quarta-feira, 31 de março de 2021

No 31. Serena. Ian McEwan. «Numa semana eu já tinha lido O primeiro círculo, de Soljenítsin. O título vinha de Dante. O seu primeiro círculo do inferno ficava reservado para os filósofos gregos e consistia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O meu declínio foi precipitado pelos cinquenta minutos que eu passei com Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, de Alexander Soljenítsin, na nova tradução de Gillon Aitken. Eu comecei a ler o livro assim que acabei Octopussy de Ian Fleming. A transição foi dura. Eu não sabia nada dos campos de trabalho soviéticos e nunca tinha ouvido a palavra gulag. Tendo crescido numa catedral, o que é que eu sabia dos cruéis absurdos do comunismo, ou de como homens e mulheres corajosos em lúgubres colónias penais afastadas de tudo eram reduzidos a pensar dia a dia em nada além da sua própria sobrevivência? Centenas de milhares transportados para as estepes siberianas por terem lutado pelo seu país numa terra estrangeira, por terem sido prisioneiros de guerra, por terem irritado um executivo do Partido, por serem executivos do Partido, por usarem óculos, por serem judeus, homossexuais, camponeses donos de uma vaca, poetas. Quem estava denunciando a perda de toda essa parcela da humanidade? Eu nunca me tinha incomodado com política antes. Não sabia nada das discussões e da desilusão de uma geração mais velha que a minha. E também não tinha ouvido falar da oposição de esquerda. Além da escola, a minha educação tinha-se limitado a um pouco mais de matemática e pilhas de romances em edições baratas. Eu era uma inocente e a minha sensação de ultraje era moral. Eu não usava, e não tinha sequer ouvido, a palavra totalitarismo. Eu provavelmente teria pensado que tinha alguma coisa a ver com totalidades. Achava que estava vendo o mundo através de um véu, que estava desbravando novas fronteiras enquanto mandava as minhas mensagens de um front obscuro.

Numa semana eu já tinha lido O primeiro círculo, de Soljenítsin. O título vinha de Dante. O seu primeiro círculo do inferno ficava reservado para os filósofos gregos e consistia, a bem da verdade, num agradável jardim murado cercado por um sofrimento infernal, um jardim de onde era proibido fugir para entrar no paraíso. Eu cometi o erro do entusiasta, de presumir que todos compartilhavam a minha ignorância anterior. A minha coluna virou uma arenga. Será que a presunçosa cidade de Cambridge não sabia o que tinha acontecido, ainda estava acontecendo, a cinco mil quilómetros a leste, será que ela não tinha percebido o dano que aquela utopia fracassada de filas para comida, roupas horríveis e viagens restritas estava causando ao espírito humano? O que é que se podia fazer? Quis? tolerou quatro rodadas do meu anticomunismo. Os meus interesses se estenderam até O zero e o infinito, de Koestler, Bend Sinister, de Nabokov, e aquele belo tratado que é The Captive Mind, de Miłosz. Também fui a primeira pessoa do mundo a entender 1984 de Orwell. Mas o meu coração ficava sempre com o meu primeiro amor, Alexander. A testa que se erguia como uma cúpula ortodoxa, a barbinha passa-piolho, a autoridade austera que o gulag tinha-lhe conferido, a sua teimosa imunidade aos políticos. Nem as convicções religiosas dele conseguiam me deter. Eu o perdoei quando ele disse que o homem tinha esquecido Deus. Ele era Deus. Quem podia estar à altura dele? Quem podia negar-lhe o prémio Nobel? Encarando a fotografia dele, eu queria ser a sua namorada. Eu teria sido uma criada dele como a minha mãe foi do meu pai. Guardar as meias dele? Eu teria caído de joelhos para lavar os pés daquele homem. Com a língua!

Naquele tempo, martelar as iniquidades do sistema soviético era coisa rotineira para os políticos do Ocidente e os editoriais de quase todos os jornais. No contexto da vida e da política estudantil, era só um tantinho de mau-gosto. Se a CIA estava contra o comunismo, devia ter alguma coisa boa no regime. Certas secções do Partido Trabalhista ainda tinham algum amor pelos monstros de cara quadrada lá no Kremlin e pelo seu projectinho macabro, ainda cantavam a Internacional na conferência anual, ainda mandavam estudantes em programas de intercâmbio. Nos anos de pensamento binário da Guerra Fria não era possível ver-se concordando sobre a União Soviética com um presidente americano que estava em guerra no Vietname. Mas naquele chá no Copper Kettle, Rona, sempre tão educadinha, tão perfumada, tão precisa, disse que não era a política da minha coluna que estava incomodando. O meu pecado era ser franca. A próxima edição da revista dela não tinha mais o meu texto. O meu espaço foi ocupado por uma entrevista com a Incrível Banda de Cordas. E aí a Quis? Fechou». In Ian McEwan, Serena, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-121-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

JDACT, Ian McEwan, Literatura, Narrativa,

O Segredo de Helena. No 31. Lucinda Riley. «Tornando a entrar no corredor, ri do Alex que eu era. E me encolhi diante do meu eu anterior, aos 13 anos, um completo egocêntrico e perfeito pé no saco»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pandora, Chipre. 19 de Julho de 2016

«Comecei a ver a casa à medida que fui contornando com o carro os perigosos buracos, ainda não tapados, mesmo depois de dez anos, e cada vez mais fundos. Sacolejei mais um pouco, depois parei e contemplei Pandora, achando que não era assim tão bonita, ao contrário das requintadas fotos de imóveis de classe alta que vemos em sites que alugam para temporadas. Em vez disso, ao menos vista pelos fundos, era uma casa sólida, sensata e quase austera, como sempre imaginei que teria sido seu habitante anterior. Construída com pedras locais de tom claro e quadrada como as casas de Lego que eu montava quando menino, Pandora erguia-se da terra árida e pedregosa que a cercava e que, até onde a vista alcançava, estava coberta de tenras vinhas que começavam a brotar. Tentei conciliar a realidade com a imagem que eu levava na mente havia dez verões e concluí que a memória me prestara bons serviços. Depois de estacionar o carro, contornei as paredes maciças até à frente da casa e o terraço, que é o que coloca Pandora acima do lugar-comum e a inclui numa espectacular categoria própria. Atravessando o terraço, fui até à balaustrada erguida na sua borda, no ponto exacto que antecede o início do declive suave do terreno: uma paisagem repleta de vinhedos, uma ou outra casa pintada de branco e extensos olivais. Ao longe, uma linha de um azul-turquesa cintilante separava a terra e o céu.

Notei que o sol dava uma verdadeira aula magna ao se pôr, penetrando com os seus raios amarelos no azul e o transformando em ocre. É interessante, pois sempre achei que a combinação de amarelo e azul resultava em verde. Olhei à direita, para o jardim abaixo do terraço. Os bonitos canteiros, tão cuidadosamente plantados por minha mãe dez anos antes, não tinham sido bem tratados e, sedentos de atenção e água, foram dominados pela terra árida e suplantados por um mato feio e espinhoso. Mas ali, no centro do jardim, tendo ainda presa a ela uma ponta da rede em que a mãe costumava se deitar, as cordas parecendo espaguete velho e esfiapado, erguia-se a velha oliveira. Velha foi o apelido que lhe dei na época, por ter sido informado pelos adultos que me cercavam de que ela o era. De facto, enquanto tudo ao redor morrera e fermentara, ela parecia haver crescido em estatura e majestade, talvez roubando a força vital dos seus vizinhos botânicos depauperados, decidida, ao longo de séculos, a sobreviver.

Era muito bonita: uma vitória metafórica sobre a adversidade, com cada milímetro do tronco nodoso a exibir orgulhosamente a sua luta. Perguntei-me porque os seres humanos odeiam o mapa da sua vida que transparece no próprio corpo, enquanto uma árvore como essa, ou uma pintura desbotada, ou uma construção desabitada, quase em ruínas, são enaltecidas pela sua antiguidade. Pensando nisso, voltei-me para a casa e fiquei aliviado ao ver que, pelo menos por fora, Pandora parecia ter sobrevivido ao seu abandono recente. Na entrada principal, tirei do bolso a chave de ferro e abri a porta. Ao percorrer os cómodos na penumbra, protegidos da luz pelas persianas cerradas, percebi que as minhas emoções estavam entorpecidas, e talvez fosse melhor assim. Não me atrevi a começar a sentir coisas, porque esse lugar, talvez mais do que qualquer outro, guarda a essência dela... Meia hora depois, eu já tinha aberto as janelas do térreo e tirado os lençóis de cima dos móveis do salão. Parado numa bruma de partículas de poeira que captavam a luz do sol poente, lembrei-me de ter pensado, na primeira vez em que vi a casa, que tudo parecia muito velho. E me perguntei, ao olhar para as poltronas afundadas e o sofá puído, se, tal como a oliveira, o velho e ultrapassado em certo ponto se torna simplesmente velho, sem continuar a envelhecer de modo visível, como os avós grisalhos para uma criança pequena.

A única coisa na sala que tinha mudado de forma a ficar irreconhecível era eu, é claro. Nós, humanos, completamos a maior parte da nossa evolução física e mental em nossos primeiros anos no planeta Terra, de bebés a adultos plenos num piscar de olhos. Depois disso, ao menos por fora, passamos o resto da vida mais ou menos com a mesma aparência, apenas nos transformando em versões mais flácidas e menos atraentes do nosso eu jovem, à medida que os genes e a gravidade fazem o que sabem fazer de pior. Quanto à dimensão afectiva e intelectual das coisas..., bem, devo acreditar que há algumas vantagens que compensam o lento declínio do nosso envoltório externo. Estar de volta a Pandora me mostrou com clareza que elas existem. Tornando a entrar no corredor, ri do Alex que eu era. E me encolhi diante do meu eu anterior, aos 13 anos, um completo egocêntrico e perfeito pé no saco». In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

JDACT, Lucinda Riley, Literatura, Chipre, 

No 31. A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Ela é capaz de ajudar outras pessoas a se recuperar porque conseguiu passar sozinha do trauma à vitória. Ela descobriu como usar sua experiência com a crueldade humana para levar aos outros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Numa Primavera, a convite do psiquiatra-chefe da Marinha dos Estados Unidos, a dra. Edith Eva Eger embarcou num avião de combate sem janelas para um dos maiores navios de guerra do mundo, o porta-aviões USS Nimitz, fundeado ao largo da costa da Califórnia. O avião desceu em direcção a uma pista curta de 150 metros e aterrsou com o solavanco do gancho de retenção da cauda, encaixando no cabo de travamento, que o impediu de cair no oceano. Única mulher a bordo, a dra. Eger foi acomodada na cabine do capitão. Qual era a sua missão? Ela estava lá para ensinar cinco mil jovens marinheiros a lidar com a adversidade, o trauma e o caos da guerra. Em incontáveis ocasiões, a dra. Eger foi a especialista clínica designada para tratar dos soldados, incluindo os das Forças de Operações Especiais, que sofriam de transtorno de stress pós-traumático e lesões cerebrais. Antes de conhecer a dra. Eger pessoalmente, telefonei para convidá-la a fazer uma palestra no curso de Psicologia do Controle da Mente ministrado por mim em Stanford. Sua idade e o seu tom de voz me levaram a imaginar uma vovozinha do Velho Mundo com um lenço amarrado na cabeça por um laçarote por baixo do queixo. Quando ela se dirigiu aos meus alunos, percebi seu poder de cura. Com um sorriso radiante, brincos brilhantes, cabelos dourados, vestindo Chanel da cabeça aos pés (conforme minha esposa me contou depois), ela descreveu tenebrosas e angustiantes histórias de sobrevivência nos campos de extermínio nazistas de maneira bem-humorada, exalando uma presença que só consigo descrever como pura luz.

A vida da dra. Eger foi pontuada por tragédias. Ela foi presa em Auschwitz quando era apenas uma adolescente. Apesar da tortura, da fome e da constante ameaça de morte, conservou a liberdade mental e espiritual. Não se deixou abater pelos horrores que sofreu e saiu fortalecida pela experiência. Na realidade, a sua sabedoria é resultado dos episódios mais traumáticos que viveu.

Ela é capaz de ajudar outras pessoas a se recuperar porque conseguiu passar sozinha do trauma à vitória. Ela descobriu como usar sua experiência com a crueldade humana para levar aos outros a chance de encontrar a própria luz. Seus ensinamentos já ajudaram militares (como aqueles a bordo do USS Nimitz), casais tentando reencontrar a intimidade, pessoas que foram negligenciadas, agredidas, que são viciadas ou doentes, que perderam entes queridos ou simplesmente a esperança. E podem ajudar a todos nós que enfrentamos diariamente as decepções e os desafios da vida. Sua mensagem nos inspira a fazer as nossas próprias escolhas e a nos libertar do sofrimento. No fim da palestra, todos os meus trezentos alunos se levantaram espontaneamente para aplaudir. Depois, pelo menos cem jovens lotaram o pequeno palco, esperando sua vez para agradecer e abraçar essa mulher extraordinária. Em todas as minhas décadas como professor, nunca vi um grupo de estudantes tão entusiasmado.

Ao longo dos vinte anos em que eu e Edie trabalhamos e viajamos juntos, essa é a reacção que me acostumei a testemunhar de cada público ao qual ela se dirige. Desde um encontro motivacional numa cidade de Michigan, nos Estados Unidos, quando conversamos com um grupo de jovens que enfrenta pobreza, desemprego e um conflito racial crescente, até Budapeste, na Hungria, local em que muitos dos seus parentes morreram e onde ela falou para centenas de pessoas que tentavam recuperar-se de um passado doloroso, eu vi isso acontecer repetidas vezes: as pessoas se transformam na presença de Edie. […]

Prisão. Eu tinha um segredo que me aprisionava

Eu não sabia da arma carregada escondida sob a camisa, mas, no momento em que o capitão Jason Fuller entrou no meu consultório, em El Paso, num dia de Verão de 1980, senti um aperto no estômago e uma fisgada na nuca. A guerra tinha-me ensinado a perceber o perigo antes mesmo que eu fosse capaz de explicar porque estava com medo. Jason era alto, tinha o físico magro de um atleta, mas o seu corpo era tão rígido que ele mais parecia um pedaço de madeira do que um ser humano. Seus olhos azuis eram distantes, o queixo era duro e ele não falava, ou não conseguia falar. Eu o encaminhei para o sofá branco, onde ele se sentou recto, com as mãos nos joelhos. Eu não conhecia Jason e não tinha ideia do que havia desencadeado o seu estado catatónico. Seu corpo estava próximo o suficiente para ser tocado, e sua angústia era quase palpável, mas ele estava longe, perdido. Nem parecia notar Tess, minha cachorrinha poodle cinza, que continuava parada, atenta, perto da mesa, como uma segunda estátua viva na sala.

Respirei fundo e procurei uma maneira de começar. Às vezes, começo a primeira sessão com o paciente me apresentando e contando um pouco da minha história e da abordagem que utilizo. Às vezes, pulo directo para a parte de identificar e investigar os sentimentos que trouxeram o paciente ao meu consultório. Com Jason, parecia essencial não pressionar com informações demais ou pedir que ficasse vulnerável. Ele estava completamente travado. Eu precisava encontrar uma maneira de lhe oferecer a segurança de que ele precisava para arriscar-se a me mostrar o que mantinha tão fortemente guardado. Eu precisava prestar atenção ao sistema de alerta do meu corpo sem deixar meu senso de perigo encobrir a obrigação de perguntar: como posso ser útil?» In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento,

domingo, 28 de março de 2021

O Pirata. Walter Scott. «Este magnate das ilhas Setland, que, como já dissemos, descendia, pelo lado de seu pai, de uma antiga família norueguesa, devido ao casamento de um dos seus avoengos com uma dama dinamarquesa…»

jdact

O Estranho Desejo do Homem Estranho

«(…) Esta descoberta fez-se quase à força, porque Mertoun nunca estava disposto a falar de lugares-comuns nem dos seus próprios assuntos. Mas era, por vezes, arrastado a discussões que faziam reconhecer nele, quase sem ele dar por isso, o sábio e o homem de sociedade. Outras vezes, como reflexo da hospitalidade que recebia, ele parecia fazer um esforço sobre si próprio para entrar em conversação com os que o cercavam, sobretudo se a conversa era de tom grave, melancólico e satírico, o que melhor convinha à feição do seu espírito. Em todo o caso, a opinião geral dos setlandeses era de que ele devia ter recebido uma excelente educação, mas descurada num ponto muito importante, pois o senhor Mertoun mal sabia distinguir a proa de um barco da sua popa, e uma vaca não poderia ser mais ignorante em tudo o que se relacionasse com a condução de um navio. Tinham pena de que uma ignorância tão crassa da arte mais necessária à vida (pelo menos nas ilhas Setland) estivesse ligada aos largos conhecimentos que ele evidenciava em tantos outros assuntos. No entanto, essa era a verdade.

Excepto quando conseguiam fazê-lo sair da sua reserva pela maneira que citámos, o senhor Basil Mertoun mantinha-se sombrio e concentrado. As mulheres gostam sempre de penetrar os mistérios e de suavizar a melancolia, sobretudo quando se trata de um homem desempenado e que ainda não ultrapassou a boa idade da vida. É, portanto, possível que entre as filhas de Tule, de cabelos louros e olhos azuis, este estrangeiro pensativo tivesse encontrado alguma que se encarregasse de o confortar, se ele mostrasse alguma disposição para receber esse caridoso serviço; mas, bem longe de proceder assim, ele até parecia fugir da presença daquele sexo ao qual recorremos em todas as nossas aflições de corpo e de espírito, para obter piedade e consolação. A estas singularidades, juntava o senhor Mertoun uma outra particularidade desagradável ao seu hospedeiro Magnus Troil. Este magnate das ilhas Setland, que, como já dissemos, descendia, pelo lado de seu pai, de uma antiga família norueguesa, devido ao casamento de um dos seus avoengos com uma dama dinamarquesa, estava profundamente convencido de que um copo de genebra ou de aguardente eram uma panaceia infalível contra todas as preocupações e todas as aflições do Mundo. O senhor Mertoun nunca recorrera a este remédio; não bebia senão água, água pura, e não havia súplicas que o decidissem a provar outra bebida que não proviesse de uma límpida fonte. Ora, era o que Magnus Troil não podia tolerar; era ultrajar as antigas leis de sociabilidade do Norte, que ele, por seu lado, sempre respeitava tão rigorosamente. E, embora Magnus Troil tivesse o costume de afirmar que nunca se deitara embriagado, o que não era verdade senão no sentido que ele emprestava à palavra, seria impossível provar que alguma vez tivesse recolhido ao leito no uso pleno e livre do seu juízo. Perguntar-se-á em que poderia o convívio deste estrangeiro compensar Magnus do desprazer que lhe causavam os seus hábitos de sobriedade. Primeiro, ele tinha aquele ar de importância que denuncia um homem de alguma consideração, e pobre. Tinha, aliás, algum talento de conversação, quando se dignava fazer uso dele, como já o demos a entender; e a sua misantropia, ou aversão pelos assuntos e relações sociais, exprimiam-se por vezes de maneira a passar por pessoa espirituosa, num local onde o espírito era raro. Acima de tudo, a história do senhor Mertoun parecia impenetrável, e a sua presença tinha todo o interesse de um enigma, que se gosta de ler e reler precisamente porque não se consegue adivinhar nem uma palavra.

Apesar de todas estas particularidades favoráveis, Mertourn diferia do seu hospedeiro em pontos tão essenciais, que depois de ele ter passado algum tempo na sua casa, Magnus Troil ficou agradavelmente surpreendido quando, uma noite, depois de permanecerem juntos durante duas horas em silêncio absoluto, a beber aguardente e água, isto é, Magnus o álcool e Mertoun o líquido puro, Mertoun pediu ao seu hóspede licença para ocupar, como locatário, a sua casa abandonada de Jarlshof, no extremo do território denominado Dunrossness, e situado no promontório Sumburgh. Vou desembaraçar-me dele da maneira mais correcta, pensou Magnus. A sua partida vai, no entanto, arruinar-me em limões, porque bastava um dos seus olhares para dar acidez a um oceano de punch. No entanto, o generoso e bom setlandês opôs desinteressadamente objecções a Mertoun sobre a solidão a que ia condenar-se e acerca dos inconvenientes que devia esperar. Apenas se encontram nessa velha cas, disse ele, os móveis indispensáveis. Não há convivência em várias milhas em redor. Não encontrará outras provisões senão sillocks (pequenos peixes próprios daquelas paragens) salgados, e não terá por companhia mais do que gaivotas e outras aves marinhas. Meu bom amigo, respondeu Mertoun, se quisesse fazer-me preferir esse local a outro, não andaria melhor do que assegurando-me que lá estaria longe do convívio dos homens e que o luxo não poderia lá penetrar. Um reduto onde a minha cabeça e a do meu filho possam estar ao abrigo das intempéries é tudo o que desejo. Fixe a renda que lhe devo pagar, senhor Troil, e permita-me que seja seu locatário em Jarlshof. A renda!, exclamou o setlandês. Não pode ser muito avultada por uma velha casa que ninguém habita desde a morte de minha mãe, que Deus tenha em descanso. Quanto a um abrigo, as velhas paredes são grossas, e podem ainda aguentar muito pé de vento. Mas, em nome do céu, senhor Mertoun, pense no que vai fazer. Um homem nascido entre nós que quisesse ir estabelecer-se em Jarlshof faria um projecto extravagante, com mais forte razão o senhor, que nasceu noutro país, quer seja a Inglaterra, a Escócia ou a Irlanda, é o que ninguém sabe dizer...» In Walter Scott, O Pirata, 1822, tradução de Mário Domingues, 2ª edição, Edição Romano Torres, Lisboa, 1953-1956, Obras Escolhidas de Autores Escolhidos, nº 21.

Cortesia de ERomanoTorres/JDACT

JDACT, Walter Scott, Literatura, Século XIX, Cultura, A Arte, 

sábado, 27 de março de 2021

Poema. Jorge Palma. Só. «E anda sempre alguém por lá, junto à tempestade, onde os pés não têm chão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir
E anda sempre alguém por lá

Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar
Voz de Jorge Palma, Poema de Rui Malheiro e Tiago Leitão

Cortesia de wikipedia

Poesia, Jorge Palma, Rui Malheiro, Tiago Leitão, Cultura,

O Físico. O Médico de Ispahan. Noah Gordon. «Choveu como nunca antes, e com o descongelamento rápido, o Tamisa encheu e arrastou na sua corrente pontes e casas. Estrelas caíram, riscando de luz o céu ventoso de Inverno…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Diabo em Londres

«Aqueles foram os últimos momentos de abençoada inocência na vida de Rob J. mas na sua ignorância achava um sacrifício ser obrigado a permanecer na casa do pai com os irmãos e a irmã. A Primavera mal começara e o sol estava bastante baixo para acariciar mornamente os beirais do telhado de palha; aproveitando o aconchego, ele deitava-se no degrau de pedra áspera na frente da porta. Uma mulher caminhava cautelosa na superfície rachada da Carpenter Street. A rua precisava de conserto, como a maioria das casas pequenas de madeira dos trabalhadores, construídas descuidadamente por hábeis artesãos que ganhavam a vida construindo casas sólidas para os mais ricos e mais afortunados.

Rob J. estava debulhando um cesto de ervilhas, tentando não perder de vista as crianças mais novas, sua responsabilidade quando a Mãezinha estava fora. William Stewart, seis anos e Anne Mary, quatro, cavavam a terra ao lado da casa, nas suas brincadeiras

secretas e risonhas. Jonathan Carter, dezoito meses, estava deitado numa pele de carneiro, alimentado, arrotado e gorgolejando satisfeito. Samuel Edward, sete anos, tinha escapado de Rob J. Cheio de artimanhas, Samuel sempre conseguia desaparecer para não trabalhar, e Rob procurava-o com os olhos, furioso. Abria as vagens verdes uma por uma, tirava as ervilhas da película cerosa com o polegar, como a Mãezinha fazia. Não interrompeu o trabalho quando viu que a mulher se dirigia para ele. Barbatanas no corpete erguiam seus seios, quando se movia às vezes aparecia o mamilo vermelho, e o rosto estava vulgarmente pintado Rob J. tinha apenas nove anos, mas um menino de Londres sabia reconhecer uma prostituta.

Tu aí. Esta é a casa de Nathanael Cole? Ele a observou ressentido, pois não era a primeira vez que uma mulher daquele tipo aparecia procurando por seu pai. Quem quer saber, perguntou asperamente, satisfeito porque o pai estava fora, à procura de trabalho e ela não ia poder falar com ele, satisfeito por sua Mãezinha estar entregando bordados, sendo assim poupada daquele constrangimento. A mulher dele precisa dele. Ela me mandou. O que quer dizer, precisa dele? As competentes mãos infantis interromperam o trabalho. A prostituta olhou para ele friamente, percebendo o que Rob pensava dela pelo seu tom e modos. Ela é tua mãe? Fez um gesto afirmativo. Está tendo um parto difícil. Está nos estábulos de Egglestan, perto de Puddle Dock. É melhor procurar seu pai e avisar, disse a mulher, e se afastou. O garoto olhou desesperadamente em volta.  Samuel!, gritou, mas o maldito Samuel estava só Deus sabe onde, como sempre, e Rob interrompeu a brincadeira de William e Anne Mary. Toma conta dos menores, Willum, disse. Então deixou a casa e começou a correr. Pessoas dignas de crédito dizem que o Anno Domini 1021, o ano da oitava gravidez de Agnes Cole, pertenceu ao Diabo.

Foi um ano marcado por calamidades para o povo e monstruosidades da natureza. No Outono anterior as colheitas nos campos foram queimadas pelas geadas intensas que congelaram os rios. Choveu como nunca antes, e com o descongelamento rápido, o Tamisa encheu e arrastou na sua corrente pontes e casas. Estrelas caíram, riscando de luz o céu ventoso de Inverno e foi visto um cometa. Em Fevereiro a terra tremeu. Um relâmpago atingiu a cabeça de um crucifixo e os homens murmuraram que Cristo e seus santos estavam dormindo. Contavam que durante três dias jorrara sangue de uma fonte e viajantes diziam que o demónio tinha aparecido em bosques e em lugares secretos. Agnes disse ao filho mais velho para não dar ouvidos a essas histórias. Mas acrescentou preocupada que se Rob J. visse alguma coisa fora do comum devia fazer o sinal da cruz. Todos oneravam Deus com uma carga pesada porque a queima das colheitas naquele ano trouxera tempos difíceis. Nathanael há mais de quatro meses estava desempregado e a família se mantinha com a habilidade de bordadeira da mãe.

No começo do casamento, ela e Nathanael estavam perdidamente apaixonados e cheios de confiança no futuro; ele pretendia enriquecer com a profissão de construtor. Mas a promoção era lenta dentro da corporação dos carpinteiros, nas mãos de comités examinadores que escrutinizavam projectos como se cada parte da obra fosse destinada ao rei. Nathanael passou seis anos como aprendiz de carpinteiro e mais doze como Sócio Marceneiro. Agora devia ser aspirante de Mestre Carpinteiro, a classificação profissional necessária para ser empreiteiro. Mas o processo de se tornar Mestre exigia energia e tempos prósperos, e ele estava desanimado demais para tentar». In Noah Gordon, O Físico, O Médico de Ispahan, 1986, Bertrand Editora, 2008, ISBN 978-972-251-760-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Noah Gordon, Literatura, Medicina, Cultura,

quinta-feira, 25 de março de 2021

Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi. Rachel Nóbrega S. Fé. «O propósito da epopeia era o mesmo: manter viva a memória do que aconteceu e não podia ser esquecido. No entanto, para Homero, não era importante…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 (…) Publicado em 1989, a obra de Garrard - Artemisia Gentileschi: the image of the female hero in italian baroque art, é considerada o mais completo estudo sobre a vida e obra da pintora, enriquecido com documentos como suas cartas, os anais do julgamento e ilustrações de obras de arte renascentistas, além daquelas de autoria da artista. A vida de Artemisa Gentileschi também motivou a criação de três romances: Artemisia (1947) da escritora italiana Anna Banti e os romances contemporâneos Artemisia: a novel (1998) da francesa Alexandra Lapierre e The Passion of Artemisia (2000) da norteamericana Susan Vreeland. Também foi produzido o filme da directora francesa Agnes Merlet, Artemisia, lançado em 1997. Além dessas narrativas sobre a vida de Artemisia, também podem ser encontrados romances que fazem menções à artista ou à sua obra como The book of Mrs Noah (1987) da britânica Michele Roberts, Veinte años y un día (2003) do espanhol Jorge Semprún e Frida Kahlo (1985) da mexicana Rauda Jamis. Ao realizar uma pesquisa com o intuito de identificar recentes publicações sobre Artemisia Gentileschi até o momento, constatei vários estudos da vida e obra da pintora. A respeito dos romances sobre Artemisia, apenas alguns trabalhos foram encontrados. No Brasil, as narrativas ficcionais sobre a pintora foram pouco exploradas. Dentre todas as obras analisadas, apenas o romance The Passion of Artemisia foi publicado em português, em 2010. No âmbito de pesquisas académicas, há um artigo de autoria de Cristina Stevens, que analisa o romance The passion of Artemisia, e também o artigo da professora da UFPB, Maria das Vitórias de Lima Rocha, que menciona o romance de Vreeland, sem, no entanto, analisá-lo […].

O percurso da história inicia-se no período anterior a Cristo, com escritos de Tucídides (460 A.C. - 395 A.C.) e Heródoto (484 A.C. - 425 A.C.). Esses primeiros historiadores procuraram distinguir as suas narrativas das de Homero, buscando um maior comprometimento em estabelecer verdades factuais; no entanto, as obras de Tucídides e Heródoto ainda eram muito próximas à épica. Os dois historiadores colocam-se como testemunhas dos acontecimentos descritos nas suas narrativas. O crítico literário Luiz Costa Lima (2006) destaca que, nesse processo, eles ainda mostravam uma certa preocupação com os aspectos discursivos, criando esteticamente a ilusão de que eles próprios eram os narradores e observadores das suas narrativas.

O propósito da epopeia era o mesmo: manter viva a memória do que aconteceu e não podia ser esquecido. No entanto, para Homero, não era importante, por exemplo, a exacta reconstituição do que acontecera em Tróia, mas sim a reunião de diversas fontes para a construção da narrativa épica. Costa Lima destaca que, apesar de as finalidades do poeta e do historiador serem bem-parecidas, as estratégias que eles utilizavam, no entanto, não se equivaliam: se a Tucídides Homero parecia um adornador, a Homero Tucídides parecia um tacanho, preocupado com coisas pequenas. Ainda nessa época, não havia um critério explícito que distinguia essas duas formas narrativas. Uma das primeiras tentativas de estabelecer uma concepção poética precisa foi feita por Aristóteles, que utilizava basicamente um critério, a mímesis. A partir dessa ideia de que a poesia (poesis) seria a imitação (mímesis) das acções do homem, o filósofo propõe que história e ficção tenham, consequentemente, outras diferentes características. Na sua A poética, há referência directa a essas diferenças em dois momentos da sua obra, nos capítulos IX e XXII. Na primeira referência, ele afirma Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. O filósofo acreditava que não era, então, a forma do texto, verso ou prosa, que diferenciaria as duas narrativas, pois, se a obra de Heródoto fosse colocada em verso, ela não deixaria de ser história. Enquanto a poesia representa o que poderia acontecer, a história narra o que já aconteceu no passado. O historiador Ronaldo Silva Machado (2000) destaca que essa mímesis deve ser entendida como a representação do homem em ação, não em termos de uma simples cópia ou transcrição, mas como uma universalização de possibilidades dessa ação, segundo a verossimilhança. O poeta deve representar apenas uma só acção com causa e consequência. Ao citar o exemplo da Odisséia, o filósofo destaca que Homero compôs tudo em apenas uma única acção, sua viagem de retorno. Se a obra contasse toda a vida de Odisseu, seria história. Esta, ao invés de contar uma única acção, narra todos os eventos, na devida ordem de sucessão, passado num período de tempo. Enquanto na poesia, um acontecimento é a causa do outro, na história há apenas uma sequência de acontecimentos». In Rachel Nóbrega S. Fé, Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi, Dissertação de Mestrado em Literatura da Universidade de Brasília, IL, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, 2014.

Cortesia de UBrasília/IL/DTLLiteraturas/JDACT

JDACT, Artemisia Gentilrschi, Pintura, Século XVI, A Arte, 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi. Rachel Nóbrega S. Fé. «… apesar de utilizar as mesmas técnicas, Artemisia propôs uma perspectiva diferenciada, na qual essas personagens são representadas como corajosas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Como bem nos lembra Virginia Woolf (2000), a história das mulheres precisa não apenas ser descoberta mas também inventada. Essa motivação tem permitido a produção de romances contemporâneos que, através de uma voz autoral feminina, criam personagens capazes de contar suas próprias histórias, reconstruindo ficcionalmente a biografia de mulheres fascinantes, contribuindo, cada vez mais, para a visibilidade das mulheres. Esquecida pela historiografia tradicional, a pintora renascentista italiana Artemisia Gentileschi foi representada de maneira distorcida e sua genialidade artística foi ignorada, de forma que a autoria de suas obras foram atribuídas a outros artistas e a seu pai. A recente (re) descoberta e o reconhecimento da pintora têm motivado riquíssimos estudos, além de três romances e um filme. A partir das contribuições dos estudos feministas e da metaficção historiográfica, analiso no meu trabalho algumas dessas representações literárias e não-ficcionais da artista, com ênfase no romance The Passion of Artemisia (2000) da escritora contemporânea da USA, Susan Vreeland; enfatizamos a impossibilidade de reconstituição da verdade histórica sobre a vida de Artemisia Gentileschi». In Resumo

«O presente trabalho objectiva analisar obras literárias e não ficcionais sobre a pintora renascentista italiana Artemisia Gentileschi. Após um silêncio que durou quase três séculos, a artista tem sido recuperada apenas recentemente pelos Estudos Feministas. Seu reconhecimento tem, cada vez mais, motivado obras a partir de múltiplos olhares que, consequentemente, produziram diferentes representações desta mesma personagem histórica.

Nascida em Roma, no ano de 1593, Artemisia tem se destacado cada vez mais como uma das poucas mulheres a adquirir reconhecimento em um momento histórico em que elas dificilmente eram aceitas pela comunidade artística. Naquela época, se uma mulher decidisse tornar-se uma artista, ela não poderia trilhar o caminho tradicional destinado aos homens, pois não havia possibilidade de receber formação com os grandes mestres, realizar viagens, conviver com a comunidade artística ou participar de outras actividades que aconteciam no espaço público, ao qual elas tinham pouco acesso. O único contato de Artemisia com a pintura foi através de seu pai, o famoso pintor Orazio Gentileschi, de quem recebeu os primeiros ensinamentos; ela foi a única dos quatro filhos,  sendo três deles homens, de Orazio, que desenvolveu aptidão para a pintura. Com apenas 17 anos, ela já havia pintado os famosos quadros Madona com o Menino Jesus (1609) e Susana e os Anciãos (1610). Vale destacar que, mesmo vivendo numa época na qual as mulheres, quando pintavam, o que era raro , eram consideradas capazes de pintar apenas retratos e cenas domésticas, Artemisia pintou heroínas mitológicas e históricas como nos quadros Judite decapitando Holofernes (1620), Cleópatra (1622) e Lucrécia (1621). Seus quadros são considerados marcantes também pela forma inovadora como ela representou essas personagens. Essas mulheres eram tradicionalmente pintadas por artistas masculinos como figuras delicadas e passivas. No entanto, apesar de utilizar as mesmas técnicas, Artemisia propôs uma perspectiva diferenciada, na qual essas personagens são representadas como corajosas, fortes e determinadas.

Um dos episódios mais conhecidos e marcantes da sua vida e que, para muitos historiadores da arte, influenciou várias das suas obras, foi o abuso sexual que sofreu aos 17 anos. O agressor, Agostino Tassi, pintava algumas obras em parceria com Orazio Gentileschi e foi escolhido para ensiná-la algumas técnicas de perspectiva. Devido à ausência do pai, Tassi aproveitou-se desses momentos para abusar dela. Orazio Gentileschi, então, levou Tassi a julgamento no ano de 1611, acusando-o de não somente ter tirado a virgindade da sua filha mas também por ter roubado uma das suas pinturas. Durante o processo, Tassi alegou que as relações foram consensuais e que ela também já havia mantido relações sexuais com outros homens. No entanto, Artemisia afirmava que havia sido violada por ele e deixou que a situação ocorresse outras vezes porque Tassi prometeu que se casaria com ela. Para comprovar que realmente estava falando a verdade, Artemisia foi submetida a um exame ginecológico feito por parteiras, além de ser torturada para confirmar seu testemunho. Ao fim do julgamento, Tassi é considerado culpado. No entanto, não há nenhuma evidência de que ele foi sentenciado, apenas de que ele foi liberado um mês após o depoimento da última testemunha.

Apesar de Artemisia ter passado pela dolorosa e escandalosa experiência do estupro e do julgamento, seu pai conseguiu arranjar-lhe um casamento com o artista Pietro Antonio di Vicenzo Stiattesi. A cerimónia aconteceu em Novembro de 1612, quando ela, então, passou a morar em Florença, cidade natal do pintor. Nesta, tornou-se bastante conhecida, chegando a ser a primeira mulher aceita na famosa Accademia del Disegno, formada pelos mais renomados artistas da corte de Cosimo de Medici I. Um dos seus primeiros trabalhos foi uma encomenda de Michelangelo Buonarroti, sobrinho do ilustre artista Michelangelo, para a reforma da casa da família. Além de ter sido uma das artistas mais bem remuneradas do projecto, esse trabalho também ajudou a impulsionar a carreira. Posteriormente, ela recebeu várias comissões e o apoio de influentes pessoas como Cosimo de Medici II e Cristina de Lorena, a Grã-Duquesa de Toscana. As encomendas lhe possibilitaram uma independência financeira, que a tornou capaz de viver sem depender do cônjuge. Essa liberdade permitiu também que ela morasse, já separada de seu marido, com sua filha nas cidades de Génova, Veneza e Roma, a fim de pintar para outros patronos.

Embora houvesse ganho notoriedade no século XVII, Artemisia Gentileschi foi esquecida por quase 300 anos. Segundo a historiadora da arte e pesquisadora da vida e obra da pintora, Mary D. Garrard, Artemisia foi pouquíssimo mencionada por pesquisadores e biógrafos nos séculos XVII e XVIII, evidência de que nenhum deles reconheceu a verdadeira importância da artista, chegando a atribuir várias de suas obras ao seu pai e a outros pintores. Apenas a partir das últimas décadas do século XX, graças, sobretudo, aos esforços de pesquisas na área dos Estudos Feministas, Artemisia foi (re)descoberta e reconhecida como uma das primeiras mulheres a produzir uma arte considerada genial e também como uma das grandes artistas do barroco italiano». In Rachel Nóbrega S. Fé, Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi, Dissertação de Mestrado em Literatura da Universidade de Brasília, IL, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, 2014.

Cortesia de UBrasília/IL/DTLLiteraturas/JDACT

JDACT, Artemisia Gentilrschi, Pintura, Século XVI, A Arte,

terça-feira, 23 de março de 2021

Ivanhoe. Walter Scott. «A situação da classe mediana, os rendeiros-livres, como lhes chamavam, a quem a lei e o espírito da Constituição inglesa concediam independência da tirania feudal…»

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«Naquele aprazível rincão da alegre Inglaterra, banhado pelo rio Dom, existiu, em tempos que já lá vão, uma grande floresta recobrindo os belos montes e vales estendendo-se entre Sheffield e a deliciosa cidade de Doncaster. Os restos dessa imensa mata ainda se percebem junto dos nobres assentos de Wentworth, de Wharnclifie Park e ao redor de Rotherham. Ali vagueou, no passado, o Dragão de Wantley, lá se travaram muitas das mais desesperadas batalhas da Guerra Civil das Rosas e ainda naqueles lados viveram outrora, aqueles bandos de galantes proscritos cujos feitos os cantares ingleses tão populares tornariam. Será este o nosso principal cenário, decorrendo a nossa história no período final do reinado de Ricardo I (1157-1199), quando no seu retorno de demorado cativeiro, concretizou algo que os seus súbditos, desesperados, mais desejavam do que esperançavam, enquanto iam sendo submetidos a todos os géneros de opressão. Os nobres, cujo poder se exorbitara, durante o reinado de Estêvão (1135-1154), e de quem a prudência de Henrique II (1154-1189) quase não conseguira obter um mínimo de sujeição à coroa, usufruíam, no momento, da sua anterior licença sob a mais vasta forma, desprezando a débil interferência do Conselho de Estado inglês, fortificando os seus castelos, aumentando o número dos seus dependentes, obrigando a vassalagem todos à sua volta e tudo fazendo para conseguirem juntar forças bastantes para lhes concederem um lugar cimeiro nas convulsões nacionais que pareciam aproximar-se.

A situação da classe mediana, os rendeiros-livres, como lhes chamavam, a quem a lei e o espírito da Constituição inglesa concediam independência da tirania feudal, era agora verdadeiramente precária. Se, como era frequente, se colocavam sob a protecção de algum reizinho das vizinhanças, ocupando posições dentro da engrenagem feudal do paço, a ele se prendendo por laços de tratados de aliança e protecção mútuas, ou apoiando-os nos seus empreendimentos, conseguiam, por vezes, um repouso temporário, obtido claro é, com o sacrifício da independência pessoal, sempre tão arraigada no íntimo de todos os ingleses, e sujeitando-se ao perigo de se verem envolvidos, como elementos de qualquer irreflectida expedição para a qual a ambição dos seus protectores os arrastasse. Por outro lado, era tanta e tão variada a capacidade de humilhação e opressão de que os grandes fidalgos gozavam, que nunca conseguiam pretextos e raramente a força de vontade para importunar mesmo quando à beira da própria destruição, os seus menos poderosos vizinhos que tentassem fugir à sua autoridade procurando protecção contra os perigos do tempo numa conduta inofensiva nas leis da terra.

Uma das causas que grandemente concorriam para o aumento da tirania da nobreza e sofrimento das classes inferiores advinha das consequências da conquista, pelo duque Guilherme, da Normandia. Quatro gerações não tinham sido bastantes para ligar os sangues incompatíveis de Normandos e Anglo-Saxões, ou, mesmo: para unir, por uma língua única e interesses comuns, duas raças hostis, uma das quais ainda vibrava com a altivez da vitória, enquanto a outra prosseguia gemendo sob o peso da derrota. Como resultado da batalha de Hastings (1066) o poder passara totalmente para as mãos da nobreza normanda, mãos que, como nos contam os livros de história, não o empregavam com muita moderação. Toda uma geração de príncipes e nobres saxões fora extirpada. ou deserdada, com poucas ou nenhumas excepções, da mesma forma que poucos eram os das classes logo abaixo deles e das mais inferiores ainda que possuíssem, como proprietários, terras no país dos seus pais. A política real fora, desde sempre, a de enfraquecer por quaisquer meios uma parte da população que era vista, e com realismo, como sentindo a maior das antipatias para com o seu vencedor. Todos os monarcas de raça normanda continuadamente evidenciaram a mais marcada das preferências pelos seus súbditos normandos. As leis da caça, um exemplo entre muitos, e outras, igualmente desconhecidas pela menos rigorosa e de espírito mais aberto Constituição saxónica, haviam sido carregadas ao serviço do povo já subjugado, acrescentando-lhes mais peso ainda às correntes feudais que já arrastavam. Na corte e nos castelos dos grandes nobres, que imitavam a pompa e a forma de agir dos cortesãos, o francês da Normandia era a única língua a ser utilizada. Nos tribunais, nos debates e nos julgamentos empregava-se também o mesmo idioma. Resumindo, o francês era a fala da honraria, da cavalaria e até da justiça, enquanto o mais masculino e expressivo anglo-saxão fora deixado para uso de rústicos e bisonhos labregos que mais não sabiam. No entanto, a necessidade de inevitáveis contatos entre os senhores da terra e os oprimidos seres inferiores que as cultivavam já começavam a levar à gradual criação de um dialecto feito duma mistura de francês e anglo-saxão, através do qual se iam entendendo uns com os outros. Seria a partir desta mesma necessidade que, lentamente, se formaria a estrutura da nossa língua actual, o inglês, onde os falares dos vencedores e vencidos, em harmoniosa fusão, se entrelaçaram, enriquecendo-se depois com aquisições aos idiomas clássicos e às línguas europeias do Sul». In Walter Scott, Ivanhoe, 1819-1820, Publicações Europa-América, colecção Livros de Bolso, 1985, ISBN 978-972-101-237-0.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, Literatura, Walter Scott, A Arte,

O Pirata. Walter Scott. «Mas uma rocha do deserto da Arábia não mostra mais repugnância em fornecer água do que o senhor Basil Mertoun tinha em conceder a sua atenção mesmo a objectos quase indiferentes…»

 

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O Estranho Desejo do Homem Estranho

«Aquela ilha comprida, estreita, irregular, vulgarmente chamada Mainland, isto é, o continente das ilhas Setland, porque é a maior do arquipélago, termina num rochedo de terrificante altura, como muito bem o sabem os marinheiros habituados a navegar nos mares tempestuosos que cercam a Tule dos antigos. O rochedo, chamado cabo de Sumburgh, opõe o seu cabeço nu e os seus flancos estéreis aos embates de uma corrente terrível e forma no lado sueste a extremidade da ilha. Este promontório elevado está permanentemente exposto às vagas de um mar furioso que, partindo de entre as Órcades e as ilhas Setland, e rolando com uma força que não cede senão à do frith (Braço de mar; também significa foz de rio) de Pentland, toma o seu nome do cabo de que acabamos de falar, e chama-se o roost de Sumburgh; sendo roost a palavra com a qual se designam nestas ilhas as correntes de tal espécie.

Do lado da terra, este promontório acha-se coberto de uma relva curta, e desce rapidamente até um pequeno istmo que o mar recortou de angras, as quais, avançando de ambos os lados, parece tenderem a operar progressivamente uma junção e a fazer deste cabo uma ilha, que se tornará então um rochedo solitário, inteiramente separado do continente de que é hoje a extremidade. Nos tempos antigos, encarava-se esta hipótese como inverosímil ou muito distante; pois um chefe norueguês, ou, segundo outras tradições, e como o nome Jarlshof (baía do conde) parece indicar, um antigo conde das Órcades, escolhera esta língua de terra para nela construir o seu castelo. Há muito tempo que está abandonado, e é com dificuldade que se pode aperceber alguns vestígios; porque as areias movediças, levantadas pelos furacões destas paragens, fecundas em temporais, cobriram e quase soterraram as ruínas das edificações. Mas no fim do século XVII existia uma parte do castelo do conde ainda habitável. Era um edifício de arquitectura grosseira, construído de pedra branda, nada oferecendo que pudesse satisfazer o olhar ou excitar a imaginação. Um vasto e antigo solar, coberto por um telhado de placas de ardósia, seria talvez o que desse ao leitor dos nossos dias a imagem mais justa desse edifício. As janelas, pouco numerosas e baixas, distribuíam-se sem o mínimo respeito pelas leis do equilíbrio. Construções menores, dependências do castelo, contendo oficinas ou compartimentos destinados à corte do conde, tinham sido outrora contíguas do corpo principal; mas acabaram por cair em ruínas. Serviram-se das traves para alimentar o lume ou para outros usos; as paredes derruíram em muitos lugares, e, para completar a devastação, a areia, penetrando no que outrora fora compartimentos, formava uma camada de dois ou três pés de espessura.

No meio desta desolação, os habitantes de Jarlshof tinham conseguido, com um trabalho persistente, conservar em bom estado algumas leiras de terra, que rodearam de um cercado para formar um jardim; e como as muralhas do castelo protegiam este terreno dos temíveis ventos do mar, medrava a vegetação que o clima era susceptível de produzir, ou, para melhor dizer, aquela que os ventos permitiam vegetar; porque se sofre nestas ilhas um frio menos vigoroso que na Escócia; mas, sem o abrigo de um muro, é quase impossível obter da terra os legumes mais vulgares; e quanto a árvores, e mesmo arbustos, não se pensa nisso, tão terrível é a passagem dos furacões. A pouca distância do castelo, e perto do mar, precisamente no lugar onde a angra forma uma espécie de porto imperfeito, no qual se vêem três ou quatro barcos de pescadores, erguem-se algumas cabanas miseráveis, moradia dos habitantes do lugarejo de Jarlshof, que pagam renda ao senhor da totalidade daquele senhorio nas condições habituais, condições assaz duras, como se pode imaginar. Este senhor habitava no domínio que possuía em local mais favorável, num outro território desta ilha, e só raramente visitava as suas propriedades de Sumburgh. Era um bom setlandês, simples, honesto, um pouco exaltado, em consequência da vida que levava entre gente que dependia dele, e amando um tanto demasiado os prazeres da mesa, o que se pode talvez atribuir ao excesso de ócios, mas era cheio de franqueza, bom e generoso para todos e cumpridor dos deveres de hospitalidade para com os estrangeiros. Descendia de uma antiga e nobre família da Noruega, circunstância que o tornava mais querido das classes inferiores, entre as quais quase todas as pessoas têm a mesma origem, ao passo que os lairds, ou proprietários, são em geral de raça escocesa, e nessa época ainda os consideravam estrangeiros ou intrusos. Magnus Troil, cuja genealogia remontava ao suposto conde fundador de Jarlshof, era desta opinião. Os que então viviam no lugarejo de Jarlshof tinham experimentado, em várias ocasiões, a benemerência do proprietário do seu território. Quando o senhor Mertoun, tal era o nome do homem que ocupava agora a velha casa, chegou às ilhas Setland, alguns anos antes da época em que começa esta história, recebera em casa de Magnus Troil o mesmo agasalho sincero e cordial que dá a esta região um carácter particular. Ninguém lhe perguntou de onde vinha, para onde ia, com que intuitos viera àquele canto remoto do império britânico, ou quanto tempo tencionava ali permanecer. Era completamente desconhecido de todos e, no entanto, foi logo cumulado de inúmeros convites. Encontrou um domicílio em cada casa onde ia fazer uma visita, podia lá ficar o tempo que lhe aprouvesse, e vivia como se fizesse parte da família, sem lhe exigirem nenhuma atenção especial e sem ele próprio se tornar alvo da dos outros, até que entendesse deslocar-se para outro lado. Esta aparente indiferença dos bons ilhéus pela categoria, o carácter e as qualidades do seu hóspede, não se originava na apatia, pois eles possuíam também a curiosidade natural do homem; mas a sua delicadeza tomaria por falta às leis da hospitalidade o fazer-lhe perguntas às quais lhe fosse talvez difícil ou desagradável responder, e, em vez de procurarem, como é uso em outros países, arrancar ao senhor Mertoun confidências que ele faria a custo, os circunspectos setlandeses contentavam-se em recolher avidamente as escassas informações que lhes poderia fornecer o curso da conversação.

Mas uma rocha do deserto da Arábia não mostra mais repugnância em fornecer água do que o senhor Basil Mertoun tinha em conceder a sua atenção mesmo a objectos quase indiferentes; a boa sociedade de Tule nunca vira a sua delicadeza sujeita a tão rude prova como ao recordar-se de que a etiqueta a proibia de fazer perguntas a um personagem tão misterioso. Tudo o que então se sabia dele podia resumir-se em poucas palavras. O senhor Mertoun chegara a Lerwick, que principiava a tomar alguma importância, mas que ainda não se reconhecia como primeira cidade da ilha, num navio holandês, apenas acompanhado de seu filho, um belo rapaz de catorze anos aproximadamente. Ele teria uns quarenta e tantos. O dono do navio apresentou-o a alguns dos seus bons amigos, com os quais tinha por hábito trocar genebra e pão de mel por bois das ilhas Setland, patos fumados e meias de lã de cordeiro, e embora Meinheer nada pudesse dizer a seu respeito, a não ser: Meinheer Mertoun pagou a sua passagem como um gentleman e deu um dólar de gorjeta à tripulação esta recomendação bastou para proporcionar ao passageiro do barco holandês um círculo respeitável de relações, e este círculo alargava-se à medida que se reconhecia no estrangeiro talentos e conhecimentos pouco comuns». In Walter Scott, O Pirata, 1822, tradução de Mário Domingues, 2ª edição, Edição Romano Torres, Lisboa, 1953-1956, Obras Escolhidas de Autores Escolhidos, nº 21.

Cortesia de ERomanoTorres/JDACT

JDACT, Walter Scott, Literatura, Século XIX, Cultura, A Arte,

segunda-feira, 22 de março de 2021

A História Secreta do Ocidente. Nicholas Hagger. «A rebelião cátara contra a Igreja Católica retomou o Maniqueísmo dualista. O dualismo vê e descreve o Universo e a criação em termos de um conflito de opostos: Luz e Trevas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esse método trará à tona a influência de organizações secretas na dinâmica revolucionária de cada revolução e mostrará que as organizações secretas usaram a revolução como força motriz da moderna história ocidental com o objectivo de chegar a uma sociedade melhor. Revelará também que as utopias revolucionárias têm a infeliz propensão de terminar em massacre e que todas as revoluções fazem parte de um único movimento revolucionário mundial, comprometido com a criação de um governo mundial. Em todas essas revoluções, a mudança parece vir de dentro da própria nação. No entanto, sem excepção, todas foram geradas de fora, por organizações secretas localizadas além das fronteiras de cada nação. Sem excepção, todas essas revoluções foram tramadas e financiadas no exterior. Será que há conspiradores e financiadores recorrentes? Há um padrão? Quais são as organizações secretas que conceberam e orquestraram as revoluções do passado? Será que todas as revoluções a partir de 1776, de 1453, na verdade, têm uma fonte de inspiração comum? Algumas de nossas conclusões serão surpreendentes e os leitores são aconselhados a não tomar partido antes de assimilar o quadro inteiro, todas as evidências (corroborativas e circunstanciais) que serão expostas ao seu exame, para não formar opiniões apressadas demais. Em todas as nossas revoluções veremos que a visão oculta (literalmente escondida da Igreja e portanto herética) degenera no momento em que é transposta para a realidade física. Vezes seguidas, encontraremos, lado a lado, uma visão nobre do homem e um arsenal de execução sistemática, como por exemplo a guilhotina. Parece que uma visão idealista, que é utópica e contrária a uma determinada classe social, contém em si um lado obscuro, que alcança seus fins matando e é inspirada pelo lado sombrio da psique humana. Como veremos, a visão utópica e o massacre são igualmente trazidos pelas organizações secretas inspiradoras das revoluções. As raízes da Nova Ordem Mundial podem ser encontradas no desmantelamento da velha Europa Católica, e é a Reforma e o seu efeito sobre o mundo elisabetano que examinaremos primeiro, uma revolução que influenciou utopistas nos 550 anos seguintes.

A Revolução Protestante

Os merovíngios tinham uma Doutrina Secreta (também chamada de Grande Plano) que reivindicava em parte a criação de um Trono Universal na Europa [...]. O ocupante do Trono Universal deveria [...] possuir a Lança do Destino; [...] e também ser o Sagrado Imperador Romano; e [...] ter o título de Rei de Jerusalém [...]. O Plano começou..., depois que o Priorado de Sião se separou oficialmente dos Templários em 1188 [...]. Os merovíngios planeavam diminuir a influência da Igreja através de [...] uma tradição clandestina [...] que encontrou expressão no pensamento hermético e esotérico, como nas sociedades secretas rosa-crucianas e franco-maçónicas.

Tomada como um todo, a Reforma, que durou de 1453 a 1603 e foi um movimento muito mais religioso do que político e social, se resumiu numa revolução contra o Papado com o objectivo de reformar a Igreja. Buscava transformar todos os europeus em protestantes, que desprezariam a Igreja corrupta. Para entendê-la plenamente, temos que buscar a sua origem nos cátaros, que resistiram ao Papado nas suas fortalezas no sul da França, sendo esmagados por forças papais no século XIII. E também em Mani, o fundador do Maniqueísmo no século III d.C.: influenciado pelo cabalismo, ele inspirou a visão cátara.

A Revolução Cátara

A rebelião cátara contra a Igreja Católica retomou o Maniqueísmo dualista. O dualismo vê e descreve o Universo e a criação em termos de um conflito de opostos: Luz e Trevas, forças da Luz e forças das Trevas, bem e mal. O dualismo herético iraniano do século III d.C., o Zoroastrismo, ensinava que as Trevas eram um Demiurgo responsável pela criação material, incluindo o homem. Ele tinha os próprios Anjos das Trevas, demónios que podiam ser invocados e aplacados com a aplicação das leis de Ahriman, o deus iraniano das Trevas, ou pela magia, um nome que vem dos magos zoroastristas. As trevas eram cocriadoras e havia, assim, dois criadores. Com isso, a unidade do conhecimento espiritual era abalada e o mal era exaltado. Nesse mundo dualista (como ele o via) surgiu o líder maniqueísta Mani, o Iluminador, o Apóstolo da Luz, para ensinar regras ascéticas aos Eleitos que combateriam as Trevas». In Nicholas Hagger, A História Secreta do Ocidente, 2005, Editora Cultrix, 2011, ISBN 978-853-161-103-2.

Cortesia de ECultrix/JDACT

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Ken Follett. As Espias do Dia D. «A missão de Dieter era identificar os alvos que mais precisavam de defesa no sector das comunicações e avaliar até que ponto a Resistência era capaz de atacá-los»

Cortesia de wikipedia e jdact

28 de Maio de 1944

«(…) Hoje, no entanto, Stéphanie fazia parte do seu disfarce. Ele estava ao serviço de Rommel. O marechal de campo, também conhecido como a Raposa do Deserto, agora comandava o Grupo de Exércitos B das forças alemãs, responsável pela defesa dos territórios ocupados no norte da França. Segundo informações dos agentes de inteligência alemães, os Aliados tentariam uma invasão ainda naquele Verão. Rommel não dispunha de um contingente grande o bastante para proteger as centenas de quilómetros da vulnerável costa normanda, por isso havia adotado a arriscada estratégia da mobilidade: embrenhadas no interior, suas tropas precisavam estar sempre de prontidão para serem deslocadas de forma ágil quando necessário. Os ingleses sabiam disso. Também tinham o seu serviço de inteligência. Para eles, o plano era o seguinte: atrasar os deslocamentos de Rommel destruindo as linhas de comunicação controladas pelo marechal. Noite e dia os bombardeiros ingleses e americanos vinham atacando rodovias e ferrovias, pontes e túneis, estações e pátios de manobra. A Resistência, por sua vez, explodia usinas e fábricas, descarrilava comboios, cortava linhas telefónicas, instruía jovens a despejar terra nos tanques de combustível dos caminhões e blindados alemães.

A missão de Dieter era identificar os alvos que mais precisavam de defesa no sector das comunicações e avaliar até que ponto a Resistência era capaz de atacá-los. Ao longo dos últimos meses, saindo da sua base em Paris, ele percorrera todo o norte da França, soltando os cachorros para cima das sentinelas que encontrava dormindo, infundindo terror nos capitães que demonstravam algum sinal de preguiça, redobrando as medidas de segurança nos pátios ferroviários, nas garagens de veículos, nas torres de controle dos aeroportos e nas cabines de sinalização das ferrovias mais importantes. Naquele dia em particular, ele estava fazendo uma visita-surpresa a uma central telefónica estratégica e de importância vital para as forças alemãs. Por ali passava todo o tráfego telefónico entre o alto comando de Berlim e as inúmeras unidades espalhadas pelo norte da França. Isso incluía as mensagens de telex, meio pelo qual a grande maioria das instruções vinha sendo enviada nos últimos tempos. Se aquela central fosse destruída, as comunicações alemãs ficariam gravemente comprometidas.

Os Aliados, claro, sabiam disso. Até já haviam tentado bombardear o lugar e obtido relativo sucesso na investida. Aquele castelo era o mais perfeito candidato a um ataque da Resistência. No entanto, as medidas de segurança nele adoptadas eram imperdoavelmente frouxas, pelo menos a seus olhos. A explicação talvez residisse na má influência exercida pela Gestapo, que tinha ali um posto avançado. A Geheime Staatspolizei, ou Gestapo, era a polícia secreta do governo nazista e, nela, muitas vezes as pessoas eram promovidas não pela sagacidade, mas pela lealdade que demonstravam a Hitler ou pelo entusiasmo com que abraçavam o ideário fascista. Dieter estava furioso. Fazia meia hora que estava ali, fotografando o castelo, e até então nenhum dos guardas sequer notara a sua presença. No entanto, assim que os sinos pararam de tocar, um oficial com farda de major irrompeu dos portões altos do castelo e foi correndo na direção dele, berrando num francês capenga: entregue essa câmera! Dieter virou o rosto, fingindo não ouvir. É proibido tirar fotos do castelo, imbecil!, berrou o homem. Não está vendo que é uma instalação militar? Voltando-se para ele, Dieter respondeu calmamente em alemão: você demorou uma eternidade para me ver. O major ficou surpreso. Civis costumavam ter medo da Gestapo. Como assim, demorei?, disse, já menos agressivo. Dieter olhou para o relógio, depois completou: faz 32 minutos que estou aqui. Poderia ter tirado uma centena de fotos e ido embora há muito tempo. É você que está na chefia da segurança? Quem é você, afinal?, devolveu o outro. Major Dieter Franck, do estado-maior do marechal de campo Rommel. Franck!, exclamou o homem. Eu me lembro de você. Dieter o observou com mais atenção. Meu Deus, disse, assim que se deu conta. Willi Weber. Como a maioria dos homens da Gestapo, Weber possuía uma patente da SS, que para ele era bem mais respeitável do que a outra que ele tinha da polícia. Por isso, ressaltou: Sturmbannfuehrer Weber, a seu dispor. Ora, ora, quem diria..., falou Dieter. Não era à toa que a segurança estava tão fraca, pensou». In Ken Follett, As Espias do Dia D, 2001, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978- 858-041-410-3.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Ken Follett, Literatura, II Guerra Mundial,

As Espias do Dia D. Ken Follett. «Dieter não tinha nenhum pudor de recorrer à tortura quando julgava necessário, mas preferia dobrar seus interrogados com métodos mais subtis, os mesmos que usara com Stéphanie»

Cortesia de wikipedia e jdact

28 de Maio de 1944

«(…) Alguns minutos antes, o alemão dera um susto em Flick ao pedir a ela que o fotografasse ao lado da companheira, com o castelo ao fundo. O pedido fora feito com delicadeza, um sorriso simpático e apenas um leve sotaque. Para Flick, era um martírio ter de lidar com aquela distracção num momento tão importante, mas uma recusa poderia levantar suspeitas, ainda mais sendo ela, supostamente, uma moradora da região que não tinha nada para fazer além de bebericar seu vinho na varanda de um bar. Assim sendo, ela respondera exactamente como uma francesa legítima teria feito, isto é, trazendo ao rosto uma expressão de frieza e indiferença antes de aquiescer. Aquele era um momento absurdo, um momento de pânico: a agente secreta britânica fotografando o oficial alemão e sua mariposa, ambos sorrindo, enquanto o sino da igreja contava os segundos para a explosão. O alemão agradecera e se oferecera para lhe pagar um drink. Flick havia recusado com firmeza: nenhuma francesa podia beber com um alemão a menos que estivesse preparada para ser chamada de pu… O homem assentira de forma compreensiva e ela voltara para o lado do marido.

Embora parecesse estar num dia de folga e não desse a impressão de estar armado, portanto não representasse perigo imediato, o oficial despertara em Flick uma incómoda sensação de desconfiança. Reflectindo melhor naqueles últimos instantes de calma, ela chegara à conclusão de que o homem definitivamente não estava ali a turismo. Percebia-se nele um permanente estado de alerta, uma prontidão que não combinava com alguém que estava ali apenas para admirar arquitectura. A mulher talvez fosse o que parecia ser, mas ele, não. Ele era outra coisa. Antes que ela pudesse definir o quê, o sino parou de tocar. Michel terminou sua cerveja e secou a boca com as costas da mão. Ele e Flick se levantaram. Procurando aparentar naturalidade, dirigiram-se para a porta do bar e lá ficaram, abrigando-se sem chamar a atenção.

 

Dieter Franck havia notado a moça na varanda do bar assim que chegara à praça. Sempre notava as moças bonitas. Aquela em particular era uma bela amostra de sex appeal. Os cabelos eram de um louro acinzentado, os olhos, verde-claros e o sangue decerto tinha algo de alemão, o que não era raro naquela parte da França, tão próxima à fronteira com a Alemanha. O vestido que cobria o corpo miúdo não era lá muito diferente de um saco de linhagem, mas a moça acrescentara à composição uma echarpe amarela que, apesar do algodão barato, lhe dava um charme tipicamente francês. Ao abordá-la, ele havia percebido aquela centelha de medo que os franceses costumavam exibir diante dos algozes alemães; mas depois, imediatamente depois, notara uma expressão muito mal disfarçada de afronta que despertara seu interesse. Ela estava acompanhada de um homem boa-pinta e um tanto indiferente que decerto era o marido. Dieter solicitara a foto apenas porque queria falar com ela. Era casado, tinha dois filhos lindos em Colónia e hospedava Stéphanie no apartamento que mantinha em Paris, mas nada que o impedisse de abordar outra mulher na rua. Mulheres bonitas eram como os quadros impressionistas que ele coleccionava: possuir um não o impedia de desejar outros tantos.

As francesas eram as mulheres mais lindas do mundo. Mas tudo na França era bonito: as pontes, os bulevares, até mesmo os aparelhos de jantar feitos de porcelana. Dieter adorava as boites parisienses, o champanhe, o foie gras, as baguetes quentinhas. Adorava comprar suas camisas e gravatas na famosa Charvet defronte ao hotel Ritz. Ficaria feliz em poder morar em Paris para sempre. Ele não sabia onde havia adquirido gostos tão refinados. Seu pai era professor de música, a única forma de arte em que os alemães, e não os franceses, eram os mestres absolutos. Mas Dieter não tinha a menor vocação para a aridez da vida académica do pai e deixara a família horrorizada ao decidir entrar para a polícia, um dos primeiros universitários na Alemanha a fazê-lo. Por volta de 1939 já chefiava o Departamento de Investigações Criminais da polícia de Colónia. Em Maio de 1940, quando os tanques do general Heinz Guderian atravessaram o rio Mosa na altura de Sedan e abriram caminho de forma triunfal através da França até ao canal da Mancha em apenas uma semana, Dieter cedera a um impulso e se candidatara a um posto no Exército. Em vista da sua experiência na polícia, imediatamente fora colocado na inteligência. Falava francês fluente, além de um pouco de inglês, e por isso fora incumbido de interrogar os inimigos capturados. Tinha um talento especial para a tarefa e sentia um grande orgulho sempre que conseguia extrair alguma informação que contribuía para a vitória do seu país em alguma batalha. Sua eficiência chegara aos ouvidos de ninguém menos do que o marechal de campo Erwin Rommel, no norte da África.

Dieter não tinha nenhum pudor de recorrer à tortura quando julgava necessário, mas preferia dobrar seus interrogados com métodos mais subtis, os mesmos que usara com Stéphanie. Esperta, elegante e sensual, Stéphanie fora proprietária de uma chapelaria que vendia chapéus femininos dos mais chiques de Paris, e também dos mais caros. Mas tinha uma avó judia. Já havia perdido a sua loja e passara seis meses numa prisão francesa quando, prestes a ser transferida para um campo na Alemanha, fora resgatada por Dieter. Ele poderia ter estuprado a chapeleira se quisesse. Na certa era o que ela esperava de um oficial alemão. Ninguém teria erguido a voz para protestar, muito menos exigido algum tipo de punição. Mas, em vez disso, ele alimentara a moça, comprara roupas novas para ela, lhe dera o quarto extra que tinha no apartamento, tratando-a com carinho e respeito até que, certa noite, após um jantar de foie de veau com uma garrafa de La Tache, ele a havia seduzido deliciosamente no sofá da sala, diante das chamas de uma lareira». In Ken Follett, As Espias do Dia D, 2001, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978- 858-041-410-3.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

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