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quinta-feira, 10 de março de 2016

Contos. Miguel Torga. «Terra de Miguel Torga; 2007, 2008, 2009. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno»

jdact e wikipedia

Bichos (1940)
«Querido leitor: são horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé. Tens sido de uma constância tão espontânea e tão pura a visitá-la, que é preciso que me liberte do medo de parecer ufano da obra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. Não se pagam gentilezas com descortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto. Este livro teve a boa fortuna de te agradar, e isso encheu-me sempre de júbilo. Escrevo para ti desde que comecei, sem te lisonjear, evidentemente, mas também sem ser insensível às tuas reacções. Fazemos parte do mesmo presente temporal e, quer queiras, quer não, do mesmo futuro intemporal. Agora, sofremos as vicissitudes que o momento nos impõe, companheiros na premente realidade quotidiana; mais tarde, seremos o pó da História, o exemplo promissor ou maldito, o pretérito que se cumpriu bem ou mal. Se eu hoje me esquecesse das tuas angústias, e tu das minhas, seríamos ambos traidores a uma solidariedade de berço, umbilical e cósmica; se amanhã não estivéssemos unidos nos factos fundamentais que a posteridade há-de considerar, estes anos decorridos ficariam sem qualquer significação, porque onde está ou tenha estado um homem é preciso que esteja ou tenha estado toda a humanidade. Ligados assim para a vida e para a morte, bom foi que o acaso te fizesse gostar destes Bichos. Apostar literariamente no porvir é um belo jogo, mas é um jogo de quem já se resignou a perder o presente. Ora eu sou teu irmão, nasci quando tu nasceste, e prefiro chegar ao juízo final contigo ao lado, na paz de uma fraternidade de raiz, a ter de entrar lá solitário como um lobo tresmalhado. Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade. De resto, um conto que te agradou, tem algumas probabilidades de agradar aos teus netos. Porque não hão-de eles tirar ninhos quando forem crianças? E, se tal não acontecer, paciência: ficarei um pouco triste, mas sempre junto de ti, firme, na consolação simples e honrada de ter sido ao menos homem do meu tempo. És, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia. Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. Saúdo-te apenas nesta alegria natural, contente por ter construído uma barcaça onde a nossa condição se encontrou, e onde poderemos um dia, se quiseres, atravessar juntos o Letes, que é, como sabes, um dos cinco rios do inferno, cujas águas bebem as sombras, fazendo-as esquecer o passado». Teu Miguel Torga.

Nero
«Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixão de galões amarelos, acompanhado pelo povo em peso… Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitério dos cães e dos gatos da casa. E louvar a Deus apodrecer a dois passos da cozinha! A burra nem sequer essa sorte tivera. Os seus ossos reluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. Até um lebrão descarado se fora aninhar debaixo da arcada das costelas, de caçoada! Ah, sim, entre dois males… Já que não havia melhor, ficar ao menos ali. No tempo dos figos, pela fresca, a patroa viria consolar a barriga. Gostava de figos, a velhota. E sempre se sentiria acompanhado uma vez por outra. Não que fizesse grande finca-pé naquela amizade. Longe disso. A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciara como a uma criança. A velha toda a vida o pusera à distância. Dava-lhe o naco de broa (honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a seguir: Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho. Só a rapariga o aquecera ao colo quando pequeno, e, depois, pelos anos fora, o consentira ao lume, enroscado a seus pés, enquanto a neve, branca e fria, ia cobrindo o telhado. O velho também o apaparicava de tempos a tempos. Se a vida lhe corria e chegava dos bens de testa desenrugada, punha-lhe a manápula na cabeça, meigamente, e prometia-lhe a vinda do patrão novo. Porque o seu verdadeiro senhor era o filho, um doutor, que morava muito longe. Só aparecia na terra nas férias de Natal. Mas nessa altura pertencia-lhe inteiramente. Os outros apenas o tratavam, o sustentavam, para que o menino tivesse cão quando chegasse. Apesar disso, no íntimo, considerava-se propriedade dos três: da filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara invernos, outonos e primaveras, numa paz de família unida. Também estimava o outro, o fidalgo da cidade, evidentemente, mas amizades cerimoniosas não se davam com o seu feitio. Gostava era da voz cristalina da dona nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote. Tens o teu patrão aí não tarda, Nero… O nome fora-lhe posto quando chegou. Antes disso, lá onde nascera, não tinha chamadoiro. Nesse tempo não passava dum pobre lapuz sem apelido, muito gordo, muito maluco, sempre agarrado à mama da mãe, que lhe lambia o pêlo e o reconduzia à quentura do ninho, entre os dentes macios, mal o via afastar-se. Pouco mais. Com dois meses apenas, fez então aquela viagem longa, angustiosa, nos braços duros dum portador. Mas à chegada teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas no lombo, leite, sopas de café. De tal maneira, que quase se esqueceu da teta doce onde até ali encontrava a bem-aventurança, e dos irmãos sôfregos e birrentos». In Miguel Torga, Contos, 1940, Publicações dom Quixote, editora do Grupo Leya, 2000, ISBN 978-972-204287-1.

Torga, Régio…, a Literatura, o Conhecimento…, sempre vivem comigo!

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

domingo, 7 de julho de 2013

Jacob Camille Pissaro. Pintura. «Chego a uma terra e não resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o pão. E quando anoitece volto…»

Filho de um judeu português de Bragança
(1830-1903)
Cortesia de wikipedia

«Eu gosto da paisagem. Mas amo-a duma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descrições a vintém por palavra. Chego a uma terra e não resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o pão. E quando anoitece volto, como agora, cheio do enigma que fez cada região do seu feitio, tal e qual como pôs nas costas do dromedário aquela incrível marreca, e no pescoço do leão aquela fantástica juba». In Miguel Torga





«A paisagem faz a raça. A Holanda é uma terra pacífica e serena, porque a sua paisagem é larga, plana e abundante. A paisagem que fez o grego, era o mar, reluzente e infinito, o céu, sereno, transparente, doce, e destacando-se sob aquela imobilidade azul, um templo branco, puro, augusto, rítmico, entre a sombra que faz um grupo de oliveiras. A paisagem do romano é toda jurídica: as terras ásperas, a perder de vista, separadas por marcos de tijolo; uma grande charrua puxada por búfalos, vai passando entre os trigos; uma larga estrada lajeada, eterna, sobre a qual rolam as duas altas rodas maciças dum carro sabino; uma casa coberta de vinha branqueja ao longe, na planície. Não importa a cor do céu: o romano não olha para o céu. A raça anglo-saxónica tira a sua tenebrosa mitologia, o seu espírito inquieto, da sua paisagem escura, acidentada, desolada e romântica. É o estreito e árido aspecto do vale de Jerusalém que fez o judeu». In Eça de Queirós




JDACT

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Duquesa de Bragança. Poema em Oito Cantos. José Carlos Gouveia. «Oh! Presta-me um momento, (ser não julgo pretencioso, fero desacato), a lyra, que pulsou sublime vate; dá-me o estro, a candura, o sentimento, uma faisca só d'aquelles fachos, que o mundo alumiaram com seu brilho, que aos povos do porvir ensina o rastro»

Cortesia de wikipedia e jdact

NOTA: De acordo com o original

Canto Primeiro
O regresso do duque
I
«Da gélida mortalha, que te involve,
ó génio do passado altivo surge;
da gloria d’este povo, que foi grande,
os hymnos um momento audaz desperta.
Dos luzos d'outras eras dai-me o esforço,
prestai-me no meu canto o fogo, o impeto
que as quinas portuguezas sobre os mares
por ignotas paragens dirigia.
Tu idolo prostrado, estro fecundo.
Da campa, que três séculos calcaram,
levanta o marcio vulto, o fero porte,
e n'um grito d'angustia aos povos narra
o que foi a nação aventurosa,
qual o arrojo, o poder dos lusitanos.
Proclama ao som das tubas vencedoras
o terror, o respeito, que no mundo
ás nações mais possantes este povo
pequeno mas heroe sob’rano exige.
Desperta do teu somno prolongado,
e a espada flammejante sobre as cinzas
d’esses dias de gloria ergue arrogante.

II
Só tu, que dois colossos reuniste
sobre o throno onde brilha aereo labaro,
onde a c'rôa fulgente de Petrarcha
os vindouros invita a eterna fama;
só tu, que os dois gigantes do talento,
de Lysia padrões d'eterna gloria,
a quem lustros sessenta separaram,
uniste num só elo indissoluvel;
e de louros cercados lá no Olympo
os deixaste formando a luz do espirito,
o génio que preside ás lettras pátrias:
só tu, que de Camões e de Garrett
o idolo formaste d'este povo,
que n'elles sempre vivos tem seus fastos,
repletos de bravura e d' heroísmo;
só tu meu guia podes ser nas trevas,
que abundam sobre a misera progenie
de vultos, que serão immorredouros
da patria, das nações, no livro aberto.
Oh! Presta-me um momento, (ser não julgo
pretencioso, fero desacato),
a lyra, que pulsou sublime vate;
dá-me o estro, a candura, o sentimento,
uma faisca só d'aquelles fachos,
que o mundo alumiaram com seu brilho,
que aos povos do porvir ensina o rastro.

III
Das quinas o pendão, terror da Lybia,
descendo pelas plagas arenosas,
galgara já por fim além dos trópicos;
das tormentas ao cabo era chegado,
e ovante se implantára em novas terras,
entre gentes, que os filhos d'esta Europa
jamais tinham sonhado. Inda seguia
sob um ceu nunca visto, em novos mares,
do Ganges a buscar as férteis ribas,
da India opulenta o grande imperio:
E nos mares d'oeste tremulando,
a encontrar lá ia um mundo virgem,
onde surge qual sonho um novo império,
o rei afortunado ao sceptro d'ouro
o oceano acurvara, e com orgulho
no throno foi sentar-se de dois mundos!
De faustosa nobreza rodeado,
do rispido João largando a senda,
o brilho renovou d'aureos califas,
Os nobres desterrados avocando
á terra de seus paes. De novo á corte
O mais nobre fidalgo então volvia,
O duque de Bragança, o tenro joven
D. Jayme, que no exilio inda expiava
do seu progenitor rebelde intento.
O duque de Bragança, o alto vertice
da mais alta nobreza lusitana.

continua

In José Carlos Gouveia, A Duquesa de Bragança, Poema em Oito Cantos, Lisboa, Tipographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898, Discens Laborans Ébora, Gabriel Augusto Mendes, 1898.

Cortesia de Discens Laborans Ébora/JDACT

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Distrito de Bragança. Ex-Votos e religiosidade Popular. «À representação plástica de um favor sobrenatural chamou a religião popular ‘milagre’. São quadros pintados sobre madeira, tela ou outro material. Embora com outra origem etimológica, também se designam por ‘mercês’ ou ‘ex-votos’. A descrição pictórica inclui quase sempre uma legenda»

Ex-Voto de S. Roque, Parada, Bragança
jdact

Ex-Votos e protecção sobrenatural
«Ainda que a dessacralização tente esvaziar as comunidades do seu conteúdo espiritual, tal objectivo ficará no campo das utopias. Onde quer que elas deixaram as marcas do seu peregrinar, ficou também a presença do transcendente. Por destino ou fatalidade, jamais o homem foi capaz de apagar as luzes ou sombras dessa força que condiciona o real da vida. Aras votivas ou painéis de alminhas, embora de épocas diferentes, constituem resposta a esse desejo inato que faz do homem de todos os tempos um peregrino do infinito. Se as respostas dadas pelo homem nem sempre primam pela ortodoxia doutrinal, é um facto a influência obsessiva do espiritual no material.

O ex-voto ou milagre, espécie de testemunho material ditado pelo respeito da promessa em que empenhou a palavra, constitui também um sinal da presença de Deus na vida do homem. Ladear ou ignorar a atracção mútua deste binómio, é subestimar a importância do estudo da religiosidade popular para a compreensão das sociedades ‘agro-pastoris’ de Trás-os-Montes. Ainda bem que à atitude depreciativa e iconoclasta do positivismo dos finais do século XIX, sucede a admiração e o interesse de quem pretende descodificar a complexidade do comportamento total de um povo.

Ex-voto e religião romana
Ex-voto é a expressão clássica, conhecida por quem nutre interesse pelo estudo das marcas culturais que a romanização nos deixou. “Ex-voto” significa ‘por um voto’. Provém do verbo latino ‘vóveo’.

NOTA: Em Horácio e Cícero, voto significa a promessa feita aos deuses. ‘Votum facere’ tem em Plínio o significado de fazer um voto. ‘Votum solvere’, recebe em Ovídio o significado de cumprir um voto.

Nas estelas funerárias, é frequente encontrar as expressões latinas:
  • ‘votum solvit’ (cumpriu um voto);
  • ‘ex voto’ (por um voto);
  • V.S.L.M. (‘votum solvit libens merito’ - cumpriu um voto livremente).


jdact

Se os ex-votos ou milagres são uma pervivência de tradições similares da cultura clássica, não estão de acordo todos os especialistas. Rocha Peixoto refere as pinturas que os marinheiros mandaram fazer nas paredes dos templos. Nas “tabulae votivae”, os cocheiros romanos do circo votavam aos deuses infernais os seus competidores.
Mário Martins, insigne medievalista, afirma categoricamente:
  • “Muitos centros de peregrinação situavam-se, geograficamente, na sucessão de antigos santuários pagãos e deles herdaram certos costumes aceitáveis, entre eles as procissões e os ex-voío”.
NOTA: ‘Caminhos de religiosidade popular’, in revista Communio, ano IV, 1987, nº 1, Jan./Fev., Mário Martins afirma : ‘Figurinhas de cera, representações de animais ou de membros do corpo, madeixas de cabelo, colunas com inscrições votivas, muletas, coroas, quadros, miniaturas nos santuários da beira-mar... tais ex-votos existiam já muito antes do cristianismo e exprimem a gratidão e o sentimento religioso’; ver Carlos Moreira Azevedo, in ‘Algumas Reflexões sobre a Iconografia Religiosa Popular, Estudos Contemporâneos, Religiosidade Popular, p. 86-7.

Sem tentar dirimir a questão, não nos repugna que a religiosidade romana sofresse uma enculturação com a presença do cristianismo. Aliás foi a prática seguida por ele noutras manifestações culturais.
A religião romana dedicava um lugar importante às preces. O voto cabia dentro delas e constituía uma promessa condicionada pela concessão de uma coisa pedida aos deuses. O voto era público ou privado. Este dependia da vontade do indivíduo, e correspondia a exigências de momentos críticos da sua vida. O voto constitui uma oferta e um sacrifício que se faz em substituição do que o ‘vovente’ teria de oferecer aos deuses.

A designação de “ex-voto” não pertence ao vocabulário popular. Corre ainda entre nós a expressão ‘Casa dos Milagres’. Milagre, graça ou mercê. Exprime, na linguagem vulgar, a mesma ideia que “ex-voto”, e encontra-se também vulgarizada nas mesmas tábuas votivas. Ex-voto é a expressão barroca de uma religiosidade dos séculos XVII e XVIII». In Belarmino Afonso, Ex-Votos e Religiosidade Popular no distrito de Bragança, edição da Região de Turismo do Nordeste Transmontano, Escola Tipográfica, Bragança, 1995, ISBN 96-548-0-8.

Cortesia da RTN Transmontano/JDACT

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Abade de Baçal: Um arqueólogo e historiador. Autodidacta erudito, rústico e pitoresco

(1865-1947)
Baçal, Bragança
Cortesia de ipmuseus
Francisco Manuel Alves, mais conhecido como Abade de Baçal, foi um arqueólogo e historiador português. Nascido numa aldeia do concelho de Bragança, foi ordenado sacerdote em 13 de Junho de 1889, desde então, até a sua morte, tornou-se pároco da sua aldeia natal.
Dedicou a sua vida a recolher testemunhos arqueológicos, etnológicos e históricos respeitantes à região de Trás-os-Montes e, especialmente ao distrito de Bragança. Autodidacta erudito, rústico e pitoresco, os críticos apontam-lhe, contudo, a sua falta de sistematização e poder interpretativo.

Museu Abade de Baçal
Cortesia de mdb
A sua obra principal são as Memórias Arqueológicas-Históricas do distrito de Bragança (1909-1947), em onze volumes, fonte incontornável para o estudo da vida, história e valores do nordeste transmontano. Em 1925 foi nomeado director-conservador do Museu Regional de Bragança, que desde 1935 é designado por Museu do Abade de Baçal em sua homenagem.
Sacerdote secular, arqueólogo e historiador, cursou Teologia no Seminário de Bragança, sendo ordenado presbítero e logo nomeado pároco, ou abade da sua terra natal, por isso que ficou vulgarmente conhecido por Abade de Baçal, embora por vezes assine também Reitor de Baçal.
Cortesia CMBragança
Nunca paroquiou outra freguesia, vivendo uma vida entregue aos cuidados dos paroquianos, à sua lavoura e à investigação arqueológica e histórica, para a qual teve um singularíssimo instinto, sem necessidade de estudos científicos prévios, por isso havendo quem lhe aponte alguma assistematicidade nos estudos.
Obras de Trindade Coelho no Museu de Baçal
Cortesia CMBragança
Independente, modesto e sóbrio, misturado com o povo, foi nomeado (1925) director-conservador do Museu Regional de Bragança que hoje em dia ostenta o seu nome. Absorvido na arqueologia, não descurou os interesses da Igreja, participando nas polémicas que perturbaram a diocese no princípio do século XX, em defesa do seu bispo.
Deu vasta colaboração à imprensa, havendo artigos seus nos mais inusitados periódicos:
  • Alerta;
  • Anuário de Viana do Castelo;
  • A Palavra;
  • A Torre de D. Chama;
  • A voz;
  • O Comércio do Porto;
  • Distrito de Bragança;
  • Gazeta de Bragança;
  • Leste Transmontano;
  • Notícias de Bragança;
  • O Comércio de Chaves;
  • O Bragançano;
  • Diário de Noticias;
  • O Século;
  • O Pirilampo;
  • O Primeiro de Janeiro;
  • Em revistas.
Em 1935 foi alvo de grande homenagem, a atribuição do seu nome ao Museu de Bragança, condecoração com o Grande Oficialato da Ordem de Santiago, inauguração do monumento pelo escultor Sousa Caldas, sobre projecto do arquitecto Januário Godinho. Sócio da Academia das Ciências, da Associação dos Arqueólogos Portugueses, do Instituto Etnológico, vogal da comissão de História Militar e membro de vários intitutos académicos estrangeiros.
Para além das citadas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança.
  • Vols I a IV. Porto, 1909, 1911, 1913 e Coimbra, 1911-1918;
  • Vol. V. Os Judeus. Bragança, 1925;
  • Vol. VI. Os Fidalgos. Porto, 1928;
  • Vol VII. Os Notáveis. Porto, 1931;
  • Vol. VIII. No Arquivo de Simancas. Porto, 1932;
  • Vols. IX e X. Arqueologia, Etnografia e Arte. Porto, 1934; XI. Arqueologia e Etnografia. Porto 1947; Moncorvo, Subsídios para a sua História. Porto, 1908;
  • Castro de Avelãs, Mosteiro Beneditino. Coimbra, 1910;
  • Notabilidades antigas e modernas da villa de Anciães, In Revista de História, V (1916) pp. 364-375 e VI (1917) pp. 74-80; Trás-os-Montes, na Colecção Portugal na Exposição de Sevilha. Lx.ª , 1929;
  • Chaves, Apontamentos arqueológicos. Gaia, 1931;
  • As Terras Bragançanas. Coimbra, 1932;
  • Catálogo dos Manuscritos de Simancas, respeitantes à História Portuguesa. Coimbra, 1933;
  • Lista de Provesende e Sepulcros Luso-Romanos. Lx.ª, 1938;
  • Aforamento de Propriedades em Outeiro na era de 1308, ano de Cristo de 1270. 1940;
  • Correcção de uma notícia errónea dos escritores espanhóis referentes às Guerras de Restauração. Lx.ª 1940;
  • A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança, in Anais da Academia Portuguesa de História, 1ª série, III, Lx.ª, 1940;
  • Homenagem a Martins Sarmento. Porto, 1933;
  • O Clássico Frei Lucas de Sousa, Tragédias Marítimas. Notas Inéditas. Porto, 1933;
  • Vinicultura Duriense, Régua, 1938;
  • Achegas para a História Místico criadora de atmosfera propícia à Restauração de 1640, Lx.ª 1939; Epistolrio. Coimbra, 1955;
  • Cartas Inéditas do Abade de Baçal, in Presença, Coimbra, 1965;
  • Vimioso, Notas Etnográficas, Braga, 1968;
  • Cartas a José Montanha, Braga, 1973;
  • Cartas ao Prof. Manuel Maria Chamorro, in Mensageiro de Bragança, n.' 703, 7.2.1958.
O Museu do Abade de Baçal é um museu localizado na cidade de Bragança, Portugal. O museu foi fundado em 1915, instalado no edifício do antigo Paço Episcopal de Bragança, com o nome de Museu Regional de Bragança, em 1935 muda para o nome actual em homenagem ao Abade de Baçal.
Cortesia de mogadouro
O acervo original do museu era constituído por colecções de arqueologia, numismática e peças do recheio do Paço Episcopal. Ao longo dos anos a colecção foi aumentando, especialmente com as dádivas de Abel Salazar e da família Sá Vargas nos anos 30, o legado de Guerra Junqueiro, nos anos 50 e o de Trindade Coelho no início dos anos 60. O museu apresenta actualmente colecções de pintura com quadros de Malhoa, Abel Salazar, um conjunto de cerca de 70 desenhos de Almada Negreiros, escultura, ourivesaria e mobiliário. Em 2001 foi adquirida uma importante colecção de máscaras transmontanas.
(Memórias Histórico_Gaspar Pereira)

Cortesia de wikipédia/CMBragança/JDACT