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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Aníbal Belo (1945-2001). Carta de Marvão. «E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias».


NOTA:: Mário Rainho faleceu no dia 2 de Janeiro de 2025, com 97 anos

«Engenheiro civil, caiu-lhe, no trabalho da vida, a tarefa de ir dirigir a construção do caminho-de-ferro do ramal de Cáceres. E, nessa qualidade, tinha que retalhar os tapadões, as tapadas, as hortas e os currais, que a estrada de ferro tinha naturalmente de dividir, cabendo-lhe o odioso de ferir, com golpes de espada, as heranças avoengas ou as deixas testamentárias de muitas gerações e os códigos de honra, que o estatuto de posse foi criando no deambular dos séculos. De fina sensibilidade, o engenheiro de tudo ia tomando conta e nota, inventariando emoções e retratos de personagens, com que criou a comédia de costumes imortalizadora.

O Mário Rainho alongava-se em biografias e hagiografias, em dados contornos, enquanto eu, de espírito cada vez mais giratório, me espairecia na lonjura dos acontecimentos, para trás e para a frente dos carris do tempo, ora evocando´Camilo Castelo Branco, que dizia que até os pardais se assustavam com aquele touro negro de ferro, a galgar as travessas, ora colocando o engenheiro Horta, na dianteira, a corrigir erros e cálculos do fidalgo João na estação de Caminho de Ferro da Beirã».

No dissêncio dos dias, consegui pô-los a conversar acerca de cálculos, topografias e texturas de construção, conseguindo, com inegável sucesso, que o tempo se encurtasse para ser mais legível a história e mais fácil a construção dos amanhãs. Bom conhecedor do cadastro de Marvão, o Horta agradeceu a João da Câmara os seus ensinamentos, este louvou-lhe as simpatias e as referências da memória.

E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias. O meu ajudante, com a fraqueza das forças a afadigarem as suas energias, foi-me levando para o jardim do Parque, todo recheado de árvores frondosas, de cujos galhos os passarinhos faziam coreto, para aí entoarem seus trinados de alegria. Era um jardim cuidado e frequentado por gente, que dele fazia uso vivo. Pessoas sentadas nos bancos, com ar despreocupado e livre, conversavam amenamente com figurantes que passavam, e a quem davam dedos grandes de conversa, para terapia da monotonia ou da solidão da mesma mesmice dos dias.

E, enquanto ele me continuava a falar das rivalidades com Marvão, eu, a boiar em mim, ia estendendo o olhar gostoso para aquela natureza, ali trabalhada e ordenada, quando, ao subir a ladeira, nas suas calmas, me apontou para a estalagem, que se esquinava no encontro de duas ruas. Era a Casa Parque, de construção de meados do século, denotando qualidade bastante para compensar os meus depauperados aposentos, já com descrição acima». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

 Castelo de Vide, Mário Rainho, JDACT, O Saber,

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

O Pêndulo de Foucault. Umberto Eco. «Sacudiu-me um diálogo, preciso e desenvolvido, entre um rapaz de óculos e uma jovem que infelizmente não os tinha. E o pêndulo de Foucault, dizia o moço, Foi primeiro experimentado numa cave em 1851…»

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Keter

«Mas não era este desvio da Lei, que de resto a própria Lei previa, não era esta violação da medida áurea que tornava menos admirável o prodígio. Eu sabia que a Terra estava rodando, e eu com ela, e Saint-Martin-des-Champs e Paris inteira comigo, e juntos rodávamos sob o Pêndulo que na realidade não mudava jamais a direcção do próprio plano, porque lá em cima, de onde pendia, e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio, para o alto em direcção às mais remotas galáxias estava, imóvel por toda a eternidade, o Ponto Fixo.

A Terra girava, mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo. Por isso, não era propriamente à Terra que o meu olhar se dirigia, mas ao alto, lá onde se celebrava o mistério da imobilidade absoluta. O Pêndulo dizia-me que, embora tudo se movesse, o globo, o sistema solar, as nebulosas, os buracos negros e todos os filhos da grande emanação cósmica, desde os éons primitivos à matéria mais viscosa, um único ponto permanecia, eixo, cavilha, engate ideal, deixando que o universo se movesse em torno dele. E eu participava agora daquela experiência suprema, eu que embora me movesse com tudo e com o todo, eu podia ver o Quid, o Não-Movente, a Rocha, a Garantia, a caligem luminosíssima que não é corpo, não tem figura forma peso quantidade ou qualidade, e não vê, não sente, não é apreendido pela sensibilidade, não é um lugar, nem um tempo ou um espaço, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, número, ordem, medida, substância, eternidade, não é treva nem luz, não é erro nem verdade.

Sacudiu-me um diálogo, preciso e desenvolvido, entre um rapaz de óculos e uma jovem que infelizmente não os tinha. E o pêndulo de Foucault, dizia o moço, Foi primeiro experimentado numa cave em 1851, depois no Observatoire, e em seguida sob a cúpula do Panthéon, com um fio de sessenta e sete metros e uma esfera de vinte e oito quilos. Finalmente, desde 1855 está aqui, em formato reduzido, e pende daquele furo, na travessa da abóbada.

E para que serve, só para ficar balançando? Serve para demonstrar a rotação da Terra. Se considerarmos que o ponto de suspensão permanece fixo... Mas por que permanece fixo? Porque um ponto... como direi... no seu ponto central, quer dizer todo ponto que esteja no meio dos pontos que você vê, bem, aquele ponto, o ponto geométrico, você não vê, não tem dimensão, e portanto não tendo dimensão não pode mover-se nem à esquerda nem à direita, nem para baixo nem para cima. Consequentemente, não gira. Entendeu? Se um ponto não tem dimensão, não pode sequer girar em torno de si mesmo. Nem mesmo este si mesmo existe... Nem com a Terra girando? A Terra gira, mas o ponto não. Se lhe agrada, é assim, se não, dane-se. Está bem? Problema dele.

Miserável. Tinha sobre a cabeça o único lugar estável do cosmo, o único ponto resgatado da danação do ponta rei, e pensava que fosse problema Dele, e não dela. Mas logo em seguida o casal se afastou, ele, tendo estudado nesses manuais que lhe obnubilaram as possibilidades de maravilhar-se, ela inerte, inacessível ao arrepio do infinito, ambos sem terem registado na memória a experiência terrificante daquele seu encontro, primeiro e último, com o Uno, o En-sof, o indizível. Como não cair de joelhos diante do altar daquela certeza?

Quanto a mim, fitava-o com reverência e espanto. Naquele momento, estava convencido de que Jacopo Belbo tinha razão. Quando me falava do Pêndulo, eu atribuía sua emoção a um devaneio estético, àquele câncer que estava tomando forma, informe, em sua alma, transformando, passo a passo, sem que ele se desse conta, o seu jogo em realidade. Mas se tinha razão quanto ao Pêndulo, talvez fosse verdade todo o resto, o Plano, a Conspiração Universal, e era justo que tivesse vindo ali na vigília do solstício de verão. Jacopo Belbo não era louco, simplesmente havia descoberto por jogo, através do Jogo, a suma verdade». In Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, 1988, Difel, 2004, Editora Gradiva, ISBN 978-989-616-717-2.

 Cortesia de Difel/ Editora Gradiva/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Conhecumento, Ciência, O Saber,

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

O Pêndulo de Foucault. Umberto Eco. «Sabia também que na vertical do ponto de suspensão, na base, um dispositivo magnético, transmitindo sua atracção a um cilindro oculto no cerne da esfera, garantia a permanência do movimento…»

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Keter

«Foi então que vi o Pêndulo. A esfera, móvel na extremidade de um longo fio fixado à abóbada do coro, descrevia suas amplas oscilações em isócrona majestade.

Eu sabia, mas quem quer que o tivesse advertido no encanto daquele plácido respirar, que o período era regulado pela correlação entre a raiz quadrada do comprimento do fio e a do número PI, o qual, embora irracional para as mentes sublunares, relaciona, por alguma razão divina, a circunferência ao diâmetro de todos os círculos possíveis, de modo que o oscilar de uma esfera de um pólo a outro decorre de uma arcana conspiração entre a mais intemporal das medidas, a unidade do ponto de suspensão, a dualidade de uma dimensão abstrata, a natureza terciária do PI, o tetrágono secreto da raiz e a perfeição do círculo.

Sabia também que na vertical do ponto de suspensão, na base, um dispositivo magnético, transmitindo sua atracção a um cilindro oculto no cerne da esfera, garantia a permanência do movimento, artifício disposto para contrabalançar as resistências da matéria, mas que não se opunha às leis do Pêndulo, antes lhes permitia manifestarem-se, porque no vácuo qualquer ponto material pesado, suspenso da extremidade de um fio inextensível e sem peso, que não sofresse a resistência do ar nem o atrito com seu ponto de apoio, teria oscilado de modo regular por toda a eternidade.

A esfera de cobre emitia pálidos reflexos cambiantes sob a incidência dos últimos raios de sol que penetravam pelos vitrais. Se, como outrora, sua ponta estivesse roçando uma camada de areia húmida espalhada sobre o pavimento do coro, teria desenhado a cada oscilação um leve sulco no solo, e o sulco, mudando infinitesimalmente de direcção a cada instante, ter-se-ia alargado sempre em forma de brecha, de vala, deixando adivinhar uma simetria radiada, como um esqueleto de mandala, a estrutura invisível de um pentáculo, de uma estela, de uma rosa mística. Não melhor talvez a peripécia, registada na extensão do deserto, dos traços que deixaram caravanas infinitas e erráticas. Uma história de lentas e milenárias migrações, talvez da mesma forma como se deslocaram os atlântidas do continente Mu, numa peregrinação obstinada e possessiva, da Tasmânia à Groenlândia, do Capricórnio ao Câncer, da Ilha do Príncipe Eduardo ao Svalbard.

A ponta repetia, narrava novamente num tempo bastante compacto, o que eles haviam feito entre uma e outra glaciação, ou que talvez ainda fizessem, agora mensageiros dos Senhores, quem sabe no percurso entre Samoa e Zemlia, a ponta, na sua posição de equilíbrio, aflorasse Agarttha, o Centro do Mundo. E intuí que um plano único unia Avalon, a hiperbórea, ao deserto austral que abriga o enigma de Ayers Rock.

Naquele momento, às quatro da tarde de 23 de Junho, o Pêndulo amortecia a própria velocidade numa extremidade do plano de oscilação, para recair indolente em direcção ao centro, readquirir velocidade a meio do percurso e desferir seus golpes de sabre confidentes no quadrado oculto das forças que o destino lhe apontava.

Se eu permanecesse muito tempo, resistente ao passar das horas, a fixar aquela cabeça de pássaro, aquele ápice de lança, aquele elmo emborcado, enquanto desenhava no vazio as suas diagonais, aflorando os pontos opostos de sua astigmática circunferência, teria sido vítima de uma ilusão fabulatória, pois o Pêndulo me levaria a crer que o plano de oscilação teria realizado uma rotação completa, tornando ao ponto de partida, em trinta e duas horas, descrevendo uma elipse achatada, elipse que girasse em torno de seu próprio centro com uma velocidade angular uniforme, proporcional ao seno da latitude.

Como teria girado se o ponto fosse fixado ao alto da cúpula do Templo de Salomão? Talvez os Cavaleiros tivessem experimentado também lá. Talvez o cálculo, o significado final, não houvesse modificado. Talvez a igreja abacial de Saint-Martin-des-Champs fosse o verdadeiro Templo. Contudo, a experiência só teria sido perfeita no Pólo, único lugar em que o ponto de suspensão incide sobre o prolongamento do eixo de rotação da Terra, no qual o Pêndulo realizaria seu círculo aparente em vinte e quatro horas» . In Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, 1988, Difel, 2004, Editora Gradiva, ISBN 978-989-616-717-2.

 Cortesia de Difel/ Editora Gradiva/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Conhecumento, Ciência, O Saber, 

quarta-feira, 20 de março de 2024

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós»

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26 de Março de 2021

«Perguntou a uma delas pela mãe. Recebeu resposta e agradecimento: senhor comendador. Tinha pressa de ir ter com a mulher, de certeza que já estava bem acordada. Durante um par de minutos, inclinou-se lá de cima, sobre a linha dos fornos que caramelizavam a alfarroba. Havia trabalhadores a varrerem cinza, a carregarem caldeiras, cada um a cumprir a sua função. Pouco faltaria para haver espanhóis a tomarem aquela mistura, no desayuno em casa ou encostados à barra, como eles dizem. A torrefação Camelo é uma máquina certa, nunca se cansava de repetir. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigá-lo, as pessoas vestidas com as melhores roupas, voltas e voltas na boca, havia muito que essas pessoas não teriam conseguido imaginar. Desembaciou os olhos. À sua frente ainda estavam os homens que trabalhavam nos fornos, sorriu para todos eles.

Voltou à divisão dos sacos de café, Uganda, das máquinas a torrar grãos, das pás a arrefecê-los. Desbarrigado, indiferente ao fato de treino fora de moda, levava uma alegria que era uma espécie de vaidade. No entanto, mesmo à beira da saída, o encarregado quis dar-lhe uma palavra mais sóbria, falou do lugar onde o senhor Rui tinha de ir nessa tarde.

A pensar no lugar onde tinha de ir nessa tarde, aquela hora mudou de cor. O sorriso esmoreceu no rosto do senhor Rui, senhor comendador.

Era um veio de acidez, podia avançar por ele, isolá-lo do resto do sabor. Nesse exercício, conseguia identificar um tipo de frescura que sugeria a imagem de maçãs verdes, como quando descascava uma maçã noutro tempo e a lâmina da faca tinha riscos húmidos e a carne da maçã sangrava pequenas gotas de sumo ácido. Mas, claro, reconhecia também o doce, a sua preferência. Em alguma idade teria aprendido esse gosto, o doce confortava-o. Todavia, o doce era complexo. Ali, aquecia-lhe ligeiramente a boca com um morno que, sem inventar, lhe trazia a memória de bolachas da infância, bolachas maria em dias assinalados.

Pousou a chávena no pires, o som da loiça. A manhã entrava inteira por aquele momento, assentava nas paredes brancas, pousava em toda a extensão da mesa, na toalha, no cesto do pão, nas palavras que a mulher dizia. Ao olhar para a mulher, sentiu ainda o peso do café sobre a língua, a espessura, sentiu também o seu nome bonito, Alice. O líquido descia-lhe pela garganta, desaparecia, e o sabor do café evaporava lentamente no interior da boca. Nesse processo, desenrolava novos sabores ou, talvez, novas gradações do mesmo sabor, como tons de uma cor, castanho. Aquilo que a mulher dizia apresentava uma delicadeza semelhante, estendia um enredo de filhos, netos e bisnetos, que se cruzavam em múltiplas direcções, nomes que se enredavam, Helena, Rui, Ivan, Rita, João Manuel, Marcos, nomes dispostos em várias ordens; e também as crianças, os filhos do Rui, do Ivan, do Marcos; nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta…»

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26 de Março de 2021

«Foi nesse momento que, dentro daquela primavera, dobrou ligeiramente os joelhos até achar uma abertura entre verde e cor-de-rosa e, a partir desse mirante, avistou o motorista. Precisou de dar alguns minutos, não queria aparecer logo, mas faltou-lhe paciência para grandes esperas. Agradeceu em silêncio pela preferência matutina, por ter chegado cedo ao circuito de manutenção, antes de sombras fugidias que o julgassem, e saiu do loendro muito aprumado, como se viesse a caminhar no seguimento de uma andança séria, enquanto esticava e encolhia os braços para a frente.

Sem explicações, entrou no automóvel, sentou-se, bebeu de uma pequena garrafa de água, muito digno. Não foi preciso dizer nada ao motorista, que regressou à segurança de saber para onde iam em seguida. As ruas da vila apresentavam nova animação, motorizadas, gente que aparecia à janela, cães a darem algum passeio, arrumados à sombra das paredes.

Muito bem-disposto, passou o portão da torrefação Camelo, sorriso aberto, dentição luminosa. A sexta-feira sentia-se da forma subtil com que os dias da semana se distinguem uns dos outros, o tempo roda. As pás giravam sobre os grãos de café, arrefeciam-nos depois da torra, como se estivessem ali para fazer uma demonstração prática dessa qualidade cíclica do tempo. Mas faltava vontade para teorias, o trabalho estava já em plena acção, conforme se desejava. O encarregado largou logo qualquer coisa que podia esperar e, lampeiro, avançou na direcção do senhor Rui, que também seguia na direcção dele. O que diziam foi abafado pelo afã das máquinas, falavam de assuntos que pouco interessariam a quem não partilhasse o brilho nos olhos de um e de outro. O patrão, claro, tinha a sua história, as lembranças que bastas vezes lhe cruzavam a ideia, em pequeno a aprender com o pai e com o tio, e todas as suas idades, a decidir cada evolução daqueles armazéns, até ser um homem de oitenta e nove anos, até ser aquela a sua empresa de estimação, pequena entre outras empresas do grupo que, àquela mesma hora, eram preocupação da sua descendência.

Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta, as figuras dos dois homens recortadas nesse fundo. Não se tratava da pilha de sacos que está logo à esquerda de quem entra, mas sim os outros, os que estão um pouco mais à frente, à direita, café do Uganda, esse nome gravado nos sacos: Uganda Natural Robusta Coffee. O fim da conversa foi assinalado por alguns pequenos passos e, logo a seguir, duas ou três passadas rijas. A propósito de algum detalhe, o senhor Rui disse uma graça a dois rapazes com farda da fábrica, rapazes de cinquenta e tal anos, calças castanhas, camisola vermelha, grená, cor de romã madura, boina na cabeça, óculos. Riram-se os dois, como era próprio, um deles acrescentou um comentário conveniente e tratou-o por senhor comendador.

Já na sala de embalagem, três mulheres cumprimentaram-no com a deferência de uma sílaba pouco articulada, talvez sem consoantes, a mesma que usavam em todas as manhãs que o senhor Rui decidia entrar ali. À margem dessa etiqueta, a máquina repetia a sua música, a sua sequência infinita, os pacotes chegavam em fila, altivos, novos e brilhantes, deslumbrados, a verem o mundo pela primeira vez a partir de uma passadeira de metal e, por fim, encontravam as mãos da mulher que os alinhava no interior de uma caixa de papelão, prontos para se lançarem numa viagem que ainda desconheciam. O senhor Rui cumprimentou as funcionárias também com uma sílaba, mas afinada por outra nota». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «… éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse: Aqui é onde os deuses vêm rezar»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«(…) Era a primeira vez que eu iria sair da morte. Por estreada vez iria escutar, sem o filtro da terra, as humanas vozes do asilo. Ouvir os velhos sem que eles nunca me sentissem. Uma dúvida me enrugava. E se eu acabasse gostando de ser um passa-noite? E se, no momento de morrer por segunda vez, me tivesse apaixonado pela outra margem? Afinal, eu era um morto solitário. Nunca tinha passado de um pré-antepassado. O que surpreendia era eu não ter lembrança do tempo que vivi. Recordava somente certos momentos mas sempre exteriores a mim. Recordava, sobretudo, o perfume da terra quando chovia. Vendo a chuva escorrendo por Janeiro, me perguntava: como sabemos que este cheiro é da terra e não do céu? Mas não lembrava, no entanto, nenhuma intimidade do meu viver. Será sempre assim?

Os restantes mortos teriam perdido a privada memória? Não sei. Em meu caso, contudo, eu aspirava ganhar acesso às minhas privadas vivências. O que queria lembrar, muito-muito, eram as mulheres que amei. Confessei   esse desejo ao pangolim. Ele me sugeriu, então: Você mal chegue à vida queime umas sementes de abóbora. Para quê? Não sabe? Queimar pevides faz lembrar amantes esquecidos.

No dia seguinte, porém, eu repensei a minha viagem à vida. Esse pangolim já estava demasiado gasto. Poderia eu confiar em seus poderes? Seu corpo rangia que nem curva. Seu cansaço derivava do peso de sua carapaça. O pangolim é como o cágado, caminha junto com a casa. Daí seus extremos cansaços.

Chamei o halakavuma e lhe disse da minha recusa em me transferir para o lado da vida. Ele que entendesse: a força do crocodilo é a água. Minha força era estar longe dos viventes. Eu nunca soube viver, mesmo quando era vivo. Agora, mergulhado em carne alheia, eu seria roído por minhas próprias unhas. Ora, Ermelindo: você vá, o tempo lá está bonito, molhado a boas chuvinhas.

Eu que fosse e agasalhasse a alma de verde. Quem sabe eu encontrasse uma mulher e tropeçasse em paixão? O pangolim vaselinavam a conversa e engrossava a vista. Ele sabia que não era assim fácil. Eu tinha medo, o mesmo medo que os vivos sentem quando se imaginam morrer. O pangolim me assegurava futuros mais-que-perfeitos. Tudo se passaria ali, na mesmíssima varanda, no debaixo da árvore onde eu estava enterrado.

Olhei o frangipani e senti saudade antecedida dele. Eu e a árvore nos semelhávamos. Quem, alguma vez, tinha regado as nossas raízes? Ambos éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse: Aqui é onde os deuses vêm rezar». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Mia Couto, Moçambique, O Saber, 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. « Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento»

jdact

26 de Março de 2021

«A minha mãe vira-se para mim, entro nos seus olhos, são olhos verdadeiros. A nata já solidificou sobre o leite fervido. Os olhos da minha mãe, limpos, o seu rosto, esta é aquela juventude que ficará aqui, teremos de avançar sem ela, teremos de continuar, não poderemos deter-nos por nada, nem sequer por aquilo que mais importa, pela única coisa que importa. Ainda estamos sozinhos na cozinha, a minha mãe ainda não preparou as canecas, ainda não misturou o leite, ainda não as adoçou, ainda não chamou as minhas irmãs, ainda não sabe o que vai acontecer ao meu pai, faltam tão poucos anos, ainda não envelheceu, a minha mãe ainda não envelheceu. A minha mãe, os seus olhos jovens e limpos e eu com nove anos, o meu Rui, pode deixar que eu falo com o meu Rui, eu com nove anos, a querer poupá-la de tudo, a querer resolver tudo, a querer segurar-lhe nas mãos e, na hora certa, a querer sussurrar-lhe aos ouvidos: não tenha medo, mãe; não tenha medo, mãe; sou o seu Rui, estou aqui.

Estava escondido atrás das ramas e das flores de um loendro. Com os joelhos pouco dobrados, espreitava o motorista. As flores exageravam no cor-de-rosa e, ao mesmo tempo, tingiam o ar com um perfume doce, grosso, meloso. O sol começava a aquecer e, também por isso, o perfume apurava o açúcar.

Tomou uma posição mais justa, endireitou-se, mas não quis aparecer logo, precisava de dar mais alguns minutos. Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano, já era a segunda vez que tinha essa lembrança naquele dia. Mas logo a seguir olhou na direcção de Espanha, o olhar atravessou a vedação do estádio, lançou-se no começo da estrada. Os campos de oliveiras certinhas, que cobriam uma e outra berma, chegaram da imaginação, ou da memória, em algum desses lugares os observava também.

Pareciam malucos, os pardais, enrolavam-se em tropelias a baixa altitude, desafiavam o sol, sabiam que, a qualquer momento, podiam entrar pelas copas das árvores e descansar as asas e os bicos. Porque começou a saturar-se de esperar, voltou a dobrar ligeiramente os joelhos e voltou a espreitar o motorista entre duas pernadas do loendro.

Lá continuava ele, intrigado, encostava-se e desencostava-se da porta do automóvel, cumprimentava um transeunte, bom dia, trocava frases avulsas com os bombeiros que davam um passo fora do quartel.

Na primeira hora da manhã, quando o senhor Rui chegou de fato de treino, sapatilhas atadas com largos laços, o motorista ficou logo com duas palavras presas na garganta. A rotina é uma forma de lógica; por isso, durante o caminho para o estádio, poucos minutos em ruas sem trânsito, o motorista franziu a cara e calculou há quantos anos o patrão não começava o dia com aquela ginástica. Não alcançou um número certo. Em vez de concluir esse raciocínio, dedicou-se a pequenos sinais, gestos ou sugestões, espécie de pequenas perguntas ocultas, discretíssimas. Mas o patrão, senhor Rui, optou por olhar para o lado, ignorar o rosto metediço no espelho retrovisor e restantes códigos.

No estacionamento, puxado o travão de mão, quando o motorista se ofereceu para acompanhá-lo, recebeu logo resposta negativa, o senhor Rui levantou a palma da mão e agitou-a. E prescindiu de outras palavras, apenas um certo tom, cara sisuda. Às vezes, fazia falta esse rigor. E afastou-se em linha recta, na medida do possível, para o circuito de manutenção. Nos pensamentos, quase ofendido, parecia-lhe que aquele interesse desafiava as suas competências e respondia a acusações que não tinham sido realmente feitas. Era a idade, cismou que a desconfiança do motorista nascia do tema da idade. Os novos têm a arrogância do que desconhecem, bamboleiam-se todos manientos, carregados de presunção, sem repararem que levam um céu de pedra suspenso sobre a cabeça, nuvens esculpidas. Está mesmo ali, bastaria um movimento de pescoço para enxergá-lo, mas ficam de olhos turvos quando dirigem a vista para certas lonjuras, conforme olhos de peixe morto, ganham a mesma capa de cegueira.

Influído por esse despique, passou diante das bilheteiras do estádio do Campomaiorense, quatro buracos quadrados numa parede, e entrou no circuito de manutenção. Seguia de queixo erguido, acompanhava os passos com movimento atlético de cotovelos ao longo do corpo mas, de repente, os artelhos tomaram outra decisão. E, logo os dois ao mesmo tempo, lançaram uma pontada que lhe apanhou os calcanhares, o peito dos pés, articulações, tendões, músculos. Só teve tempo de se encostar ao vulto do loendro e serenar. Pensou numa cadeira ou num banco, mas aquela sombra já era de valor. Fechou os olhos, encheu os pulmões. Lembrou-se do sentinela no Quartel do Trem, a hora de sair, licença, e o sentinela lá estava, sempre um rapaz amedrontado, por mais que o escondesse numa cara desta ou daquela maneira, um rapaz em sentido, a cabeça a assar no capacete, os pés a ferverem nas botas, meias de fio áspero. Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento. Lembrou-se das razões porque deixou de fazer aquela caminhada, pequena derrota, mais uma». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café»

jdact

26 de Março de 2021

«Quando entreguei o prato e o pano à minha mãe, tinha a cesta aviada com pedaços de carne acomodados em folhas de couve, pode deixar que eu falo com o meu Rui. A minha mãe explicou-me os destinatários dessas encomendas, orelha, toucinho, ossos, pés, fígado, baço. Antes de sair, passou-me a mão pelo cabelo, uma festa, como se me penteasse. Quando terminei a primeira ronda, estavam as mulheres no começo de encher as farinheiras. O cheiro avinagrado da massa das farinheiras impregnava a divisão. A seguir, com a cesta novamente carregada, as ruas de Campo Maior entardeceram, a cal recebeu diferentes amarelos, acinzentados e azuis, até cair a noite. Quando voltei da segunda ronda de distribuição, mãos agradecidas a receberem as encomendas, olhos regalados a apreciarem a carne, a textura da carne sobre a couve, a minha mãe esperava-me com a vasilha do leite, tinha essa intenção planeada desde sempre. Depois do morno do sebo e da palha, depois do olhar mal iluminado das vacas, depois das ruas, noite antes do serão, gente a voltar para casa, cheguei com o quarto de litro de leite, mais um ou dois dedos por paga de bom freguês.

Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena estava ainda esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas.

O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos da cozinha. E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar no chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era esse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta deste gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. Fixo-me nas minhas mãos de rapaz de nove anos, o tamanho e a forma dos dedos, as unhas, a pele da palma das mãos, os pulsos. Reparo nos meus braços, na proporção do meu corpo em relação ao que me rodeia, esta cozinha, a cozinha dos meus nove anos, reparo neste tempo, serão da minha infância, inverno, dia de semana, o meu irmão que ainda não chegou, um homem com dezasseis anos, as minhas irmãs, a Cremilde com onze e a Clarisse com sete, e o meu pai, que também ainda não chegou, o patrão não lhe concedeu anuência, mas que está em algum lugar, a respirar, a ver alguma coisa, quase de certeza a pensar em nós, quase de certeza a pensar que gostava de estar aqui.

E esta hora tão precisa, intensa, a minha mãe, resguardada pela luz e pela escuridão, o candeeiro de petróleo a aguentar todo o peso da noite. A minha mãe com a cintura envolta em nuvens, entorna a água sobre o coador. É café do melhor, trazido de Espanha pelo meu tio, é ouro. Vai preparar canecas de café com leite para as minhas irmãs e para mim, para o meu irmão mais tarde, a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe»

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26 de Março de 2021

«Hoje, durante toda a tarde, atravessei Campo Maior bastas vezes. Pousei o livro da segunda classe, comi um caldo e, logo a seguir, estava eu já disposto, encostado a dois breves minutos de folga, em silêncio bem-comportado. A minha mãe aceitava uma encomenda, pode deixar que eu falo com o meu Rui. Eu ali, transparente ou invisível, e a minha mãe a falar de mim, o Rui dela. Temos carne nova na mercearia, sabes e por toda a vila. O porco foi morto ontem e, àquela hora, já não estava pendurado de cabeça, preso pelas patas traseiras, tinham começado a desmanchá-lo no primeiro início da manhã, cedo, no fresco, antes ainda da minha abalada para a escola.

Pode deixar que eu falo com o meu Rui, e falaria, mas o primeiro mandado já estava capaz de ser feito. Com solene cerimónia, a minha mãe apresentou-me um prato de fêveras, coberto por um pano. E tanto o prato, como o pano, como as fêveras, pertenciam à melhor selecção.

Atravessei a praça da República e, depois, escolhi as ruas que me pareceram mais apuradas para aquele desfile. Levava o prato à frente do peito, seguro pelas duas mãos. Em cada passada, levantava o pé com firmeza, não arriscava sequer tropeçar numa ideia. Nesse rigor, cruzei-me com moços da minha idade, obrigados a decorar os mesmos rios de Angola que eu e, apesar dessa grande confiança, não nos cumprimentámos. Em silêncio, reconhecendo gravidade, ficaram apenas a seguir-me com o olhar.

Mais perto da casa do doutor, crescia o desejo de ver o meu pai, talvez calhasse a achá-lo entre uma tarefa e outra, podia mesmo coincidir com a oportunidade de um passeio no carro do patrão, do doutor, os bancos de couro, o gargalo esticado para ver a estrada depois do capô, longa carroçaria de chapa mociça, e o meu pai, compenetrado, os braços pousados no guiador, pronto para qualquer manobra. Mas, quase ao mesmo tempo, logo colado a esse pensamento, o coração desengatilhava-se a bater, tipo bombo, era o medo de encontrar o filho do doutor, medo de que andasse solto, espírito envenenado. Fiz os últimos metros nesse suplício, como se o prato de fêveras me puxasse a mim. Fui direito às traseiras, bati à porta da copa, chegou uma servente de cozinha que me desenganou logo da possibilidade de ver o meu pai, tinha acabado de sair de automóvel, tinha ido levar ou buscar a patroa, a esposa do doutor.

À espera da devolução da loiça, a ansiedade cresceu com a idealização do filho do doutor, rosto esgazeado que podia saltar-me à frente. Assim que recebi o prato enxaguado, a pingar água, o pano muito bem dobrado, quis sair dali. Nessa urgência, distingui um urro abafado, talvez o filho do doutor, trancado em algum ponto daquele casarão, ou no interior da minha cabeça.

As brasas, como pequenas almas. A cinza, quase misturada com a sombra, pó de sombra. O leite, escondido na sua cor, mas prestes a irromper de repente pelas paredes do púcaro. Tenho de evitar essa bruteza de desperdício. Tenho também de esquivar-me aos pingos súbitos que as barrigas dos chouriços largam, chuva muito lenta de gordura espessa, gordura que se desfez para atravessar os poros das tripas e, depois, aquecida por este fumo paciente, se reagrupou num pingo meloso. Não afasto o olhar do lume, estou de guarda às chamas e ao leite, mas reconheço na pele o toque da luz do candeeiro, o aroma tóxico e doce do petróleo queimado. O meu irmão ainda não chegou a casa. Não se sabe a que horas o meu pai chegará, dispensado por fim pelo doutor. As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

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sábado, 16 de dezembro de 2023

Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo. Adelino Cunha. «Jorge Amado, autor do primeiro romance proletário no Brasil (Cacau, 1933), estava em França na sequência da cassação do seu mandato como deputado comunista»

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O homem e o Mito

«Cunhal raramente hesitou quando teve de decidir sozinho ou apoiar decisões exemplares de terceiros na defesa deste quadro mental de disciplina colectiva. A hesitação e a dúvida não tinham lugar. Algumas das circunstâncias em que ocorreram essas correcções continuam difíceis de confirmar pelo pacto de silêncio tácito que envolve os intervenientes directos ou por serem de muito difícil reconstituição por ausência de fontes credíveis. A fronteira entre os ajustes de conta s executados no PCP e a conivência das autoridades policiais e judiciais do Estado Novo impossibilita a verificação de alguns factos políticos que foram tratados como crimes vulgares. A teologia da revolução e a determinação de Álvaro Cunhal estiveram sempre acima da vontade dos homens comuns. Quem foi este homem? Tão magro, de magreza impressionante, chupado, a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora, como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português

Este retrato delicado de Jorge Amado aproxima-se de uma certa imagem de revolucionário romântico que o próprio Cunhal gostava de projectar de si próprio. A austeridade física cavada pela dureza da vida clandestina e o perfil psicológico determinado e sacralizado de um revolucionário sabedor antecipado do caminho da História. É no romance Até Amanhã, Camaradas que Álvaro Cunhal idealiza de forma mais impressiva nas duas principais personagens masculinas alguns traços de carácter que podem ser identificados em si próprio e em alguns dirigentes do PCP. Ramos tem a franqueza e o à-vontade que quase tocam a insolência, senão fora a segurança em si mesmo. É capaz de ser extremamente duro e exigente nas relações políticas com os outros, mas revela sentimentos de ternura e compaixão em circunstâncias de maior intimidade. Vaz tem um rosto severo e impassível e destaca-se pelo comportamento ríspido e austero. É um funcionário partidário típico, que percorre o País de reunião em reunião e na preparação da luta política, indo além dos seus próprios limites físicos, alimentado por uma causa que o ultrapassa.

Quase tudo em Álvaro Cunhal parece desembocar num certo mistério biográfico. As omissões e adulterações factuais são subtis, e demasiadas vezes imperceptíveis no processo de construção exterior de um mito. A projecção modelar da sua vida pública e privada remete para a pureza dos santos e dos mártires. Um herói revolucionário portador de uma energia indefectível. Eugénia Cunhal lamenta que retratem o irmão como uma pessoa severa no trato pessoal. Considerava-o um homem cheio de ternura e que sabia mostrá-la fazendo uma festa ou dando um beijo. Sabendo dizer coisas do tipo maninha, como estás? Uma faceta que mostrava com frequência à família e aos amigos. Era um homem afectuoso por natureza.

Jorge Amado acrescenta no seu retrato os «olhos fundos e cansados, a magreza impressionante, o físico combalido pela dura ilegalidade, a fadiga de anos acumulada no corpo e as mãos ossudas, mas sempre a capacidade de ter um sorriso terno. Todo o esplendor que emana de Álvaro Cunhal representa o modelo perfeito do revolucionário.

Há uma preocupação permanente em construir uma ideologia de inspiração quase religiosa que apresenta uma mensagem de esperança e de conhecimento antecipado da História. Uma religião agnóstica com santos e mártires. Os revolucionários que entregam a sua vida em nome dos valores colectivos. Cunhal recusava o papel de líder individual, mas as suas acções remetiam aos olhos dos outros para esse heroísmo de assinatura e o mistério biográfico ajudou a desenhar o avatar revolucionário. A base do retrato físico e psíquico pincelado por Jorge Amado decorre de um encontro em Paris. Álvaro Cunhal regressava em 1948 de uma viagem à Jugoslávia e a Moscovo para recolocar o PCP na esfera de influência directa da União Soviética através da reintegração no movimento comunista. Amado, autor do primeiro romance proletário no Brasil (Cacau, 1933), estava em França na sequência da cassação do seu mandato como deputado comunista». In Adelino Cunha, Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo, 2010, Saída de Emergência, 2020, ISBN 978-989-889-270-6.

Cortesia de SaídaEmergência/JDACT

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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo. Adelino Cunha. «A convicção férrea e a dinâmica emocional controlada permitiram-lhe suportar as privações com a mesma determinação com que penalizou os que abriram brechas na couraça revolucionária»

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O homem e o Mito

«Á lvaro Barreirinhas Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913 na Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra, filho de Avelino Henriques da Costa Cunhal (1887-1966) e de Mercedes Simões Ferreira Barreirinhas (1888-1971). Morreu em Lisboa no dia 13 de Junho de 2005 com 92 anos. Foi uma das maiores figuras políticas e intelectuais do século XX português e do próprio movimento comunista internacional, mas recusou escrever uma autobiografia que ajudasse a compreender essa parte significativa da memória colectiva dos Portugueses. Um livro de memórias é, em geral, uma coisa tão aborrecida; é um dicionário de factos que uma pessoa colecciona, repetiu ao longo de décadas. Álvaro Cunhal aprendeu a controlar instintivamente os mecanismos de comunicação com as massas e aperfeiçoou o seu domínio ao longo dos anos. As entrevistas foram doseadas de forma austera, tendo em consideração a sua longevidade e relevância política, e as declarações públicas surgiram quase sempre espartilhadas para revelar somente o pretendido. O homem confundiu-se demasiadas vezes com o mito nesta névoa.

O próprio PCP aceitou o mistério biográfico em nome da aversão de Álvaro Cunhal ao culto da personalidade e sintetizou a vida do expoente máximo do comunismo português numa árida nota biográfica. Álvaro Cunhal chegou a recusar que a sua fotografia fosse utilizada nas campanhas eleitorais do PCP em nome das virtudes do colectivo sobre as individualidades. O ideal comunista estava acima dos homens porque os homens podem falhar. A História escreveu-se de outra maneira porque o PCP foi durante décadas o próprio Álvaro Cunhal, mas Álvaro Cunhal era muito mais do que apenas o PCP.

A glória não está apenas na personalidade, mas no modelo de imortalidade. Os caminhos parecem por isso conduzir para a um semideserto identitário. Interrogam-me muitas vezes sobre a minha vida. Gostaria de dizer o seguinte: a minha vida é inseparável da vida de todos os comunistas de Portugal, afirmou em 1962, ao jornal Pravda, quando a sua liderança se tornara inequívoca. Existe um texto de carácter biográfico escrito por Júlio Fogaça em 1954 para responder às regras de funcionário impostas pelo movimento comunista internacional para controlo dos Quadros. Soma-se uma nota sintética actualizada após o seu regresso de Moscovo em 1974 para ser distribuída aos jornalistas portugueses por necessidades operacionais.

Por último, está publicada uma narrativa de carácter panfletário que se tentou tornar asséptica através da publicação na União Soviética. É neste texto empenhado que se encontram alguns indícios da imagem que Álvaro Cunhal aceitava projectar de si próprio, na medida em que se assumiu como fonte directa da autora. Trata-se de um insuficiente exercício biográfico escrito por Yulia Leonidovna Petrova, neta do então líder dos comunistas russos, Nikita Khrushchev, tendo por base algumas conversas soltas com o próprio biografado. Hastes sem Bandeiras teve a sua primeira publicação em 1963 na editora Pravda, mas o PCP adiou a sua reedição em Portugal e remeteu o original para a obscuridade. A tradução de Francisco Ferreira, o celebrizado Chico da CUF, importante dissidente comunista e adversário militante de Cunhal, tornou-se na fonte secundária mais utilizada para aceder ao texto original. O exercício traduz um esforço para desmistificar alguns factos do percurso de Álvaro Cunhal e, acima de tudo, pretende constituir-se como acusação contra o herói soviético. O antigo dirigente comunista tenta desmontar a imagem de Cunhal enquanto produto de marketing da velha escola soviética especializada em construir e desconstruir os líderes comunistas internacionais.

É verdade que Álvaro Cunhal se apresentou durante um importante período da história da União Soviética como um modelo de dirigente comunista e atingiu um elevado nível de reconhecimento entre os seus correligionários internacionais. Beneficiou de um estatuto que durou largos anos e que lhe permitiu viver com tranquilidade em Moscovo e em França com o apoio directo do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e circular por todos os países socialistas com considerável liberdade de movimentos. A classe dirigente reconhecia-lhe mérito político, empenho pessoal e, acima de tudo, a necessária disciplina revolucionária. Álvaro Cunhal prescindiu de uma parte da sua vida e dos afectos para se dedicar a uma causa de inspiração transcendente que exigiu submeter-se a intensos sacrifícios físicos e psicológicos. O seu percurso tornou-se numa teologia da revolução.

A convicção férrea e a dinâmica emocional controlada permitiram-lhe suportar as privações com a mesma determinação com que penalizou os que abriram brechas na couraça revolucionária. Também revelou uma profunda intolerância e desprezo para com os dissidentes intelectuais e criticou duramente os que cederam às torturas físicas por comprometerem a segurança colectiva e a moral revolucionária. A disciplina e a fidelidade tornaram-se dogmas de comportamento. Álvaro Cunhal lutou pelas virtudes do comunismo em sintonia com as orientações do movimento comunista internacional, mas as suas convicções e o seu comportamento foram muito além da conjuntura dos líderes que foram passando pela Praça Vermelha. O projecto de sociedade global e de homem novo defendido ao longo de décadas resistiu a várias tentativas externas de destruição do PCP e dos seus dirigentes e exigiu a depuração de resistências interna que se manifestaram em vários casos com contornos de violência psicológica e física». In Adelino Cunha, Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo, 2010, Saída de Emergência, 2020, ISBN 978-989-889-270-6.

 Cortesia de SaídaEmergência/JDACT

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

O Segredo de Espinosa. José Rodrigues dos Santos. «Sei lá. Olhou para o adulto que os acompanhava. Quem é aquele senhor, Pai? É o Uriel da Costa. Porque está toda a gente a olhar para ele?»

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Prólogo

«Os olhos castanho-escuros brilhantes do menino de oito anos estavam colados ao pano de seda vermelha e dourada que no hechal, o santuário da arca feito de madeira com duas portinholas, cobria os pergaminhos onde se inscrevia a Tora. Era como se HaShem, Ele próprio, o Nome, Deus bendito, omnipotente e omnipresente, Shaddai Todo-Poderoso, Adonai, Elohim ou qualquer outro dos Seus mil nomes, a1i estivesse à espera que O destapassem para que sobre todos lançasse o Seu olhar carregado de infinito. Misericórdia, justiça, fúria, compaixão, majestade, poder, amor, vida e morte. Ele era tudo o que havia. Tudo. O incomensurável.

O rebuliço próprio da sinagoga, entre os yehidim conhecida por esnoga, denunciava uma descontracção feita de conversas cruzadas e gargalhadas frequentes. Os correctores trocavam informações úteis para a sua actividade na bolsa, os comerciantes discutiam quando chegariam os últimos carregamentos de pau-brasil do Recife e de sal de Setúbal, e se haveria problemas com os espanhóis. Outros membros da congregação comentavam o descaramento dos tudescos em quererem vender nos seus talhos comida kosher aos portugueses, enquanto um punhado se ria com uma piada fresca que acabara de chegar de Lisboa ou de Sevilha. Os homens tinham panos brancos nos chapéus a cair-lhes sobre os ombros, os tallitot, e todos se sentavam nos seus lugares previamente marcados. Não havia nenhum que não tivesse nas mãos um Tanach, a Bíblia judaica; algumas em hebraico, a maioria em português.

O olhar do pequeno Bento desviou-se para a galeria onde se encontravam as mulheres, as cabeças cobertas por véus, muitas acompanhadas pelas filhas. Até dois anos antes tinha visto a mãe sempre ali sentada, silenciosa e atenta, a tossir ocasionalmente, mas justamente por causa dessa maldita tosse Ana Débora já não estava neste mundo. Em vez dela, viu duas meninas da sua idade sorrirem-lhe. Endireitou-se logo. Diziam-lhe por vezes que era um rapazinho de feições bonitas, o que pelos vistos atraía tantos sorrisos e olhares das meninas, mas, tímido como era, não sabia como lidar com tais atenções.

O burburinho parou bruscamente. De tão inusitado, o silêncio súbito arrancou Bento das suas deambulações pela esnoga. Os rostos de todos os congregantes voltaram-se em vagas sucessivas para a porta da rua e o menino, sentado na nave com a família, imitou-os.

Contra a luz pálida do Sol que jorrava sobre a entrada recortava-se o vulto de um homem de cabelos grisalhos revoltos, os ombros descaídos, imóvel e de cabeça baixa; dir-se-ia que tinha medo de entrar. Os olhares dos yehidim mantinham-se presos no recém-chegado, sem o convidarem mas também sem o rejeitarem; estavam simplesmente na expectativa de ver o que ele faria. Atrever-se-ia a avançar ou daria meia-volta e escapulir-se-ia?

Sentindo a súbita tensão que se instalara no santuário, Bento virou-se para o lado. Quem é?, os seus dois irmãos, Isaac um ano mais velho e Gabriel dois anos mais novo, encolheram os ombros com indiferença. Sei lá. Olhou para o adulto que os acompanhava. Quem é aquele senhor, Pai? É o Uriel da Costa. Porque está toda a gente a olhar para ele? Impacientando-se, o pai colou o indicador aos lábios. Chiu!

O pequeno calou-se e voltou a olhar para o recém-chegado. Ainda plantado no meio da entrada, Uriel da Costa respirou fundo, como se ganhasse coragem para fazer o que viera ali fazer. Recomeçou a caminhar, o corpo curvado pela derrota, os olhos intimidados no chão, internando-se na sinagoga pelo corredor central ladeado de congregantes que o observavam fixamente.

Chegou diante da bimah, a plataforma de madeira situada no centro do santuário onde habitualmente se faziam as leituras. Após uma nova hesitação, subiu-a com passos lentos e pesados, como um condenado a encaminhar-se para o cadafalso. A bimah estava deserta e os olhos de todos os yehidim encontravam-se centrados nele como se fosse o chacham de serviço. Voltando-se para a multidão, Uriel retirou do interior do casaco o papel que o chacham Saullevi Morteira, o rabino chefe, havia previamente redigido com as palavras adequadas para a ocasião. Desdobrou-o. As mãos tiritavam de nervosismo e o papel tremelicava sem cessar. Engoliu em seco ao pousar os olhos nas primeiras linhas do texto. Afinou a garganta». In José Rodrigues dos Santos, O Segredo de Espinosa, 2022, Grupo Planeta, 2023, ISBN 978-989-777-666-3.

 Cortesia de GrupoPlaneta/JDACT

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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Aqui, este lume tem de cumprir dois deveres para servir a nossa família. O primeiro são os varões de farinheiras, chouriços, morcelas, paios e paiolas na chaminé. Esses enchidos foram enfiados um a um nos varões…»

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26 de Março de 2021

«Como se tomasse sabor à língua ressequida, como se comesse papas imaginárias, abriu e fechou a boca, repetiu breves estalidos. A seguir, apertou as pálpebras nos olhos e, ao destapá-las, a penumbra ganhou formas, foi capaz de distinguir a luz que chegaria apenas mais tarde, o nascer efectivo do dia, luz que haveria de atravessar alguns pontos da janela fechada e, a partir daí, disparar linhas no ar do quarto, conferindo dados suficientes para um cálculo de área e volume. Mas ele tinha referências de maior confiança, conhecimento acumulado sem necessidade de medições, todos os dias em que despertava naquele quarto. Por orgulho, ignorava ainda o despertador. Mas existia o tempo e a respiração da mulher, que resvalava ténue no céu da boca. E o mesmo reconhecimento de pureza, Alice, ligação simples e, naquele silêncio de sons quebradiços, ligação profunda.

Em passos seguidos, indiferente à roupa escolhida, dobrada e preparada de véspera, fez o caminho que a cabeça lhe ditava. Ocupado nessa tarefa, regressou ao seu nome. Regressou ao nome que a mulher lhe chama todos os dias, o que lhe chamava logo depois de se casarem, com um ou dois meses de casados, o nome que lhe chamavam na tropa, em Elvas, o nome que a mãe lhe chamava, a voz da mãe, cada momento em que a voz da mãe se ouvia de novo, o seu nome entre frases que a mãe dizia pela primeira vez, mas também o nome que os funcionários lhe chamam, os funcionários mais antigos e os mais novos, avós, pais, netos, o nome que os clientes lhe chamam, de norte a sul, até os clientes estrangeiros, e o nome por que é tratado nas ruas de Campo Maior, que escuta às vezes, quase sussurrado quando alguém dá alerta para a sua passagem, e o nome que as irmãs lhe chamavam, as manas, e o tio Joaquim, homem bem falante, e o professor na terceira classe, o seu nome a atravessar a sala de aula, a luz da sala de aula, o seu nome a atravessar manhãs antigas, e o nome que o pai lhe chamava, o pai, a maneira como o pai referia o seu nome, os tons com que o pronunciava, a voz do pai existiu, não foi esquecida, existiu.

Onde existia a voz do pai naquele instante?

O fato de treino tinha cheiro de armário. Assim que terminou de vesti-lo, de puxar o fecho do casaco, acertou os elásticos na cintura. Em sequência, atou as sapatilhas, um pé, outro pé, e levantou-se devagar, mas com firmeza, sem precisar de se agarrar a nada. Passou a mão pelo bigode e saiu.

O lume tem de se conformar com chamas comedidas, sem extravagâncias de grande queima. Pode envolver os madeiros, dar-lhes uma capa de flama, mas não pode atirar-se à bruta para cima dos chamiços, por muita sede que lhes tenha. Aqui, este lume tem de cumprir dois deveres para servir a nossa família. O primeiro são os varões de farinheiras, chouriços, morcelas, paios e paiolas na chaminé. Esses enchidos foram enfiados um a um nos varões, que ficaram amparados por dois bancos antes de serem alçados, distribuídos pelos vários escalões do interior da chaminé. O segundo encargo deste lume é o púcaro de leite e a cafeteira. Não se pode deixar o lume avivar muito enquanto estiverem estas carnes a fumar, uma dúzia de dias pelo menos, mas este leite precisa de algum fogacho para ferver. É por isso que estou de sentinela, esta cana serve para animar o lume se começa a esmorecer, mas também para lhe dar uma cacetada se quiser levantar cabelo.

A nata do leite, mal cheguei com a vasilha, a minha mãe prometeu-me essa iguaria. A noite estava começada, mas não sei se tinham batido as seis no relógio da igreja matriz. Oferta de mãe, afeição natural. Se fosse preciso uma razão em voz alta, havia o vigor que a nata me infundia, gaiato de nove anos a fazer-se, mas ninguém pediu razões». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Abriu os olhos, regressou ao seu corpo. Começou por virar-se devagar e, ao fazê-lo, regressou à sua idade: oitenta e nove anos, esse número. Enquanto rolava o corpo no colchão…»

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26 de Março de 2021

«Se continuasse nessa direcção, pouco tardaria para alcançar a fronteira. Ali, no sossego, os nervos da fronteira eram uma memória inofensiva, despertaram-lhe certa forma de entusiasmo ou de juventude, mas não deu o passo que ultrapassaria essa linha, regressou de repente ao discernimento do quarto, ainda o corpo na mesma posição, imóvel, deitado, interessado no morno, a madrugada.

O passado tem de provar constantemente que existiu. Aquilo que foi esquecido e o que não existiu ocupam o mesmo lugar. Há muita realidade a passear-se por aí, frágil, transportada apenas por uma única pessoa. Se esse indivíduo desaparecer, toda essa realidade desaparece sem apelo, não existe meio de recuperá-la, é como se não tivesse existido. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigar o bolo, a não conseguir engoli-lo, voltas e voltas na boca, um cálice de licor, a molhar a ponta dos lábios num cálice de licor, esse doce a misturar-se com a massa mastigada do bolo. O passado é enorme, é como uma montanha, e assenta inteiro sobre o presente, que é como uma agulha, como a ponta afiada de uma agulha. Uma montanha assente sobre a ponta de uma agulha, onde é que já se viu?

Imóvel, deitado, libertava frases dentro de si. Eram frases que se afastavam na escuridão, tinha tempo de observá-las, considerá-las. Talvez devido ao silêncio daquela hora, talvez devido à limpeza do jejum, eram frases que continham uma verdade solene e ardente, com alguma angústia às vezes, sobretudo no momento em que começavam a desfazer-se, a misturar-se com as coisas esquecidas, a voz a tornar-se vaporosa. A quem pertencia aquela voz? Fixou-se nela. Escutou-a com a mesma clareza com que teria escutado uma voz vinda de fora, alguém a falar-lhe. No entanto, aquela era uma voz que dizia eu e que, ao fazê-lo, se referia a ele. Quem dizia eu no seu interior? Era ele aquela voz?

Sentiu a mulher a seu lado, que nome bonito, Alice, nome de menina, e quase pensou em despertá-la, partilhar o alívio. Mas conhecia bem o seu rosto adormecido, amparou-se nele tantas vezes ao longo das décadas, rosto indefeso, confiança absoluta, Alice, vários rostos e, no entanto, sempre o mesmo. Essa lembrança, como fotografias sobrepostas, chegou-lhe à garganta, a ternura é uma forma sublime de amizade. E, ainda de olhos fechados, precisou de inspirar fundo, como se sorvesse toda a escuridão e, logo a seguir, a devolvesse à madrugada.

Abriu os olhos, regressou ao seu corpo. Começou por virar-se devagar e, ao fazê-lo, regressou à sua idade: oitenta e nove anos, esse número. Enquanto rolava o corpo no colchão, cilindro, insecto lento, tentava não acordar a mulher, ruídos de molas, juntas da cama, corrente de ar abrupta ao rés dos lençóis. Ao mesmo tempo, uma guinada na lombar, a nuca pouco articulada, os pulsos a terem de ser manobrados com prudência para não se abrirem numa luxação. E, na saída da roupa da cama, reprimiu o suspiro que a coluna aprumada e as vértebras encaixadas lhe pediram. A ponta do pé, embicada, tocou o chão». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

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JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,