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segunda-feira, 4 de abril de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «O mesmo ocorre com o espectáculo das cativas muçulmanas que trazem aos pés anéis de ferro. Os corações despedaçam-se a essa visão, mas piedade não lhes serve para nada»

jdact e wikipedia

Agosto de 1099. Bagdade
«… Foi, de facto, na sexta-feira 22 do tempo de Chaaban, do ano de 492 da Hegira, que os franj se apossaram da Cidade Santa, após um cerco de quarenta dias. Os exilados ainda tremem cada vez que falam nisso, o seu olhar torna-se gélido como se eles ainda tivessem diante dos olhos, aqueles guerreiros louros, protegidos de armaduras, que espalham pelas ruas o sabre cortante, desembainhado, degolando homens, mulheres e crianças, pilhando as casas, saqueando as mesquitas. Dois dias depois, não havia um só muçulmano dentro das cidades. Alguns aproveitaram-se da confusão para fugir, pelas portas que os invasores haviam arrombado. Outros jaziam, aos milhares, em poças de sangue na soleira das suas casas ou nas proximidades das mesquitas. Entre eles, um grande número de imãs, e ascetas sufis que haviam deixado a sua terra para viver um retiro piedoso, nesses santos lugares. Os últimos sobreviventes forçados a cumprir a pior das tarefas: transportar os cadáveres dos seus, amontoando-os, sem sepultura, nos terrenos baldios para em seguida queimá-los. Os sobreviventes por sua vez deveriam proteger-se para não serem massacrados ou vendidos como escravos. O destino do judeus de Jerusalém foi igualmente atroz. Durante as primeiras horas da batalha, vários deles participaram da defesa do seu bairro, a Judiaria, situada ao norte da cidade. Mas quando a parte da muralha que delimitava as suas casas desmoronou, os judeus apavoraram-se, vendo que os louros cavaleiros começavam a invadir as ruas da cidade. A comunidade inteira, reproduzindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga principal para rezar. Os franj então bloquearam todos os acessos. Depois, empilhando feixes de lenha em torno, atearam fogo. Os que tentavam sair eram mortos nos becos vizinhos, os outros, queimados vivos. Alguns dias após o drama, os primeiros refugiados da Palestina chegaram a Damasco trazendo, com extremo cuidado, o Alcorão de Othman, um dos mais antigos exemplares do Livro Sagrado. Em seguida, os fugitivos de Jerusalém aproximaram-se da metrópole síria. Avistando de longe a silhueta dos três minaretes da mesquita omíada que se destacam acima da muralha quadrada, então estenderam o seu tapete de oração para agradecer ao Todo-Poderoso por ter assim prolongado as suas vidas que acreditavam ter chegado ao fim. Como grande cadi de Damasco, Abu-Saad al-Harawi acolheu os refugiados com benevolência. Esse magistrado de origem afegã era a personalidade mais respeitada da cidade, conselheiro e consolador dos palestinos. Segundo ele, um muçulmano não deveria envergonhar-se de ter tido que fugir da sua casa. O primeiro refugiado do Islão não fora o próprio profeta Maomé, que tivera que deixar a sua cidade natal, Meca, cuja população lhe era hostil, buscando refúgio em Medina, onde a nova religião era mais aceite? E não fora a partir de seu exílio que lançara a Guerra Santa, o jihad, para libertar a pátria da idolatria? Os refugiados devem considerar-se os combatentes da Guerra Santa, os mujahidins por excelência, tão honrados no Islão que a emigração do Profeta, a Hégira, foi escolhida como ponto de partida da era muçulmana. Para muitos crentes, o exílio era, no caso de ocupação, inclusive um dever imperativo. O viajante Ibn Jobair, um árabe da Espanha que visitara a Palestina (cerca de um século após o início da invasão franca), ficara escandalizado vendo que alguns muçulmanos, subjugados pelo amor da terra natal, aceitam viver em território ocupado. Não há, dizia ele, para muçulmano, desculpa alguma perante Deus para a sua estada numa cidade ímpia, a menos que esteja simplesmente de passagem. Em terra do Islão, encontrou abrigo contra os males a que estava submetido. Contrariamente, em paisagens estrangeiras era obrigado a ouvir ofensas dirigidas ao Profeta, sujeitar-se aos impedimentos de purificação, viver entre os porcos e a tantas outras licenciosidades. Abstenham-se, abstenham-se de penetrar nessas regiões! É preciso pedir perdão e misericórdia a Deus para evitar tal erro. Um dos horrores que saltam aos olhos de quem mora no território dos cristãos é o espectáculo dos prisioneiros muçulmanos tropeçando nos grilhões, usados para trabalhos forçados quando são tratados como escravos. O mesmo ocorre com o espectáculo das cativas muçulmanas que trazem aos pés anéis de ferro. Os corações despedaçam-se a essa visão, mas piedade não lhes serve para nada. Excessivas quanto à doutrina, as palavras de Ibn Jobair reflectem bem a atitude desses milhares de refugiados da Palestina e da Síria do Norte, reunidos em Damasco, nesse mês de Julho de 1099. Pois, se foi com consternação que deixaram as suas casas, eles se determinam a não voltar antes da partida definitiva do ocupante e decididos a despertar a consciência dos seus irmãos nas regiões do Islão. Senão, por que teriam vindo a Bagdade, conduzidos por al-Harawi? Nao é para o califa, o sucessor do Profeta, que se devem voltar os muçulmanos nas horas difíceis? Não é para o príncipe dos crentes que devem elevar as suas queixas e lamentações?» In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A História Secreta dos Cátaros. Maria Nazareth Barros. «Um deus bom não pode desejar o mal, não pode criar condições para que ele se manifeste; logo, “ao lado de um princípio eternamente Bom, existe um princípio eternamente Mau”. Dogmas e doutrinas; heresias e hereges passaram a ser perseguidos»

jdact

«Como o mal apareceu no mundo? Um deus bom não pode desejar o mal, não pode criar condições para que ele se manifeste; logo, ao lado de um princípio eternamente Bom, existe um princípio eternamente Mau. O pensamento dualista surgiu como resposta satisfatória a este questionamento. No princípio do cristianismo, o problema do mal agitava as comunidades religiosas orientais. Entretanto, no primeiro século da nossa era, o pensamento dualista, que se manifestava através de heresias, não era condenado. Heresia significava um acto de escolha dentro de princípios filosóficos, filiados a uma escola, seita ou doutrina. Foi entre os séculos II e IV, quando a Igreja determinou os cânones do Novo Testamento, o credo apostólico e se tornou uma instituição eclesiástica, que as heresias foram marginalizadas. Dogmas e doutrinas que elas defendiam, quando comparados aos da ortodoxia, adquiriram sentido contrário ao que foi definido pela Igreja Católica em matéria de fé. Heresias e hereges passaram a ser perseguidos. Em estado latente, elas e eles se mantiveram. Por volta do ano 1000, o problema do mal voltou a atormentar o homem. O retorno das heresias tornou-se um facto europeu. O que hoje denominamos catarismo apareceu na França, no século XI, possivelmente trazido da Bulgária. O catarismo instalou-se também na Catalunha, na Itália, na Alemanha, na Inglaterra, mas foi no sul da França que tomou forma de religião, organizando-se como Igreja, como civilização original. Foi ainda no sul da França que ele contou com a conivência dos senhores feudais e exerceu influência social e política sobre a região, modificando o pensamento e os hábitos quotidianos dos sulistas. Em meio a tantas cruzadas, tantas mortes em nome de Cristo, a Cruzada Albigense, empreendida contra cristãos e não contra infiéis, foi a que obteve maior êxito e consequências importantes. Após a expedição de 1226, o papa Gregório IX instaurou o primeiro sistema de controle ideológico, feito através de denúncias, delação institucionalizada, interrogatórios e constituição de fichas de informação. A Inquisição (maldita), comandada pelos frades pregadores, deu nascimento a uma ferramenta que seria privilegiada por todos os totalitarismos futuros, por todas as ditaduras vindouras. Anos depois, o Languedoc (região onde se desenvolveu a heresia) foi anexado à coroa da França, facto de importância capital para a constituição da França actual, porque abriu para o reino as portas do Mediterrâneo.

O Conflito
Em meados do século XI, a grande preocupação da Igreja era o retorno das heresias, que contaminavam os fiéis e os afastavam da ortodoxia de Roma. A mais perniciosa era a difundida entre tecelões. Bispos e arcebispos reagiam. Faziam pregações, reuniam-se em concílios, estabeleciam cânones proibindo feudatários e povo, sob pena de excomunhão (a excomunhão decretava a morte civil de um feudatário; excomungado, o feudatário perdia serviço militar, ajuda e conselho de parentes, amigos e vassalos; a interdição paralisava a vida religiosa da cidade; impedia o povo de receber sacramentos que eram de extrema importância para o homem medieval) e interdição, de dar asilo e protecção a infiéis ou manter quaisquer relações com eles, mas as ameaças não impediram o desenvolvimento da heresia nem o convívio com hereges. Ao contrário, no início do século XII, ela ganhava seguidores por toda parte. Foi para divulgá-la que, em 1116, o monge Henrique Lausanne chegou a Mans. O bispo da cidade acolheu-o sem questionamentos. Olhos voltados para uma viagem a Roma, mal informado sobre o conteúdo da doutrina que seria exposta e defendida pelo monge, o bispo lhe deu permissão para falar ao povo. Ele partiu, e quando voltou à cidade fervilhava. De um lado, o povo, entusiasmado, escutava atentamente as ideias trazidas por Henrique; de outro, as autoridades religiosas locais escandalizavam-se com o teor de seus calorosos discursos. Proibido de pregar, ele não se acobardou e, para espanto da comunidade eclesiástica, não se calou. Os fiéis, encantados com a heresia, garantiam-lhe autoridade e amparo. O bispo conseguiu rechaçá-lo de seus domínios. Henrique refugiou-se em várias cidades, aliciou inúmeros seguidores, mas onde pregava era escorraçado. Tanto teimou, que foi intimado a se retratar em concílio. Desculpou-se, compungido. Depois, esqueceu promessas e, indiferente a ameaças, reproduziu as antigas crenças. Fuga... Expulsão... Fuga... Expulsão...
Vinte anos depois, Henrique Lausanne abancou-se em Toulouse. Granjeou inúmeros adeptos. Suas palavras resvalaram para cidades vizinhas, e muitos se converteram à heresia. Afonso Jordão, conde de Toulouse, não fora ensinado a tolher ideologias, fossem elas filosóficas, éticas ou religiosas. Estava habituado à diversidade de pensamento, advogava tolerância. Para o conde, nada mais natural que cada um professasse a religião de sua escolha. O renascimento de heresias dualistas era um facto europeu. Desde o ano 1000, após alguns séculos de latência, elas haviam sido reactivadas e, se no início do cristianismo alvoroçaram o Oriente, mil anos depois agitavam o Ocidente, trazidas dos Balcãs e do norte da Itália. Não seria ele quem as reprimiria, menos ainda os católicos da cidade. O motivo? Como perseguir amigos e parentes que cresceram juntos, foram educados nos mesmos moldes de respeito às diferentes maneiras de pensar? Os hereges viviam honradamente, como verdadeiros cristãos. Sustentavam-se através do trabalho de suas mãos, exerciam a pobreza pessoal em nítida vontade de restaurar a pureza dos ensinamentos de Cristo. A heresia preconizava um retorno ao evangelismo primitivo, aquele defendido pelo Salvador e seus apóstolos, e que a Igreja Católica esquecera, tão preocupada se encontrava com hierarquia e bens alcançados». In Maria Nazareth Alvim Barros, A História Secreta dos Cátaros, Deus reconhecerá os Seus, Editora Rocco, 2007, ISBN 978-853-252-162-0.

Cortesia de Rocco/JDACT

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Origem das Cruzadas 1095-1119. José Luís Corral. «… las ciudades duplicaron e incluso triplicaron su extensión, siendo necesario construir nuevos barrios para acoger a la creciente población, la construcción disfrutó de un auge inusitado y los ya grandes templos románicos de la primera mitad del siglo XII…»

jdact

O Despertar da Europa
«(…) Superada la época de las llamadas segundas invasiones (musulmanas, normandas y magiares), asimilados en lo social, lo económico, lo cultural y lo religioso los vikingos y los húngaros, y mantenidos a raya los musulmanes, los reinos cristianos de Occidente pudieron al fin vislumbrar tiempos menos convulsos. Durante el siglo XI el Occidente cristiano comenzó a salir del largo y oscuro período que caracterizó buena parte de la Alta Edad Media y que ha sido denominado en algunas ocasiones como las Épocas Oscuras. A ello no fue ajeno el nuevo modelo socioeconómico que se había venido configurando desde fines del mundo romano y que se concretó en el feudalismo. En efecto, la descomposición del poder centralizado y su sustitución por los poderes locales, feudales, en suma, no generó un gran Estado capaz de recoger la herencia romana, pero esa multiplicación de los centros de poder fue un factor que contribuyó decisivamente al triunfo del modelo feudal. Un gran imperio, aparentemente sólido y estable, puede ser aniquilado de un plumazo por otro más poderoso o más ágil, como le ocurrió a los persas sasánidas con los musulmanes, pero acabar con todo un conglomerado de reinos, principados y Estados feudales parece mucho más difícil. Sin duda, la atomización del poder y de sus centros de control en Europa occidental en la Alta Edad Media fue uno de los pilares de su supervivencia.
Entre tanto, la Iglesia, que había logrado mantener en condicio nes aceptables su red de obispados y su poderosa influencia social, se regeneró merced a la reforma impulsada por el papa Gregorio VII (1073-1085) y ganó prestigio y espacios de influencia social y política. No en vano había sido la única institución que, pese a tantos problemas, se había mantenido firme y unida hasta entonces. Al abrigo de esta nueva situación, la transformación de Europa occidental comenzó a ser patente. La economía y el comercio florecieron, se abrieron nuevos mercados, surgieron talleres artesanales, las ciudades crecieron, la agricultura se desarrolló ganando espacio a los bosques y a las marismas y multiplicando la producción, y los Estados lograron establecer nuevas formas políticas en torno a dinastías reales que se consolidaron. Tras varias centurias de descomposición política y caos social, entre los siglos XI y XII en Europa se fueron asentando los nuevos reinos: Inglaterra, Francia, el Imperio romano-germánico, los reinos hispánicos (los Estados de la Corona de Aragón, Navarra, Castilla y León y Portugal)... Semejante crecimiento económico y un desarrollo social concretado en la aparición de una incipiente burguesía impulsaron a toda la sociedad a un despegue generalizado: las ciudades duplicaron e incluso triplicaron su extensión, siendo necesario construir nuevos barrios para acoger a la creciente población, la construcción disfrutó de un auge inusitado y los ya grandes templos románicos de la primera mitad del siglo XII fueron sustituidos por las todavía más grandes catedrales del nuevo estilo gótico, que encarnó el triunfo de la cristiandad en el siglo XIII.
Nunca hasta esa época la cristiandad de Occidente había disfrutado de una bonanza similar. La misma Iglesia participó de esta situación y contempló cómo se multiplicaron las órdenes monásticas y se fundaron monasterios, conventos y parroquias por todas partes. Los siglos XII y XIII fueron los de la gran expansión de Europa. Desde el siglo II, el de mayor apogeo del Imperio romano, Occidente no había vuelto a vivir una situación tan bonancible, y por ello los dirigentes políticos y religiosos se creyeron en condiciones de ir más allá de lo que habían heredado. En la Península Ibérica, los reinos cristianos del norte se lanzaron a la conquista del territorio musulmán del sur; en el centro de Europa, los alemanes avanzaron hacia el este en un proceso a la vez colonizador y cristianizador, y ante estos primeros grandes triunfos se despertó tal euforia que se vio factible la realización de un viejo sueño: la conquista de la perdida Tierra Santa y la recuperación de los Santos Lugares, aquellos en los que Cristo había nacido, predicado la buena nueva y muerto.

La idea de Cruzada
La mayoría de las religiones aspira a ser católica, es decir, universal, verdadera y santa, y por tanto única y excluyente. Durante los primeros siglos de nuestra era, el cristianismo monopolizó la interpretación de la Revelación divina en los países ribereños de la cuenca mediterránea, con la excepción de algunos núcleos de irreductibles judíos dispersos por ella. Pero en los primeros decenios del siglo VII, un individuo llamado Muhammad (Mahoma) convulsionó desde el corazón de Arabia la creencia en Dios y provocó una profunda ruptura religiosa que todavía permanece. El islam, la nueva religión, o mejor, la nueva forma de religión predicada por Mahoma entre los años 610 y 632 se extendió a una velocidad increíble desde Arabia por Asia occidental y central y por todo el norte de África; y en el año 711 cruzó el Estrecho de Gibraltar para imponerse en la Península Ibérica y en el sur de Francia». In José Luís Corral, Breve História de la Orden del Temple, Ensayo Edhasa, 2006, ISBN 978-84-350-2684-0.

Cortesia de Edhasa/JDACT

sábado, 31 de maio de 2014

Cruzadas no 31. Origem das Cruzadas 1095-1119. José Luís Corral. «Con el islam fue diferente. Superiores en cultura y en formas de civilización al haber sabido sintetizar y aprender las aportaciones culturales de los imperios conquistados, los musulmanes mantuvieron sus postulados religiosos y su identidade»

jdact

O Despertar da Europa
«A la caída del Imperio romano a fines del siglo V, la Europa meridional y el mundo mediterráneo se descompusieron en numerosos Estados que fueron gobernados por las castas militares dirigentes de los invasores germánicos. Del viejo Imperio sólo quedó la mitad oriental, el llamado Imperio bizantino, que com diversas y variables fronteras subsistió hasta 1453. A lo largo de la segunda mitad del siglo VII una nueva fuerza no prevista hasta entonces hizo una fulgurante aparición en el escenario del Oriente Próximo y del norte de África. Se trataba del islam, que construyó un gran imperio desde la India hasta los Pirineos en apenas un siglo. La Europa occidental de la Alta Edad Media, fruto de la mezcla desigual y heterogénea de los restos de la cultura romana, las aportaciones germánicas y la religión cristiana, fue acosada entre los siglos VII y X por amenazas considerables. Por el sur, el islam avanzó hasta el mismo corazón de Europa; los musulmanes conquistaron casi toda la península Ibérica, buena parte del sur de Francia, la mayoría de las islas del Mediterráneo occidental y asentaron algunas bases estratégicas en el sur de Italia y en la costa mediterránea francesa. Algunas razias llevaron a los jinetes musulmanes hasta los valles alpinos. Pero el avance, hasta entonces incontenible, se frenó a mediados del siglo VII a causa sobre todo de los enfrentamientos internos entre diversas facciones religiosas y políticas, que provocaron el cisma y la desmembración en el que durante un siglo había sido un imperio unificado y pujante.
A la amenaza musulmana por el sur, se sumaron por el norte y el oeste las invasiones de los llamados pueblos del norte, los temidos vikingos o normandos. Estos germanos del norte asolaron entre fines del siglo VII y fines del X las costas atlánticas europeas y las islas y las regiones meridionales del mar Báltico. En su afán explorador en busca de botín, penetraron en el Mediterráneo, llegaron a crear un reino en Sicilia y comerciaron con los pueblos eslavos de Rusia instalando factorías comerciales a lo largo de los cursos de los grandes ríos de Europa oriental. Tan temidos, o más incluso, que los musulmanes, los normandos fundaron importantes principados, como el ducado de Normandía, en el noroeste de Francia, o el Danelaw, en el norte de Inglaterra.
Por fin, a principios del siglo X, en plena descomposición del Imperio carolíngio, el único intento de reconstrucción europea, pero que sólo fructificó entre los años 778 y 843, hicieron su aparición los magiares o húngaros, un pueblo procedente de la profundidad de las estepas euroasiáticas que asoló las regiones orientales de la cristiandad hasta que en el año 951 fue detenido por el emperador Otón I en la batalla de Lechfeld. Así, tras las invasiones germánicas que certificaron la agonía y muerte del Imperio romano de Occidente en el año 476, Europa atravesó una largo período de cinco siglos en los que, a pesar de esfuerzos efímeros (como el realizado por el emperador Carlomagno), se vio amenazada desde todos los flancos y en todas las regiones por enemigos poderosísimos, algunos de ellos paganos, como los normandos y los magiares, o los seguidores de otras religiones con ansias universales, como los musulmanes. Acosada desde todos los flancos, la civilización surgida en Europa occidental tras la caída de Roma parecía abocada a su fin; pero, contra todo pronóstico, sobrevivió.
Durante ese medio milenio los reinos de la cristiandad occidental resistieron todos los envites, mantuvieron sus creencias cristianas y lograron imponer su cultura y su religión a normandos y magiares, que acabaron convirtiéndose al cristianismo a fines del siglo X y asumiendo sus modos políticos y sociales. Con el islam fue diferente. Superiores en cultura y en formas de civilización al haber sabido sintetizar y aprender las aportaciones culturales de los imperios conquistados, los musulmanes mantuvieron sus postulados religiosos y su identidad. La falta de unidad del islam, la pérdida de su impulso fundacional y la lenta recuperación, a la vez que la voluntad de resistencia, de los pequeños reinos cristianos de la península Ibérica dieron lugar a un largo período de estabilidad de fronteras con el mundo cristiano que se concretó en una línea estable y sólida que desde el valle del Duero atravesaba toda la Península hasta el piedemonte del Pirineo y de allí a las islas Baleares y Sicilia, y más allá del Mediterráneo al sur de Anatolia y a Armenia. Y así se mantuvo desde mediados del siglo VIII hasta mediados del siglo XI». In José Luís Corral, Breve História de la Orden del Temple, Ensayo Edhasa, 2006, ISBN 978-84-350-2684-0.

Cortesia de Edhasa/JDACT

terça-feira, 27 de maio de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Não tardou para que Cluny espalhasse abadias filhas pelo restante da Europa, os mosteiros cluniacenses proliferaram. A sua organização fez com que prosperassem…»

Cortesia de wikipedia

«(…) A Europa apresentou nos séculos XII e XIII, aquilo que os manuais didácticos comumente chamam de As grandes mudanças. Estas mudanças atingiram todos os níveis da sociedade medieval através do crescimento demográfico que segundo Le Goff, duplicou entre o final do século X e o início do XIV. Outro factor que demonstra este progresso medieval foi à intensificação da cunhagem de moedas durante o século XIII: E, por fim, o renascimento monetário do século XIII deslumbrou os historiadores, principalmente, com o regresso à cunhagem de moedas de ouro. Estas mudanças comportam ainda outros elementos tais como o renascimento urbano, o desenvolvimento de técnicas agrícolas e o consequente aumento da produção com a formação de excedentes desta produção que voltou a estimular o comércio. É claro que estes eventos são muito mais complexos que o simples esquema aqui apresentado, porém é possível apresentar um panorama geral que nos instigue a buscar algumas motivações para este contexto favorável. Neste sentido, os especialistas divergem nas suas posições. Maurice Lombard busca a sua explicação no contacto entre o Ocidente e o mundo muçulmano, que gerou a necessidade de produzir matérias-primas para atender cidades como Córdova, Damasco e Bagdade. Para Lynn White, por outro lado, este desenvolvimento se deve aos progressos técnicos desenvolvidos pelos próprios europeus. Independente do motor deste processo económico, o ponto que nos interessa neste trabalho, é o impacto que este fenómeno causou no seio da cristandade e em seu corpo eclesiástico, que até meados do século XII, estava representado pelas ordens monásticas, que experimentaram grande desenvolvimento, em especial, a ordem de cluniasense.

As Ordens Monásticas
A organização da ordem de Cluny proporcionou uma rápida proliferação de abadias filhas da casa-mãe. Desta ordem saíram papas conhecidos como Papas Reformadores pela historiografia cristã, entre eles o próprio Gregório VII, que havia sido abade de Cluny. Segundo Tathyana Zimmermann: Não tardou para que Cluny espalhasse abadias filhas pelo restante da Europa, os mosteiros cluniacenses proliferaram. A sua organização fez com que prosperassem. As abadias cluniacenses tornaram-se grandes senhorios monásticos, seus camponeses cultivavam as terras, abriam bosques e matagais, drenavam pântanos e produziam o vinho. Essas abadias eram centros de povoamento, centros produtivos nos quais o excedente era comercializado. Enriqueceram e tornaram-se poderosos. Este enriquecimento levou a uma valorização da liturgia e ornamentação dos mosteiros e na práxis divergente do discurso de grande parte dos monges que levavam vidas de opulência e ociosidade, bastante distante dos princípios expostos pela Regra de São Bento, regra-base para praticamente todas as ordens regulares. Citamos Cluny por ser a abadia com maior e mais rápida ascensão no período, mas é possível ainda citar outras que se enquadrem neste processo como Brogne e Gorze.
Este elemento de ordem económica é o primeiro a ser analisado ao buscar o cerne das heresias do século XII, mas existe ainda outro ponto mais difícil de ser apreendido pelo seu carácter estar incutido na consciência da sociedade medieval. Brenda Bolton chama este fenómeno de Crise religiosa do Século XII. O contexto de efervescência em vários aspectos pelos quais passou a sociedade medieval em fins do século XI impactaram, inevitavelmente, o corpo eclesiástico que precisou actualizar, mesmo que a contragosto, seu discurso, na medida em que a própria concepção de ser cristão modifica-se para um sentimento cada vez mais individual. Segundo Bolton: Os cristãos se tornaram colectivamente cada vez mais conscientes do mundo que os rodeava e procuravam racionalizá-lo. Também do ponto de vista individual se verificava uma nova tomada de consciência do próprio homem, relacionada com a condenação que Cristo fizera do pecado no coração e que conduziu a um despertar da importância da consciência.
Esta mudança na consciência do homem medieval é analisada por Brenda Bolton na sua Reforma da Idade Média, onde sugere seis reacções desencadeadas por esta crise, dentre as quais, duas nos interessam mais de perto pela relação com nossa temática: O monasticismo, ou vita angelica e as heresias. A primeira delas, o monasticismo, foi uma reacção interna às deformações dos princípios da Igreja Primitiva, retomados pela Regra de São Bento durante as Reformas Gregorianas, que grosso modo, poderia ser resumido como a vida em comunidade e a pobreza voluntária. Das vozes que se levantaram para enfatizar esta postura em detrimento da ostentação e opulência que havia se infiltrado por entre as abadias, está Bernardo de Claraval que deixou diversos escritos conclamando seus congéneres a um retorno às origens do Cristianismo. Bernardo foi o representante por excelência da Ordem de Cister e também o abade de Claraval até sua morte em 1153. O diferencial desta ordem estava na ideia que norteava os pensadores, que era a de um retorno genuíno ao monacato beneditino. Cister tornara-se desta forma, uma oposição dogmática a Cluny, resultando em discussões acaloradas entre os líderes de ambas as Ordens». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Na verdade, podemos ver na crítica herética, ou melhor dito, em parte desta crítica, uma tentativa de apontar os erros e os desvios da instituição eclesiástica, da sua intervenção no poder secular à custa da sua missão espiritual»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Foi necessário também buscar textos que auxiliassem na compreensão das relações entre senhor e vassalo, bastante presente na Crónica albigense. Para tanto, Sociedade Feudal de Marc Bloch e Senhorio e Feudalidade na Idade Média foram as obras escolhidas para suprir este vácuo. Por fim, a fonte utilizada na nossa pesquisa é a Historia Albigeoise, de Pierre desvaux-de-Cernay. Foi traduzida para o francês por Pascal Guébin e Henri Maisonneuve em 1951 do original contido na Patrologia Latina: História Albigensium et Sacribelli in eos anno 1209 suspect Duce et Príncipe Simone de Monforti, crónica de Petri monachi coenobii Valium Cernaii. Utilizamos esta tradução por ser a mais conhecida pela historiografia relacionada ao tema. O título original nos fornece uma pista da nossa proposta de trabalho, ao incluir o nome de Simon de Monfort, suprimida pela versão francesa. A fonte possui 621 capítulos divididos em três partes principais que possuem subdivisões internas. A primeira parte intitulada Os hereges, está contida entre os capítulos 5 e 19, trata das práticas consideradas heréticas e suas doutrinas, com ênfase na protecção dos senhores do sul francês aos hereges. A segunda parte, Os pregadores, contempla os capítulos 20 até 54. Mostra o envio de missionários até à região em conflito por parte do papa Inocêncio III e a ineficácia na conversão dos hereges. A terceira e última parte do documento, As Cruzadas é também a mais extensa: 557 capítulos subdivididos em 12 partes. Tem como objectivo descrever a Cruzada albigense em todos os seus pormenores, além de exaltar a figura do cavaleiro Simon de Monfort ao mesmo tempo em que deprecia o conde de Toulouse, personificação do verdadeiro perigo da heresia para a Igreja: uma nobreza que apoiasse os hereges e desse suporte a ela, diminuindo o poder eclesiástico nas áreas de sua influência, neste caso, o Midi Francês.

O argumento legitimador
O primeiro objecto norteador de nossa pesquisa foi o elemento desencadeado para a Cruzada albigense, qual seja, o catarismo. Em nosso entender, esta heresia representa o argumento legitimador de um projecto que suplanta o fenómeno ocorrido no Midi francês no início do século XIII. Apresentaremos argumentos que apontem para a génese do processo de unificação do território francês, na figura do rei Filipe Augusto, contando com o apoio do papado, através de Inocêncio III. Uma discussão acerca dos cátaros, porém, parece incompleta, caso não esteja relacionada ao contexto mais amplo do período juntamente com as demais heresias medievais.

As primeiras heresias
As heresias acompanham a história da Igreja Cristã desde sua génese. Segundo Monique Zerner, o problema da heresia nasce com o cristianismo. O período para a construção do corpo canónico do Novo Testamento foi de mais de um século. Este corpo foi constituído de maneira complexa, através de polémica e discussões entre os líderes da chamada igreja primitiva. O resultado deste projecto foi a exclusão daqueles que discordaram da ortodoxia recém-formada, a quem foi atribuído o título de herege. O próprio apóstolo Paulo, durante a primeira metade da década de 60 da Era Cristã, cita em duas ocasiões o termo em suas epístolas. Os primeiros estudos ou descrições acerca das heresias dos primeiros séculos da cristandade encontram-se nos escritos de Santo Agostinho e de Isidoro de Sevilha. O carácter destas heresias era filosófico, doutrinário, ou seja, as discussões envolviam as doutrinas da ortodoxia, como por exemplo, a natureza divina e humana de Cristo, sendo esta uma especulação racional em torno dos princípios ou dogmas cristãos.

As Heresias Medievais
O período compreendido entre os séculos XII e XIII recebe a nomenclatura de séculos heréticos por Nachman Falbel. A intensificação dos movimentos heréticos neste período leva-nos a buscar no contexto europeu, argumentos que justifiquem tal fenómeno. Segundo Falbel:

Na verdade, podemos ver na crítica herética, ou melhor dito, em parte desta crítica, uma tentativa de apontar os erros e os desvios da instituição eclesiástica, da sua intervenção no poder secular à custa da sua missão espiritual; enfim, uma tentativa de alertar a sociedade cristã de que os seus representantes desvirtuaram a verdadeira imagem da religião fundada por Cristo.

Este desvio moral, segundo Henri Daniel Rops, do corpo eclesiástico justifica-se quando verificamos as profundas transformações ocorridas no interior da sociedade medieval, no período imediatamente anterior ao abordado, que merece uma breve menção». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

sexta-feira, 21 de março de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «… criação de um Vassalo Perfeito, que servisse como um exempla tanto para a monarquia francesa em formação, como para a Igreja que precisava fortalecer o seu vínculo com o século…»

Cortesia de wikipedia

«(…) O terceiro capítulo é uma análise da figura do líder cruzado Simon de Montfort, numa tentativa de verificar se a hipótese da criação da figura de um Vassalo Perfeito seria pertinente ao contexto descrito por Pierre des Vaux de Cernay. Para tanto, consideramos como ponto de partida, o pressuposto de que para criar um modelo, devem ser adoptados parâmetros existentes no contexto ao qual o escritor está inserido. Na introdução crítica da fonte, os autores da tradução revelam um factor de suma importância para este raciocínio, qual seja, a leitura dos escritos de Bernardo de Claraval por Pierre des Vaux de Cernay. Nas obras completas de São Bernardo, foi encontrada uma apologia a uma casta de guerreiros superiores aos cavaleiros comuns, na medida em que os Templários possuíam, para Bernardo, o melhor de dois mundos: eram guerreiros temporais e espirituais. Partindo do cruzamento de minha fonte primária com a obra de Bernardo de Claraval, encontrei três categorias qualitativas ao redor da descrição de Simon: aspectos físicos, nobres e cristãos. As características físicas descritas apontam para um ideal de beleza, que no meu estudo está em conformidade com o conteúdo literário da Provença do século XII, onde a descrição do herói desprovido de falhas físicas era um sinal da Providência Divina favorável. Outro factor para a descrição física detalhada de Simon por Pierre está de acordo com a narrativa bíblica de heróis guerreiros como Absalão, David ou Sansão, todos retratados como homens perfeitos. Quanto às características nobres de Simon, Pierre retrata inúmeras situações onde a coragem do cavaleiro é provada, além de sua compaixão e senso de justiça. Este léxico moral estava inserido no imaginário de cavalaria, que incluía ainda o carácter do amor cortês. Esta característica estava descrita em Simon, na medida em que sua esposa, a condessa D. Alice de Montgomercy, é uma figura sempre presente nas conquistas do marido. Simon é descrito como esposo fiel, enquanto seus adversários, como por exemplo, o conde de Toulouse, é retratado como pervertido e poligâmico.
Nas características religiosas, percebem-se todas as qualidades de um cristão fiel, como fé, fidelidade à Igreja e seus líderes e respeito inexorável pela ortodoxia católica. Toda a descrição destas características converge para corroborar com a minha hipótese da criação de um Vassalo Perfeito, que servisse como um exempla tanto para a monarquia francesa em formação, como para a Igreja que precisava fortalecer o seu vínculo com o século, na medida em que o papado buscava aumentar a sua hegemonia no século através da Teocracia Papal. Para que estes pontos fossem aprofundados no meu trabalho, algumas obras foram de suma importância e merecem menção. Para uma melhor compreensão do conflito armado intitulado Cruzada albigense, duas obras foram fundamentais: A Heresia Perfeita – A vida e a morte revolucionária dos cátaros na Idade Média, de Stephen O’shea, e Atlas de los Cátaros, organizado por Jesus Mestre Campi. Em a Heresia Perfeita, O’shea descreve todos as nuances pertinentes à Cruzada, auxiliando na compreensão do contexto mais amplo sobre os eventos do Languedoc. A existência de dois projectos expansionistas dirigidos por Filipe Augusto de França de um lado, e Pedro II de Aragão de outro, está de acordo com a obra de O’shea. A segunda obra foi de grande valia para ambientar a pesquisa aos espaços territoriais envolvidos, como, por exemplo, verificar qual o território pertencente ao norte francês, qual a delimitação do Midi francês e a região de Aragão. Outros textos de relevância no amadurecimento de conceitos pertinentes à pesquisa merecem menção. A obra de José Rivair Macedo, Heresia, Cruzada e Inquisição na França Medieval, única obra encontrada sobre o tema na historiografia brasileira, auxiliou na percepção da construção da memória histórica sobre a heresia cátara. Na compreensão do conceito e dos preceitos de cavalaria de Pierre, foram utilizadas duas obras. O verbete cavalaria de Jean Flori, no já citado Dicionário Temático da Idade Média contraposto com o clássico sobre o tema de Leon Gautier, La chevalerie. Ambos foram importantes no sentido de compreender a noção de cavalaria no universo no qual o cronista Pierre estava inserido, para então, transpô-lo aos seus escritos. Foi necessário também buscar textos que auxiliassem na compreensão das relações entre senhor e vassalo, bastante presente na Crónica albigense». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Os grandes feudos da região como Béziers, Carcassome e Toulouse eram regidos por vassalos do rei de Aragão, Pedro II. Filipe encontrou na Cruzada, a oportunidade de estabelecer a sua hegemonia sobre a região, através da criação de laços de matrimónio…»

Cortesia de wikipedia

«Feliz é o homem que acha a sabedoria, e o homem que adquire o conhecimento; porque melhor é o lucro que ela dá do que a prata, e melhor é a sua renda que o ouro mais fino».

«(…) Para o fortalecimento da heresia albigense no sul da França, é necessário analisar o contexto que norteia o Ocidente nos séculos XII e XIII, que diferem, por exemplo, das apreensões percebidas na virada do ano mil, bem como nos séculos XIV e XV. Na tentativa de buscar hipóteses para a peculiaridade do recorte escolhido, foi analisado o segundo autor proposto para nortear esta pesquisa teoricamente: Brenda Bolton e a sua obra, Reforma na Idade Média. A ideia de um período ímpar de mudança no Ocidente neste recorte temporal não surge com Brenda Bolton, aliás, é muito mais antigo. Marc Bloch no seu Ocidente Medieval mostra suas ressalvas na utilização do termo Renaissence, numa analogia directa ao movimento italiano do século XV. É neste sentido que consideramos o termo adoptado por Bolton, Reformatio, mais adequado em nossa opinião enquanto conceito balizado. Segundo a autora: [...] foi tão grande este fermento espiritual e alterou-se de tal modo a concepção dos homens quanto à vida cristã e a sua finalidade no mundo, que alguns historiadores da espiritualidade medieval consideram que esta representa uma mudança tão profunda e duradoura como a Reforma do século XVI.
A base para a Reformatio estaria na profunda crise da cristandade ocidental, onde a mudança no pensamento cristão resultou na mutação da espiritualidade, que por sua vez gerou outras crises que influenciaram todo o conjunto da vida religiosa que libertaram uma efervescência considerável de ideias. Esta efervescência une-se ao que Jacques Verger chama de contexto favorável. Este breve panorama constitui-se na base do surgimento do catarismo, na medida em que, [...] o movimento herético foi um dos aspectos do renascimento religioso da época e, em parte, um subproduto das mudanças culturais, sociais e económicas dos séculos XI e XII. Para Brenda Bolton, as reacções da Igreja a este contexto de mudança são tão importantes quanto às consequências representadas pela eclosão das heresias. Neste ponto, a figura do papa Inocêncio III é central. Segundo a autora, [...] ele não só estabeleceu a distinção ou distinctio, entre heréticos irredutíveis e aqueles que eram meramente desobedientes, como também assinalou a suprema insensatez que era excluir-se da Igreja tanto os últimos como os primeiros. Com grande perspicácia, habilidade e energia, Inocêncio conseguiu incorporar estes grupos desobedientes na hierarquia da Igreja.
O segundo tópico qual seja, Os personagens trata basicamente de duas figuras: Inocêncio III e Filipe Augusto. Foram escolhidos, pois de acordo com a minha hipótese de trabalho, a descrição de Simon de Montfort por Pierre, contém no seu âmago, o ideal de dois universos distintos, porém complementares: o guerreiro exemplar e o cristão fiel. Este era o modelo que ambos, Filipe e Lotário, buscavam para si. O papel da Sé Católica no conflito está personificado na pessoa do papa Inocêncio III que assumiu o trono de Pedro entre 1198-1216. Considerado pela historiografia católica como um dos maiores papas da Idade Média, foi hábil em unificar o poder de Roma, desgastado após um século de conflitos internos entre monarcas e os nobres de Roma.

NOTA: Lotário queria certificar-se que os próximos 100 anos seriam menos turbulentos que os precedentes. Os anos 1100 não tinham sido uma época feliz para os delegados de Cristo. Antes de Inocêncio, onze dos dezasseis pontífices do século XII viram os papas mantidos à força longe de Roma por amotinados, republicanos ou agentes de reinos distantes. A comuna romana, liderada por Arnold de Brescia na metade do século, foi um episódio particularmente vívido num pesadelo recorrente. Em 1145, o papa Lúcio II morreu por conta de ferimentos sofridos numa batalha pelo controle do Capitólio; trinta anos antes, um fraco e velho Gelásio II foi posto sentado numa mula e forçado a suportar as zombarias de seus inimigos. Antipapistas eram frequentemente eleitos pelos clãs romanos rivais e por homens da Igreja que serviam o imperador germânico, que representavam a única ameaça maior à independência do papado.

A região do Midi francês, centro da heresia cátara, requereu a atenção do papa devido à simpatia dos nobres locais ao credo herético. Porém, Lotário dei Conti de Segni preferiu a diplomacia onde ela fosse aceita, enviando diversos legados à região, com a missão de devolver os hereges à verdadeira fé. Entre os mais ilustres pregadores enviados por Inocêncio III, encontra-se Domingos de Gusmão, futuro São Domingos. O período de conversações termina com o assassinato do legado papal Pedro de Castelnau, supostamente a mando do conde de Tolouse Raimundo VI, em 14 de Janeiro de 1208, dando início à Cruzada albigense, legitimada pela carta papal endereçada à nobreza do norte da França. Para a análise de Inocêncio no meu trabalho utilizei o clássico francês. Innocent III la croisade des albigeois, de Achille Luchaire, escrito em 1911. Filipe Augusto é descrito pela historiografia apenas pela sua disputa com os reis plantagenetas, os quais derrotou em 1215. É importante salientar que o projecto expansionista de Filipe possuía outra frente de suma importância para o reino francês: uma saída para o Mediterrâneo. A dificuldade para alcançar este objectivo estava no território do Languedoc que se interpunha a Filipe. Os grandes feudos da região como Béziers, Carcassome e Toulouse eram regidos por vassalos do rei de Aragão, Pedro II. Filipe encontrou na Cruzada, a oportunidade de estabelecer a sua hegemonia sobre a região, através da criação de laços de matrimónio entre as nobres locais com senhores do norte, destruindo desta forma a unidade dos feudos, que fortaleciam a região. Conforme as cidades eram conquistadas pelos cruzados, estes casamentos foram estabelecidos. Após as guerras cátaras, a antiga identidade do sul praticamente desapareceu, sendo toda a região do Midi sujeita a Paris, concretizando assim, o projecto de Filipe Augusto. O projecto expansionista do rei francês está descrito na obra de Stephen O´Shea, intitulada, A heresia perfeita: A vida e a morte revolucionária dos cátaros na Idade Média, uma das referências no desenvolvimento do trabalho». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «A palavra heresia (do grego hairesis, hairen, que significa escolher) acompanhou a vida da Igreja desde os inícios e, para os escritores eclesiásticos o termo designava uma doutrina contrária aos princípios da fé oficialmente declarada»

Cortesia de wikipedia

«O estudo do fenómeno conhecido como Cruzadas, é uma tarefa muitas vezes difusa, devido a toda a mística que envolve o tema, devido à recente produção literária que aborda o assunto e a filmografia que tem valorizado os épicos históricos, debruçando-se sobre os conflitos medievais entre cristãos e muçulmanos, séculos antes dos entraves contemporâneos, mostrando que o assunto ainda gera interesse e fascínio entre o público leigo. Ao observarmos este fenómeno, a partir do momento em que ocorre dentro dos domínios da Cristandade, como no episódio da cruzada albigense, percebe-se a singularidade e complexidade em buscar apreender elementos que esclareçam ou ao menos auxiliem na clarificação das motivações e personagens envolvidos num conflito desta magnitude. Para tanto, a análise da cruzada será realizada através da trajectória do líder cruzado, o conde Simon de Montfort, na medida em que, através de sua singularidade, é possível verificar elementos que transpassem a própria cruzada. Entre estes elementos é possível citar, por exemplo, o desenvolvimento de dois projectos expansionistas antagónicos entre a região norte do território conhecido hoje como França, e o reino de Aragão, na Península Ibérica.

Proponho a análise de alguns elementos pertinentes ao contexto relativo ao tema, seguido de um olhar mais aproximado da fonte documental intitulada Histoire Albigeoise, escrita pelo monge cisterciense Pierre des Vaux de Cernay. Desenvolvida no formato de crónica, entre 1213 e 1218, é o documento considerado pela historiografia contemporânea como a matriz da visão oficial do conflito. Pierre era o sobrinho de Guy, abade do mosteiro de Vaux de Cernay, no sudoeste de Paris, fundado por Simon de Neauphle em 1118 ou 1128. A Histoire Albigeoise é uma fonte escrita por um clérigo em formato de crónica como uma elegia a um vassalo real. Entender estes elementos, ou seja, as razões para a escrita da obra e para a exaltação da figura de um personagem que estava à sombra do rei tendo como pano de fundo a cruzada albigense e o contexto europeu do século XIII. Para tanto, será necessário deslocar o foco da cruzada e dos hereges apenas, e analisar figuras como o papa Inocêncio III, o rei Felipe Augusto e o rei Pedro II, o católico, numa intrincada rede de acções políticas e projectos antagónicos que auxiliaram na formação da geografia política da Europa. A realização de uma leitura que busque uma visão da obra do monge Pierre de Cernay que não contemple apenas a cruzada albigense ou as doutrinas dos hereges, é a contribuição para a historiografia. A elevação de Simon de Montfort a um papel central dentro da crónica eclesiástica de Pierre levou-nos a conectá-la à formação da proposta de unificação do reino francês, tão díspar no seu território, como a cruzada e a heresia mostraram ser. A necessidade de um modelo de vassalagem, fé católica, fidelidade ao rei e coragem, faz da Historia Albigeoise uma obra em certa medida de cunho didáctico, tanto para os habitantes do norte, quanto para os habitantes do Languedoc, que em termos culturais e sociais estavam muito mais associados ao reino de Aragão, que aos domínios de Filipe Augusto.

De acordo com a pesquisa realizada, dividimos em três capítulos principais, os quais vão tratar respectivamente: O argumento legitimador, qual seja a heresia cátara; As personagens, onde discutimos a respeito dos papéis de Filipe Augusto e Inocêncio III no conflito e a existência de um projecto da monarquia francesa apoiado pela Igreja Romana que visava expandir os territórios do norte buscando uma saída para o mar Mediterrâneo; e uma análise da figura de Simon de Montfort. Esta análise acontece em quatro pontos específicos, a descrição de sua participação na cruzada albigense, suas características físicas, cristãs, nobres e como estas características, na obra de Pierre, corroboram para nossa hipótese de criação de um Vassalo Perfeito que serviria de exemplo tanto para a os servos de um pretenso reino francês unificado, como para a Igreja. Para o primeiro ponto, o desenvolvimento das heresias no contexto europeu dos séculos XII e XIII, optamos por dois trabalhos principais: Heresias Medievais de Nachman Falbel e Reforma na Idade Média, de Brenda Bolton. Na primeira obra, Falbel traça uma síntese das principais heresias que obtiveram repercussão frente à cristandade durante período medieval, como por exemplo, os cátaros, valdenses, beguinos e pseudo-apóstolos. O autor também apresenta clérigos saídos das ordens monásticas que questionavam dogmas da doutrina cristã, como por exemplo, Pedro de Bruys, que negava a santa missa, o baptismo de crianças, a cruz enquanto símbolo tradicional do cristianismo. Além de atentar apenas para a própria descrição dos acontecimentos, é importante perceber como o autor entende os conceito. A principal contribuição de Falbel está na sua explicação para o conceito de heresia: A palavra heresia (do grego hairesis, hairen, que significa escolher) acompanhou a vida da Igreja desde os inícios e, para os escritores eclesiásticos o termo designava uma doutrina contrária aos princípios da fé oficialmente declarada.

O autor distingue as heresias ocorridas entre os séculos XII e XIII daquelas ocorridas no início do cristianismo como religião oficial no Ocidente, dizendo que estas possuíam um carácter filosófico e teológico, onde os dogmas cristãos eram submetidos ao crivo racional, enquanto as heresias da Idade Média possuíam enquanto características, [...] um cunho popular assente sobre uma nova visão ética da instituição eclesiástica e do cristianismo como religião vigente na sociedade ocidental. Quando retratar o conceito heresia, estarei à visão do autor, de que as heresias medievais mobilizavam tanto clérigos quanto camponeses e até senhores, num contexto propício para mudanças, sejam elas intelectuais, económicas ou sociais. Esta percepção está de acordo com a historiografia mais recente sobre o tema». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.



Cortesia de wikipedia/JDACT

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Primeira Cruzada. Contexto Histórico. Carlos Navarro. Karen Worfihs. «A resposta foi fulminante: entre Março e Abril de 1096, 20.000 pessoas das camadas mais desvalidas da sociedade, servos fugitivos, famílias inteiras que nada tinham a perder, ladrões ‘em busca de alguns trocados’, puseram-se em marcha até Terra Santa»

Cortesia de wikipedia

A Primeira Cruzada. Os exércitos cruzados
«(…) A primeira Cruzada se desenvolveu nas linhas gerais ao esquema previsto pelo papa Urbano II. O recrutamento prosseguiu a passos largos durante o resto de 1095 e os primeiros meses de 1096. Reuniram-se cinco grandes exércitos nobiliários em fins do verão de 1096 para iniciar a Cruzada. Grande parte dos seus membros procediam da França, mas um significativo número vinha do sul da Itália e das regiões de Lorena, Borgonha e Flandres. O papa não havia previsto o entusiasmo popular que sua convocação para a Cruzada produziria entre o campesinato e o povo das cidades. Ao lado da Cruzada da nobreza se materializou outra constituída pela classe baixa. O grupo mais importante de cruzados populares foi recrutado e dirigido por um predicador conhecido como Pedro o Ermitão, natural de Amiens (França). Já que foram numerosos os participantes na Cruzada popular, somente uma percentagem mínima deles pode chegar ao Médio Oriente; ainda assim foram menos os que sobreviveram para ver a tomada de Jerusalém pelos cristãos em 1099.

Pedro, o eremita
As crónicas o descrevem como um homem muito voluntarioso. Atravessava França no lombo de seu burro e segundo a lenda, nos seus alforjes levava uma carta de Deus. Era referenciado como Pedro o eremita e era um dos muitíssimos pregadores populares que andavam pelas praças dos povoados daquela Europa de 1096. Estamos na parte mais escura da Idade Média, cheia de superstições apocalípticas e, sobretudo, com uma grande parte da população a viver na miséria e degradação... Na verdade muita pobreza, muita sujidade e doenças. Pedro prometia o céu, a salvação em um eminente juízo final e uma recompensa espiritual que muitos desamparados traduziam na prática por uma recompensa material: uma vida melhor. Para lograr este objectivo, bastava ir a Jerusalém e expulsar aos Muçulmanos que a ocupavam.
A resposta foi fulminante: entre Março e Abril de 1096, 20.000 pessoas das camadas mais desvalidas da sociedade, servos fugitivos, famílias inteiras que nada tinham a perder, ladrões em busca de alguns trocados, puseram-se em marcha até Terra Santa desde terras francesas e germanas. O papa Urbano II ficou estupefacto, quando verificou toda esta movimentação, ele havia pensado num exército de cavaleiros bem equipados, capazes de debater uma guerra contra os sarracenos. Mas jamais havia imaginado que um pregador popular se tomaria o assunto por sua conta e reuniria aquela massa de esfarrapados praticamente sem armamento. Em qualquer caso, não foram impedidos de partir. A Cruzada Popular, assim seria conhecida (...) desceu os vales do Rin e o Danúbio semeando um caos onde passavam: sem provisões para o caminho e com um fanatismo religioso que roçava a histeria, encontrou nas comunidades judias das cidades de Alemanha e Húngaras um primeiro inimigo infiel a quem eliminar e saquear.

Exércitos bem preparados
Em Agosto de 1096, Pedro o Ermita e os peregrinos que não haviam perecido nas múltiplas revoltas que provocaram na sua rota finalmente atravessaram o estreito do Bósforo nas naves proporcionadas pelo imperador Bizantino, Alejo Comneno, que estava desejando afastar de Constantinopla aquelas hordas selvagens. Já em território muçulmano, a Cruzada Popular não resistiu com a primeira investida: A 21 de Outubro de 1096 era massacrada em Nicea. Este movimento, inútil em termos bélicos levantou com sua brutalidade uma desconfiança face às verdadeiras intenções dos que pretendiam se empenhar com as Cruzadas buscavam recompensa espiritual ou material? Entretanto, a Cruzada Popular caminhava em direcção ao desastre, desde diversos pontos da Europa vários cavaleiros marchavam para a Terra Santa. Não se tratava de reis, mas aqueles exércitos bem preparados aproximavam-se mais na ideia de Urbano II. De facto, eram verdadeiros cruzados, posto que à diferença dos mobilizados por Pedro o Eremita, estes últimos haviam-se submetido ao acto solene da toma da Cruz (que levavam bordada em suas roupas), Loreneses, Francos e Germanos viajaram ao comando do duque da Baixa Lorena, Godofredo de Bouillon. Normandos do norte e outro grupo de Francos partiram com Roberto de Flandes. Os Normandos do Sul embarcaram com Bohemundo de Tarento. E outro destacamento de Francos formava o que, à priori, era o grupo principal, comandado por Roberto de Toulouse, a quem Urbano II encomendou a liderança militar da Cruzada e a Ademaro de Puy, o legado papal na missão». In Carlos Navarro, Karen Worfihs, A Primeira Cruzada, Contexto Histórico, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia/JDACT

A Primeira Cruzada. Contexto Histórico. Carlos Navarro. Karen Worfihs. «As Cruzadas começaram formalmente no dia 27 de Novembro de 1095, num descampado a extras muros da cidade francesa de Clermont-Ferrand. Nesse dia, o papa Urbano II proferiu uma homilia a uma multidão de bispos e de clérigos, que assistiam a um concílio»

Cortesia de wikipedia

«Cruzadas. Expedições militares realizadas pelos cristãos da Europa ocidental, normalmente a pedido do papa, que começaram em 1095 e cujo objectivo era recuperar Jerusalém e outros lugares de peregrinação na Palestina, no território conhecido pelos cristãos como Terra Santa, que estava sobre o controle dos muçulmanos. Os historiadores não chegaram a um acordo a respeito da sua finalização, e têm proposto datas que vão desde 1270 até inclusive 1798, quando Napoleão I conquistou Malta aos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém, uma ordem militar estabelecida nessa ilha durante as Cruzadas. O vocábulo cruzada (de cruz, no emblema dos cruzados) se aplicou também, especialmente no século XIII, às guerras contra os povos pagãos, contra os hereges cristãos e contra os inimigos políticos do papado. Por extensão, o termo é usado para descrever qualquer guerra religiosa ou política e, em ocasiões, qualquer movimento político ou moral. Assim, na Espanha, os dirigidos contra o governo republicano em 1936 que denominaram a guerra iniciada por eles mesmos (1936-1939) Cruzados, por considerar que o seu objectivo era vencer o ateísmo.
A origem das Cruzadas está enraizada no cataclismo político que resultou da expansão dos Selêucidas no Oriente Médio em meados do século XI. A conquista da Síria e da Palestina levada a cabo pelos Selêucidas islâmicos causou alarme aos cristãos do ocidente. Outros invasores turcos também penetraram profundamente no Império cristão bizantino e puseram os gregos, sírios e arménios cristãos debaixo de sua soberania. As Cruzadas foram, em parte, uma reacção a todos estes sucessos. Também foi o resultado da ambição de alguns papas que buscaram ampliar o seu poder político e religioso. Os exércitos cruzados foram, em certo sentido, o braço armado da política papal. Num esforço por entender porque os cruzados as levaram a cabo, os historiadores têm apontado como razões o dramático crescimento da população europeia e a actividade comercial entre os séculos XII e XIV. As Cruzadas, portanto, se explicam como o meio de encontrar um amplo espaço onde acomodar parte dessa população em crescimento; e como o meio de dar saída aos projectos ambiciosos de nobres e cavaleiros, ávidos de terras. As expedições ofereciam, como foram assinaladas, ricas oportunidades comerciais aos mercadores das pujantes cidades do ocidente, particularmente as cidades italianas de Génova, Pisa e Veneza.
Já que estas explicações acerca das Cruzadas talvez sejam válidas, os avanços na investigação sobre o tema indicam que os cruzados no pensaram encontrar-se com os perigos de enfermidades, as longas marchas terrestres e a possibilidade de morrer em combate em terras estranhas. As famílias que ficaram na Europa tiveram que combater em muitas ocasiões durante longos períodos de tempo para manter as suas terras e suas possessões. A ideia de que os cruzados obtiveram grandes riquezas é cada vez mais difícil de justificar; a Cruzada foi um assunto extremadamente caro para um cavaleiro que tivesse o propósito de lutar no Oriente custeando a si mesmo a expedição, já que provavelmente supunha um gasto equivalente a quatro vezes a sua renda anual. Todavia, apesar de ser uma aventura perigosa, cara e que não dava benefícios, as Cruzadas tiveram um amplo atractivo para a sociedade contemporânea. A sua popularidade se solidificou na compreensão da sociedade que apoiou este fenómeno. Era uma sociedade de crentes, e muitos cruzados estavam convencidos de que as suas participações na luta contra os infiéis lhes garantiriam a salvação espiritual. Também era uma sociedade militarista, já que as esperanças e as ambições estavam associadas com façanhas militares.

A Primeira Cruzada
As Cruzadas começaram formalmente no dia 27 de Novembro de 1095, num descampado a extras muros da cidade francesa de Clermont-Ferrand. Nesse dia, o papa Urbano II proferiu ima homilia a uma multidão de bispos e de clérigos, que assistiam a um concílio da Igreja nessa cidade. No seu sermão, o papa esboçou um plano para uma Cruzada e pediu aos seus ouvintes para se unirem a ela. A resposta foi positiva e assustadora. Urbano II encarregou os bispos assistentes ao concílio para que ao voltarem aos seus bispados recrutassem mais fiéis para a Cruzada. Também desenhou uma estratégia básica segundo a qual distintos grupos de cruzados iniciariam a viajem em Agosto do ano de 1096. Cada grupo se autofinanciaria e seria responsável ante seu próprio chefe. Os grupos fariam a viagem separada até à capital bizantina, Constantinopla (a actual Istambul, na Turquia), onde se reagrupariam. Dali lançaria um contra-ataque, junto com o imperador bizantino e o seu exército, contra os Selêucidas, que haviam conquistado Anatólia. Uma vez que essa região estivera sobre controle cristão, os cruzados realizariam uma campanha contra os muçulmanos da Síria e da Palestina, sendo Jerusalém o seu objectivo fundamental». In Carlos Navarro, Karen Worfihs, A Primeira Cruzada, Contexto Histórico, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia/JDACT

sexta-feira, 11 de março de 2011

Torquato Tasso: «A sua obra situa-se entre as aspirações morais da época e a sua sensualidade pessoal, entre as regras formais do renascimento e a sua imaginação lírica, entre a verdade histórica e a invenção literária»

(1544-1595)
Sorrento, Itália
Cortesia de verfkampioen

Torquato Tasso, um poeta italiano, contemporâneo de Ariosto, do século XVI, conhecido pelo poema «La Gerusalemme Liberata» (A Jerusalém libertada), de 1580, no qual descreve os combates imaginários entre cristãos e muçulmanos, no fim da I Cruzada, durante o cerco de Jerusalém.

Trata-se de um dos clássicos renascentistas, que aparece já na época decadente da literatura italiana. Após abandonar os estudos de jurisprudência, que iniciara em Pádua, entrou em 1565 para a corte dos Estenses. Durante asta estada, planeou e escreveu o célebre poema, terminado só em 1575.

Ocorreram vário dramas na sua juventude, que impediram Tasso de libertar o seu génio e começar, em 1559 (em Veneza), a obra épica Gerusalemme, que retratava a I Cruzada que libertou Jerusalém do domínio turco em 1099, mas rapidamente se apercebeu que não estava preparado para tal empreendimento, preferindo dedicar-se a temas de cavalaria, como é exemplo «Rinaldo», de 1562.

Cortesia de scedu
«Em 1560, Torquato Tasso inicia os seus estudos de Direito em Pádua, onde conhece Sperone Speroni, humanista e crítico italiano, que lhe aconselha o estudo da obra De Poetica de Aristóteles, na qual se inspirou para produzir a obra Discorsi dell'arte poetica, terminada em 1587. Em 1573, escreve L'Aminta, que, apesar de ser um drama pastoral, se distingue pela riqueza lírica aplicada no retrato feito ao amor que o pastor Aminta nutria por Sílvia. Dois anos mais tarde, termina a sua obra-prima, Gerusalemme liberata, um épico, liderado por Godfrey de Bouillon. Em torno desta história, Tasso escreveu outros episódios que lhe permitiram libertar a sua imaginação lírica e hedonista, destacando-se as histórias sobre os heróis italianos Rinaldo (a sua revolta, o seu amor pela sarracena Armida e o seu arrependimento e consequente ação decisiva na batalha final) e Tancredo (apaixonado pela sarracena Clorinda).
A sua obra situa-se entre as aspirações morais da época e a sua sensualidade pessoal, entre as regras formais do renascimento e a sua imaginação lírica, entre a verdade histórica e a invenção literária, a palavra-chave é equilíbrio, justificando o seu sucesso imediato.

Escreveu mais dois poemas religiosos, Lagrime di Maria Vergine e Lagrime di Gesù Cristo, e, em junho de 1594, regressa a Nápoles, onde é publicada a obra Discorsi del poema eroico, no qual tenta justificar a nova versão do seu épico de acordo com a sua nova conceção de arte poética.
Cortesia de chefbear
A influência de Tasso na literatura europeia foi alimentada por uma certa mistificação da sua personalidade, em virtude não só do confronto entre as suas aspirações religiosas e os seus supostos inúmeros amores, como também da inquietude presente ao longo da sua vida, acabando por ganhar o estatuto, na crítica moderna, de génio incompreendido e perseguido»In Infopédia. Porto Editora, http://www.infopedia.pt/$torquato-tasso.

Cortesia de Infopédia/JDACT