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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Memória Viva. Dávamos Grandes Passeios ao Domingo. Feliciano Falcão. «Na ardência humana que franja essa temática. Porque a sua caminhada é comum a todo o ser que sente, que pensa, que age. Que sofre. Que ama. Que sonha. Desde o pasmo do nascer. No espasmo de viver. Para depois morrer»

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Dávamos Grandes Passeios ao Domingo
«Em vezes que não foram poucas, eu escrevi sobre José Régio. No jornal A Rabeca e noutros lados. E falei, também. E até na televisão, depois do 25 de Abril. Lembro-me da primeira. Em 1941. Quando vivia em Alegrete, como médico. (Ali, num meio primitivo e devastador. Sem glória, sem proveito. sem a protecção estatal para as tarefas de saúde integral). Ao discorrer acerca dos Poemas de Deus e do Diabo, num artigo cheio de calor e de adjectivações entusiásticas. Em palavras que, sem o esperar, deram polémica na nossa pacata cidade. Com este escrito nos encontrámos. E, assim, eu tive, aqui, em Portalegre, a sorte rara de conhecer um Homem e um Génio.
Um Homem e um Génio, que é a síntese que fui fazendo, no correr do tempo, deste meu Amigo. Numa convivência de quase trinta anos. Na leitura da sua obra imensa e multímoda. A descobrir nessa convivência uma natureza humana riquíssima. A descobrir nessa leitura uma escrita avassaladora e ímpar. O Homem. O Homem que eu descobri. Na solidão e na solidariedade.
Na solidão impressionante da sua casa no largo da Boavista. Da sua casa velha, grande, tosca e bela, cheia de silêncios e espantos..., onde, com excepção dos Poemas... e da Biografia, imaginou toda a sua obra imorredoura. Na solidariedade entre os amigos. Igualitário no contacto. Sem egotismo. Sem narcisismo. A abrir-se, com o fascínio da sua fala lenta e pausada, na abordagem dos escritores que amava. Camilo, Antero, Nobre, Cesário, Florbela, Irene Lisboa, Sá-Carneiro, Sérgio... Flaubert, Tolstoi, Dostoievski... A abrir-se, senhor de uma fina sensibilidade e de uma inteligência superior, em diálogos intérminos, transfiguradores e formadores. A conduzir-nos, com o seu rigor e a sua exigência (o seu socratismo...) ao raciocínio claro e à maturidade dos juízos. À nossa definição, à nossa personalização. A respeitar-nos as opções e a liberdade.
Na solidariedade, na solidariedade escondida. A responder a cartas de semelhantes em aflição. Desconhecidos. A prestar-lhes ajuda moral e material. Em que depauperava mais a sua magra bolsa, sempre desequilibrada com os gastos do coleccionador infatigável de arte sacra e popular que era. (Esta é uma das faces ocultas de José Régio. A praticar o cristianismo no real. Em que a maior parte dos cristãos o pratica mal). Na solidariedade, ainda. Na solidariedade com o nosso povo. Contra a inumanidade de Salazar e a hediondez da ditadura. Na defesa de uma polis racionalizada, a pregar a Democracia. Como elemento acérrimo do MUD e partidário, na primeira linha, de Norton de Matos e de Humberto Delgado, nas campanhas presidenciais de 49 e 57. O Génio de José Régio.
Na nudez e na totalidade do vital. Sem instintivismos, ou humorismos, ou esteticismos. E que nessa nudez e nessa totalidade é do mais tenso e do mais patético da nossa literatura de todos os tempos. Na suma admirável dos seus poemas, dos seus romances, das suas novelas, dos seus contos, dos seus dramas. (Na intelecção lucidíssima dos seus ensaios e das suas críticas). Suma em que dividido entre o humano e o seu divino, perpassa a luta sem tréguas do seu ego consigo próprio. A sua fome de vida. A sua sede absoluta. O seu desejo de Deus. Na interrogação. No grito. Na confissão.
Em que perpassa a fraternidade com os humilhados e os ofendidos. Espoliados na sobrevivência e na dignidade, pelos prepotentes, pelos privilegiados e pelos ostentadores do dinheiro e do luxo. Em que a imagem da Mulher nos é dada com compreensão e amor. Nas suas consumições, nas suas frustrações, nas suas alienações. Que eu seja agnóstico e materialista do ponto de vista filosófico, cingido, portanto, à terrenidade, não obsta que admire o espírito criador de José Régio até à ilimitação. No fulcral da sua temática de fogo, na senda da religiosidade e da mística.


Na ardência humana que franja essa temática. Porque a sua caminhada é comum a todo o ser que sente, que pensa, que age. Que sofre. Que ama. Que sonha. Desde o pasmo do nascer. No espasmo de viver. Para depois morrer. Daí, destas palavras que aqui deixo, eu ousar dizer que José Régio, com o seu polimorfismo, o seu poliedrismo, a sua circularidade, é a figura literária mais singular do nosso século. No meio de tantas individualidades que também me deslumbram». In A Cidade, n.º especial dedicado aos 15 Anos da Morte de José Régio, 1984.

In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. Fernando Martinho. II. «A Quinta da Vista Alegre na Serra tornou-se-me, ao longo dos anos, um lugar de paz e refúgio. Não só à procura de um interlocutor atento aos múltiplos sinais dos tempos, do mundo da cultura e dos outros mundos»


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In Memoriam de JLT

Memória de Feliciano Falcão
«De Régio, de assiduidade irregular, me lembro de ter um dia ficado indisposto com a audição de uma peça (de Stockhausen?), que terá atingido zonas mais fundas da sua sensibilidade. Forte era magnífico a ler poesia, habitualmente de autores coligidos na antologia da Portugália organizada por Jorge de Sena, e que era, para alguns dos mais novos, indispensável livro de cabeceira. O pivot do grupo era sem dúvida Feliciano Falcão, homem de grande exigência cultural no domínio da literatura e das artes, pintura e música, actualizadíssimo, e muito atento às grandes questões que estavam no centro do debate cultural, a nível internacional. Mais tarde, sobretudo quando ele já residia na casa da Serra, tive ocasião de avaliar a extensão e a fundura dos seus interesses culturais, as suas firmes preferências musicais, Bartok, Anton von Webern, Luigi Nono, Luciano Berio, o seu insaciável amor pela literatura, a sua frequentação não apenas dos autores nacionais e dos franceses, como era de regra nas classes cultivadas da altura, mas também de escritores de outras áreas culturais como os espanhóis, de quem sempre, pelas vicissitudes históricas dos nossos dois povos, se sentiu muito próximo, ou os italianos, e ainda os Alemães de quem se reaproximou, num caso e noutro, em parte devido às deslocações frequentes que passou a fazer aos países onde viviam duas das suas filhas. Ainda hoje, quando me lembro do que era a largueza da cultura e do saber deste homem, e do generoso desejo de partilha que animava toda a sua intervenção, necessariamente também a que se situava no campo político, me interrogo como foi possível uma figura assim numa cidade que pouco teria a ver, espero, com o que me parece ser a cidade de hoje, mais aberta certamente aos ventos de mudança e inovação.
Por isso, nunca direi o suficiente acerca da alegria que me traz verificar o reconhecimento pela grandeza de um homem de cultura que deve ser apontado aos seus concidadãos como modelo de valores, como referência, numa época sempre à beira de perder o sentido da memória.
A Quinta da Vista Alegre na Serra tornou-se-me, ao longo dos anos, um lugar de paz e refúgio. Não só à procura de um interlocutor atento aos múltiplos sinais dos tempos, do mundo da cultura e dos outros mundos. Mas também, e sobretudo, em busca da generosa sageza de vida de um homem que combinava a inquietação, a que não faltava uma dimensão angustiada, pelos problemas dos homens com a serenidade de quem chegara ao entendimento de que a vida só ganhava sentido na total disponibilidade para com o Outro. Havia sempre imensa gente naquela casa, mas nunca senti dificuldades em encontrar espaços de concentração, de partilha, nas conversas com Feliciano Falcão e outros visitantes (quem sabe se à procura também do que ali, me levava), à volta de um livro, de um quadro, de um trecho musical, de um acontecimento político do momento. E havia ainda tempo, quando a visita era mais demorada, para fazer leituras próprias, ou mesmo escrever. Folheando há tempos os números que se publicaram da revista Sema, dei, num deles, com dois poemas que escrevi naquele ambiente de amizade e recolhimento. São textos onde paira a sombra da perda, que poucos meses antes se dera, de minha Mãe. E era de ‘dor’, de ‘aporia’, de ‘razão sombria’ que neles falava. Num deles, era a consciência aguda do heraclitiano fluir irreversível do tempo que dominava, e a Morte que me visitara atingira também irremediavelmente o espelho da infância onde nunca desistimos de nos procurar.
Mas àquele canto da sala grande, dando sobre a cidade lá ao fundo, azuladamente branca, com os verdes densos da vegetação descendo da Serra, em volta, muitas vezes havia de regressar. E ainda regresso. Pela memória, consoladora, aproximo-me dos quadros de Miguel Barrias, Abel Manta, Ventura Porfírio, abro uma janela e deixo que os cheiros fortes da Serra me devolvam as vidas que tive e as que não tive, oiço pedaços avulsos de conversas, Zélia falando da Natasha de Guerra e Paz, e, à mesa, sentado, no seu corpo grande e desajeitado, Feliciano Falcão sublinha artigos de jornal, absorto na fundura de uma vida a cuja partilha o seu olhar límpido e confiante permanentemente nos convidou».  
In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. Fernando Martinho. I. «Não resisto à tentação de, aqui, transcrever o “Soneto do Desmantelo Azul”, que se tornou, para mim um poema de culto, que, ao longo dos anos, fomos recitando a todos os amigos amantes de poesia que nos visitavam»



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Memória de Feliciano Falcão
«Tenho, entre os meus livros de autores brasileiros, um que especialmente prezo. E, no entanto, o seu autor não se encontra propriamente entre os de minha mais assídua frequentação, como os poetas Manuel Bandeira, Carlos Drummond Andrade ou João Cabral Neto. É que o livro em questão, Os Velhos Marinheiros, de Jorge Amado, me foi oferecido por um amigo muito querido, e tem inscrita numa das suas primeiras páginas uma dedicatória que me traz de volta todo um período de descoberta e exaltação da minha vida e a marca que nela, então, deixou, a figura que hoje estamos aqui a homenagear. Eis as palavras que Feliciano Falcão inscreveu à entrada do livro de Jorge Amado de que tão generosamente me fazia oferta:
  • ‘A Fernando Martinho, à sua juventude [...], para que se maravilhe como eu, quase com a sua idade, me maravilhei com Jubiabá e os Capitães da Areia... A dedicatória está datada de ‘Portalegre,30/10/1961’.
Tinha 23 anos, e uma das duas histórias da Bahia que constituíam o volume a tal ponto me deixou maravilhado que, trinta e poucos anos depois, quando me convidaram para colaborar num número de homenagem de uma revista italiana a Jorge Amado, foi sobre ‘A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua’ que, deliciadamente,escrevi (Quaderni lbero-Americani [Omaggio a Jorge Amado], n.º 74, Dezembro de 1993).
Não é, porém, desse escrito sobre a incrível história de Quincas e do lugar que nela ocupam o grotesco e o carnavalesco que quero, agora, falar. Retenho, sim, a homenagem que, então, decidi prestar a Feliciano Falcão, fazendo anteceder o meu texto da seguinte epígrafe:
  • À memória do meu saudoso amigo Feliciano Falcão, grande admirador de Jorge Amado, que em 1961 me ofereceu Os Velhos Marinheiros.
Pouco era, com certeza, mas assim deixava, de alguma forma, associada a esse escrito a memória de alguém que muito me marcara e a quem devia uma daquelas amizades, puras e limpas, que dão sentido à vida. (Releio, agora, a dedicatória do próprio Jorge Amado impressa no limiar do seu livro e constato com espanto que entre os seus dedicatários está um poeta brasileiro, Carlos Pena Filho, pouco antes falecido e de cuja poesia muito recentemente tomara conhecimento através de uma antologia organizada por Alberto Costa Silva, sob os auspícios do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil em Lisboa, A Nova Poesia Brasileira. Não resisto à tentação de, aqui, transcrever o “Soneto do Desmantelo Azul”, de Carlos Pena Filho, que se tornou, para mim e para a Joana, um poema de culto, que, ao longo dos anos, fomos recitando a todos os amigos amantes de poesia que nos visitavam:

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramámos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembrámos
que no excesso que havia em nosso espaço
 pudesse haver de azul também cansaço.

E perdido de azul nos contemplámos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Também a Feliciano Falcão o demos a ouvir de uma vez que, com a Zélia, em Évora nos visitou. No sul ou no azul onde agora está certamente o lerá com vertiginoso agrado.
Em Outubro de 1961 andava eu absorvido com a redacção da tese de licenciatura. William Hazlitt ocupava-me, então, inteiramente as manhãs. Ao fim da tarde tinha um grupo de explicandos de Alemão. E à noite, no Facha, havia a roda de amigos. Régio, Feliciano Falcão eram presenças frequentes na tertúlia, que as autoridades olhavam com suspeição. Não me lembro exactamente quando, se ainda nos últimos meses desse ano, se já no decurso de 1962, começámos a reunir-nos, alguns do grupo do Facha, no escritório de António Teixeira e Ernesto de Oliveira. O pretexto para essas reuniões foram umas inocentes lições de Inglês, que estavam a meu cargo. Para além dos dois anfitriões, de um simpático juiz que apareceu duas ou três vezes, a turma, com diferentes graus de diligência, incluía o Ventura Reis, muito britânico no sentido de humor, no gosto pelo laço e nos casacos de linho no Verão, Feliciano Falcão, aplicadíssimo na preparação das lições, Manuel Dias Fonseca, musicólogo e professor de Física e Química no Liceu, Florindo Madeira, José Bizarro, e, uma vez por outra, Régio e António José Forte, com o cómodo estatuto de ouvintes. O Inglês não era efectivamente mais do que um saudável pretexto, e, ao fim de meia hora, pouco mais, podíamos fechar tranquilamente o manual, creio que da Longmans. Vinha, depois, o que nos interessava: as conversas sobre isto e aquilo, as audições de peças musicais, as leituras de textos. Dias Fonseca levava  consigo um daqueles pesadíssimos gravadores que então se usavam e era tudo menos complacente no que nos dava a ouvir: música de vanguarda, muito em sintonia com o que era o seu gosto exigentíssimo de connaisseur». 
In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. José Régio e Portalegre. «O eco da sua poesia, da sua estética, de influxos renovantes, das suas capacidades críticas notáveis, da sua personalidade inconfundível, parece não ter chegado ainda a este recanto alentejano»


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De Feliciano Falcão
«Para os que vivem os problemas do espírito, José Régio, no nosso meio, é uma rajada de luz e de conforto intelectual. Para os que não vivem (fruidores de conceitos estreitos, improdutivos e inertes), o poeta, na sua radiosa projecção, confunde o amorfismo das suas consciências primárias e vazias. Neste número, e isto é preciso dizer-se sem eufemismos, está a maior parte da intelectualidade portalegrense.
De surpreendentes vistas em redor, com cenários exteriores que deslumbram, Portalegre - berço de Duro e de Cristóvão Falcão - por dentro é de uma apatia desanimante. É frouxo o entusiasmo para as impressões estéticas, para as manifestações do espírito, em demanda de uma sã arrumação da vida, num plano de larga e luminosa beleza. Mentalidade fruste, eivada de paixões medíocres, parcelar no juízo e fragmentária de conhecimento, invertebrada e anárquica em fúteis e provincianas críticas, a maioria da nossa elite, sem uma apreensão viva do todo numa integração dinâmica, oposição anacrónica com o surto de anelos que o mundo põe na nossa frente, em complicada e extenuante equação, voga ao sabor de ideias feitas, alheia ao marulhar da Vida plena, num desinteresse pela cultura, desorientador e pasmoso.
Vive-se de estímulos epidérmicos e banais. A percepção é de sensório. A visualidade é superficial e baça. Não há a noção de perspectiva e de síntese globalizada. É triste desenhar o quadro, mas a realidade é assim e tudo o mais seria figurar um rodeio de artifício que encobrisse o abulismo e a insuficiência.
Fala-se do analfabetismo das massas, mas o das elites não é menor e requer combate, também. Onde o amoroso interesse pela arte e pela vida das ideias? Onde o anseio de uma cultura que enobreça? (Que faça Homens?).
Assiste-se a uma estagnação miseranda, a um embevecimento de ‘asinus ad lyram’. É bem verdade, Régio na nossa terra vive como na história conhecida: olham para ‘ele’ como boi para palácio... Não é isto um sintoma de vida materializada e grosseira? Quantos aqui se apontam que conheçam o poeta dos ‘Poemas de Deus e do Diabo’, da ‘Biografia’, das ‘Encruzilhadas de Deus’ e o coloquem conscientemente no panorama das nossas letras?
José Régio, poeta, crítico, romancista e escritor de teatro, reside há mais de dez anos em Portalegre, para onde o trouxeram seus labores profissionais, sem que à sua volta, em tempo algum, sentisse um lampejo de curiosidade pela sua obra originalíssima e vibrante (não deixemos de dizer: dos mais extraordinários das nossas letras contemporâneas). O eco da sua poesia, da sua estética, de influxos renovantes, das suas capacidades críticas notáveis, da sua personalidade inconfundível, parece não ter chegado ainda a este recanto alentejano. Não se dá por coisa alguma. E, no entanto, estamos na presença de um singular temperamento de intelectual que dignifica nobremente o espírito, onde o poeta se individualiza como dos maiores da nossa língua e da nossa literatura poética de todos os tempos.


A poesia de Régio é uma dissecação abismal do seu ‘Eu’, opresso e torturante. As suas faculdades intelectivas e uma imaginação cautelosa, temperada de emoção rubra, se debruçam persistentemente sobre o seu ser anímico com um ‘élan’ criador de grandeza imperecível. Nas suas dúvidas íntimas, na sua solidão, autobiópsia exaustiva, se devassam os recessos psíquicos do Homem e se procuram interpretar os seus destinos, numa ânsia quase mística de libertação e beleza integrais. Subjectivista, vivendo de si, para si e dentro de si, numa dramatização perene), seu Ego hipertrófico, de aparente renúncia perante os problemas da existência, plasma as angústias e os anseios de todos os homens numa inquietação gritante. Todos os que, cogitando sobre a Vida, alentam supremas altitudes, ali se espelham numa realidade fúlgida.
E assim se esquematiza um dualismo chocante: numa ambiência morna e monótona, um poeta vive para que se não olha. Alegrete, Novembro de 1941. A Rabeca, nº 1203, 6-12-1941, p. 1».  
In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

P.S.: O que acaba de ler-se foi escrito antes das leituras de ‘Fado’, recentemente aparecido. Do multiforme poder criador de Régio nova faceta aqui se espraia, de motivos humaníssimos.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. Portalegre: «A questão, a questão é mais vasta e não se compadece com arranjos parcos. Para um corpo chagado e tão anémico, emolientes, remendos e paliativos de superfície, todos postos a brilhar como fachada, que deixam íntegro o núcleo estagnativo, mórbido e letal, nunca foram remédios salutares»

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De Médico a Curandeiro em Terras Medievais
«Do ilustre conterrâneo, Feliciano Falcão, publicou o jornal “A República”, de 27 de Novembro de 1945, uma crónica interessante e exacta, sob o título acima mencionado, acerca dos meios que são facultados aos médicos que, por necessidades imperiosas da vida, têm de exercer a sua profissão nas aldeias e também sobre a forma como pode ser prestada a assistência médica em tais povoações.
Crónica dura, mas real, bem vinca o esforço titânico do médico, no meio em que os mais elementares princípios de higiene e profilaxia não existem, por deficiência da organização. O depoimento do destino médico é claro e insofismável e, estamos certos, contribuirá em muito para a reforma que terá de ser feita sobre assistência médica, nas povoações sem recursos e distantes dos meios hospitalares.

Porque é necessário divulgar as deficientes condições actualmente verificadas, com toda a nossa concordância, transcrevemos parte da sua brilhante crónica, lamentando apenas que a falta de espaço nos impeça a publicação integral:
  • [...] Para tarefa tão gigantesca, ficam só ao João Semana, em esquema pungente, que é o esqueleto de uma realidade negra, o tonendoscópio para, por veredas e azinhagas num burro lazarento, com, uma que outra vez, a amenidade do ‘cross-country’ e o alpinismo descobrir a doença no alquebrado corpo do aldeão, e as papas de linhaça como tratamento barato, por insuficiência da Organização Estatal e por mor da magra bolsa do doente.
Que a diagnose fina e uma terapêutica racional e o alicerce da profilaxia (sonhos idos...) vão sendo coisas inatingíveis e do domínio da utopia.

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Esta é também uma pequena história do médico da aldeia, que vai de provação em provação, até precipitar-se na maior:
  • ‘a de, após ter-lhe sido cerceado o conforto e a cultura e limitado o fisiologismo gástrico, e o dos seus, não poder chegar - para fruição íntima, necessidade criada, e como dádiva imperativa à comunidade, à seiva pura da Medicina verdadeira, porque o amparo é flébil, e tudo se pantaniza’.
Mas... as casas do povo, neste binómio médico-camponês, não têm impulso decisivo, dir-se-á? Para os encarniçados que se contentam com palavras, que são expressão de uma evidência límpida, alguns números poderão servir: na aldeia onde exercíamos clínica, o inquérito às condições de vida, para efeitos do racionamento, mostrou que o agregado rural estava incluído nos grupos dos que ganhavam por mês entre 0 - 150$00 e 150$00 - 300$00. Indigência e roçar de indigência...
A casa do povo dava de subsídios ao trabalhador:
  • a) -Por invalidez: 2$50 por dia. É este o arrimo pata a velhice...
  • b) - Na doença: 2$00 por dia. Se a doença se prolongava além de dois meses, era-lhe cortado o subsídio, ficando a pedir por portas...
  • c) - Por nascimento de filhos: 20$00. Estes 20$00 que a jovem mãe ia receber com o rosado pimpolho ao colo, que ao fim de meses seria outro, amarelinho e raquítico - voltavam sistematicamente à Casa do Povo para pagar as cotas em atraso. Saíam por um lado e entravam por outro...
  • d) - Farmacêutico: 50% do custo da medicação para o trabalhador doente e nada para a mulher e para os filhos. Quantas vezes assistimos a verdadeiros dramas, com esta limitação de meios tão radical para atacar o morbo!
  • e) - Surgia um tuberculoso e queria-se mandar para o sanatório. Quando aparecia a vaga, após meses e meses, já o doente estava no cemitério. Mas surgiam outros na casa a ocupar o lugar e as coisas repetiam-se com a mesma terapêutica fúnebre.

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Não é o salário calamitoso do trabalhador, não é o professor primário (outra generosa vítima da aldeia, apertando o cinto das calças), com a Escola tateante, por um lado, e despovoada, por outro, e crianças com barrigas vazias, como podem encher a escola? -, nem o clínico sem meios para exercer a sua acção que resolvem o problema angustioso. A questão, a questão é mais vasta e não se compadece com arranjos parcos. Para um corpo chagado e tão anémico, emolientes, remendos e paliativos de superfície, todos postos a brilhar como fachada, que deixam íntegro o núcleo estagnativo, mórbido e letal, nunca foram remédios salutares.
A via justa, a transfusão, a medida drástica, radical, elevar o baixíssimo nível de vida das populações rurais e nesta economia folgada articular, em engrenagem unitária, a Pedagogia e a Medicina actualizadas, não a perseguiram aqueles organismos. Não estava nos seus intentos.
E só assim os camponeses teriam um lugar ao sol. E o João Semana e o Mestre-Escola redimidos, cônscios e amparados, lhes levariam o seu trabalho fecundo. "República, nº5417,27-II-1945, pp. 4 e 5"». In Feliciano Falcão, Memória Viva, coordenação de António Ventura, Edições Colibri, CM de Portalegre, 2003.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Feliciano Falcão. Memória Viva. Portalegre: «E eu sentei-me no chão frio, comendo com eles o que levava na minha bolsa. Ainda sinto, a tantos anos de distância, o sabor daquele pão comido com os "Musas" sob o céu mágico dessa noite da Natal. Por isso, este, porque outros "Musas" sempre vivem, deu-me desde esses tempos distantes uma atitude de recolhimento e de amargo inconformismo»

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Um Natal Distante… Os "Musas"
«Conheci-os na minha infância longínqua como companheiros de brincadeira. E ora que ora sua lembrança com insistência me volta, numa presença violenta de emoções encadeadas. E uma noite de Natal me acode nítida, passada com eles nesse tempo tão remoto. Tenho nos olhos tudo como se fora hoje. A noite, bela e ríspida, com estrelas e luar, - um luar de brancura líquida a envolver a atmosfera. Na minha rua, na periferia da cidade (chamo-lhe minha, tantas as recordações duras e doces que ainda guardo e por elas modelei esta personalidade simples), era um silêncio rústico quase total. Todos recolhidos, uns, poucos, na unção da grande Noite, outros, a maioria, exaustos e mergulhados num sono fundo, sedante para as frustrações do dia a dia... Na minha casa, lar modesto de camponeses transplantados para a cidade, onde os dias eram iguais uns aos outros, numa suave monotonia, gozava-se um interregno de Felicidade. Meu pai, de olhos azuis e a bondade estampada no rosto, sentava-se, absorto, num banco a um dos cantos da lareira, olhando os grossos tições vermelhos. Minha mãe ocupava o outro canto numa cadeira de bunho, tirando da caçarola com o azeite fumegante as filhós encarquilhadas. Nós - eu e os meus irmãos - ficávamos entre ambos, exultantes e suspensos, num banco rústico, baixo e comprido. Pela chaminé caíam flocos de fuligem sobre o lajedo da lareira. E sentia-se lá fora um vento fino que mais avolumava o senso de conforto da nossa casa pobre.
Nem o meu pai leria naquela noite o folhetim ingénuo do Notícias que o comovia até às lágrimas. Nem a minha mãe levaria o serão ponteando meias como era seu hábito. Em roda tudo era mágico e prenhe de pulcritude, grato à imaginação infantil. Ali vivíamos esses momentos da Noite com uma simplicidade como a dos tempos bíblicos.

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Mas esse contentamento puro de uma família simples (só as almas simples e as crenças podem ter contentamentos puros, integrais) em breve foi perturbado por plangência arrastada, cada vez mais próxima, vindo das costas da rua, para as bandas do jardim. Um soluço de tonalidade infantil com intermitências agudas que punham frémitos nas nossas mentes incipientes. Vidas em botão, sós no mundo, ao deus-dará, sem um amparo, por flébil que fora, os «Musas» faziam o triste deambular costumado, a pôr uma obumbração na Noite festiva e bela.
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Da mãe só tinham uma memória esfumada. O pai, sob o jugo de uma vida sem grandeza, conformado, umas vezes aqui, outras ali, pária em instabilidade pecuniária crónica, continuava nos filhos quase na origem o seu fado sombrio. (Há certas vidas cínzeas dos homens de pura irracionalidade e adensada torturação. Se tudo lhes é negado e nem o vegetativo satisfazem. Ai, esta ladeira de ascensão para o justo e para o perfeito onde os seres e as coisas se nos espraiam até o âmago, dá-nos outro alento e um vigor novo!).
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E assim os "Musas" encetavam no Mundo logo à nascença um drama dos mais tristes. Sujos, cheios de parasitas, descalços e rotos (metidos em calças compridas, safadas...), cobertos de sacos velhos, os vimos nestes dias invernosos, sempre juntos, semelhando dois irmãos siameses. Um, o mais velho, seria da minha idade (João, onde estás?), de um castanho acobreado, de olhos grandes, era o professor do irmão, ele tão necessitado de protecção, também. O outro, fino, linfático, de cabelos louros, parece-me agora de longe um bambino de Fra Angélico... Quantas vezes, quantas, corri com eles a avenida florida, primaveril, num viver despreocupado de almas pequeninas! E quantas, pela madrugada eu os sentia já vagueantes, acordados ao toque de alvorada do Quartel e à hora do almoço, dia após dia, de volta da Escola os encontrava à porta da parada metidos na bicha intérmina (uma fila heterogénea de corpos lassos, homens, mulheres, crianças) cada um com a sua lata ou panela a mendigar as sobras do rancho!
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Cortesia de cmp

E foi assim que a noite cheia de luar me tirou o terror todo e o primeiro anseio de solidariedade nasceu em mim naquele transe. Procurei na arca uma bolsa de chita onde meti uns nacos de pão e um bocado de toucinho também. E juntei, ainda quentes, filhós e azevias. Fugi a porta fora com o assentimento comovido de meu pai, de minha mãe, e o pasmo de meus irmãos, e, banhado de luar, sem medo (que o tocar lúgubre da corneta do sereno nem nessa noite se ouviria) tomei, rua abaixo, o rumo do recanto onde pernoitavam os «Musas». Lembro-me ainda das janelas iluminadas da casa do vizinho em frente, onde viviam duas donzelas bonitas (oh! as coisas impuras que desencantam!: Mais tarde vim a saber como a corrupção minava a face folgazã daquele homem abominável), e de um romântico enamorado, de fato negro, encostado à parede, cor de cera, héctico, morrendo aos poucos com pulmões lacerados, a olhar a namorada também héctica, lá, muito alta, inacessível. Na cidade, muitas luzinhas em emulação pálida com as estrelas e, ao cimo, a ermida de S. Cristóvão e o pinheiro esguio furando para o Céu, persistente, como numa prece estéril. Ao dobrar da esquina havia um recôncavo na parede da igreja e ali estavam os meus amigos agarrados um ao outro, gelados, num choro monocórdico, cobertos com sacos esfarrapados por onde espreitavam as estrelas.

E eu sentei-me no chão frio, comendo com eles o que levava na minha bolsa. Ainda sinto, a tantos anos de distância, o sabor daquele pão comido com os «Musas» sob o céu mágico dessa noite da Natal. Por isso, este, porque outros «Musas» sempre vivem, deu-me desde esses tempos distantes uma atitude de recolhimento e de amargo inconformismo. A Rabeca, nº 1413-1414, de 25-12-1946, pp. 3 e 8». In Feliciano Falcão, Memória Viva, coordenação de António Ventura, Edições Colibri, CM de Portalegre, 2003.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 11 de setembro de 2011

Feliciano Falcão. Memória Viva. Pinceladas Agrestes. «Para amostra, quero apresentar dois colegas universitários (deveis conhecer...) dessa corrente dominante. São dois símbolos. Duma cultura “sui-generis”, Jeremias e Tomé têm em si o exemplo vivo da labareda mortiça que galvaniza a juventude. Entre Antero e Preguiça, optam pelo Preguiça…»

Cortesia de ecolibri

De Feliciano Falcão
«Neste cachoar incessante de dinâmica produção espiritual, de luminosas perspectivas que anunciam o dealbar duma Vida Maior, cheia de Cor e Ideia, nesta aragem vivificante, mensageira de primaveris florações, há rasgos curiosos de moços nossos colegas que são definições das suas capacidades penumbrosas. São pérolas raras (raras?) do nosso espírito juvenil.
Uma onda de incontida rebeldia... estática, sacode as suas cerebrações maciças incutindo-lhes entusiasmos que são hinos vibrantes ao culto da serenidade pétrea, do quietismo fóssil. Debruçados sobre o mundo em chilreante devenir, impressionistas sensoriais sem mais nada, animados de míopes visões em que o futuro é para eles um mar largo e calmo, sem vagas perigosas, o sopro sublime da cultura varre os seus espíritos como o grão de areia o rochedo...
Consciências definitivas perenes de idealizações lanígeras, onde se descortinam imagens modestas, anseios fisiológicos dum viver estomacal, eis a conformação íntima desses moços - património inglório das nossas gerações. E aqui está o dinamismo «au Ralenti» dessa mocidade...
Para amostra, quero apresentar dois colegas universitários (deveis conhecer...) dessa corrente dominante. São dois símbolos. Duma cultura “sui-generis”, Jeremias e Tomé têm em si o exemplo vivo da labareda mortiça que galvaniza a juventude. Entre Antero e Preguiça, optam pelo Preguiça (este é pouco conhecido; é privilégio dos espíritos cultos como o Jeremias e o Tomé).

Cortesia de ecolibri

Ecléticos à sua maneira, as suas faculdades abarcam as actividades mais diversas, em cambiantes duma profusão intelectual curiosa:
  • o «burro,
  • o «foot-ball»,
  • a aficion» cinéfila...
São facetas múltiplas da sua insatisfação psíquica, sensorial. E assim vão espalhando os verdores da sua cultura negativa, pelos colegas seus amigos, influenciando-os do mesmo sentido panúrgico da vida. Jeremias é, um rapaz tímido, quase gordo. Estuda muito, estilo urso, devorando os livros numa sofreguidão de ruminante (não absorve tudo, como na digestão). É hipocondríaco (tem vislumbres de Raskolnikoff, mas medular...) por intoxicação «calhamácico». A despeito de muito estudar, o Jeremias ocupa-se da literatura, para cultivar e desentorpecer o espírito, extenuado de trabalho memorial. Leu há tempos o Quixote. Não gostou. Achou-o muito imaginoso, caricato, irreal, aborrecido, enfim, por ser poeta - um autor sem a noção realista da vida, a noção gástrica. Chamou-lhe a atenção o Sancho, porque descobriu inclinações semelhantes no seu feitio.

Tem preferências interessantes: gosta da psicologia de Pualo Kock e do «profundismo» de Conan Doyle. Quase filósofo com os conceitos que a leitura destes autores lhe inspira, o Jeremias aprecia, sobranceiro, o movimento do pensamento desde Platão a Einstein, mas não se detém em nenhum. Por uma necessidade imprescindível, prefere a filosofia de Brillat-Savarin, mais substancial e caseira...

Cortesia de ecolibri

O Jeremias é um esteta, no pólo aposto ao de Wilde, aprecia, objectiva e sensualmente, Ticiano e Rubens, nas formas roliças, de carnes exuberantes, duma sopeira que tem em casa. Socialmente, é pela concorrência vital e antimaltusianista e, por isso, defende-se e arranja-se como pode.
Eis o panorama do mundo jeremíaco: para além do Jeremias, como um prolongamento da sua vida, o calhamaço, cristalização da sua alma torturada; a natureza (bela ou sem beleza, pouco importa), com as suas variedades fáunica e floral, fonte de produtos comestíveis... Dentro do Jeremias, no âmago do seu ser amorfo, uma dúvida anelante que se esfuma, se corporiza, tomando realidade num papel, o diploma redentor, carta de alforria da sua personalidade intelectual, respeitável. Que mais descortino no escaninho subjectivo do Jeremias? Ah! Flutuações, vagas flutuações num espírito compacto. O Tomé é dotado de maior vivacidade. E um rapaz de bom-tom, vestindo impecavelmente numa elegância brumellesca. Frequenta a sociedade, tem hábitos mundanos e é um pouco D. Juan. Estuda menos que o Jeremias (pois tem muitas ocupações). Não gosta de ler, porque, segundo a sua opinião, a leitura prejudica as ideias originais de que é fecundo o seu espírito. Apenas, de vez em quando, para avivai certos assuntos, lê o Diário de Notícias. É um autodidacta. Já ouviu falar de Unamuno e... Jorge Ohnet.

Antipatiza com ambos (não os conhece e, em geral, quando se desconhece uma pessoa, não se tem muita simpatia por ela...). Na filosofia do Nada, atingida «à priori», sem grande esforço, o Tomé encontra uma solução para a sua vida repleta de preocupações.

Cortesia da ecolibri

Encafuado na sua torre de marfim, com ideias inatas, a sua consciência obumbrada de incrustações granitóides, porque tem horror à metafísica, germina conceitos práticos de psicologia culinárica, despidos de transcendências. Independente como é, olha o tumultuar cósmico das ideias e tem atitudes de desdém olímpico, na sua face serena. De pensamento em pensamento original, o Tomé chegou aos juízos tatetas e simpáticos do Pangloss de Voltaire. É portanto um optimista. Sob o ponto de vista artístico, o gosto tomésico é mais apurado que o jeremíaco, mas unilateral também: o seu sentimento estético consubstancia-se na apreciação gulosa do modernismo feminino, fútil e vaporoso, dos fìgurinhos de Dekobra e Insúa. No campo social, o Tomé, em parte, concorda com o Jeremias: admite a concorrência vital, gástrica, mas é maltusianista por questões de independência. Não liga ao que o rodeia e com isto o Tomé dá uma manifestação de superioridade intelectual. Extra-Tomé existe um mundo infinito: chá (chá, dançante...), vácuo, tédio e legumes. Intra-Tomé: o treponema, a cor berrante duma gravata e as suas ideias inatas (portanto, Ele). Dois tipos. Duas sínteses que reflectem o pensamento dominante da mocidade universitária, da mocidade-esperança radiosa de hoje, realidade viva de amanhã. O Jeremias: obsessão do calhamaço, pote de ciência, idealista caseiro, com uma bagagem de cultura aristotélica. O Tomé: narciso, medida de tudo, vazio de noções alheias, porque é autodidacta...

Anímicos liliputianos, ensimesmados em suas locubrações estéreis e palúrdias, eles olham o Zaratustra, mas não os comove a sua dialéctica emancipadora. Lateja neles um fluído abúlico, que é desanimador, uma egoísta visão vital, nula de cilícios e fulgores intelectivos.
Nestes momentos em que por todos os cantos se apregoa a cultura dos novos com elogios permanentes, é bom que sejam lembrados estes dois colegas, pela influência que exerceram sobre a mocidade, formando uma legião de pensadores... mentecaptos, seus discípulos». NAICILEFACLAFO, Gérmen, n.º 2, 1935, pp. 33 e 34.

In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Fernando Mão de Ferro: Feliciano Falcão, Memória Viva. «Naquele tempo, para mal dos seus pecados, tinham sido “desterrados” para a nossa cidade um significativo grupo de jovens médicos com os quais convivi e me relacionei. Guardo da maioria deles as melhores recordações e apesar das vicissitudes da vida»

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Em Tempo dos Rouxinóis.
«Pressentia-o como uma lenda distante e inacessível. Um misto de herói cujos feitos desconhecia, mas cujo espírito se impunha à evidência sempre que se abordava a apatia da cidade face ao regime. Desconhecendo a figura, achei, no entanto, natural, quando, em terras longínquas me exigiram a troca do meu nome por um pseudónimo (por razões de segurança), e de imediato me ocorreu o seu apelido.

Regressei com o 25 de Abril já sem chama e encontrei as hostes e os exércitos da utopia, que parecia ter estado tão acessível, tão à nossa mão, já desmembrados e já descrentes. A realidade tinha sido mais forte que o sonho de uma juventude farta de guerras sem sentido e de futuros sem horizontes.
Naquele tempo, para mal dos seus pecados, tinham sido «desterrados» para a nossa cidade um significativo grupo de jovens médicos com os quais convivi e me relacionei. Guardo da maioria deles as melhores recordações e apesar das vicissitudes da vida inapelavelmente nos ter afastado físicamente, haverá laços de amizade que perduram na nossa memória, e serão, garanto, indestrutíveis. Foi através deste grupo que conheci o Dr. Feliciano Falcão. Que fascínio exercia este homem com idade para ser avô de qualquer um desses jovens médicos? Não seria só a do mestre e experiente médico em quem eles procuravam conhecimentos e conselhos em termos profissionais.


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No entanto ele era um pólo aglutinador de todos os que frequentavam a sua casa quase como um local de culto e ao mesmo tempo de acolhimento. Seria a sua vasta e eclética cultura que atraía a curiosidade de quem, num tempo efervescente de ideias e de saberes vários, queria estar a par, queria estar por dentro das coisas? É possível que tudo isto tivesse alguma influência, mas não esqueçamos que os jovens médicos eram naturalmente detentores de uma sólida bagagem cultural ou não fossem eles fruto de uma rica simbiose universitária que transitou do pré para o pós 25 de Abril.
Seria obviamente esse fascínio que irradiava da figura de Feliciano Falcão, a imensa bagagem cultural e a serenidade de quem tem por detrás de si um saber de experiências cavadas à sua custa.
O percurso da sua vida e obra mereceria uma reflexão mais profunda e oxalá o contributo desta edição seja apenas um despertar para outros trabalhos futuros que possam honrar a memória de tão distinto Portalegrense.

A lição mais bonita que Feliciano Falcão nos transmite é a da humildade. Ao contrário da esmagadora maioria dos homens nascidos em condições semelhantes, ele afirma as suas origens humildes e, ao longo da sua vida, criticando a miséria espiritual e material dos simples, é politicamente ao lado deles que se empenha.

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Distante na sua postura cultural e ética, compreende, no entanto, as razões daqueles que nunca viram a luz do espírito e reproduzem atavicamente formas humilhantes do ser enquanto humanos. «Evocação das Raízes», transcrito nesta obra, é um texto paradigmático do seu pensar e da sua intransigência para com a mediocridade. O seu conhecimento «in loco» do modo de vida das populações, completamente abandonadas à sua sorte, longe da evolução das ciências e da técnica, longe da assistência médica e medicamentosa, longe da assistência social, provocam-lhe uma natural revolta que expressa através de um texto intitulado «De Médico a Curandeiro em Terras Medievais», publicado pelo «República» em 1945 (transcrito nesta obra). A crueza do seu relato sobre a vida miserável nos campos terá suscitado fortes ódios por parte do regime. A sua coragem em tempos tão difíceis deverá ser dada a conhecer aos seus concidadãos e aos jovens primordialmente.

Está previsto um encontro de familiares, amigos e admiradores do Dr. Feliciano Falcão sendo apresentada esta obra que procura resgatar do esquecimento o exemplo da sua vida. O local é o «Café Alentejano». Foi aqui o nosso último encontro. Contava-me então da sua felicidade porque um rouxinol tinha cantado toda a noite junto da sua casa - «um rouxinol completamente maluco». Depois, e talvez por causa desse rouxinol, desabafou com um ar triste sobre a inevitável caminhada da vida para o seu término, onde não consta que se possa ainda fruir da companhia dos entes queridos, ou haja jardins à medida dos rouxinóis e das suas sinfonias». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 12 de junho de 2011

Augusta Isabel Falcão: Feliciano Falcão, Memória Viva: «Era também um homem generoso. As suas generosidades fê-las com grande discrição, quer no seu laboratório de análises clínicas,enternecendo-se facilmente com aqueles para quem a vida era hostil, quer ajudando os amigos, como é o caso de José Régio, de quem era admirador incondicional»

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Recordando Feliciano Falcão.
Não é fácil escrever sobre um homem de grande erudição, com quem tive a sorte de privar e por quem sinto um grande carinho. Pegar em todas as memórias que dele tenho e seleccioná-las torna este momento doloroso e simultaneamente gratificante. As suas palavras continuam vivas. O tempo não as desactualizou. Elas expressam, a par da cultura, uma evidente consciência cívica e social. o seu amor à liberdade e à justiça granjearam-lhe, no entanto, alguns dissabores, algumas incompreensões. Deslumbrou-se com os grandes da literatura, da escultura, da música, da pintura... que lhe suscitavam toda a gama de emoções, de sentimentos. Dentro de si coabitavam muitos entusiasmos. «A vida é feita de espaços e geometria, não só de linhas. As pessoas têm que ter franjas, aberturas, porque a vida é uma aprendizagem permanente», comentava.
Sempre atento às inquietações da juventude, sempre receptivo e incentivando os jovens, dizia-lhes frequentemente «se não sentimos impaciência por nada, situamo-nos à margem da vida». Homem extremamente coeso e digno. Homem singular, em que se aliavam o humor e a lucidez intelectual. Alimentava com entusiasmo as ilusões dos seus interlocutores, despertando-lhes inquietações, a chamá-los «à plenitude do ego».

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Os fins-de-semana, na sua quinta da Serra, eram uma festa. os meus horizontes alargavam-se a seu lado. Ouvia atentamente o seu solilóquio, que fluía com facilidade e profundidade. Foram momentos únicos, irrepetíveis de descoberta, de confronto, de beleza.... Ele foi, durante muito tempo, o pólo cultural de Portalegre. Era em seu redor que os serões ganhavam matizes e se afastavam do vulgar quotidiano. Se o que define a juventude é o seu encanto, a sua inadaptação, a sua rebeldia, a sua ânsia de saber, posso dizer que Feliciano Falcão não envelheceu. o seu espírito permaneceu jovem, até ao fim.
A vertigem superficial do quotidiano faz de nós desconhecidos conviventes e quantas vezes indiferentes ao que acontece de belo ao nosso ladô! Não nasce o homem, faz-se. Assim este homem foi evoluindo, foi construindo o seu saber, à custa de muitas noites mal dormidas, rodeado dos seus livros, da sua música, olhando os seus quadros de que fruía até ao mínimo pormenor.
Não dispensou nunca o convívio com os seus amigos, que o acompanhavam nas divagações pelo mundo da estética, da política, do humanismo. Ele é a minha referência cultural. Devo-lhe muito da minha formação. Estou a vê-lo a transbordar de entusiasmo, com o seu olhar transparente, a querer fazer partilhar com os outros a sua exigência por uma vida polifacetada, plasmada nos saberes universais. Era um humanista, um idealista.

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Era também um homem generoso. As suas generosidades fê-las com grande discrição, quer no seu laboratório de análises clínicas,enternecendo-se facilmente com aqueles para quem a vida era hostil, quer ajudando os amigos, como é o caso de José Régio, de quem era admirador incondicional. Dele falava com grande entusiasmo e muitas vezes o ouvi lamentar a falta de projecção dada ao seu amigo Reis Pereira.
Bento de Jesus Caraça era outra figura que venerava. Considerava-o «seu mestre de humanismo». Entusiasmava-o a sua personalidade poliédrica, o seu amor à Arte em todos os seus meandros. Atento ao fim que se aproximava e invadido por um sentimento de angústia, chega a uma conclusão desconcertante: já não se importava de viver uma vida «morninha». Estava junto dos seus, principalmente da sua mulher, da sua «Baki», e isso lhe bastava, lhe preenchia os dias outonais com um carinho feito de cumplicidades, ao longo de uma vida vivida no requinte da cultura. O seu amor era um amor para além do amor». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 8 de maio de 2011

Mamé. Feliciano Falcão, Memória Viva: Parte II. «Esta Saudade... Juntos recordámos ainda as tardes passadas debaixo do velho castanheiro, o odor dos mangericos à entrada da porta, a resina perfumada das estevas, e a aurora a entrar leve pelas janelas, a despertar-lhe sempre desvarios com o canto dos rouxinóis...»

Cortesia defalcaodejade

«Era uma pessoa pura como o canto das cigarras, apaixonada como a cor dos poentes, capaz de se dar por completo como só as crianças se dão. Uma vez escreveu-me, numa carta, uma frase do poeta: «É preciso arder. E não só em versos». Amar a vida com furor, procurar os limites de tudo, ter loucura, euforia...
Para o meu pai, a caminhada da vida valia a pena, nem que fosse só para apreender o divino dentro dela, pois só os homens eram deuses, dizia ele.

Nas nossas conversas e cartas, voltava sempre a falar-me da sua infância e adolescência camponesas, das lagartixas nos muros da sua casinha tão simples no campo, das andorinhas nos beirais, do colorido das papoilas e dos olhos azuis do seu pai, serenos e lúcidos. E sempre da sua ânsia de uma sociedade sem classes, sem desigualdades, do desejo de levar a todos um coral de máxima emoção e felicidade, no seu grito de protesto perante a apatia e indiferença dos outros.


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Disse-me um dia que tinha feito de divisa para si próprio uma máxima de Terêncio, que o tinha impressionado muito e que era mais ou menos: «Nada do que é humano me é alheio». Verdadeiramente nada lhe era alheio, porque ele tudo sentia. Sem atropelar ninguém, ele dominava-nos a todos. Era a figura superior, o Mestre, tão certa a sua percepção de ética e justiça, tão profundo o seu saber, tão luminoso o seu convívio! Os nossos encontros prolongavam-se, muitas vezes, até ao amanhecer, ouvindo a sua música preferida, ouvindo Beethoven, que o fazia chorar.
O seu pasmo. O silêncio. A noite. E a sua mudez a senti-la, sofregamente, de cigarro em punho...

Também nos seus últimos dias de despedida, na nossa casa, tão longe dos campos dourados, da planície batida pelo sol, do seu amado medronheiro, da roseira com rosinhas minúsculas, que ele tanto gostava de colher para nos oferecer, dos cravinhos selvagens, que ele comigo procurava, o meu pai tentou deixar-me a sua «herança», o seu «Mistério»:
  • - Sabes, a vida é uma coisa maravilhosa quando nos decidimos por ela... Existe uma condição, sim, - continuou - que as experiências, inesperadamente más ou boas, não nos paralisem ou sufoquem, que nos permitam chegar aos altos, onde se cobre a visão larga!


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A sua resistência ao absurdo e medíocre, à vivência vegetal, a sua denúncia do imobilismo de pedra, a sua procura da verdade, do real escondido, manteve-as até ao fim. - Porque nós vivemos uma só vez e num sopro desaparecemos e temos de gritar a nossa riqueza e a nossa pureza, a pureza onde a vida se nos espraia no que tem de sério e essencial - defendia.
- Lembras-te? - perguntava. Sim, eu lembrava-me. E vejo ainda hoje a nudez do seu olhar atento na noite, a sua mão grande a dar-me um belisco na face, ouço-o dizer: «Tu partiste para longe, apenas a paisagem se alterou. Algumas pessoas levam, ao partirem, o mundo inteiro com elas...».
Assim aconteceu com o meu pai. Apenas a paisagem se alterou. O mundo inteiro, esse levou-o ele consigo, quando partiu. A nós deixou-nos toda esta saudade». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT