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segunda-feira, 15 de maio de 2023

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin. «.Nos anos que se seguiram o rei procurou obstinadamente obter o original de Les Bergers d'Arcadie, de Poussin. Quando finalmente conseguiu, guardou o quadro em seus apartamentos privados, em Versalhes»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mistério. A Intriga

«(…) Como talvez fosse de se esperar, após a exibição do filme recebemos um dilúvio de cartas, elogiosas ou excêntricas. Algumas ofereciam  intrigantes sugestões. Uma delas, que o autor não desejava ver publicada, parecia merecer especial atenção. O missivista era um padre anglicano aposentado que parecia ser um curioso e provocador non sequitur. Escreveu com certeza e autoridade categóricas, com asserções claras e objectivas, sem titubeios, e com aparente descaso por acreditarmos ou não no que dizia. O tesouro, declarou sem escândalo, não envolvia ouro ou pedras preciosas. Era, ao contrário, uma prova irrefutável de que a crucificação havia sido uma fraude e que Jesus vivera até 45 d.C.

Isso soou, evidentemente, absurdo. O que seria, mesmo para um ateu convicto, uma  prova irrefutável da sobrevivência de Cristo à crucificação? Éramos incapazes de imaginar algo crível que pudesse constituir não somente prova, mas, além disso, fosse irrefutável. Ao mesmo tempo, a abrupta extravagância da afirmação pedia esclarecimentos.

Como o autor da carta havia fornecido endereço para retorno, na primeira oportunidade fomos vê-lo para tentar uma entrevista. Ele foi muito mais reticente no contacto pessoal. Aparentou arrependimento por nos haver escrito. Recusou-se a desenvolver sua referência à prova irrefutável e só ofereceu um fragmento adicional de informação. A prova, ou sua existência, havia sido revelada a ele por outro clérigo anglicano, Alfred Leslie Lilley.

Lilley, que morreu em 1940, havia publicado muito e não era desconhecido. Durante a maior parte de sua vida, mantivera contatos com  o Movimento Modernista Católico, baseado principalmente em Saint Sulpice, em Paris, e conhecia Emile Hoffet.

A trilha tornou-se circular, mas a conexão entre Lilley e Hoffet nos impedia de rejeitar sumariamente as afirmações do nosso missivista. Evidências similares de um segredo monumental haviam surgido durante nossa pesquisa sobre a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII, cujo nome reaparecia ao longo da história de Saunière. Em 1656, Poussin, que vivia em Roma, teria recebido uma visita do abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, superintendente de finanças de Luís XIV da França. De Roma, o abade despachara uma carta a seu irmão, descrevendo sua visita a Poussin. Parte desta carta merece menção. Nós discutimos certas coisas que devo sem óbice ser capaz de explicar-lhe em detalhes,  coisas que lhe darão, através do Senhor Poussin, vantagens que mesmo reis teriam dificuldades em obter e que, segundo ele, é possível que ninguém mais venha a redescobrir nos próximos séculos. São coisas tão difíceis de descobrir que nada sobre a Terra, hoje, pode significar melhor ou igual fortuna.

Nenhum historiador ou biógrafo de Poussin ou Fouquet explica esta carta, que se refere claramente a um assunto misterioso de imensa importância. Logo depois de recebê-la, Nicolas Fouquet foi detido e encarcerado por toda a vida. Segundo alguns relatos, foi mantido incomunicável,  alguns historiadores o vêem como o provável Homem da Máscara de Ferro. Toda sua correspondência foi confiscada por Luís XIV, que a  inspecionou pessoalmente. Nos anos que se seguiram o rei procurou obstinadamente obter o original de Les Bergers d'Arcadie, de Poussin. Quando finalmente conseguiu, guardou o quadro em seus apartamentos privados, em Versalhes.

Embora de grande qualidade artística, o quadro é aparentemente ingénuo. Três pastores e uma pastora, em primeiro plano, estão reunidos em volta de uma grande e antiga tumba, contemplando a inscrição na pedra envelhecida: ET IN ARCADlA EGO. No fundo vislumbra-se uma paisagem montanhosa, irregular, do tipo geralmente associado com Poussin. Segundo Anthony Blunt e outros especialistas em Poussin, essa paisagem é totalmente mística, produto da imaginação do pintor. Entretanto, no início dos anos 70, uma tumba real foi localizada, idêntica àquela do quadro,  idêntica em cenário, dimensões, proporções, forma, vegetação e até mesmo» In Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento,

domingo, 14 de maio de 2023

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin. «Não houve qualquer especulação sobre a existência de um segredo explosivo ou de chantagem em altas esferas. Vale mencionar que o filme não citava o nome de Emile Hoffet, o jovem seminarista…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mistério. Os Possíveis Tesouros

«(…) Mais de três séculos depois, em 410 d.C., Roma foi por sua vez saqueada. Invasores visigodos, liderados por Alaric, o Grande, pilharam toda a riqueza da Cidade Eterna. Segundo o historiador Procopius, Alaric escapou  com os tesouros de Salomão, rei dos hebreus, maravilhas aos olhos, pois eram em sua maioria enfeitados de esmeraldas e haviam  sido roubados de Jerusalém  pelos romanos. Um tesouro poderia então ser a fonte da inexplicável fortuna de Saunière. O padre poderia ter descoberto um dos vários tesouros, ou um único que mudara de mãos repetidamente através dos séculos, passando talvez do Templo de Jerusalém aos romanos, depois aos visigodos e finalmente aos cátaros e/ou  aos templários.

Estaria explicado o facto de o tesouro pertencer a Dagobert II e a Sion. Até aí nossa história parecia ser essencialmente uma história de tesouros. Como tal - mesmo envolvendo o Templo de Jerusalém, seria de relevância limitada. Pessoas estão constantemente descobrindo tesouros de um tipo ou de outro. São, com frequência, descobertas excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam  importantes luzes sobre o passado. Poucas, no entanto, exercem  alguma influência directa, de ordem política ou não, sobre o presente,  a menos, é claro, que o tesouro em questão inclua um segredo de algum tipo, possivelmente explosivo.  Nós não eliminamos a possibilidade de Saunière haver descoberto um tesouro. Ao mesmo tempo, parecia claro que, além de qualquer outra coisa, ele descobrira também um segredo histórico de imensa importância no seu tempo, e talvez no nosso. Dinheiro, ouro ou jóias  não explicariam, por si mesmos, muitas facetas de sua história. Não levariam  à sua introdução no círculo de Hoffet, por exemplo, à sua associação com Debussy ou à sua relação com Emma Calvé. Não explicariam o imenso interesse da Igreja  no assunto, a impunidade com a qual Saunière desafiara o bispo ou sua subsequente exoneração pelo Vaticano, que pareceu mostrar uma preocupação urgente com o caso. Não explicariam a recusa de um padre em ministrar a extrema-unção a um moribundo, ou a visita de um arquiduque de Habsburgo a uma longínqua cidadezinha dos Pirinéus, especialmente numa ocasião, em 1916, em que seu país estava em guerra com  a França. Dinheiro, ouro ou jóias tampouco explicariam a poderosa aura de mistificação que envolveu todo o caso, desde os códigos sofisticados até a queima, por Marie Denarnaud, de sua herança em dinheiro. E a própria Marie prometera divulgar um segredo que conferia não só fortuna, mas poder .

Na medida em que as informações se acumulavam, ficávamos cada vez mais convencidos de que a história de Saunière envolvia, além de riqueza, um segredo polémico. Por outras palavras, pareceu-nos que o mistério não estava confinado a um remoto e isolado vilarejo e a um padre do século XIX. Algo irradiava de Rennes-le-Château e produzia ondas, talvez mesmo uma enchente, no mundo exterior.

Teria a fortuna de Saunière vindo não de algo com valor intrinsecamente financeiro, mas do conhecimento de alguma coisa?

Se este era o caso, poderia tal conhecimento ter-se traduzido em bens materiais? Poderia ter sido utilizado em chantagem, por exemplo? Seria a fortuna de Saunière oriunda do pagamento pelo seu silêncio?

Nós soubemos que ele recebera dinheiro de Johann Von Habsburgo.

Ao mesmo tempo, o segredo do padre, qualquer que fosse, parecia ser de natureza mais religiosa que política. Além disso, suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todos os relatos, era marcadamente cordial. Por outro lado, no final de sua carreira o Vaticano ameaçava-o com  luvas de veludo e parecia bastante temeroso dele. Estaria Saunière chantageando o Vaticano? Tal chantagem  seria tarefa presunçosa e arriscada para um homem, qualquer que fossem suas precauções. E se ele estivesse sendo ajudado e apoiado por outros, cuja importância os tornasse invioláveis, tais como os Habsburgo? E se o arquiduque Johann fosse apenas um intermediário, e o dinheiro fornecido por ele a Saunière proviesse, na realidade, dos cofres de Roma?

O Mistério. A Intriga

O primeiro de nossos três filmes sobre Saunière e o mistério de Rennes-Ie-Château, O tesouro perdido de Jerusalém,  foi exibido em Fevereiro de 1972. Não usava argumentos polémicos.

Simplesmente, narrava a história básica, tal como foi contada nas páginas anteriores. Não houve qualquer especulação sobre a existência de um segredo explosivo ou de chantagem em altas esferas. Vale mencionar que o filme não citava o nome de Emile Hoffet, o jovem  seminarista parisiense a quem Saunière confidenciou  seus pergaminhos».  In Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento, 

sábado, 13 de maio de 2023

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin. «Outros tesouros existiram. Entre os séculos V e VIII, grande parte da França foi governada pela dinastia merovíngia, que incluía o rei Dagobert II. Rennes-le-Château, no tempo de Dagobert, era um baluarte visigodo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mistério. Os Possíveis Tesouros

«(…) Nos tempos pré-históricos, por exemplo, a área ao redor de Rennes-Ie-Château era considerada sítio sagrado pelas tribos celtas que viviam por perto. A cidade em si, antes chamada Rhédae, deriva seu nome de uma  dessas tribos. Nos tempos modernos, uma comunidade grande e promissora ocupara a área, importante por suas minas e fontes termais terapêuticas. Os romanos também  consideravam sagrado o local. Mais tarde, pesquisadores ali encontraram  traços de templos pagãos.

Durante o século VI, o pequeno vilarejo pendurado no topo da montanha possuía presumivelmente 30 mil habitantes. Ele parece ter sido, em determinada época, a capital nortista do império dos visigodos, o povo teutónico que varreu a Europa de centro a oeste, saqueou Roma, derrubou o Império Romano e estabeleceu  seu  próprio domínio cavalgando sobre os Pirinéus.

A cidade permaneceu  como sede de uma importante região, ou condado, o Condado de Razès, por mais quinhentos anos. No início do século XIII, uma armada de cavaleiros do norte desceu  pelo Languedoc para exterminar as heresias cátaras e albigenses e requisitar  para si os ricos espólios da região. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-le-Château foi  tomada e transferida de mão em mão, como um domínio. Após pouco mais de um século, por volta de 1360, a população local foi dizimada por uma peste; logo depois, Rennes-le-Château foi destruída por bandos catalães.

As lendas de tesouros fantásticos são entremeadas por essas vicissitudes históricas. Os hereges cátaros, por exemplo, eram considerados possuidores de alguma coisa de valor fabuloso e mesmo sagrado que, segundo várias lendas, era o cálice sagrado.

Estas lendas, segundo relatos, teriam  impelido Richard Wagner a peregrinar até Rennes-le-Château antes de compor sua última ópera, Parsifal; durante a ocupação de 1940-1945, época em que Wagner foi muito popular, as tropas alemãs teriam  realizado inúmeras escavações infrutíferas nas vizinhanças. Havia também o tesouro desaparecido dos templários, cujo grão-mestre, Bertrand de Blanchefort, teria organizado misteriosas escavações nas vizinhanças. Segundo todos os relatos, essas escavações eram de natureza marcadamente clandestina, realizadas por contingentes de mineiros alemães trazidos especialmente para este fim. Algum tipo de tesouro de templários, guardado ao redor de Rennes-le-Château, explicaria a referência a Sion no pergaminho descoberto por Saunière.

Outros tesouros existiram. Entre os séculos V e VIII, grande parte da França foi governada pela dinastia  merovíngia, que incluía o rei Dagobert II. Rennes-le-Château, no tempo de Dagobert, era um baluarte visigodo, e o próprio Dagobert foi casado com uma princesa visigoda. A cidade poderia ter constituído algum tipo de tesouro. Há documentos que falam da grande riqueza acumulada por Dagobert e guardada nos arredores de Rennes-le-Château, visando conquistas militares. A descoberta de algum desses depósitos por Saunière explicaria a referência a Dagobert nos códigos.

Os cátaros. Os templários. Dagobert lI. E ainda um tesouro, produto de saques acumulados pelos visigodos durante seus avanços tempestuosos pela Europa. Tal tesouro poderia incluir mais que o resultado de saques convencionais,  possivelmente, artigos de relevância, tanto simbólica quanto literal, para a tradição religiosa ocidental. Em resumo, o legendário tesouro do Templo de Jerusalém poderia estar aí incluído,  o qual, ainda mais que os templários, explicaria a referência a Sinai.

Em 66 d.C., a Palestina ergueu-se em revolta contra o jugo romano. Quatro anos depois, em 70 d. C., Jerusalém foi arrasada pelas legiões do imperador, sob o comando de seu filho Titus. O Templo foi saqueado, e o conteúdo do lugar mais sagrado dos sacros foi levado para Roma. Conforme descrição no arco triunfal de Titus, este conteúdo incluía o imenso candelabro de sete braços, tão sagrado ao judaísmo, e possivelmente a Arca da Aliança». In Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento, 

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin. «Haveria uma explicação banal? Ou envolveria alguma coisa mais excitante? Esta segunda possibilidade deixava entrever um aspecto fascinante do mistério, e nós não podíamos resistir ao impulso de brincar de detectives»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mistério. Rennes-le-Chateau e Berenger Saunière

«(…) No dia 17 de Janeiro de 1917, Saunière, então com 65 anos, sofreu um derrame cerebral. A data de 17 de Janeiro talvez seja suspeita, pois também aparecia na tumba da marquesa de Hautpoul de Blanchefort, a tumba que Saunière havia erradicado. E 17 de Janeiro é também a festa de Saint Sulpice, que reapareceria através de toda a nossa história. Foi no seminário de Saint Sulpice que ele confiou seus pergaminhos ao abade Bieil e a Emile Hoffet. O que torna o derrame de Saunière em 17 de Janeiro mais suspeito é o facto de, cinco dias antes, em 12 de Janeiro, seus paroquianos terem declarado que ele parecia estar gozando de uma saúde invejável para um homem de sua idade. Entretanto, em 12 de Janeiro, segundo um recibo que está connosco, Marie Denarnaud encomendou um caixão para seu mestre.

Quando Saunière estava em seu leito de morte, o padre de uma paróquia vizinha foi chamado para ouvir sua última confissão e administrar a extrema-unção. O padre chegou e confinou-se no quarto do doente. De acordo com testemunhas oculares, ele saiu logo depois, visivelmente chocado. Nas palavras de algumas testemunhas, nunca mais sorriu. Nas palavras de outras, caiu numa depressão profunda que durou vários meses. Se são afirmações exageradas não sabemos, mas o padre, presumivelmente com base na confissão de Saunière, recusou-se a administrar-lhe o último sacramento.

Em 22 de Janeiro Saunière morreu sem o perdão da confissão.

Na manhã seguinte seu corpo foi colocado verticalmente numa poltrona no terraço da Torre Magdala, envolto numa indumentária enfeitadas de pingentes com franjas escarlate. Certas pessoas compadecidas e não identificadas desfilaram, uma a uma, muitas delas arrancando franjas dos pingentes como lembrança do morto.

Nunca houve qualquer explicação para tal cerimónia. Confrontados com ela, residentes actuais de Rennes-Ie-Château ficam tão aturdidos como qualquer outra pessoa.

A leitura do testamento de Saunière foi esperada com grande ansiedade. Para surpresa geral, contudo, ela revelou que não tinha nenhum  tostão. Algum tempo antes de sua morte, aparentemente, transferira sua fortuna para Marie Denarnaud, que compartilhara de sua vida e de seus segredos por 32 anos. Ou talvez a maior parte daquela fortuna tenha estado em seu nome desde o início. Depois da morte de seu mestre, Marie continuou a viver confortavelmente em VilIa Bethania até 1946. Depois da Segunda Guerra Mundial, entretanto, o governo francês recém-instalado estabeleceu uma nova moeda. Como meio de apreender sonegadores de impostos, colaboradores e especuladores do tempo da guerra, os cidadãos franceses eram obrigados a declarar seus rendimentos quando trocavam francos velhos por novos.

Confrontada com a perspectiva de ser obrigada a dar explicações, Marie escolheu a pobreza. Foi vista no jardim da mansão, queimando maços de notas de francos velhos.

Durante os sete anos seguintes, Marie viveu de forma austera, mantendo-se com o dinheiro obtido da venda de ViIla Bethania. Prometeu confiar ao comprador, Noel Corbu, antes de morrer, um segredo que o faria não só rico mas também poderoso.

Em 29 de Janeiro de 1953, entretanto, Marie, como seu mestre antes dela, sofreu um súbito e inesperado derrame cerebral que a deixou prostrada em seu leito, incapaz de falar. Para grande frustração do senhor Corbu, ela morreu logo depois, carregando consigo o segredo.

Os Possíveis Tesouros

Em linhas gerais, esta é a história na forma em que foi publicada na França nos anos 60. Foi a forma sob a qual a descobrimos. E foi para as perguntas levantadas por ela que dirigimos nossa pesquisa, do mesmo modo que outros pesquisadores o fizeram.

A primeira pergunta é bastante óbvia. Qual era a fonte do dinheiro de Saunière? De onde poderia vir tão súbita e enorme fortuna?

Haveria uma explicação banal? Ou envolveria alguma coisa mais excitante? Esta segunda possibilidade deixava entrever um aspecto fascinante do mistério, e nós não podíamos resistir ao impulso de brincar de detectives.

Começamos por considerar as explicações fornecidas por outros pesquisadores. Segundo vários deles, Saunière tinha encontrado, na realidade, alguma espécie de tesouro. Uma conclusão plausível, pois a história da cidade e de seus arredores incluía muitas possíveis fontes de ouro e de jóias escondidos». In Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

 JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento,

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin. «Seus paroquianos tampouco foram negligenciados. Saunière lhes presenteava com banquetes sumptuosos e outras generosidades, mantendo assim o estilo de vida de um potentado»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mistério. Rennes-le-Chateau e Berenger Saunière

«(…) Uma parte dessa inexplicada riqueza foi empregada em excelentes obras públicas, a construção de uma rodovia moderna até a cidade, por exemplo, e a introdução de facilidades para água corrente.

Outras despesas foram mais quixotescas. Uma torre foi levantada, a Torre Magdala, com vista para a montanha. Uma opulenta casa de campo foi construída, chamada Villa Bethania, que Saunière pessoalmente nunca ocupou. E a igreja não só foi decorada de novo, como o foi de um modo muito bizarro. No pórtico, acima da entrada, a seguinte inscrição foi gravada:

TERRIBILlS EST LOCUS ISTE. (Este local é terrível). No interior, logo na entrada, foi erigida uma estátua horrenda, uma representação do demónio Asmodeus, detentor de segredos, guardião de tesouros escondidos e, segundo antiga lenda judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas ostensivamente pintadas representavam as estações da Via Sacra.

Cada uma delas era caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe inexplicável, algum desvio, flagrante ou subtil, da narrativa oficial das Escrituras. Na estação VIII, por exemplo, havia uma criança envolta numa capa escocesa. Na estação XIV, que retrata o corpo de Jesus sendo levado à tumba, aparecia um fundo de céu nocturno, escuro, dominado por uma lua cheia. Como se Saunière estivesse tentando dizer algo. Mas o quê? Que o enterro de Jesus ocorreu após o início da noite, várias horas depois do que diz a Bíblia? Ou que o corpo estaria sendo levado para fora da tumba e não para dentro dela?

Enquanto realizava esses adornos curiosos, Saunière continuou a gastar de maneira extravagante, coleccionando porcelana rara, tecidos preciosos e mármores antigos, criando um jardim e um zoológico e reunindo uma biblioteca magnífica. Pouco antes de sua morte ele estava, supostamente, planeando a construção de uma torre como a de BabeI, forrada de livros, de onde pretendia pregar.

Seus paroquianos tampouco foram negligenciados. Saunière lhes presenteava com banquetes sumptuosos e outras generosidades, mantendo assim o estilo de vida de um potentado. No seu remoto e ao mesmo tempo próximo e inacessível ninho de águia, recebia inúmeros hóspedes ilustres. Um deles, é claro, era Emma Calvé.

Outro era o ministro da Cultura do governo francês. Talvez o mais augusto visitante do desconhecido padre provinciano tenha sido o arquiduque Johann Von Habsburgo, um primo de Franz Josef, imperador da Áustria. Extratos bancários revelaram depois que Saunière e o arquiduque haviam aberto contas no mesmo dia, e que este último havia transferido para a conta do primeiro uma soma substancial.

As autoridades eclesiásticas fizeram, no início, olhos de mercador sobre o assunto. Contudo, quando o superior de Saunière morreu, em Carcassonne, o novo bispo tentou chamar o padre à ordem. Saunière respondeu com uma desobediência inesperada e insolente. Recusou-se a explicar sua riqueza e a aceitar a transferência que o bispo ordenava. Na falta de uma acusação mais substancial, o bispo acusou-o de vender missas ilicitamente, e um tribunal local o suspendeu. Saunière apelou para o Vaticano, que o exonerou e depois o reinvestiu». In Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincolin, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

 JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento,

sábado, 22 de abril de 2023

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «Nem a televisão nem as empresas editoriais ficaram cegas para as possibilidades. Desde 1982, vários novos livros foram lançados. Em 1983, The ilIusionist, um romance de Anita Mason, propôs uma perspectiva controversa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 «(…) Ainda assim, há sinais de que a situação começa a mudar lentamente. Pode ser, é claro, que esses sinais sejam enganosos ou ilusórios, e que o pêndulo volte a oscilar em favor da fé simples, e que os frutos dos estudos históricos continuem a ser ignorados ou silenciados. Nesse aspecto, o contágio do fundamentalismo norte-americano é sem dúvida um mau agouro. Seja como for, há no ar diferentes sinais de melhora, numerosos a ponto de corresponder, em escala modesta, a uma espécie de Zeitaeist, um espírito, ou corrente, ou movimento que se espalha pelo mundo.

Durante os anos em que fizemos nossa pesquisa, muitas outras publicações já estavam em circulação, ajudando a criar um clima favorável. Na década de 1970, pelo menos dois romances, um deles um trabalho literário sério, bem-visto pela crítica, partiram da hipótese da descoberta do corpo mumificado de Jesus. Outro romance popular pôs os Evangelhos em questão, sugerindo a existência de um novo corpus de relatos bíblicos de primeira mão, e este livro foi transformado numa minissérie de televisão. Em sua monumental obra Terra nostra, certamente um dos doze mais importantes romances publicados em qualquer língua desde a Segunda Guerra Mundial, o respeitado romancista mexicano Carlos Fuentes descreve como Jesus escapou da morte por meio de uma crucificação fraudulenta, envolvendo um substituto. Pelo menos um romance, Magdalene, de Carolyn Slaughter, apresenta Madalena como amante de Jesus. E Liz Greene, inspirando-se na nossa própria pesquisa, escreveu sobre uma linhagem que descenderia de Jesus em The Dreamer of the Vine, um romance sobre Nostradamus publicado em 1980.

No que diz respeito a trabalhos mais académicos, os manuscritos de Nag Hammadi foram publicados pela primeira vez em tradução inglesa em 1977 e, em menos de dois anos, inspiraram o best-seller de Elaine Pagel, The Gnostic Gospels. Morton Smith, que havia divulgado seus achados sobre a Igreja primitiva em The Secret Gospel, traçou em seguida um controverso retrato de Jesus em Jesus the Magician. Haim Maccoby voltou sua atenção para o Jesus histórico em Revolution in Judaea e o mesmo fez Geza Vermes em obras como Jesus the Jew. A série de estudos que Hugh Schonfield está desenvolvendo sobre a Palestina do século I foi sendo publicada a intervalos regulares ao longo da década de 1970. Num nível teológico, alguns clérigos anglicanos suscitaram considerável controvérsia ao pôr em questão a divindade de Jesus numa coletânea de ensaios, The Myth of God lncarnate. Por fim, merece menção The Jesus ScroIl, da autoria do australiano Donovan Joyce, um livro curioso, sem respaldo nos factos, mas fascinante.

Assim, em 1982, quando O santo graal e a linhagem sagrada foi publicado, as águas já haviam sido agitadas por uma onda recente de elementos relativos ao Jesus histórico. É verdade que muita gente ainda não sabe sequer em que medida, por exemplo, os Evangelhos se contradizem entre si. Ou que há outros Evangelhos além dos que constam do Novo Testamento, que foram excluídos do cânon de maneira mais ou menos arbitrária por concílios compostos de homens obviamente mortais, obviamente falíveis. Ou que a divindade de Jesus foi decidida pelo voto no Concílio de Nicéia, cerca de três séculos depois da morte do próprio Jesus. É verdade também que o fundamentalismo continua fanático nos Estados Unidos. E, como observamos antes, ainda há na Grã-Bretanha pessoas capazes de atribuir um incêndio provocado por um raio em York à ira de Deus provocada pela nomeação de um bispo um tanto boquirroto, como se, em meio à violência, à animosidade, ao preconceito, à insensibilidade e aos perigos do mundo moderno, Deus não tivesse mais nada com que se preocupar, nada de melhor para fazer com Seus recursos. E quando esse mesmo bispo faz uma declaração tão óbvia, tão corriqueira, como a de que a Ressurreição não pode ser cabalmente provada, ainda há quem grite blasfêmia ou heresia e peça seu afastamento. Seja como for, há alguma coisa no ar, da qual o próprio bispo é uma manifestação.

Seria falso de nossa parte afectar ignorância quanto ao impacto causado por nosso livro, tanto em vendas como em controvérsia. Pela primeira vez, desde Passo ver Plot, de Hugh Schonfield, de 1963, algumas questões relativas ao Novo Testamento, a Jesus e à origem do cristianismo foram levantadas para o público leitor em geral, para o chamado mercado de massa, e não para um punhado de especialistas académicos e teólogos. E ficou patente que o grande público leitor estava não só preparado, mas positivamente ávido por ouvir.

Nem a televisão nem as empresas editoriais ficaram cegas para as possibilidades. Desde 1982, vários novos livros foram lançados. Em 1983, The ilIusionist, um romance de Anita Mason, propôs uma perspectiva controversa mas historicamente válida sobre a consolidação da Igreja primitiva; foi incluído na lista final de indicações para o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio literário da Grã-Bretanha. Em 1985, Anthony Burgess, de maneira talvez ainda mais controversa, explorou quase o mesmo território em The Kingdom of the Wicked. Uma tempestade incipiente foi provocada pelo romance de Michele Roberts, The Wild Girl. Inspirando-se, como nós, em dados dos manuscritos de Nag Hammadi, Michele Roberts apresenta Madalena como amante de Jesus e mãe de seu filho. Publicado em brochura em 1985, The Wild Girl provocou medonhas fulminações, não somente de grupos de pressão, como era previsível, mas também de um pretenso Torquemada com assento no Parlamento; até que avaliações bem mais lúcidas tivessem conseguido se impor, o livro ficou sob a ameaça de acção penal nos termos da antediluviana lei britânica da blasfêmia». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-008-568-5.

 Cortesia ENFronteira/JDACT

 JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Crónica,

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «O que não conseguiram fazer foi, no entanto, transmiti-las aos leigos. Em discussões privadas, tivemos contacto com sacerdotes de muitas religiões. Poucos expressaram alguma hostilidade às conclusões do nosso livro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Em algum ponto no passado, supôs-se, com base em interpretação especulativa, que Pilatos usara o título como zombaria. Supor outra coisa teria sido levantar muitas questões espinhosas. Hoje, a maioria dos cristãos aceita cegamente, como facto consumado, que Pilatos usou o título por escárnio. Mas isso não é de modo algum um facto estabelecido. Se lermos os próprios Evangelhos, sem nenhuma ideia preconcebida, não encontraremos nenhuma sugestão de que o título não foi usado com absoluta seriedade, de que não era perfeitamente legítimo e reconhecido como tal pelo menos por alguns dos contemporâneos de Jesus, entre os quais Pilatos. A julgar pelos próprios Evangelhos, Jesus pode de facto ter sido rei dos judeus, e/ ou assim considerado. Somente a tradição persuadiu as pessoas do contrário. Sugerir que Jesus pode realmente ter sido rei dos judeus não é, portanto, ir contra as evidências. É meramente divergir de uma tradição há muito estabelecida, um sistema de crenças há muito estabelecido, baseado em última análise na interpretação especulativa de alguém. Se alguma coisa vai contra as evidências é esse sistema de crenças. Pois, no relato que Mateus faz do nascimento de Jesus, os três magos perguntam: Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Se Pilatos pretendia usar o título a pretexto de zombaria, como podemos resolver a questão dos magos? Será que eles também o usavam por zombaria? Certamente não. No entanto, se estavam aludindo a um título legítimo, por que Pilatos não poderia ter feito o mesmo?

Os Evangelhos são documentos de uma simplicidade chapada, mítica. Retratam um mundo reduzido a uns poucos traços toscos, um mundo de carácter intemporal, arquetípico, quase de conto de fadas. Mas a Palestina, quando do advento da era cristã, não era um reino de faz-de-conta. Ao contrário, era um lugar absolutamente real, povoado por pessoas reais, como poderíamos encontrar em qualquer parte do mundo em qualquer outra época na história. Herodes não foi o rei de uma lenda obscura. Foi um potentado muito real, cujo reinado (37- 4 a.C.) se estende além do contexto bíblico para coincidir no tempo com o de figuras seculares bem conhecidas, como Júlio César, Cleópatra, Marco Antônio, Augusto, por exemplo, e outros personagens que nos são familiares a partir dos manuais escolares e até a partir de Shakespeare. Como dissemos, a Palestina no século I, como qualquer lugar do mundo, estava sujeita a um complexo emaranhado de factores sociais, psicológicos, políticos, económicos, culturais e religiosos. Numerosas facções lutavam entre si e intestinamente. Complôs manipulavam e maquinavam nos bastidores. Vários partidos perseguiam objectivos conflitantes, muitas vezes fazendo frouxas alianças entre si com propósitos meramente oportunistas. Tratos eram feitos na clandestinidade. Jogos de interesses marcavam a luta pelo poder. O povo em geral, como o povo de qualquer lugar e de outras épocas, oscilava entre o torpor apático e o fanatismo histérico, entre o medo ignóbil e a convicção ardorosa. Muito pouco disso, ou nada, é transmitido pelos Evangelhos, apenas um resíduo de confusão. No entanto, essas correntes, essas forças, são essenciais para qualquer compreensão do Jesus hist6rico, o Jesus que realmente palmilhou o solo da Palestina 2 mil anos atrás, e não o Cristo da fé. Foi esse Jesus que nos esforçamos por discernir e compreender mais claramente. Fazer semelhante esforço não é declarar-se anticristão.

O Contexto

Na esteira de O santo graal e a linhaaem sagrada, quando certos cristãos nos acusaram com veemência de sermos anticristãos, só pudemos dar de ombros, impotentes. Nós próprios, é preciso repetir, não tínhamos nenhum desejo de assumir o papel de iconoclastas; fomos simplesmente apanhados no conflito entre facto e fé. As sugestões que fizemos sobre Jesus tampouco nos pareciam ter algo de chocante ou ultrajante. Como o leitor terá notado, praticamente todas as sugestões tinham sido feitas antes, em sua maioria muito recentemente, e foram bastante divulgadas. Além disso, não estávamos sozinhos. Não estávamos maquinando uma tese excêntrica, temerária, feita sob medida para produzir um best-seller instantâneo. Ao contrário, praticamente todas as nossas sugestões coincidiam muito com as principais tendências dos estudos bíblicos contemporâneos, e era precisamente nesses estudos que grande parte da nossa pesquisa tinha origem. Consultamos os especialistas reconhecidos no campo, muitos dos quais não eram conhecidos pelo grande público; e, no geral, pouco mais fizemos do que sintetizar suas conclusões de uma maneira facilmente digerível. Essas conclusões já eram bastante conhecidas pelos membros dos cleros, que em grande parte as aceitaram prontamente. O que não conseguiram fazer foi, no entanto, transmiti-las aos leigos.

Em discussões privadas, tivemos contacto com sacerdotes de muitas religiões. Poucos expressaram alguma hostilidade às conclusões do nosso livro. Alguns discordaram de um ou outro ponto específico, mas a maioria julgou nossa tese geral plausível, até provável em certos casos, e de modo algum desabonadora da estatura de Jesus ou da fé cristã. A cristãos leigos, contudo, as mesmas conclusões pareceram envolver blasfémia, heresia, sacrilégio, e quase todos os outros pecados religiosos catalogados. Foi essa discrepância de reacção que nos pareceu particularmente espantosa e instrutiva. Clérigos, de quem poderíamos esperar uma atitude mais combativa nesse campo, reagiram com algo entre a indiferença céptica mas não surpreendida e o  endosso completo. Seus rebanhos reagiram com algo entre a desilusão horrorizada e o ultraje vociferante. Nada teria podido deixar tão a nu o fracasso das igrejas em manter suas congregações a par dos desenvolvimentos no campo das investigações bíblicas». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-008-568-5.

Cortesia ENFronteira/JDACT

JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Crónica, 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Os Manuscritos de Jesus. Michael Baigent. «A princípio, o Vaticano aparentemente não se incomodou. O novo papa, Leão XIII (eleito em 1878 e falecido em 1903), confiava o bastante na força da posição da Igreja para permitir que os especialistas tivessem…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Após dois meses, o tema da infalibilidade papal foi apresentado ao Concilio. A maioria dos bispos presentes ficou surpresa, chocada e indignada. Alguns líderes eclesiásticos que abriram a boca para falar contra a manobra foram calados com prisão domiciliar, enquanto outros fugiram. Um deles foi fisicamente agredido pelo próprio papa. Apesar da intimidação, apenas 49% dos bispos votaram a favor da infalibilidade papal, mas em 18 de Julho de 1870 declarou-se que a maioria havia votado a favor, e o papa foi declarado infalível. Apenas dois meses mais tarde, soldados italianos entraram em Roma e confinaram o recém-infalível papa aos limites da Cidade do Vaticano; uma reacção divina, talvez, à sua falta de humildade.

Naturalmente, o desejo do papa e de seus seguidores era que a doutrina da infalibilidade protegesse o Vaticano contra os desafios que vinha enfrentando, em especial o criticismo bíblico e as descobertas arqueológicas.

O objectivo dos modernistas, por outro lado, era precisamente o oposto. Eles buscavam revisar o dogma da Igreja à luz de suas descobertas académicas. Os indícios históricos produzidos por suas pesquisas vinham ajudando a desenredar os mitos criados e perpetuados pela Igreja, principalmente o mito sobre Jesus Cristo. Os modernistas igualmente se opunham com veemência à centralização do Vaticano. O movimento modernista era, na época, particularmente forte em Paris, onde o director do seminário de Saint-Sulpice de 1852 a 1884 foi um teólogo irlandês chamado John Hogan. Hogan aceitava de bom grado e encorajava os estudos modernistas no seminário. Com efeito, o cónego Lilley o considerava a maior influência individual sobre o que se tornou o modernismo. Muitos alunos de Hogan também compareciam a palestras do especialista em assiriologia e hebraico, padre Alfred Loisy, que dirigia o Instituto Católico em Paris e era um modernista famoso.

A princípio, o Vaticano aparentemente não se incomodou. O novo papa, Leão XIII (eleito em 1878 e falecido em 1903), confiava o bastante na força da posição da Igreja para permitir que os especialistas tivessem acesso aos arquivos do Vaticano, sem se dar conta do que viriam a descobrir nem das doutrinas da Igreja que tais descobertas acabariam pondo em xeque. Ele não tardou a perceber que esse academicismo representava uma grave ameaça aos próprios fundamentos da Igreja. Pouco antes de morrer, em 1903, o papa Leão XIII tomou providências para reparar os danos. Em 1902, criou a Pontifícia Comissão Bíblica para supervisionar o trabalho de todos os especialistas em teologia e para assegurar que eles não se afastassem dos ensinamentos da Igreja. A Comissão possuía estreito vínculo com a Inquisição (maldita), tendo sido dirigida pelo mesmo cardeal.

O perigo, aparente para todos, foi sucintamente expresso pelo padre Alfred Loisy: Jesus proclamou a vinda do Reino, mas o que veio foi a Igreja. Loisy, entre outros modernistas, acreditava que os estudos históricos realizados durante aquele período tornavam impossível a manutenção de vários dogmas da Igreja: dogmas como a fundação da Igreja por Jesus, seu nascimento de uma virgem e sua filiação divina, em essência, a própria divindade de Jesus. O principal modernista britânico, George Tyrell, se opunha à incansável autoridade autocrática do Vaticano. A Igreja, para ele, não tinha por que ser um Instituto da Verdade oficial. Claro que este era exactamente o papel que ela considerava seu». In Michael Baigent, Os Manuscritos de Jesus, Editora Nova Fronteira, 2006, ISBN 978-852-091-898-2.

 Cortesia de ENFronteira/JDACT

JDACT, Michael Baigent, Literatura, Religião,

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh, e Henry Lincolin. «Sem saber que as inscrições na tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Saunière as obliterou, e essa profanação não foi o único comportamento curioso que ele exibiu»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mistério. Rennes-le-Chateau e Berenger Saunière

«(…) Se algumas dessas cifras eram desencorajadoras na sua complexidade, outras eram patentemente, mesmo flagrantemente, óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras levantadas, quando tomadas em sequência, formavam uma mensagem coerente. A dagobert roi et a sion est ce tresor et il est la Mort (A Dagobert rei e a Sion pertencem este tesouro e ele está aqui morto). Embora esta mensagem deva ter sido compreensível para Saunière, é de se duvidar que ele possa ter decifrado os códigos mais intricados. Entretanto, ele percebeu que havia tropeçado em algo importante. Com o consentimento do prefeito da cidade, levou sua descoberta até ao seu superior, o bispo de Carcassonne. Não se sabe o quanto o bispo entendeu, mas Saunière foi imediatamente enviado a Paris, despesas pagas pelo bispo, instruído a se apresentar a algumas autoridades eclesiásticas com os pergaminhos. Entre elas estavam o abade Biel, director-geral do Seminário Saint Sulpice, e seu sobrinho Emile Hoffet, que naquele tempo estava aspirando à vida religiosa. Embora ainda estivesse nos seus vinte anos, ele já havia estabelecido uma reputação intelectual impressionante, especialmente em linguística, criptografia e paleografia. A despeito de sua vocação pastoral, ele era sabidamente envolvido com o pensamento esotérico e mantinha relações cordiais com os vários grupos orientados para o oculto, além de seitas e sociedades secretas que proliferavam na capital francesa.

Estes contactos introduziram Saunière num círculo cultural ilustre, que incluía figuras literárias como Stéphane Mallarmé e Maurice Maeterlinck, bem como o compositor Claude Debussy. Ele também conheceu Emma Calvé que recentemente havia retornado de apresentações triunfantes em Londres e Windsor. Emma Calvé era como uma diva, a Maria Callas da época. Ao mesmo tempo, era uma grande pitonisa da sub-cultura esotérica parisiense, mantendo relações amorosas com vários ocultistas influentes.

Após apresentar-se a Bieil e Hoffet, Saunière passou três semanas em Paris. O resultado de suas reuniões com os eclesiásticos é um mistério. O que se sabe é que o padre provinciano foi pronta e calorosamente recebido no distinto círculo de Hoffet. Afirma-se mesmo que ele se tornou amante de Emma Calvé, que, segundo um conhecido seu, ficou obcecada pelo padre. De qualquer modo, não há dúvida de que eles gozaram de uma estreita e longa amizade. Nos anos que se seguiram, ela o visitou frequentemente nas vizinhanças de Rennes-Ie-Château, onde, até recentemente, podiam-se encontrar corações românticos gravados com suas iniciais nas rochas das montanhas.

Durante a permanência em Paris, Saunière passou também algum tempo no Louvre, o que pode explicar o facto de, antes de sua partida, haver adquirido reproduções de três pinturas. Uma delas teria sido um retrato, pintado por um artista não identificado, do papa Celestino V, que reinou brevemente no final do século XIII. Outra teria sido o trabalho de David Teniers, não se sabe se o pai ou o filho. O terceiro seria um quadro, talvez o mais famoso, de Nicolas Poussin, Les Bergers d'Arcadie [Os pastores da Arcádia].

Ao voltar a Rennes-le-Château, Saunière completou a restauração da igreja. Teria exumado então um bloco de pedra, curiosamente esculpido, datado do século VII ou VIII, que estaria cobrindo uma câmara funerária na qual esqueletos teriam sido encontrados. Saunière embarcou também em projectos mais singulares. No jardim da igreja, por exemplo, havia o sepulcro de Marie, marquesa de Hautpoul de Blanchefort, desenhado e construído pelo abade Antoine Bigou, predecessor de Saunière, um século antes, aparentemente autor de dois dos misteriosos pergaminhos. A inscrição na pedra sepulcral, que incluía vários erros deliberados de soletração e de espaço, era um anagrama perfeito para a mensagem contida nos pergaminhos referindo-se a Poussin e Teniers. Quando as letras eram rearranjadas, formavam a asserção críptica que já reproduzimos. Os erros pareciam ter sido planeados precisamente com este fim.

Sem saber que as inscrições na tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Saunière as obliterou, e essa profanação não foi o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado de sua fiel governanta, começou a fazer longas caminhadas pelo campo, colectando pedras sem nenhum valor ou interesse aparentes. Também embarcou numa troca volumosa de cartas com correspondentes desconhecidos em toda a França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Começou a coleccionar pilhas de selos sem valor e efectuou transações suspeitas com vários bancos. Um deles até enviou um representante, que viajou de Paris a Rennes-le-Château com o único objectivo de tratar de negócios com Saunière.

Só com despesas de correio Saunière estava gastando mais do que seu salário poderia cobrir. E em 1896 ele começou a gastar verdadeiramente, numa escala surpreendente e sem precedentes. Ao final de sua vida, em 1917, suas despesas haviam atingido o equivalente a vários milhões de dólares». In Michael Baigent, Richard Leigh, e Henry Lincolin, Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento, 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh, e Henry Lincolin. «Os dois pergaminhos do tempo de Bigou eram textos virtuosos em latim, extraídos do Novo Testamento. Pelo menos, aparentavam isso. Num deles, no entanto, as palavras se seguiam de forma incoerente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Mistério

«No princípio de nossa pesquisa não sabíamos exactamente o que estávamos procurando ou, naquele contexto, o que estávamos vendo. Não tínhamos teorias ou hipóteses. Começamos sem a intenção de provar coisa alguma. Pelo contrário, estávamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um pequeno e curioso enigma do século XIX. As conclusões a que posteriormente chegámos não foram previamente postuladas. Fomos conduzidos a elas, etapa por etapa, como se as evidências que havíamos acumulado possuíssem vida própria, como se elas nos estivessem dirigindo de acordo com seus próprios desígnios.

No início acreditamos que se tratasse de um mistério local intrigante, sem dúvida, mas de significado essencialmente confinado a uma cidadezinha do interior da França. Um mistério de interesse puramente académico, embora envolvesse factos históricos fascinantes. Pensávamos que nossa investigação pudesse iluminar certos aspectos da história do Ocidente, mas de forma alguma imaginávamos que ela implicaria reescrevê-la. Imaginávamos ainda menos que qualquer descoberta que fizéssemos pudesse ter relevância para o mundo contemporâneo, e de forma explosiva.

Nossa busca, porque era realmente uma busca, começou com um enredo mais ou menos banal, à primeira vista não muito diferente de inúmeras outras histórias de tesouros ou mistérios não desvendados, que abundam na história e no folclore de quase todas as regiões rurais. Uma versão dela havia sido publicada na França, onde atraíra um interesse considerável, mas, até onde pudemos saber, nenhuma consequência maior lhe fora atribuída. Mais tarde soubemos que essa versão continha uma série de erros. Para começar, entretanto, devemos recontar a fábula tal qual ela foi publicada nos anos 60, com as informações de que dispúnhamos então.

Rennes-le-Chateau e Berenger Saunière

Uma minúscula cidadezinha francesa, Rennes-le-Château, recebeu no dia primeiro de Julho de 1885 um novo pároco: Berenger Saunière, um homem de 33 anos, robusto, atraente, energético e brilhante. No seminário, parecia estar destinado a uma carreira eclesiástica promissora. Certamente, almejava algo mais importante que uma cidadezinha remota no topo de uma colina ao leste dos Pirinéus, mas em algum momento ele deve ter caído no desagrado de seus superiores. Se fez alguma coisa para merecer isso não sabemos, mas o facto é que perdeu todas as chances de promoção. Talvez para se livrarem dele, o enviaram a Rennes-le-Château.

Naquele tempo Rennes-Ie-Château abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequeno povoado pendurado no topo da serra a 40km de Carcassonne. O lugar teria significado o exílio para um outro homem, uma condenação perpétua a viver num fim-de-mundo, longe das amenidades urbanas da época, longe de qualquer estímulo para uma mentalidade vigorosa e questionadora. A ambição de Saunière sem dúvida sofreu um golpe. Entretanto, houve compensações. Saunière era originário da região, pois nascera e crescera perto dali, na cidade de Montagels. Apesar de tudo, Rennesle-Château deve ter-lhe proporcionado o conforto da familiaridade, do sentimento de estar em casa.

O salário de Saunière, entre 1885 e 1891, foi, em francos, o equivalente a seis libras esterlinas por ano, longe de significar opulência, mas muito mais do que se esperaria para um pároco rural na França do final do século XIX. Somado às gratuidades oferecidas pelos habitantes da paróquia, tais rendimentos seriam suficientes para viver bem, sem extravagâncias. Saunière levou uma vida agradável e plácida durante seis anos, caçando e pescando nas montanhas e rios de sua infância. Leu vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego e embarcou no estudo do hebraico. Uma camponesa de dezoito anos chamada Marie Denarnaud, sua servente e governanta, foi para ele companhia e confidente durante toda a vida. Ele visitava com frequência seu amigo Henry Boudet, pároco da vizinha cidade de Rennes-le-Bains, sob a tutela do qual mergulhou na turbulenta história da região, uma história cujos resíduos se apresentavam constantemente ao seu redor.

A poucos quilómetros a sudoeste de Rennes-le-Château surgia outro pico, chamado Bézu, coberto pelas ruínas de uma fortaleza medieval, antiga morada de templários. Sobre um terceiro pico, a cerca de 2km de Rennes-le-Château, se erguiam as ruínas do castelo de Blanchefort, lar ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre dos templários, que presidiu a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-Ie-Château se situava numa antiga rota de peregrinação que ia do nordeste da Europa até Santiago de Compostela, na Espanha. A região era mergulhada em lendas evocativas, em ecos de um passado dramático, frequentemente embebido em sangue.

Saunière vinha querendo havia já algum tempo restaurar a igreja local. O edifício, consagrado a Madalena em 1059, repousava sobre fundações de uma estrutura visigótica ainda mais velha, datada do século VI. Não se admira então que estivesse em péssimo estado de conservação.

Encorajado por seu amigo Boudet, Saunière iniciou em 1891 uma restauração modesta, utilizando uma pequena soma emprestada dos fundos municipais. Durante os trabalhos, removeu o altar-mor, uma pedra que repousava sobre duas antigas colunas visigóticas. Uma dessas colunas revelou-se oca. Dentro dela havia quatro pergaminhos guardados em tubos de madeira selados. Dois desses pergaminhos continham genealogias, uma datada de 1244 e outra de 1644. Os dois documentos restantes haviam sido compostos, aparentemente, nos idos de 1780, por Antoine Bigou, um dos predecessores de Saunière em Rennes-le-Château. Bigou havia sido também capelão pessoal da família nobre Blanchefort, que no início da Revolução Francesa ainda era uma das mais importantes donas de terras da região.

Os dois pergaminhos do tempo de Bigou eram textos virtuosos em latim, extraídos do Novo Testamento. Pelo menos, aparentavam isso. Num deles, no entanto, as palavras se seguiam de forma incoerente, sem espaço entre elas. Várias letras supérfluas haviam sido inscritas. No segundo pergaminho as linhas eram truncadas de forma indiscriminada e irregular, algumas no meio de uma palavra, enquanto certas letras estavam evidentemente levantadas acima das outras. Na realidade, os pergaminhos continham uma sequência de códigos e cifras, alguns deles fantasticamente complexos e imprevisíveis. Sem a chave certa, eram indecifráveis. A seguinte decodificação surgiu em trabalhos franceses dedicados a Rennes-Ie-Château, e em dois de nossos filmes sobre o assunto, realizados para a BBC.

Bergere pas de tentation que poussin teniers Gardent la clef pax dclxxxi par la croix et ce cheval de dieu j'acheve ce daemon de gardien a midi pommes bleues. [Pastor, nenhuma tentação. Que Poussin, Teniers possuem a chave. Paz DCLXXXI (681). Pela cruz e seu cavalo de Deus, eu completo (ou destruo) este demónio do guardião ao meio-dia. Maçãs azuis]». In Michael Baigent, Richard Leigh, e Henry Lincolin, Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

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quarta-feira, 19 de abril de 2023

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «Mas o tempo em que Cortés viveu, como o tempo em que Jesus viveu, está documentado. Sabemos um bocado sobre o contexto histórico, o mundo em que esses personagens existiram

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«(…) Em 1520, Hernán Cortés, ao penetrar na antiga capital mexicana de Tenochtitlán, foi tomado por um deus pelos astecas. Como jamais tinham visto armas de fogo ou cavalos, os astecas viram essas coisas não só como sobrenaturais mas como confirmação da condição divina de Cortés, de sua identidade como um avatar do seu deus supremo, Quetzalcóatl. Hoje, obviamente, podemos compreender como tal equívoco pôde acontecer. Até para um europeu ocidental da época, ele teria sido compreensível. É bastante claro que Cortés não tinha absolutamente nada de divino. No entanto, é igualmente claro que, nas mentes daqueles que acreditaram na sua divindade, ele era realmente um deus.

Suponhamos que um índio mexicano moderno, talvez com vestígios de uma ascendência asteca, afirme que acredita na divindade de Cortés. Talvez isso nos pareça um tanto esquisito, mas não poderíamos nos atrever a contestar a crença do índio, especialmente se sua origem social, educação, criação, cultura, tudo isso tiver contribuído para fomentá-la. Ademais, essa fé poderia envolver algo muito mais profundo do que a mera crença na divindade de Cortés. O índio poderia afirmar que experimentava Cortés dentro de si, que comungava pessoalmente com Cortés, que Cortés lhe aparecia em visões, que através de Cortés ele se aproximava de uma unidade com Deus ou com o sagrado. Como poderíamos cogitar de contestar afirmações como estas? O que um homem experimenta na intimidade da sua psique deve necessariamente permanecer inviolado e inviolável. E há muitas pessoas, perfeitamente lúcidas, perfeitamente equilibradas, merecedoras de todo o respeito que, na privacidade da sua psique, acreditam em coisas muito mais estranhas que a divindade de Cortés.

Mas o tempo em que Cortés viveu, como o tempo em que Jesus viveu, está documentado. Sabemos um bocado sobre o contexto histórico, o mundo em que esses personagens existiram. Esse conhecimento não é uma questão de crença pessoal, mas de simples facto histórico. E se um homem permite que sua crença pessoal distorça, altere ou transforme o facto histórico, ele não pode esperar que outros, quer partilhem ou não da sua crença, fechem os olhos para esse processo. O mesmo princípio se aplica se um homem permite que sua fé pessoal desarrume consideravelmente as leis da probabilidade ou o que sabemos sobre a natureza humana. Não poderíamos, como dissemos, discutir com um homem que acredita na divindade de Cortés, ou que, de alguma maneira, experimentou Cortés dentro de si. Poderíamos, no entanto, discutir com um homem que afirmasse que Cortés, mesmo sem a sua armadura, era imune a lanças e flechas, que atravessou a cavalo os céus ou os mares, ou que usava armas que sabemos só terem sido inventadas dois séculos depois.

Não é que os registros estabelecidos sobre Cortés neguem explicitamente essas coisas. Eles não o fazem, pela simples razão de que nada disso foi afirmado a propósito de Cortés enquanto ele estava vivo. Mas essas afirmações contrariam de maneira tão flagrante a história conhecida, a experiência humana e a simples probabilidade, que é extremamente difícil acreditar nelas. Corno crença pessoal, podem ser inatacáveis. Apresentadas como facto histórico, porém, repousam numa base demasiado improvável e tênue.

Jesus suscita um problema essencialmente análogo. Não temos nenhum desejo de contestar a fé pessoal, a crença pessoal de ninguém. Não estamos tratando do Cristo ou Christus da teologia, a figura que goza de urna existência muito real e muito vigorosa nas psiques e consciências dos que têm fé. Estamos tratando de um outro personagem, alguém que realmente caminhou pelas areias da Palestina 2 mil anos atrás, assim como Cortés pisou as pedras do deserto mexicano em 1519. Estamos tratando, em suma, do Jesus da história, e a história, por mais vaga e incerta que por vezes possa ser, está sempre pondo em xeque nossos desejos, nossos mitos, nossas imagens mentais, nossas ideias preconcebidas». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-008-568-5.

 Cortesia ENFronteira/JDACT

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «… como adversários militantes, contra o establishment eclesiástico, como se estivéssemos pessoalmente interessados em derrubar o edifício da cristandade…»

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O malogro dos estudos bíblicos

«(…) Em contraste com o pastor culto, o rebanho não teve oportunidade sequer de se familiarizar com o indício em questão ou de encarar as incoerências entre relatos bíblicos e o pano de fundo da história real. Para o cristão devoto, nunca houve necessidade de conciliar facto e fé, história e teologia, simplesmente porque ele nunca teve qualquer razão para supor que poderia haver distinção entre essas coisas. Talvez não tenha sequer pensado conscientemente na Palestina de 2 mil anos atrás como um lugar muito real, situado no espaço e no tempo, sujeito a um confusa mescla de factores sociais, psicológicos, políticos, económicos e religiosos, o mesmo tipo de factores que operam em qualquer localidade real, passada ou presente. Ao contrário, nos Evangelhos a história está com frequência inteiramente divorciada de qualquer contexto histórico, uma narrativa de absoluta, mítica e intemporal simplicidade, encenada numa espécie de limbo, uma terra do nunca de muito tempo atrás e muito longe daqui. Jesus, por exemplo, aparece ora na Galileia, ora na Judeia; ora está em Jerusalém, ora nas margens do Jordão. O cristão moderno, contudo, com frequência não faz ideia da relação geográfica e política existente entre esses lugares, a que distância podiam estar um do outro, quanto tempo poderia demandar a viagem de um a outro. Os títulos dos vários funcionários públicos parece-lhe muitas vezes sem sentido. Romanos e judeus circulam confusamente em segundo plano, como figurantes num cenário de filmagem e, quando há alguma imagem concreta deles, ela em geral deriva de uma ou outra superprodução de Hollywood, Pilatos com sotaque do Brooklin. Para a congregação leiga, os relatos das Escrituras são história literal, uma história independente e não menos verdadeira por estar dissociada de um contexto histórico. Não tendo aprendido outra coisa de seus mentores espirituais, muitos crentes devotos nunca sentiram qualquer necessidade de enfrentar os problemas suscitados por tal contexto. Quando subitamente formulados por um livro como o nosso, esses problemas assumem para essas pessoas, de maneira muito compreensível, a forma de revelação ou de sacrilégio. E nós mesmos passamos a ser instintivamente vistos como anticristãos, como escritores plenamente engajados numa cruzada que nos lança, como adversários militantes, contra o establishment eclesiástico, como se estivéssemos pessoalmente interessados em derrubar o edifício da cristandade (e fôssemos ingénuos a ponto de pensar que isso é possível).

Nossa conclusão em perspectiva

Como seria desnecessário dizer, não acalentamos tais intenções. Não estamos engajados em nenhum tipo de cruzada. Não temos nenhum desejo particular de converter ninguém. Certamente não estamos tentando deliberadamente abalar a fé do povo. Em O santo graal e a linhagem sagrada nossa motivação foi, na verdade, bastante simples. Tínhamos uma história para contar, e essa história nos parecia merecer, especialmente, ser contada. Estivemos envolvidos numa aventura histórica tão palpitante quanto uma história de detective ou um romance policial. Ao mesmo tempo, a aventura se mostrara também bastante informativa, revelando vastos tratos do passado da nossa civilização, e não apenas bíblico, que de outro modo nós e nossos leitores não poderíamos explorar. Desejávamos partilhar nossa história, num espírito muito semelhante àquele que nos leva a puxar o braço de uma pessoa amiga e chamar sua atenção para uma paisagem surpreendente ou um pôr-do-sol espetacular». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-090-568-5.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

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