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terça-feira, 26 de maio de 2020

O Livro do Amor. Kathleen Mcgowan. «… da promessa dela de procurar um livro secreto que Ele escrevera com a própria divina mão, O livro do amor»

Cortesia de wikipedia e jdact

Rosso. La Beauce. França. 390 d. C.
«(…) Um guarda que estava do outro lado do cepo se aproximou para posicionar os prisioneiros. Modesta fez uma pergunta bem alto para que todos pudessem ouvir. Senhores, podem-nos permitir alguns minutos para rezarmos juntos? Os guardas olharam para onde estava o maligno irmão Timóteo, ansioso, prevendo o espectáculo que estava prestes a acontecer. Ele fora apanhado numa armadilha Como homem da Igreja não podia negar o pedido de oração. A Igreja é misericordiosa e permitirá uma breve oração se os hereges desejam arrepender-se.
Modesta foi para perto do marido e o encarou pela última vez. Naquele instante não havia cadafalso, nem machado, nem a terrível injustiça. Havia apenas amor quando repetiram a oração mais sagrada do seu povo, em uníssono.

Eu te amei no passado,
Eu te amo no presente,
E te amarei novamente.
O tempo retorna.

Modesta tocou os lábios do amado com os seus, num último beijo suave. Basta!
A ira do irmão Timóteo desfez o momento. Irritados, os guardas separaram o casal e os fizeram ajoelhar com empurrões, lado a lado, diante do bloco de madeira. Com a profunda calma que nasce de saber que apenas Deus os espera, Modesta e Potentian abaixaram a cabeça sobre o cepo. Continuaram a rezar baixinho e a uma só voz enquanto o primeiro machado desceu com uma pancada nauseante. O segundo caiu logo depois. A multidão não se manifestou. A sensação de luto e de tragédia pesava na atmosfera. Não foi a comemorada execução de hereges que irmão Timóteo esperava. E ele transmitiu sua visão impopular em alto e bom som. Que isso sirva de aviso para todos. A heresia não será tolerada no Sacro Império Romano!
O povo da cidade se dispersou no rasto desse aviso impiedoso, com expressões sérias e mais do que temerosas. Irmão Timóteo ignorou todos. Aproximou-se do cepo de madeira para falar com os carrascos. Não deixem nenhuma relíquia dos mártires para os hereges lamentarem. Joguem os dois no fundo do poço. É o mais próximo que posso chegar de mandá-los para o inferno eu mesmo. Irmão Timóteo olhou longamente e com satisfação para o corpo mutilado de Modesta quando os carrascos começaram a cumprir a sua tarefa mórbida. Obsessão tomou conta do rosto dele quando tirou escondido alguma coisa do bolso. Era um cacho do cabelo vermelho e brilhante de Modesta. Com a pastora morta, seria fácil controlar os carneiros. Ele guardou o fetiche de volta no bolso e passou por cima da poça de sangue de Modesta sem olhar para trás.

Cidade de Nova York, agora
Maureen Paschal, refestelada no luxo de lençóis e travesseiros de puro algodão, no quarto do hotel em Manhattan, reservado pela sua editora, se debatia na cama enorme. Tão agitada no sono, como era acordada, Maureen não dormia a noite inteira havia quase dois anos. Desde os acontecimentos sobrenaturais que levaram-na a descobrir o Evangelho de Maria Madalena, Maureen era uma mulher perturbada, no seu sono e nas horas de vigília. Quando tinha a sorte de cochichar algumas horas consecutivas, era perseguida por sonhos fortemente simbólicos ou aparentemente vívidos e literais. Desses sonhos recorrentes o mais perturbador era aquele em que ela encontrava Jesus Cristo e Ele falava misteriosamente da promessa dela de procurar um livro secreto que Ele escrevera com a própria divina mão, O livro do amor. Quando estava desperta, Maureen era atormentada por essas experiências oníricas; mas O livro do amor até ao momento continuava o mais completo mistério. Não havia como encontrar referências históricas de tal documento além de um punhado de lendas muito vagas que surgiram na França na Idade Média, antes de desaparecer por completo. Ela não tinha ideia de onde começar a procura para cumprir a sua promessa e encontrar esse espectro. Não tinha nem muita certeza do que era. E até aquele dia, o Senhor não lhe dera pista alguma para ajudá-la nessa busca. Maureen rezava fervorosamente todas as noites para não falhar na missão que lhe fora confiada e para obter alguma orientação e encontrar o ponto de partida para essa viagem estranha. Os acontecimentos sobrenaturais da sua vida, nos últimos anos, eram a prova que bastava para saber que aquela magia divinamente inspirada existia por toda parte. Só teria de ser paciente na sua fé, e esperar». In Kathleen Mcgowan, O Livro do Amor, O Legado de Maria Madalena, Rocco, 2009, ISBN 978-853-252-513-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O Livro do Amor. Kathleen Mcgowan. «Eu te amei por muito tempo, jamais te esquecerei... Eu te amei para sempre, Deus nos fez um para o outro»


Cortesia de wikipedia e jdact

Rosso. La Beauce. França. 390 d. C.
«(…) Ela é sua? Não. É filha de camponeses. Irmão Timóteo se aproximou e passou a mão num cacho do cabelo castanho-escuro da menina. Ela não tem o cabelo profano, que é a marca da sua espécie. Se tivesse, eu a mataria pessoalmente. Uma menina camponesa, no entanto, não vale o esforço. Deixem-na ir. Ele despachou a criança com um gesto e deu as costas às mulheres para avaliar a carnificina. Modesta abraçou Madeleine, e a pequena menina cruzou os braços sobre o seu corpo minúsculo, agarrada ao livro escondido como se fosse a sua vida. Compreendendo que aquele era o seu último momento com a filha, Modesta sussurrou no ouvido dela: não tenha medo, Madeleine. Vou amá-la de novo. O tempo retorna. Ela beijou a filha rapidamente e mandou a menina sair correndo da caverna. Ficou vendo Madeleine se afastar com um misto de orgulho materno e sofrimento indescritível. Minha amada. Eu daria qualquer coisa para você não estar nessa cela. Potentian agarrou as barras que o separavam da mulher. O tempo que passara na prisão tinha cobrado o seu preço, e ele era pele e osso. O rosto e o cabelo estava imundos, mas para Modesta era o homem mais lindo do mundo. Ela só queria poder tocá-lo, mas os dois estavam amarrados, e a distância entre eles na prisão escura e húmida era grande demais.
No entanto estamos juntos, o que é uma bênção de qualquer forma. Não tenha medo da morte, meu amor. Não podemos, pois sabemos que não é o fim. Potentian estava desesperado. Não desista. Você é da família do bispo Martinho de Tours. Podemos pedir a intervenção dele. Ele pode impedir isso! Modesta suspirou, resignada. Meu bendito primo não teve sucesso quando tentou salvar os hereges, por mais que tentasse. A Igreja já decidiu que se quer livrar de nós, e rápido. O irmão Timóteo quer-nos mortos antes do pôr do sol de amanhã.
E o que será da nossa Madeleine?
Ela foi poupada no massacre. Precisei negar que era minha, tive de dizer que não era nossa filha. Graças a Deus ela tem a cor dos seus cabelos, senão o nosso lamento seria insuportável. Ela irá procurar meu irmão. Você sabe que ele a protegerá. E o Livro? Está a salvo? Madeleine o escondeu por baixo da capa. Ela foi muito corajosa. A expressão de Potentian, à luz fraca da vela, era de admiração. Ela puxou à mãe. Salvando o Livro, salvará todos nós. Os ensinamentos d'O Caminho continuarão. Modesta concordou e depois disse em voz alta o que estava pensando: a verdade é, mais uma vez, salva por uma menina. Sempre foi assim e sempre será. Um grupo soturno se reuniu no topo da colina, onde havia um cepo de madeira sobre o cadafalso, para assistir à execução. Os dois machados encostados no bloco de madeira estavam cruzados, formando um xis.
Lado a lado, com as mãos amarradas para trás, Modesta e Potentian subiram a colina cercados pelos homens fortemente armados e encapuzados que diziam para os dois andarem mais depressa. Tinham cortado o lindo cabelo de Modesta todo desigual, para expor o seu delicado pescoço à lâmina que ia separar a sua cabeça do corpo. Potentian olhou para ela, com o coração cheio de amor e de tristeza. Vamos morrer como ensinamos e como vivemos. Juntos. Modesta olhou para ele com o mesmo amor e a mesma tristeza. E voltaremos para ensinar juntos novamente. Quando Deus quiser e o tempo chegar. Potentian diminuiu o passo para prolongar aquele momento. Sua mulher o acompanhou para ficarem o mais perto que podiam. Ele sussurrou o seu último pedido: quer cantar para mim? Pela última vez? Modesta sorriu, o último presente terreno que podia dar para o seu amado, e começou a cantar com voz suave:

Eu te amei por muito tempo,
Jamais te esquecerei...
Eu te amei para sempre,
Deus nos fez um para o outro.

Quando Modesta acabou de cantar, um homem musculoso com um brilho avermelhado no cabelo surgiu do meio da multidão e se aproximou deles, com Madeleine segura nos braços. Ao ver a filha, Modesta ficou paralisada. Potentian olhou na mesma direcção de Modesta e parou ao seu lado. Não ousaram reconhecer a menina, mas naquele momento houve uma poderosa troca de amor e de perda entre os três. Madeleine olhou intensamente para a mãe, com uma sabedoria muito maior do que os seus oito anos, e meneou a cabeça. Um leve esboço de sorriso pairou nos seus lábios. A mãe, orgulhosa e aliviada naquele momento terrível, conseguiu retribuir o sorriso, e nessa hora um guarda de capuz a empurrou com violência para o cadafalso. Modesta inclinou-se para o marido e murmurou: nossos dois tesouros estão salvos». In Kathleen Mcgowan, O Livro do Amor, O Legado de Maria Madalena, Rocco, 2009, ISBN 978-853-252-513-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Ela se tornará a nova Pastora e nos mostrará O Caminho. Lorde Berenger Sinclair andava de um lado para outro do assoalho envernizado da sua biblioteca»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Peter muitas vezes especulara sobre a definição da palavra carisma, tal qual era usada no contexto sobrenatural dos primeiros tempos da Igreja: carisma, uma dádiva ou poder de concessão divina. Talvez se aplicasse a Maureen de maneira mais literal e profunda do que qualquer um dos dois jamais concebera. Ele mantinha um diário das suas conversas com Maureen, desde aqueles primeiros telefonemas internacionais, onde registava as suas próprias percepções sobre o significado dos sonhos. E orava todos os dias por orientação..., se Maureen fora escolhida por Deus para desempenhar alguma missão relacionada à Paixão, e ele tinha cada vez mais certeza de que era esse período que ela testemunhava em seus sonhos, Peter precisaria do máximo de orientação do seu Criador. E de sua Igreja.

Le Château des Pommes Bleues
Languedoc, região da França. Outubro de 2004
Marie de Nègre escolherá quando chegar o momento de A Escolhida. Ela que nasceu do Cordeiro Pascal, quando o dia e a noite são iguais, ela que é filha da Ressurreição. Ela que carrega o Sangre-real receberá a chave, ao contemplar o Dia Tenebroso do Crânio. Ela se tornará a nova Pastora e nos mostrará O Caminho. Lorde Berenger Sinclair andava de um lado para outro do assoalho envernizado da sua biblioteca. As chamas na enorme lareira de pedra projectavam uma claridade dourada numa colecção de livros e manuscritos de valor inestimável. Um estandarte esfarrapado pendia numa vitrine que se estendia por toda a extensão da enorme lareira. Outrora branco, o tecido amarelado tinha uma flor-de-lis dourada, bastante desbotada. O nome composto Jhesus-Maria estava bordado na entretela, mas só era visível para os poucos que tinham a oportunidade de se aproximar daquela relíquia.
Sinclair recitou a profecia em voz alta, de cor, o ligeiro sotaque escocês prolongando os erres. Conhecia aquelas palavras havia muito tempo. Aprendera-as sentado no colo do avô, quando era pequeno. Não compreendia o significado das frases naquele tempo. Era apenas um jogo de memorização que fazia com o avô, quando passava o Verão na vasta propriedade da família na França.
Ele parou de andar para se postar diante de uma linhagem extraordinária. Uma árvore genealógica, estendendo-se ao longo de séculos, estava pintada na parede do chão ao tecto, por toda a sua extensão. Um imponente mural exibia a história dos ancestrais de Berenger.
Aquele ramo da família Sinclair era um dos mais antigos da Europa. Originalmente chamada Saint Clair, a família fora expulsa do território continental da Europa e fora se refugiar na Escócia, no século XIII. Ali, o sobrenome fora mais tarde anglicizado para a sua forma actual. Os ancestrais de Berenger eram alguns dos personagens mais ilustres da história britânica, incluindo Jaime I, da Inglaterra, e aquela infame rainha-mãe Maria I, da Escócia.
A influente, prática e perceptiva família Sinclair conseguira sobreviver a guerras civis e convulsões políticas na Escócia, actuando nos dois lados da coroa, ao longo da tumultuada história do país. Capitão de indústria no século XX, o avô de Berenger acumulara uma das maiores fortunas da Europa, com a fundação da companhia North Sea Oil, para explorar petróleo no mar do Norte. Várias vezes bilionário e um par do reino, com assento na Câmara dos Lordes, Alistair Sinclair tinha tudo o que qualquer homem podia pedir. Mas permanecera irrequieto e insatisfeito, alguém que procurava alguma coisa que a sua fortuna não podia comprar.
O avô Alistair tornara-se obcecado pela França. Comprara um enorme castelo nos arredores da aldeia de Arques, na rude e misteriosa região sudoeste, conhecida como o Languedoc. Dera à sua nova residência o nome de Château des Pommes Bleues, o Castelo das Maçãs Azuis, por motivos que só eram conhecidos de uns poucos iniciados». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Sempre houve alguma coisa especial naquela pequena e dinâmica prima americana. Quando chegara à Irlanda com a mãe, era uma criança de sete anos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Depois de se apressar para encontrá-lo, não sabia por onde começar. Foi o padre quem acabou rompendo o silêncio. Quer dizer que ela voltou? Maureen deixou escapar um suspiro de alívio. Nos momentos em que pensava alcançar os limites extremos da sanidade, Peter estava ali para ajudá-la: primo, padre, amigo. Isso mesmo, balbuciou ela, com uma in articulação inesperada. Ela voltou.

Peter revirava-se na cama, irrequieto, incapaz de dormir. A conversa com Maureen perturbara-o mais do que a deixara perceber. Estava preocupado com ela, tanto como seu parente vivo mais próximo quanto como seu conselheiro espiritual. Sabia que os sonhos voltavam de maneira inesperada e persistente e vinha ganhando tempo, à espera do dia em que teria de agir. Quando voltara da Terra Santa, Maureen sentia-se perturbada pelos sonhos com uma mulher imponente e sofredora, que vira em Jerusalém. Os sonhos eram sempre iguais: ela estava no meio da multidão na Via Dolorosa. De vez em quando, um sonho podia conter pequenas variações ou um detalhe adicional, mas sempre projectavam um sentimento de profundo desespero. Era essa intensidade vivida que perturbava Peter, a autenticidade nas descrições de Maureen. Era intangível, uma coisa desencadeada pela própria Terra Santa, um sentimento que Peter experimentara pela primeira vez quando estudava em Jerusalém. Era uma sensação de estar muito próximo do antigo..., e do Divino.
Depois de voltar da Terra Santa, Maureen passara muitas horas em ligações internacionais com Peter, que na ocasião era professor na Irlanda. Ele começara a questionar a sanidade de Maureen. A intensidade e frequência dos sonhos deixavam-no angustiado. Pedira uma transferência para Loyola, sabendo que seria concedida imediatamente, e embarcara num avião para Los Angeles, a fim de ficar perto da prima.
Quatro anos depois, ele lutava contra os seus pensamentos e a sua consciência, sem saber a melhor maneira de ajudar Maureen. Queria levá-la para encontros com alguns de seus superiores na Igreja, mas sabia que a prima nunca concordaria com isso. Peter era o único elo que ainda se permitia ter com sua criação católica. E só confiava nele porque era da família..., e porque era a única pessoa na sua vida que nunca a decepcionara. Peter se sentou na cama, aceitando a certeza de que o sono continuaria a se esquivar dele pelo resto daquela noite..., e tentando não pensar no maço de Marlboro na gaveta da mesinha-de-cabeceira. Tentava se livrar daquele péssimo hábito..., e isso fora um dos motivos pelos quais optara por morar sozinho num apartamento, em vez de partilhar a residência dos jesuítas. O stress era demais naquele momento e ele acabou cedendo ao impulso para o pecado. Acendeu um cigarro, deu uma tragada profunda e reflectiu sobre os problemas com que Maureen se defrontava.
Sempre houve alguma coisa especial naquela pequena e dinâmica prima americana. Quando chegara à Irlanda com a mãe, era uma criança de sete anos assustada e solitária, tinha o sotaque do sul dos Estados Unidos. Oito anos mais velho, Peter a tomara sob sua protecção, apresentando-a às crianças da aldeia..., e proporcionando olhos roxos a qualquer um que ousasse zombar da recém-chegada de sotaque engraçado. Mas não levara muito tempo para que Maureen assimilasse o ambiente. Curara-se rapidamente dos traumas do seu passado na Louisiana, enquanto as neblinas da Irlanda a envolviam, acolhedoras. Encontrava refúgio nos campos, por onde dava longos passeios, levada por Peter e suas irmãs, que mostravam a beleza do rio e advertiam-na para os perigos das areias movediças no pântano. Os longos dias de verão eram consumidos na colheita de amoras silvestres na fazenda da família e nas partidas de futebol, até o sol se pôr no horizonte. Com o passar do tempo, as crianças locais passaram a aceitá-la, à medida que ela se tornava mais segura no ambiente e permitia que a sua verdadeira personalidade aflorasse». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O Livro do Amor. Kathleen Mcgowan. «Os cristãos sofreram muitos anos de tortura, no entanto usam agora toda a sua violência entre si. Precisamos perdoá-los, pois não sabem o que fazem»

Cortesia de wikipedia e jdact

Rosso. La Beauce. França. 390 d. C.
«A cera de abelha de pesadas velas que iluminavam o exíguo espaço da reunião pingava no chão da caverna. A pequena comunidade rezava suavemente, com devoção, seguindo a orientação da mulher etérea que estava à frente, no altar de pedra. Ela terminou a oração e ergueu o tesouro do seu povo, um manuscrito antigo, com capa de couro. O livro do amor. As únicas palavras verdadeiras do Senhor. A luz das velas cintilou no cabelo cor de cobre de madame Modesta quando ela beijou o livro. A fiel assembleia respondeu em uníssono. Para aqueles que podem ouvir. Fez-se um silêncio reverente, como se as palavras do Livro não pudessem ser seguidas por conversas triviais. Foi um dos jovens, um seguidor devotado e dedicado chamado Severin, que rompeu a quietude naquele ambiente sagrado. Como vai nosso irmão Potentiani Modesta respondeu, com a mesma voz calma e melodiosa de quando rezava: eu pude vê-lo hoje na prisão e lhe levei pão. Ele está bem. E com a fé inabalável, como deve se manter a sua. Severin não conseguiu controlar a agitação crescente, apesar de se esforçar bastante para superar o medo que o dominava. Você diz que ele está bem, mas por quanto tempo? Roma está matando cada dia mais gente do nosso povo, sob a acusação de heresia. Eles virão atrás de todos nós. A pequena comunidade murmurou concordando, depois de hesitar um pouco. Modesta, porém, sábia e paciente, jamais perdia uma oportunidade de ensinar as verdades que defendia. É de facto um tempo de tristeza quando os perseguidos se transformam em perseguidores.
Os cristãos sofreram muitos anos de tortura, no entanto usam agora toda a sua violência entre si. Precisamos perdoá-los, pois não sabem o que fazem. A frase de Modesta foi arrematada com um assobio agudo vindo da entrada da caverna. Tarde demais, ela e a congregação se deram conta de que tinham sido descobertos exactamente pelos homens dos quais se estavam escondendo. Em poucos minutos a tranquilidade da reunião religiosa foi substituída pelo caos quando uma comitiva de homens armados invadiu a única entrada da caverna, deixando bem claro que não havia possibilidade de fuga. Esses soldados estavam todos vestidos de maneira idêntica, manto e capuz pretos, que cobriam completamente a cabeça, com fendas sinistras à altura dos olhos. O líder deles adiantou-se e tirou o capuz, revelando uma tonsura de monge e uma pesada cruz de madeira pendurada no pescoço.
Concentrado em Modesta ele cuspiu o seu desprezo por uma líder mulher enquanto citava as epístolas de São Paulo. Não permitam que as mulheres ensinem, façam-nas calar. Madame Modesta de La Beauce, está presa por heresia. Modesta olhou para ele calmamente e o reconheceu. Irmão Timóteo. Você veio por minha causa, e irei com você. Mas deixe essas pessoas inocentes em paz. O nervoso jovem Severin entrou em pânico diante da possibilidade de perderem a sua líder, então deu um pulo para a frente, para impedir o avanço do irmão Timóteo. Você não a levará! Homens encapuzados se adiantaram. Modesta aproveitou a oportunidade para esconder o livro atrás dela, fora da vista do seu acusador. Ela ainda não se tinha dado conta do perigo que seus seguidores corriam. Uma mulher dedicada à essência do amor e da compaixão não é capaz de entender a mente de homens violentos com tanta rapidez. Os milicianos de capuz sacaram as suas armas e começaram a usá-las sem hesitação. Uma espada de dois gumes varou, primeiro, o coração de Severin; a vida dele jorrou do ferimento e baptizou a congregação com o seu sangue. O caos transformou o pequeno espaço quando os fiéis tentaram se espalhar, compreendendo finalmente que o perigo era real. A saída deles foi barrada pela violência cruel de uma força de ataque que não teve piedade do que restava da congregação. Madeleine!
Modesta procurou a filha na confusão, mas a menina já estava perto do altar, havia corrido na direcção da mãe. Miúda demais para os seus oito anos, Madeleine parecia ainda mais jovem, e Modesta sempre torceu para que isso fosse uma vantagem para ela. Tinha de salvar a filha. Precisava salvar o Livro. Modesta abraçou a menina, escondeu o livro nas dobras do vestido de Madeleine e puxou a capa por cima da roupa para protegê-lo melhor. No meio daquele caos ela berrou para o irmão Timóteo. Pare! Pare! Eu irei com vocês. Por favor, chega de carnificina. Não havia mais como parar. Os soldados encapuzados tinham executado todos os outros, deixaram o chão da caverna encharcado com o sangue dos fiéis inocentes. Irmão Timóteo fungou com nojo, enquanto passava por cima de um corpo ensanguentado, e assumiu um ar de tédio para capturar a sua presa. Poupe a vida dessa criança, implorou Modesta. Você é um homem de Deus. Não pode atribuir os pecados dos pais aos filhos». In Kathleen Mcgowan, O Livro do Amor, O Legado de Maria Madalena, Rocco, 2009, ISBN 978-853-252-513-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

sábado, 18 de abril de 2020

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Ao levantar os olhos, seu rosto se desmanchou num sorriso acolhedor. Maureen! Que surpresa maravilhosa! Não esperava vê-la esta noite. Oi, Pete, murmurou ela, no mesmo tom afectuoso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Por favor, não saia daí. Por favor, espere até à minha chegada. Maureen projectou o pensamento em Peter, enquanto andava. Havia uma estranha ligação entre os dois, desde crianças. Ela esperava agora que Peter pudesse sentir como precisava desesperadamente falar com ele. Maureen tentara antes ligar para o primo por meios mais convencionais, mas fora em vão. Peter detestava telefones móveis e não tinha um, apesar das suas muitas súplicas ao longo dos anos. Além disso, recusava-se a atender na extensão da sua sala, se estava absorvido no trabalho. Ela acabou tirando os incómodos sapatos e guardou-os na enorme bolsa de couro pendurada no ombro, enquanto corria na etapa final para o seu destino. Prendeu a respiração ao virar a esquina, levantou os olhos para as janelas do segundo andar e contou da esquerda para a direita. Deixou escapar um suspiro de alívio ao ver a luz acesa na quarta janela. Peter ainda estava lá. Maureen subiu a escada devagar, ganhando tempo para recuperar o fôlego. Virou à esquerda no corredor e parou ao alcançar a quarta porta à direita. Peter estava sentado à sua mesa, examinando com uma lupa um manuscrito amarelado. Sentiu a sua presença antes de vê-la na porta.
Ao levantar os olhos, seu rosto se desmanchou num sorriso acolhedor. Maureen! Que surpresa maravilhosa! Não esperava vê-la esta noite. Oi, Pete, murmurou ela, no mesmo tom afectuoso, contornando a mesa para um abraço intenso. Fico contente que ainda esteja aqui..., fiquei com medo de que já tivesse ido embora e precisava desesperadamente falar consigo. Ele alteou uma sobrancelha e reflectiu por um longo momento, antes de responder: em circunstâncias normais, eu já teria ido embora há horas. Mas senti-me compelido a trabalhar até mais tarde esta noite, por alguma razão que não entendi direito..., até agora. O padre Healy deu de ombros, com um sorriso jovial e sugestivo. Maureen retribuiu com o mesmo sorriso. Nunca fora capaz de explicar em qualquer nível lógico a ligação que tinha com o primo mais velho. Mas desde o dia em que chegara à Irlanda, quando menina, eram íntimos como gémeos, partilhando uma fantástica capacidade de se comunicarem sem palavras.
Maureen enfiou a mão na bolsa e tirou um saco plástico de compras azul, do tipo usado por importadoras no mundo inteiro. Continha uma caixa rectangular pequena, que ela estendeu para o padre. Ah, Lyon's Gold Label! Uma grande escolha. Ainda não consigo suportar o chá americano. Maureen fez uma careta e estremeceu, para indicar sua aversão partilhada. Água de pântano. Creio que a chaleira já está cheia de água. Basta ligar e daqui a pouco tomaremos um chá. Maureen sorriu, enquanto observava Peter levantar-se da velha cadeira de couro que ganhara da universidade. Ao aceitar o cargo no Departamento de Extensão de Ciências Humanas, o estimado dr. Peter Healy recebera uma sala com janela. Os móveis eram modernos, com mesa e cadeira novas e funcionais. Peter detestava o funcional em matéria de mobília, mas detestava ainda mais o moderno. Usando o seu charme gaélico como uma força irresistível, ele conseguira atiçar o estafe, em geral impassível, para uma actividade frenética. Era um sósia do actor irlandês Gabriel Byrne, uma aparência que nunca deixava de atrair as mulheres, com ou sem o colarinho clerical. Os funcionários procuraram em porões e salas de aula em desuso, até encontrarem exactamente o que ele procurava, uma cadeira de couro de encosto alto, bastante confortável, e uma mesa de madeira que pelo menos parecia antiga. Os confortos modernos na sala eram da sua escolha: o pequeno frigorífico no canto, atrás da mesa, uma pequena chaleira eléctrica para ferver água e o telefone, que costumava ignorar.
Maureen sentia-se mais relaxada agora, enquanto o observava, segura na presença de um parente próximo, absorvida na arte tranquilizante e absolutamente irlandesa de fazer chá. Peter voltou até a mesa e inclinou-se para o pequeno frigorífico no canto. Tirou uma caixa de leite pequena e pôs ao lado do açucareiro branco e rosa, em cima do frigorífico. Há uma colher em algum lugar..., ah, aqui está! A chaleira começou a apitar, indicando que a água estava prestes a ferver. Pode deixar que eu faço o chá, ofereceu Maureen. Ela levantou-se e pegou a caixa de chá na mesa de Peter. Abriu o lacre de plástico com a ponta da unha. Tirou dois saquinhos redondos e largou-os em canecas diferentes, manchadas de chá. Os estereótipos sobre os irlandeses e o álcool eram um exagero dramático, na perspectiva de Maureen; o verdadeiro vício irlandês era o chá. Ela terminou os preparativos com a devida eficiência e entregou uma caneca fumegante ao primo. Foi se sentar na cadeira na frente da mesa. Com a sua caneca na mão, Maureen tomou um gole do chá, calada, sentindo que os benevolentes olhos azuis de Peter a contemplavam». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «… o padre Healy, um estudioso jesuíta, um especialista internacionalmente aclamado pelos seus estudos bíblicos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Acenos de cabeça e murmúrios de confirmação foram a resposta. O livro na mão de Maureen era sua controvertida obra, HERstory, Uma defesa das heroínas mais odiadas da história. Era o motivo pelo qual ela lotava as salas de aula e os auditórios cada vez que decidia dar um curso ou fazer uma conferência.
Começaremos esta noite com uma análise das mulheres do Antigo Testamento, ancestrais das tradições judaica e cristã. Na próxima semana, faremos a transição para o Novo Testamento, concentrando a maior parte da sessão em uma única mulher... Maria Madalena. Examinaremos as diferentes fontes e referências sobre sua vida, tanto como mulher quanto como discípula de Cristo. Por favor, leiam os capítulos correspondentes, em preparação para as discussões a respeito.
Maureen fez uma pausa.
Também teremos um convidado especial, o dr. Peter Healy, que alguns de vocês já conhecem de nosso programa de extensão em Ciências Humanas. Para aqueles que ainda não foram bastante afortunados para comparecer a uma das aulas do nosso bom dr. Healy, devo acrescentar que ele é também o padre Healy, um estudioso jesuíta, um especialista internacionalmente aclamado pelos seus estudos bíblicos. O estudante persistente na primeira fila levantou a mão outra vez e foi logo perguntando, sem esperar que Maureen lhe concedesse a palavra: não tem uma relação especial com o dr. Healy? Maureen acenou com a cabeça em confirmação. O dr. Healy é meu primo. Ela olhou para os outros estudantes e acrescentou: ele nos dará a perspectiva da Igreja sobre o relacionamento de Maria Madalena com Cristo e revelará como as percepções evoluíram ao longo de dois mil anos. Maureen estava ansiosa em voltar ao que dizia antes e encerrar o mais depressa possível aquela tergiversação. Será uma boa noite. Tentem não perdê-la. Mas esta noite vamos começar por uma de nossas mães ancestrais. Quando tomamos conhecimento de Betsabá, ela está purificando-se da sua impureza...

Maureen saiu apressada da sala, pedindo desculpas e jurando que ficaria depois da aula na semana seguinte. Em circunstâncias normais, teria permanecido na sala pelo menos por mais meia hora, conversando com o grupo que inevitavelmente ficava por ali. Adorava aquele tempo com os alunos, talvez ainda mais do que as aulas. Afinal, os que permaneciam na sala eram aqueles que tinham afinidades. Eram os estudantes que faziam com que continuasse. Não precisava da remuneração insignificante que o curso de extensão lhe proporcionava. Dava aulas porque adorava o contacto e o estímulo de partilhar suas teorias com pessoas curiosas e de mentalidade aberta. Os saltos ressoando ritmados pela calçada, Maureen acelerou os passos, seguindo pelas ruas arborizadas no norte do campus. Não queria perder Peter, não naquela noite. Irritou-se com seu senso de elegância, desejando estar usando calçados mais apropriados para a quase corrida até a sala de Peter, antes de sua saída. Como sempre, vestia-se de forma impecável. Dedicava às roupas o mesmo cuidado meticuloso que dispensava a todos os outros detalhes da sua vida. O tailleur de grife ajustava-se ao corpo pequeno com perfeição, a cor de floresta realçava os seus olhos verdes. Os sapatos de saltos altos de Manolo Blahnik acrescentavam um toque de ousadia ao traje, afora isso, conservador..., e alguma altura a seu corpo de pouco mais de metro e meio. Eram justamente os Manolo que constituíam a fonte de sua actual frustração. Ela considerou por um instante a possibilidade de tirá-los». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

terça-feira, 11 de junho de 2019

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Vamos, encorajou. Levantem a mão e repitam o que eu disser. Os estudantes levantaram a mão, esperando pela deixa. Juro solenemente, como um estudante sério de história…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Vamos começar do alto. Maria Antonieta nunca disse: se eles não têm pão, que comam brioche. Lucrécia Bórgia nunca envenenou ninguém. E Maria I, da Escócia, não era uma prostituta assassina. Ao repararmos esses erros, damos o primeiro passo para restituir às mulheres o seu lugar apropriado e respeitável na história..., um lugar que foi usurpado por gerações de historiadores com uma agenda política. Maureen fez uma pausa, enquanto murmúrios de aprovação espalhavam-se pela plateia de estudantes. Falar para uma nova turma era quase como uma noite de estreia no teatro. O sucesso do desempenho inicial determinava o impacto a longo prazo de todo o curso. Ao longo das próximas semanas, vamos examinar as vidas de algumas das mulheres mais infames na história e na lenda. Mulheres com histórias que deixaram uma marca indelével na evolução da sociedade e do pensamento moderno; mulheres que foram dramaticamente incompreendidas e mal retratadas pelas pessoas que estabeleceram a história do mundo ocidental, ao registarem as suas opiniões no papel.
Maureen estava concentrada e relutante em parar para perguntas tão cedo, mas um jovem estudante acenava com a mão da primeira fila desde que ela começara a falar. Parecia muito ansioso; afora isso, porém, não havia nada de extraordinário na sua aparência. Amigo ou inimigo? Admirador ou fundamentalista? Havia sempre esse risco. Maureen deu-lhe a palavra, sabendo que ele distrairia a sua atenção enquanto não o fizesse. Considera que essa é uma visão feminista da história? Era só isso? Maureen relaxou um pouco, enquanto respondia à pergunta familiar: considero que é uma visão honesta da história. Não trato do assunto com qualquer outro interesse que não a busca da verdade. Mas ela ainda não se livrara do importuno. Pois me parece uma visão contra os homens. Nem um pouco. Adoro os homens. Acho que toda mulher devia ter um.
Maureen fez uma pausa, para permitir o riso das mulheres. Estou brincando. Meu objectivo era o de recuperar o equilíbrio, analisando a história com olhos modernos. Leva a sua vida da mesma maneira como as pessoas viviam há mil e seiscentos anos? Não. Então, porque leis, convicções e interpretações históricas determinadas na Idade Média devem reger a maneira como vivemos no século XXI? Não faz o menor sentido. O estudante declarou: mas é por isso que estou aqui, para descobrir o que realmente acontece. Óptimo. Neste caso, aplaudo a sua presença. Só peço que mantenha a mente aberta. Na verdade, quero que todos parem o que estão fazendo, levantem a mão direita e façam o seguinte juramento. Os estudantes do curso nocturno trocaram murmúrios outra vez. Sorriram e deram-de-ombros uns para os outros, querendo determinar se ela falava mesmo sério. A professora, escritora de sucesso e jornalista respeitada, mantinha-se de pé na frente deles, com a mão direita levantada e uma expressão de expectativa.
Vamos, encorajou. Levantem a mão e repitam o que eu disser.
Os estudantes levantaram a mão, esperando pela deixa. Juro solenemente, como um estudante sério de história, Mauree fez uma pausa, enquanto os estudantes repetiam, obedientes, lembrar em todas as ocasiões que as palavras registadas no papel foram escritas por seres humanos. Outra pausa, para a repetição dos estudantes. E como todos os seres humanos são regidos pelas suas emoções, opiniões, filiações políticas e religiosas, toda a história inclui tanto opinião quanto facto e em muitos casos foi inteiramente fabricada para promover as ambições pessoais ou as intenções secretas de quem a escreveu. Outra pausa. Juro solenemente manter minha mente aberta em cada momento em que estiver sentado nesta sala. Aqui está o nosso grito de batalha. A história não é o que aconteceu. A história é o que foi escrito. Ela levantou um livro de capa dura que estava no pódio à sua frente, mostrando para a turma. Todos já possuem um exemplar deste livro?» In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Ela leu em voz alta a citação de outra placa, abaixo do bronze: mulher, por que chora? A quem procura?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Isso mesmo. Meu nome é Maureen. Mas como..., como sabia? O homem ignorou a pergunta. Pegou-a pela mão e puxou-a através da igreja. Não há tempo, não há tempo. Venha. Esperámos muito tempo por você. Venha, venha. Para um homem tão pequeno, era mais baixo até do que Maureen, ele se movia com bastante rapidez. As pernas curtas impulsionaram-no pelo interior da basílica, passando pelo lugar em que os peregrinos esperavam para serem admitidos na tumba de Cristo. Ele continuou a andar, até alcançar um pequeno altar no fundo da basílica, onde parou abruptamente. A área era dominada por uma escultura de bronze em tamanho natural de uma mulher com os braços estendidos para um homem, numa pose suplicante. Capela de Maria Madalena... Madalena... Veio por causa dela, não é? Não é? Maureen tornou a acenar com a cabeça, cautelosa, olhando para a escultura. Uma placa informava:

Neste lugar,
Maria Madalena foi a Primeira
A Ver a Ascensão do Senhor.

Ela leu em voz alta a citação de outra placa, abaixo do bronze: mulher, por que chora? A quem procura?
Maureen teve pouco tempo para reflectir sobre a pergunta, pois o estranho homenzinho puxava-a de novo, seguindo apressado, nos seus passos improváveis, para outro canto escuro da basílica. Venha, venha. Contornaram uma esquina e pararam na frente de um quadro, um retrato grande e antigo de uma mulher. O tempo, o incenso e séculos de resíduos de velas oleosas haviam impresso o seu tributo sobre a obra de arte. Para ver melhor, Maureen teve de chegar mais perto do quadro escuro, os olhos contraídos. O homenzinho explicou, numa voz subitamente muito séria: quadro muito antigo. Grego. Pode entender? Grego. Mais importante, da Senhora. Ela precisa que conte a sua história. É por isso que veio até aqui, Mo-ree. Esperamos há muito tempo. Ela esperou. Por você. Sim? Maureen olhou atentamente para o quadro, um retrato antigo de uma mulher usando um manto vermelho. Virou-se para o homenzinho, com a maior curiosidade sobre o lugar para onde ele queria levá-la. Mas ele não estava mais ali..., desaparecera tão depressa quanto havia surgido. Espere!
O grito de Maureen ressoou pela câmara de eco da vasta basílica. Mas ela não obteve resposta. Tornou a concentrar a sua atenção no quadro. Ao se inclinar na sua direcção, verificou que a mulher usava um anel na mão direita, um disco de cobre redondo, com um padrão de nove círculos em torno de uma esfera central. Maureen levantou a sua mão direita, a fim de comparar o anel que acabara de ganhar com o que aparecia no quadro. Os anéis eram idênticos.

... Muito será dito e escrito, nos tempos que virão, sobre Simão, o Pescador de Homens. De como ele foi chamado de pedra, Pedro, por Easa e por mim, enquanto os outros chamavam-no de Cefas, o que era natural na língua que falavam. E, se a história se propuser justa, dirá como ele amou Easa com intensidade e lealdade incomparáveis. E muito se tem dito, assim me contaram, sobre o meu relacionamento com Simão-Pedro. Há aqueles que nos chamavam de adversários, de inimigos. Querem acreditar que Pedro me desprezava e que disputávamos a atenção de Easa em todas as ocasiões. E há aqueles que diriam que Pedro odiava as mulheres..., essa é, porém, uma acusação que não pode ser atribuída a nenhum dos seguidores de Easa. Saibam que nenhum homem que seguiu Easa jamais menosprezou uma mulher ou subestimou seu valor nos desígnios de Deus. Qualquer homem que faz isso e alega ter Easa como mestre está proferindo uma mentira. São inverídicas tais acusações contra Pedro. Aqueles que testemunharam as críticas a mim dirigidas por Pedro, desconhecem a nossa história, ou de que fontes se originaram as suas explosões. Contudo eu compreendo e nunca o julgarei. Isso, acima de todo o resto, é fruto daquilo que Easa me ensinou..., e espero que aos outros ele também tenha ensinado. Não julgar. In o Evangelho de Arques Segundo Maria Madalena. O Livro dos Discípulos»

In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «O cheiro intenso e inconfundível do incenso chamado olíbano envolveu Maureen quando ela entrou. Peregrinos de todas as áreas da Cristandade espalhavam-se…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Descobriu-se no meio de um enxame de turistas britânicos que contornaram a esquina, levados por um guia que usava o colarinho de sacerdote anglicano. Ele anunciou para o seu grupo de peregrinos que se aproximavam do local mais sagrado da Cristandade, a Basílica do Santo Sepulcro. Maureen sabia, por sua pesquisa, que as Estações da Cruz que restavam ficavam dentro daquele prédio reverenciado. A basílica ocupava vários quarteirões, inclusive o local da crucificação. A construção começara quando a imperatriz Helena jurara proteger esse lugar sagrado, no século IV. Helena, a mãe do imperador romano Constantino, fora mais tarde canonizada pelos seus esforços. Maureen aproximou-se da vasta entrada devagar, com alguma hesitação. Ao parar no limiar, compreendeu que não entrava numa igreja de verdade havia muitos anos. Não gostou da perspectiva. Lembrou a si mesma, com a devida firmeza, que a pesquisa que a trouxera a Israel era académica, não espiritual. Enquanto se mantivesse concentrada nesse aspecto da questão, não teria qualquer problema. Poderia passar por aquelas portas. Apesar de sua relutância, ela teve de admitir que havia alguma coisa naquele colossal santuário que inspirava reverência, um ambiente magnético. Enquanto passava pela entrada enorme, ela ouviu as palavras do sacerdote britânico:

Dentro destas paredes, verão onde Nosso Senhor fez o supremo sacrifício. Onde ele foi despojado de sua túnica e pregado na cruz. Entrarão na tumba sagrada em que seu corpo foi sepultado. Meus irmãos e irmãs em Cristo, depois de entrarem aqui, suas vidas nunca mais serão as mesmas.

O cheiro intenso e inconfundível do incenso chamado olíbano envolveu Maureen quando ela entrou. Peregrinos de todas as áreas da Cristandade espalhavam-se pelos vastos espaços da basílica. Ela passou por um grupo de sacerdotes coptas empenhados numa discussão reverente, as vozes abafadas. Observou um clérigo ortodoxo grego acender uma vela numa das pequenas capelas. Um coro masculino cantava em dialecto oriental, um som exótico para ouvidos ocidentais, o hino se elevando de algum lugar secreto dentro da basílica. Maureen concentrava-se em absorver as imagens e sons daquele lugar sagrado, atordoada com a sobrecarga sensorial. Não notou a aproximação do homem pequeno, magro e forte, até que ele bateu no seu ombro, provocando um sobressalto.
Desculpe, moça. Desculpe, srta. Mo-ree. Ele falava inglês. Ao contrário do enigmático Mahmoud, no entanto, o seu sotaque era carregado. Sua habilidade com o idioma de Maureen era rudimentar, na melhor das hipóteses; por isso ela não entendeu a princípio que o homem a chamava pelo primeiro nome. Ele repetiu. Mo-ree. Seu nome. É Mo-ree, não é? Maureen estava perplexa, tentando determinar se o estranho homenzinho a chamava mesmo pelo seu nome e, se chamava, como o conhecia. Estava em Jerusalém havia menos de vinte e quatro horas e ninguém na cidade sabia seu nome, excepto o recepcionista do King David Hotel. Mas aquele homem era impaciente e perguntou de novo: Mo-ree. V. é Mo-ree. Escritora. Você escreve, não é? Mo-ree? Maureen acenou com a cabeça em confirmação, lentamente». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

domingo, 9 de junho de 2019

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Maureen piscou várias vezes. Fechou os olhos com força, por alguns segundos. Sacudiu a cabeça vigorosamente, para clarear a visão, sem saber a princípio onde se encontrava»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Uma ilha solitária e serena no meio do caos, era uma das poucas mulheres na multidão..., mas não era isso que a tornava tão diferente. Era o seu comportamento, uma atitude imponente, que a distinguia como uma rainha, apesar da camada de poeira que lhe cobria as mãos e os pés. Estava um pouco desgrenhada, os cabelos castanho-avermelhados lustrosos presos parcialmente por baixo de um véu escarlate, que cobria a metade do rosto. Maureen compreendeu, num impulso instintivo, que precisava alcançar essa mulher, precisava ligar-lhe a ela, tocá-la, falar com ela. Mas a multidão agitada a impedia, e ela se deslocava nos movimentos em câmera-lenta de um sonho. Enquanto continuava a avançar com dificuldade na direcção da mulher, Maureen ficou impressionada com a beleza angustiada do seu rosto. Tinha feições delicadas e refinadas. Mas foram os olhos que continuaram a assediar Maureen muito depois que a visão acabou. Eram olhos enormes e brilhantes, com lágrimas não derramadas, em algum ponto no espectro de cores entre o âmbar e o verde, com uma luminosidade castanho-clara extraordinária que reflectia uma infinita sabedoria e uma tristeza insuportável, numa mistura comovente. Os olhos da mulher, profundos e envolventes, encontraram-se com os de Maureen por um momento breve e interminável..., e aqueles olhos surpreendentes transmitiram uma súplica de total e absoluto desespero.
V. tem de me ajudar.
Maureen sabia que a súplica lhe era dirigida. Ficou em transe, paralisada, enquanto a mulher a fitava. O momento foi rompido quando a mulher baixou os olhos para uma menina que a puxava pela mão, com urgência. A criança também a fitou, com aqueles enormes olhos claros que herdara da mãe. Por trás dela havia um menino, mais velho e com olhos mais escuros que a menina, mas obviamente filho daquela mulher. Maureen compreendeu, naquele momento inexplicável, que era a única pessoa que podia ajudar a estranha majestosa e sofredora e seus filhos. Um fluxo de intensa confusão, acompanhado por alguma coisa muito parecida com pesar, sucedeu-se a essa compreensão. Depois, a multidão tornou a arremeter, engolfando Maureen num mar de suor e desespero.

Maureen piscou várias vezes. Fechou os olhos com força, por alguns segundos. Sacudiu a cabeça vigorosamente, para clarear a visão, sem saber a princípio onde se encontrava. Um olhar para o jeans, a mochila de microfibra e o ténis Nike proporcionou-lhe a garantia de que se encontrava à beira do século XXI. Ao seu redor, a agitação da Cidade Velha também era intensa, mas as pessoas vestiam roupas contemporâneas e os sons agora eram diferentes. A rádio Jordão transmitia uma canção americana, seria Losing My Religion, do REM?, de uma loja no outro lado da rua. Um adolescente palestino tamborilava o ritmo no balcão. Sorriu para ela, sem perder a marcação. Maureen levantou-se e tentou livrar-se da visão..., se é que fora mesmo isso. Não tinha certeza do que fora nem podia permitir pensar a respeito. A sua estada em Jerusalém era curta e tinha dois mil anos de cenários para visitar. Accionou a disciplina de jornalista e a experiência da vida inteira de controle das suas emoções. Tratou de arquivar a visão em assuntos a serem pesquisados, para análise posterior, e recomeçou a andar». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

quinta-feira, 23 de março de 2017

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Foi lançada abruptamente no meio de uma multidão. O caos reinava ao seu redor. Havia muitos gritos e empurrões»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Talvez porque a jovialidade tivesse voltado ao tom de Mahmoud e ela se sentisse menos pressionada ou talvez fosse a atracção pelo padrão antigo e inexplicado. Alguma coisa, no entanto, fez com que Maureen enfiasse o disco de cobre no dedo anular direito. Coube perfeitamente. Mahmoud balançou a cabeça, sério de novo, quase sussurrando para si mesmo: como se tivesse sido feito para a senhora. Maureen ergueu o anel para a luz, olhando para a mão. Não consigo desviar os olhos. Isso acontece porque deve ficar com o anel. Maureen fitou-o, desconfiada, sentindo a iminência de uma oferta de venda. Mahmoud tinha mais classe que os vendedores das ruas, mas, de qualquer forma, era um mercador. Pensei que houvesse dito que não está à venda. Ela fez menção de tirar o anel, ao que Mahmoud protestou com veemência, erguendo as mãos. Não. Por favor. Está bem. É neste ponto que começamos a negociar, não é mesmo? Quanto? Mahmoud pareceu ofendido por um momento, antes de responder: não está entendendo. Esse anel me foi confiado até que encontrasse a mão certa. A mão para a qual foi feito. Descubro agora que é a sua mão. Não posso vendê-lo à senhora porque já é seu. Maureen olhou para o anel, depois para Mahmoud, perplexa: eu é que não entendo. Mahmoud ofereceu um sorriso solene. Encaminhou-se para a porta da frente da loja. Não pode entender. Mas um dia vai compreender. Por enquanto, apenas fique com o anel. É um presente. Eu não poderia... Pode e ficará. Deve ficar. Se não o fizer, eu terei fracassado. E não vai querer esse peso na consciência, é claro.
Maureen sacudiu a cabeça, cada vez mais aturdida, enquanto o seguia até à porta. Parou ali. Não sei o que dizer ou como agradecer. Não precisa. Mas tem de ir agora. Os mistérios de Jerusalém estão à sua espera. Mahmoud segurou a porta aberta. Maureen saiu e agradeceu de novo. Adeus, Madona..., sussurrou Mahmoud, enquanto ela se afastava. Maureen parou no mesmo instante. Virou-se: desculpe, mas o que foi mesmo que disse? Mahmoud tornou a exibir um sorriso enigmático. Eu disse adeus, minha cara. Ele acenou em despedida. Maureen retribuiu o gesto e tornou a se afastar, ao sol forte do Médio Oriente. Maureen voltou à Via Dolorosa, onde encontrou a Oitava Estação, exactamente como Mahmoud indicara. Mas estava inquieta e incapaz de se concentrar, sentia-se estranha depois do encontro com Mahmoud. Ao continuar no seu caminho, a sensação de vertigem que já experimentara antes voltou, desta vez mais forte, a ponto de desorientá-la. Era o seu primeiro dia em Jerusalém e com certeza sofria do cansaço da viagem e da alteração dos fusos horários. O voo em que chegara de Los Angeles na noite anterior fora longo e cansativo e ela quase não dormira. Fosse uma combinação de calor, exaustão e fome ou alguma coisa mais inexplicável, o que aconteceu em seguida estava completamente fora do território da experiência de Maureen. Ao encontrar um banco de pedra, ela se sentou para descansar um pouco. Balançou com outra onda de vertigem inesperada, enquanto um clarão ofuscante emanava do sol implacável, transportando os seus pensamentos.
Foi lançada abruptamente no meio de uma multidão. O caos reinava ao seu redor. Havia muitos gritos e empurrões, uma intensa comoção por todos os lados. Maureen conservava o suficiente da mentalidade moderna para perceber que as pessoas enxameando ao seu redor vestiam roupas feitas em tear manual. Muitas estavam descalças, enquanto outras usavam uma versão tosca de sandália, como ela notou quando alguém pisou o seu pé. Quase todos eram homens, barbudos e sujos. O sol omnipresente do início da tarde castigava-os, misturando suor com poeira nos rostos furiosos e aflitos ao seu redor. Ela estava na beira de uma rua estreita. A multidão à frente começava a empurrar, com um vigor crescente. Uma brecha natural surgiu, com um pequeno grupo avançando lentamente pelo caminho. A multidão parecia seguir esse grupo. Quando a massa em movimento chegou mais perto, Maureen viu a mulher pela primeira vez». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Uma escolha muito interessante, comentou Mahmoud. A sua atitude jovial mudara. Estava agora intenso e sério, observando Maureen»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Maureen acenou com o guia, embaraçada. Estou procurando a Oitava Estação. O mapa mostra... Mahmoud descartou o livro, com uma risada. A Oitava Estação. Jesus se encontra com as mulheres santas de Jerusalém. Fica aqui perto, logo depois da esquina. Ele apontou. O local é assinalado por uma cruz bem em cima do muro de pedra, mas tem de olhar com muito cuidado. Mahmoud fitou Maureen atentamente por um momento, antes de acrescentar: é como tudo em Jerusalém. Tem de olhar com muita atenção para ver o que é. Maureen observou seus gestos, até ter a certeza de que compreendia a orientação. Sorriu, agradeceu e virou-se para sair. Mas parou de repente, quando alguma coisa numa prateleira próxima atraiu sua atenção. A loja de Mahmoud era um dos estabelecimentos mais sofisticados de Jerusalém. Vendia antiguidades autenticadas, como lampiões do tempo de Cristo ou moedas com a efígie de Pôncio Pilatos. Um delicado tremeluzir de cores passando pela vitrine deixou-a fascinada. São jóias feitas com fragmentos de vidros romanos explicou Mahmoud, enquanto Maureen se aproximava de um mostruário com jóias de prata e ouro com mosaicos coloridos. São deslumbrantes, murmurou Maureen. Ela pegou um pendant de prata. Prismas de cor projectaram-se pela sala, enquanto ela suspendia a jóia para a luz, iluminando a sua imaginação de escritora. Qual seria a história que este pedaço de vidro poderia contar? Quem sabe o que foi outrora? Mahmoud encolheu os ombros. Um vidro de perfume? Um pote de especiarias? Um vaso para rosas ou lírios?
É espantoso pensar que há dois mil anos era um objecto do quotidiano na casa de alguém. Uma perspectiva fascinante. Maureen resolveu examinar mais atentamente a loja e as coisas que oferecia. Ficou impressionada com a qualidade dos itens e a beleza dos mostruários. Isto tem mesmo dois mil anos? Claro. E algumas das outras peças à venda são ainda mais antigas. Maureen balançou a cabeça. Antiguidades como estas não deveriam pertencer a um museu? Mahmoud riu, um som exuberante e efusivo. Minha cara, a cidade de Jerusalém inteira é um museu. Não se pode abrir um buraco no seu jardim sem encontrar alguma coisa muito antiga. A maior parte dos objectos valiosos vai para colecções importantes. Mas nem tudo. Maureen foi até um balcão de vidro, onde havia jóias antigas de cobre marchetado e oxidado. Sua atenção foi atraída por um anel com um disco do tamanho de uma moeda pequena. Mahmoud acompanhou o seu olhar, tirou o anel do mostruário e o estendeu para ela. Um raio de sol, passando pela vitrine, incidiu sobre a peça e, iluminando a sua base redonda, realçou um padrão de nove pontos em torno de um círculo central.
Uma escolha muito interessante, comentou Mahmoud. A sua atitude jovial mudara. Estava agora intenso e sério, observando Maureen atentamente, enquanto ela o interrogava a respeito do anel. Quão antigo é este anel? É difícil dizer. Meus peritos dizem que era bizantino, provavelmente do século VI ou VII, talvez mais antigo. Maureen examinou o padrão dos círculos. Este padrão parece..., familiar. Tenho a impressão de que já o vi antes. Sabe se simboliza alguma coisa? A intensidade de Mahmoud relaxou. Não posso dizer com certeza o que um artesão pretendia criar há mil e quinhentos anos. Mas me garantiram que era o anel de um cosmólogo. Um cosmólogo? Alguém que compreende a relação entre a Terra e o cosmo. Como acima é abaixo. E devo dizer que me lembrou, na primeira vez em que o vi, dos planetas girando em torno do sol. Maureen contou os pontos em voz alta. ...sete, oito, nove. Mas não podiam saber que havia nove planetas naquele tempo ou que o sol era o centro do sistema solar. Isto não é possível, não é mesmo? Não podemos presumir que sabemos o que os antigos percebiam. Mahmoud encolheu os ombros. Experimente o anel. Maureen, notando subitamente a conversa de um vendedor, devolveu o anel. Não, obrigada. É muito bonito, mas eu estava apenas curiosa. E prometi a mim mesma que não gastaria dinheiro hoje. Não tem problema. Mahmoud recusou-se a pegar o anel de volta, numa atitude firme. Porque o anel não está à venda. Não? Não. Muitas pessoas já quiseram comprar esse anel. Eu me recuso a vendê-lo. Sinta-se à vontade para experimentar. Apenas por diversão». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «A intensidade do calor, apesar da brisa que soprava, não combinava com a época do ano, o final do Verão. Ela protegeu-se com o guia, da claridade forte, consultou-o e olhou ao redor…»

jdact e wikipedia

Marselha. Setembro de 1997
«(…) O corpo estava no mar havia bastante tempo, sacudido pelas ondas e roído pelos famintos habitantes das profundezas. Os investigadores ficaram tão impressionados com as precárias condições do cadáver que atribuíram pouco significado ao dedo desaparecido numa das mãos. Uma autópsia, arquivada mais tarde pela burocracia, ou talvez por algo mais, limitou-se a registar que o dedo indicador da mão direita fora deceptado.

Jerusalém
A antiga e movimentada Cidade Velha de Jerusalém fervilhava com a frenética actividade de uma tarde de sexta-feira. A história impregnava o ar seco, enquanto os fiéis se apressavam a caminho de suas casas de culto, em preparativos para os respectivos sabás. Os cristãos vagueavam pela Via Dolorosa, a Via Sacra, uma série de ruas sinuosas, calçadas com pedras, que fora o caminho para a crucificação. Fora por ali que um Jesus Cristo açoitado e sangrando, suportando no ombro uma pesada cruz, seguira para seu destino divino, no alto do Gólgota. Naquela tarde de Outono, a escritora americana Maureen Paschal não parecia diferente dos outros peregrinos, que acorriam dos cantos mais distantes e variados do mundo. A brisa inebriante de Setembro misturava o aroma de shwarma, o prato de galinha desossada crepitante, com os cheiros de óleos exóticos que exalavam dos mercados antigos. Maureen circulava pelo impacto sensorial que era Israel, com um guia de viagem de uma organização cristã, comprado pela Internet. O guia detalhava a Via Sacra, com mapas e instruções para encontrar as catorze estações do caminho de Cristo. Quer um rosário? É madeira do Monte das Oliveiras. Precisa de um guia? Nunca se vai perder. E mostrarei tudo que quiser. Como a maioria das ocidentais, ela era obrigada a se esquivar dos avanços indesejáveis dos mercadores das ruas de Jerusalém. Alguns eram insistentes em seus esforços para oferecer mercadorias e serviços. Outros apenas sentiam-se atraídos pela mulher pequena, de cabelos ruivos compridos e pele clara, contraste singular naquela parte do mundo. Maureen repelia seus perseguidores com um Não, obrigada polido, mas firme. Depois, ela desviava o olhar e se afastava. Seu primo Peter, especializado em estudos do Médio Oriente, preparara-a para a cultura da Cidade Velha. Maureen era meticulosa em seu trabalho e estudara a cultura de Jerusalém com todo o cuidado. Até agora, estava dando resultado. Maureen era capaz de desviar sua concentração o mínimo, enquanto se detinha na pesquisa, observando e anotando detalhes no caderninho de capa de couro. Ficara comovida até as lágrimas pela intensidade e beleza da Capela da Flagelação franciscana, erguida há oitocentos anos no lugar em que Jesus sofrera as vergastadas. Uma reacção emocional profunda e inesperada, já que Maureen não fora a Jerusalém como peregrina, mas como observadora investigativa, uma escritora em busca do cenário histórico acurado para a sua história. Ao procurar uma compreensão maior dos acontecimentos da Sexta-feira da Paixão, Maureen abordara a pesquisa com a cabeça, não com o coração. Visitou o Convento das Irmãs de Sion, antes de passar para a vizinha Capela da Condenação, o lendário local em que Jesus recebera a cruz, depois da sentença de crucificação proferida por Pôncio Pilatos. Mais uma vez, o inesperado aperto na garganta foi acompanhado por um sufocante sentimento de angústia, enquanto percorria o prédio. Esculturas em baixo relevo, em tamanho natural, ilustravam os eventos de uma manhã terrível, dois mil anos antes. Maureen ficou imóvel, paralisada, por uma cena vivida de humanidade atormentada: um discípulo que tentava proteger Maria, a Mãe de Jesus, poupando-a da visão do filho carregando a cruz. Lágrimas arderam no fundo dos seus olhos enquanto contemplava a imagem. Era a primeira vez na vida em que pensava naquelas personagens históricos como pessoas reais, seres humanos de carne e osso, sofrendo por uma fatalidade quase inconcebivelmente dolorosa. Como se sentisse um pouco tonta, Maureen estendeu a mão para as pedras frias da parede antiga, a fim de se firmar. Fez uma pausa para se concentrar, antes de retomar as anotações sobre as pinturas e esculturas. Continuou em seu caminho, mas as ruas da Cidade Velha eram um autêntico labirinto. Podiam ser enganadoras, até mesmo para quem tinha um mapa meticuloso. Os pontos de referência eram quase sempre antigos, desgastados pelo tempo, e podiam passar despercebidos, com a maior facilidade, por pessoas que não conheciam seu paradeiro. Maureen esboçou uma imprecação silenciosa ao compreender que se perdera de novo. Parou ao abrigo do vão de porta de uma loja, evitando o sol directo. A intensidade do calor, apesar da brisa que soprava, não combinava com a época do ano, o final do Verão. Ela protegeu-se com o guia, da claridade forte, consultou-o e olhou ao redor, tentando-se orientar. A Oitava Estação da Cruz deve ser em algum lugar aqui por perto, murmurou. Maureen tinha um interesse específico pelo local, na medida em que seu trabalho concentrava-se na história relacionada com as mulheres. Numa nova consulta ao guia, ela leu a passagem dos evangelhos relacionada com a Oitava Estação: Muitas pessoas o seguiam, inclusive mulheres que lamentavam e choravam por ele. Jesus disse: não chorem por mim, filhas de Jerusalém. Chorem por si mesmas e por suas crianças. Maureen foi surpreendida por uma batida firme na vitrine, por trás dela. Virou-se, esperando deparar com o olhar de um proprietário furioso por estar bloqueando a entrada da loja. O rosto que a fitava do outro lado, entretanto, exibia uma expressão radiante. Um palestino de meia-idade, vestido de maneira impecável, abriu a porta da loja de antiguidades fazendo sinal para Maureen entrar. Quando ele falou, foi num inglês correcto, temperado pelo sotaque: entre, por favor. Seja bem-vinda. Sou Mahmoud. Está perdida?» In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT