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quinta-feira, 10 de março de 2011

Augusto Costa Santos. Feliciano Falcão. Memória Viva: «...a pessoa mais culta de Portalegre. ...as discussões com José Régio eram, por vezes, bem acaloradas, pois as suas tendências políticas eram muito diferenciadas e que em Literatura, Arte, Cinema e Filosofia batiam-se de igual para igual, mas que em Música tinha conhecimentos superiores, mais parecendo um erudito crítico musical»

Cortesia de edicoescolobri/cmportalegre

Dr. Feliciano Falcão. Um Homem de Cultura
«Conheci-o nos meus tempos do liceu.
Meu pai, Adelino Santos, nutria por ele uma profunda amizade e uma ilimitada admiração, que depressa me contagiou.
Como fruto dessa arnizade, que era recíproca, foi o Dr. Feliciano Falcão quem «levou» meu pai para a Tertúlia do Central, onde, depois do jantar, em torno de José Régio, confraternizavam personalidades de reconhecido valor, no campo da cultura, como Arsénio da Ressurreição, Firmino Crespo, Renato Torres, João Tavares, Ventura Reis, entre muitos outros e por onde passaram David Mourão Ferreira, Eugénio Lisboa, Ruy Serrão, quando aqui prestaram serviço militar e José Maria Rodrigues da Silva que aqui foi subdelegado do INTP.
Meu pai considerava o Dr. Feliciano Falcão a pessoa mais culta de Portalegre e dizia mesmo que, em Portugal, deveriam existir muito poucas personalidades com uma bagagem cultural tão vasta, abrangendo os ramos mais diversificados, que abordava com fluência de linguagem, capacidade de expressão, exprimindo sempre profundos conhecimentos.
Lembro-me de meu pai referir que as discussões com José Régio eram, por vezes, bem acaloradas, pois as suas tendências políticas eram muito diferenciadas e que em Literatura (portuguesa e estrangeira), Arte (especialmente Pintura), Cinema e Filosofia batiam-se de igual para igual, mas que em Música o Dr. Feliciano Falcão tinha conhecimentos superiores, mais parecendo, por vezes, um erudito crítico musical.

Cortesia de edicoescolobri/cmportalegre

Ocorre-me até, uma vez, ter meu pai referido a minha mãe, que era professora de piano, os nomes de compositores, de intérpretes e de títulos de obras de música clássica mencionados pelo Dr. Feliciano Falcão nas conversas de café, demonstrando conhecê-los profundamente, o que deixava minha mãe estupefacta com tais conhecimentos musicais!
É curioso que homens de cultura que conheceram José Régio em Portalegre e que tiveram contactos com o Dr. Feliciano Falcão, por vezes até bem breves, a ele se referem com admiração. Foi o caso, por exemplo, do escritor Eugénio Lisboa, que menciona tal facto em escritos seus e do escritor Vergílio Ferreira, que, em conversas no restaurante onde ambos almoçávamos quase diariamente, me disse que conhecera «de passagem» o Dr. Feliciano Falcão e que este lhe causara uma profunda impressão.

Pessoalmente, porém, tocou-me especialmente o apoio, o interesse e o incentivo que sempre proporcionou a todos os que fundámos o AMICITIA, Grupo Cultural de Portalegre, no já distante ano de 1957. Posso mesmo afirmar que, fora do nosso âmbito (nessa altura éramos todos jovens!), foi sempre a pessoa que mais nos apoiou, mas sem nunca interferir nas nossas ideias, sem nunca nos procurar influenciar ou orientar nas nossas iniciativas e nas nossas realizações, que, porém, sempre acompanhou de muito perto e com a maior atenção.

Cortesia de edicoescolobri/cmportalegre
Entusiasmava-se com as nossas realizações, em especial com a (e a única?!) Grande Exposição de Arte Moderna de Portalegre e ria-se gostosamente de alguns dos nossos lemas, como deixem-nos errar por nós próprios ou a modéstia foi abolida no Amicitia, pois, dizia, eles exprimiam o espírito que verdadeiramente devia nortear a juventude!
Acima de tudo, guardo do Dr. Feliciano Falcão a imagem do homem austero, bom e solidário, preocupado com a Sociedade e com o Mundo e de uma probidade intelectual muita acima do normal, do médico analista competentíssimo e afâvel, dotado de um trato pessoal excepcional, que cativava os amigos e todos os que com ele tiveram a felicidade de privar». In Augusto de Azeredo Costa Santos, Feliciano Falcão Memória Viva, coordenação de António Ventura.

Cortesia de Edições Colibri/CMPortalegre/JDACT

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

José Bizarro. Feliciano Falcão. Memória Viva: «...foi, nos fins da década de cinquenta e nos princípios da de sessenta, o mestre de civismo, o exemplo de homem culto e o professor de humanismo mais importante que encontrei na vida»

Cortesia de edicoescolibri/cmportalegre 

A Memória do Dr. Feliciano Falcão
«Era então o tempo da minha adolescência. «Em Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada...», vivíamos todos a pequenez das coisas permitidas. O cerco da cidade era o cerco do país. Por todos os lados, as mesmas «Serras» de negrume bloqueando o horizonte dos dias, os mesmos «ventos» derramando o bafio das verdades impostas, os mesmos «penhascos» de ferocidade e raiva vigiando toda a veleidade de transgressão da ordem estabelecida.

Portalegre era, por então, um mundo de «silêncios, de medos e de espantos», com sentinelas a toda a volta, vociferando contra a História e o seu sentido. Proibira-se o sonho e toda a esperança se tornara clandestina. Interditara-se a vida, reduzindo-a a dimensões pré-autorizadas.

Cortesia de falcaodejade
Foi no interior desse bloqueio que, na minha juventude, com outros moços da minha idade, tive o privilégio de conhecer e entrar em convivência diária - ou antes nocturna - com alguns homens perfeitamente excepcionais, a quem os então regedores da cidade nunca tinham sido capazes de vergar as consciências nem de silenciar as vozes.
Muito acima do medo generalizado, por sobre a mediocridade das circunstâncias e arrostando as vagas de fúria dos donos do tempo e dos seus serventuários, esse grupo de homens aprendera a sonhar outra vida e ensinava a vontade e a coragem para construí-la.

Cortesia de edicoescolibri/cmportalegre
Sempre fui, de facto, um privilegiado, na medida em que, nas minhas andanças através dos anos, deparei e fui amigo de uma bela colecção de gente, de qualidades excepcionais. Mas de uma coisa tenho de há muito a certeza: Feliciano Falcão foi, nos fins da década de cinquenta e nos princípios da de sessenta, o mestre de civismo, o exemplo de homem culto e o professor de humanismo mais importante que encontrei na vida.

Cortesia de edicoescolibri/cmportalegre
Profissional de altíssima competência largamente reconhecida; despretensioso e humano até à simplicidade mais depurada; culto e empenhado como só os homens verdadeiramente cultos o podem e sabem ser; generoso e fraterno até à amizade incondicional - o Dr. Feliciano Falcão foi, seguramente, uma das personalidades mais nobres e mais ricas do século passado de que essa «nossa» cidade de Portalegre se pode e deve orgulhar». In José Bizarro, Feliciano Falcão Memória Viva, coordenação de António Ventura.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Eugénio Lisboa: Feliciano Falcão. Um Homem Bom. «Foi aí que tive oportunidade de conhecer bem a personalidade generosa, aberta, inteligente e bondosa do médico alentejano»

Cortesia de edicolibri

Um Homem Bom
«Em 1954, mais precisamente, em Fevereiro de 1954, fui colocado, como oficial miliciano de infantaria, no Batalhão de Caçadores 1, em Portalegre. Não por escolha, mas porque, em Mafra, fora um cadete miliciano repetidamente rebelde e assaz irrecuperável. Como finalista de engenharia, conviera-me ficar colocado em Lisboa ou perto de. Mas a classificação mortífera, em comportamento, empurrara-me para uma unidade de quase fronteira: Portalegre, que ficava a cinco horas de Lisboa, de comboio - castigo que baste.
Castigo?
Como se enganavam! Ao fundo do túnel da contrariedade, brilhava uma luzinha entre o tímido, o provocatório e o intenso: em Portalegre, «cidade do Alto Alentejo», vivia José Régio, cuja obra se me abrira, em Lourenço Marques, actualmente Maputo, em 1945 ou 1946, quando um colega do liceu, Alberto Parente, me ofereceu, pelos meus anos, o primeiro volume de A Velha Casa, que trazia o título aliciante e aterrador de Uma gota de sangue. Era todo um mundo que se me oferecia! Foi por aí - não pela poesia - que comecei.

Hernâni Cidade
Cortesia de premioliterariohernanicidade
A poesia veio um pouco mais tarde, quando, já estudante, em Lisboa, li o Fado (sim, também não comecei pelos Poemas de Deus e do Diabo, que só vim a adquirir, numa 2.ª edição, comprada no Lobito-Angola - quando, em 1952, ali passei, de barco, a caminho de Lourenço Marques). Em suma, fazer o sexto ano de engenharia (com trabalhos práticos pelo meio), a cinco horas de distância e com os constrangimentos das obrigações e da disciplina militares, era bico-de-obra! Seria talvez compensado, se chegássemos à fala, pelo convívio com o Régio! O que não era seguro, dada a minha timidez de urso, neste caso agravada pela veneração que me inspirava a obra do grande escritor. Para quem não é atrevido, não é fácil a aproximação dos deuses - ficam longe e alto e costumam esconder-se atrás de cortinas... Pelo menos, assim o pensava ou assim me fazia pensar a reputação de inacessível que a lenda colara ao autor de As Encruzilhadas de Deus. Os próprios textos inculcavam uma solidão trágica e relatavam, com pérfida minúcia, os escolhos ao amor e à amizade. As traições espreitavam, o convívio humano era um território minado. Não era certo que o exílio em Portalegre me viesse afiazer a contrapartida com que sonhava.

Cortesia decarruagem23
Tudo foi, porém, surpreendentemente diferente e mais fácil. Um ou dois dias depois de termos chegado, o Rui Serrão, colega miliciano, extrovertido e desenvolto, aparece-me no Batalhão com boas notícias:
  • conhecera, no Café Central, um Dr. Feliciano Falcão, alentejano, analista e investigador, cortês e prestável, que se oferecera para apresentar o Régio aos oficiais acabados de chegar, que nisso tivessem interesse.
O Régio ia ao Central todos os dias e, se quiséssemos, depois do jantar... Fiquei excitado e apavorado.
Conhecer o Régio, aqueles olhos, de certeza, perscrutadores (A Velha Casa, O Jogo da Cabra Cega, a poesia toda, as Histórias de Mulheres não deixavam margem a dúvidas), afrontar o Régio, ser julgado pelo Régio... Julgo que, antes desse encontro, conheci, depois do almoço, o nosso intermediário, o Dr. Falcão, que logo me acalmou: era, visivelmente, com o seu sotaque alentejano carregado, um homem de uma grande candura e bondade, culto, interessado, passa-culpas... Não tinha dúvidas de que gostaríamos de conhecer o Régio e de que ele gostaria de conviver connosco. Pareciam-me certezas a mais, mas a urbanidade serena, tranquiltzadora e sorridente do Dr. Falcão de algum modo me confortavam. E, de facto, à noite, depois do jantar, no Café Central, o Dr. Falcão, com uma simplicidade não afectada, juntou-nos a uma mesa. Comecei mal - o nervoso era tanto, que entornei a chávena de café, agravando a tensão.

Cortesia de falcaodejade
Durante todo o ano que passei em Portalegre, reuni-me, quase  diariamente, à mesa onde pontificava José Régio e na qual participavam, frequentemente, Feliciano Falcão, Adelino Santos, Arsénio Ressurreição (pintor), Rui Serrão (meu colega e amigo) e, também, o capitão Saraiva e sua mulher (que fora aluna de Régio) - entre outros.
Foi aí que tive oportunidade de conhecer bem a personalidade generosa, aberta, inteligente e bondosa do médico alentejano.

Algumas vezes, em sua casa, ouvíamos música, porque era possuidor de uma vasta e ecléctica discoteca, que incluía desde música medieval até aos contemporâneos mais cotados. Régio, que olhava com alguma malícia para a «abertura» cândida de Feliciano Falcão, nem sempre terá sido justo para o seu amigo - chegaram mesmo a cortar relações.
A pureza do médico chegava a exasperá-lo e, com o seu feitio provocador, tentava atiçá-lo... «ensaiá-lo». Admirei Régio e tornei-me seu amigo, mas senti por Falcão um profundo e respeitoso afecto.

Feliciano Falcão era um aderente do Partido Comunista, o que quase me fazia sorrir:
  • a profunda ética e delicadeza do seu proceder (nada compatível com o moto de que os fins justificam os meios), o seu profundo amor à arte, despreocupado de saber se ela «Servia» ou «não Servia», a sua profunda e nunca desmentida admiração e empatia com a obra do autor de Mas Deus É Grande faziam dele um bem singular exemplo de comunista...
Confesso que pouco me ralava o que ele era ou julgava ser: pata mim, era úm dos mais nobres e puros exemplares de homem que até então (e até hoje!) me foi dado encontrar.

Cortesia de falcaodejade
Quando, ao fim de um ano, saí de Portalêgre, estive uns meses em Lisboa e, depois, regressei a África, onde perdi o contacto com o Dr. Feliciano Falcão e só voltei a reatá-lo, em 1978, em vésperas de partir de Lisboa para Londres. Visitei-o ainda na sua casa da Serra, em Portalegre e trocámos uma ou outra carta. Mas deu-se, pouco antes da sua morte, um facto significativo, que foi, para mim, o testemunho de fogo da espécie de amizade que nos unia (sentia por ele, como disse, um profundo, ainda que não expresso, afecto e fiquei, por essa carta, a saber - a confirmar - que o mesmo sentia ele por mim).
A sua missiva anunciava, de modo discreto, que o seu fim poderia não estar para demora. E ele admitia que pudesse não ser um fim «agradável». 

Pedia-me, portanto, que fosse seu amigo, como se deve sê-lo em tempo de crise. Fiquei uns dias a pensar no que poderia responder-lhe - quando tive notícia do seu falecimento. Hoje, gosto de acreditar que lhe teria respondido, dizendo-lhe que contasse comigo». In Memória Viva, Feliciano Falcão, Edições Colibri 2003, António Ventura, ISBN 972-772-440-X.
Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Feliciano Falcão. Memória Viva: «...Depois, era a Festa da Senhora da Penha: com a irmã, as duas de saia cinzenta às preguinhas e camisas de seda com botões de pérola, de mãos dadas com o pai, a tropeçarem nas pedras soltas do caminho que levava à ermida.»

(1911-1988)
Portalegre
Cortesia de edicoescolibri-cmdeportalegre

Com a devida vénia e amizade a MJFalcão e António Ventura.

A Morte do Pai
«Iam a pé, devagar, seguindo o carro, em direcção ao cemitério. Era um fim de manhã de Agosto, o ar sufocante, o céu azul do Alentejo, parado, lá no alto. Juntara-se muita gente, velhas de negro com olhos cheios de outros mortos, mulheres, homens pensativos, rapazes e raparigas, sérios, de olhos baixos. Imaginava?

Cortesia de picasa
Talvez. Como ele gostaria de saber que tinham vindo acompanhá-lo, ele que amava tanto a juventude!
Era levada pela multidão, agora o ombro de uma amiga a ampará-la, a mão apertada da irmã, o beijo da outra irmã, depois o braço do filho a agarrar o seu com força, silencioso e presente, olhos escondidos detrás dos óculos escuros.
«Sabes, o avô é o meu ídolo», dissera um dia.
Não pusera luto e escolhera uma gravata azul de seda. Lá longe, a imagem da filha, e nos braços o seu pedido:

Cortesia de sempretops 
«Leva onze rosas vermelhas ao avô... ». Não eram onze, eram as poucas rosas vermelhas de Agosto, roubadas no jardim. Levava-as chegadas ao peito, enredadas no ramo selvagem que, de madrugada, colhera à volta da casa onde o pai vivera.

A noite passara-a ao lado da caixa escura em que, de vez em quando, pousava a mão sem sentir nada, batia com os dedos a chamá-lo, baixinho, e a saber que não podia estar ali e que se fora embora, para sempre. Rostos desconhecidos passavam em frente, vagos murmúrios, mãos que apertavam a sua. E a solidão. O pasmo de não querer aceitar aquela morte. Depois, foram ficando os velhos amigos, as criadas tristes, vestidas de escuro, apertando as malinhas, torcendo lenços. E a irmã mais velha que se agitava, se agitava, a falar para todos os lados, sem conseguir ter paz. A outra irmã levara a mãe para a casa da serra. A mãe, pequenina, frágil e perdida. À volta, as flores, no chão, as fitas de cores tristes, vozes de amigos, o adeus, «amigo, tu lá vais...», lá fora. E a noite negra, as estrelas pequeninas e a manhã a nascer, indiferente. A cidade branca dormia recortada no azul de metileno que lhe gelava o peito. As torres da sé dum lado, o castelo do outro e os pinheiros a subirem pela encosta.

Cortesia de fotoseimagens
De manhãzinha, tinha voltado à casa, que lhe parecera vazia. Tremia, nessa manhã de Agosto, a cara molhada e os olhos – doíam-lhe - fixos nas coisas que ele amara. E arranjara o ramo que agarrava com força, com as rosas, que a picavam. Arranhara-se a colher o botão de rosa amarela, ainda fresca, o fruto vermelho do medronheiro, uma laranja que não chegara a crescer, as flores humildes e, da azinhaga, um malmequer branco. As coisas simples que o pai soubera amar. Como se nesse ramo pudesse fixar para sempre o que os olhos dele tinham visto, como se acreditasse que pudesse levar, ali, uma lembrança da vida. Passavam agora na Corredora. Em baixo, o jardim, os chorões debruçados sobre o lago dos peixes encarnados. Existiria ainda o banco do José Duro?

Cortesia de avozportalegrense

Cortesia de alvaromendes
Um turbilhão de imagens coloridas. A música frenética do carrossel:
«Papá, posso ir na girafa?».
As barracas da feira cheias de luzes e de sorrisos, os palhaços no circo, às cambalhotas, ela a rir, a rir, os trapézios a voar. Palmas, palmas...

As festas dos santos populares, elas e o pai corriam os altares, desde a Rua da Mouraria ao Corro, onde estava uma orquestra e havia baile. Depois, era a Festa da Senhora da Penha: com a irmã, as duas de saia cinzenta às preguinhas e camisas de seda com botões de pérola, de mãos dadas com o pai, a tropeçarem nas pedras soltas do caminho que levava à ermida. O São Cristóvão e a escadaria até, ao alto, a Festa dos Aventais, nos Olhos d'Água e, sempre, o pai. A Senhora d'Alegria, em Alegrete, e lá estavam sentadas nos joelhos do pai e a pequenina ao colo da mãe. E os foguetes, a música, o cheiro dos bolos, o brilho nos olhos das pessoas, o sono.

Cortesia de avozportalegrense
Às esquinas, os homens tiravam o chapéu:
«Não sabia que tinha morrido o senhor doutor...».
Passavam em frente do liceu, o velho liceu da sua infância, da sua adolescência. E voltava a bater-lhe o coração. Ali se apaixonara. Naquele pátio. Cortara-se num vidro, a perna sangrava:
«Papá, vai-me doer?».
«Não dói nada, vais ver», e dois agrafos fecharam, delicadamente, a ferida.

Um dia de Natal. A dor, o medo:
«Papá, vou ser operada?».

Cortesia de pbase
Os dedos a segurarem-lhe o pulso, os olhos preocupados, a espreitarem o relógio, e a voz a tranquilizá-la:

«Não, está a passar... Não tenhas medo».

Adormecia, a dor passara.
As férias. A praia. As conchinhas cor-de-rosa e minúsculas de São Torpes, a mãe de vestido amarelo às flores, na água límpida até aos joelhos, o mar a perder de vista como a sua planície. O pai de fato de linho branco, sem tirar os sapatos, num banquinho, ao pé do toldo, a ler, sem ver o mar. O campo. A borboleta enorme, de asas douradas e castanhas.
«Venham ver... Não lhe toquem!...».

E a borboleta voava, voava. A gaiola do grilo que comprara no mercado e depois iria soltar nos campos amarelos. As calhandras, os cucos, os milhafres, o rouxinol. O canto do rouxinol, que ele lhe ensinara a reconhecer. O rouxinol que ouvira uma noite, lá longe, que parecia chamá-la e por isso viera ainda vê-lo antes de morrer.

Cortesia de labacm
O hospital. Lá fora, a cidade branca numa manhã de Maio. O céu azul, algumas nuvens. E as torres da Sé, à direita, o castelo, à esquerda e os pinheiros a treparem pela serra.
As andorinhas cortavam o céu, corriam, volteavam em frente da janela.
«Gostei muito que tivesses vindo. Gosto tanto de te ver...».
Era a última vez e os dois sabiam.
A cidade branca enevoava-se-lhe, as andorinhas já lá não estavam.
«Também eu. Papá…».

Cortesia de flickr
Entraram no cemitério. Os netos pegaram no caixão. Cinco, que a dor fizera crescer de repente. Eram cinco homens que levavam aos ombros o fim da infância. O esquife desceu, e a terra, as pedras, começaram a bater na madeira. As rosas vermelhas, o ramo selvagem, as flores serviram-lhe de leito. Ali ficou, coberto de restos. Olhou em frente, para lá dos ciprestes, e viu as terras douradas ao sol do meio-dia, a perderem-se no horizonte. Viu a planície sem fim. Baixou os olhos para o que cobria tudo. Nunca mais». In A morte do Pai, MJFalcão, Feliciano Falcão-Memória Viva, Edições Colibri e CMPortalegre, ISBN 972-772-440-X, 2003.

Cortesia de Edições Colibri/CMPortalegre/JDACT