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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «… quasi los más son christianos, como después de lo aver oydo a otros, finalmente lo oy a un moro anciano, rico, que, estando yo presente, dixo al Principe que estuviera allá treze años, y a mi me dixo un dia…»

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A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik
«(…) Xavier já tinha ,ouvido falar em Kashmir das igrejas do Tibet. O Cataio ficaria para além? Mas logo, na terceira carta, de 1598, alonga as distâncias, colocando na Tartária aquele pais do Veneziano, que parecia ir-se afastando, envolvido em bruma, à medida que era procurado. Corria-se em nova demanda do Preste João.

NOTA: Esta carta, no dizer de D'Elia, nunca foi publicada, dando-a ele à estampa na edição das obras de Ricci. Pelo seu interesse e novidade aqui a reproduzimos: El 2º punto es que el reyno o reynos del Catajo, que es lo que dizen los antiguos Tartaria y es finis terrae orientalis, quasi los más son christianos, como después de lo aver oydo a otros, finalmente lo oy a un moro anciano, rico, que, estando yo presente, dixo al Principe que estuviera allá treze años, y a mi me dixo un dia (yendolo a buscar para esso) que, aunque ay allí moros y judios, los más son christianos. Tienen ygleseas grandes, no circuncidan los hijos, sino que los lavan en la cabeça con agua los padres en la yglesia (que es el bautismo). Tienen padres que visten de negro com bonetes aunque más altos que los nuestros; dize que vió al Rey a la Yglesia algunas vezes, que cada ciudad tiene diez, doze, yglesias grandes; tiene un padre grave a quien hazen todos mucha honrra. Vea Vuestra Paternidad si son buenas señas estas dadas por moro que estuvó allá, treze años? Estos forzadamente han da tener mil ignorancias, como quien carece de comunicación del Papa. Dixone más que tienen hombres recogidos en casas, que no se ocupan sino en oración y penitencia, y que hay casas de mugeres de la misma vida que no se casan, y que los padres no se casan, a lo menos los grandes. Quis comtemnet populum istum qui tam decorasleges & mores habet, ut non pro his merito pugnare debeamus? Por las historias de padres de S. Domingo y por S. Antonin de P. se sabe que averá trezentos años se fueron allá religiosos; unos se tornaron, outros llegaron, tandem se hizieron christianos, no se sabe más; agora se sabe esto. El camino para yr es venir a este Lahor (si ya no digo embiar algunos de los que acá están &c.). Y este Rey tiene tierras por aquella parte; hasta Caximir todo es suyo. De ay ban a Tebat, que es de un Rey que es como subdito deste, a lo menos muy su amigo; e con cartas suyas dará ayuda a pasar de allí hasta Casgar; que de aquí a Casgar ay un mes de camino, y Casgar al Xhambalu, Cambalu, donde reside el Rey, ay tres meses de camino. y la 1.ª ciudad de aquel reyno es de christianos con yglesias, según dize este moro. Y aún es fama de los mercadores que vienen de allá, que en el reyno de Tebat el grande (que está más junto al Xhetaij) ay christianos, yo les escrevi de Caximir (no tuve tiempo para aver respuesta). Assi que por esta parte es muy facil la entrada a aquellas regiones. El mdão de yr es, o como mercader, o como embaxador del Rey de Casgar o del Turco a quien conocen; y tiene el Turco embaixador suyo allá; mas como embaxador de Casgar puede yr por via deste Rey. Podia en lo interior ser mandado por el Papa on en lo exterior com patente para él y cartas &c., y algún paquete de algunas buenas ymágines y piezas para este Rey; con todo esto en el hasta las puertas de aquel reyno. Vuestra Paternidad lo vea y haga lo que in Domino le pareciere. Estos tres indiños hijos suyos estamos oferecidos a todo. Vengan outros en nuestro lugar o como fuerit voluntas in coelo, sic fiat. (Archivio Romano della Compagnia di Gesù, Goa.

Nesse escrito, dirigido ao geral Acquaviva, sugere o itinerário, para ser explorado pelos missionários que fossem escolhidos: Lahore, na corte do grão-mogol, onde estava, devia ser o ponto de partida; depois, uma tirada a Kashmir, daí ao Tibet, terras que dependiam do imperador, donde passariam a Casgar, trajecto já deles çonhecido. Para chegar a Cambalù seriam precisos mais três meses de caminho. A última fase da jornada era assim imprecisa, como o tactear aqueles imensos horizontes. No entanto a preocupação dominante, daquela banda dos nossos, era encontrar cristãos para localizar o Cataio».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.


Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

domingo, 30 de junho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «Mais tarde, quando chega a Pequim, o famoso missionário rectifica a sua primeira hipótese: “a China devia ser o Cataio antigo”; aquela esplendorosa cidade, a de Khanbalik, que tanto impressionara o viajante Polo»

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A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik

NOTA: Corte do grão-mogol. O fundador da dinastia descendia, pelo lado materno, de Gengis Khan. Nos primeiros tempos das nossas missões reinava Acbar (1556-1605), cujos domínios se estendiam do golfo de Bengala ao oceano Índico, compreendendo todo o vale do Indo e grande parte do Afeganistão. Esta primeira missão a que nos referimos (1580-1583) era composta dos padres Rodolfo Acquaviva, italiano e superior, António Montserrat, espanhol, e Francisco Henriques.
Em 1594 foi o próprio Acbar que pediu para Goa uma nova missão de jesuítas. Foi ela constituída pelos padres Jerónimo Xavier, sobrinho do Apóstolo das Índias, o açoriano Manuel Pinheiro e o irmão Bento de Goes. Em 1600 juntava-se-lhes o padre Francisco Corsi.

«(…) Só na terceira missão (ver Nota) se procurou resolver definitivamente o problema apaixonante. As notícias chegavam de todas as partes, pelos mercadores e pelos missionários da China, havia cristãos perdidos para lá do Himalaia. Seria o Cataio? Mas este, tão recheado outrora de nestorianos, também começava a ser identificado com a China, onde se não haviam ainda encontrado os da nossa Fé. De início Ricci não conhecera cristãos na China: non ve ne esser nessuno e mai esser là arrivata la lege christiana. No entanto, mais tarde chegaram ao grande missionário, em 1602, notícias de nestorianos em Suchow, perto de Kanchow, no actual Kansu. Eram de cor branca, barbudos, tinham igrejas e capelas onde adoravam o crucifixo e a Mãe de Deus. Que tinham sacerdotes com votos de castidade. A carta onde Ricci contava estes factos aos incrédulos padres da Índia sobre a sua identificação deve ter chegado depois da partida de Bento de Goes para a sua viagem. Duas hipóteses diferentes que era preciso esclarecer.
Do lado de Goa, a grande alma do empreendimento era o visitador, padre Nicolau Pimenta (o padre Pimenta nasceu em Santarém em 6 de Dezembro de 1546, entrou na Companhia em 1562. Em 1599 era visitador em Goa, onde morreu em 1614), que incitava os seus ardorosos missionários do grão-mogol na identificação, os que procuravam cristãos para encontrar o Cataio. Do lado do Império do Meio, Matteo Ricci levantava já abertamente o problema de que a terra famosa do Veneziano não era senão a China como anteriormente já o havia dito frei Martin de Rada.

NOTA: A ideia da identificação do Cataio com a China tem sido geralmente atribuída a Matteo Ricci. No entanto, já antes dele, o frade espanhol, da Ordem de Sto. Agostinho, frei Martin de Rada, o tinha afirmado. Na sua Relacion de las cosas de china que propriamente se llama Taybin, manuscrito incorporado num códex anónimo compilado em Manila em 1590. Martin de Rada nasceu em Pamplona em 1533. Tomou o hábito de Sto. Agostinho em Salamanca aos vinte anos. Partiu depois para o México como missionário. Em 1564 ofereceu-se para acompanhar Miguel López Legazpi e frei André Urdaneta na expedição às Filipinas. Aí exerceu com verdadeiro ardor apostólico o seu mister. Eleito provincial da sua Ordem empenhou-se em convencer o vice-rei do México na conquista espanhola da China. Pediu para ir sondar o terreno. Se a ideia tinha muito de sentido espiritual, havia também a cobiça das riquezas que os portugueses por ali andavam arrecadando, como constava nas Filipinas. Finalmente, em 1575 foi enviado ao Fukien, onde permaneceu dois meses. Dessa visita e contactos resultou o relato que ele escreveu para conhecimento oficial e onde destacamos a sua ideia da identificação do Cataio com a China.

Escrevia aquele para Roma, ao geral Acquaviva, em Outubro de 1596: Ned fine, voglio scrivere una curiositá che. penso, V. P. et altri si rallegrerá intendere, et è una congettura che feci, che la città di Nanchino, dove fui l'anno passato, metropoli e sedia regale antica della Cina, per varie congetture penso essere il Cataio di Marco Polo... e cosí il Cataio, al mio parere, non è di altro regno che della Cina. Mais tarde, quando chega a Pequim, o famoso missionário rectifica a sua primeira hipótese: a China devia ser o Cataio antigo; aquela esplendorosa cidade, a de Khanbalik, que tanto impressionara o viajante Polo. Mas assim ainda não pensavam os nossos da Índia. O padre Jerónimo Xavier, sobrinho do Apóstolo, escrevia de Lahore em 1598, depois da sua viagem ao Kashmir, três cartas que excitaram os ânimos dos seus confrades e iam empurrar decididamente o problema até à sua definitiva conclusão.
Os missionários do Padroado Português, que nunca depararam com dificuldades que não vencessem, levantavam pouco a pouco o véu deste mistério. Contava Xavier, nas suas epístolas de 26 de Julho e 2 de Agosto daquele ano, que um velho mercador maometano dissera ao príncipe Salim, mais tarde imperador, que vinha de Xambalù ou Cambalù, capital do grande reino de Xatai. Logo o missionário comentava que este nome molti sembra essere lo stesso che il nostro Catai. Lá estivera 13 anos, dizendo-se embaixador de Casgar. Mais contava o mercador que os habitantes daquele país distante eram de belo parecer, brancos de cor, usando longa barba. Que praticavam várias religiões, mas a maioria eram cristãos. Tinham muitas igrejas, algumas magníficas e todas adornadas com a Cruz que especialmente veneravam. As crianças eram baptizadas, os sacerdotes celibatários e vestiam-se como aqueles missionários do mogol. Que o rei daqueles reinos era também cristão».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «Com a chegada dos missionários do Padroado Português à Índia e à China folheiam-se de novo as páginas do livro de Marco Polo. Vêm à memória o Grão-Cataio e a cidade deslumbrante dos Khans»

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Os Missionários do Padroado Português no Extremo Oriente
«(…) Francisco Xavier, já triunfador na Índia e nas Molucas, sai estrategicamente do Japão, não fosse ele um soldado experimentado de Loiola, no intuito de o conquistar um dia, quando tivesse ganho a China. O Japão deveria ser o último passo naquele mundo extremo-oriental. Houvera um erro de estratégia que era preciso, quanto antes, rectificar. São do Apóstolo estas palavras, escritas em 1552: A terra da China, está perto do Japão, e, da China lhe forão levadas as seitas que tem. Depois, contava da surpresa dos japoneses perante aquele credo novo. Para eles era coisa estranha que, sendo tal doutrina verdadeira, os chinas não a conhecessem e praticassem: os japoneses se espantavão muyto todos en geral pareçendolhes que, pois n'a lenda dos seus santos nom fazião menção d'este Criador, que nom podia aver hum Criador de todas as cousas. E mais, se todas as cousas do mundo tiverão principio, que a gemte da China soubera isto, de omde lhes veyo as leys que tem. Tem eles pera sy que os chins são muyto sabedores, asy n'as cousas do outro mundo, como n'a gobernação de reepubliqua... Era necessário doutrinar primeiro o velho Império do Meio.
Voltava de novo à Índia Francisco Xavier e aí prepara uma embaixada à China. Em Agosto de 1552 chegava à pequena ilha de Sanchuão, não distante de Macau, ali mesmo em face da imensa terra chinesa cuja conquista para Deus foi o último grande sonho do Apóstolo. Morria pouco depois, em Dezembro desse ano, sem o ter realizado. Mas abria as portas da empresa gigantesca. Poucas semanas antes de S. Francisco Xavier expirar na ilha de Sanchuão, com os olhos postos naqueles distantes horizontes em que ele tanto desejou penetrar, nascia, em Macerata, Matteo Ricci, glória da Companhia de Jesus e de Portugal de cuja obra foi um dos mais ilustres obreiros. Ia ser ele que pegaria no facho luminoso que o Apóstolo das Índias deixara cair das suas mãos inertes.
Organizava-se, em terras bem portuguesas de Macau, cabeça do nosso Padroado do Extremo Oriente, o assalto espiritual à China pagã. Alexandre Valignano, um italiano dos Abruzzos, organiza o ataque há tanto combinado. Mas aquele mundo pareceu-lhe logo impenetrável, o que levava o Visitador a pronunciar a célebre frase, recolhida por Semedo, e atirada pelo famoso jesuíta às terras indomáveis que se desfrutavam do cimo das nossas colinas: O rocca! O rocca! quando finalmente ti aprirai al Vangelo? São pedidos padres para Goa, aonde, com Valignano, haviam chegado tantos na leva de 1574. Em 1579 desembarca, em Macau, Miguel Ruggieri, que se começa a preparar na aprendizagem da língua chinesa com mais quatro irmãos leigos que já ali se encontravam. Pouco tempo volvido, em 1582, chega Matteo Ricci. Era o início da obra portuguesa nas terras do Império do Meio.
Notável foi a compreensão que logo o Visitador Valignano e depois Ricci e Ruggieri tiveram da forma a adoptar para a penetração na China. Queria o primeiro, pô-lo em prática o segundo, que em vez de se pretender europeizar o Oriente fosse cada missionário, nos limites da moral evangélica, indiano na Índia, chinês na China, japonês no Japão. Os resultados de tal critério estão bem patentes no triunfo de Ricci e dos seus sucessores. O rochedo tinha-se aberto.

A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik
Com a chegada dos missionários do Padroado Português à Índia e à China folheiam-se de novo as páginas do livro de Marco Polo. Vêm à memória o Grão-Cataio e a cidade deslumbrante dos Khans, onde se tinham encontrado heréticos. Cruzavam-se aquelas terras adustas, não parava o labor dos nossos padres. E logo na primeira missão à corte do grão-mogol chegam notícias ao padre Montserrat, então no Kashmir, que no Tibet havia quem comungasse em certo templo das mãos dum sacerdote, nas duas espécies sagradas. Pensou-se em mandar reconhecer o terreno, ainda que tão difícil de alcançar, mas o insucesso final desses primeiros mensageiros da Fé Cristã na corte de Acbar fez por de parte o intento».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

terça-feira, 4 de junho de 2013

A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Em Demanda do Cataio. Eduardo Brazão. «Em 1567, pela bula ‘Super specula militantes Ecclesiae’, Gregório XIII, criando a diocese de Macau, estendia-lhe a jurisdição à China, Japão e todas as ilhas adjacentes com as suas fortalezas, vilas, castelos, territórios e distritos, concedendo ao monarca português o ‘Padroado’…»

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Os Missionários do Padroado Português no Extremo Oriente
«(…) O monarca João III, que herdara de seu pai, o Venturoso, a noção verdadeira do nosso caminhar, recebendo de mestre Diogo Gouveia, reitor do Colégio de Santa Bárbara em Paris, notícias dos jovens companheiros de Loiola que por ali tinham andado em estudos e em preparação dum grande sonho, logo escreve ao seu embaixador em Roma, Pedro Mascarenhas, para que este lhe consiga alguns deles para a sua cruzada do Oriente. Esta carta famosa é de Agosto de 1539. A Companhia fundava-se oficialmente pela bula Regimini militanti Ecclesiae, de Setembro de 1540. O rei de Portugal era assim o primeiro monarca que ia utilizar os soldados(?) do grande capitão Inácio de Loiola.
O nosso embaixador obtém o assentimento de Paulo III para o desejo real, mas era necessário ouvir aqueles homens que já de há muito se vinham preparando para o combate sem tréguas à heresia, à descrença, ao infiel, ao pagão. E eles recebem com verdadeiro júbilo a proposta de Portugal, era a primeira grande batalha que se lhes oferecia. Dois foram os apontados daquele ainda pequeno grupo, o português Simão Rodrigues e o castelhano Nicolau Bobadilha. Mas adoecendo este gravemente, Inácio de Loiola escolhe, para o substituir, Francisco Xavier, que ao receber a ordem exclama
fora de si: Pues sus! héme aquí, que o mesmo era dizer: Aqui me tendes, cheio de júbilo, por ir servir o Senhor nas 'longínquas paragens do Oriente.
Portugal recrutava os primeiros obreiros da sua obra. A Companhia, dividida logo de início em Províncias e Vice-Províncias, funda a de Portugal em 1540, a de Goa em 1542, a do Japão em 1549 e a Vice-Província da China em 1583. Perdido na memória dos homens da Renascença o esforço nestoriano e a epopeia incompleta dos franciscanos, abria-se a página de oiro do primeiro capítulo do cristianismo no Extremo Oriente, a que, sem dúvida, poderemos chamar, o período português.

Tanto era para o serviço de Deos a obra de Portugal que os pontífices, cúpula hierárquica dos reinos cristãos, na concepção que vinha da Idade Média, não só abençoavam e estimulavam os nossos esforços na conquista das terras infiéis, como nos deram, em bulas que se iam sucedendo à medida que avançávamos na descoberta do mundo, a direcção espiritual desse mundo que não conhecia ou se tinha esquecido da lei de Cristo. Enorme encargo, justo galardão ao nosso glorioso esforço. Nascia, pouco a pouco, o Padroado Português. Direcção espiritual e também exclusivo nas terras descobertas e por descobrir paru além de todas as regiões que viessem a descobrir. Era a África, a Índia, a Malásia, a China, o Japão, as Molucas e mais seria se Alexandre VI não viesse dividir a Terra entre portugueses e espanhóis.
Depois de 1493 e do Tratado rectificador de Tordesilhas, onde ganhávamos para o Ocidente, ganhávamos o Brasil, ainda por encontrar, e perdíamos no Oriente, começam novas rivalidades entre os dois povos ibéricos que a ambos estimulam num fazer mais e melhor que cobre de glória Portugal e a Espanha. Foi precisamente um português ao serviço de Castela, Fernão de Magalhães, que, ao tentar pela primeira vez a circum-navegação do mundo, esbarra connosco nos mares do Pacífico. Surge a questão das Molucas, que afinal se decidiu esportulando Portugal 350 000 ducados de oiro para os cofres ávidos de Carlos V. Mas a Espanha não desiste, já tinha informações precisas por Urdaneta, quando prisioneiro dos nossos em Malaca, das riquezas fabulosas do Oriente. Apesar das bulas, dos acordos entre os dois países, a tentação era grande demais para conter o Taciturno do Escorial. Legazpi recebe ordens para ocupar as Filipinas, onde em 1564 era finalmente hasteado o pavilhão real de Castela.
O golpe era de génio, ali podiam os espanhóis, se o pudessem, controlar a nossa navegação e preparar, como tantas vezes o tentaram, a entrada no Japão, finalmente o Chipangu de Polo, que Colombo julgou ter encontrado nas costas atlânticas da América do Norte, e no vasto Império do Meio. Mas nós já tínhamos construído então, por ali, os alicerces da nossa obra. Perante a ameaça e as arremetidas espanholas, intervém a Santa Sé a nosso favor, como era de justiça. Em 1567, pela bula Super specula militantes Ecclesiae, Gregório XIII, criando a diocese de Macau, estendia-lhe a jurisdição à:
  • China, Japão e todas as ilhas adjacentes com as suas fortalezas, vilas, castelos, territórios e distritos, concedendo ao monarca português o Padroado que lhe compete pela fundação e dotação da diocese, o qual não pode ser revogado ainda pela mesma Sé Apostólica, nem ter-se por revogado sem consentimento de Sebastião, rei de Portugal, ou daquele que então o for; e se se revogar doutro modo, tal revogação e suas consequências serão de nenhum efeito, valor e eficácia.
Não é evidente que ao Padroado ficámos devendo nesta altura o termo-nos mantido naquelas regiões, onde já então Macau prosperava? Assim opina um autor avisado. Mas havia talvez mais, criavam-se nesse momento, por tão esclarecida decisão pontifícia, as possibilidades de iniciarmos a cristianização do Extremo Oriente». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «… só se iniciava com a primeira leva missionária. E então começámos a perguntar a nós próprios, na 1embrança sempre viva de Marco Polo: - “mas onde fica, afinal, o Cataio?”»

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As Descobertas Portuguesas
«(…) Fé, necessidade e ambição de riquezas, aventura, preparação científica dos descobrimentos. Todos estes foram factores da obra da Expansão Portuguesa, mas cada um deles tendo a sua medida e o seu lugar. Dominou o espírito de cruzada, sendo esta a única resposta e bem explicativa que se pode dar ao espanto do inglês Major perante a enormidade da obra realizada por um povo dum escasso milhão de habitantes, ao serviço de Deus. Hasteado o pavilhão da Cruz no Norte de África, iniciou-se o desenrolar daquele caminho marítimo que os portugueses foram os primeiros a sulcar. Começou em Ceuta e parou em Malaca, para ainda depois retomar alento e encaminhar-se à China, ao Japão, às ilhas do imenso Pacífico. Madeira e Açores foram os versos líricos daquela obra grandiosa que levava uma direcção segura, pensada e estudada. O Brasil, um cântico de cores fortes e de beleza sem par.
Pretendíamos atingir o Oriente contornando África, visto que a Europa estava barrada por terra e lançarmo-nos no fojo muçulmano como raio exterminador. E os portugueses, preparados na Escola de Sagres, sabiam bem que não cairiam no erro de Colombo, que ao dirigir-se a Chipangu e ao Cataio de Polo esbarrava, sem o saber, com um novo continente que estava de permeio. O Infante Henrique preparara sabiamente a Descoberta, rodeado de cartógrafos famosos, de matemáticos e de astrónomos de renome europeu, todos bafejados pela sua fé ardente.
Em Malaca soubemos da China, cujo nome já nos tinha chegado, nas próprias viagens de Marco Polo, que fala do mar de Chin; no planisfério de Cantino, datado dos fins de 1502, onde vem já escrito: terra de chins, e o próprio rei Manuel, em instruções para Diogo Lopes Sequeira, ordenava-lhe que indagasse das terras dos Chijns. Depois de Jorge Álvares, em 1513, ter cravado em Tamão o primeiro padrão português em território da China, seguiu-se a descoberta daqueles novos e estranhos horizontes.
Bordejámos com sorte vária, por mares que ora eram lagos, logo encapelados pelos ventos do tufão. Com os nativos daquele velhíssimo mundo, que para nós era bem novo e bem diferente de tudo quanto os nossos olhos tinham visto ate aí, em longa caminhada pela Terra, também nem sempre foram bonançosos os primeiros contactos. Fixámo-nos depois nessa minúscula península a que chamámos Macau, mesmo ali próximo da entrada do Império do Meio, que era Cantão. Mas a obra portuguesa da ligação com a imensidade do Extremo Oriente só se iniciava com a primeira leva missionária. E então começámos a perguntar a nós próprios, na 1embrança sempre viva de Marco Polo: - mas onde fica, afinal, o Cataio?

Os Missionários do Padroado Português no Extremo Oriente
E por ser obra do serviço de Deos, aberto o caminho com saber e bravura, por ele iam logo seguir os que deviam levar a mensagem mais alta de Portugal. Mal terminado no Extremo Oriente o período de Mendes Pinto, dava-se início ao glorioso capítulo missionário. O primeiro contacto tivera o travo amargo duma mútua incompreensão. Era natural, dois mundos tão diferentes que se enganaram por não se entenderem. Mas propriamente a nossa obra não começa aí, mas depois, quando a Companhia de Jesus, recentemente então formada, manda, a nosso desejo, os seus primeiros soldados para a conquista espiritual daquele fim da Terra». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «… se gravadas no pórtico de Ceuta, princípio da grande empresa. Cruzada cristã, em primeiro lugar e definindo a acção portuguesa, o que não exclui os interesses materiais da expansão, a miragem das riquezas do Oriente»

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As Descobertas Portuguesas
«(…) Os Mings iam isolar o Grão-Cataio de Polo do Ocidente, que durante longas décadas tinha vivido no sonho daqueles descritivos famosos do Veneziano, aclarados na confirmação durante o período a que poderemos talvez chamar de Montecorvino. Agora, as distâncias já longas ainda se afastavam mais.
Mas, na Península Ibérica, um povo bem preparado na luta e na fé não desistiria do intento. Se o Cataio era visão que se alongava, havia outros mundos mais perto a descobrir para evangelizar, era o princípio do mesmo caminho, mas que se ia construir de novo em bases firmes, seguras. A ideia do serviço de Deus era o dístico verdadeiro da acção que íamos exercer. Vinha impresso na alma medieva de Portugal, naquele alvorecer para o primeiro passo da expansão cristã que foi Ceuta bem escolhido pórtico de tão alta empresa. Não fora dali que sete séculos antes partira a  invasão de Tarik, o infiel, sobre a terra cristã de Isidoro de Sevilha e de Frutuoso Braga?
Percorramos o dizer dos cronistas que souberam elevar o grande estandarte da obra portuguesa. Assim eles revelaram com verdade aquele sentir bem profundo que foi a grande- força que abriu caminhos na aparência impossíveis de transpor e que explica exuberantemente essa transformação de homens em gigantes.
O rei João I, hesita no abrir a página do maior capítulo da História de Portugal e do Mundo. Escrúpulos que logo Zurara explica:
  • Ca todo seu principal movimento foy per serviço de Deos e grande desejo que tinha de emmendar alguüa cousa se a contra vontade de Deos no tempo da guerra passada.
Logo os filhos, a Ínclita Geração, ansiosos daquele começo do grande capítulo, atalhavam:

Por quanto vos por vossa jnleicam propria sem constrangimento de nenhuüa pessoa vos ofereceis a este perigo e trabalho nam põr outra neçesiidade senão por serviço de Deos e por acresçentamento de vossa honrra.

Mas o Mestre de Avis insiste sempre:
  • quero primeiramente saber se esto he serviço de Deos de se fazer, ca por muy grande honrra nem proueito que se me delle possa seguir se nom achar que he serviço de Deos nom entendo de o fazer, porque somente aquella cousa he boõa e onesta na qual Deos jnteiramente he seruido.
E volta a afirmar aos teólogos e letrados que reúne à sua volta:
  • ajnda que entendesse de cobrar todo o mundo por meu, como eu sentisse que em alguüa parte nam era serviço de Deos, eu o nam teria por vitoria nem o faria por nenhuüa guisa.
Não estará aqui, nestas palavras reais, toda a explicação da obra portuguesa no Mundo? Elas ficariam bem se gravadas no pórtico de Ceuta, princípio da grande empresa. Cruzada cristã, em primeiro lugar e definindo a acção portuguesa, o que não exclui os interesses materiais da expansão, a miragem das riquezas do Oriente. Logo Ceuta, como prova a inscrição no atlas de Abraham Cresques, certamente já conhecido entre nós, era caminho que podia levar ao falado oiro de Mandinga». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

terça-feira, 17 de abril de 2012

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. Parte 6. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «Na memória do Ocidente não podia apagar-se a fama do Grão-Cataio que Marco Polo divulgara, que os monges de S. Francisco julgavam ter possibilidades de moldar na forma cristã. Quanta esperança se tinha desvanecido!»



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«O período mongol na China pode-se dizer que vai de 1280 até à morte de Kubilai, em 1294. Depois desse marco, até 1368, a definitiva vitória nacional do “Império do Meio”, passaram-se anos de declínio onde se foram entorpecendo as qualidades guerreiras daqueles cavaleiros da estepe. A China mais uma vez, como sempre depois, não se deixara dominar. Passivamente sofrera a ocupação daqueles estrangeiros. Mas esperara: o tempo não conta para ela. Nos seus anais procura-se passar em claro sobre o domínio mongol, entre as dinastias “Sung e Ming” parece não ter havido o intervalo dos Khans. E não houve de facto para o chinês: a sua memória permaneceu junto dos antepassados, na lembrança viva dos seus imperadores legítimos, na prática dos seus preceitos de Confúcio. Andaram por ali, é certo, estranhos em volta a tirar ao campo o seu amanho, a amealhar riquezas que o seu labor juntara. Mas era um sonho mau que os ventos um dia trouxeram e que um dia levariam.
Entretanto a dureza do mongol ia-se quebrando naquele viver de conforto e de riqueza. O paço de Khanbalik em nada se assemelhava às tendas atapetadas que se plantavam no deserto, açoitadas pelos ventos do norte. A mulher chinesa, voluptuosa e meiga como pele de arminho, era bem diferente da masculinidade da mongol, de cabeça rapada e cavalgando com a energia que o seu viver de nómada obrigava. Kubilai reunira tesoiros, vivera com fausto, mais ainda era o homem forte da estepe. Depois começou o fim.
Entretanto a China levantava-se do seu torpor.
Ia continuar a viver. Da humildade de Chu Yuan-Chiang fizera um imperador. Era ao povo mais humilde onde se ia buscar a cabeça do império. A gloriosa dinastia “Ming” dava os seus primeiros passos.
Acendera-se mais então o ódio ao estrangeiro. Isolava-se, de novo, o “Império do Meio”.

Na memória do Ocidente não podia apagar-se a fama do Grão-Cataio que Marco Polo divulgara, que os monges de S. Francisco julgavam ter possibilidades de moldar na forma cristã. Quanta esperança se tinha desvanecido! Mas a Fé era tão forte naquele mundo antigo, a ambição tão acrescida por aqueles tesoiros revelados e que estiveram quase ao alcance da mão, que a Europa, como a China, também saberia esperar». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

sábado, 31 de março de 2012

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. Parte 5. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «‘O Grão-Cataio’ ia ser desligado do Ocidente com a queda dos Mongóis; daquele exército sem armas que Marco Polo tinha, sem o saber, arrastado àquelas distâncias, desde Montecorvino a Marignolli, cerca de cinquenta e cinco anos de esforços e de triunfos, poucas notícias chegaram aos tempos da “Cruzada Portuguesa”»


Cortesia de wikipedia

«Em 1249, depois duma viagem longa e trabalhosa, chegava a Khanbalik, a ‘cidade do Rei’, que tanto impressionara Marco Polo. Logo Montecorvino dava começo aos seus grandes labores missionários, iniciando a concepção genial para aquele ambiente, que ele pela primeira vez conhecia, de atirar bem ao alto no intuito de, acertado o alvo, trazer atrás, facilmente, tudo quanto estava por baixo. Assim procederia, quase três séculos depois, Matteo Ricci, sem contudo conhecer, ao que parece, a obra e acção deste glorioso pioneiro. Convertera, logo de início, o nestoriano príncipe Jorge de Tenduc, ligado por parentesco à família imperial. Com ele colheu o franciscano um cacho tão volumoso como enxame de abelhas suspenso de ramada. E as sementeiras e ceifas iam seguindo activas e prósperas.
Em duas cartas, de 1305 e 1306, relata Montecorvino, não sem uma ponta de orgulho, justificado mesmo para um filho do “povorelo de Assis” que ele era, os seus triunfos católicos naquele vasto mundo pagão e herético. Construíra magnífica igreja onde os fiéis já eram em grande número, mesmo ali em Khanbalik, às portas do “Grande Khan”, conseguindo que tão alto senhor fosse assistir aos coros litúrgicos organizados com a multidão dos que seguiam a sua Fé. Já, então era assistido doutros franciscanos, ficando-nos, dentre eles, o nome de Fr. Arnaldo de Colónia. Pouco depois, Montecorvino recebia do pontífice a honra de ser nomeado arcebispo de Khanbalik e patriarca do Extremo Oriente.

Um outro franciscano que partira para a Ásia em 1317, Fr. Odorico de Pordenone, trazia anos depois à Europa, descrevendo a ‘cidade do Rei', a confirmação do descritivo de Polo. Não houvera fantasia no Veneziano. Aquele mundo estranho, prenhe de riquezas incomparáveis, campo aberto à sementeira cristã, podia-se então pensar, como ainda depois, era distante, mas lá se chegava como tantos e tantos agora o provavam. E a Fé daquela Idade Média fazia encurtar as distâncias, arrefecer as brasas dos desertos, matar a sede e a fome dos caminhantes.
Togan Timur Ukhagatu, o último mongol que dominou o “Cataio”, mandava luzida embaixada a Roma, em 1338, a impetrar a bênção papal. Também pedia a Bento XII cavalos daquelas terras do Ocidente! Então se soube que Montecorvino tinha morrido oito anos antes. O mundo ainda estava bem separado e distante!
Logo outra missão franciscana seguia, composta de cinquenta talvez e levando a capitaneá-la Fr. João de Malignolli, um florentino. Em 1342 chegava a Khanbalik e por aquelas regiões se manteve durante quatro anos de fecundo labor cristão. Mas aqui terminavam as esperanças e anseios dos monges de Assis e do mundo católico. ‘O Grão-Cataio’ ia ser desligado do Ocidente com a queda dos Mongóis; daquele exército sem armas que Marco Polo tinha, sem o saber, arrastado àquelas distâncias, desde Montecorvino a Marignolli, cerca de cinquenta e cinco anos de esforços e de triunfos, poucas notícias chegaram aos tempos da “Cruzada Portuguesa”.

Segundo Moule, considerado a maior autoridade no assunto, seguido de perto por D'Elia, talvez o maior sinólogo do nosso tempo, o motivo está em que a obra missionária de então foi sobretudo realizada entre os não-chineses do “Cataio”. Cristãos vivendo por ali, mas pouquíssimos os da raça nativa.
Para esses se iniciou a nossa grande obra do Padroado. Até lá, tinha-se apenas escrito a Introdução do Cristianismo na China». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. Parte 4. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «Eis o Cataio que o Veneziano mostrava à faminta “arraia miúda” do Ocidente empobrecido, à alma de Cruzada da Cristandade. Lido e relido o livro famoso; foi-se gravando na memória, foi acendendo ambições»

Cortesia de europaamerica

O Cataio
«Oiçamo-lo também nós, com o pensamento posto no Portugal de Quatrocentos:
  • 'Por toda a província de Cathay som achadas hüas pedras negras que sacam ou talham dos montes e lançadas no foguo ardem assi como lenha e tem fogo per grande tempo despois que som açesas que certamente se as açenderem a tarde ellas guardam ho fogo toda a noite nom embarguando que em aquella prouincia ouuesse muita lenha empero daquellas pedras husam pela mayor parte porque a lenha he mais cara'.
Contava da sábia administração de Kubilai, dos seus plantios de arvoredo por todo o Cataio, da caça que lhe era devida em certo período do ano, mas demorava-se, extasiado e saudoso, descrevendo as belezas sem par da cidade e palácio de Khanbalik:
  • «A cidade de Cambalu esta sobre huü grande ryo em a prouincia de Cathayo a qual outro tempo foi nobre e real. Cambulu em nossa lingoa quer dizer a cidade do senhor…»
Mas se a capital do grande Khan era soberba e imensa, azafamada e colorida, onde se juntavam mercadores dos vários cantos do império e a faustosa corte do mongol, o paço senhorial, onde residia Kubilai, assombrara aquele veneziano que vinha da terra esplendorosa dos Doges. Nunca ele vira palácio de tão grandes dimensões. Era apenas de um piso mas elevado sobre jardins que o rodeavam e circundado de terraços revestidos de mármore e amparados por soberba balaustrada.

Davam-lhe ingresso duas majestosas escadarias de cada lado e penetrava-se logo em salões recamados de oiro e prata, decorados com pinturas de donas e cavaleiros, de dragões, de animais e pássaros da heráldica e mitologia. Cobriam-no telhados coloridos de vermelhão, verde, azul, amarelo. Era toda a riqueza policrómica do Oriente a atrair, a dominar, a alma simples daquele cristão de Veneza.

Cortesia de europaamerica

Kubilai, o grande Khan, aparecera-lhe, como numa visão, trajando sedas recamadas de pérolas e pedras preciosas, rodeado dos seus doze mil barões e cavaleiros, revestidos à mesma moda e na mesma riqueza. E Polo, o joalheiro, logo ali avaliara que alguns daqueles grandes senhores traziam sobre si jóias que valeriam mais de 10 000 besantes de oiro.
Eis o Cataio que o Veneziano mostrava à faminta “arraia miúda” do Ocidente empobrecido, à alma de Cruzada da Cristandade. Lido e relido o livro famoso; ouvido, repetido e exagerado no palrar à lareira dos casais miseráveis e dos castelos senhoriais, foi-se gravando na memória, foi acendendo ambições.

Cristóvão Colombo anotava-o na sua edição latina; e ao Infante de Sagres não lhe teriam tremido as suas mãos fortes quando lera o manuscrito que seu irmão das “Sete Partidas” trouxera para Portugal?
Seria altamente interessante provar à luz de documentos, se documentos houvesse, o grau de influência que o livro de Marco Polo exercera nas “Descobertas Portuguesas”. Mas não duvidemos que a teve, mesmo sem fontes coevas a corroborarem o asserto. São as próprias anotações de Colombo a mostrá-lo à evidência, se dela carecêssemos. Como não havia de influir esse foco luminoso em almas já preparadas, pelo misticismo, para grandes empresas!? Ardia-se em ansiedade por expandir a Fé, por subjugar o infiel ameaçador e feroz, por conhecer o desconhecido. Havia imperiosa necessidade material de cortar o anel de ferro com que o Ocidente ia sendo asfixiado.

Introdução ao Cristianismo no Cataio
As “viagens de Polo” tiveram da parte do Ocidente uma pronta resposta. Se a «estrada de seda» fora de há muito cortada, abria-se agora a «estrada missionária». O Veneziano tinha sido o seu grande construtor. Numa Europa gasta e empobrecida, a primeira reacção e aquela que ficaria a dominar o empreendimento foi de natureza espiritual. Do lado dos nestorianos orientais, os adoradores da Cruz, houve mais talvez que curiosidade, interesse em conhecer o chefe daqueles outros cristãos, que habitava Roma e a quem chamavam o papa.

Cortesia de europaamerica

Assim veio, em 1287, Bar-soma aos centros do catolicismo. Trazia como missão conseguir uma aliança contra os mamelucos do Egipto. Visitou Constantinopla e chegou a Roma quando o Consistório estava reunido para eleger novo pontífice, a sede de Pedro vagara pela morte de Honório IV. Esteve em Paris, onde admirou a sua velha universidade. Foi recebido pelo rei Eduardo I na Gasconha. Voltou a Roma, onde comungou das mãos do novo papa Nicolau IV e celebrou ao rito nestoriano.
Poucos anos volvidos, em 1291, o pontífice enviava às terras já famosas do Cataio, em missão puramente missionária, Fr. João de Montecorvino. Corneçava-se a escrever a verdadeira ‘Introdução’ ao Cristianismo na China, que teria como cinzelador incomparável do seu primeiro e mais brilhante capítulo um pequeno país do extremo ocidental da Èuropa, chamado Portugal, que por essa altura, completada a unidade territorial, estava moldando a sua alma para o magno empreendimento da História do Mundo.

Fr. João de Montecorvino, segundo se presume, nascera em Montecorvino Rovella, perto de Salerno, em 1247, precisamente no ano em que Carpine chegava à Europa da sua viagem pelo Oriente. Não é estranha a coincidência de ver o facho de luz cristã passar assim de mão em mão entre aqueles franciscanos? Montecorvino era também um menorista e já tinha estado na Pérsia e na Arménia quando recebeu tão alto mandato do sumo pontífice, cristianizar o Cataio. Em 1249, depois duma viagem longa e trabalhosa, chegava a Khanbalik, «a cidade do rei», que tanto impressionara Marco Polo». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

sábado, 19 de novembro de 2011

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. Parte 3. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «Que deslumbramento não haveria ao percorrerem-se, ao ouvirem-se, aquelas páginas em que Polo, pela primeira vez, desvendava ao Ocidente as virtudes mágicas do carvão, “das pedras que ardem assim como a lenha”»

Cortesia de europa-america

O Cataio
«Carpine mencionara o Cataio, Rubruk identificava-o com Seres; mas a divulgação do antigo reino dos Kitans, no mundo ocidental, foi realizada por Marco Polo na sua descrição famosa das riquezas do Oriente.
Reinava Kubilai Khan, que elevara a dinastia ao seu mais alto esplendor. Os seus domínios estendiam-se desde o mar Negro às margens do pacífico. Desceram as suas hostes do Cataio para impor a lei ao Sul Chinês, onde a dinastia Sung lhe tinha de ceder o passo. Era este imenso império, atulhado de riquezas sem medida, que Polo fora encontrar, encetando novo período de contacto entre os dois mundos e revelando, a uma Europa gasta e empobrecida, novas possibilidades de se engrandecer. Assim descrevia o Veneziano, na versão que tanto impressionara os portugueses, «a grandeza e poderio de Cublay muy grande rey dos Tartaros... cujo poderio se demostra ser mayor em riquezas e senhorios de Terra e de presidençia de multidom de pouoos, que nenhuü outro rey ou principe de que todos os tempos passados seja contado...».

Cortesia de wikipedia

O relato era cheio de pormenores atraentes que possivelmente deixariam em dúvidas os letrados, mas que encheria de esperanças a “gente de algo”, na mira de poder, um dia, aumentar não só a fazenda como o lustre da estirpe; e sobretudo a massa plebeia, de imaginação escaldante, ansiosa de aventura para se livrar à vida esforçada no amanho das terras do seu Senhor, à faina árdua da pescaria costeira, à guerra em que era apenas o pião que de peito aparava as primeiras lançadas. O sonho do Oriente começava a despontar.
Marco Polo seria então considerado o demónio tentador? Se tais reinos existiam, prenhes de riquezas como ele os apresentava, eram também largos campos para a sementeira cristã, pois o Veneziano, confirmando Carpine e Rubruk, contava que aquele mundo era infiel mas em parte tocado da heresia nestoriana.

NOTA: Capítulo LXIII, Livro I da edição portuguesa. «…Depois destas cinco jornadas he achado ho regno de Eguermul ho qual he na grande prouincia de Taanguth e he sogeyto ao senhorio do gran Cham. Alli há christãos nestorianos e ydolatras. […] Na prouincia de Catayo, empero primeyro acham a cidade a que chamam Singuy. Tributaria ao Gran Cham onde outrosy há christaãos nestorianos e ydolatras e outros que adoram a Mafomede».

Não podia haver impedimentos, era nova “cruzada” que se ia preparando na alma cristã de todos, na ambição e sonho de muitos.
Que deslumbramento não haveria ao percorrerem-se, ao ouvirem-se, aquelas páginas em que Polo, pela primeira vez, desvendava ao Ocidente as virtudes mágicas do carvão, «das pedras que .ardem assim como a lenha».
In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. Parte 2. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «É presumível que a seda chinesa fosse conhecida da Ásia Meridional e por intermédio desta em Roma e na Grécia com o nome de “sir”. “Seres” era o nome da grande nação como era conhecida por terra no Extremo Oriente; “Sinae” como era conhecida por mar. Mas sempre se imaginou que “Cataio” e “Seres” eram dois países distintos»

Cortesia de europaamerica

O Cataio
Durante cerca de três séculos as províncias do Norte da China foram ocupadas por povos estrangeiros, primeiro que todos os “Kitans” (937-1125), pré-mongólicos ou tungus que vinham das regiões baixas do Sungari, no Sudoeste da Manchúria e Sueste da Mongólia. Foi no final da dinastia Tang que esses nómadas e guerreiros começaram a penetrar na China Setentrional, ocupando finalmente, em 947, a chave daquelas regiões, que depois se haviam de chamar Pequim. Organizaram-se, dominaram e foram conhecidos no Extremo Oriental como a “dinastia Liao”. Mas o que deles nos pode interessar, mais que as suas riquezas acumuladas em períodos de paz e as suas manadas de cavalos, foi o terem dado o nome que por largas décadas foi conhecido no Ocidente a China milenária, Khitai, Khata ou Cathay e que nós portugueses chamámos Cataio, ou Grão-Cataio. Assim o nome se foi espalhando pelos povos vizinhos e a todo o mundo oriental, ficando até nossos dias na língua ds alguns dos países que o compõem, para designar a China como um todo. À Europa chegou pela primeira vez na preciosa “Historia Mongolorum” e noutros escritos em que o franciscano João da Pian di Carpine dava conta ao papa da sua arriscada missão nas imensas terras dos Khans.

Os mongóis ameaçavam o Ocidente; e Inocêncio IV, poucos anos volvidos sobre a sua eleição, propunha-se ir de encontro ao perigo para tentar arredá-lo. Tinham-lhe chegado imprecisas notícias da existência de tribos cristãs entre eles. Era necessário dividi-las dos seus irmãos de sangue que professavam noutra crença. Mas para tal havia que encontrá-las.

Cortesia de europaamerica

Foi escolhido como mensageiro do soberano pontífice o monge de S. Francisco, João da Pian di Carpine, que partia nos fins de 1244 acompanhado de frei Bento de Polónia, com credenciais para o “Supremo Khan” e instruções precisas de pregar a Fé de Cristo aos infiéis, de saber quais as suas intenções sobre a Europa e de procurar os cristãos do Oriente cuja existência se suspeitava.
Dessa longa e trabalhosa viagem, tão vazia de resultados, trazia Carpine uma mão-cheia de novidades à Roma papal e ao mundo cristão; e pela primeira vez havia referências ao distante Cataio na forma de “Kytai”. Mas era um nome vago dum reino entre outros muito apontados. O “Supremo Khan”, Kuyuk, grande e poderoso como os maiores do seu sangue, Kubilai, Genghis, Ogotay e Mangu, respondia ao pontífice tão altivo como mais tarde um outro imperador oriental ao representante do orgulhoso mundo inglês. Escrevia o mongol da sua tenda atapetada:
  • «Deus ordenou aos meus antepassados e a mim próprio que exterminássemos as fracas nações. Perguntais-me se eu sou cristão: Deus o sabe e se o papa também o deseja conhecer, venha para se certificar».
De tribos professando a Fé de Cristo, Carpine apenas encontrara heréticos nestorianos que na China penetraram, segundo a lápida de Sian, em 635 da nossa era.

 
Cortesia de europaamerica

A pressão mongólica sobre o Ocidente continuava a inquietar os mais altos paladinos do Cristianismo; e Luís IX de França, tendo conhecido de perto, em cruzada desastrosa, do valor e força daqueles guerreiros por profissão que, no dizer do seu mensageiro, frei André de Longumeau, tinham na extremidade do Mundo encurralado, em muralhas imensas, o povo de Gog e de Magog, resolveu enviar-lhes novo embaixador. Mais um franciscano partia perante a ansiedade duma Europa atormentada com o perigo do Oriente.
Guilherme de Rubruk, flamengo dos Frades Menores, acompanhado de Bartolomeu de Cremona, partia do Acre em 1252. Também a sua missão não foi coroada de êxito nos fins que tinha em vista. Mas o penetrante franciscano conseguira identificar o Cataio com a “velha Seres”, cujo conhecimento vinha do mundo clássico greco-romano. Fora a seda que trouxera o nome, do Extremo Oriental à Roma pagã, por caminhos que os mercadores percorriam, cruzando estepes, desertos e montanhas, para prazer das matronas da antiguidade.

Plínio o Velho escrevia:
  • «Assim havia que atravessar a Terra desde os seus confins para que as donas de Roma pudessem mostrar os seus encantos, envoltos em tecidos transparentes».
Mais tarde a grande estrada de seda havia de ser interrompida por convulsões na Europa e em toda a Ásia. Mas o nome do “país de Seres” não fora mais esquecido entre a latinidade.

Nota: O mundo clássico grego-romano conhecia na Ásia um país chamado “Serica”, habitado pelos “Seres”. O carácter chinês que significa “seda” pronunciava-se antigamente “sir”. É presumível que a seda chinesa fosse conhecida da Ásia Meridional e por intermédio desta em Roma e na Grécia com o nome de “sir”. “Seres” era o nome da grande nação como era conhecida por terra no Extremo Oriente; “Sinae” como era conhecida por mar. Mas sempre se imaginou que “Cataio” e “Seres” eram dois países distintos. A seda deve ter aparecido em Roma no 1º século antes de Cristo através de Seleucia no Tigre e Antioquia. Na Europa imaginava-se que ela crescia nas árvores e, naturalmente, os chineses não o desmentiam.
In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.
Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Eduardo Brazão. Em Demanda do Cataio. Parte 1. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. «Partia em 1425 com Álvaro Vaz de Almada e alguns homens de armas. Visitou a Inglaterra, onde o rei Henrique VI o cobriu com o manto azul da Jarreteira, em preito de homenagem, passou depois à Flandres, hóspede do duque de Borgonha»

Cortesia de europaamerica

O Livro de Marco Polo em Portugal
«Na relação dos livros de D. Duarte que o códice da Cartuxa Eborense contém lê-se esta singela rubrica – “Marco Paulo latim e lingoagens em hum volume”.

Tratava-se, certamente, da versão latina do frade Francisco Pipino e duma tradução apensa, talvez do próprio punho do infante D. Pedro, o das “Sete Partidas”, que, segundo o dizer da Lisboa quinhentista, refere-o o editor Valentim Fernandes, trouxera de Veneza, como uma jóia rara, o precioso manuscrito. Guardado avaramente no Tombo Real, já no tempo de D. Manuel andava vestido das melhores galas, «Outro liuro de letra de pena que se chama Marco Paulo coberto de veludo cremesym com duas brochas de prata anylada».
Embora na Veneza do século XIII o descritivo desse viajante sem par deixasse bastantes almas incrédulas e sorrisos na passagem, que se traduziam no epíteto sarcástico de “Messer Marco Milioni” e da “Corte del Milione”, que veio até nossos dias, ele, no entanto, abria numa Europa ascética um fundo sulco de incontida ambição quase pagã. Marco, o joalheiro, trouxera as mãos cheias de rubis de Ceilão, vermelhos de sangue palpitante, «de fogo ardente» e ainda de safiras da cor do Céu, de topázios chispando como oiro polido, de ametistas de does tonalidades de violeta; também brilhantes de Motupallé a que ele chamou Morfili, pérolas da lagoa de Cayndu, que muitos hoje supõem ser certo rio de Yu-nam. Deslumbravam as raras peças de porcelana vindas de Zayton como lhe chamou, talvez King-tê-chên no Kiangsi, e as sedas incomparáveis de Shan-si.

Vinte e seis anos se ausentara Marco Polo, seu pai Nicolau e seu tio Mafeu da corte esplendorosa dos Doges. Mas ao atirar sobre a mesa do banquete festivo esse punhado de cintilações, demonstrava aos parentes duvidosos que ele e os outros dois tinham sido, na realidade, os caminheiros incansáveis dos desertos da Pérsia, das estepes do Pamir, das montanhas do Tibet. Haviam estado na corte de Kubilai Khan, percorrendo o “Cataio”, a Mongólia, Burma, Sião, Samatra, Java, Ceilão, as Índias... E mais do que a prova, muito mais certamente, Marco Polo começava a desdobrar nesse momento, à Europa Medieval, a carta imensa dos fabulosos reinos da Ásia.

Cortesia de leilao

O relato das viagens do Veneziano, feitas 1ogo à sua chegada aos que se aproximavam para ouvir, foi ditado depois por ele, na prisão de Génova, quando vencido e cativo em guerra das duas Repúblicas rivais. Fora um certo “Messire Rustacians de Pisa”, Rusticiano ou Rustichello, que alguns pretendem identificar com um compilador dos romances da Távola Redonda, que pusera em escrita e na língua francesa. «in vulgari gallico», as “Viagens” que se tornariam famosas. A ele se deve, quase anónimo prisioneiro,.não terem ficado apenas na memória dos ouvintes de Marco o descritivoduma grande aventura que ia lançar a Europa noutra maior ainda.

Henri Cordier, nas preciosas notas com que completou a obra monumental de Yule, dá como conhecidos 85 manuscritos das viagens, recolhidos hoje nas bibliotecas e arquivos da Europa. A obra espalhara-se assim pelos quatro cantos do Velho Continente, acendendo chamas altas em tantos corações. E desde 1477, em Nuremberg os novos prelos foram-na editando, sendo a do nosso Valentim Fernandes a sexta na cronologia geral. D. Pedro, companheiro de seu pai, D. João I, na conquista de Ceuta, pertencia a essa geração de “ínclitos infantes” que abriram em Portugal o maior capítulo da sua História.

Tipo inglês, por ascendência materna, como o descreve Rui de Pina, tinha no sangue todo o borbulhar da seiva lusíada. A ansiedade de descobrir horizontes novos, a paixão de projectar o acanhado país cujos limites tinham sido traçados no solo pela espada forte dos primeiros Afonsos, a intuição genial de quebrar um horizonte estreito e de o prolongar em volta dum Mundo então desconhecido, levaram-no a partir no intuito próximo que foi apanágio e glória de Portugal, combater o infiel, projectar a Cruz nas terras pagãs, defender o Credo que era a alma da maior civilização que o Mundo ainda até, hoje conheceu. Ia oferecer os seus braços fortes de guerreiro, já baptizados em lutas africanas, ao imperador Segismundo da Hungria e da Boémia, que vinha sendo ameaçado pelo Turco.

 
Cortesia de leiloes

Partia em 1425 com Álvaro Vaz de Almada e alguns homens de armas. Visitou a Inglaterra, onde o rei Henrique VI o cobriu com o manto azul da Jarreteira, em preito de homenagem, passou depois à Flandres, hóspede do duque de Borgonha. Em 1427 estava na companhia do imperador, batendo-se como qualquer português de então o sabia. Mas, pouco depois, talvez naquela fraqueza tão nossa no perseverar, abandonava o exército e renunciava ao Ducado de Treviso em que tinha sido investido. Foi para Veneza em 1428, visitava pouco depois, em Roma, o papa Martinho V. Dirigiu-se, em seguida, a Barcelona, e em Setembro desse ano já estava de regresso à Pátria. Trazia o infante na sua bagagem, como se presume, o famoso manuscrito do Veneziano e certamente também na alma o apoio e incitamento à obra de seu irmão Henrique, que em Sagres, rodeado de cartógrafos, procurava lançar Portugal para o primeiro plano da História do Mundo.
Ele fora, na sua viagem pelas “Sete Partidas”, a encarnação da alma ardente da aventura que se preparava.

D. Henrique era o cientista que que ía tornar possível o grande sonho, na certeza dos cálculos e em altas aspirações da mais pura espiritualidade cristã. Poderia ter sido indiferente à obra do Infante de Sagres a revelação oriental de Polo?». In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT