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domingo, 21 de agosto de 2016

O Destino de Adhara. Licia Troisi. «Um aperto gelado envolveu suas têmporas. Passou a mão no peito, onde o coração marcava o tempo da sua ansiedade. Peitos, pequenos e empinados. Sou uma mulher»

jdact e wikipedia

«(…) Procure manter-se de pé, eu lhe peço..., gemeu. Curvou-se para entrar na passagem. A criatura se queixava, mas finalmente começava a mexer-se. Isso mesmo, vamos lá... Roçava nas paredes húmidas de musgo. Logo atrás, a criatura avançava a duras penas. Os ruídos da luta abafaram-se à distância, e o coração de Adrass deteve a sua louca corrida. Posso conseguir, acho que posso conseguir... Por aqui!, berrou, virando-se ao chegar à primeira bifurcação, e continuou em frente, até parar diante de uma parede. Chegámos, chegámos, disse mais para si mesmo do que para a criatura. Com mãos trémulas empurrou um tijolo e, à sua frente, descortinou-se um minúsculo aposento. Segurou um braço da criatura e empurrou-a para dentro. Ela ensaiou um gemido de queixa. Quando passou a mão no seu rosto, percebeu que estava molhado. Ela estava chorando. Por um momento, o homem ficou com pena, sentiu um aperto no coração. Lembrou as palavras do Vidente: as criaturas não passam de meros objectos. São os instrumentos da nossa salvação, e é deste jeito que devem ser consideradas. Não pensem nelas como pessoas; não são nada disto. Livrem-se de qualquer pena ou afeição que possam porventura sentir por elas: estes sentimentos seriam meros estorvos no cumprimento da nossa missão. Adrass recuperou o controle de si mesmo. Agora fique em silêncio, está entendendo? Fique aqui, não se mexa e espere por mim. Não vou demorar, está bem? A criatura anuiu molemente. Isso mesmo! Adrass não conteve um sorriso. Não saia daqui por nenhum motivo. Fechou então a porta de tijolos e ficou ali, parado, por alguns instantes. Não se ouvia qualquer ruído. Talvez a criatura tivesse compreendido. Concedeu-se alguns momentos de descanso. Já podia morrer em paz, agora. Quem sabe aquele ser patético que jazia do outro lado pudesse de facto salvá-los todos. De qualquer maneira, ele tinha cumprido com o seu dever. Fez todo o caminho de volta. O homem de preto não se deteve diante de coisa alguma. Já fazia um bom tempo que não se entregava a tamanha fúria, desde aquele longínquo dia em que fora capturado e travara conhecimento com Kriss. A sensação do próprio corpo que se movimentava com precisão, o leve entorpecimento dos músculos sob tensão, o cheiro de sangue..., era algo que o inebriava, que lhe dava prazer. Matou todos, ndistintamente. Os soldados e os mandatários, os jovens e os velhos, e as moças, principalmente as moças. Afinal de contas, tinha vindo por causa delas. Pobres coisinhas nas mãos daqueles bruxos insanos. Por um momento chegou até a pensar que estava lhes fazendo um favor. Aqui está o mundo que você ajudou a criar, Mestre. Talvez você estivesse certo, naquele dia, quando decidiu ir embora e repudiá-lo. Em seguida derrubou a derradeira porta. Ele estava lá. Segurando antigos livros e pergaminhos. Seus dedos tremiam. O Vidente, o chefe daquele grupo de loucos. O homem de preto avançou devagar. Atrás dele, a sua espada deixava um rasto de sangue. Um só homem?, disse o Vidente, incrédulo. Só um, respondeu ele, com um sinistro sorriso. O Vidente deu um passo para trás, encostando-se na parede. Quem o mandou? Ninguém. E mesmo que lhe contasse quem é o meu soberano, você não saberia de quem estou falando. O Vidente ficou por alguns instantes calado. Nós estamos salvando o Mundo Emerso, será que não se dão conta disto? Continuam prestando atenção nos delírios daquela velha doida? Sem nós só haverá o caos, a morte! Não dou a mínima para o caos e a morte. E menos ainda para a salvação do mundo. Apesar da máscara que lhe ocultava o rosto, o homem de preto percebeu todo o desespero do Vidente. Você não passa de um louco. Pode ser. Um só golpe de espada, e o Vidente tombou no chão. A Congregação dos Vigias tinha deixado de existir.

O despertar
Calor. Alguma coisa que espeta nas costas, algo húmido. Um universo vermelho todo ao redor, e dor, por toda parte. Como estar sendo queimado por um fogo interior, como se cada partícula do corpo estivesse berrando. A mão foi percebida pelo ser, em algum lugar. Moveu lentamente os dedos e sentiu que se animavam com ameno calor. Abriu os olhos, devagar. O vermelho foi substituído por uma ofuscante brancura. Foi como recuperar todos os sentidos de uma só vez, como ver-se entregue a um único caos ensurdecedor. Um zunido insistente, por toda parte, um barulho estrídulo, descontínuo e cacarejante, e depois cheiro de terra e de erva, e a percepção húmida do orvalho nas costas. O ser rendeu-se ao espanto. Pestanejou algumas vezes e então, com um movimento vigoroso, conseguiu virar-se de lado. Cada músculo do seu corpo gemeu, deixando-o sem fôlego. Pouco a pouco, na brancura, foi-se desenhando a forma de um braço pálido, apoiado na erva, e duas pernas magras, cândidas e delgadas, apenas encobertas por uma túnica manchada. Onde estou? A pergunta surgiu na sua consciência, simples e terrível. Não conseguiu encontrar uma resposta. Olhou a mão iluminada pelos raios do sol. As cores iam vagarosamente se definindo. O rosa pálido da pele, o verde ofuscante da relva, os ambíguos tons da roupa que vestia. Quem sou? Nenhuma resposta. Um aperto gelado envolveu suas têmporas. Passou a mão no peito, onde o coração marcava o tempo da sua ansiedade. Peitos, pequenos e empinados. Sou uma mulher. A consciência disto não aliviou minimamente os seus temores. Olhou em volta. O céu era de um azul profundo, sem sombra de nuvens. O relvado que a cercava pareceu-lhe infinito; pontilhando a erva, as pequenas manchas brancas de tímidas margaridas e o puro vermelho das papoilas. Ninguém à vista. Tentou sondar as lembranças, trazer de volta à memória algum nome, um rosto, qualquer indício que a ajudasse a entender. Nada». In Licia Troisi, O Destino de Adhara, Lendas do Mundo Emerso, Editora Rocco, 2008, ISBN 978-858-122-046-8.


Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O Destino de Adhara. Licia Troisi. «Um aperto gelado envolveu suas têmporas. Passou a mão no peito, onde o coração marcava o tempo da sua ansiedade. Peitos, pequenos e empinados. Sou uma mulher»

jdact e wikipedia

«(…) Procure manter-se de pé, eu lhe peço..., gemeu. Curvou-se para entrar na passagem. A criatura se queixava, mas finalmente começava a mexer-se. Isso mesmo, vamos lá... Roçava nas paredes húmidas de musgo. Logo atrás, a criatura avançava a duras penas. Os ruídos da luta abafaram-se à distância, e o coração de Adrass deteve a sua louca corrida. Posso conseguir, acho que posso conseguir... Por aqui!, berrou, virando-se ao chegar à primeira bifurcação, e continuou em frente, até parar diante de uma parede. Chegámos, chegámos, disse mais para si mesmo do que para a criatura. Com mãos trémulas empurrou um tijolo e, à sua frente, descortinou-se um minúsculo aposento. Segurou um braço da criatura e empurrou-a para dentro. Ela ensaiou um gemido de queixa. Quando passou a mão no seu rosto, percebeu que estava molhado. Ela estava chorando. Por um momento, o homem ficou com pena, sentiu um aperto no coração. Lembrou as palavras do Vidente: as criaturas não passam de meros objectos. São os instrumentos da nossa salvação, e é deste jeito que devem ser consideradas. Não pensem nelas como pessoas; não são nada disto. Livrem-se de qualquer pena ou afeição que possam porventura sentir por elas: estes sentimentos seriam meros estorvos no cumprimento da nossa missão. Adrass recuperou o controle de si mesmo. Agora fique em silêncio, está entendendo? Fique aqui, não se mexa e espere por mim. Não vou demorar, está bem? A criatura anuiu molemente. Isso mesmo! Adrass não conteve um sorriso. Não saia daqui por nenhum motivo. Fechou então a porta de tijolos e ficou ali, parado, por alguns instantes. Não se ouvia qualquer ruído. Talvez a criatura tivesse compreendido. Concedeu-se alguns momentos de descanso. Já podia morrer em paz, agora. Quem sabe aquele ser patético que jazia do outro lado pudesse de facto salvá-los todos. De qualquer maneira, ele tinha cumprido com o seu dever. Fez todo o caminho de volta. O homem de preto não se deteve diante de coisa alguma. Já fazia um bom tempo que não se entregava a tamanha fúria, desde aquele longínquo dia em que fora capturado e travara conhecimento com Kriss. A sensação do próprio corpo que se movimentava com precisão, o leve entorpecimento dos músculos sob tensão, o cheiro de sangue..., era algo que o inebriava, que lhe dava prazer. Matou todos, ndistintamente. Os soldados e os mandatários, os jovens e os velhos, e as moças, principalmente as moças. Afinal de contas, tinha vindo por causa delas. Pobres coisinhas nas mãos daqueles bruxos insanos. Por um momento chegou até a pensar que estava lhes fazendo um favor. Aqui está o mundo que você ajudou a criar, Mestre. Talvez você estivesse certo, naquele dia, quando decidiu ir embora e repudiá-lo. Em seguida derrubou a derradeira porta. Ele estava lá. Segurando antigos livros e pergaminhos. Seus dedos tremiam. O Vidente, o chefe daquele grupo de loucos. O homem de preto avançou devagar. Atrás dele, a sua espada deixava um rasto de sangue. Um só homem?, disse o Vidente, incrédulo. Só um, respondeu ele, com um sinistro sorriso. O Vidente deu um passo para trás, encostando-se na parede. Quem o mandou? Ninguém. E mesmo que lhe contasse quem é o meu soberano, você não saberia de quem estou falando. O Vidente ficou por alguns instantes calado. Nós estamos salvando o Mundo Emerso, será que não se dão conta disto? Continuam prestando atenção nos delírios daquela velha doida? Sem nós só haverá o caos, a morte! Não dou a mínima para o caos e a morte. E menos ainda para a salvação do mundo. Apesar da máscara que lhe ocultava o rosto, o homem de preto percebeu todo o desespero do Vidente. Você não passa de um louco. Pode ser. Um só golpe de espada, e o Vidente tombou no chão. A Congregação dos Vigias tinha deixado de existir.

O despertar
Calor. Alguma coisa que espeta nas costas, algo húmido. Um universo vermelho todo ao redor, e dor, por toda parte. Como estar sendo queimado por um fogo interior, como se cada partícula do corpo estivesse berrando. A mão foi percebida pelo ser, em algum lugar. Moveu lentamente os dedos e sentiu que se animavam com ameno calor. Abriu os olhos, devagar. O vermelho foi substituído por uma ofuscante brancura. Foi como recuperar todos os sentidos de uma só vez, como ver-se entregue a um único caos ensurdecedor. Um zunido insistente, por toda parte, um barulho estrídulo, descontínuo e cacarejante, e depois cheiro de terra e de erva, e a percepção húmida do orvalho nas costas. O ser rendeu-se ao espanto. Pestanejou algumas vezes e então, com um movimento vigoroso, conseguiu virar-se de lado. Cada músculo do seu corpo gemeu, deixando-o sem fôlego. Pouco a pouco, na brancura, foi-se desenhando a forma de um braço pálido, apoiado na erva, e duas pernas magras, cândidas e delgadas, apenas encobertas por uma túnica manchada. Onde estou? A pergunta surgiu na sua consciência, simples e terrível. Não conseguiu encontrar uma resposta. Olhou a mão iluminada pelos raios do sol. As cores iam vagarosamente se definindo. O rosa pálido da pele, o verde ofuscante da relva, os ambíguos tons da roupa que vestia. Quem sou? Nenhuma resposta. Um aperto gelado envolveu suas têmporas. Passou a mão no peito, onde o coração marcava o tempo da sua ansiedade. Peitos, pequenos e empinados. Sou uma mulher. A consciência disto não aliviou minimamente os seus temores. Olhou em volta. O céu era de um azul profundo, sem sombra de nuvens. O relvado que a cercava pareceu-lhe infinito; pontilhando a erva, as pequenas manchas brancas de tímidas margaridas e o puro vermelho das papoilas. Ninguém à vista. Tentou sondar as lembranças, trazer de volta à memória algum nome, um rosto, qualquer indício que a ajudasse a entender. Nada». In Licia Troisi, O Destino de Adhara, Lendas do Mundo Emerso, Editora Rocco, 2008, ISBN 978-858-122-046-8.


Cortesia de ERocco/JDACT

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Destino de Adhara. Licia Troisi. «O espaço oprimente daquele subterrâneo era iluminado por uma série de tochas presas à parede. O cheiro de mofo confundia-se com o da penetrante fumaça. Homens vestidos de branco perambulavam pelos aposentos»

jdact e wikipedia

«O homem de preto seguiu adiante sem pressa. Movia-se com segurança pelas ruelas desertas da cidade, o capuz a encobrir-lhe o rosto, a capa roçando em suas botas. Sombra entre as sombras, virou decididamente na rua que já conhecia. Havia explorado o lugar alguns dias antes. A entrada era anónima: uma porta de madeira encimada por uma viga de pedra. Não precisou olhar para o símbolo gravado na arquitrave para saber que tinha chegado. Parou por um momento, sabendo bem que aquele não era o seu objectivo principal, pois a sua missão era outra. É imprescindível, é de vital importância que encontre o sujeito, está entendendo?, dissera Kriss, da última vez que haviam se encontrado. Eu sei, limitara-se a responder ele, baixando a cabeça. Então não pare até conseguir encontrá-lo, e não deixe nada ou ninguém se meter em seu caminho. Kriss fitara-o sem acrescentar coisa alguma, para que o homem de preto pudesse avaliar devidamente aquele silêncio e preenchê-lo de sentido. Mas ele não era do tipo que podia ser amedrontado tão facilmente. Pode funcionar com quem te adora como um deus, mas comigo não dá. Fizera uma mesura em sinal de respeito e dirigira-se à saída. Não se esqueça do nosso trato, dissera Kriss, antes de ele superar o limiar da porta. O homem de preto detivera-se por um instante. Nunca poderia esquecer, pensou com seus botões. E agora, lá estava ele, diante daquela porta. Ainda tinha a possibilidade de parar, de ir embora. De retomar o seu caminho e voltar à sua missão. Está preparado até para isto, a fim de alcançar o seu objectivo?, perguntou a si mesmo, enquanto os olhos se demoravam nos veios da porta. Não precisou esperar por uma resposta. Respirou fundo, devagar, e desembainhou a espada. Em seguida deu um violento pontapé na madeira e entrou. Uma sala de despojados tijolos, de tecto absurdamente baixo. Era o que o Vidente costumava repetir continuamente: é uma solução provisória, precisam ter paciência. Mas pelo menos nos garante aquele segredo, para nós tão necessário. Só poderemos pensar num local mais digno depois de o nosso plano estar bem encaminhado. O espaço oprimente daquele subterrâneo era iluminado por uma série de tochas presas à parede. O cheiro de mofo confundia-se com o da penetrante fumaça. Homens vestidos de branco perambulavam pelos aposentos, de rostos escondidos atrás de máscaras de bronze, lisas, com apenas dois furos na altura dos olhos. Portas fechadas, das quais provinham abafados murmúrios e um salmodiar lento, hipnótico. Cheiro de sangue e magia, olor de morte. Naquele pesado silêncio, o estrondo da porta derrubada ressoou com a violência de uma explosão. Os primeiros Vigias, aqueles mais perto da entrada, nem mesmo tiveram tempo de perceber o que estava acontecendo. O homem de preto ceifou-os com um único e fluido movimento da espada. As capas brancas tingiram-se de vermelho, as máscaras de bronze caíram no chão, tilintando. Por baixo, os rostos torcidos de dor de dois jovens oficiais e de um ministro. Os demais tiveram tempo para ensaiar uma reacção. Quem estava armado desembainhou a espada e começou a lutar, alguns fugiram, tentando salvar o que ainda podia. O homem de preto parecia irrefreável. Afinal de contas, os inimigos não estavam à sua altura. Durante os longos anos das suas andanças tivera a oportunidade de enfrentar adversários muito mais tarimbados, e as cicatrizes no seu corpo testemunhavam cada uma daquelas batalhas. É nisto que dá a moleza de um mundo que se acostumou com a paz, pensou com desprezo. Passos abafados atrás dele. Nem precisou olhar. Recitou as palavras, baixinho, e ficou envolvido numa esfera de prata. Os punhais levantados contra ele ricochetearam na superfície elástica da barreira. Um mágico..., murmurou alguém com horror. O homem de preto sorriu com maldade.
Adrass trancou a porta com o ferrolho. A sua respiração parecia não encontrar o caminho que, dos pulmões, levava para fora. Colou o corpo na madeira, encostando o ouvido. Estridor de lâminas, gritos, baques de corpos que tombavam no chão. O que estava acontecendo? Haviam sido descobertos? Começou a tremer. Lutou para não se deixar tomar pelo pânico. Não. Não. O que lhe haviam ensinado não era nada daquilo. Desde a primeira aula, quando pusera os pés lá dentro. Se, porventura, algum dia formos descobertos, só pensem em salvar o nosso trabalho. É a única coisa que realmente importa aqui. Estamos cuidando de algo maior, de um fim superior, não se esqueçam disto. Palavras do Vidente. Adrass engoliu em seco. Salvar o nosso trabalho. Afastou-se resolutamente da porta e dirigiu-se com firmeza às estantes presas a uma pequena parede do cubículo onde se encontrava. Procurou entre os velhos pergaminhos, entre as minuciosas anotações escritas com sua grafia miúda e elegante. Guardou numa bolsa de couro alguns documentos, rasgou outros. Revistou potes e filtros, remexeu ampolas e ervas. Anos de trabalho. Como escolher o que deveria ser salvo de uma vida inteira de labuta, apenas em poucos momentos apressados? Um vago ganido chamou a sua atenção para a mesa no meio do aposento. Adrass recuperou a calma. Ali estava o que ele tinha de salvar: a criatura. Era a única coisa que valia a pena levar para fora. Era algo muito mais importante do que sua vida desprezível, do que os estudos deles todos. Era tudo. Gritos de moças do outro lado da porta. Não! Estão matando até elas! Chegou perto da mesa, desatou as tiras de couro que prendiam a criatura, libertou-a. Segurou-a rudemente pelos ombros forçando-a a se levantar. Vamos lá, acorde, acorde logo!, disse, dando-lhe uns bofetadas nas faces. Mas ela permanecia inerte em seus braços, de olhos entreabertos que pareciam não vê-lo. Do outro lado da porta, ruídos mais violentos. Os inimigos estavam se aproximando. O coração de Adrass pulou descontrolado. Morrerei, mas o nosso trabalho não será perdido. Sim, morrerei, mas o nosso trabalho não terá sido em vão..., repetia como um mantra as frases que lhe haviam ensinado quando se tornara Vigia. Se pelo menos colaborasse!, surpreendeu-se ao pensar quase com raiva. Por que a criatura não acordava? Puxou-a para longe da mesa, com força, ela desmoronou inerte no chão. Mal conseguia mexer os lábios. Adrass pegou uma ampola com água e derramou-a em cima da criatura. Ela estremeceu. Isso mesmo, muito bem..., preste atenção. Segurou-a pelos ombros, fitou-a nos olhos, olhos apagados. Talvez ainda fosse cedo demais... Procurou afastar o pensamento. Agora vamos sair daqui, está entendendo? Preste atenção! Um vislumbre de vaga compreensão animou os olhos da criatura. Isso mesmo, é assim que se faz! Um estrondo do outro lado da porta. Adrass estremeceu. Segurou o corpo por trás, voltou a levantá-lo e arrastou-o consigo. conseguiu alcançar um botão na parede. Uma pequena parte do muro estalou revelando um caminho estreito e escuro». In Licia Troisi, O Destino de Adhara, Lendas do Mundo Emerso, Editora Rocco, 2008, ISBN 978-858-122-046-8.

Cortesia de ERocco/JDACT