Mostrar mensagens com a etiqueta Beja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Beja. Mostrar todas as mensagens

sábado, 30 de maio de 2015

Mulher de Ferro. Dona Beatriz (1429-1506). «… não foi recusado o governo da Ordem de Cristo a Diogo, governo aliás delegado a sua mãe, dada a menoridade do titular, pela bula Nuper carisimo, de Sisto IV datada de 19 de Junho de 1475»

jdact

«(…) É então na sequência da viuvez, e liberta de preocupações quanto ao futuro das suas meninas, que dona Brites emerge desse quase anonimato, revelando as qualidades e aptidões que detinha, até aí ocultas- Ora, se as filhas trilhavam já caminhos que lhes haviam sido destinados e não exigiam, de momento, particulares desvelos, havia que velar pelos varões, ainda de menor idade, que iriam herdar a casa e dona Brites não iria delegar essa competência a outrem. Também assim o entendeu Afonso V que, por carta dada a l0 de Outubro desse mesmo ano de 1470, lhe concederia a curadoria e tutoria dos filhos, considerando nom aver hii pessoa que tamta rrazom amor e afeiçam deua nem posse teer carreguo delles e dos feitos e cousas a elles tocamtes, autorizando-a a gouernar e aministrar a elles seus beens e cousas e pessoas e que lhe pertencerem como milhor ouuer e lhe perecer (...) sem embarguo de quaasquer lex canónicas ciuees groses e openiõoes de doutores hordenaçõoes façanhas ou costumes de nossos regnos, ou seja, o monarca assinava a possibilidade de dona Brites se tornar a verdadeira gestora da casa senhorial: do património e de uma corte que já se divisava como alternativa.
O seu primogénito, João, herdou a casa e os títulos do pai. Foi, portanto, 2.ºduque de Beja e 3.º duque de Viseu, fronteiro de Entre Tejo e Guadiana e reino do Algarve, mestre das ordens de Cristo e de Santiago, condestável de Portugal, senhor da Covilhã, de Moura e das ilhas atlânticas. O rei iria ainda fazer-lhe mercê da cidade de Anafé, com toda a jurisdição e senhorios, apenes com ressalva das alçadas.
Mas, prudentemente, dona Brites, prevenindo um qualquer desaire que roubasse a vida ao jovem duque, obteve de Afonso V uma carta dada em Lisboa, a 14 de Agosto de 1471, que, com dispensa da Lei Mental, permitia a sucessão na pessoa do filho seguinte, caso João falecesse sem deixar descendência. Não se contentou a duquesa com a mercê régia e de novo solicitou, e foi-lhe deferida, por carta dada no Porto, a 7 de Agosto de 1476, a extensão da sucessão aos restantes filhos, considerada a ordem cronológica dos seus nascimentos.
Tivera razão a duquesa, nas suas preocupações! João iria, de facto, ter uma curta vida. Tal como o diploma obtido previa, seguiu-se-lhe Diogo, como 4.º duque de Viseu e 3.º duque de Beja. Porém, não seria contemplado como o irmão. O cargo de condestável seria então outorgado a seu primo, João, marquês de Montemor, cargo de há muito ambicionado pela Casa de Bragança, que se reclamava herdeira directa de Nuno Álvares Pereira. Perderia também o mestrado de Santiago que Afonso V entregou a seu filho, o príncipe João, adentro de uma política de concentração do poder, determinação que não teria agradado a dona Brites, que tentou, desta vez sem êxito, obter o mestrado de Avis, detido também por João, para seu filho Manuel. Argumentou a duquesa que a concessão do mestrado a João, agora João II, ocorrera num tempo em que ereasomente príncipe, pelo que não seria curial continuar a detê-lo. Mas estava-se já noutra era e a dona Brites foi-lhe negada mais esta pretensão, escusando-se, habilmente, o monarca com o depauperamento do reino.
Todavia, não foi recusado o governo da Ordem de Cristo a Diogo, governo aliás delegado a sua mãe, dada a menoridade do titular, pela bula Nuper carisimo, de Sisto IV datada de 19 de Junho de 1475. Dona Brites não se limitou então a aguardar a maturidade do filho, empenhando-se directamente na governação da Ordem, como aliás o havia feito, em relação à Ordem de Santiago, ao tempo detida por seu filho João, que contaria apenas cerca de 13 anos. Assim, considerando que no cartório faltava documentação que convinha deter, nomeadamente quanto a constituições, enviou a Badajoz frei Pedro Abreu, vigário da ordem de Cristo, a fim de obter cópias das directrizes em vigor no reino vizinho». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… referem que Afonso V teria admitido o casamento de seu filho com uma outra sobrinha, a princesa D. Juana, matrimónio muito do agrado do pai desta, Enrique IV de Castela, mas para confortar o irmão…»

jdact

D. Brites no governo e na administração da sua Casa
«(…) Donde, levar-nos a pensar que o infante Fernando não se conformava em permanecer num plano mais secundário. Daí que preferisse agir sozinho. Em caso de sucesso, permitir-lhe-ia alcançar glória, prestígio e mais riqueza, já que também não se mostrava indiferente aos despojos que poderia obter. Em 1463, todavia, acompanhou Afonso V numa expedição que tinha como objectivo atacar Tânger, mas o projecto redundou em fracasso, face à fúria dos elementos que dificultaram o desembarque. Logo a seguir, obtido o consentimento régio, o infante lançou-se sobre povoações situadas nas faldas da serra de Benaminir, exigindo para si o quinto do espólio, fazendo tábua rasa do direito cometido a Duarte Meneses, conde de Viana, primeiro capitão de Alcácer Ceguer. Ignorando conselhos prudentes e assentes na experiência, voltou a tentar a conquista de Tânger, em 19 de Janeiro de 1464, mas a surtida saldou-se, do lado português, por duas centenas de mortos e uma centena de prisioneiros. Apesar do desastre, retornou a África e atacou Arzila, sem quaisquer resultados positivos. Em 1469, promoveu nove expedição a Marrocos, atacando a cidade de Anafé, que arrasou e destruiu.
Nota Vitorino Magalhães Godinho que, se Anafé era um importante ninho de galés e fustas bem armadas para a guerra de corso, que continuamente salteavam as costas de Portugal, era igualmente um activo porto de comércio, por onde se escoava o trigo, a seda fina, a fruta e as moedas de ouro e prata. E, ao levianamente arrasar Anafé, atraído apenas pela colheita de um valioso espólio e pela satisfação de orgulho cavaleiresco, o infante não ponderou a real importância da cidade. Enquanto aguardava o marido, D. Brites remetia-se ao seu papel de mãe. Foram nove as crianças nascidas do matrimónio:
  • João (? – 1472 ou 1473);
  • Diogo (? - 1484);
  • Leonor (1458 - 1525);
  • Isabel (1459 - 1521);
  • Duarte (? - ?);
  • Dinis (? - ?);
  • Simão (? - ?);
  • Catarina (? - ?);
  • Manuel (1469-1521);
  • Mas apenas cinco iriam sobreviver à mortalidade infantil: João, Diogo, D. Leonor, D. Isabel e Manuel.
Mas a 18 de Setembro de 1470, D. Brites viria novamente partir o infante Fernando, mas desta vez para ume viagem sem regresso. Fechava-se um ciclo, que se iniciara em Alcáçovas, quando o recebera por marido. Outro se abria agora, que não lhe iria permitir que e tristeza do momento pudesse aniquilar ou sequer intervir na vida que continuava. As filhas, D. Leonor e D. Isabel, haviam celebrado os esponsais, desde muito jovens, no paço de Setúbal e ainda em vida de seu pai. A primeira, pelo seu casamento com o príncipe herdeiro, João, futuro João II, cingiria a coroa de Portugal; a segunda tornar-se-ia duquesa de Bragança, unindo os seus destinos ao duque Fernando, vinte e oito anos mais velho do que ela, viúvo de D. Leonor Meneses, filha de Pedro Meneses, conde de Viana e marquês de Vila Real. Voltando a citar o conde de Sabugosa, diremos que as duas irmãs tiveram assim em sorte os mais cobiçados maridos da Península, o que mais uma vez vem demonstrar a grandeza da Casa de Viseu - Beja, ou a continuada ambição de Fernando, já que, tanto Rui Pina como Garcia Resende referem que Afonso V teria admitido o casamento de seu filho com uma outra sobrinha, a princesa D. Juana, matrimónio muito do agrado do pai desta, Enrique IV de Castela, mas para confortar o irmão, anojado e triste, com o insucesso da pretendida conquista de Tânger, acedera ao pedido que o infante anteriormente lhe fizera.
Quanto ao outro noivo, naturalmente que havia todo o interesse em reforçar os elos com a poderosa Casa de Bragança, não esquecendo que outra não havia que se lhe comparasse. Fernando não poderia eleger diferentes maridos para suas filhas, sob pena de se constranger a si próprio». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «Sisto IV pretendendo demover João II da aplicação rigorosa da lei do beneplácito, no preciso momento que enviava o núncio João Mierli a Lisboa, solicitava à infanta que envidasse esforços no sentido de aconselhar o rei…»

jdact e cortesia do mrbeja

Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) E se visitássemos a botica, poderíamos observar as burnees alinhadas, conferindo os xaropes: de mel rosado, de mel de rosmaninho, de mel de avenca; ou espreitar as almotolias com óleo de raposa e com óleo de hortelã; e as arredomas com água de flor de laranjeira, de erva-cidreira e mais vinte e oito cõ xaropes de muitas maneiras e cãtidades. Se o boticário o permitisse, poderíamos ainda reparar nos utensílios que usava para elaborar as mezinhas, e talvez, com um pouco sorte, nos mostrasse os gatos de algália.
Mas não era só o extenso património ou a demonstração da magnificência do seu palácio de Beja, a que acresciam os paços de Azeitão e de Belas, que revelavam o poder de D. Brites. Para além das ligações familiares com as casas mais influentes do reino, a sua corte contava com fidalgos que detinham altos cargos na administração e nas ordens militares, dos quais desatacaremos: Álvaro Almeida, comendador da Ordem de Santiago, Álvaro Cunha, estribeiro-mor de Afonso V e de João II, Antão Oliveira, cavaleiro da Ordem de Cristo, Artur Brito, alcaide-mor de Beja, Duarte Sodré, comendador da Ordem de Cristo, Fernão Sousa, comendador da Ordem de Cristo e alcaide de Salvaterra de Magos, Francisco Góis, alcaide-mor de Mértola, Garcia Melo, comendador da Ordem de Cristo, Gil Vaz Cunha, comendador da Ordem de Cristo, Gonçalo Vaz Cunha, senhor de Vila Nova de Portimão, vedor da Fazenda e governador da Casa do Cível, Henrique Albuquerque, alcaide-mor de Marvão, Henrique Pereira, comendador da Ordem de Santiago, Leonel Rodrigues, cavaleiro da Ordem de Cristo, Rodrigo Afonso Atouguia, membro do conselho de João II e capitão donatário da ilha de Santiago, e Rodrigo Castro, membro do conselho de João II e alcaide-mor da Covilhã.
A Cúria Romana também não ficou alheia à infanta-duquesa, que manteve relações privilegiadas com a Santa Sé, nomeadamente nos pontificados de Sisto IV e de Inocêncio VIII, de quem obteve por intercessão do cardeal de Portugal, Jorge Costa, personalidade sempre muito próxima da Casa de Viseu-Beja, diversas letras apostólicas que, nomeadamente, favorecerem o Mosteiro de Santa Maria da Conceição, que a duquesa edificara em Beja. Ao invés, também o Sumo Pontífice recorreu a D. Brites. Assim, Sisto IV pretendendo demover João II da aplicação rigorosa da lei do beneplácito, no preciso momento que enviava o núncio João Mierli a Lisboa, solicitava à infanta que envidasse esforços no sentido de aconselhar o rei a não attentar contra liberdade eclesiástica.

D. Brites no governo e na administração da sua Casa
O infante Fernando haveria de falecer ainda jovem, aos 37 anos de idade, em Setúbal, a 18 de Setembro de 1470, sucumbindo à doença que o vinha afligindo desde há alguns meses. Nos anos em que decorreu o casamento, pouco se sabe da duquesa que, certamente, estaria cuidando da sua casa e da família, conforme ao modelo estatuído, que congregava o consenso de clérigos e laicos: Boa espose é aquela que está em casa e que da casa toma conta. O marido, demasiadamente ambicioso para se satisfazer com o governo de sua casa, perdidas as esperanças de cingir a coroa portuguesa ou a de Nápoles, já que não obtivera autorização para integrar o séquito que levara sua irmã, a imperatriz D. Leonor, à Itália, ao encontro de Frederico III, o que lhe permitiria contactar seu tio Afonso V, o Magnânimo, que não dispunha de herdeiro legítimo, voltara-se para outro cenário, concretizado em surtidas ao Norte de África, conquanto, numa primeira fase, não houvesse apoiado o irmão na prossecução da política africana». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sábado, 9 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… sem esquecer o velho livro ‘roto em partes’, com sua funda de chamalote azul. O breviário de pergaminho, de letra de pena, com brochas de prata com as divisas de D. Brites; […] o caderno de pergaminho, anotado, em que ‘estam certas misas d’oficio do amjo’»

jdact e cortesia do mrbeja

Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) A capela, iluminada por castiçais e lâmpadas de prata, adornar-se-ia com ricas alfaias sagradas, entre as quais uma ara de jaspe verde, encastoada num castão de marfim; um porte-paz de prata com sua caldeira de água benta e palea da Holanda lavrada a ouro e aljôfar; um cálice grande de prata dourada cinzelada, com seis campainhas de prata pendentes e respectiva patana, com um esmalte no centro; duas galhetas de prata dourada, em forma de gomis; uma naveta de prata dourada; paramentos de brocado, de damasco, de veludo, de pano da Índia, muitos deles lavrados e ouro. Nas estantes, recobertas com panos de veludo, de damasco ou de chamalote colocar-se-iam os livros litúrgicos: o missal de letra de pena, em pergaminho, que pertencera ao infante João; o missal, também em pergaminho, manuscrito e iluminado; o missal de pena que servia pelas festas; um outro, igualmente de letra de pena, em pergaminho, encadernado em couro vermelho; sem esquecer o velho livro roto em partes, com sua funda de chamalote azul. Seguir-se-iam o breviário de pergaminho, de letra de pena, encadernado, com brochas de prata com as divisas de D. Brites; outro breviário, também de letra de pena, em pergaminho, iluminado; os seis livros de canto de órgão; os doze cadernos de procissões; o santoral anotado, de pergaminho, encadernado em couro vermelho, com brochas de latão; o caderno de pergaminho, anotado, em que estam certas misas d’oficio do amjo; o livro de vésperas, de pergaminho; o oficial de missas, de pergaminho, anotado; o diurnal; o sacramentário; o confessional; o catecismo, em forma purtuguesa, e os livros da educação cristã: Vita Christi, Genesy Alfonse, Vida Amgelica, Flos Santorum, Corte empereal e o livro Das Penas do Imferno e da Gloria Final. Expostos ou resguardados encontravam-se também os relicários: uma cruz, que pertencera ao infante João, encimada por uma coroa de espinhos, tendo ao centro uma bolsa de ouro, ornada com duas vieiras esmaltadas de branco e rodeada por cinco diamantes encastoados, contendo uma relíquia do Santo Lenho; um relicário de ouro, grande, encimado por uma cruz, com três rubis barrocos, três diamantes, seis pérolas grossas, encastoadas em esmalte e um terceiro, também de ouro, esmaltado, em que se continha um osso de São Brás. Enfim, nos armários guardar-se-iam os panos de cetim destinados ao púlpito e as tolhas de altar, de pano da Holanda e de lenço da Índia, lavradas e ouro.
Deixemos a capela e entremos na cozinha. Para a confecção e apresentação dos alimentos dispunha a infanta de uma apreciável quantidade de tachos de cobre, de sertãs, de espetos, de caldeiras, de enfusas, de alguidares, de bocetas, de púcaros, de bandejas, de pratos de estanho e de prata, de talheres de prata, de copos de cristal de variadas cores, de gomis, de jarros, de açucareiros de prata, de porcelanas, de toalhas de damasco, provenientes da Holanda e da Flandres. À sua mesa não faltavam as frutas frescas, as conservas, os confeitos, as especiarias: canela, cravo, gengibre, malagueta, noz-moscada, pimenta». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… três rubis barrocos e dois diamantes de pontas finas; uma safira muyto gramde encastoada em ouro; um anel de ouro grande com uma safira azul; um anel de ouro com uma safira branca e olho-de-gato; um anel pequeno com um diamante…»

jdact e cortesia do mrbeja

Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) Para o lado da rua dos Infantes ficavam as residências dos moradores. No quintal, plantado de árvores, localizavam-se as necessárias. Se são escassos os elementos de descrição externa do edifício, o que dizer do seu interior para o qual dispomos apenas do auxílio de dois documentos: o que refere o enxoval da infanta e as disposições testamentárias da mesma, que seu filho Manuel I faria executar? Tentemos, ainda assim, entrar no palácio.
Sobre o pavimento, revestido de azulejos valencianos, avultariam as alcatifas, vindas de Castela e do Levante. As paredes deveriam ser total ou parcialmente cobertas por panos de rás (de que D. Brites levara doze, por ocasião do casamento), de dimensão e lavor variado, reflectindo a opulência da casa. Os mais pequenos representavam apenas uma figura, como, por exemplo, um rei detendo na mão o ceptro; outros narravam a história dos profetas. Face à abundância dos cercamentos de câmara, provavelmente de acordo com a dependência, e porventura com a ocasião, assim se colocariam os de cetim azul com esteios de veludo carmesim, os de damasquim pardo ou os de sarja. De entre o mobiliário avultavam as arcas, de primordial importância no acervo de uma casa pela multiplicidade de funções que ofereciam. Nelas se se aconchegavam os objectos de adorno, as peças de indumentária, se guardavam as roupas de casa, os livros, a loiça, mas poderiam igualmente servir de leito, como bem notou Oliveira Marques. A infanta dispunha de setenta e nove. Havia também os cofres: em âmbar, marchetados de marfim, provenientes da Alemanha, da Flandres, de Aragão, de Pisa, onde D. Brites guardaria as muitas jóias de que dispunha, como, por exemplo: uma vieira de ouro; dois negros de ouro; um firmal de ouro com uma figura de donzela esmaltada; um anel de sinete; uma mãozinha de ouro cheia de âmbar; uma cadeia com duas pontas de ouro e esmalte preto; uma lancinha de ouro com uma bandeira e as armas de Castela, sobre esmaltes e ferro de prata; uma língua de escorpião encastoada, em ouro, em forma de faixa com dois escudos das armas de Castela, também de ouro e esmaltados; um escudo das armas de Portugal, de ouro, esmaltado, encimado pela respectiva coroa em que brilhavam três rubis barrocos e dois diamantes de pontas finas; uma safira muyto gramde encastoada em ouro; um anel de ouro grande com uma safira azul; um anel de ouro com uma safira branca e olho-de-gato; um anel pequeno com um diamante; cinco diamantes soltos; cinco esmeraldas; seis safiras grandes, das quais quatro encastoadas em ouro; oito rubis grandes encastoados em ouro; dois castões de ouro, um deles esmaltado de branco; cinco amuletos, três de pérolas e dois de ouro; um castão de ouro, esmaltado, contendo uma pérola; dezoito rubis pequenos; dezasseis safiras; três botões de ouro, cheios de âmbar; uma sobrecopa de ouro, com esmaltes verdes e brancos, em forma de tenda, em que em torno da franja brilhavam seis rubis barrocos, encastoados em ouro, uma safira, também encastoada, entremeadas de pérolas, sendo o conjunto encimado por uma safira grande, três rubis barrocos e três pérolas pendentes entre os rubis e à porta da tenda apresentava-se uma figura de donzela com um rubi barroco na mão; cinco cordões, um de quarenta e cinco corais, outro de cinquenta corais, longos e grossos, com as extremidades de ouro cobertas de âmbar; um outro de contas cobertas de âmbar, com pontas de prata; um quarto, longo, de contas de âmbar e por fim o quinto composto por sessenta corais pequenos e longos, com sete extremidades de ouro. Relativamente às roupas de cama abundavam as colchas da Bretanha, as almofadas, os lençóis da Holanda, os cobertores de grã-vermelha, de Londres e de papa». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

domingo, 30 de março de 2014

A Morte do Lidador. Resumo. Alexandre Herculano. «Ao romper d'alva, os cavaleiros do Lidador saíam mais de dois tiros de besta além das muralhas de Beja; tudo porém estava em silêncio, e só, aqui e ali, as searas calcadas davam rebate de que por aqueles sítios tinham vagueados almogaures mouros»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Pajens! Ou arreiem o meu ginete murzelo; e vós dai-me o meu lorigão de malha de ferro e a minha boa toledana. Senhores cavaleiros, hoje contam-se noventa e cinco anos que recebi o baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavaleiro, e quero celebrar tal dia fazendo entrada por terras da frontaria dos mouros. Isto dizia na sala de armas do castelo de Beja Gonçalo Mendes da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejara e por seu valor indomável, chamavam o Lidador. Afonso Henriques, depois do infeliz sucesso de Badajoz, e feitas pazes com el-rei Leão, o nomeara fronteiro da cidade de Beja, de pouco tempo conquistada aos mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam com ele, e outros muitos cavaleiros afamados, entre os quais Ligel de Flandres e Mem Moniz, que a festa de vossos anos, Senhor Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavaleiro que de capitão encanecido e prudente. Deu-vos el-rei esta frontaria de Beja para bem a haverdes de guardar, e não sei se arriscado é sair hoje à campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva, que o famoso Almoleimar correr por estes arredores com dez vezes mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros desta sala de armas. Voto a Cristo, atalhou o Lidador, que não cria em que o senhor rei me houvesse posto nesta torre de Beja para estar assentado à lareira da chaminé, como velha dona, a espreitar de quando em quando por uma seteira se cavaleiros mouros vinham correr até a barbacã, para lhes cerrar as portas e ladrar-lhes do cimo da torre da menagem, como usam os vilãos. Quem achar que são duros de mais os arneses dos infiéis pode ficar-se aqui.
 - Bem dito! Bem dito!, exclamaram, dando grandes risadas, os cavaleiros mancebos. - Por minha boa espada!, gritou Mem Moniz, atirando o guante ferrado às lájeas do pavimento, que mente pela gorja quem disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez léguas em redor lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga mourisca. A cavalo! A cavalo!, gritou outra vez a chusma, com grande alarido. Dali a pouco, ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos cavaleiros descendo os degraus de mármore da torre de Beja e, passados alguns instantes, soava só o tropear dos cavalos, atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores que davam para a banda da campanha por onde costumava aparecer a mourisma.
Era um dia do mês de Julho, duas horas depois da alvorada, e tudo estava em grande silêncio dentro da cerca de Beja: batia o sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam: ao longe, pelas imensas campinas que avizinhavam o têso sobre que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras, cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores cristãos. Regados por lágrimas de escravos tinham sido esses campos, quando formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lágrimas de servos seriam outra vez umedecidos, quando, no mês de Julho, a paveia, cercada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro: choro de amargura havia aí, como, cinco séculos antes, o houvera: então de cristãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz hateava-se outra vez sobre o crescente quebrado: os coruchéus das mesquitas convertiam-se em campanários de sés, e a voz do almuadem trocava-se por toada de sinos, que chamavam à oração entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos filhos d'África e do Oriente, que diziam, mostrando os alfanges: é nossa a terra de Espanha. O dito árabe foi desmentido; mas a resposta gastou oito séculos a escrever-se. Pelaio entalhou com a espada a primeira palavra dela nos cerros das Astúrias; a última gravaram-na Fernando e Isabel, com os pelouros de suas bambardes, nos panos das muralhas da formosa Granada: e esta escritura, estampada em alcantis de ontanhas, em campos de batalha, nos portais e torres dos templos, nos bancos dos muros das cidades e castelos, acrescentou no fim a mão da Providência, assim para todo o sempre! Nesta luta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alentejo.
O servo mouro olhava todos os dias para o horizonte, onde se enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava ele salvação ou, ao menos, vingança; ao menos, um dia de combate e corpos de cristãos estirados na veiga para pasto dos açôres bravios. A vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lágrimas, embora as aves de rapina tivessem, também, abundante ceva de cadáveres de seus irmãos! E este ameno dia de Julho devia ser um desses dias por que suspirava o servo ismaelita. Almoleimar descera com os seus cavaleiros às campinas de Beja. Pelas horas mortas da noite, viam-se as almenaras das suas talaias nos píncaros das serras remotas, semelhantes às luzinhas que em descampados e tremedais acendem as bruxas em noites de seus folguedos: bem longe estavam as almenaras, mas bem perto sentiam os escutas o resfolegar e o tropear de cavalos, e o ranger das folhas secas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro de caneleira ou de coxote. Ao romper d'alva, os cavaleiros do Lidador saíam mais de dois tiros de besta além das muralhas de Beja; tudo porém estava em silêncio, e só, aqui e ali, as searas calcadas davam rebate de que por aqueles sítios tinham vagueados almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia, pelo quarto de modôrra, as habitações dos pastores além das encostas do Atlas». In Alexandre Herculano, A morte do Lidador, Resumo, Antologia da Literatura Mundial, Logos, 1959.

Cortesia de Logos/JDACT

terça-feira, 4 de março de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «A fachada, onde se rasgava a porta principal, era dotada de uma magnífica escadaria de pedra da região que, nascendo no tabuleiro do adro da Igreja e extradorso do paço, atingia em forma de leque de secção pentagonal, o recinto público do Terreiro»

jdact e cortesia do mrbeja

Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) Poder que se espelhava no património do ducado, que aos bens anteriormente descritos iria posteriormente acrescer a parte da herança do condestável Nuno Álvares Pereira, adquirida por direito de sucessão aos familiares directos de D. Brites: seus irmãos, Diogo e D. Filipa, ambos falecidos solteiros e sem descendentes. É certo que a primeira herdeira de Diogo seria D. Isabel, a irmã mais velha das meninas, mas esta era rainha de Castela, pelo que Afonso V entendeu comprar-lhe a herança por 60 mil florins de ouro do cunho de Aragão, evitando que esse património passasse a mãos estrangeiras. Do adquirido fez o monarca doação a Fernando, a título de dote de casamento. Entravam, assim, na posse da Casa de Viseu-Beja a vila de Almada, a vila de Loulé e seus termos, com todas as suas rendas e direitos, incluindo os tributos de mouros e cristãos que lavrassem no reguengo, as terres e julgados de Lousada e de Paiva, o montado de Campo de Ourique, com todo o direito do cardo e do verde, a quintã e paço de Belas, com todas as suas rendas, foros, tributos e padroados, a quintã e paço de Azeitão, o reguengo e lugar de Colares, as rendas e direitos de Serpa e a quinta de Alagoa Alva, sita no termo de Santarém, coutada com todas as herdades, ribeiras e águas.
Mais tarde, já no estado de viúva, D. Brites iria adquirir diversos bens de raiz nas vilas de Beja, Serpa, Moura, e seus termos, bens que, na sua quase totalidade, legaria ao Mosteiro de Santa Maria da Conceição de Beja, que fundou. Residiu D. Brites, grande parte da sua vida, em Beja, no paço edificado por ocasião do casamento. Localizava-se no largo onde se erguia a Igreja de Santa Maria da Feira, com as traseiras viradas para a rua que, por extensão, tomou o nome dos nobres residentes: Rua dos Infantes. A sua casa era opulenta, ostentosa, e servida com tanta magnificência (…) que dava a impressão de uma verdadeira Corte, constata uma vez mais o conde de Sabugosa. Cremos também que deveria ter sido imponente. Nem outra coisa seria de esperar dos duques, cuja linhagem, estatuto e atitude se comparavam à Casa Real. E dizemos que devia, porque, infelizmente (é sempre doloroso admitir a perda de património onde se inscreve a nossa História), o peso dos anos não poupou o palácio e a degradação foi-se acentuando. Nos finais do século XIX, apresentando já um estado deplorável, a Câmara de Beja, aproveitando as leis emanadas no liberalismo, que determinaram a desamortização dos bens das instituições eclesiásticas e monásticas, solicitou ao poder central, em 12 de Abril de 1894, a cedência do edifício e terrenos adjacentes para demolição, com vista ao alargamento de ruas. Por despacho de 4 de Outubro do mesmo ano, o rei Carlos I havia de deferir o pedido. Donde, da nobre residência de D. Brites apenas hoje restam alguns vestígios, integrados ou recolhidos no Museu Regional de Beja, denominado Museu Rainha D. Leonor, instalado, a partir de 1927, em dependências que haviam pertencido ao extinto Mosteiro de Santa Maria da Conceição: uma belíssima janela geminada de mármore cinzento, que se inseriu na fachada do mosteiro, que Raul Proença classificou como um dos mais lindos e originais ajimeces do mourisco alentejano, algumas pedras de armas e a reconstituição, a partir de uma parte original, de uma grelhagem em terracota do antigo passadiço, composto por arcaturas cegas de ladrilho e gelosias com ornatos geométricos e vegetalistas, que ligava o palácio ao coro alto do mosteiro. Não podendo contemplar o palácio, socorremo-nos da descrição de Túlio Espanca, que inventariou o património artístico, nomeadamente do Sul de Portugal.
A fachada, onde se rasgava a porta principal, era dotada de uma magnífica escadaria de pedra da região que, nascendo no tabuleiro do adro da Igreja de Santa Maria da Feira e extradorso do paço, atingia em forma de leque de secção pentagonal, o recinto público do Terreiro. Um terraço de grelhas de tijolo e balcões geminados com arcos de ferradura dava acesso ao andar nobre, coberto por telhado de quatro águas. Sobranceira à escadaria abria-se um ajiméz de arco em ferradura, em mármore cinzento, denunciando a preferência pela arquitectura mudéjar. Um outro ajiméz, em mármore branco, ornamentava também o palácio. Ao nível do andar nobre corria um balcão, muito provavelmente também de estilo mudéjar, onde se abriam duas largas portas que comunicavam com o salão de recepção. No piso térreo, que deitava para um espaçoso pátio, localizava-se uma enorme sala, sustentada por colunas de tijolo. De cada lado do pátio, situavam-se as habitações dos criados, as cocheiras e as arrecadações». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria O. Martins. «Um enxoval em que, a par das peças que deviam bem apetrechar uma casa, fossem ornamentos, como panos de rás ou cortinas douradas e prateadas, fossem de uso quotidiano, como os gomis, os picheis, os saleiros, as confeiteiras ou os castiçais para brandões…»

jdact

D. Brites (Beatriz)
«(…) Em Alcáçovas, em 1447, em cerimónia conjunta, a que assistiram o rei, o regente Pedro e a mãe das noivas, a viúva do infante João, celebraram-se os matrimónios das duas irmãs. D. Isabel toucar-se-ia com uma coroa de rainha, mas D. Brites, tomando as palavras de António Caetano Sousa, desposava o mayor senhor que nunce houve em Hespanha, que não fosse Rey. De facto, não é de estranhar que o notável teatino, académico da Real Academia da História Portuguesa, assim considerasse o infante Fernando, já que o mero elencar dos títulos e senhorios, que iria reunir no curto percurso da sua vida, comprovava a importância e poder da sua casa: 1º duque de Beja; 2º duque de Viseu, por sucessão do infante Henrique que, não tendo tomado estado e carecendo de descendentes que pudessem perpetuar a sua memória, elegera o sobrinho como filho adoptivo, em testamento lavrado em Estremoz, a 7 de Março de1436; 5º condestável do reino, ocupando a vacatura deixada pelo condestável Pedro, filho do regente Pedro; 9º mestre da Ordem de Cristo e 12º o mestre da Ordem de Santiago; fronteiro-mor do Alentejo e do reino do Algarve; alcaide-mor da Guarda, de Tavira e de Marvão; senhor da Covilhã, de Serpa, de Moura, de Lagos, de Gouveia, da terra de Besteiros, de Lafões, de Sátão, detendo ainda a exploração das saboarias do reino com o respectivo monopólio do fabrico e venda do sabão; os direitos reais, judiaria e mouraria nas terras de Santarém; as rendas e direitos das lezírias dos barrocais da Redinha e a posse e administração dos arquipélagos da Madeira e dos Açores e das ilhas de Santiago, Maio, Boavista e Sal, no arquipélago de Cabo Verde, e ainda o senhorio de Anafé, no Norte de África.
Tão vasto património provinha das régias doações de seu irmão, mas continha-se essencialmente no legado do infante Henrique, seu tio. As mercês concedidas ao infante Fernando foram de tal grandeza que, na relação extraída do Livro dos Contos do Reino, relativos a 1461 a 1469, regista-se que a mor contia (...) foy despachada ao Iffamte dom Fernando, em que para seu assentamento recebera da coroa, no ano de 1461, dois milhões duzentos e oito mil quinhentos e sessenta e um reais, pagos nos almoxarifados de Setúbal, Faro, Tavira e Beja.

Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
Nada nos é dito sobre o que teria pensado a jovem em relação ao noivo que lhe impunham. Era ainda uma adolescente quando se celebraram os esponsais. Talvez tenha ficado agradada pelo facto de Fernando ser tão jovem quanto ela, enquanto sua irmã iria encontrar um marido vinte anos mais velho. Decerto teria ficado embevecida com o riquíssimo enxoval com que sua mãe a presenteara. Um enxoval em que, a par das peças que deviam bem apetrechar uma casa, fossem ornamentos, como panos de rás ou cortinas douradas e prateadas, fossem de uso quotidiano, como os gomis, os picheis, os saleiros, as confeiteiras ou os castiçais para brandões, avultavam as jóias de fino lavrado, onde brilhavam os diamantes, as esmeraldas, os rubis, as pérolas grossas, e se arrolavam as crespinas de ouro, de veludo e de cambraia, as toucas estufadas, as opas e mantos de brocado, de veludo e de damasco, os chapins dourados, os espelhos de âmbar, os perfumes, as alfaias sagradas, as arcas de Flandres, os cofres de Aragão. Um enxoval digno de uma princesa ou de uma sultana, nas palavras do conde de Sabugosa, que, extasiado na leitura do registo, não encontrou similitude para tanta grandeza senão nos lendários faustos do Oriente. Ou seja, o enxoval, demonstrando a generosidade de quem dava e a magnificência de quem o recebia, antecipava a grandeza e o poder que constituiriam apanágio da Casa de Viseu-Beja». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

domingo, 15 de dezembro de 2013

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «Quanto a D. Brites, o lance não era de menor monta. O noivo seria um primo directo, Fernando, terceiro filho varão do rei Duarte I, que o Regente, avisadamente, havia feito jurar príncipe herdeiro em Tomar em 1438»

jdact

D. Brites
«(…) Não rezam as crónicas nada sobre e sua infância, tão-pouco sobre a educação que lhe teria sido ministrada por seus pais que, ainda assim, cremos ter sido esmerada, na esteira da tradição dos fundadores da dinastia. É certo que, na esfera da cultura, o infante João não deixou um rasto como seu pai, João I, ou como seus irmãos Duarte e Pedro, mas tal não significa que a sua formação tenha sido descuidada. Aliás, recordamos que o infante João, na sequência do falecimento de D. Filipa em Odivelas, em 1415, foi acolhido na casa do futuro Eloquente. Igualmente desconhecemos os interesses ou aptidões de D. Isabel, mas lembramos que em relação a seu irmão Fernando, conde de Arraiolos, marquês de Vila Viçosa e futuro 2.º duque de Bragança, conhece-se uma carta que dirigiu, em 1460, a Afonso V, no contexto dos debates que então se verificavam em torno do prosseguimento da política africana, em que fundamentou a sua argumentação com recurso aos clássicos e à patrística. De qualquer modo, estamos, ainda assim, no campo das conjecturas e apenes podemos afirmar que a infanta sabia ler e escrever. Do domínio da escrita dá testemunho os documentos em que apôs a sua assinatura, e em que não raras vezes adicionou algumas palavras precisando intenções ou afirmando autoridade. No tocante à leitura, e à semelhança das suas familiares, lia o breviário e, provavelmente, as obras piedosas, que se encontravam na biblioteca do palácio de Beja, tais como a Vita Christi, de Ludolfo de Saxónia, ou a Contemplação de Nossa Senhora, de São João Boaventura.

De novo no seio da família: o casamento na Casa Real
O infante João faleceu cedo, em Outubro de 1442, deixando a sua viúva o encargo de seus filhos: Diogo, D. Isabel, D. Brites e D. Filipa. Do destino de Diogo encarregar-se-ia o Regente Pedro que, projectando desta forma a afeição que dedicara ao irmão dilecto, o faria ascender ao mestrado de Santiago, para cujo cargo foi eleito a 24 de Janeiro de 1443. Deteria o governo da Ordem por um escasso período de tempo, pois a morte viria surpreendê-lo um ano depois, sem haver tomado estado, ou ter deixado sucessão. D. Isabel, como anteriormente se referiu, ascenderia ao trono de Castela. Todavia não era esta e coroa com que seu avô, Afonso, havia sonhado. Projectara, ao invés, um matrimónio com o rei português, D. Afonso V, terçando armas que o levariam mesmo a deitar mão da calúnia que pretendia manchar a reputação de sua sobrinha, também de nome Isabel, já esposa do monarca, filha de seu meio-irmão, o Regente Pedro. Quanto a D. Brites, o lance não era de menor monta. O noivo seria um primo directo, Fernando, terceiro filho varão do rei Duarte I, que o Regente, avisadamente, havia feito jurar príncipe herdeiro em Tomar em 1438, precavendo-se contra um eventual insucesso do jovem monarca, Afonso V recordando a elevada mortalidade infantil que grassava na época, e que já anteriormente havia ceifado o infante João, primogénito real. Fernando perfilava-se, assim, como segundo na ordem da sucessão, indo de novo alimentar a secreta esperança de Afonso de Bragança de ver uma das suas netas sentada no trono de Portugal, o que lavaria a mancha de bastardia que incomodava a sue linhagem. D. Filipa, a mais moça, permaneceu solteira. Crê-se que ainda se teria negociado a sua união com seu tio Afonso, marquês de Valença, primogénito do duque de Bragança, mas o projecto acabou por gorar-se, dado o falecimento do presuntivo noivo». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… a pequenina infanta era próxima familiar das duas principais figuras donde emergiu a novel dinastia: ‘o rei e o seu condestável que, com a força do seu braço armado, abriu o caminho que levaria ao trono o Mestre de Avis’»

jdact

D. Brites
«Ao observarmos a tela exposta na igreja do extinto Mosteiro de Santa Maria da Conceição de Beja, em que se pretende representar a infanta D. Brites, deparamo-nos com uma figura serene, conforme, é certo, aos cânones a que deviam obedecer os retratos. E, todavia, a infanta, duquesa de Viseu e duquesa de Beja, foi uma mulher continuamente inquieta, prosseguindo objectivos que traçou e que nortearam a sua vida. A gravura inserta no manuscrito de Vasco Freire, intitulado Livro das antiguidades de Beja, apresenta uma imagem, em nosso entender, bem mais consentânea com a sua vincada personalidade. Ambas as imagens são posteriores, mas na gravura do manuscrito o iluminador, que talvez tenha lido ou ouvido contar o percurso de vida da infanta, captou um olhar enigmático, sagaz, próprio de alguém que se resguardava, que media o interlocutor, que calculava e calculava eventuais confrontos. Mas quem foi, afinal, a infanta D. Brites?
Qualquer biografia costuma iniciar-se com a referência à data de nascimento e ao local onde tal ocorreu, mas para os tempos medievais frequentemente não nos é possível precisar tais dados, face à ausência de registos. É o caso da infanta D. Brites. A crer na inscrição gravada na sua sepultura, e neste caso não temos razões para duvidar porquanto a cotejámos com outras fontes, faleceu em 1506, contando então 77 anos. Sendo assim teria nascido em 1429. Mas se chegamos a uma data, se bem que estimada, outro tanto não o poderemos fazer relativamente ao local onde abriu, pela primeira vez os olhos pera a vida. Belas? Azeitão? Alcochete? Estremoz? Palmela? Alcáçovas? Alcácer do Sal? Setúbal? Qualquer delas poderia ter sido berço da infanta. Mas se temos suporte para as elencarmos, considerando que as duas primeiras se inscreviam no senhorio de seu pai e as últimas estavam na órbita da Ordem de Santiago, de que o progenitor era mestre, desviar-nos-íamos do rigor científico se ousássemos, sem um fundamento sólido, fixarmo-nos numa determinada, até porque poderíamos aventar ainda a hipótese de Lisboa. Desconhecemos também se o local do nascimento constituiu referência para a infanta, mas referência sem dúvida foi a família de que nasceu.
D. Brites foi o terceiro rebento originado do matrimónio do infante João com sua sobrinha D. Isabel, celebrado em 1424. O infante João, mestre da Ordem de Santiago e condestável do reino, era o penúltimo filho do rei de Boa Memória e da rainha D. Filipa de Lencastre. Os pais de D. Isabel eram Afonso, então conde de Barcelos e futuro l.º duque de Bragança, bastardo de João I, e D. Brites Pereira de Alvim, única filha de Nuno Álvares Pereira e de D. Leonor de Alvim. Donde, a pequenina infanta era, simultaneamente, próxima familiar das duas principais figuras donde emergiu a novel dinastia: o rei e o seu condestável que, com a força do seu braço armado, abriu o caminho que levaria ao trono o Mestre de Avis. Ambos bastardos, ambos de linhagem, um filho do rei Pedro I, o outro de Álvaro Gonçalves Pereira, mestre da Ordem de S. João de Jerusalém. Não seriam os pergaminhos que iriam faltar à infanta, cujas raízes se imbricavam duplamente na Casa de Avis e na poderosa Casa de Bragança. Mas as suas redes familiares não se quedavam na Casa Real portuguesa. Em Castela, reinaria sua irmã, D. Isabel, por consórcio com Juan II, então viúvo de D. Maria de Aragão. É certo que não logrou por muito tempo a afeição da irmã. A rainha, segundo os cronistas, caíra em depressão profunda logo após o falecimento do marido, depressão que se tornaria crónica. Correu D. Isabel, a mãe, a Arévalo a fim de acompanhar a filha na sua doença e prestar os devidos cuidados aos netos. Aí acabaria por falecer em 1465. Não voltaria, D. Brites, a abraçar sua mãe e sua irmã. Mas restava-lhe a sobrinha, também de nome Isabel, a futura rainha Católica, com quem iria manter laços de grande afectividade e até de cumplicidade». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Villa Romana de Pisões. Alentejo. «Foi descoberta em 1967, durante trabalhos agrícolas, iniciando-se de imediato a sua investigação arqueológica. Em 1970 foi classificado como “Imóvel de Interesse Público”. Ocupada no período romano entre os séculos I a.C. e IV d.C.»


Cortesia de igespar e wikipedia

«O sítio arqueológico da villa romana de Pisões situa-se na Herdade da Almagrassa, a cerca de 10 Km a Sudoeste da cidade de Beja. Foi descoberta em 1967, durante trabalhos agrícolas, iniciando-se de imediato a sua investigação arqueológica. Em 1970 foi classificado como Imóvel de Interesse Público. Ocupada no período romano entre os séculos I a.C. e IV d.C., encontra-se hoje parcialmente escavada, nomeadamente uma parte significativa da casa dos proprietários, apresentando mais de quarenta divisões centradas num peristilo, ricamente decoradas e onde se destacam os mosaicos. Indissociável do conjunto de estruturas da villa é a barragem de Pisões, situada a cerca de 200m, e cuja principal finalidade seria o abastecimento de água para alimentação dos seus tanques, piscina e termas, de dimensões apreciáveis». In IGESPAR.




«A dois passos de Beja, as ruínas de Pisões, com os seus mosaicos velhos de 20 séculos, são um dos sítios arqueológicos que atestam a ancestral tradição rural do Alentejo. Na villa de Pisões, com a sua arquitetura tipicamente romana, organizada à volta de um peristilo (pátio central com colunas), é inevitável sentir-se transportado para os primórdios da nossa era e tentar imaginar como dia a dia viviam os seus habitantes, que mãos tocaram estas paredes, que sentimentos as moveram. Nestas ruínas de um importante centro de exploração agrícola para o abastecimento de Pax Julia, a Beja do século I ao século IV, encontra-se visível o que se designa por pars urbana, a zona residencial dos proprietários. A pars rustica e a pars fructuaria, onde se localizavam as habitações dos trabalhadores e os celeiros e lagares ainda se encontram por desenterrar.
Foi por acaso, na consequência de trabalhos agrícolas, que em 1967, foi descoberta a villa. Os mosaicos, monocromáticos e policromáticos, com motivos geométricos ou naturalistas, que revestem os pavimentos das mais importantes das 40 divisões da pars urbana são, por si só, razão suficiente para a visita de Pisões. Fica na Herdade de Almagrassa, a poucos quilómetros de Beja. Nas proximidades, a barragem romana, outrora essencial para manter as belíssimas termas, com um hipocausto, estrutura subterrânea para aquecimento, extremamente bem conservado, e a espantosa piscina de comprimento olímpico». In VisitPortugal, Wikipédia.

Cortesia de IGESPAR/Wikipédia/JDACT

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. Leonel Borrela. «… edições bilingues e de origem portuguesa, prova de que, aos investigadores franceses, a nossa crítica, mesmo que significativa, não é para levar a sério. Se fosse traduzida para a língua francesa uma obra como a de António Belard da Fonseca, seria suficiente para clarificar melhor a autenticidade feminina e portuguesa das Cartas»

jdact

Análise quantitativa
Numa primeira análise pode dizer-se que a internacionalização das Cartas Portuguesas ajudou a consolidá-las e a criar-lhes uma imagem literária de singularidade reconhecida por leitores de todo o mundo. A primeira obra impressa das cinco Cartas é traduzida para a língua francesa e editada no ano de 1669, o mesmo acontecendo a todas as edições, reedições e contrafacções, dos séculos XVII e XVIII, as quais virão gradualmente misturando as cinco cartas com as sete de uma dama secular, mais as respostas dos amantes. O idioma francês domina este período das Luzes como se pode observar pela análise dos resultados estatísticos, embora nem todas as edições sejam de origem francesa, encontram-se assim distribuídas:
  • sete edições no século XVII, em Paris 1, Lyon 2, Amesterdão 2 e Haia 2; 
  • quatro edições no século XVIII, em Haia 3 e Paris 1.
No século XIX saem do prelo 23 edições em vários idiomas:
  • francês 4, 
  • castelhano 1, 
  • inglês 3, 
  • dinamarquês 1, 
  • holandês 1, 
  • português 11, 
  • bilingues luso-gálica 1 e franco-britanica 1.
É o século da nota Boissonade (1810), do desvendar do nome de Mariana Alcoforado, a provocar uma reviravolta no centro das atenções literárias europeias; e também uma benesse para Portugal, tão necessitado de valores que revitalizem a nação cada vez mais depauperada, e para as investigações de Luciano Cordeiro (1888; 1891). As edições em língua portuguesa, mais a bilingue, representam já 50% do total deste século, sobem a primeiro plano e vão influenciar, através da actuação de um diplomata e investigador inglês, Edgar Prestage, que traduz para a sua língua e torna conhecida, em Londres e Portland-Maine, parte do estudo de Soror Marianna de Cordeiro, ao mesmo tempo que motiva as edições de Copenhaga e de Amesterdão.
Do século XX aos nossos dias o aumento das publicações é significativo (93% do total da colecção). O conjunto dos séculos XVII, XVIII e XIX, com 34 exemplarcs (7% da colecção), é ainda maioritariamente francês (44%), logo seguido do português (32%), contudo a partir do século XX, aumenta consideravelmente o número de traduções, além das já mencionadas, para alemão, italiano, norueguês, grego, galego, catalão, japonês, checo, polaco e chinês. A posição da língua portuguesa cresce para 354 exemplares (73% do total da colecção), a francesa para 56 (11,5%), seguidas das inglesa (3,3%) e castelhana (3%) com respectivamente 16 e 15 exemplares cada uma e, para as línguas italiana (1,6%) e alemã (1,5%) com respectivamente 8 e 7 exemplares cada uma. Na língua japonesa editam-se 3 exemplares, na checa 2, reduzindo-se as restantes a 1 exemplar cada; salientam-se as 12 edições bilingues luso-gálicas (2,5%), sinal da partilha e troca de ideias, aliadas a uma certa competição, entre editoras e autores de ambos os países. Porém, a maioria dessas edições bilingues e de origem portuguesa, prova de que, aos investigadores franceses, a nossa crítica, mesmo que significativa, não é para levar a sério. Se fosse traduzida para a língua francesa uma obra como a de António Belard da Fonseca, seria suficiente para clarificar melhor a autenticidade feminina e portuguesa das Cartas.
Além do exponencial aumento das edições em língua portuguesa interessa conhecer, dadas as mudanças políticas operadas no país nos últimos quase duzentos anos, o comportamento de algumas das variáveis mais importantes. Por exemplo, enquanto para o Período Liberal se contabilizam 13 exemplares, para a I República alcançam-se 48, para o Estado Novo os 85, e a partir de Abril de 1974 atingem-se os 188, mais 20 sem data, perfazem 354 exemplares. Nem todas as publicações são livros, também há periódicos, assim 352 são livros e 132 são periódicos (a maioria publicados depois de Abril de 1974), mais 1 álbum de fotografias afecto ao livro de Luciano Cordeiro (1891). Portanto, para o Período Liberal, justificam-se os 13 exemplares, por um lado, pela emergente mas ainda fraca divulgação das Cartas, pelo analfabetismo reinante (atingia os 70% em 1910) e, quiçá, pela raridade e dificuldade de laboração nas principais cidades das oficinas tipográficas, pois a crise económica e financeira é grave, descontrolada, e afecta todos os sectores da sociedade; à medida que esses factores se invertem, aumenta o número de publicações de todo o género e, nos escassos dezasseis anos da I Republica, com uma Grande Guerra de permeio, chegam a 48 as edições, enquanto nos quarenta e oito anos do Estado Novo somente se editam 85 obras, proporcionalmente menos do que seria de esperar, pois a tipografia clássica da zincogravura e dos tipos dará gradualmente lugar ao moderno offset e a censura (palermas) política, num caso isolado, o das Três Marias e das suas Novas Cartas Portuguesas (1972-1974), não hostiliza as Lettres, nem Mariana, que aliás lhe interessa para engrandecer a fachada dos heróis nacionais; porém, com o 25 de Abril, a abolição da censura, a restauração das liberdades fundamentais a todos os cidadãos e a expansão de uma livre economia de mercado, crescem as empresas gráficas, as editoras e dá-se a mediatização rápida dos meios de informação, só assim se compreendendo os 188 exemplares publicados neste período com vantagem para os periódicos». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. Leonel Borrela. «Os séculos XVII, XVIII e boa parte do XIX, privilegiaram a língua francesa, o idioma que mais se falava, lia e escrevia, em quase todo o ocidente europeu dominado pelas Luzes e pela nova realidade política, após Revolução Francesa»

jdact

Quantidade e Qualidade nas Lettres Portugaises
«Concluído o inventário das obras bibliográficas da Colecção Alcoforadina  optámos por aplicar uma metodologia que vá ao encontro da que utilizou Fernando Guedes. O autor, após contextualizar a problemática da influência das Luzes no final de setecentos em Portugal, apresenta os resultados das suas análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre o manancial de informação bibliográfica extraído de onze catálogos de livreiros lisboetas, de 1777 a 1797, cujas lacunas para os anos em falta preencheu com as listas de impressões efectuadas na Régia Oficina Tipográfica. Do mesmo modo procederá com a análise do primeiro quartel do século XIX. Enquanto F. Guedes analisa, de entre vastos sectores, livros de moral, filosofia, direito, história e novelas, caracterizando as mudanças de política editorial, aliadas à leitura, far-se-á uma incursão por algumas das principais obras que autores, ensaístas, escritores, artistas, políticos, actores, poetas, etc. e editores nos propiciaram na concepção de um livro temático, o das Lettres Portugaises.
Assim, viajaremos dos seculos XVII ao XXI; da Edição Princeps a uma das mais recentes; dos idiomas francês, passando por uma dezena de outros, até ao japonês, ao longo de 485 exemplares manifestamente impossíveis de valorizar individualmente.
No âmbito da edição internacional das Lettres Portugaises, as línguas francesa e portuguesa ocupam actualmente o lugar de destaque, embora em proporções desiguais, com grande vantagem para Portugal, mas nem sempre foi assim. Com efeito, os séculos XVII, XVIII e boa parte do XIX, privilegiaram a língua francesa, o idioma que mais se falava, lia e escrevia, em quase todo o ocidente europeu dominado pelas Luzes e pela nova realidade política, após Revolução Francesa (1789), de cariz republicano e liberal,  como revelam mais de sessenta edições publicadas, entre 1669 e 1747, em Paris, Grenoble, Lyon, Tournay, Colónia, Amesterdão, Haia, Bruxelas e Antuérpia. Ainda no século XVII, segundo o bibliófilo José dos Santos, virão a lume:
  • de Londres, em 1678, na língua inglesa, traduzida do francês por Roger L’Estrange, Five loveletters from a nun to a cavalier editado por Henry Brome; 
  • de Veneza, em italiano, no ano de 1682, as Lettere Amorose Portvghesi […] Trasportate dal Portughese in Francese, e dal Francese in Italiano, por Narbonte Pordone.
o século XVIII trar-nos-á uma edição alemã, de Rotenburg, datada de 1788, há outra mais antiga, Briefewechfed eine Portugiesisher none. No século XIX ainda saem do prelo boas edições francesas e bilingues luso-gálicas. Vê-se como era pobre o panorama das edições extra francófonas. Só a partir do século XIX, muito depois da Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Itália (Veneza), Portugal despertou, via nota Boissonade (1810), para a realidade cultural das Lettres, e, desde então, queremo-las tão portuguesas, que não param as edições, agora envolvidas por um crescente interesse internacional.

NOTA: As cartas também serviram para animar os descontentes do Portugal liberal, do nacionalismo crescente na transição de oitocentos. Numa edição popular de Luciano Cordeiro (1894), podemos ler o testemunho de Oliveira Martins (1845-1894): ‘Meu querido Luciano. Vibrei certamente, vibrei todo o dia ontem [alusão a uma frase da carta em que Luciano lhe oferecia um exemplar da 1.ª edição de Soror Marianna], lendo a sua primorosa obra. V. fez um milagre. Não queria escrever-lhe agradecendo o seu livro, antes de o ler, e não o li logo porque o tinha em prestado ao Moniz Barreto para ele escrever o artigo que lhe pedi e V. já leu, de certo. O Repórter cumpriu o seu dever. O livro das Cartas que V. fez é verdadeiramente definitivo; não há mais nada a dizer. V. esgotou a erudição e a crítica: não há que rebuscar nem observar mais. Está definido o caso patológico (?) e determinado o concurso de circunstâncias que se deu. Receba pois V., meu querido Luciano, os meus mais cordiais parabéns e creia-me sempre - Seu velho amigo, de uma amizade sempre moça’.

Do que conhecemos, fora das parcelas inventariadas da nossa colecção, e que, como complemento de estudo, consideremos importante, daremos notícia, pois será a maneira mais correcta de valorizarmos, ainda que de forma subsidiária, a historia do Livro e da Leitura, as Lettres Portugaises, Mariana Alcoforado e sua cidade de Beja». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

terça-feira, 26 de junho de 2012

Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. Leonel Borrela. «Apesar de considerarmos a obra extremamente positiva, supomos que a autora não visitou Beja e, se alguma vez veio a Portugal, não se apercebeu que seria impossível fazer em poucas horas, no século XVII e em tempo de guerra, o caminho entre Castelo Rodrigo e Beja, afinal bem distantes e quase diagonalmente opostas»



jdact

«Muito resumidamente, Myriam Cyr, exceptuando pequenas lacunas de ordem bibliográfica, aproxima-se bastante do Estado da Arte, quase conseguindo fazer o ponto da situação em que se encontram os estudos acerca do tema, com a vantagem, para Portugal, de defender a autoria portuguesa das cartas, referenciando, para os leitores de língua inglesa e francesa, os autores portugueses e estrangeiros que a admitem.
Aqui para nós, que ninguém nos ouve, Mariana Alcoforado e as “Lettres Portugaises", constituem, inexplicavelmente, uma relação de intimidade a desfazer pela maioria dos nossos letrados desde o século XIX. Há mais de trinta anos que assistimos no Museu Regional de Beja, instalado no convento onde viveu Mariana, aos esgares ridículos e sobranceiros de uma certa pseudo-intelectualidade portuguesa que, perante a janela das Portas de Mértola, se afana na mesquinhez...
Desconhecemos se, com o nosso entusiasmo pelo assunto, contagiámos, ainda mais, algumas das personalidades que nos visitaram nos últimos anos,  como Giovanni Piazza, Isamu Taniguchi, Graça Lobo, Carlos Quevedo, Rubens Coura, Teresa Corte-real, Michelle Navarro, entre outras. Lisa Forrel, encenadora inglesa de Myriam Cyr, aquando da sua interpretação das Cartas num dos teatros de Nova lorque. Num dos dias da encenação as duas amigas encontraram-se com Katherine Vaz, falaram de nós, de Beja, e do romance histórico "Mariana" desta escritora luso-americana. Parece-nos indispensável, especialmente para a cidade de Beja, a insistência nestes contactos, cujos bons resultados veremos dentro de poucos anos, razão por que urge adoptar uma atitude em tudo explícita, em nada hesitante, acerca da autoria portuguesa das cartas.

Revela uma obra bem estruturada, bem documentada na bibliografia, mas confunde os nomes dos reis portugueses e a leitura de alguns documentos. Apesar de considerarmos a obra extremamente positiva, supomos que a autora não visitou Beja e, se alguma vez veio a Portugal, não se apercebeu que seria impossível fazer em poucas horas, no século XVII e em tempo de guerra, o caminho entre Castelo Rodrigo e Beja, afinal bem distantes e quase diagonalmente opostas; Claude Barbin, o primeiro editor das cartas, em 1669, nunca que saibamos referiu, nas edições, o nome de Guilleragues, nem como seu tradutor nem como autor; a dado momento lê-se que “A capela de Santa Maria pertencia à cidade pitoresca de Beja, situada no Baixo-Alentejo, a região mais a sul de Portugal”. Ora, a capela de Santa Maria, é simplesmente a mais importante igreja paroquial da cidade, a que apresenta melhores pergaminhos históricos, na penúltima região mais a sul, no continente; devido provavelmente à proximidade da meia dúzia de frades do demolido hospício de Santo António, actual local do Teatro Pax-Julia, considera que os mesmos viviam também nas instalações do convento da Conceição, cenóbio de Mariana e das outras freiras clarissas. Enfim, são pequenas fantasias que, esperemos, os detractores da autoria portuguesa das Cartas não deverão aproveitar em benefício próprio.

Todavia reafirmamos o interesse incontornável que esta edição tem para Portugal, Beja e Soror Mariana Alcoforado. Sem outros comentários, a propósito da condição feminina portuguesa, diz-nos Myriam Cyr:
  • "O catolicismo português, uma mescla de vestígios de costumes muçulmanos, crenças pagãs e devoção religiosa [cristã], era o palco ideal para subjugar as mulheres. As esposas eram deliberadamente mantidas analfabetas. Usavam a versão católica do chador sob a forma de um lenço apertado à volta da cara. Comiam no chão, sobre uma esteira de cortiça, enquanto os homens se sentavam à mesa, [...]".
In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT