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domingo, 26 de dezembro de 2021

Os Sete. André Vianco. «Suficiente para nunca mais esquentarem a cabeça. Quando consegue falar com o Peta? Ele vai estar no bar hoje. Eu também vou. Falo com ele e ajeito tudo. Os dois entraram na casa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Tiago ficara com a casa da família. Morava ali, na beira da praia. César, depois da partida de Sabrina, praticamente morava com Tiago. A amizade dos dois se iniciou logo que a família de Tiago chegara em Amarração. Formavam um grupo de sete pestinhas. Sabrina, a mais velha da turma, César, Tiago e Tadeu, mais dois irmãos, Olavo e Jéferson, e Eliana. Os sete da Amarração, como ficaram conhecidos. Dessa velha turma havia sobrado apenas eles dois, mais Olavo. Tiago e César se viam todos os dias. Trabalhavam na câmara municipal da cidade, no mesmo departamento, e nos finais de semana praticavam mergulho juntos. Todo o dinheiro que poupavam ia para os equipamentos, cada vez mais sofisticados e modernos. Infelizmente não conseguiam economizar muito. A esperança maior corria por conta do mar. Por duas vezes já haviam tirado coisas que lhes renderam um bocado de dinheiro. Na primeira, conseguiram duas imagens de santos. Tiago pensou em entregá-las para a igrejinha de Amarração, mas foi César quem o deteve. O amigo tivera o oportuno palpite de que aquelas coisas deviam valer algum dinheiro. Esperaram três semanas, e quando o salário da câmara municipal chegou pegaram um autocarro para Porto Alegre e foram directo para o museu da cidade. Lá descobriram que a coisa valia. Um coleccionador comprou as imagens. Eram peças portuguesas da época do descobrimento do Brasil. Conseguiram oito mil reais pelas duas. Mais da metade usaram para comprar a lancha e um motor novo. O restante do dinheiro durou mais alguns meses. Viajaram para vários parques de mergulho, conhecendo muita gente boa. A segunda vez que descolaram um dinheiro com mergulho foi com pequenos reparos no emissário submarino de Amarração. Havia três buracos no emissário que despejava o esgoto no oceano. Dessa vez, o dinheiro foi bem inferior aos oito mil reais, mas novamente realizaram uma série de excursões, conheceram mais gente, novos equipamentos e técnicas de mergulho. E, se o palpite de Tiago estivesse certo, dessa vez encheriam os bolsos com bastante dinheiro. Suficiente para nunca mais esquentarem a cabeça. Quando consegue falar com o Peta? Ele vai estar no bar hoje. Eu também vou. Falo com ele e ajeito tudo. Os dois entraram na casa.

Vê quanto ele cobra para alugar o equipamento. Alugar, ouviu?, frisou Tiago. O homem é chato, mas vou ver o que ele faz. Quando a gente tiver as fotografias nas mãos, eu levo para Porto Alegre. A Eliana está estudando História lá. Deve conhecer gente de confiança que pode nos dar uma ajuda. Estou desconfiado de que aquele barco é mais antigo do que esta cidade aqui. Está com toda a pinta de ser um galeão português. Caramba! Se for uma coisa tão antiga assim, podemos facturar uma enorme massa! Sei lá. Depende se tem alguma coisa lá dentro. Pelo barco mesmo, duvido que valha alguma coisa. Ele está muito podre, não sai de lá inteiro. Estou apostando numa outra jogada. Se a Eliana confirmar que é um galeão português, os indivíduos da faculdade vão ficar loucos para pôr as mãos nele; é aí que nós faturamos.

Cobra um dinheiro bom para mostrar onde o galeão está afundado. Não sei se nós vamos achar muita coisa valiosa dentro daquele troço. A gente podia mergulhar amanhã e ver se acha alguma entrada... É perigoso, Cesão. Aquilo está inteiro e podre. Pode cair tudo na nossa cabeça. É, mas se o barco é português mesmo aquelas duas imagens devem ter vindo dele, pode ter mais lá dentro, quatro mil cada uma. Sei lá. Vamos chamar o Lalá. De todos, a gente vai precisar de ajuda. Se ele topar, sem problemas, a gente entra. O Olavo é meio bundão, mas eu o convenço, pode deixar. Tiago aquietou-se e por um segundo a memória dos sete veio à sua mente. Sempre mergulharam naquela praia. Os sete. Juntos. Mas nunca tão distante. Nunca tão demoradamente. Com certeza adorariam tê-lo feito». In André Vianco, Os Sete, 1999, Editora Aleph, 2016, ISBN 978-857-657-339-5.

Cortesia de EAleph/JDACT

JDACT, André Vianco, Literatura, Terror,

domingo, 28 de junho de 2020

Os Sete. André Vianco. «Os três estavam começando a curtir a adolescência, e Porto Alegre parecia bem mais interessante do que a pacata cidade litoral. Fazer o quê!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nobres homens de bem, jamais ouseis profanar este túmulo maldito. Aqui estão sepultados demónios viciados no mal e aqui devem permanecer eternamente. Que o Santo Deus e o Santo Papa vos protejam. Uma caravela portuguesa naufragada com mais de 500 anos é descoberta no litoral brasileiro. Dentro dela, uma estranha caixa de prata lacrada esconde um segredo. Apesar do aviso grafado, com a recomendação de não abri-la, a equipa de mergulhadores que a descobriu decide seguir em frente, e encontra sete cadáveres. Esses corpos misteriosos e cadavéricos são levados para estudos e tudo parece estar sob controle até ao despertar do primeiro deles. Em Os Sete, André Vianco actualiza o mito dos Vampiros, apresentando ao leitor seres poderosos, cada um com uma característica única, mas todos com natureza monstruosa e sanguinária. O resultado é um livro envolvente, repleto de acção e reviravoltas, que em pouco tempo ocupou seu merecido lugar entre os mais importantes livros de terror e fantasia brasileiros». In Sinopse

«Quando eles encontraram aquele navio naufragado, decidiram manter segredo. Outros mergulhadores do vilarejo conheciam o navio, mas o julgavam um amontoado de madeira inútil e podre, sem lhe dar o devido valor. Pensavam que aquela velha caravela não passasse de um reles pesqueiro antigo. Entretanto, Tiago desconfiara do formato daquele amontoado de madeiras. Seu olhar perscrutador, somado a uma intuição inquietante, empurrava-o para um exame mais minucioso. Nos mergulhos seguintes, com a ajuda dos seus companheiros, conseguiu chegar à primeira certeza: aquela embarcação não era um pesqueiro naufragado, pelo menos não um deste século. O mistério alegrou o grupo. Se as expectativas se confirmassem, poderiam se deparar com um tesouro perdido, trancado dentro da velha nave. Precisamos fotografar aquele barco, disse Tiago, tirando os óculos de mergulho. Conhece o Peta? Aquele do bar. Sei. Ele tem câmera fotográfica, câmera de vídeo, tudo para reportagens submarinas. Ele trabalha com isso. Será que ele cobra caro para nos alugar esse equipamento, César? Sei lá. O sujeito é chato, vai querer vir junto. Não, não pode. Se mais gente ficar sabendo... logo vai se armar uma correria em cima do barco velho. César ajudou Tiago a retirar o cilindro das costas, depois foi sua vez de livrar-se do equipamento de mergulho.
Não sei como nunca ninguém se interessou em investigar melhor esse navio. Eu acho que deve ter uma porção de coisas valiosas lá dentro. Tiago deu partida no motor da lancha. César tinha razão. Por outro lado, aquela parte da costa era pouco movimentada. Não tinha nenhum atractivo turístico. E eles só mergulhavam por ali porque era o único lugar que tinham para ir. Raramente sobrava dinheiro para longas excursões. O máximo que podiam fazer era ficar ciscando as pedras das suas próprias praias.
Desde cedo Tiago e César se engraçaram com a prática do mergulho. César nascera ali, em Amarração. Já Tiago chegara à cidade com 12 anos. Seu pai fora destacado para Amarração e teve de trazer toda a família. A mãe, que sempre morara na capital, Porto Alegre, achou a ideia bastante agradável. Já os filhos, nem tanto. Os três estavam começando a curtir a adolescência, e Porto Alegre parecia bem mais interessante do que a pacata cidade litoral. Fazer o quê!
Logo os três se adaptaram. Tiago era o mais novo. Apesar de Tadeu ser seu irmão gémeo, Tiago fora o último a nascer. Sabrina era três anos mais velha. Havia dois anos a irmã estava casada e fazia cinco morava noutro Estado. De vez em quando se falavam por telefone, mas raramente se visitavam. Da família restavam apenas eles dois. O pai fora o delegado titular de Amarração até morrer por complicações coronárias quando Tiago tinha 16 anos. O irmão gémeo morreu dois anos depois, afogado naquela praia. A partir daí a família desmantelou-se.
A mãe morreu de desgosto, definhando mês a mês. Desde a morte de Tadeu, a felicidade sumira-lhe do rosto. Nunca mais voltara a ser a mesma. Tiago também se abalara na ocasião da morte do irmão, mas vendo o estado de sua mãe ficara bastante assustado. Lutava contra a saudade e o desespero, tentando manter a família ainda viva. A irmã fora para São Paulo quando ele tinha 20 anos, ficando sozinho em Amarração. Os tios pagaram a faculdade de Sabrina, deixando-a viver nas suas casas até se casar aos 23, indo morar em Osasco, cidade vizinha a São Paulo. Tiago visitou-a duas vezes, no Natal de 96 e depois em 98, quando seus sobrinhos gémeos nasceram. E aquela fora a última vez em que estiveram frente a frente. Os tios tentaram convencê-lo a migrar para São Paulo também, porém ele não queria deixar seu passado para trás. Sua terra era ali. Não via extraordinárias chances de enriquecimento à frente e também já tinha quase tudo de que precisava. O que tentava a todo custo era lutar contra o tédio que abatia Amarração, tornando-a, invariavelmente, uma cidade apática. Se Tadeu ainda estivesse vivo, certamente estariam se divertindo a valer. Se Tadeu estivesse vivo, os dois estariam completando 25 anos na semana seguinte.
A lancha já havia coberto os dois quilómetros que os separavam da costa. César apagou o motor, deixando a embarcação aproximar-se deslizante, sem barulho. Recolheu a hélice, erguendo o motor. O mar estava bastante calmo, sem muitas ondas. Aproximaram-se da praia com bastante tranquilidade. Pularam da lancha e a arrastaram para a areia. Agarraram as cordas e, com muito esforço, arrastaram-na para longe da água». In André Vianco, Os Sete, 1999, Editora Aleph, 2016, ISBN 978-857-657-339-5.

Cortesia de EAleph/JDACT

domingo, 11 de outubro de 2015

Os Persas. Ésquilo. «Somos, entre os persas, chamados os Fiéis. Guardiães deste rico e soberbo palácio, aqui estamos, enquanto eles marcham contra a Grécia. Nossa alma inquieta-se, no íntimo, pelo regresso do rei e seu brilhante exército»

Cortesia de wikipedia

«A acção decorre em Susa, capital da Pérsia, por alturas da batalha de Salamina (480 a. C.), da qual Ésquilo participou como soldado».

«O teatro deve representar o palácio dos reis da Pérsia. Ver-se-á, ao lado, o túmulo de Dario.
Coro: Somos, entre os persas, chamados os Fiéis. Guardiães deste rico e soberbo palácio, aqui estamos, enquanto eles marcham contra a Grécia. Foi à nossa experiência, que o filho de Dario, Xerxes, nosso rei e senhor, confiou os cuidados do império. Porém, triste pressentimento. Nossa alma inquieta-se, no íntimo, pelo regresso do rei e seu brilhante exército. A Ásia viu levar todas as suas forças, e acusa um jovem príncipe. Não chega à capital da Pérsia nenhum correio ou mensageiro. De Susa a Ecbatana, dos antigos baluartes de Ásia, infantes, cavaleiros, gente do mar, que enorme massa de exércitos, deixaram todos a pátria. Assim partiram Amistres, Artafernes, Megabises, Astaspes, príncipes dos persas, reis submissos do grande rei, comandantes de numerosas hostes, hábeis no manejo do arco e dos cavalos, temíveis no aspecto, terríveis nos combates, de insuperável coragem. Assim partiram Artembares, bravo capitão de cavalaria; Masistres, Imeu, o hábil arqueiro, Farandaces e Sostanes, que tão bem doma os corcéis. Das fecundas margens do Nilo vieram Susiscanes, Pegastagon, que o Egipto viu nascer; Arsames, que governa a sagrada cidade de Menfis, e Ariomardo, senhor da antiga Tebas. Dos pântanos egípcios chegaram inúmeros, excelentes remadores. No séquito do rei marchavam os efeminados lídios e todos os povos do continente, submetidos ao sátrapa Metrágato, ao virtuoso Arceu. A opulenta Sardes viu sair do seu seio milhares de homens em carros de duplo e triplo jugo, cujo aspecto basta para fazer estremecer. Habitantes do monte sagrado de Tmolus, Mardon e Taribis, infatigáveis guerreiros, e seus núsios armados dardos, jactavam-se de que em breve a Grécia escrava se curvaria ao seu jugo. A rica Babilónia enviou tropas de toda a espécie: marujos, arqueiros, orgulhos de sua perícia. À ordem ameaçadora de seu rei, todas as nações da Ásia se armaram e o seguiram. Assim vimos partir a juventude florescente dos persas. A terra que a nutriu a lamenta e chora. Mães e esposas contam, a tremer, os dias de tão longa ausência. O exército real, que arrasa todos os baluartes, já passou para o vizinho continente. Sobre os seus navios, ligados por cabos, atravessou o estreito de Heles, ficha de Atmas; indissolúvel ponte se estendeu sobre a face dos mares, que ela subjugara. Digno rebento de augusta estirpe, mortal igual aos deuses, o belicoso soberano da fecunda Ásia, pleno de confiança no valor de seus intrépidos súbditos, à Europa conduziu, por terra e mar esse imenso exército. Qual dragão homicida, lança olhares flamejantes. Armado de um milhão de braços, seguido de mil navios, impelindo seu carro assírio, leva contra um povo famoso por sua lança, guerreiros temíveis por suas flechas. Quem poderia enfrentar essa vaga enorme de soldados? Nenhum dique deteria a indomável torrente. Nada resistiria à bravura do persa. Mas quem, dentre os homens, evitará a insidiosa armadilha da sorte? Quem dela escapará com pé ligeiro, fácil impulso? Acariciante e lisonjeira, a princípio, ela atrai os homens a uma rede da qual nenhum mortal pode desvencilhar. Há muito se manifestou a vontade do céu, que anima os persas ao assalto das torres, à tumultuosa confusão dos corcéis, à destruição das cidades. Contemplando a vasta planície dos mares escumantes ao sopro dos ventos..., confiaram povos a frágeis cabos, débeis engenhos. O temor dilacera, ao imaginá-lo, minha alma angustiada. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais a imensa cidade de Susa, sem defensores, aprenda a proferir tais palavras. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais os muros de Ássia necessitem responder ao grito de uma turba de mulheres, que em prantos, a rasgarem os seus véus. Todos, infantes, cavaleiros, como um enxame de abelhas, nas pegadas de seu príncipe, galgaram os promontórios de ambos os continentes, unidos por uma ponte. Na ausência do esposo, o pranto humedece os leitos nupciais. Desoladas esposas. Com amorosa saudade seguistes o impiedoso companheiro, que para correr às armas, vos deixou solitárias. Quanto a nós, persas fiéis, firmes neste palácio antigo, redobremos de necessária prudência e sensatez. E meditemos. Que foi feito de Xerxes, nosso rei, filho de Dario, pai tão bem amado? Caberá a vitória à flecha disparada pelo forte arco persa? Ou vencerá o brandir da acerrada lança helena? Já se adianta, porém, a mãe de Xerxes, astro semelhante ao olhar dos deuses. Adoremo-la, todos, à uma, rendamos homenagem à rainha». In Ésquilo, Os Persas, Clássicos Gregos e Latinos, tradução de Maria Carvalho, Edições 70, ISBN 978-972-441-568-0.

Cortesia de E70/JDACT