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sábado, 21 de janeiro de 2012

Guimarães. A Irmandade de Nossa Senhora da Penha e a Imagem de Nossa Senhora do Ó. «Não conhecemos as vicissitudes que a imagem da Senhora do Ó sofreu depois de abandonar a igreja de S. Francisco e nem sequer dispomos de qualquer descrição sua. Talvez a documentação em poder da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha possa fornecer elementos que dêem continuidade a esta história»


Cortesia de votguimaraes 

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

História e Arte
A Irmandade de Nossa Senhora da Penha e a Imagem de Nossa Senhora do Ó
«Celebrando-se os 144 anos (e alguns meses) da primeira reunião para a instituição da Irmandade de Nossa Senhora da Penha e os 64 anos (e 4 meses) da inauguração do Santuário da Penha, decidi  lembrar que em 1871, uma imagem de "Nossa Senhora do Ó", existente na igreja conventual de S. Francisco de Guimarães, foi cedida aos devotos da Senhora da Penha para aí ser colocada à devoção dos fiéis.

Mas comecemos esta história pelo princípio. Diz o Abade de Tagilde que já no século XVI existia na igreja conventual de S. Francisco de Guimarães, um altar dedicado a Nossa Senhora do Ó, facto que foi confirmado em 1692 pelo Padre Torquato de Azevedo ao dizer que Pedro Lagarto e sua mulher instituíram um vínculo com jazigo nobre atrás da capella de Nossa Senhora do Ó, da igreja de S. Francisco. O mesmo Padre Torquato escreveu que na parede sul da igreja conventual existia “a capela de Nossa Senhora do Ó, administrada por seus confrades, e anexa à albergaria do Anjo”. Pouco tempo depois, em 1726, o Corregedor Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, no capítulo que dedicou ao Convento de S. Francisco de Guimarães, escreveu que “no corpo da igreja, da parte da epistola, abaixo da capela dos Santos Mártires, que está no cruzeiro, fica a capella de Nossa Senhora de Ó, de que são administradores os seus confrades e recolhem seus foros”. Esta localização é preciosa porque localiza o altar abaixo da capela dos Mártires de Marrocos (que então se encontrava no local hoje ocupado pelo altar do Senhor da Paciência), no lugar onde hoje se encontra o Altar de Nossa Senhora da Conceição.

Cortesia de viewphotos

Mas pouco tempo aí permaneceu, pois já lá não estava em 1737. Consta do Tombo das Rendas de Nossa Senhora do Ó, lavrado nesse ano, que esse altar estava então entre o altar de S. João Evangelista e o de Nossa Senhora da Embaixada. Como sabemos por outras fontes que o altar de S. João estava abaixo do altar dos Mártires de Marrocos, no transepto da igreja, e o altar de Nossa Senhora da Embaixada estava levantado no local hoje ocupado pelo altar de Nossa Senhora do Socorro, podemos concluir que em 1737 o altar de Nossa Senhora do Ó estava colocado no local onde hoje está a Árvore de Jessé.
Porque foi feita a mudança?... não o sabemos.

Através do Tombo de 1738, ficámos a saber que no altar dessa Confraria achava-se uma Árvore de Jessé, tendo ao centro a imagem de "Nossa Senhora do Ó", de pé, de vulto, dourada e estofada, com uma coroa de prata. A árvore de Jessé volta a ser referida no inventário da Confraria de 1777, mas dessa vez que qualquer referência a "Nossa Senhora do Ó":
  •  “…um Altar com uma Senhora com uma árvore de Jessé com doze Reis de pau, pintados, e seu retábulo, e uma sanefa de pau, de talha, e dourada, que custou 60$000”. A omissão do nome de Nossa Senhora do Ó foi certamente intencional, indicando que no alto da Árvore de Jessé já não estava a imagem da Senhora do Ó.
Uma pesquisa aturada do arquivo da Confraria não nos forneceu informações adicionais, mas tivemos mais sorte na busca que empreendemos no arquivo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães. No Livro 6º de termos, a folhas 120v, lê-se que no dia 24 de Abril de 1871 foi presente à Mesa Administrativa da Ordem Terceira o pedido de uma comissão de devotos de Nossa Senhora da Penha, pedindo a imagem de Nossa Senhora do Ó, cedendo o Senhor Lucínio Fernandes da Trindade (director da Philarmónica Vimaranense) para o lugar daquela, a imagem de Santa Cecília. Esse pedido foi deferido. E a imagem de Nossa Senhora do Ó, que outrora coroava a Árvore de Jessé da igreja de S. Francisco, e então se venerava no pequeno altar entre o arco da capela-mor e o arco de acesso à capela de Santa Ana, cedeu o seu lugar à linda imagem de Santa Cecília, que ainda hoje lá se encontra.

Cortesia de votguimaraes 

Não conhecemos as vicissitudes que a imagem da Senhora do Ó sofreu depois de abandonar a igreja de S. Francisco e nem sequer dispomos de qualquer descrição sua. Talvez a documentação em poder da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha possa fornecer elementos que dêem continuidade a esta história». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: « O mestre era chamado «Doutor», não pelo grau de sciência, mas por razão do offício que tinha de ensinar; e deste nome usou Fernando Afonso Correa, quando no fim do seu testamento de 1405, a 9 do mês de Maio, elegeu executor da capela que tinha instituído. Nomeou em primeiro lugar a mestre Afonso, freire do dito mosteiro, e depois de sua morte a qualquer, "que nelle fosse doutor"»

N. S. da Conceição, sculo XVIII

Cortesia de votguimaraes

Os milagres de Santo António
«Consta das actas do congresso internacional celebrado por ocasião do 8º centenário do nascimento de Santo António, que teve lugar entre 25 e 30 de Setembro de 1995, uma comunicação de António de Sousa Araújo sob a epígrafe: "Milagres de Santo António nos tempos modernos". Infelizmente, ainda não pude adquirir essas actas e ler, na íntegra, essa comunicação; mas tive acesso a um resumo que apareceu na Internet que nos oferece dados novos sobre a matéria e, sobretudo, sobre a repercussão que teve no nosso meio o chamado "Milagre do Ladrão".

Diz o autor nesse resumo que sempre se fizeram registos de milagres de Santo António, e deles por vezes encontramos vestígios em livros paroquiais, como aconteceu com S. Paio de Eira Vedra, em Vieira do Minho, cujo pároco registou o "milagre que fez Santo António na vila de Guimarães em 29 de Abril de 1710". Trata-se da tentativa de furto então ocorrida na igreja do convento de S. Francisco, episódio conhecido pelo nome de "Milagre do Ladrão".
Constatou o autor que, compulsando as crónicas dos franciscanos Manuel da Esperança e Fernando da Soledade, se observou que, apesar de nesse convento sempre ter existido o culto a Santo António, foram os furtos de 1704 e de 1710, registados pelos citados cronistas, que deram origem ao espectacular incremento da romagem popular à imagem daquele santo venerada nessa igreja conventual, imagem que passou desde então a ser conhecida pelo nome de "Santo António dos Milagres".
Contaram-se por centenas as graças ou milagres conseguidos no curto intervalo de 1710-1715, e registados no "Livro dos Milagres", e deles Frei Fernando da Soledade seleccionou e transcreveu setenta para servir de amostra. Por esse motivo, concluiu o referido cronista, tornou-se o convento de S. Francisco de Guimarães o maior centro de romagem antoniana então existente em Portugal.

Esse afluxo de romeiros, proporcionou ao convento e à irmandade de Santo António um considerável acréscimo de receitas, sem as quais não teria sido possível o azulejamento da capela-mor e paredes anexas do transepto, decoradas com cenas da vida do nosso Santo.

Cortesia de votguimaraes

O Ensino no Convento
A”História Seráfica”, em 1656, dá-nos uma ideia do nível do ensino que havia nos séculos XV, XVI e XVII no convento de S. Francisco de Guimarães.
Diz o cronista Frei Manuel da Esperança:
  • "Mais de duas centúrias de annos tivemos escolas públicas, nas quaes se lia Gramática e casos de consciência sem ordenado, estipêndio, ou prémio, senão só o proveito dos discípulos. Eram aulas nesse tempo neste terceiro convento humas casas com porta para o adro, em que hoje se vê a enfermaria, e delas falava a escritura do anno de 1553, pela qual hum guardião, sendo ainda claustral, emprazou a Gonçalo Freire «hüa leira de chão que estaua ó longo do estudo». O mestre era chamado «Doutor», não pelo grau de sciência, mas por razão do offício que tinha de ensinar; e deste nome usou Fernando Afonso Correa, quando no fim do seu testamento de 1405, a 9 do mês de Maio, elegeu executor da capela que tinha instituído. Nomeou em primeiro lugar a mestre Afonso, freire do dito mosteiro, e depois de sua morte a qualquer, "que nelle fosse doutor".

Iconografia - A Sereia
Na Idade Média, houve um género literário que influenciou profundamente a mentalidade dos cristãos. Refiro-me aos «Bestiários», livros escritos em latim ou francês com intenções moralizantes, onde é inculcada a ideia de que o homem pode recolher ensinamentos úteis para a sua salvação em todos os animais que existem na natureza. Esses bestiários descreviam inúmeros animais, muitas vezes exóticos ou fabulosos, de cujas interpretações eram tiradas conclusões morais. Neles se baseiam inúmeras alegorias e simbolismos existentes na arte medieval. Os religiosos que decoravam com iluminuras os livros, tinham assim à sua frente a riqueza e a diversidade da criação divina. Um dos animais fabulosos representados nos «bestiários é a Sereia».
Trata-se de um monstro híbrido com cabeça e busto de mulher que se mostravam inicialmente com corpo de ave. Eram as sereias de tradição grega, uma imagem oriunda do Egipto onde este estranho animal representava a alma separada do corpo. Na Grécia antiga podemos vê-las representadas em inscrições tumulares.

Cortesia de votguimaraes

Nos bestiários franceses, aproveitando uma tradição que já vinha do século VI, aparece a sereia com rabo de peixe, mas não é raro depararmo-nos, lado a lado, os dois tipos de sereias. No imaginário medieval a sereia com rabo de peixe tem uma conotação negativa, simbolizando a sedução feminina, a luxúria e o prazer sexual ilegítimo, o pecado, em suma.
Todas estas considerações vêm a propósito do facto de encontrarmos na igreja do convento de S. Francisco o busto de três sereias. Está representado nos capitéis dos mainéis dos janelões dos paramentos laterais da capela-mor e do transepto. Por serem figuras tão diminutas e colocadas muito acima dos nossos olhos passaram durante muito tempo desapercebidas, até que para elas foi chamada a atenção pela historiadora de arte Maria Dolores Fraga Sampedro que delas tratou em ensaio publicado na Revista de Guimarães. Representam bustos de sereias com cauda de peixe?... é esse o entendimento da autora ao dizer tratar-se de "figuras de las sirenas de cuerpo escamoso". Analisando uma fotografia ampliada, não ficamos tão seguros dessa identificação: o artista tanto pode ter representado o peito das sereias coberto de escamas como coberto de penas, como aparece no capitel de Saint-Benoit-sur-Loíre que Émile Male publicou "L'art religieux du XIIe siècle en France", Paris, 1922.
As Imagens de Roca
Chama-se "imagem de roca" à imagem onde apenas era esculpido o rosto, as mãos e os pés, sendo o resto do corpo constituído por uma armação de madeira que o vestuário cobria. Esta informação vem a propósito de se encontrar presentemente numa das capelas do claustro do convento de S. Francisco um grupo dessas estátuas, estando a ser estudadas para eventuais trabalhos de limpeza, desinfestação e restauro.
Pertencem, segundo se julga, a um grupo de imagens que a partir do século XVII integravam a estatutária «Procissão das Cinzas», de que dispomos de numerosas e interessantes notícias. Não se encontram identificadas, dispondo apenas de uma etiqueta com o número de inventário que nada esclarece, Uma delas é facilmente identificável: trata-se de S. Francisco de Assis, sem calçado, reconhecível pela tonsura monacal e pelas feridas dos estigmas nas mãos e nos pés. Foi produzida por uma bom escultor que conseguiu dar à figura uma expressão simples e piedosa como convém ao Santo Patriarca. Notável é também o tratamento das mãos e dos pés onde se vêem perfeitamente desenhados os vasos sanguíneos». In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 6, Junho de 2006.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte IV. «Reivindicado pela Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, o jacente de D. Constança de Noronha regressou a esta igreja conventual onde, por sua vontade, quis ser sepultada. A Rainha Santa. ...Uma lenda. A presença da Rainha Santa Isabel no claustro franciscano de Guimarães tem livre curso pelo país inteiro»

Fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«Ao meio-dia do dia 1 de Outubro de 1938, a estátua jacente de D. Constança de Noronha foi retirada do local onde se encontrava, atrás do retábulo da igreja, e conduzida a título precário para o Museu de Alberto Sampaio.. Sugeriu A. L. de Carvalho que, após o seu restauro, recebesse a capela do Paço dos Duques de Bragança e pedra do sepulcro da santa duquesa, e havia certa lógica na sugestão porque ela aí tinha morado e aí falecera. Então, como ele sublinhou, “das janelas góticas que iluminam este recinto, dos vitrais que revestirão estas janelas, uma luz suavíssima, espiritualizada, talvez que nos ajude a recordar aquela Alta Dona que, no dizer das crónicas, morrera, por suas liriais virtudes, “em cheiro de santidade”.

Tal não aconteceu. Reivindicado pela Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, o jacente de D. Constança de Noronha regressou a esta igreja conventual onde, por sua vontade, quis ser sepultada. Cheguei a pensar que seria interessante colocar ao pé da estátua jacente uma placa onde fosse gravada a epígrafe atrás transcrita; mas desisti para não faltar à verdade: a epígrafe, em latim, diria que D. Constança de Noronha, descendente de Reis, e mulher do Duque, Dom Afonso, jazia escondida neste tumulo, ora, se é verdade que ela jaz escondida, a verdade é que não se esconde debaixo dessa pedra». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Escultura em pedra da Rainha Santa, fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

A Rainha Santa. Uma lenda
O artigo de António Lino publicado na revista «Brigantia» sob o título “O Convento de S. Francisco de Guimarães: o Convento de S. Francisco de Bragança” abre com estas palavras:
  • “O Convento de S. Francisco de Guimarães traz-nos à lembrança o provérbio: «filho és, pai serás…», as lutas em 1322 entre o Rei D. Dinis e seu filho o Infante D. Afonso (futuro Rei D. Afonso IV), e em 1355 entre este Rei D. Afonso IV e seu filho o Infante D. Pedro (futuro Rei D. Pedro I), em seguida à tragédia da Morte de Inês de Castro, lutas a que a Rainha Santa Isabel pôs termo, em Guimarães, no claustro do Convento de S. Francisco”.
A lenda, porque de lenda se trata, da presença da Rainha Santa Isabel no claustro franciscano de Guimarães tem livre curso pelo país inteiro, porque já a ouvi repetida na boca de alguns guias turísticos que demandam a nossa igreja.
Lenda?... Porquê?... Por uma razão, uma só, que arruma esta história para o domínio da fantasia - em 1355, quando supostamente fez as pazes entre o seu filho, D. Afonso IV, e o seu neto, o infante D. Pedro, a rainha santa já não era do número dos vivos, pois jazia sepultada na igreja do mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, desde 1336.

Escultura em madeira da Rainha Santa, fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Deve, no entanto, dizer-se, em abono da verdade, que não foi António Lino quem inventou esta lenda, pois já a encontramos em 1937 num opúsculo que A. L. de Carvalho dedicou ao Castelo de Guimarães. Denunciei a lenda no livro que escrevi em 2001, onde, depois de transcrever as palavras do cronista Rui de Pina que descrevem a reacção do infante D. Pedro ao saber da morte de Inês de Castro, citei as palavras cheias de dramático lirismo que A. L. de Carvalho acrescentou: “este Príncipe alucinado pela sua dor, cabeça em fogo, coração em chama, olhar em braza, declara guerra feroz e de extermínio a El-rei seu pai. A onda revolta dos seus partidários brame, rola, engrossa, levando na sua frente o amargurado Príncipe D. Pedro. Seu velho pai, acicatado pelas maldições da arraia-miúda, entre em Guimarães, barricando-se por detrás das suas altas e grossas muralhas». In Agenda Franciscana.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

sábado, 20 de agosto de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães: As Portas da Igreja. «Ladeada pelos dois contrafortes chanfrados que substituíram os pilares adoçados sacrificados pelo restauro dos anos 40 do século findo, está a porta principal da igreja, de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática…»

Cortesia de votsfrancisco

As Portas da igreja de S. Francisco.
«As pessoas que visitam esta igreja apenas reparam na sua porta principal que dá para o largo de S. Francisco, outrora chamado «Carvalhas de S. Francisco». Talvez valha a pena dedicar esta «Agenda» a essa porta e a todas as outras que se abrem na igreja conventual.

Porta Principal.
Ladeada pelos dois contrafortes chanfrados que substituíram os pilares adoçados sacrificados pelo restauro dos anos 40 do século findo, está a porta principal da igreja, de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática, capitéis decorados e ábaco destacado, a que se soma um novo par de colunas que, no interior, emoldura a porta. Das arquivoltas, apenas a primeira e a segunda se apresentam ornamentadas:
  • a mais ampla com uma fiada de grânulos, sobrevivência do românico, o que reforça a ideia de que pertenceu ao convento mandado demolir em 1322 por D. Dinis, ideia que António Lino subscreve, ao salientar as suas características mais antigas que as do corpo gótico,
  • a segunda com uma franja de flores-de-lis.

Cortesia de votsfrancisco

No que se refere aos capitéis, diz Pedro Dias em «Á Arquitectura gótica portuguesa», que são toscos, de colunelos muito grossos, podendo ver-se ainda a série de meias-esferas a debruar toda a obra, numa clara manifestação da persistência do arco românico, o que parece confirma a teoria da sua antiguidade acima expressa.
A ornamentação dos capitéis é do maior interesse:
  • quatro deles apresentam motivos vegetais, estilizados,
  • outros dois são de difícil interpretação, vendo-se um, à direita, representando uma cabeça humana envolta em folhagem (?) e outro, à esquerda, mostrando, afrontados, dois monstros híbridos, com cabeça de símio e corpo de leão.
Os capitéis das colunas mais avançadas são historiados e representam, segundo se julga, cenas da vida de S. Francisco:
  • à direita, o Santo apresenta-se pregando aos passarinhos, tendo ao pé uma ovelha, animal que o Santo Patriarca amava pela sua docilidade;
  • à esquerda, o Santo cuida de um enfermo, talvez de um leproso, dada a importância que teve para a sua conversão o encontro com um destes doentes.
Os capitéis do portal foram estudados em profundidade por Maria Dolores Fraga Sampedro, em ensaio publicado na «Revista de Guimarães, vol. 104».


Cortesia de votsfrancisco

Ao fundo da Nave.
À direita, encontramos uma porta, habitualmente encerrada, que dá acesso através de uma escada para piso inferior do claustro. A mais antiga referência a esta porta data de 1692 e foi escrita pelo Padre Torquato Peixoto de Azevedo nas suas «Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães». Nelas se lê, a páginas 344, que, por baixo do coro tem «uma porta que vae para o claustro». Umas décadas depois, em 1726, o bacharel Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, que foi corregedor desta comarca, deixou escritas as suas «Memórias ressuscitadas da província de Entre-Douro-e-Minho», mas nelas nada acrescenta, limitando-se a dizer que, debaixo do coro, fronteira a uma porta que dava para uma devesa, estava outra, que vai para o claustro. «A Corografia Portugueza», do Padre António Carvalho da Costa, 1706, também se lhe refere mas nada adianta.

Mais elucidativo é o testemunho do Padre António José Ferreira Caldas, em «Guimarães: apontamentos para a sua história, 1881», Testemunha que havia o altar de S. Marcos, «que à entrada da porta principal ocupava à direita o vão dum antigo túmulo, que em 1501 pertencia a Lopo Vaz, ouvidor geral Entre Douro e Minho, e que está fechado ao nível da parede, forrada de azulejo, pág.319». In Francisco José Teixeira, Belmiro Jordão, V.O. T. de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 1, 2006.

(Continua)
Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte II. «Em meados de Setembro de 1559, o coro da igreja foi mudado para a capela-mor. Nessa altura, a sepultura de D. Constança de Noronha encontrava-se entre a estante do coro e os degraus que davam acesso ao presbitério»

Fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«Conta Frei Francisco de Santa Maria que o seu Paço se transformou em hospital de miseráveis, onde a duquesa curava com as suas mãos os enfermos, ainda os mais ascorosos de doenças malignas, sem nojo da sordidez e sem temor do contágio. A pedido da Duquesa, D. Afonso V, em carta de 22 de Maio de 1456, mandou às suas justiças e autoridades que não constrangessem com encargos, reais ou do concelho, as seis ou sete mulheres pobres recolhidas no oratório de Santa Cruz junto ao muro de Guimarães, «a quem dava todo o que lhes compria». Não foi somente o convento franciscano de Guimarães a beneficiar com a sua munificência:
  • no inventário do tesouro da Colegiada feito no reinado de D. Afonso V, consta «hua lampada de prata dourada q. poos a duquesa de Bragança q. pessou três marcos».
O guardião do convento, Frei Pedro, e os religiosos do mosteiro, tocados pelos milagres operados pela intercessão da piedosa duquesa, pediram ao juiz ordinário, João Afonso, que fizesse inquirição por testemunhas juradas pelos Santos Evangelhos acerca das maravilhas que se contavam a tal respeito. Essa diligência fez-se em 23 de Junho de 1488.

Cortesia de ordemsaofrancisco 

Diz Craesbeeck que esse documento andou perdido durante longo tempo mas, com grande alegria dos devotos da insigne duquesa, foi reencontrado em 1621.
Demonstrou o seu amor por esta igreja ao escolhê-la para receber os seus restos mortais. Mas, antes de deixar este mundo, fez questão de doar todos os seus bens a seu sobrinho, D. Pedro de Meneses, 3º conde de Vila Real, depois marquês do mesmo título, que adoptou por filho e herdeiro.
Transcreve A. L. de Carvalho parte de um documento levantado em 1620 por parentes da falecida duquesa junto das autoridades judiciais, que nos diz: “Viveu nos Paços desta Vila, aonde a dita Duquesa morreu, e deles a levaram à sepultura, à capela-mor de S. Francisco. E no meio dela, sobre a terra em que foi sepultada, se pôs e esteve sempre um túmulo de pedra levantado do chão, com a figura da Duquesa, de relevo, vestida no hábito da Ordem como irmã terceira que, dizem, foi, e com um livro aberto nas mãos esculpido na dita pedra. A dita Duquesa foi sempre tida e havida por santa, e comummente a nomeavam assim nesta Vila, como em outros lugares do redor. E até a umas ervas que estavam e ainda hoje nascem ao redor dos Paços, lhe chamam ainda as ervas da Duquesa Santa.

Cortesia de ordemsaofrancisco

E assim as pessoas que de febres e outras enfermidades adoeciam, se iam à sepultura encomendar à dita Duquesa Santa, tomando-a por intercessora com Nosso Senhor. E levavam terra da sepultura, que traziam por relíquia ao pescoço, e depois de terem saúde a tornavam a levar à dita igreja, e em um pano a penduravam em um ferro que para esse efeito ali estava… Isto viram algumas pessoas velhas, que ainda se lembram, e há algumas modernas que o ouviram a seus antepassados, e é público e notório nesta Vila que assim se passou”. Diz João Lopes de Faria, nas suas Efemérides, que esta intervenção dos parentes da falecida recebeu em 8 de Agosto de 1620 um despacho nos termos seguintes: “Pergunte-se às testemunhas que o suplicante apresentar, e de seus ditos se passem os instrumentos que pedem em forma de fé”.

Em meados de Setembro de 1559, o coro da igreja foi mudado para a capela-mor. Nessa altura, a sepultura de D. Constança de Noronha encontrava-se entre a estante do coro e os degraus que davam acesso ao presbitério. O documento de 1620 atrás parcialmente transcrito revela que, pouco tempo antes, tinham levado as suas ossadas para debaixo de um pequeno tabernáculo, junto aos foles do órgão, “cobrindo o chão da capela com um solhado de tabuado, sem aparecer nada da sepultura, escurecendo a memória dela». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

domingo, 14 de agosto de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte I. «Nesse jacente, a duquesa apresenta-se com o hábito de clarissa ou de terceira franciscana, abdicando dos sinais indicadores da sua posição social, à semelhança do que faziam frequentemente os terceiros franciscanos do sexo masculinos que se apresentavam com o respectivo hábito»

Fotografia de Fernando José Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«No absidíolo do lado do evangelho, na capela dos Almadas, encontra-se o jacente da sepultura de D. Constança de Noronha, segunda mulher de D. Afonso, 1º duque de Bragança, filho natural do rei D. João I, com quem casou em Julho de 1420 numa cerimónia íntima, pois são escassas as notícias a seu respeito. O contrato de casamento, assinado em Sintra a 23 de Julho de 1420, pelo rei D. João I, revela que esse consórcio foi tratado pelo próprio rei, comprometendo-se o soberano a dotá-la com treze mil dobras, das quais lhe entregava quatro mil; o Conde D. Afonso mais tarde entregar-lhe-ia de arras quatro mil coroas, dando como penhor as terras que possuía no termo de Guimarães.
D. Constança de Noronha nasceu em 1404 e era filha de D. Afonso, conde de Noronha e de Gijon, nas Astúrias, e de D. Isabel de Portugal. Era de descendência real, embora ilegítima: o seu pai era filho natural do rei Henrique II, rei de Castela, e a sua mãe, infanta D. Isabel, filha natural do nosso rei D. Fernando.

jdact

Nesse jacente, a duquesa apresenta-se com o hábito de clarissa ou de terceira franciscana, abdicando dos sinais indicadores da sua posição social, à semelhança do que faziam frequentemente os terceiros franciscanos do sexo masculinos que se apresentavam com o respectivo hábito. Assim se apresentaram numerosos reis e rainhas castelhanos e portugueses, entre os a rainha Santa Isabel, cujo jacente apresenta-a também o hábito de clarissa, exemplo que deveria ser do conhecimento de D. Constança de Noronha.
Enviuvou em 1461 e faleceu sem deixar filhos em 16 ou 26 de Janeiro de 1480.

Segundo a tradição, D. Constança de Noronha, tomou o hábito franciscano em 1461 e frequentava a igreja do convento de S. Francisco de Guimarães, à qual doou a sua Fonte dos Cães e financiou o levantamento da sua capela-mor. Em 9 de Agosto de 1461, a duquesa, nos seus paços de Guimarães, fez escritura obrigando as rendas e direitos que possuía na vila de Guimarães ao pagamento de 12 000 dobras que havia prometido a D. João, filho de D. Fernando, duque de Bragança, em dote e casamento com D. Isabel de Noronha.

Cortesia de estadosentido

Há quem diga que no fecho da abóbada da ábside desta igreja está representado o seu brasão ducal, mas não é verdade. No fecho dos dois tramos da abóbada da capela-mor encontram-se as armas de D. João I, seu sogro, um escudo assente sobre a cruz de Avis, encimado pela coroa real. Era este o brasão de armas de D. João I, antes de a Cruz de Avis ser colocada dentro do escudo, tendo torres na bordadura, em vez de castelos.

D. Constança era uma princesa em tudo admirável pela formosura, agrado e afabilidade, dizia D. Caetano de Sousa. Se é verdade que viveu em penitência o seu casamento, disfarçando como podia essas penitências, a partir de 1461, viveu mais austeramente a sua viuvez no Paço dos Duques, em Guimarães, ainda em construção, entregando-se à caridade, deixando para trás a munificência régia «nos aparatos, nos ofícios, nas assistências e qualidades dos criados» de que fala a «Nobiliarquia Portuguesa». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

domingo, 7 de agosto de 2011

Festas Gualterianas. Guimarães: 5 a 8 de Agosto de 2011. Relicário de S. Gualter, patrono de Guimarães. «Durante mais de dois séculos perdeu-se o rasto dos restos mortais do Santo Patrono. Depois de anos de pesquisas, no início de Outubro de 2009, quando do restauro de um altar lateral da Igreja, foram encontradas, no interior de uma imagem em madeira de cedro do Líbano…»

Cortesia de votdesfranciscodeguimarães

«No ano de 1322, o Infante D. Afonso ao combater contra seu pai, o rei D. Dinis, pôs cerco a Guimarães. Ficando o convento de S. Francisco encostado aos muros da vila, permitia aos homens de D. Afonso o reforço dos combates, o que levou o rei a ordenar a sua demolição, temendo novos confrontos, e ordenando que fosse de novo construído a uma distância de segurança.
O novo convento foi construído onde ainda hoje se encontra, Igreja e Claustros de São Francisco, no ano 1400, por licença do rei D. João I, e para aqui foram trazidos os restos mortais do padroeiro da cidade, São Gualter.
No primeiro Domingo de Agosto de 1577, o corpo foi levantado do sepulcro e levado em procissão pelas ruas. Recolhido o préstito, foram as relíquias novamente sepultadas.

Cortesia de votdesfranciscodeguimarães

Por volta de 1750, aquando da reforma da Igreja de São Francisco, é demolida a Capela de São Gualter. No ano de 1800, o administrador do Altar do Descendimento, dá autorização para que sejam postas à veneração, nessa capela, sobre a banqueta do altar, as sagradas relíquias do milagroso Santo.
Durante mais de dois séculos perdeu-se o rasto dos restos mortais do Santo Patrono, sendo desconhecida a sua verdadeira localização. Depois de anos de pesquisas, até porque se sabia que as relíquias do Santo, nunca daqui teriam saído, no início de Outubro de 2009, quando do restauro de um altar lateral da Igreja, foram encontradas, no interior de uma imagem em madeira de cedro do Líbano representado o próprio São Gualter, os ossos do Santo Patrono de Guimarães, confirmando a documentação existente nos arquivos da Instituição que nos dizia haver o propósito, por parte dos Franciscanos, de esconder os seus restos mortais.

Cortesia de votdesfranciscodeguimarães

São Gualter e 1ª Duquesa de Bragança, D. Constança de Noronha.
Considerado um dos mais expressivos e magníficos monumentos religiosos de Guimarães, a Igreja de São Francisco acolhe, para além de esplêndidas obras de escultura e entalhe, os restos mortais de duas das personalidades mais importantes da cidade:
  • o padroeiro, São Gualter falecido em 1259,
  • a primeira Duquesa de Bragança, D. Constança de Noronha, falecida em 1480.
D. Constança de Noronha foi a segunda esposa de D. Afonso I de Bragança, filho do rei D. João I, tendo casado em 1420. Viveu no Paço dos Duques de Guimarães, enviuvando em 1467, e retirando-se da vida social, para se dedicar ao culto espiritual e à assistência aos mais doentes e carenciados, envergando nessa altura o hábito de franciscana.
Por sua expressa vontade foi sepultada na capela-mor da Igreja de São Francisco, a 26 de Janeiro de 1480, data do seu falecimento. O túmulo da Duquesa encontra-se coberto por uma pedra tumular com o seu perfil em tamanho natural, escondida durante anos atrás do altar-mor, mas actualmente exposta na capela lateral do lado do evangelho». In Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Relicário de São Gualter.

Cortesia de V.O.T. de S. Francisco de Guimarães/JDACT

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Festas Gualterianas. Guimarães: 5 a 8 de Agosto de 2011. Relicário de S. Gualter, patrono de Guimarães. «Frei Gualter chegou a Guimarães em 1216 e fixou a sua morada numa choupana, edificada na encosta no monte de Santa Catarina (Penha) ao pé de uma fonte, posteriormente chamada de Fonte Santa ou Fonte de São Gualter, designações que perduram até hoje»

Cortesia de votguimarães 

«O Convento e Igreja de São Francisco de Guimarães, é uma construção que está localizada na freguesia de São Sebastião. O edifício foi construído no início do século XV, por licença do rei D. João I, tendo este tomado sob sua guarda e protecção o convento, e aqui tendo permanecido os Frades Menores de São Francisco até 1834, quando por ordem do rei D. Pedro IV, foram extintas as ordens religiosas em Portugal passando nessa data para propriedade da Venerável Ordem Terceira de São Francisco uma Instituição Particular de Solidariedade Social, que presta actualmente à comunidade serviços nas valências de Lar de Idosos e Creche/Infantário.

Sem nunca descurar a actividade assistencial, sua principal razão de ser, a Venerável Ordem Terceira tem dedicado a melhor atenção ao riquíssimo património artístico que alberga no conjunto dos seus edifícios, preservando com os indispensáveis cuidados, as peças do seu espólio cultural, que lhe foi legado por muitos séculos de história.

Cortesia de guimaraes

História.
S. Francisco de Assis veio à Península Ibérica em 1213, passando por Guimarães, onde foi recebido pela Rainha D. Urraca, esposa do rei D. Afonso II. De regresso a Itália, enviou para Portugal, frei Zacarias e frei Gualter, acompanhados de dois franciscanos, cabendo a frei Gualter o encargo de fundar um convento em Guimarães.

Frei Gualter chegou a Guimarães em 1216 e fixou a sua morada numa choupana, edificada na encosta no monte de Santa Catarina (Penha) ao pé de uma fonte, posteriormente chamada de Fonte Santa ou Fonte de São Gualter, designações que perduram até hoje. Viviam de esmolas e devido à sua generosidade e amor ao próximo, eram muito estimados pela população que habitava na vila. Quiseram por isso os vimaranenses que os frades residissem mais perto do burgo, de modo que, ainda no mesmo ano da sua chegada, fixaram-se num local mais próximo, chamado São Francisco o Velho ou Minhotinho, e aí faleceu e foi sepultado S. Gualter em 1259.

Cortesia de linhaderumo

Depois da morte de S. Gualter, no ano de 1271, foi doado aos religiosos de S. Francisco um novo convento, encostado aos muros da vila tendo os frades dado entrada na nova casa a 25 de Novembro desse ano. Nessa noite, tentou o Cabido da Colegiada de Guimarães apropriar-se do corpo de S. Gualter, falecido há poucos anos e tido em grande veneração, sepultado em campa rasa no ermitério de S. Francisco o Velho, facto que logo se fez constar e levou os franciscanos a pô-lo em segurança, primeiro num sepulcro de pedra e mais tarde num relicário que acompanhava os frades sempre que estes mudavam de residência».

Cortesia de VOT de S. Francisco de Guimarães/JDACT 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães: «A maior parte das obras que existem nesta igreja são do séc. XVII e XVIII, mas sobretudo deste último, sendo dignos de destaque o retábulo-mor, barroco joanino (D. João V) e os azulejos, com passos da vida de S. António, que forram a capela-mor. A imagem de S. Francisco que se vê num dos altares laterais, também barroco joanino, é obra do séc. XIX, feita pelo artista italiano Berardi»


Cortesia de votdesfranciscodeguimarães 

Com a devida vénia a Belmiro Jordão.

Igreja de S. Francisco de Guimarães.
«A construção primitiva feita em estilo gótico no lugar onde existiu, segundo a tradição e os documentos que a tal aludem, o Conventinho de S. Francisco-o-Velho, fundado em l216 por S. Gualter, discípulo e enviado por S. Francisco de Assis à Vila de Guimarães, data da primeira metade do séc. XV. Foi autorizada por carta de D. João I, datada em Braga a 3 de Novembro de 1400.

Desta construção, hoje, quase que só existe o pórtico da fachada, o arco do coro, o tecto da capela-mor e a abside, que estando, no interior tapada pelo retábulo-mor, deve ser vista no exterior da igreja. Os janelões, da capela-mor e do transepto, foram restaurados recentemente segundo a antiga traça, conservando ainda muito do primitivo.

Igreja de S. Francisco de Guimarães, séc. XV
Cortesia de votdesfranciscodeguimarães

A maior parte das obras que existem nesta igreja são do séc. XVII e XVIII, mas sobretudo deste último, sendo dignos de destaque o retábulo-mor, barroco joanino (D. João V) e os azulejos, com passos da vida de S. António, que forram a capela-mor. A imagem de S. Francisco que se vê num dos altares laterais, também barroco joanino, é obra do séc. XIX, feita pelo artista italiano Berardi.

No transepto, pode-se ver de um lado, uma estátua de N. S. das Dores, da autoria de Soares dos Reis, e por baixo desta o relicário de S. Gualter, patrono de Guimarães, encontrando-se dentro do mesmo os ossos do Santo, e do outro uma pintura em madeira, do séc. XVI, representando Cristo preso à coluna.



Relicário de S. Gualter onde estavam ocultos os ossos do patrono de Guimarães, séc. XIX.
Cortesia de ordemsaofrancisco

Por baixo desta pintura, está um pequeno compartimento representando a cela episcopal do franciscano S. Boaventura. Na antecâmara da sacristia pode-se ver um retábulo, do séc. XVII, dedicado a S. Francisco e aos Santos Mártires de Marrocos, cujo doirado e estofado, está a par do melhor que existe no género em Portugal. A sacristia, do séc. XVII, é uma das mais belas e ricas do nosso país.
Ao centro tem uma mesa de mármore, com embutidos coloridos,em estilo renascença italiana, como se vêm em muitas obras de Florença. O tecto é em caixotões de cores vivas, com pintura e doirados de origem. Sobre um arcaz de pau-santo com magníficas ferragens, está um retábulo com pinturas e talha do séc. XVII.

Nesta sacristia, guardam-se peças de grande valor artístico, sendo dignos de destaque os paramentos litúrgicos bordados a matiz, sobretudo um, indo-português, do séc. XVII. Da antecâmara da sacristia, passa-se para o piso superior do claustro do antigo convento franciscano. Este claustro, em estilo renascentista clássico é do séc. XVI. As colunas, monolíticas, são de carácter toscano. O chafariz, que se ergue ao centro é do séc. XVII. No piso térreo do claustro, pode-se ver, do lado sul, a antiga sala do capítulo, com portada e janelões do séc. XV coevos portanto da primitiva igreja.

Cortesia de votdesfranciscoguimaraes

Na casa capitular funcionou durante muito tempo e desde o séc. XVI, a capela tumular da família 'dos Carvalhos, com pinturas a fresco de grande valor das quais hoje apenas existe, cuidadosamente restaurada, a que representa a degolação de S. João Baptista. Encontra-se depositada no Museu de Alberto Sampaio, continuando a ser pertença da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco.
Fora da igreja e no jardim que lhe fica defronte, ergue-se um cruzeiro cuja cruz é da época da primitiva igreja de S. Francisco e portanto em estilo gótico, do séc. XV. A capela dos Terceiros de S. Francisco, que se vê em frente da antiga igreja conventual é do séc. XVIII, em estilo barroco italianizado. No interior, existe uma imagem do Coração de Maria feita pelo escultor italiano Berardi de 1882». In Belmiro Jordão, Igreja de S. Francisco de Guimarães, V. O. T. de S. Francisco, 2011.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT