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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Sucesso no 31 do Segundo Cerco de Diu Jerónimo Corte-Real. «Oprimindo, avexando a gente fraca; bem vedes que, por força, se fizeram absolutos senhores do Oriente»

jdact

Canto 2: carta de Mamude aos senhores das cidades portuárias indianas.

Canto Segundo
[...]
Sendo chegado o tempo de mostrar-se
Aquele desamor que está escondido,
O grão sultão mandou embaixadores
Aos príncipes e reis que ali possuem
Marítimas cidades, onde havia
Fortalezas cristãs, e a todos quantos
Ao lusitano rei pagam tributo.
Mandou ao Idalcão e ao Bramaluco;
Mandou também aos reis que a grande costa
Do Malavar habitam; e as palavras
Das cartas assi deziam:
A vós, que mandava reis poderosos do Oriente,
Mamude paz, amor e bem deseja.
Bem vedes quão sujeitos somos todos
A estes portugueses fementidos;
Bem vedes quantos danos e desgostos,
Quantos roubos e mortes, quanto males,
Estes duros imigos vão fazendo
Cada momento mais por nossas terras,
Oprimindo, avexando a gente fraca;
Bem vedes que, por força, se fizeram
Absolutos senhores do Oriente.
Se se isto não atalha e se castiga,
Cedo nos deitarão de nossos reinos,
Por força, desonrados e abatidos.
Restauremos as terras quasi postas
Em jugo e vencimento. Com armada
E belicosa gente persigamos
Estes cruéis tiranos e imigos.
Como a nova vos for que já de todo
São quebrados os pactos e a paz rota,
Que por nós foi guardada injustamente,
Todos acudireis com tai socorro
Que para livres ser é necessário.
Uma liga façamos todos juntos,
E assi conquistaremos esta gente
Enganosa e soberba, tiraremos
Os nossos naturais de ser cativos,
Vingaremos aquela grande afronta
Que até este ponto a todos nos é feita,
Tributos e pensões sempre pagando,
Fazendo-nos sujeitos, sendo 1ivres.
[…]

In Jerónimo Corte-Real, colecção Tesouros da Literatura e da História, Obras de Jerónimo Corte-Real, HALP, FCG, Lello & Irmãos Editores, Porto, 1979.

Cortesia de LelloeI/HALP/JDACT

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Sucesso do Segundo Cerco de Diu Jerónimo Corte-Real. «Olhos e liga os membros de Mamude. Cessaram, por então, os pensamentos, e o seu ânimo teve algum alívio»

jdact

Canto 1: sonho de Mamude, jovem sultão de Cambaia.

Canto Primeiro
[...]
Estava o mundo todo envolto em sombra,
De luzentes estrelas o céu cheio;
Em grave e doce sono transportados
Os trabalhados corpos dos que vivem;
As feras, nas montanhas e desertos,
Em profundo silêncio descansavam;
Não repousa Mamude; desvelado
Está, que nunca os olhos sono admitem,
Mas um cuidado a outro encontra e fere,
Crescendo por momentos a milhares;
Revolve na torvada fantasia
Um grão tropel d'acordos diferentes;
Parece-lhe já ver, bem sucedidos,
Os casos que inda não vê começados:
Um pensamento vão, uma esperança
De natural soberba acompanhada,
Já deste incerto bem o certificam.
Estando assi consigo vacilando,
Entra o sono quieto e invisível,
Prende com subtil manha os desvelados
Olhos e liga os membros de Mamude.
Cessaram, por então, os pensamentos,
E o seu ânimo teve algum alívio.
Não tardou muito espaço que o mancebo,
Sepultado em profundo e doce sono,
Lhe parecia ver uma disforme,
Horríbel, infernal, triste figura,
A cabeça de bíboras cercada
E rebuçada com sangrentas toucas.
O nome desta fúria era Discórdia.
Que até nos paternais peitos acende
Ódios e dissensões, guerras e mortes.
Chega-se a fera sombra ao rei dormido
E com rigor lhe diz estas palavras:
Qua1 coração será tão de diamante,
Quais entranhas de hircano, fero tigre,
Que não se movam, vendo a crua morte
Que ao grão sultão Baudúr se deu sem causa?
Como sofrerás tu tão grande ofensa?
Como não andarás sempre corrido,
Se não vingares morte de um tal homem
Em tudo tão perfeito e acabado?
Sofrerás. porventura, que uma gente
Peregrina, estrangeira e tão soberba
Mate um tão grande rei dentro em seu reino?
Não és tu neto seu? Que mais aguardas?
Que fazes, que não vingas tal desonra?,
[...]

In Jerónimo Corte-Real, colecção Tesouros da Literatura e da História, Obras de Jerónimo Corte-Real, HALP, FCG, Lello & Irmãos Editores, Porto, 1979.

Cortesia de LelloeI/HALP/JDACT

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tesouros da Literatura e da História. Obras de Jerónimo Corte Real. Introdução: «Foi o fecundo autor de três longos poemas narrativos, dois de tema heróico, e o terceiro de tema dramático, além de composições de outro género insuficientemente conhecidas. Damião de Góis fez dele menção saliente»

Cortesia de bnp

Introdução
«Jerónimo Corte Real, tem sido histórica e tradicionalmente considerado entre os «épicos» portugueses de mais vulto, uma vasta gama de poetas, que a actualidade já não lê ou quase do todo esqueceu. Não lê, porque os tentos são de difícil acesso, e as antologias não lhas concedem lugar favorável, a despertar curiosidade ou moderado conhecimento. Estão relegados na prateleira baixa da história literária. E nesta posição muito secundária, nem tudo como obra de engenho, nem todos como cultores da arte poética, merecem o desagradado olvido, a penumbra densa que os envolve.
Jerónimo Corte Real foi o fecundo autor de três longos poemas narrativos, dois de tema heróico, e o terceiro de tema dramático, além de composições de outro género insuficientemente conhecidas. O poeta, ilustre figura das letras, descendia de uma nobre família com estreitas ligações a velhas estirpes da aristocracia peninsular e portuguesa, os Corte Reais, que em dias do rei, D. Manuel se haviam grandemente ilustrado. O cronista do rei Venturoso fez deles menção saliente.

Com efeito, no período áureo dos descobrimentos marítimos, os Corte Reais notabilizaram-se como audazes buscadores de novas terras. No princípio do verão de 1500, Gaspar Corte Real, filho de João Vaz Corte Real, «...homem aventureiro, esforçado, & desejoso de ganhar honrra…», partiu da Lisboa a descobrir «...perá banda do Norte». Nesta viagem achou uma terra muito fresca e de grandes arvoredos a que pôs nome de Terra Verde, costeando uma boa parte dela. Desejoso de obter melhor conhecimento daquelas partes que visitara, Gaspar Corte Real fez-se de novo ao mar, mas a fortuna não o acompanhou. A falta de qualquer nova do navegador, «tardança e má suspeita da sua viagem», levaram seu irmão Miguel Corte Real, porteiro-mor de el-rei, a empreender uma expedição de busca, partindo de Lisboa a 10 de Maio de 1502, em duas naus. Também este lastimosamente se perdeu.

Cortesia de bnp

O infortúnio dos seus dois devotados servidores foi muito sentido pelo rei, D. Manuel,, mandando à sua custa procurá-los, mas nunca se alcançou qualquer notícia. Suspeitou-se que teriam desaparecido naquela Terra Verde, à qual então se pôs o nome de Terra dos Corte Reais.
Ouçamos agora, expressamente o cronista manuelino:
  • «Tinham estes dous irmãos Gaspar, & Miguel corte Real, outro irmão mais velho qlles, a que chamauão Vasqueanes corte Real, q era veador da casa delRei, do seu conselho, capitam, & gouernador das ilhas de sam George, & terçeira, & alcaide mor da çidade de Tauilla, muito bom caualleiro, bom Christão, home de singular exemplo de vida, & de muitas esmollas publicas, & secretas, cujo filho herdeiro he Emanuel corte Real, também do conselho delRei, & capitã das mesmas ilhas q aho presente viue. Este Vasqueanes corte Real, nã se podedo persuadir q seus irmãos erã mortos, nesta anno de M.D.III, determinou de co nãos à sua própria custa hos ir buscar, mas tendo elRei por excusada sua ida, lho não quis consentir, nem se proçedeo mais neste negocio, por se ter por desnecessária toda há despesa que se nisso mais fezesse».
Apartemos deste excerto de Damião de Góis, os nomes de Vasqueanes Corte Real e de seu filho, Manuel Corte Real, porque o primeiro foi avô, e o segundo foi pai de Jerónimo Corte Real, o poeta. Vasqueanes Corte Real, primogénito do navegador João Vaz Corte Real, sucedeu a seu pai nas capitanias de Angra e da ilha de S. Jorge em 1497, direito que lhe foi confirmado em 1522. Naquele ano de 1497 «...já aparece como Vedor da Fazenda Real» afirma Ernesto doo Canto na importante monografia sobre os Corte Reais, contudo sem expressa anotação documental.


Cortesia de bnp

Que o era de facto no ano seguinte, atesta-o Damião de Góis, relevando o nome de Vasqueanes Corte Real como veador da casa de el-rei entre os principais acompanhantes do rei D. Manuel e da rainha D. Isabel, quando a 29 de Março de 1948 os soberanos portugueses saíram de Lisboa para serem jurados herdeiros dos reinos de Castela e do Leão.
No seu vasto trabalho genealógico, deixou dito Ernesto do Canto, que Vasqueanes Corte Real, «...prestou relevantes serviços em tempo do Conde de Tarouca, Prior do Crato, derribando e captivando em 1495, Ali Barrxno, chefe Mouro». A fonte aduzida pelo erudito investigador açoriano é a Crónica de D. Manuel, Parte I, cap. 12. Que Vasqueanes tenha andado nas «partes dalém» combatendo os mouros não põe forçosa dúvida, porque em seu tempo era essa a condição geral dos cavaleiros fidalgos. Porém, lido e relido aquele capítulo 12 do omponente monumento historiográfico do cronista manuelino, sempre bem informadoi dos sucessos de África, não se nos depara aí o nome de Vasqueanes Corta Real, derribando e cativando o alcaide de Xexuão, Barraxe, «… grão senhor entre hos rnouros» quando estes em 1495 vieram correr ao campo de Arzila. O alcaide Barraxe, Alí ibne Ráxede, levou uma vida inteira de impetuoso combatente contra os portugueses, e um vez foi derribado e cativado «… com cinquo grandes feridas …», mas isto aconteceu em Outubro de 1487, e quem no-lo refere é Rui de Pina. Barraxe viera correr a cidade de Tânger, de queânger, de que era capitão e governador João de Meneses, anos depois, concretamente em 1499, elevado a Conde de Tarouca, mas o cronista não assinala quem pôs a lança ferindo o alcaide mouro (VII)». In Tesouros da Literatura e da História, Obras de Jerónimo Corte Real, introdução de Lopes de Almeida, Lello & Irmão Editores, Porto, 1979.

Cortesia de Lello e Irmão/JDACT

sábado, 3 de abril de 2010

Luis de Sotomaior: «Cantici canticorum Salomonis interpretatio»

Luis de Sotomaior, OP.
Cantici canticorvm salomonis interpretatio, 1599
Portada
Ao «visitar» a Biblioteca Joanina da UC, fiquei admirado com a portada de um livro atribuída a Luís Sotomaior. Posteriormente, encontrei a Tertúlia Bibliófila e mais admirado fiquei. Recomendo uma «visita» a este sítio.
Com a devida vénia para a Tertúlia eis alguns dados de Sotomaior.
 
Luís Sotomaior, OP.
Cantici canticorvm salomonis interpretatio, 1599
Vol.2. Cap. IIII
Luís de Sotomaior foi um exegeta dominicano português que começou a ensinar a cadeira de Sagrada Escritura em Coimbra, em 1566. O autor, formado por Lovaina, comenta nesta obra o texto bíblico de Salomão, talvez com menor qualidade literária do que Luís de León mas com maior erudição teológica. O texto é aproveitado para explicar temas ético-morais e inculcar a prática espiritual.
Esta é a primeira edição da obra, impressa em Lisboa por Pedro Craesbeeck, em 1599, quando Luís de Sotomaior já tinha sido afastado da Universidade, em 1580, por suspeita de apoiar D. António, Prior do Crato.
A obra ostenta uma magnífica portada alegórica gravada a talhe doce, trabalho português segundo Ernesto Soares.

Luis Sotomaior, OP.
Cantici canticorvm salomonis interpretatio, 1599
Portada - Figura da pastora Sulamite
A cartela central é ocupada pela figura da pastora Sulamite, sobre a qual anjos deixam cair rosas e à volta pode ler-se a legenda «Fulcite me floribus, quid amore langueo», ou seja, «amparai-me com flores, porque me sinto desfalecer de amor». Dos lados, duas figuras aladas: à esquerda, a Poesia (ou a Música) e à direita a Ciência (ou a Sabedoria).

Portada – Poesia


Portada – Ciência

Cortesia de Tertúlia Bibliófila.  
http://bibliotecajoanina.uc.pt/obras_raras
JDACT