamentos de Tom. Jack nunca tivera a companhia de outras crianças, ou, na verdade, de outros seres humanos, excepto a mãe, e o resultado era que estava crescendo como um animal selvagem. Apesar de tudo o que aprendera, não sabia lidar com as pessoas. Era por isso que estava ali em silêncio, que encarava fixamente os outros e apanhava o que queria. Ao dizer isso, ela pareceu vulnerável pela primeira vez. Desapareceu seu ar de inexpugnável auto-suficiência, e Tom a viu como uma mulher preocupada e mesmo desesperada. Pelo bem de Jack, ela precisava retornar à sociedade, mas como? Se fosse homem, poderia ter conseguido convencer algum lorde a lhe dar uma fazenda, sobretudo se mentisse de modo convincente e dissesse que estava voltando de uma peregrinação a Jerusalém ou a Santiago de Compostela. Havia algumas mulheres trabalhando na lavoura, mas invariavelmente eram viúvas com filhos crescidos. Nenhum lorde daria uma fazenda a uma mulher com um filho pequeno. Ninguém iria querer empregá-la para fazer qualquer tipo de trabalho, na cidade ou no campo; além disso, não tinha onde morar, e o trabalho não qualificado raramente era acompanhado por oferta de moradia. Ellen não tinha identidade. Tom sentiu por ela. Dera à criança tudo o que podia, e não era o bastante. Mas ele era incapaz de ver uma saída para o seu dilema. Por mais bonita, determinada e formidável que fosse, estava destinada a passar o resto dos dias escondida na floresta com o seu filho esquisito.

Agnes, Martha e Alfred voltaram. Tom olhou ansiosamente para a filha, mas pelo seu jeito a pior coisa que lhe acontecera fora ter o rosto esfregado. Durante algum tempo, o construtor ficara absorto nos problemas de Ellen, mas agora se lembrou da sua situação difícil: estava sem trabalho e seu porco havia sido roubado. A tarde estava acabando. Começou a recolher as coisas que lhe tinham restado. Aonde estão indo?, perguntou Ellen. Winchester, disse Tom. Ali havia um castelo, um palácio, diversos mosteiros e, principalmente, uma catedral. Salisbury é mais perto, disse Ellen. E da última vez em que estive lá a estavam reconstruindo..., ampliando-a. O coração de Tom deu um pulo. Era aquilo que estava procurando. Se ao menos pudesse arranjar um trabalho num projecto em andamento, acreditava que um dia conseguiria se tornar mestre construtor. Como se vai para Salisbury?, perguntou ele ansiosamente. No caminho que vieram, uns cinco quilómetros ou pouco mais. Lembra-se de uma encruzilhada onde pegou a trilha da esquerda? Sim, perto de um lago de água suja. Isso mesmo. A trilha da direita leva a Salisbury. Eles se despediram. Agnes não gostara de Ellen, mas mesmo assim conseguiu dizer graciosamente: Muito obrigada por ter ajudado a tomar conta de Martha. Ellen sorriu e pareceu ficar melancólica quando eles partiram. Quando já haviam caminhado alguns minutos, Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado. Tom acenou, e ela respondeu com outro aceno. Uma mulher interessante, comentou ele com a esposa. Agnes nada disse.

Aquele menino era estranho, disse Alfred. Caminhavam no sol outonal de fim de tarde. Tom gostaria de saber como era Salisbury; nunca estivera ali. Sentiu-se excitado. Claro que seu sonho era construir uma catedral desde os alicerces, mas isso quase nunca acontecia: era muito mais comum encontrar uma velha edificação sendo melhorada, ampliada ou parcialmente reconstruída. Mas isso já seria bastante bom para ele, desde que lhe oferecesse a chance de ajudá-lo a um dia realizar seu objectivo. Porque aquele homem bateu em mim?, quis saber Martha. Porque queria roubar o nosso porco, respondeu Agnes. Devia ter um porco dele, disse Martha indignada, como se só agora percebesse que o fora-da-lei tinha feito algo errado. O problema de Ellen estaria resolvido se ela tivesse uma profissão, pensou Tom. Um pedreiro, carpinteiro, tecelão ou curtidor não estaria na sua posição. Sempre poderia ir para a cidade e procurar trabalho. Havia poucas artífices. Ela precisa é de um marido, disse Tom em voz alta. Mas não vai ficar com o meu, disse Agnes rispidamente.

O dia em que perderam o porco foi também o último dia de temperatura amena. Passaram aquela noite num celeiro, e quando saíram pela manhã, o céu estava da cor de um tecto de chumbo, e o vento frio trazia lufadas de chuva. Desembrulharam o manto de tecido espesso, feltrado, e o vestiram, apertando-o com força sob o queixo e puxando o capuz bem para frente a fim de proteger o rosto da chuva. Puseram-se a caminho melancolicamente, quatro fantasmas taciturnos metidos no temporal, os tamancos de madeira espadanando água e lama ao longo da estrada cheia de poças. Tom gostaria de saber como seria a Catedral de Salisbury. Em princípio, uma catedral era uma igreja como outra qualquer, simplesmente a igreja onde o bispo tem o seu trono. Na prática, porém, as catedrais eram as igrejas maiores, mais ricas, mais grandiosas e elaboradas. Raramente um simples túnel com janelas. A maioria se compunha de três túneis, um alto flanqueado por dois menores, como cabeça e ombros, formando uma nave central com duas laterais. As paredes do lado do túnel central eram reduzidas a duas linhas de colunas ligadas por arcos, constituindo uma arcada. As duas naves menores eram usadas para procissões, que podiam ser espectaculares nas catedrais, e proporcionavam espaço para pequenas capelas dedicadas a santos da devoção particular dos crentes, o que atraía importantes doações extras. As catedrais eram os edifícios mais caros do mundo, muito mais do que palácios ou castelos, e tinham que ganhar o dinheiro que custavam». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

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segunda-feira, 7 de junho de 2021

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Alfred porém não sabia escrever uma única palavra, e mal era capaz de reconhecer o próprio nome; Martha não conseguia fazer nem isso. Seria possível que aquela criança idiota…»


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«(…) Mas e o francês? Tom teve vontade de perguntar se era ele o pai de Jack. E se era, quando morrera? E como? Mas pela cara de Ellen, sabia que ela não ia falar a respeito dessa parte da sua história, e como parecia ser do tipo que não podia ser persuadida a agir contra a própria vontade, ele guardou as perguntas para si. Por essa época seu pai morrera e o bando se dispersara, de modo que Ellen não tinha parentes ou amigos neste mundo. Quando Jack estava para nascer, ela acendeu uma fogueira para ficar acesa a noite toda, na entrada da sua caverna. Tinha água e comida à mão, assim como o arco, as flechas e as facas, para afastar os lobos e cães selvagens, e até mesmo um pesado manto vermelho roubado de um bispo, para embrulhar o bebé. Só não estava preparada para o medo e a dor do parto, e por muito tempo pensou que fosse morrer. Não obstante, o bebê nasceu forte e saudável, e ela sobreviveu.

Ellen e Jack viveram uma vida simples e frugal durante os onze anos seguintes. A floresta lhes dava tudo de que necessitavam, desde que fossem cuidadosos para armazenar maçãs, nozes e carne de veado salgada o suficiente para passar os meses de Inverno. Não raro Ellen pensava que, se não houvesse reis, lordes, bispos e xerifes, todos poderiam viver assim e ser perfeitamente felizes. Tom perguntou-lhe então como se arranjava com os outros proscritos, homens como Faramond Boca Aberta. O que aconteceria se eles se aproximassem furtivamente de noite e tentassem estuprá-la?, perguntou ele, e o desejo despertou com o pensamento, embora jamais tivesse possuído uma mulher contra a vontade, nem mesmo sua esposa. Os outros fora-da-lei tinham medo dela, disse Ellen, fitando-o com os luminosos olhos claros, e sabia a razão: eles pensavam que fosse uma feiticeira. Quanto às pessoas obedientes à lei que viajavam pela floresta, pessoas que sabiam que podiam roubar, estuprar e matar uma fora-da-lei sem medo de punição, Ellen simplesmente se escondia delas. Porque então não se escondera de Tom? Porque vira uma criança ferida e quisera ajudar. Ela própria tinha um filho.

Ellen ensinara a Jack tudo o que aprendera na casa do pai acerca de armas e caçadas. Depois lhe ensinara a ler e escrever e tudo mais que aprendera com as freiras: música e aritmética, francês e latim, desenho, até mesmo histórias da Bíblia. Finalmente, nas longas noites de Inverno, transferira para ele o legado do francês, que sabia mais histórias, poemas e canções do que qualquer outra pessoa no mundo... Tom não acreditou que Jack pudesse ler e escrever. Tom sabia escrever o nome, e um punhado de palavras como pence, jardas e alqueires; e Agnes, sendo filha de um sacerdote, sabia mais, embora escrevesse lenta e laboriosamente, com a ponta da língua aparecendo no canto da boca; Alfred porém não sabia escrever uma única palavra, e mal era capaz de reconhecer o próprio nome; Martha não conseguia fazer nem isso. Seria possível que aquela criança idiota fosse mais alfabetizada do que toda a família de Tom? Ellen disse a Jack para escrever qualquer coisa, e ele alisou a terra e rabiscou umas letras. Tom reconheceu a primeira palavra, Alfred, mas não as outras, e sentiu-se um tolo; então ela o salvou, lendo em voz alta: Alfred é maior que Jack. O menino desenhou rapidamente duas figuras, uma maior que a outra, e embora fossem desenhos esquemáticos, via-se que uma das figuras tinha os ombros largos e uma expressão um tanto bovina, enquanto a outra era pequena e sorridente. Tom, que tinha um certo talento para desenhar, ficou atônito com a força e simplicidade do desenho garatujado na terra. Mas a criança parecia idiota». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

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domingo, 6 de junho de 2021

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Finalmente disse qualquer coisa em francês e, com o rosto iluminado de alegria, ele lhe respondeu na mesma língua. Ellen nunca mais voltou ao convento»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ouvindo a voz dela, na temperatura amena de uma tarde de Outono, Tom fechou os olhos e imaginou-a como uma garota de peito chato e cara suja, sentada a uma mesa comprida com os truculentos companheiros do pai, bebendo cerveja forte, arrotando e cantando canções sobre batalhas, pilhagens e estupros, cavalos, castelos e virgens, até cair adormecida com a cabecinha apoiada na tábua áspera. Se ao menos pudesse ter permanecido com o peito chato para sempre, teria sido feliz. Mas chegou a época em que os homens começaram a olhar para ela de modo diferente. Já não riam as gargalhadas quando dizia: saia do meu caminho senão cortarei fora suas bolas e as darei para os porcos. Alguns ficavam olhando, quando tirava a túnica de lã e se deitava para dormir com a camisa comprida, de linho, que usava por baixo. Quando urinavam no mato, viravam de costas para ela, o que nunca faziam antes. Um dia ela viu o pai mergulhado numa conversa com o sacerdote da paróquia, um raro acontecimento, e os dois ficavam olhando para ela o tempo todo, como se falassem a seu respeito. Na manhã seguinte seu pai disse-lhe: vá com Henry e Everard e faça o que eles disserem. Depois deu um beijo na sua testa. Ellen perguntou-se que diabo tinha acontecido com ele, estava ficando mole com a idade? Selou seu corcel cinzento, recusava-se a montar um palafrém, mais adequado a senhoras, ou um pónei de criança, e partiu com os dois homens de armas.

Eles a levaram a um convento e a deixaram ali. O local todo tremia, com suas pragas obscenas, enquanto os dois homens se afastavam. Ela esfaqueou a abadessa e voltou a pé para a casa do pai. Ele a mandou de volta, mãos e pés atados, e amarrada na sela de um jumento. Puseram-na de castigo numa cela até que o ferimento da abadessa sarou. Ali era frio, húmido e escuro como a noite, e havia água para beber mas nada para comer. Quando a deixaram sair da cela, mais uma vez voltou andando para casa. Seu pai a devolveu novamente, e então a açoitaram antes de a empurrarem na cela. Acabaram por vencê-la, é claro, e Ellen vestiu o hábito de noviça, obedeceu às regras e aprendeu as orações, mesmo que no fundo do coração detestasse as freiras, desprezasse os santos e não acreditasse, em princípio, em nada que qualquer pessoa lhe dissesse a respeito de Deus. Mas aprendeu a ler e escrever, passou a dominar a música, os números e o desenho, assim como acrescentou o latim ao francês e inglês falados na casa do seu pai. A vida no convento, afinal, não foi tão ruim assim. Era uma comunidade de um único sexo, com suas regras e rituais peculiares, e isso era exactamente aquilo com que estava acostumada. Todas as freiras tinham que fazer algum trabalho físico, e Ellen foi designada para cuidar dos cavalos. Antes que se passasse muito tempo, já era a encarregada do estábulo.

A pobreza jamais a preocupou. A obediência não veio com facilidade, mas acabou vindo. A terceira regra, castidade, nunca a incomodou, embora de vez em quando, só para contrariar a abadessa, ela apresentasse uma ou outra das noviças aos prazeres do... Agnes interrompeu a história de Ellen nesse ponto e, levando Martha, foi procurar um regato onde pudesse lavar o rosto da menina e limpar a sua túnica. Levou Alfred também, como medida de protecção, embora dissesse que não ia se afastar a uma distância superior a um grito. Jack levantou-se para segui-los, mas Agnes disse-lhe firmemente que ficasse, e o menino pareceu compreender, pois sentou-se de novo. Tom observou que Agnes conseguiu levar os filhos para onde não mais pudessem ouvir aquela história ímpia e indecente, deixando Tom ouvi-la.

Um dia, prosseguiu Ellen, o palafrém da superiora mancou, quando ela estava ausente do convento há diversos dias. O priorado de Kingsbridge por acaso era perto, de modo que a abadessa pediu emprestado ao prior outro animal. De volta ao convento, disse a Ellen para devolver o cavalo emprestado e trazer o palafrém manco. Ali, no estábulo do mosteiro, à vista da velha catedral em ruínas de Kingsbridge, Ellen conheceu um rapaz que parecia um cachorrinho que houvesse levado uma surra. Tinha a expressão alerta e a graciosidade de um filhote, mas era acovardado e assustado, como se toda a sua capacidade de brincar lhe tivesse sido arrancada a pancadas. Quando Ellen falou, ele não entendeu. Ela tentou latim, mas ele não era monge. Finalmente disse qualquer coisa em francês e, com o rosto iluminado de alegria, ele lhe respondeu na mesma língua. Ellen nunca mais voltou ao convento.

Daquele dia em diante passou a viver na floresta, primeiro num abrigo rústico, feito de galhos e folhas, depois numa caverna seca. Não tinha esquecido as habilidades masculinas que aprendera na casa do pai: sabia caçar veados, pegar coelhos com armadilhas e abater cisnes com o arco; sabia limpar a caça, eviscerá-la e prepará-la; sabia inclusive retirar e curtir o couro e as peles para as suas roupas. Além de caça, ela se alimentava de frutas silvestres, nozes e verduras. Qualquer coisa de que precisasse, sal, tecidos de lã, um machado ou uma faca nova tinha que roubar. O pior foi quando Jack nasceu...» In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

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