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domingo, 1 de junho de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «… nas negociações de Utrecht, os portugueses tenham feito valer seus interesses territoriais frente aos franceses, a verdade é que a guerra acabou sendo vencida graças mais ao domínio que os representantes portugueses tinham no campo da diplomacia…»

Cortesia de wikipedia

Guerra e diplomacia
«(…) A correspondência dos plenipotenciários franceses ao seu rei dá conta de que estes avaliaram que o estratagema dos ingleses de terem se preparado previamente reunindo documentos e principalmente mapas havia sido muito bem sucedido. Conforme confessariam mais tarde, consideraram que o mapa, apesar de produzido pelos adversários, os conduzira com segurança durante a negociação. Por isso decidiram organizar a mesma estratégia para enfrentar os portugueses. Entre Dezembro de 1712 e Fevereiro de 1713, quando os representantes dessas duas Coroas finalmente se sentaram pela primeira vez à mesa de negociação, os franceses dispunham de mapas e documentos para sustentar suas posições, o que permitiu que insistissem no primado da cartografia para configurar o território situado entre o Amazonas e o Oiapoque. Como relataram a Luís XIV, nós sobrepomos as cartas, nós medimos o terreno. Foi então a vez dos portugueses se espantarem com esse estratagema, copiado dos ingleses. Luís Cunha confessou a seus interlocutores no reino que, quanto às instruções dos franceses, eles ficaram admirados [com] a miudeza delas e os documentos e mapas com que vinham autorizadas. Entre estes havia uma carta que mostrava claramente que o rio Pinzón se encontrava posicionado nas possessões francesas.
Se, desde o primeiro momento, Luis se impressionou com a meticulosidade das instruções que os embaixadores franceses haviam recebido, também não deixou de se queixar de como eram bem diferentes as que ele e o conde de Tarouca possuíam enquanto representantes de Portugal. Não sem razão, reclamou com o cardeal Cunha que nós nos achamos sem uma boa carta daquele estado. As ordens que vieram do reino, trazidas pelo conde, eram genéricas e ambíguas e, quando se sentaram para negociar, Luís se lamentou que o último chegara sem uma boa carta do estado [do Maranhão], nem tampouco da parte do rio da Prata, com a explicação das terras que s.m. ali pretende pelo tratado de aliança, como também as cópias do que se passou sobre a Colônia do Sacramento. Desolado, admitiu que que não tínhamos algum documento ou mapa por onde possamos mostrar que a nossa posse daquela banda vai sempre seguindo o curso do rio Amazonas e completou: Sempre imaginei que o conde de Tarouca vinha provido de todos estes documentos, pois as promessas dos tratados têm mais força quando são assistidas da mesma justiça. Por justiça, Luís se referia a qualquer documento, mapas, tratados, relações, que justificassem a posse histórica de um território e a injusta ocupação do mesmo pela potência inimiga, como os que apresentaram os franceses em que o rio Pinzón se encontrava sob sua soberania. Em Utrecht, mapas começaram a ser utilizados, de forma cada vez mais sistemática, para justificar e definir as fronteiras negociadas entre nações rivais. Luís ainda inquiriu José Cunha Brochado, que já cuidara de negociações com a França em 1710, se ele tinha em seu poder algum documento ou mapa que lhes pudesse guiar, mas se viu frustrado nessa tentativa, pois o antigo embaixador também não havia sido municiado com tais documentos.
Ainda que, ao final, nas negociações de Utrecht, os portugueses tenham feito valer seus interesses territoriais frente aos franceses, a verdade é que a guerra acabou sendo vencida graças mais ao domínio que os representantes portugueses tinham no campo da diplomacia e dos antigos tratados, do que no da geografia ou da cartografia. Essa primeira batalha com os representantes da França foi lição que Luís Cunha levou por toda a vida. A partir de então, passou a advogar incessantemente o uso de mapas como indispensáveis para guiar as negociações diplomáticas que se seguiam às guerras e aos conflitos, insistindo na importância dos mesmos como instrumentos diplomáticos e reiterando sempre a necessidade de Portugal produzir uma cartografia precisa da América para municiar e justificar seus pleitos. Em suas diversas embaixadas que se seguiram a Utrecht, até sua morte em 1749, o embaixador pediu insistentemente que lhe fossem enviados mapas mais precisos que permitissem orientar as negociações em curso. Sua queixa da falta de mapas confiáveis que pudessem enganar a diplomacia fez com que não só defendesse a intensificação da produção cartográfica portuguesa, notadamente das regiões vitais ou fronteiriças na América, Centro-oeste, Minas Gerais, rio da Prata e bacia Amazónica, mas também se tornou um coleccionador de mapas e informações que pudessem ajudar na construção de uma cartografia portuguesa cada vez mais precisa. Nas suas missivas às autoridades no reino insistia na necessidade de se construir uma base cartográfica sólida acerca dos territórios ocupados pelos portugueses na América e foi, em grande parte sob sua influência, que desde o segundo quartel do século XVIII, Portugal deu início a uma verdadeira febre cartográfica do Brasil, especialmente do interior do sueste, das Minas Gerais, e das regiões da foz do rio da Prata e da bacia amazónica, para municiar seus representantes diplomáticos com informações precisas sobre as regiões em disputa». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «O exame dos mapas produzidos por D’Anville e alguns pertencentes à sua colecção revelam que a questão era complexa e podia suscitar diversas interpretações. Num primeiro manuscrito intitulado ‘Carte huilée des embouchures de la rivière des Amazones et côtes voisines’…»

Carta de D’Anville de 1748
Cortesia de wikipedia

Guerra e diplomacia
«(…) Mapas eram importantes não só no teatro da guerra, mas no contexto das negociações diplomáticas que se seguiam a elas. Nesse aspecto, o Congresso de Utrecht (1712-1715) ocupou um ponto de inflexão decisivo no uso da cartografia como instrumento de persuasão política. Em Utrecht, esse novo uso da cartografia em conjunto com documentos e relatos foi experimentado primeiramente pelos ingleses, quando estes, em Dezembro de 1712, foram negociar com os franceses as terras em disputa na América do Norte. As ordens que os embaixadores franceses dispunham sobre quais territórios poderiam ser cedidos eram vagas e imprecisas, pois a instrução não fala nada dos limites que devem dividir por terra a Nova França de um lado, e as possessões inglesas de outro. Isso os colocou em desvantagem frente aos ingleses que, por sua vez, chegaram muito bem preparados, munidos de vários documentos, inclusive mapas. Para negociar, as duas delegações se basearam então numa carta que representava a Nova França, na América setentrional, comunicada pelos ingleses, e na qual eles mesmos tinham traçado, com uma linha rosa, as bordas dos dois estados que eles pretendiam estabelecer desde as margens das terras de Labrador, a leste, até a costa do continente em direção oeste. Os franceses informaram ao rei que, se fosse da sua vontade, a rainha da Inglaterra disponibilizaria o mesmo mapa aos franceses para estes ali traçarem uma outra linha de cor diferente, que marque distintamente o terreno que nós devemos conservar. Note-se aí, novamente, desta feita inserida no contexto do jogo diplomático, a utilização de raias coloridas para apontar os limites pretendidos por ambas as Coroas. Pouco depois de terminadas as negociações entre ingleses e franceses, no início de 1713, chegou a vez dos últimos iniciarem as suas negociações com os portugueses. A posição de Portugal sobre as terras em disputa entre as duas coroas no norte do Brasil era de que a ele pertencia por direito todas as terras do Cabo do Norte, situadas entre o Amazonas e o rio de Vicente Pinzón, ou Oiapoque, e que a possessão dessas terras dava-lhe o direito exclusivo à navegação do rio Amazonas. Aos franceses caberia apenas o território ao norte do Oiapoque, ficando-lhes vedada a navegação do Amazonas. Os franceses, por seu turno, arguiam a dificuldade de identificar exactamente a localização exacta desses acidentes geográficos.
O exame dos mapas produzidos por D’Anville e alguns pertencentes à sua colecção revelam que a questão era complexa e podia suscitar diversas interpretações. Num primeiro manuscrito, de sua autoria, intitulado Carte huilée des embouchures de la rivière des Amazones et côtes voisines, sem datação segura, mas que tudo indica tratar-se de cópia de um mapa português, pode-se ver claramente que o cartógrafo não utiliza como referencial para a demarcação dos limites o Cabo do Norte, mais ao sul, mas, a baía de Vicente Pinzón, mais ao norte; ambos são pontos geográficos distintos no mapa, o que aumenta a possessão portuguesa na área, cuja posse se justifica pela existência de um forte que tomamos dos holandeses, conforme aparece gravado no mapa. Uma comparação dessa mesma carta com a Carte particuliere du cours de la rivière des Amazones ou de Maragnon, de 1729, desenhada por D’Anville a partir de esboço do padre jesuíta Ignácio Reys, revela as dificuldades em relação à geografia local. Nela, o Cabo do Norte, a ilha de Carpori e a baía de Vicente Pinson (sic) são posicionadas no mesmo local. Observa-se que o cartógrafo representa os fortes portugueses da região, ainda que alguns, por essa época, ainda permanecessem em ruínas, como era o caso do Forte do Desterro ou do Exílio, demolidos pelos franceses no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola. Fica claro assim que ambos os mapas apresentam os acidentes geográficos que norteariam a linha divisória de formas distintas: na primeira, há uma separação entre, de um lado, a ilha e o cabo, posicionados mais ao sul e, de outro, a baía situada mais ao norte; na segunda, todos são coincidentes. Robert Dudley na sua Carte de l’embouchure de l’Amazone, separa a baía do cabo, mas não representa essa ilha. Qualquer dessas soluções teriam implicações evidentes no território pretendido pelos portugueses. Ilustrativa é uma das versões impressas da Carte de l’Amérique meridionále, de D’Anville, de 1748, onde, sobre ela, gravou, em vermelho, três possíveis localizações da baía de Vicente Pinzón, sendo que a adoção de qualquer uma delas teria impacto na demarcação da fronteira entre as duas coroas. A primeira identifica a baía com o cabo de Orange, onde se localiza a foz do rio Oiapoc; a segunda, com a ilha de Muracá mais ao sul; e a terceira, com o Cabo do Norte um pouco mais ao sul da anterior. A última opção, a menos desastrosa para os franceses, acabou sendo a utilizada na versão impressa do mapa, sendo que, na versão manuscrita da carta, D’Anville ensaiou os dois últimos posicionamentos da linha de limites». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

domingo, 2 de março de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «… que bem poderia ser, mas que só lhe oferecia uma pequena dificuldade, que era a de poder aquela armada passar ao dito mar que estava rodeado de grandes espaços de terra…»

Cortesia de wikipedia

Guerra e cartografia
«(…) Em 1744, Luís Cunha despachou vários mapas de fortalezas militares que eram palcos de batalhas, no norte da Itália, novo teatro da Guerra da Sucessão Austríaca, como o da cidadela de Tortona, onde os espanhóis haviam aberto uma trincheira ao seu redor. O mapa que remeteu, juntamente com a memória explicativa do que se passava, serviria para ilustrar as movimentações militares que ocorriam na região, permitindo que, em Portugal, se pudesse ter uma ideia exacta do cerco. Segundo ele, que a dita fortaleza se pudesse defender quarenta dias, do que eu duvido. Se ela for atacada como agora se costuma, visto que o conde Gages tem toda a artilharia que era necessária para esta operação e entretanto o marechal Maillbois cobre o dito sitio, estando acampado a São Juliano. As suas observações esclareciam o que podia ser avistado no mapa em questão. Já sobre a vitória que os aliados alcançaram na Sardenha, no cerco da fortaleza de Conty, afirmou que não poderei informar melhor a v.e. desse sucesso que mandando-lhe o mapa da mesma praça, que o jovem conde de Assumar, então residente em casa, tirou do rascunho que o comendador Solar me remeteu e com a relação que o príncipe de Conty mandou à corte. Seguiram ainda mais três pequenos mapas. Um representava o mapa da praça de Fribourg com os ataques, e outros dois eram de fortalezas situadas em Flandres, a de Menin e a de Ipres, onde a guerra também chegara. A associação entre cartografia e guerra é constante na correspondência de outros savants portugueses da época. Em 1727, foi a vez do marquês de Abrantes escrever a Francisco Mendes Góis, que se encontrava em Paris servindo na embaixada portuguesa com Luís Cunha, especialmente encarregado das compras régias, para que adquirisse alguns mapas para a sua colecção. Entre outros tantos, encomendava um que agora vi na gazeta, que na Holanda se estamparam plantas de Gibraltar, em Espanha, e de Cartagena em Índias, como teatros da guerra presente; [e] se chegaram a esta corte também folgarei de as ter para compreensão das gazetas. As instruções do marquês ressaltam essa capacidade dos mapas de dar a ver o que acontecia no teatro do mundo, especialmente no que dizia respeito à guerra. O mapa permitiria ainda que ele visualizasse o que a gazeta veiculava a respeito das disputas, da movimentação das tropas. Um meio de informação complementando o outro.
O marquês ainda recomendou em outro de seus pedidos que o que eu queria era uma carta dos Países Baixos, iluminada ou lavada à moda de Holanda, de sorte que as cores denotem o país que possui França, o imperador na Holanda e nas vizinhas Prússia, Liege, Colónia; uma carta de Europa, com distinção do que possui a casa de Áustria, os reis de Prússia e de Inglaterra. A utilização de cores nos mapas para diferenciar as possessões de uma ou outra Coroa, como a sugerida pelo marquês de Abrantes, era expediente comum e evidenciava as intenções territoriais das diversas cortes europeias num século marcado pelas intenções expansionistas de cada uma delas, empreendidas por meio de guerras, fossem na Europa, fossem nos demais continentes, como era o caso da América. As cores eram tão comumente partes integrantes do mapa que não podem ser desmerecidas como um ingrediente puramente decorativo; nesse caso permitiam visualizar as pretensões territoriais de cada nação no continente europeu, ainda que tais territórios fossem descontínuos entre si. Numa outra missiva, o marquês, desta feita, pede meia dúzia de folhas de papel que representem a Europa sem raias de cores, ou com elas postas. Nesse caso, diferentemente dos mapas anteriores, onde a diversidade de cores era desejada para evidenciar as diferentes possessões que cada Coroa possuía nos cantões da Europa, preferia que os mapas viessem sem as raias divisórias. Dessa maneira ele afirma: teria à disposição mapas onde poderia brincar com as fronteiras, posicionando-as a seu bel prazer, configurando diferentes conformações nacionais, pois o que queria era fazer daqueles nossos projectos sobre a carta, (...) como nós costumávamos discorrer, jogando xadrez. Assim apontava para outro uso dado aos mapas no teatro das guerras europeias. Nesse caso, como num tabuleiro de xadrez, é o leitor/jogador, e não o produtor do mapa, que dispõe e muda as linhas que marcam as fronteiras nacionais. Num contexto de intensa rivalidade entre as nações, como foi o século XVIII, quando as guerras e, depois, os tratados de paz provocavam uma intensa mobilidade de territórios, um mapa sem as fronteiras demarcadas de antemão permitia que seu usuário simulasse os possíveis resultados das guerras e das negociações em curso. Assim, quando esses mapas sem as raias demarcatórias chegam a Lisboa, o marquês agradece ao amigo o facto de terem vindo junto com uma carta cheia de notícias políticas que estimo e lhe agradeço, por se me representar com elas que estamos sobre a carta geográfica fazendo projectos.
Luís Cunha, que prezava a geografia e possuía amplo domínio sobre o assunto é bastante crítico em relação àqueles que não o tinham. Quando, em 1726, uma expedição moscovita se deslocava em direcção ao mar Báltico, comenta que o duque Miguel José Bournonville, embaixador da corte de Madrid em Viena, dissera que o mais certo é que se destinasse ao mar Cáspio, a fim de sustentar as conquistas feitas na Pérsia, ao que ele respondera de forma jocosa que bem poderia ser, mas que só se lhe oferecia uma pequena dificuldade, que era a de poder aquela armada passar ao dito mar que estava rodeado de grandes espaços de terra, reparo de que o duque ficara justamente envergonhado. Sarcástico e sagaz, Luís Cunha comenta que à vista disto eu o tenho por muito mau geógrafo, mas não é ignorante dos seus próprios interesses». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A Guerra da Sucessão Espanhola. O Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville. Júnia Ferreira Furtado. «O engenheiro Manoel Azevedo Fortes foi escolhido o primeiro regente da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa e, sob protecção régia, publicou manuais técnicos que pretendiam orientar a formação dos engenheiros…»

Cortesia de wikipédia

Guerra e cartografia
«(…) Luís Serrão Pimentel (1613-1679) foi o grande representante de uma linhagem de grandes cosmógrafos portugueses ao serviço do Estado, tendo reunido os empregos de cosmógrafo-mor do reino, engenheiro-mor do reino e tenente general da artilharia. Observa-se nas suas qualificações como engenheiro e tenente de artilharia que, inicialmente, a actividade de cosmógrafo abarcava também produzir conhecimentos úteis às actividades militares, tais como planear fortificações, armamentos e produzir mapas para auxiliar o deslocamento de tropas pelo território. Luís Pimentel ocupava o cargo quando se deu a Restauração portuguesa, em 1640. A necessidade de organizar a defesa do reino para resistir às tentativas de recolonização espanhola tornou-se premente. Para melhor preparar um corpo de técnicos especializados, logo nas cortes reunidas em 1641, [Pimentel] propõe a criação de uma aula de fortificação e arquitectura militar na Ribeira das Naus em Lisboa.
Como no restante da Europa, a progressiva especialização do conhecimento cosmográfico, separado do geográfico, também levou em Portugal à divisão do cargo. Foi assim que Luís Pimentel, proprietário de um carácter hereditário, no terceiro quartel do século XVII, o dividiu entre seus dois filhos: Manoel e Francisco. O primeiro ficou como cosmógrafo e lente da aula de Navegação, o segundo como engenheiro e lente da aula de Matemática. A partir deste momento cosmografia e engenharia tornaram-se actividades relativamente distintas em Portugal, mas fortemente conectadas (inclusive pelos laços familiares dos detentores dos cargos de cosmógrafo-mor e engenheiro-mor). Ao primeiro coube principalmente os conhecimentos relativos à navegação marítima e ao segundo, os da arte militar e do território, ambos cada vez mais sob o primado da matemática e da geometria. Monarca ilustrado, João V (1706-1750) promoveu uma série de reformas no seu reinado. Uma delas abrangeu a reorientação na formação de engenheiros militares, com a criação da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa. Os engenheiros militares eram os principais encarregados de produzir uma cartografia de Estado e a Aula Régia formava os engenheiros segundo os mais modernos métodos nas áreas de construção de fortificações, de artilharia militar e da cartografia, constituindo um conhecimento cada vez mais dominado pela geometrização e a matematização do mundo. Consoante com as novas observações e medidas tomadas directamente no território, utilizava instrumentos cada vez mais modernos e aperfeiçoados. Acompanhando essa mesma tendência de especialização do conhecimento e universalização de seus métodos, aulas régias de geografia, voltadas principalmente para as actividades militares, foram criadas em várias cortes europeias nessa mesma época.
O engenheiro Manoel Azevedo Fortes foi escolhido o primeiro regente da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa e, sob protecção régia, publicou manuais técnicos que pretendiam orientar a formação dos engenheiros na maneira adequada de produção das cartas, com vistas à uniformização das técnicas e uma linguagem mais universal. Seus dois livros intitulam-se Tratado do modo o mais fácil de fazer as cartas geográficas assim de terra como de mar, e tirar as plantas das praças (1722) e O Engenheiro português (1729). Estes manuais pretendiam normalizar as formas de representação do espaço, sugerindo, entre outros tantos temas, a adopção de símbolos geográficos mais esquemáticos, as maneiras apropriadas e os instrumentos adequados para a tomada das medidas dos terrenos, as formas como deveriam ser coloridos os mapas e a maneira ideal de representar os acidentes geográficos. No contexto da criação da Academia Real da História Portuguesa, Azevedo Fortes foi nomeado pelo rei para se ocupar das questões de Geografia, reflexo da importância desse conhecimento para a escritura da História. Afinal, esta se desenrolava no interior de um espaço imperial que precisava ser mais bem conhecido, tanto o reino, quanto as conquistas ultramarinas, sendo a confecção dos mapas um importante instrumento para sua realização.
Apontando para essa associação entre guerra e mapas, tendo como palco a Guerra da Sucessão Espanhola, D’Anville desenhou um mapa das operações militares portuguesas que ocorreram entre Almeida, em Portugal, e Ciudad Rodrigo, na Espanha. A carta intitulada Carte des opérations militaires dans la région située entre Alcantara et Almeida, autour de Ciudad Rodrigo, ilustra o recuo progressivo do acampamento espanhol, o avanço das tropas portuguesas comandada pelo 4º. marquês das Minas, António Luís Sousa, em direcção ao território de Espanha, e o sítio montado ao redor de Ciudad Rodrigo, a partir de 2 de Maio de 1706. Este foi um episódio marcante na Guerra, pois nos dois anos anteriores, desde a entrada de Portugal no conflito, as operações militares haviam sido caracterizadas pelo avanço dos espanhóis sobre o seu território, o que devastou as províncias das Beiras e do Alentejo». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, a Guerra da Sucessão Espanhola, o Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «Geografia é palavra grega que significa descrever, desenhar ou pintar a terra. Ambíguo, o verbo significava simultaneamente descrever, desenhar e pintar. Portanto, mapas eram e são uma forma de pintura do mundo»

Cortesia de wikipedia

Guerra e cartografia
«(…) As forças militares chefiadas pelo marquês, que mobilizaram um efectivo de 30.000 soldados entre portugueses, holandeses e ingleses, depois de reassegurar as praças portuguesas nas Beiras, avançaram sobre o forte de Sarça, e ocuparam a imponente fortaleza de Alcântara, em abril de 1706. A entrada em Ciudad Rodrigo, que ocorreu a 26 de Maio, foi determinante na mudança da direcção da guerra: A campanha de 1706 foi triunfal para os portugueses que, sob o comando do marquês das Minas, avançaram pelo território espanhol, entrando pela actual província de Cáceres em Abril, sucessivamente conquistando Alcântara, Plasencia, Almaraz, recuando depois até Coria, seguindo daí até Ciudad Rodrigo. A tomada dessa praça foi o ponto de partida para a conquista de Madrid, o que ocorreu em 28 de Junho. Na capital, o arquiduque Carlos foi simbolicamente proclamado rei pelos invasores. Orientado no sentido leste-oeste, o mapa de D’Anville retrata, como era usual na cartografia militar, o teatro da guerra em torno de Almeida, na fronteira, onde se desenrolaram importantes operações. Dispõe as fortificações espalhadas pelo território (Alcântara, Zarca, Salvaterra, Segura, Coria, Monsanto, Almeida), bem como o relevo e os principais acidentes geográficos (destacam-se os rios Erxas, Alagon, Águeda, Azaba, e a Serra da Gata), além das estradas e núcleos urbanos e, finalmente, as colunas, os destacamentos e os acampamentos de ambas as tropas que se deslocam pelo território. É visível o recuo das tropas espanholas que, em Setembro de 1705, se encontravam às portas de Almeida e que no 1º. de Outubro, haviam recuado até Espeja, já em território espanhol. Também é possível observar os contingentes portugueses que se aproximam de Ciudad Rodrigo e organizam o cerco em torno da imponente fortaleza que protegia a cidade, junto ao rio Águeda. Trata-se, provavelmente, de uma ainda desconhecida colaboração entre D’Anville e Luís Cunha que tem o objectivo claro não só de mapear os combates, mas de enaltecer as habilidades militares do marquês das Minas e o poderio bélico de Portugal na guerra, o que se torna evidente pelo momento escolhido para ser retratado: exactamente quando suas tropas adentram o território espanhol.
Não se pode deixar de atentar que o mapa não apresenta traçada a linha de limite entre as duas nações, fazendo parecer, como era o desejo expansionista da Coroa Portuguesa, que todo esse território fronteiriço se encontrava sob seu domínio, a partir do avanço de suas tropas, o que poderia justificar uma futura negociação de fronteiras. E, de facto, essa pretensão ancorava-se no tratado assinado com a Inglaterra que prometera a futura anexação a Portugal de territórios espanhóis após a guerra. Como não se sabe a data de produção desse mapa, o mais provável é que ele tenha sido elaborado já na vigência do Tratado de Utrecht que pôs fim ao conflito. O documento estabelecia que territórios na Europa poderiam ser trocados pela Colónia do Sacramento e, nesse caso, era interessante para Portugal também demonstrar o seu domínio sobre esta porção fronteiriça do território espanhol, em caso de ser necessário apontar um equivalente de troca. O mais provável é que o mapa tenha sido produzido por volta do ano de 1724, quando D’Anville passou a colaborar com Luís Cunha. Em 1723, estando em Paris, o embaixador recebeu ordens de Portugal para, sob a orientação do marquês de Abrantes, reunir tudo que dissesse respeito à organização das tropas francesas e seus uniformes e ninguém melhor que Hermand, engenheiro chefe do rei da França, para lhe assessorar nessa empreitada. Conseguiu em Outubro que o duque de Orléans, então regente, autorizasse que o mesmo se pusesse a serviço de João V, passando os seus desenhos das tropas, uniformes e armamentos franceses para que fossem copiados. Por ordem do regente, Hermand interrompeu o trabalho que fazia de compilação de documentos sobre assuntos militares para serem usados na educação do delfim (depois Luís XV), para então se dedicar às encomendas do rei de Portugal. Na obra que fazia para o futuro rei contava com a ajuda de D’Anville, pois para deixá-lo a par das manobras militares, os mapas eram ferramentas indispensáveis para dar a ver as batalhas, os movimentos das tropas, a situação das fortificações. Guerra, geografia e cartografia eram temas constantemente interligados; é provável, portanto, que, D’Anville se dedicasse, nesse contexto, a desenhar, a pedido do embaixador, as manobras portuguesas em torno de Almeida e Ciudad Rodrigo.
Na correspondência de Luís Cunha existem outros exemplos de como os mapas podiam ser veículos capazes de materializar, aos olhares distantes, o teatro das guerras e a esse uso da cartografia o embaixador não deixou de estar atento. Em suas diversas embaixadas, para que em Portugal se pudesse ter notícias mais claras dos campos onde se travavam as principais batalhas pela Europa, ficava atento a mapas que pudessem auxiliar nesse fim. Geografia é palavra grega que significa descrever, desenhar ou pintar a terra. Ambíguo, o verbo significava simultaneamente descrever, desenhar e pintar. Portanto, mapas eram e são uma forma de pintura do mundo. No ano de 1740, quando Frederico II da Prússia invadiu a Silésia, no contexto da Guerra da Sucessão Austríaca (1740-1748), Luís Cunha enviou ao reino um novo mapa da guerra de Silésia. Dessa forma as autoridades portuguesas podiam acompanhar o que se passava com as tropas prussianas e austríacas na região. Porém, sabendo do poder que os mapas tinham para desvirtuar a realidade, advertiu que as plantas das praças que o geógrafo lhe ajuntou não são tão fortes nem tão regulares como ele de sua cabeça as quis fazer». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

Guerra. Diplomacia e mapas. A guerra da Sucessão Espanhola. Júnia F. Furtado. «Foi assim que Serrão Pimentel, dividiu entre seus dois filhos: Manoel e Francisco. O ‘primeiro’ ficou como cosmógrafo e lente da aula de Navegação, o ‘segundo’ como engenheiro e lente da aula de Matemática»

Carte des opérations militaires dans la région située entre Alcantara et Almeida, autour de Ciudad Rodrigo
Cortesia de wikipedia

Guerra e cartografia
«(…) Luís Serrão Pimentel (1613-1679) foi o grande representante de uma linhagem de grandes cosmógrafos portugueses a serviço do Estado, tendo reunido os empregos de cosmógrafo-mor do reino, engenheiro-mor do reino e tenente general da artilharia. Observa-se nas suas qualificações como engenheiro e tenente de artilharia que, inicialmente, a actividade de cosmógrafo abarcava também produzir conhecimentos úteis às actividades militares, tais como planejar fortificações, armamentos e produzir mapas para auxiliar o deslocamento de tropas pelo território. Luís Serrão Pimentel ocupava o cargo quando se deu a Restauração portuguesa, em 1640. A necessidade de organizar a defesa do reino para resistir às tentativas de recolonização espanhola se tornou premente. Para melhor preparar um corpo de técnicos especializados, logo nas cortes reunidas em 1641, [Pimentel] propõe a criação de uma aula de fortificação e arquitectura militar na Ribeira das Naus em Lisboa. Como no restante da Europa, a progressiva especialização do conhecimento cosmográfico, separado do geográfico, também levou em Portugal à divisão do cargo. Foi assim que Serrão Pimentel, proprietário em carácter hereditário, no terceiro quartel do século XVII, o dividiu entre seus dois filhos: Manoel e Francisco. O primeiro ficou como cosmógrafo e lente da aula de Navegação, o segundo como engenheiro e lente da aula de Matemática. A partir deste momento cosmografia e engenharia tornaram-se actividades relativamente distintas em Portugal, mas fortemente conectadas (inclusive pelos laços familiares dos detentores dos cargos de cosmógrafo-mor e engenheiro-mor). Ao primeiro coube principalmente os conhecimentos relativos à navegação marítima e ao segundo, os da arte militar e do território, ambos cada vez mais sob o primado da matemática e da geometria.
Monarca ilustrado, João V (1706-1750) promoveu uma série de reformas em seu reinado. Uma delas abrangeu a reorientação na formação de engenheiros militares, com a criação da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa. Os engenheiros militares eram os principais encarregados de produzir uma cartografia de Estado e a Aula Régia formava os engenheiros segundo os mais novos métodos nas áreas de construção de fortificações, de artilharia militar e da cartografia, constituindo um conhecimento cada vez mais dominado pela geometrização e a matematização do mundo. Consoante com as novas observações e medidas tomadas directamente no território, utilizava instrumentos cada vez mais modernos e aperfeiçoados. Acompanhando essa mesma tendência de especialização do conhecimento e universalização de seus métodos, aulas régias de geografia, voltadas principalmente para as actividades militares, foram criadas em várias cortes europeias nessa mesma época. O engenheiro Manoel Azevedo Fortes foi escolhido o primeiro regente da Aula Régia de Fortificação Militar em Lisboa e, sob protecção régia, publicou manuais técnicos que pretendiam orientar a formação dos engenheiros na maneira adequada de produção das cartas, com vistas à uniformização das técnicas e uma linguagem mais universal. Seus dois livros intitulam-se Tratado do modo o mais fácil de fazer as cartas geográficas assim de terra como de mar, e tirar as plantas das praças (1722) e O Engenheiro português (1729). Estes manuais pretendiam normalizar as formas de representação do espaço, sugerindo, entre outros tantos temas, a adopção de símbolos geográficos mais esquemáticos, as maneiras apropriadas e os instrumentos adequados para a tomada das medidas dos terrenos, as formas como deveriam ser coloridos os mapas e a maneira ideal de representar os acidentes geográficos. No contexto da criação da Academia Real da História Portuguesa, Azevedo Fortes foi nomeado pelo rei para se ocupar das questões de Geografia, reflexo da importância desse conhecimento para a escritura da História. Afinal, esta se desenrolava no interior de um espaço imperial que precisava ser mais bem conhecido, tanto o reino, quanto as conquistas ultramarinas, sendo a confecção dos mapas um importante instrumento para sua realização.
Apontando para essa associação entre guerra e mapas, tendo como palco a Guerra da Sucessão Espanhola, D’Anville desenhou um mapa das operações militares portuguesas que ocorreram entre Almeida, em Portugal, e Ciudad Rodrigo, na Espanha. A carta, intitulada Carte des opérations militaires dans la région située entre Alcantara et Almeida, autour de Ciudad Rodrigo, ilustra o recuo progressivo do acampamento espanhol, o avanço das tropas portuguesas comandada pelo 4º marquês das Minas, António Luís Sousa, em direcção ao território de Espanha, e o sítio montado ao redor de Ciudad Rodrigo, a partir de 2 de Maio de 1706. Este foi um episódio marcante na Guerra, pois nos dois anos anteriores, desde a entrada de Portugal no conflito, as operações militares haviam sido caracterizadas pelo avanço dos espanhóis sobre seu território, o que devastou as províncias das Beiras e do Alentejo». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, A guerra da Sucessão Espanhola, O Tratado de Utrecht e a América Portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v,. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A Guerra da Sucessão Espanhola. O Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville. Júnia Ferreira Furtado. «… observa-se como os mapas podem ser uma arma importante de persuasão política, tanto no contexto das negociações diplomáticas, quanto das guerras que as precedem»

Cortesia de wikipédia

As fronteiras da América meridional
«(…) O processo de produção da Carte de l’Amérique Méridionale se insere nesse amplo contexto de renegociação das fronteiras entre Portugal e Espanha, que estavam definidas, desde 1494, pelo Tratado de Tordesilhas. Porém, ao longo dos dois séculos seguintes, a ocupação desses territórios não se deu de forma tão homogénea como previra o Tratado. Assim, no século XVIII, os limites entre as duas Coroas estavam em litígio tanto na América do Sul, quanto no mar do Sul (Oceano Pacífico), como foi o caso das Molucas. À medida que este século avançava e Portugal interiorizava o povoamento do Brasil, o Tratado de Tordesilhas se tornava um embaraço cada vez maior para seus propósitos de soberania na América. Ao estabelecer a divisão das novas terras americanas, banhadas pelo Oceano Atlântico, entre as duas Coroas, a partir de uma linha imaginária posicionada a 370 léguas a oeste de uma ilha não especificada do arquipélago de Cabo Verde, Tordesilhas atribuía à Espanha o domínio do centro-oeste da América, que vinha sendo sistematicamente desbravado e ocupado pelos portugueses. A imprecisão da localização do Meridiano punha em dúvida as fronteiras exactas entre as duas Coroas no norte do Brasil, nas bacias dos rios Amazonas, Tocantins e seus afluentes; já no extremo sul, a disputa ficava centrada junto ao rio da Prata, onde se localizava a Colónia do Sacramento. A questão da Colónia do Sacramento foi a pedra de toque das negociações portuguesas e espanholas na primeira metade do século XVIII. Luís Ferrand Almeida afirma que, com a activa participação de Luís Cunha, o problema foi longamente tratado pelos representantes de Portugal em Madrid e também noutras cortes, como Viena e Paris, mas sem conseguirem alterar a posição espanhola.
A imprecisão da posição do meridiano de Tordesilhas, o real povoamento que as duas potências ibéricas estabeleceram nas terras descobertas e as disputas em torno dessas regiões limítrofes na América fizeram surgir em Portugal uma corrente de defensores favoráveis a que os limites entre as duas potências no continente americano e no Oceano Pacífico fossem renegociados em conjunto, posição sistematicamente defendida por Luís Cunha nas diversas negociações em que representou Portugal após a Guerra da Sucessão Espanhola (especialmente durante os Tratados de Utrecht, Cambrai, Breda e Aquisgrán). A Colónia do Sacramento, ocupada pelos portugueses, e as Molucas, no Oceano Pacífico, que haviam sido (injustamente) compradas dos espanhóis, segundo Luís Cunha, seriam as duas grandes moedas de troca entre as duas nações, opinião compartilhada pelo geógrafo francês D’Anville, em parecer que escreveu a seu pedido sobre o tema. Esse processo de renegociação das fronteiras luso-espanholas culminará em 1750 com o estabelecimento do Tratado de Madrid.
Foi no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola e das negociações que lhe seguiram, que também versaram sobre as fronteiras entre Portugal e Espanha, que Luís Cunha se tornou cônscio da necessidade de construir uma base cartográfica sólida que permitisse a Portugal tomar a dianteira perante a Espanha no processo de negociação das suas fronteiras na América. Por esta razão, também tomou para si a incumbência de contribuir para a produção de uma cartografia da América Portuguesa, estabelecendo a partir de 1724, quando residia em Paris, uma profícua colaboração com D’Anville, cuja Carte de l’Amérique Méridionale, é a culminância desse processo. Este foi o primeiro mapa a propor um formato triangular do Brasil, bastante semelhante à feição actual. Nesse sentido, é preciso ficar atento para o facto de que, ao contrário do que usualmente se pensa, não raro, é o mapa que precede o território e não o contrário: esse processo pode-se observar claramente nesse mapa, que constrói uma imagem da América Portuguesa, propondo novos limites de fronteiras, que não correspondiam à realidade da época. D’Anville dava expressão cartográfica às pretensões geopolíticas de Luís Cunha que procurava conformar o território americano de acordo com o que acreditava ser do interesse de Portugal. Nessa perspectiva, observa-se como os mapas podem ser uma arma importante de persuasão política, tanto no contexto das negociações diplomáticas, quanto das guerras que as precedem. Neste artigo, o enfoque se dará na utilização da cartografia no teatro da Guerra da Sucessão Espanhola e na negociação em Utrecht que, pela via da diplomacia, tentou solucionar os diferendos territoriais então surgidos, apontando para a transitividade entre a guerra e a diplomacia com a cartografia.


Guerra e cartografia
No século XVIII, mapas estavam em todas as partes. Sustentavam as guerras com suas campanhas militares, as negociações diplomáticas que se seguiam àquelas, as viagens de exploração das terras desconhecidas, os empreendimentos comerciais ou de prospecção mineral, entre outros fins nos quais eram empregados. Havia um conjunto vasto de temas que poderiam ser mais bem visualizados por meio da linguagem cartográfica, como batalhas, movimentações militares, sítios e fortalezas; por isso, uma das aplicações mais antigas da cartografia era a guerra. Por esta razão, a produção de conhecimento geográfico e a confecção de mapas sempre foram fortemente apoiadas pela Coroa portuguesa. Esta protecção se materializou na precoce criação do cargo de cosmógrafo-mor, responsável por promover o desenvolvimento do conhecimento cosmográfico que permitisse a realização das viagens náuticas. Isso significava fazer observações astronómicas, produzir cartas e portulanos, desenvolver instrumentos astronómicos e marítimos, ensinar e preparar os cosmógrafos». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, a Guerra da Sucessão Espanhola, o Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A Guerra da Sucessão Espanhola. O Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville. Júnia Ferreira Furtado. «As negociações luso-espanholas no Congresso de Utrecht (1712-1715), tendo os ingleses como mediadores, foram custosas e demoradas»

Alcaçovas
Cortesia de wikipedia

A Guerra da Sucessão Espanhola
«(…) O século XVIII iniciou-se e foi marcado pela deflagração da Guerra da Sucessão Espanhola. O conflito, que se estendeu entre 1702 a 1714, envolveu a maioria das nações da Europa ocidental, e foi resultante do confronto entre os Bourbons e os Habsburgos pelo trono da Espanha. Sob seu pano de fundo, no entanto, várias outras questões emergiam: a rivalidade entre a França e a Inglaterra hegemonia mundial, as disputas das nações europeias pelo controle dos espaços coloniais e pelo comércio transoceânico, especialmente os auferidos com o tráfico de escravos. A falta de um herdeiro directo para o trono espanhol levou Carlos II, depois de examinar várias posibilidades de sucessão, a legar a Coroa, em testamento, a Filipe de Bourbon, duque de Anjou, neto de Luís XIV, mas que era também herdeiro presuntivo da França. Em Janeiro de 1701, as cortes espanholas, reunidas em Madrid e Barcelona, reconheceram o duque como seu novo rei, nomeado Filipe V. Preocupados com uma possível união franco-espanhola, pois a sucessão francesa por primogenitura não estava ainda de todo assegurada, Áustria, Inglaterra, Holanda, Suécia, Dinamarca e vários principados alemães estabeleceram, no Tratado de Haia, em Setembro desse mesmo ano, a Grande Aliança. O aumento da tensão entre as partes deflagrou a guerra que se iniciou pelo norte da Itália e, nos 11 anos seguintes, alastrou-se pelos principados alemães, Países Baixos, norte da França e Península Ibérica, envolvendo quase todas as nações do continente.
A posição inicial de Portugal foi favorável à pretensão dos Bourbons. Sob a batuta do então embaixador na França, José Cunha Brochado, em 18 de Junho de 1701, Filipe V foi reconhecido rei de Espanha. Mas, a reacção inglesa foi imediata. Em Setembro do ano seguinte, às instâncias do embaixador John Methuen, esse tratado foi anulado e outro foi estabelecido com a Inglaterra. Seu texto previa que Portugal teria direito a vários territórios na fronteira com a Espanha, na Extremadura e na Galiza, e sobre a Colónia do Sacramento na foz do rio da Prata, o que reflectia seus desejos ex­pansionistas tanto na Europa, quanto na América. Em Dezembro de 1703, solidificando mais ainda a aliança anglo-portuguesa, foi assinado um acordo de comércio, que acabou conhecido sob o nome do embaixador inglês, o Tratado de Methuen. Tanto esse acordo comercial, quanto a aliança defensiva e ofensiva dividiram a elite dirigente portuguesa, o que se reflectiu no Conselho de Estado, que se cindiu entre pró-franceses e pró-ingleses. Luís da Cunha foi um ácido crítico das vantagens comerciais concedidas à Inglaterra.
Como temera Brochado, a mudança de rumo da política externa portuguesa levou o palco da guerra para o seu território, tanto na Europa, quanto em diversas praças do império, especialmente a América. Em Janeiro de 1704, de acordo com Joaquim Veríssimo Serrão:

as tropas franco-espanholas atacaram em força a Beira e o Alentejo, tomando sem resistência Salvaterra, Segura e Zibreira, enquanto Monsanto e Idanha-a-Nova o foram de assalto. (...) Não tardou em cair Castelo Branco, (...) depois Portalegre e Castelo de Vide. Na parte norte do Tejo também Penamacor foi assediada.

Na América, o alvo dos espanhóis foi a Colónia do Sacramento, que havia sido estabelecida em 1680, na margem setentrional do rio da Prata, por uma expedição portuguesa capitaneada por Manoel Lobo, então governador do Rio de Janeiro. Em 1704, o governador de Buenos Aires, Afonso Valdpes Inclán, recrutou suas tropas regulares, auxiliadas por mais 4.000 índios aldeados e, em Outubro, estabeleceu um cerco em torno da fortaleza, que pretendia levar seus moradores à fome e à rendição. Os ataques de artilharia foram intermitentes, até que, em Março de 1705, o governador Sebastião Veiga Cabral abandonou a fortaleza, levando as tropas portuguesas ali aquarteladas, os moradores civis, além das armas e munições que conseguiu embarcar na esquadra que foi enviada para resgatá-los. As negociações luso-espanholas no Congresso de Utrecht (1712-1715), tendo os ingleses como mediadores, foram custosas e demoradas. No que dizia respeito à Europa, Portugal e Espanha basicamente devolveram uma à outra as praças conquistadas. Quanto à América, versaram não só sobre a questão da Colónia do Sacramento, que foi devolvida aos portugueses, mas também sobre a restituição de navios portugueses que haviam sido presos em Buenos Aires, acusados de contrabando». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, a Guerra da Sucessão Espanhola, o Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Guerra. Diplomacia e mapas. A Guerra da Sucessão Espanhola. O Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville. Júnia Ferreira Furtado. «Foi na Carte de l’Amérique Méridionale que estes dois oráculos, Luís da Cunha, mestre na arte da política e da diplomacia, e D’Anville, hábil no exercício da geografia, se encontraram»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Este artigo aborda as conexões que se estabelecem no século XVIII entre a guerra e a diplomacia, de um lado, e, de outro, a cartografia, no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714) e do Tratado de Utrecht que veio pôr fim aos diferendos surgidos. Toma como ponto de partida a colaboração estabelecida entre o diplomata português Luís da Cunha e o geógrafo francês Jean Baptiste Bourguignon D’Anville, para a elaboração da Carte de l’Amérique méridionale, de 1748, com o objectivo de nortear as negociações de fronteiras entre Espanha e Portugal de seus territórios na América».

O mapa e seus autores
«Em Madrid caía a noite de 18 de Agosto de 1747 quando um apressado viajante adentrou os muros da cidade. Estava empoeirado e cansado depois de uma viagem acelerada desde Paris, pois o seu encargo era levar com rapidez a correspondência de Luís da Cunha, famoso embaixador de Portugal que, na primeira metade do século XVIII, servira nas mais diversas cortes europeias, e que então ocupava o posto na França. O correio trazia as cartas por ele enviadas ao visconde de Vila Nova de Cerveira, embaixador português na Espanha. Junto a estas, bem preso às costas, ainda trazia, com o maior cuidado, como antes de partir lhe advertira Luís da Cunha, um canudo de papelão. No seu interior, estava um mapa manuscrito da América do Sul, que vinha acompanhado de uma carta, ambos de autoria de Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville, então geógrafo do rei da França. Tratava-se de um manuscrito da Carte de l’Amérique Méridionale, produzida para o uso privado do duque de Orleans, que retratava o continente de forma elaborada e detalhada, e que seria impressa em 1748, tendo sofrido, a partir desse ano, sucessivas reimpressões, que acrescentaram pequenas modificações. Esta carta havia sido produzida em estreita colaboração com o embaixador Luís da Cunha.
Luís da Cunha foi figura emblemática da política interna e externa de Portugal na primeira metade do século XVIII, sob o reinado de João V. A serviço da Coroa, viveu quase toda a sua vida no estrangeiro, servindo como embaixador nas grandes cortes da Europa e participando, directa ou indirectamente, dos grandes acordos diplomáticos de seu tempo. Era um homem instruído, grande observador e crítico da realidade, advogando uma transformação na inserção de Portugal na orquestra política das nações europeias e também na sua relação com suas conquistas ultramarinas, especialmente com o Brasil. Apesar de distante do reino, o embaixador manteve intensa e ininterrupta correspondência com os principais artífices e pilares da política portuguesa de seu tempo, municiando-os com seus conselhos. A partir de sua visão de mundo e acreditando ser um oráculo de João V, buscou fundar toda uma agenda a ser seguida por Portugal nos anos vindouros. Entre tantos temas, seus escritos propunham um redimensionamento do papel do Brasil no interior do império. Parte dessa tarefa significava ter um melhor conhecimento da geografia dessa conquista e, para isso, contribuiu para a produção de mapas mais precisos. É neste contexto que se insere a Carte de l’Amérique méridionale.
Em 1802, no elogio escrito à Notice des Ouvrages de M. D´Anville, o barão Joseph Dacier afirmou que D’Anville era reconhecido pelos savants e viajantes de seu tempo, como oráculo da Geografia. Atestando sua enorme contribuição, a Notice atribuía como de sua autoria mais de 211 mapas manuscritos e impressos e 23 obras sobre essa ciência. Parte significativa da comunidade intelectual, para além da França e de seu próprio tempo, ressaltou o importante papel que desempenhou nesse campo de conhecimento. Condorcet (1743-1794) foi um dos que afirmou que todas as nações concordam em considerá-lo o primeiro geógrafo da Europa. D’Anville era um geógrafo de gabinete. Isto é, nem imprimia mapas, nem realizava as medições dos terrenos que representava em suas cartas. Seu papel na rede de profissionais envolvidos com a feitura dos mapas era a de compilar todas as informações geográficas disponíveis, colectadas por outros, submetê-las à sua crítica severa, e, a partir delas, traçar a carta que seria, então, impressa e comercializada por terceiros. Foi na Carte de l’Amérique Méridionale que estes dois oráculos, Luís da Cunha, mestre na arte da política e da diplomacia, e D’Anville, hábil no exercício da geografia, se encontraram. O geógrafo queria que seu mapa contribuísse para o maior conhecimento do território sul-americano e o embaixador pretendia que servisse para subsidiar as negociações diplomáticas, em curso em Madrid, com vistas a definir as fronteiras entre Portugal e Espanha na América, que se encontravam em litígio desde a Guerra da Sucessão Espanhola. Tendo esse mapa como ponto de partida e de chegada, este artigo busca discutir as vinculações entre, de um lado, a cartografia e, de outro, a guerra e a diplomacia, tendo como pano de fundo a Guerra da Sucessão Espanhola». In Júnia Ferreira Furtado, Guerra, Diplomacia e mapas, a Guerra da Sucessão Espanhola, o Tratado de Utrecht e a América portuguesa na cartografia de D’Anville, revista Topoi, v. 12, nº 23, 2011.

Cortesia de Topoi/JDACT