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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). Ilídio Amaral. «Isabel Barreto casou com Fernando Castro, sobrinho do governador Luis Perez Mariñas, que, como era hábito, tomou conta de tudo o que pertencia à esposa»

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Viagens e descobertas de ilhas no Sul do Pacífico a mando da Coroa Espanhola, em tempos da decadência do seu Império
«(…) A sua viúva, Isabel Barreto, que viajara com ele, tendo assumido a chefia da expedição, acabou por concordar que não havia condições para prosseguir na ilha e a 18 de Novembro a frota deixou a baía Graciosa rumando para as Filipinas Na viagem perderam-se barcos e vidas tragados pelo mar, incluindo a fragata que transportava o esquife com o corpo do marido, que Isabel Barreto fizera desenterrar, e apenas uma nau, a São Jerónimo, chegou a Manila no dia 11 de Fevereiro de 1596, em muito mau estado. Tal como da primeira viagem nada foi trazido com valor económico que ao menos pudesse compensar uma parte dos gastos elevados da expedição. Além de um breve relato de Queirós sobre a expedição de Mendaña, numa carta que ele dirigiu a Antonio Morga Sanchez Garay (1559-1636), governador das Filipinas e por este publicada na sua obra Sucesos de las islas Filipinas,1609, 2 volumes, com edição mais recente de 2010, há a notícia mais extensa produzida por Christoval (ou Cristóbal) Suarez Figueroa (1571-c.1644) em Hechos de don Garcia Hurtado Mendoza, marques de Cañete, 1613, com edição mais recente de 2006. Algum tempo depois de chegados a Manila, Isabel Barreto casou com Fernando Castro, sobrinho do governador Luis Perez Mariñas (no cargo entre Dezembro de 1593 e Julho de 1596), que, como era hábito, tomou conta de tudo o que pertencia à esposa.
Pedro Fernandes Queirós conseguiria embarcar num navio para Acapulco onde desembarcou a 11 de Dezembro de 1597 e, em navios de cabotagem e por terra, chegou a Lima no dia 5 de Junho de 1598, sendo bem recebido pelo Vice-Rei a quem relatou os descobrimentos de ilhas e os acontecimentos da viagem em que participara e solicitou meios, sobretudo um navio de 60 toneladas e 40 marinheiros para descobrir novas terras que havia de achar naqueles mares. O Vice-Rei, perante a grandiosidade do projecto e dos seus valiosos encargos financeiros, preferiu responder que não tinha delegação real para satisfazer tal pedido e aconselhou-o a viajar até Madrid para, junto do Rei, obter o que necessitava, dando-lhe cartas de recomendação para várias personalidades do Reino. Queirós, partiu de Callao a 17 de Abril do ano seguinte, por via marítima, até ao Panamá, daqui por terra a Puerto-belo, novamente por mar até Cartagena, depois Habana, e num combóio de barcos carregados de prata fez a travessia do Atlântico, para chegar a Sanlúcar a 25 de Fevereiro de 1600, um dia assinalado com con estruendo de artilleria y música de instrumentos. De Sanlúcar foi para Sevilha.
Queirós encontrou o Reino em grave crise económica e social. Entre 1580 e 1600, o império gigantesco de Filipe II (falecido em 1598, sendo rei de Espanha e Portugal desde 1580), herdado, em grande parte, de seu pai o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germano, rei Carlos I de Castela, na península Ibérica juntava ainda Aragão, Catalunha, Navarra, Valência e Portugal; fora dela, na Europa, Rossilhão, Franco-Condado, Países Baixos, Sicília, Sardenha, Milão e Nápoles; na Africa, Orão, Tunes e as possessões portuguesas; no Oriente, o império português; nas Américas, todas as partes então descobertas; e no Pacífico, as Filipinas e outras ilhas. Se o império de Carlos V, visto por muitos como um império universal era, ao-fim e ao-cabo, um império europeu que tinha uma extensão americana cada vez mais importante, o do seu filho adquire características de um império genuinamente transcontinental e transoceânico». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas […]), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). Ilídio Amaral. «Richard Hawkins foi derrotado e aprisionado em 1 de Julho de 1594 na Baía de São Mateus, na foz do rio das Esmeraldas. Em 1595 já estava em Lima…»

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Viagens e descobertas de ilhas no Sul do Pacífico a mando da Coroa Espanhola, em tempos da decadência do seu Império
«(…) Criava-se assim a história do oceano Pacífico, que muitíssimo mais tarde viria a ser apelidado de grande Lago espanhol por Oskar Spate no seu livro de 1972. Ele teve a sua plenitude quando Espanha e Portugal estiveram unidas sob a mesma coroa, a partir de Felipe II em 1580 até Filipe IV em 1640, podendo-se dizer que o primeiro período de exploração ibérica do sul do Pacífico começou com a viagem de Fernão Magalhães-Sebastian El Cano, atingiu o auge com a colonização das Filipinas e o estabelecimento das viagens regulares dos galeões de Manila, e chegou a um fim simbólico em 1606 com a segunda viagem de Pedro Fernandes Queirós. Depois disso a presença imperial espanhola no Pacífico quase se reduziu a manter a viabilidade da rota Acapulco-Manila-Acapulco e das rotas costeiras entre os vice-reinos da Nova Espanha e do Peru. A primeira era muito importante porque as mercadorias, sobretudo as de maior valor, eram transportadas por terra de Acapulco até Vera Cruz no litoral continental leste e daqui por carreiras do Atlântico até à Metrópole espanhola.
Pedro Fernandes Queirós na sua primeira viagem esteve nas quatro ilhas mais meridionais do arquipélago das Marquesas e na de Santa Cruz, a maior do arquipélago do mesmo nome a sul-sueste das ilhas Salomão e a norte das ilhas Vanuatu, numa frota de quatro navios, comandada por Álvaro Mendaña y Neyra, com a categoria de Adelantado, que transportavam cerca de 350 pessoas, das quais muitos eram soldados ou homens que podian pelear, e as restantes futuros colonos, incluindo 107 mulheres, crianças e artífices diversos, para a fundação de uma colónia nas ilhas Salomão. Saída de Payta a 17 de Junho de 1595, depois de escalas em diversos portos do Peru para completar provisões e tripulações, a 21 de Julho a frota chegou ao grupo meridional das ilhas Marquesas, situadas a cerca de 10 graus sul, onde fez escala durante duas semanas.
Antes de prosseguir abro um espaço para recordar que a missão foi decidida depois da derrota de Richard Hawkins, um dos corsários ingleses que perturbavam a presença espanhola no Pacífico, assaltando e destruindo cidades e barcos no litoral ocidental da América do Sul. Richard Hawkins foi derrotado e aprisionado em 1 de Julho de 1594 na Baía de São Mateus, na foz do rio das Esmeraldas. Em 1595 já estava em Lima, quando Álvaro Mendaña iniciou a sua viagem, em 1596 no Panamá, a caminho de Espanha onde continuou aprisionado, primeiramente em Sevilha e depois em Madrid. Em 1602 foi libertado, podendo então regressar ao seu país onde recebeu o grau de cavaleiro e viria a desempenhar cargos importantes.
Entretanto, Filipe II, numa carta datada de 21 de Janeiro de 1594 dirigida ao Vice-Rei do Peru, García Hurtado Mendoza y Manrique, marquês de Cañete, já lhe recomendara que fossem feitas novas descobertas e fundadas colónias que assegurassem a posse das terras pela Coroa. Assim no ano seguinte o Vice-Rei preparou a expedição comandada por Álvaro de Mendaña com o objectivo de fundar uma colónia na ilha de São Cristóvão, no arquipélago de Salomão, que ele descobrira 28 anos antes. A 8 de Setembro foi a vez de paragem numa baía baptizada como Graciosa na ilha Nendo, a maior do arquipélago que recebeu o nome de Santa Cruz, e Mendaña decidiu criar aí a colónia, uma vez reconhecida a dificuldade de reencontrar as ilhas Salomão onde ele estivera em 1568. O projecto fracassou inteiramente. No curto período de cerca de dois meses de tentativas de instalação dos colonos houve desavenças e crimes, motins, mortes por doença e por ataques dos ilhéus, e o próprio comandante faleceu a 18 de Outubro de 1596, supostamente de malária cerebral». ». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas […]), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

quinta-feira, 24 de março de 2016

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). Ilídio Amaral. «Em 1527 Diogo Ribeiro terminou o ‘Padrón Real’, o mapa oficial, mas secreto, usado como modelo nos mapas espanhóis e que é considerado o primeiro mapa-mundo»

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Viagens e descobertas de ilhas no Sul do Pacífico a mando da Coroa Espanhola, em tempos da decadência do seu Império
«(…) Vale à pena recordar algumas dessas representações, até porque é de crer que fossem conhecidas por Pedro Fernandes Queirós e por outros exploradores da sua época. Havia o mapa-mundo manuscrito de Juan la Cosa (1450-1510) datado de cerca de 1508; o planisfério de Orontius Finaeus Dophinus (1494-1555) publicado em 1519 e revisto em 1531; o planisfério e globos de Caspar Vopel ou Vopelius (1511-1561), produzidos em 1536, 1545, 1549 e 1552; o mapa-mundo de Sebastiano Caboto, ou Sebastián Caboto ou Cabot (cerca de 1474-1557) datado de 1544; os globos de François Demongenet de 1552 e 1560; o mapa-mundo de Abraham Ortelius (1527-1598), no atlas Theatrum Orbis Terrarum, impresso em 1570, e ainda Maris Pacifici de 1589, no qual a Nova Guiné aparece perfeitamente delineada como ilha, separada da Terra Australis de contornos ainda mal definidos; o Speculum Orbis Terrarum de Gerardus de Jode (1509-1591), de 1578 competindo com o atlas de Ortelius, e o Hemispherium als Aequinotiali Linea, ad Circulum Poli Antarctici de 1593; o planisfério de Gerard Kremer ou Gerardus Mercator (1512-1594), impresso em 1587; Cornelius de Jode (1568-1600) em 1593 retomou a publicação de Spectrum Orbis Terrae da autoria de seu pai Gerardus de Jode. De 1600 é o Maris Pacifici quod vulgo mar del zur cum regionibus circumincentribus, insulis in eodem passi sparsis, novíssima descriptio, do cosmógrafo Gabriel Tatton. É de recordar, igualmente, o mapa-mundo de 1529 produzido por Diogo Ribeiro, também conhecido por Diego de Ribero (?-1533), de origem portuguesa, trabalhando desde 1518 ao serviço da coroa espanhola na Casa de Ccontratação de Sevilha. Participou na preparação de cartas utilizadas na primeira viagem de circum-navegação feita por Fernão de Magalhães e Juan Sebastian El Cano e em 1523 foi nomeado mestre na arte de criar mapas, astrolábios e outros instrumentos. Em 1524 participou na delegação espanhola da Junta de Badajoz-Elvas que antecedeu o Tratado de Saragoça de 1529, o qual fixou o antemeridiano nas Molucas.
Em 1527 Diogo Ribeiro terminou o Padrón Real, o mapa oficial, mas secreto, usado como modelo nos mapas espanhóis e que é considerado o primeiro mapa-mundo de carácter científico, com base em observações empíricas da latitude. O mapa mostra o Pacífico e, relativamente às Américas, as costas desse extenso cordão continental norte-sul. Mas nem a Austrália nem a Antárctida aparecem nele. Diogo Ribeiro foi também o inventor de uma bomba de água de bronze capaz de bombear a água dez vezes mais rapidamente que os modelos anteriores. Vejamos um pouco do quadro geral do conhecimento da parte meridional do Pacífico. Desde que Vasco Núñez Balboa, depois de uma travessia difícil das montanhas cobertas por florestas densas do istmo do Panamá, viu o vasto oceano em 25 de Setembro de 1513 e o designou de Mar do Sul e que com a viagem de Fernão de Magalhães-Juan Sebastian El Cano passou a Oceano Pacífico, este constituiu um acontecimento importante para a história da humanidade, após a descoberta (?) da América em 1492 atribuída a Cristóvão Colombo. A primeira viagem de circum-navegação serviu para comprovar que se podia chegar a esse novo mar contornando a ponta mais meridional da América pelo sul, depois da travessia do Atlântico, e alcançar as terras do Extremo Oriente, das Molucas, da China e da Índia onde já tinham chegado os portugueses, depois de passarem pelo Atlântico e pelo Índico. Para a Espanha o Pacífico tornou-se ainda mais importante pelo facto da situação geopolítica da época interditar as rotas pelo Índico pois que este estava sob domínio da Coroa Portuguesa». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas […]), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). Ilídio Amaral. «A travessia do Pacífico por Fernão Magalhães e Juan Sebastian El Cano, por conta da Coroa Castelhana, em 1519-1522, reactualizou mitos, como o local de minas do rei Salomão»

Derrota de PedroFernandesQueirós
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Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«(…) Considerava-se um piloto excelente, tinha a sua empresa ou descoberta como a mais valiosa e não escondia quanto se orgulhava disso. E insistia que o rei financiasse, com urgência, o seu projecto porque dele teria muitos benefícios. Señor, al práctico no le es possible mostrar lo que ha de obrar; cuando se hallará en las ocasiones, ayúdeme V.M. en esta su obra, que es demasiadamente grande, y por ser de tanta honra y gloria de Dios, y a V.M. tan importante, es bien que V.M. la levante de una vez y muy de prisa, que la arte es larga, las vidas breves, la práctica muy difícil de adquirir, y mucho más los ánimos de conocer, y sin remedio los daños, de perderse las buenas ocasiones y el tiempo. É curioso notar como os dois descobridores, separados de um pouco mais de um século, usaram expressões muito semelhantes para descreverem o que viram, o que preferiram ver ou o que imaginaram ter visto:
  • são os casos de Pedro Fernandes Queirós (1565-1615), descobridor de ilhas numa parcela meridional do Pacífico, sem ter chegado a encontrar a Terra Australis, que era o objectivo da sua missão; 
  • e de Cristóvão Colombo (1451-1506), descobridor de ilhas próximas de uma parcela oriental do continente americano, sem ter encontrado as terras do Cipango, ou da Ásia, pelo ocidente, que era o objectivo da sua missão.
Cito alguns exemplos. Cristóvão Colombo na carta de 17 de Outubro de 1492 dirigida aos Reis Católicos, relativamente à ilha Fernandina escreveu o seguinte: Crean Vuestras Altezas que es esta tierra la mejor y más fértil y temperada y llana que haja en el mundo; as casas eram adentro muy barridas y limpas; ... de muchas poblaciones que yo vi […] las casas son de madera, las pertenencias muy limpias. Acerca de Jerusalém é evidente nos dois descobridores o espírito de cruzada. É uma das forças motoras da empresa de Colombo, como pode ser lido no final da sua carta de 26 de Dezembro de 1492: no regresso a Castela levaria hun tonel de oro que habrian rescatado los que habia de dejar y que habriam hallado la mina del oro y la especiara, y aquello en tanta cantidad que os reyes antes de tres años emprendiesen y aderezasen para ir a conquistar la Casa Santa […]; que toda la ganancia de esta empresa se gastase en la conquista de Jerusalén.

Viagens e descobertas de ilhas no Sul do Pacífico a mando da Coroa Espanhola, em tempos da decadência do seu Império.
A travessia do Pacífico por Fernão Magalhães e Juan Sebastian El Cano, por conta da Coroa Castelhana, em 1519-1522, reactualizou mitos, como o local de minas do rei Salomão, e velhas teorias medievais, como a existência da Quarta Pars Incognita. Até à ocupação das Filipinas em 1565 pela expedição colonizadora liderada por Miguel López Legazpi (1502-1572), o primeiro governador-geral das Índias Orientais Espanholas que incluíam Filipinas e alguns outros arquipélagos, como Guam e Marianas, e o estabelecimento da capital em Manila no ano de 1571, as navegações espanholas tinham-se circunscrito ao Pacífico setentrional e à descoberta de ilhas aí existentes, ainda que houvesse notícias que para o sul também haveria outros territórios insulares. Para os descobrir tiveram lugar as navegações empreendidas a partir do Vice-Reino do Peru no último terço do século XVI e primeiros anos do século XVII.
Entre 1567 e 1606 três expedições espanholas, todas elas partindo do porto de Callao da cidade de Lima, navegaram até aos confins ocidentais do Mar do Sul, descobriram numerosas ilhas e tiveram lugar os primeiros contactos de europeus com melanésios e polinésios. Dessas expedições as duas primeiras, em 1567-1569 e 1595, tiveram o comando de Álvaro Mendaña y Neyra. Na segunda Pedro Fernandes Queirós foi o piloto-mor. A terceira expedição, em 1605-1606, teve-o como comandante, sendo o seu segundo Luis Vaz Torres. O propósito era o da descoberta da mítica Terra Australis nondum incognita que alguns cartógrafos ilustres representaram nas suas cartas e globos». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas […]), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

sexta-feira, 20 de março de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). O Descobridor de ilhas. O Visionário de um continente cheio de riquezas. Ilídio Amaral. «… podendo comparar-se aos tres más insignes descubridores que ha habido en el mundo: Colón, Gama y Magallanes…»

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Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«(…) Pelas suas descobertas e visões sobre o que não descobrira Queirós comparava-se a Cristóvão Colombo, figura a que ele se referia muitas vezes. Concluída a viagem de 1605-1606, regressado a Espanha e mantido em Madrid, foi escrevendo Memoriales, sem ver atendidos os seus pedidos de meios para voltar ao Pacífico, para descobrir, de facto, o continente austral e levar gente para construir colónias e assim consolidar a posse dessas terras pela coroa e dilatar a fé cristã, sem tirar disso qualquer proveito económico pessoal. Por outro lado, seria a forma de evitar que ingleses e holandeses que já sulcavam os mares de uno y outro polo y que de levante a poniente han taladrado el mundo se lançassem na colonização das terras austrais. Queirós não percebia porque motivos lhe estavam a ser negados os meios que tinham sido dados a Colombo: pergunto cuánto vale un Colón y también pido la razón por qué mi causa pierde por mi, o por qué yo pierdo por ella (Memorial 41). Si a Cristobal Colón sus sospechas le hicieron porfiado, a mi (me) hace tan importuno lo que vi y 1o que palpe y lo que ofrezco, para lo qual mande V.M. que de tantos medios cuantos hay, se dé uno para que pueda conseguir lo propuesto, advirtiendo que en todo me hallarân a la razón y dare en todo satisfación (Memorial 24). Colón, para hacer su viage, fue despachado de Moguer, cuyos gritos desde ahi casi los pudieran oir los reyes, y de vuelta se desembarcó en España, sin tener más barrancos que saltar, y en ella fue con amor recebido, y brevemente despachado con gruesa armada de naos y gente, y las provisiones necesarias (Memorial 41). /.../ ... a Colón ni a los otros que en semejantes empresas se ocuparon no se les negarón, más antes se les dió para ello mucho más de lo que yo pido no para mi sino para servir a V.M., y no merezco menos (Memorial 31, datável de Janeiro de 1610). /… /… ... quiero decir que en este particular no reciba yo menos mercedes que las que se hizo a Colón, con todo cuanto varió (Memorial 53).
Queirós, ainda que por vezes se dissesse destituído de ambições de título e de fortuna e que agia somente para o aumento da glória da coroa castelhana ou espanhola e para a dilatação da fé cristã, em certos momentos não resistiu a solicitar ao rei que se me dé cédula de mi titulo de Gobernador y Capitán General, y outra cédula para que ministros de S.M., a donde quiera que llegar, no me impidan y todos me ayuden, y la cédula de los 6 mil ducados de mi ayuda de costa que se me deen aquí para desempeñarme (Memorial 36). No Memorial 44 voltou a fazer o mesmo pedido em termos idênticos: Falta-me el título de Gobernador y Capitán General que no puedo excusar, que si pudiera ir sin él no lo pidiera. E no seu Memorial 41 foi mais longe nas comparações: Alejandro y Ulisis, griegos, los fenícios, cartagineses y romanos y los otros que en aquelles tiempos pasados merecieron lauros, triunfos, estatuas y eternizados sus nombres por alargarse en caminos, entiendo que no pasaran del Indo o Ganges al oriente, ni de Hibernta al occidente, ni del Tanais al septentrion, y poco de la isla Meroe, en el Nilo, al mediodia, y esto con toda la comodiad /… /… ... y yo caminando por España y por ltalia, solo y arrimado a una caña, siguiendo mi pretensión y comiendo por principal frutas verdes y silvestres, y mojo y otras yerbas del campo, y muchas veces sin tenerlas en estas y otras partes, y la causa sin principio y sin valedor, y tantas las dificuldades halladas tras cada paso, que se hace increible entender que contra ellos porfié y se vencierón (gracias a Dios).
No Memorial 47, datável de Novembro-Dezembro de 1611, Queirós também se referiu a Vasco da Gama, comparando a sua experiência como navegante com a do homólogo português nos seguintes termos: Don Manuel, Rey de Portugal, hizo descubrir por tierca la India Oriental, y por la mar la costa de Africa hasta el Cabo de Buena Esperanza, y después armó naos, buscó, rogó y prometió las grandes mercedes que cumplió a Vasco de Gama, porque fuere a acabarla de descubrir. Yo Señor, no sé lo que Gama sabia de aquel menester, mas sé muy bien que tengo diez y siete años contínuos de experiencias vivas de solo en el caso de que trato, sem que isso lhe fosse reconhecido e recompensado com a confiança de uma nova missão. Em Memorial anterior, o número 28, lamentando o facto de em Madrid o obrigarem a estar tan malgastado de mi vida por protelarem as decisões acerca do seu projecto de ir descobrir as terras austrais acrescentaria que podendo comparar-se aos tres más insignes descubridores que ha habido en el mundo: Colón, Gama y Magallanes, contudo o tempo que eles tinham gasto e os caminhos que tinham percorrido valiam 12 anos e quinze mil léguas, enquanto ele percorrera 20 mil léguas, gastando 14 anos e meses. Portanto a sua causa não era inferior às deles». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas “en la parte Austral Incognita” e de Projectos para a sua colonização: quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). En la parte Austral Incognita. Projectos para a sua colonização. Quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI). Ilídio Amaral. «… tengo descubierto un Paraiso terrenal que deseo poblar de Angeles y de Santos y con ellos desde alli acabar de descubrir y saber de cierto lo que es todo aquel resto del mundo…»

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Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«(…) As suas reflexões sobre o que pode observar em quatro ilhas meridionais do arquipélago das Marquesas na viagem feita com Álvaro de Mendaña Neyra contribuíram, sem dúvida, para a elaboração de tal projecto. Em sua defesa foi de tal modo convincente que obteve os pareceres favoráveis de sábios notáveis que se debruçaram sobre o projecto e documentos por ele apresentados, numa reunião havida em Roma; a adesão do Embaixador de Espanha nessa cidade; a atenção do papa, Clemente VIII, que o recebeu e o ouviu, atentamente, e não só lhe prometeu todo o apoio como escreveu ao rei de Espanha, Filipe III, aconselhando-o a dar tudo o que Queirós precisava para a tal descoberta, demasiado importante para a Igreja católica e para a coroa espanhola. Filipe III, ultrapassando o Conselho de Índias, órgão de Estado com a competência dos assuntos relacionados com as Índias, ordenaria ao vice-rei do Peru que desse satisfação aos pedidos de Queirós e, caso excepcional, tudo por conta da Fazenda Real. A viagem de 1605-1606 com a descoberta e a observação de aspectos físicos e humanos de uma vintena ilhas e, particularmente, da Austrialia del Espiritu Santo, que Queirós imaginou ser a parte terminal de um esporão da Terra Australis (afinal uma ilha grande de um arquipélago), o conhecimento de representações idealísticas da parte austral incógnita propostas por vários cartógrafos ilustres abriram os caminhos para a construção das imagens descritas no seu Memorial ocho e também noutros enviados ao rei, da grandeza de las tierras nuevamente descubiertas habitadas por milhões de almas carecidas de receberem a religião cristã, libertando-as assim das unhas de Satanás, terras abundantes em tudo, desde os produtos alimentares, dos reinos vegetal e animal, às especiarias e às riquezas minerais, ouro e prata, e pérolas e muitas outras coisas de valor. Impressiona a forma coerente das descrições assentes no entrecruzamento da geografia com a história e a utopia. Esta sintetizada na seguinte expressão do Memorial 53: tengo descubierto un Paraiso terrenal que deseo poblar de Angeles y de Santos y con ellos desde alli acabar de descubrir y saber de cierto lo que es todo aquel resto del mundo.
Dos seus Memoriales o que recebeu o número 40, datável de Outubro de 1610 é, sem dúvida, o mais extenso e em escrita grandiloquente, que reúne tudo quanto Queirós quis transmitir ao rei, sobre o que viu e sobre o que imaginou, para conseguir que lhe fosse dada uma nova missão, depois da viagem de 1605-1606, para a ocupação e o povoamento (colonização) das Tierras Australes. Tudo era imensidão, bom e farto de produtos dos. três reinos da natureza, os habitantes eram fortes e belos prontos a receberem a Fé, tudo descrito com a exuberância de uma imaginação fértil com base no que pudera ver em partes de ilhas do sul do Pacífico, extrapolando para as míticas terras austrais ainda por descobrir. Se nos seus Memoriales escritos em Madrid, depois da missão de 1605-1606, reinam os pensamentos utópicos, em alguns relatos dessa expedição, sobretudo nos de reconhecida autoria do seu secretário Luís Belmonte Bermúdez, Queirós é retratado como um homem temeroso, mas também realista. Sirva de exemplo o Relato datável de Julho de 1606, que consta do Capítulo LXXII, intitulado Dicense los latimosos discursos que hiso el capitán y otros para mitigar el dolor que sintió por haber perdido el puerto ..., transcrito em Hist. Descubr., por Justo Zaragoza, na viagem de regresso às terras americanas: sem ter descoberto a Terra Australis, limitava-se a reconhecer que dejaba descubiertas tantas y tan buenas gentes y tierras, sin saber que fin tenían, y una buena bahia y tan buen puerto dentro en ella; [...] y que todo esto era princípio con muy grandes fundamentos para poblar y acabar de descubrir y saber todo cuanto aquellas tierras contienen». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas “en la parte Austral Incognita” e de Projectos para a sua colonização: quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). O Descobridor de ilhas. O Visionário de um continente cheio de riquezas. Ilídio Amaral. «… no regresso da viagem de 1595, arquitectou o projecto de fazer a descoberta da mítica “Terra Australis Incognita”, partindo do Peru, de Callao, porto da cidade de Lima»

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Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«Nascido em Évora em 1565, Queirós sabe-se muito pouco sobre as suas origens e nos seus escritos aparecem raríssimas referências à família, à infância e juventude, à formação escolar. É um homem enigmático. Prestadas por ele encontrei informações num dos seus relatos de viagens dos anos iniciais de 1600 referindo-se ao facto de ter encontrado em Caracas três sobrinhos, filhos de um irmão de quem não havia sabido em muitos anos e que teria casado e morrido aí; de uma lista feita por ele, provavelmente em 1614-1615, de pessoas que se propunha levar para a colonização das terras austrais, El Capitan Pedro Fernández de Quirós, Francisco de Quirós, su hijo, Lucas de Quirós, su sobrino y Maria de Guevara, su mujer; e num registo da Casa de Contratação de Sevilha, datado de 14 de Março de 1615, Información presentata por el Capitan Pedro Fernández de Quirós /.../ à las Indias con su mujer, hijos y criados ..., feito meses antes da sua viagem de regresso às terras americanas e falecimento no Panamá em 1615. De acordo com algumas fontes mais recentes, como a de Justo Zarugoza na Historia del Descubrimiento de las Regiones Australes hecho por el General Pedro Fernández de Quirós, 1876-1882, e de Ignacio Gracia Noriega em Entrevista de la historia, de 2006, Pedro Fernandes Queirós foi educado pelos franciscanos da Província de Piedade, vizinha da Província de San Gabriel da Extremadura espanhola. Estas províncias eram dominadas por sectores da Ordem dos Frades Menores (Ordo fratrum minorum) em que se incluíam os espirituais, defensores dos princípios fundadores da pobreza franciscana, com a sua ala mais radical, rígida defensora da pobreza absoluta, dita dos zelanti ou fraticelli, e os conventuais reformados ou descalços que queriam adaptar a sua pobreza às necessidades do momento procurando um compromisso com a Igreja institucional, sendo estes mais influentes na área de Évora, com sede em Vila Viçosa, onde eram mais conhecidos por capuchos. Dedicados a uma vida espiritual emocional que procurava imitar a de Jesus Cristo, sobretudo os espirituais alimentavam uma visão milenarista peculiar que antecipava o Paraíso na Terra. No século XV tinham retomado as ideias do abade cisterciense Giacchino Fiore ou Joaquin Fiore (cerca de 1135-1202) recompostas no neo-joaquinismo, e no século XVI as influências da Utopia de Thomas More. Uma das principais contribuições de Joaquin Fiore foi a de ter concebido uma percepção espiritual ou mítica da história da humanidade. Por um lado, estudando as correlações bíblicas chegou à conclusão que as Sagradas Escrituras continham a revelação exacta do propósito de Deus; e, por outro lado, elas permitiam dividir a história da humanidade em três idades ou eras do mundo (de tribuis statibus mundi) de acordo com as três pessoas da Santíssima Trindade. A primeira, a do Deus-Pai, entre Adão e Jesus Cristo, da lei ou da pena de talião incluía Moisés (o Antigo Testamento), em que as figuras importantes tinham sido os profetas; a segunda, a de Deus-Filho, do nascimento de Jesus o Cristo (Novo Testamento), da resolução de conflitos e do perdão mútuo, tendo os sacerdotes como figuras de relevo, ia até ao ano de 1260; e a terceira, a do Espírito Santo, a da inteligência espiritual, da liberdade, do amor universal, da igualdade, sendo as figuras mais importantes os monges, de 1260 até à consumação dos tempos. Surgiria a Nova Jerusalém.
É nos relatos de viagens, mas sobretudo nos Memoriales, que poderá ser visto como estas ideias estiveram presentes no espírito de Queirós e nas suas decisões. Segundo Justo Zaragoza e Gracia Noriega, ainda jovem Queirós mudou-se para Lisboa onde passou a frequentar a Rua Nova, ouvindo dos mareantes que por aí passavam as descrições sobre as terras que iam sendo descobertas. Seduzido pela aventura terá conseguido embarcar como escrivão num barco em viagem pela costa de África e, como o oficio lhe deixava muitos tempos livres, aproveitou-os para adquirir conhecimentos sobre os barcos e os modos de navegar, o que lhe terá permitido, noutra viagem, embarcar como piloto. Entre 1588 e 1589 contraiu matrimónio com dona Ana Chacón Miranda, de 25 anos, natural de Madrid, e ofereceu os seus serviços à Corte castelhana. Do casamento nasceu uma filha em Madrid em 1590. Não era passado muito tempo Queirós partiu para o Peru. Em 1595 embarcou em Callao como piloto chefe de uma Armada comandada por Álvaro Mendaña Neyra (1542-1595), começando assim as suas viagens pelo Pacífico. É de crer que teve outro matrimónio porque na lista de 1613-1614 com os nomes de pessoas que pensava levar para a colonização das terras austrais aparece uma dona Maria Guevara como esposa. A leitura dos seus escritos, sobretudo dos 54 Memoriales publicados por O. Pinochet la Barra, alguns deles muito longos e cheios de pormenores, por vezes repetindo-se, revela um homem profundamente religioso, que invocava Deus com demasiada frequência, persistente, dotado de uma cultura vasta e sólida, conhecedor da historia e das descobertas recentes, da situação de crise não só da Monarquia Hispânica mas também do resto da Europa. Tudo começou quando, no regresso da viagem de 1595, ou durante ela, arquitectou o projecto de fazer a descoberta da mítica Terra Australis Incognita, partindo do Peru, mais propriamente, de Callao, porto da cidade de Lima, e regressar a Espanha pelo Índico e pelo Atlântico, depois de dobrado o cabo de Boa Esperança». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas “en la parte Austral Incognita” e de Projectos para a sua colonização: quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT