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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A Cultura Integral do Indivíduo. Problema Central do Nosso Tempo. 1933. Bento de Jesus Caraça. «À falência completa no campo moral, vem juntar-se, como é do conhecimento de todos, a falência total no campo económico»

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«(…) Contra esse regime social, levantam-se de todos os lados os protestos e as flagelações; vamos ver dois exemplos. Ouçamos, em primeiro lugar, o que a este respeito diz Harold Laski, professor da Universidade de Londres, no seu livro Gramática da Política: podem resumir-se brevemente os resultados deste sistema. A produção efectua-se com desperdícios e sem plano conveniente. As comodidades, os serviços necessários à vida da comunidade, não são repartidos de modo a satisfazer as necessidades ou a produzir o máximo de utilidade social. Construímos cinemas sumptuosos e temos falta de casas de habitação. Gastamos em navios de guerra o dinheiro necessário para as escolas. Os ricos podem gastar num só jantar o salário semanal de um operário, enquanto o operário não pode enviar à escola os filhos insuficientemente alimentados. Uma rapariga rica gastará no seu primeiro vestido de baile mais que o salário anual dos trabalhadores que o fizeram. Em suma, produzimos comodidades inúteis e distribuímo-las sem atender às necessidades sociais. Mantemos num parasitismo ocioso uma vasta classe cujos gostos exigem que capital e trabalho concordem em satisfazer necessidades sem nenhuma relação com os interesses humanos. E esta classe não se põe à margem da comunidade. Como tem o poder de tornar as suas exigências eficazes, estimula a imitação servil daqueles que procuram misturar-se a ela. A riqueza transforma-se em padrão de medida do mérito; e a recompensa da riqueza é a capacidade de fixar os níveis daqueles que procuram adquiri-la. Esses níveis são fixados, não para satisfação de um fim moral, mas do desejo de ser rico. Os homens podem começar a adquirir bens para assegurar a sua existência, mas continuam a adquirir para alcançar a distinção que lhes confere a propriedade. Ela satisfaz a sua vaidade e o seu amor do poder; permite-lhes harmonizar a vontade da sociedade com a sua. Resulta daqui o que pode logicamente esperar-se de uma tal ambiência. Produzem-se bens e serviços, não para os utilizar, mas para tirar da sua produção elementos de posse. Produz-se para satisfazer, não exigências legítimas, mas aquelas que são susceptíveis de render. Aniquilam-se as fontes naturais de riqueza. Falsificam-se as comodidades. Lançam-se negócios fraudulentos. Corrompem-se os legisladores. Falsificam-se as fontes do saber. Realizam-se alianças artificiais para aumentar o preço das comodidades. Exploram-se, com uma crueza por vezes terrível, as raças atrasadas da humanidade...
Isto diz o professor Laski. Demos agora a palavra a Oliveira Salazar, o qual, num discurso recentemente pronunciado em Lisboa, menos violento nos termos, não formulou, no entanto, uma crítica menos condenatória. São suas estas palavras, que transcrevo do Século de 17 de Março de 1933: nós adulterámos o conceito de riqueza, desprendemo-la do seu fim próprio de sustentar com dignidade a vida humana, fizemos dela uma categoria independente que nada tem que ver com o interesse colectivo nem com a moral e supusemos que podia ser finalidade dos indivíduos, dos Estados ou das Nações, amontoar bens sem utilidade social, sem regras de justiça na sua aquisição e no seu uso. Nós adulterámos a noção de trabalho e a pessoa do trabalhador... Pois muito bem. É para sustentar isto que se cria e desenvolve, por toda a parte, um aparelho repressivo de cuja actuação brutal todos os dias temos novas afirmações. À falência completa no campo moral, vem juntar-se, como é do conhecimento de todos, a falência total no campo económico. A proletarização de vastas camadas da população de todo o mundo, a destruição dos meios de consumo, que a todo o momento se realiza, no meio de povos a quem falta o indispensável, a existência de dezenas de milhões de desempregados, são factos que falam bem eloquentemente por si e dispensam, por isso, comentários.
Nunca se viu um anquilosamento tão completo e tão rápido de uma classe dirigente e nunca se viu também um tão grande apego ao poder. É que a crise atinge os fundamentos da orgânica. Por isso, como dizia acima, a luta é mais crua do que nunca. É também mais ampla do que nunca, precisamente porque os alicerces estão atingidos. Há alguns séculos, os destinos de um agrupamento social jogavam-se no próprio local em que o agrupamento vivia. Hoje, o futuro de nós, portugueses, joga-se tanto em Portugal, como em Nova York ou nas planícies do norte da China. O desenvolvimento do nacionalismo foi a obra do século XIX, o do internacionalismo será a do século XX. Estas palavras, proferidas há pouco na Sorbonne por Lord Lytton que, por encargo da Sociedade das Nações, presidiu à comissão que foi à China investigar das causas do conflito sino-japonês, merecem ser meditadas pelos adeptos do nacionalismo. Não por aqueles para quem a pátria é um balcão de compra e venda, esses não precisam de pensar, nem têm tempo para isso; mas pelos que, nem estarem num campo errado, merecem menos consideração e respeito, desde que nele militem com boa fé e desinteresse. Poucas questões há que tenham sido tão mal postas como esta do nacionalismo e isso não admira, pois foram sempre as águas turvas o ambiente propício para as manobras de certos pescadores... Se ser nacionalista é, reconhecendo a existência de grupos étnicos com características próprias, trabalhar pelo desenvolvimento desses grupos (nações), defender e propulsionar a autonomia das suas instituições de vida e cultura, num largo espírito de colaboração com os outros grupos étnicos, como pode deixar de ser-se abertamente, francamente, nacionalistas?» In Bento de Jesus Caraça, 1933, União Cultural Mocidade Livre, Cadernos da Seara Nova, 1939.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Cultura Integral do Indivíduo. Problema Central do Nosso Tempo. 1933. Bento de Jesus Caraça. «Por que razão o estado social saído da revolução francesa não garantiu até hoje essa identificação da individualidade com a colectividade?»

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«(…) A marcha para um estado superior da orgânica, para a supressão do antagonismo entre o individual e o colectivo é permanente, simplesmente o caminho seguido não é direito e fácil, é antes um caminho tortuoso, sempre ascendente, la route en lacets qui monte de que falava Renan. Que essa aquisição de um estado superior de unidade só pode fazer-se pela luta e através de contradições, é lei fundamental da vida; não há que pretender, fora da realidade, modificá-la, mas sim que interpretá-la, compreendê-la e actuar em consequência. Cada fase da luta é um passo novo dado no caminho para a unidade do individual e do colectivo; ela interessa cada vez mais as camadas profundas, que assim surgem progressivamente para a luz, se arrancam a si mesmas da treva e conquistam um lugar ao sol. Na época actual, estamos vivendo precisamente uma fase dessa luta, a mais ampla e mais crua de todos os tempos. O que é que lhe dá essa amplitude e essa crueza até hoje ainda não atingidas? Para o vermos, temos que recuar um pouco. Pelo final do século XV, começa a aparecer no mundo ocidental uma classe cuja intervenção nas relações sociais se torna cada vez mais frequente e mais vigorosa. Serve-lhe de suporte económico a extensão crescente das relações comerciais com outras partes do mundo, a aparição de inventos importantes, como a imprensa, o desenvolvimento das ciências de observação que, tendo tido em Rogério Bacon o seu precursor, deviam contar nos séculos XVI e XVII com os nomes brilhantes de Leonardo da Vinci, Copérnico, Kepler e Galileu.
Durante estes séculos e os seguintes, o peso dessa classe nova não cessou de aumentar e a luta contra a então classe detentora do poder foi crescendo em intensidade. Essa luta feriu-se em primeiro lugar contra a Igreja que, omnipotente durante toda a Idade Média, estava no entanto a braços com uma grave crise interior e via escaparem-lhe lentamente das mãos as alavancas mercê das quais até aí desfrutara os benefícios de uma hegemonia material e espiritual. Luta cruenta foi essa, a de um organismo corrompido que queria continuar a sobreviver-se, luta a que não faltaram, ao lado de guerras sangrentas, os episódios mais dramáticos, como o suplício de Giordano Bruno e o processo monstruoso movido a Galileu. Alcançada porém a vitória da concepção laica do Estado e dissipada em Westfália a esperança de continuação da soberania papal, pelo divórcio do Sacerdócio e do Império, pareceria que a nova classe deveria definitivamente ascender à direcção da sociedade, impondo uma ordem nova. Tal não se deu porém. O conflito religioso, por maior acuidade que tivesse revestido, não interessava os alicerces do edifício; esses eram trabalhados por outras correntes e a luta ia continuar noutro plano, o político-económico.
Vemos assim aparecer, na segunda metade do século XVII, várias concepções quanto à natureza e legitimidade do Estado, concepções que oscilavam entre dois pólos extremos: a do Estado justificado na medida em que assegura e promove a defesa da liberdade individual e propicia as condições de uma existência racional, única verdadeiramente humana, Espinosa; a do Estado consubstanciado com uma pessoa sagrada, cuja actuação tem um só controlo, o da sua própria consciência, inspirada directamente por Deus, único a quem o soberano tem que dar contas, Bossuet. Triunfou momentaneamente a tese de Bossuet, na pessoa de Luís XIV; a de Espinosa deveria esperar pelo século XVIII para que lhe fosse dada uma realização parcial na grande transformação que se avizinhava. Por várias razões, que seria longo enumerar aqui, foi a França o ponto nevrálgico das contradições e conflitos dessa época; lá se concentrou a actividade dos grandes individualistas revolucionários, obreiros espirituais da revolução que havia de abrir uma era nova na História.
A nova classe, que vimos começar a manifestar-se alguns séculos antes, inscreveu na sua bandeira as reivindicações fundamentais formuladas por esses homens, e assim tornou possível um novo acordo, numa base ampla, entre o individual e o colectivo. Quando esses homens reclamavam o reconhecimento dos direitos do indivíduo, não faziam mais que pretender subtrair a colectividade ao poderio de uma classe restrita e, portanto, reforçando a personalidade individual, dar, por isso mesmo, uma força nova ao agregado. O grande erro dos individualistas de hoje é o conservarem-se agarrados à letra das fórmulas, sem notarem que os termos têm agora um sentido novo que lhe é emprestado pela diferença fundamental das circunstâncias. Então, por não haver liberdade reconhecida expressamente, os interesses gerais exigiam a luta por esse reconhecimento; hoje, em que dela se usou e abusou criminosamente, os mesmos interesses gerais exigem uma limitação, não do uso mas do abuso. Desenvolvimento e reforçamento da personalidade, sim, tarefa essencial, mas que eles sejam permitidos e propiciados a todos. Por que razão o estado social saído da revolução francesa não garantiu até hoje essa identificação da individualidade com a colectividade?
A burguesia, após a sua ascensão ao poder, não resistiu ao anquilosamento que vimos atrás ser característica essencial das classes dirigentes. Depressa cessou a harmonia dos seus interesses com os interesses gerais. Os seus fundamentos económicos, livre concorrência e propriedade privada, cedo se tornaram, pela acção implacável da evolução acelerada do século XIX, em armas terríveis que ela brandiu em seu exclusivo proveito. A civilização de base capitalista tornou inoperantes os princípios de liberdade individual e de igualdade, para não falar já no da fraternidade que só por sarcasmo se pode pretender que esteja incluído hoje entre as ideias dominantes da governação. Um elemento novo entrou em cena, a máquina, cujo desenvolvimento permitiu, como diz Ayguesparse no seu luminoso estudo sobre Maquinismo e Cultura, uma formidável síntese entre uma classe -a burguesia, e uma doutrina económica, o capitalismo. E essa síntese, que teria sido fecunda se a máquina tivesse sido posta, como devia, ao serviço do homem, tornou-se, pelo contrário, monstruosa, porque produziu, não a emancipação, mas escravização económica do trabalhador. O homem escravo da coisa -eis a grande condenação, no campo moral, do regime social contemporâneo». In Bento de Jesus Caraça, 1933, União Cultural Mocidade Livre, Cadernos da Seara Nova, 1939.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

sábado, 19 de dezembro de 2015

A Cultura Integral do Indivíduo. Problema Central do Nosso Tempo. 1933. Bento de Jesus Caraça. «A vitória de uma ideia revolucionária significa, na época em que se dá, um acomodamento momentaneamente estável, mais perfeito que o anterior, entre as forças em presença»

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«(…) Para que o quadro da diversidade seja completo, não lhe faltam sequer vastas regiões vazias, períodos extensos em que reina a acalmia e onde as sociedades parecem ter encontrado uma posição de equilíbrio fecunda para o progresso espiritual e material. Mas, mesmo nesses períodos de tranquilidade, as forças íntimas que trabalham a estrutura social não estão em repouso. Não é difícil discernir as correntes que carreiam incessantemente os materiais para a nova fase de luta. A agitação do organismo social não é menos viva, simplesmente ela exerce-se em camadas mais fundas, interessando os alicerces e deixando provisoriamente de parte a epiderme. Por isso, em todas as épocas de transformação nas relações sociais se encontram sempre pessoas a quem os acontecimentos surpreendem e que até ao fim negam aquilo que é a própria evidência. Vejamos como se podem caracterizar esses períodos intermédios de acalmia. Após uma grande transformação da orgânica social estabelece-se o equilíbrio entre as forças que a produziram, equilíbrio esse resultante da vitória de uma ideia revolucionária, encarnada por grupos determinados do agregado. O que é que deu a essa ideia um carácter revolucionário e a fez inscrever na bandeira de certos agrupamentos de forças? Se examinarmos a questão de perto, reconheceremos que a estrutura anterior não era já compatível com o estado real da evolução da sociedade. Os interesses dos grupos, castas ou classes, detentores do poder, ou duma sua parcela, encontravam-se em franco e violento antagonismo com os interesses gerais, antagonismo esse revelado, conforme a época considerada, em certo plano da vida social.
Dá-se então o choque, o qual, mais ou menos violento conforme a questão debatida, interessa em maior ou menor grau os fundamentos da estrutura existente, e nesse choque as forças dividem-se em dois campos: o daqueles que querem conservar ou, melhor, fazer sobreviver a si mesmo, um organismo condenado, e o dos que, tomando como lema a nova ideia, pretendem ascender, impondo formas novas. O poder revolucionário duma ideia mede-se portanto pelo grau em que ela interpreta as aspirações gerais, dadas as circunstâncias do momento em que actua. Assim, uma ideia ou teoria que, em dada época, é revolucionária, pode, noutra em que as circunstâncias sejam diferentes, ter perdido por completo esse carácter. Por exemplo, teve carácter revolucionário, no seu tempo, a teoria do direito divino dos reis, quando oposta à soberania divina dos papas, teoria que, mais tarde, não só perdeu essa característica, como até se revestiu duma feição eminentemente reaccionária; foi altamente revolucionária a doutrina individualista dos pensadores liberais do Século XVIII, doutrina que, sob essa forma, é nos nossos dias obstáculo ao progresso e que só deixará de o ser quando compreendida num sentido que as circunstâncias actuais exigem.
Mas não antecipemos, e voltemos ao ponto que no momento nos ocupa. A vitória de uma ideia revolucionária significa, na época em que se dá, um acomodamento momentaneamente estável, mais perfeito que o anterior, entre as forças em presença; significa que se deu um novo passo no sentido de subtrair o colectivo à tirania do individual; sentem-no bem as massas que, nessas épocas de comoção dos fundamentos da sociedade, se lançam, numa explosão de entusiasmo, ao assalto do corpo decrépito e parasitário que sobre elas vive. Mas a sua falta de preparação cultural, o não reconhecimento de si mesmas como um vasto organismo vivo e uno, torna-as incapazes de levar a sua obra mais além da destruição do passado; impossibilita-se de proceder à construção da ordem nova que a sua revolta preparou. E então dá-se, no dia seguinte ao do triunfo, a sua abdicação, num grande gesto de renúncia, essa obra de reconstrução, é um novo grupo, uma nova classe, mas não a colectividade inteira, que a vai empreender sob a égide da bandeira que presidiu à vitória. As novas forças detentoras do poder realizam as reformas indispensáveis, os interesses gerais estão por um momento satisfeitos; numa base mais larga que a passada, concordam o individual e o colectivo, abre-se um período de acalmia, período cuja duração depende da medida em que a nova classe dirigente se conserva fiel aos motivos que originaram o seu advento e também do grau de consciência colectiva das massas.
Passa algum tempo e começa nova diferenciação, os interesses egoístas dos dirigentes sobrepõem-se aos interesses gerais, são novos elementos individuais que começam a exercer opressão sobre a colectividade; aparecem contradições, a massa sente-o e afasta-se intimamente dos que a governam; surge nova ideia ou nova doutrina de antecipação que encarna as aspirações surdas dos que sofrem; tudo recomeça, a situação torna-se revolucionária; de aí à revolução vai um passo. Evitá-la? Só seria possível por uma reacomodação da classe dominante, mas esta é levada insensivelmente, a despeito da evidência e dos avisos até de alguns dos seus membros mais clarividentes ou mais desinteressados, a aferrar-se aos seus privilégios, a defender-se pela força, em vez de se voltar para aqueles princípios que, na sua pureza, a levaram ao triunfo passado. Dá-se assim um anquilosamento da classe dirigente; a doutrina ou teoria, em cujo nome antes lutara e vencera, perde o seu carácter revolucionário, torna-se, primeiro, conservadora, e mais tarde, quando os antagonismos são flagrantes e se trava a luta, reaccionária. Tudo recomeça, disse acima, mas seria vão pretender-se que recomeça exactamente nas mesmas bases. Não; da etapa anterior, alguma coisa, às vezes muito, ficou definitivamente adquirido». In Bento de Jesus Caraça, 1933, União Cultural Mocidade Livre, Cadernos da Seara Nova, 1939.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

A Cultura Integral do Indivíduo. Problema Central do Nosso Tempo. 1933. Bento de Jesus Caraça. «E esse grande corpo, curvado ao peso dos seus donos, segue o seu caminho sem parar, cai aqui, levanta-se além e aspira, aspira sempre a qualquer coisa de melhor»

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«(…) Demoremo-nos por alguns instantes na explanação da ideia contida neste enunciado que, receio muito, corre o perigo de, à primeira vista, vos aparecer como paradoxal. Nos primeiros grupos humanos, em que aquilo que distingue o homem dos outros animais se encontra ainda mal liberto da ganga da irracionalidade primitiva, não há lugar para mais do que para os instintos e sentimentos gregários, num estado de existência em que o indivíduo mal tem consciência de si, fundindo-se no agrupamento de que depende. É só a pouco e pouco que os mais aptos, os mais capazes pela força ou pelas qualidades de observação, se vão elevando acima do grupo, destacando-se dele, impulsionando-o e fazendo-o progredir. O esforço individual aparece assim como indispensável para o progresso do agregado que, sem ele, permaneceria sempre tal qual nasceu, como acontece, por exemplo, com certas associações de animais inferiores que hoje vemos. Mas essa acção do individual sobre o colectivo não tem apenas, infelizmente, a virtude criadora de progresso que lhe acabamos de assinalar. Bem depressa ela se manifesta com outros caracteres que formam o cortejo sinistro do domínio do indivíduo sobre o grupo, o mais capaz só subsidiariamente põe o seu esforço ao serviço do agregado; a sua primeira ideia é servir-se dessa capacidade maior para seu interesse próprio.
E aqui reside o grande drama em que, de todos os tempos, se tem debatido a humanidade, condenada a só poder evolucionar e progredir sob a acção vivificadora e fecunda de alguns dos seus indivíduos, ela vê-se ao mesmo tempo impotente para impedir que esses indivíduos se transformem em seus verdugos. Ela assiste, incapaz de o evitar, à criação das castas que são como outras tantas sanguessugas sobre o seu corpo, sem, ao menos, lhe restar a solução de as eliminar, porque isso equivaleria à sua morte no pântano estéril da incapacidade. Encarada sob este ângulo, a História da Humanidade aparece-nos como uma gigantesca luta, gigantesca no espaço e no tempo, entre o individual e o colectivo. Luta gigantesca, e trágica, e sangrenta, em que transparece um domínio quase permanente do individual sobre o colectivo e, de longe em longe, um estremecimento do grande corpo mortificado, um movimento de revolta, um triunfo efémero do colectivo, que logo cai sob outro ou o mesmo jugo pela sua incapacidade de se reconhecer e dirigir.
E esse grande corpo, curvado ao peso dos seus donos, segue o seu caminho sem parar, cai aqui, levanta-se além e aspira, aspira sempre a qualquer coisa de melhor. Mas esse qualquer coisa é vago e impreciso e, por isso mesmo que o é, leva a todos os desvios e todos os erros, pressurosamente amparados e com cuidado mantidos, precisamente por aqueles, o princípio individual em acção, a quem uma consciência colectiva forte ameaçaria no seu poderio egoísta. E assim acontece que a pobre humanidade, não abdicando da sua aspiração confusa a uma felicidade e unidade superiores e não encontrando em si, no seu corpo chagado, de que alimentar a pureza da sua chama interior, renuncia a si própria e vai procurar fora os elementos que dêem alimento e vida a essa aspiração e pureza. As castas depressa reconhecem quanto esse sentimento de evasão do homem as pode servir e, daquilo que é puro desejo de elevação do espírito, fazem, a breve trecho, a adoração de um ídolo; deformou-se um sentimento, mas enraizou-se mais o poder. Abre-se assim um grande capítulo da História, capítulo que não é, de todos, o menos dramático, o das concepções religiosas. Sobre a terra paira, como uma consequência necessária da luta entre o individual e o colectivo, uma ideia vagabundeante e de encarnações polimorfas, aqui, um deus feroz do deserto, além, uma corte de deuses amáveis de uma península ridente, mais adiante, sobre uma estrutura social absurda, um deus absurdo, infinita bondade e infinito amor criando e regendo um mundo onde existe a malquerença e a injustiça.
A luta entre o indivíduo e a colectividade não se trava sempre no mesmo plano de vida nem com o mesmo grau de amplitude. De época para época, os seus aspectos variam, não porque no fundo a sua essência mude, mas porque as circunstâncias características dessa época lhe fazem tomar uma aparência diversa, as formas da vida são várias e permitem diferentes transposições de plano do mesmo fenómeno fundamental. Uma vez, a revolta elementar e cega dos que têm fome, outra, uma tentativa de unificação política de um grande império, depois, o assalto a esse mesmo império e o seu desmembramento, mais tarde, a reivindicação dos direitos políticos do cidadão, de várias maneiras, e com fisionomias locais e temporais determinadas, nos aparece esse grande movimento que permanece sempre uno na sua significação profunda. Evidentemente, não pretendo com isto afirmar que todo o fenómeno da vida social, no extremo da sua minúcia, seja uma manifestação dessa luta, mas nem por isso nas suas linhas gerais deixa de ser assim, do mesmo modo que a existência de cordilheiras de montanhas não impede a esfericidade da terra». In Bento de Jesus Caraça, 1933, União Cultural Mocidade Livre, Cadernos da Seara Nova, 1939.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

sábado, 8 de novembro de 2014

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «Conhecia como aos dedos da mão o estado a que tinham chegado a instrução e a cultura no Portugal do segundo quartel do século XX, um dos períodos de maior obscurantismo vividos pelo nosso povo. Conhecia-o…»

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Uma Constante - a Cultura
«(…) Está por escrever ainda a memória que nos dê conta do que foi em toda a sua extensão o percurso da acção cultural feito por Bento Caraça ao longo de trinta anos, desde aquele distante 24 de Agosto de 1919 em que integrou os primeiros corpos gerentes da Universidade Popular Portuguesa, nesse dia eleitos, até ao último alento de vida, a partir do qual foi interrompida para sempre a publicação da Biblioteca Cosmos. De todo esse imenso labor cultural (até hoje tão pouco investigado com o pormenor que tanto merece, apesar de mais de meio século já ter passado sobre a sua morte), queremos evocar aqui, embora de relance, as fases essenciais desse percurso. Mas antes devemos sublinhar que tal labor foi levado a cabo nas condições políticas, económicas, sociais e culturais mais adversas, num tempo em que o nosso país contava com mais de 52% de cidadãos maiores de 7 anos que não sabiam ler e a cultura, à boa maneira nazi-fascista, era tratada por quantos usurpavam o poder, do topo à base do aparelho do Estado, como um luxo e coisa mais que suspeita. Num tempo em que os produtores de cultura e aqueles que procuravam difundi-la erem tidos como perigosos agitadores, a quem era imperioso vigiar os passos. Bento Caraça foi um desses (perigosos agitadores) e um dos primeiros que pôs a nu a ignomínia que o analfabetismo representava para o nosso país. Fê-lo com elevação e desassombro na sessão do MUD realizada em 30 de Novembro de 1946, no salão d’A Voz do Operário: Procuremos, portanto, no censo da população, aqueles que possuem ao menos a instrução primária ou a frequentam ainda. Esses constituem apenas 19,5% da população maior de 7 anos. Um índice mais expressivo ainda nos é dado pelo estudo do grupo da população dos maiores de 20 anos. Num total de 4 milhões e 500 mil maiores de 20 anos há apenas 630 mil que possuem instrução primária completa, ou seja uma percentagem de l4%, o que nos dá a taxa de iletrados reais para a casa dos 36%.
Conhecia como aos dedos da mão o estado a que tinham chegado a instrução e a cultura no Portugal do segundo quartel do século XX, um dos períodos de maior obscurantismo vividos pelo nosso povo. Conhecia-o, além do mais, por ter feito parte das comissões oficiais já referidas atrás, nomeadamente daquela que em 1928 foi incumbida do estudo das medidas destinadas a extinguir o analfabetismo. Nada surpreende, pois, que tão insistentemente tenha proclamado a inadiabilidade de todos para viverem o seu partido em relação a este problema crucial, ser por uma viragem total no sentido do nosso apetrechamento cultural e técnico, ou ser pelo prolongamento do abismo de ignorância e obscurantismo em que se estava fazendo mergulhar o povo português. A acção cultural realizada por Bento Caraça foi intensa e multifacetada, mas talvez não seja limitativo dividi-la em três vectores principais, ainda que correndo o risco de deixar na sombra outras intervenções, ignoradas ou ainda mal conhecidas, entre as quais o projecto de uma revista, Litoral; a edição de um suplemento de O Diabo e ainda o lançamento de uma vasta colecção, Temas. São três esses vectores principais: a Universidade Popular Portuguesa, as várias conferências que proferiu ao longo dos anos e, por último, a Biblioteca Cosmos. Na Universidade Popular Portuguesa irá ter uma intervenção relevante, sobretudo a partir de Dezembro de 1928, momento em que assumiu as funções de presidente do Conselho Administrativo. Mas a sua chegada à Universidade Popular acontecera nove anos antes, em Agosto de 1919, quando foi eleito para os primeiros corpos gerentes da instituição. Muito jovem ainda, recém-chegado ao Instituto Superior de Comércio, Caraça subiu ao modesto 1.º andar da Rua Particular à Rua Almeida e Sousa (onde a universidade Popular tinha a sua sede), pela mão do seu antigo reitor do Liceu Pedro Nunes, A. J. Sá Oliveira e de A. A. Ferreira Macedo, professor do mesmo liceu. Vogal efectivo do Conselho Administrativo, pouco se conhece, no entanto, desta primeira passagem de Bento Caraça pela vida quotidiana da UPP, nem as tarefas que teria a seu cargo, nem tão-pouco as suas intervenções nas iniciativas por ela promovidas. Dessa época apenas nos ficou a notícia de uma conferência que aí fez em 1922, Comércio e Finânças, provavelmente aquela com que iniciou o seu percurso de conferencista. Infelizmente, dela restou somente o sumário, impresso em folha solta e encontrado no seu espólio». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

domingo, 22 de dezembro de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida»

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«(…) Se nos recordarmos da afirmação tão firme por si feita um ano atrás, precisamente no dia 11 de Novembro de 1932 e no semanário Liberdade, de que nos momentos então vividos era a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição, sem esforço se verá que ele não só havia escolhido há muito o seu lugar na contenda, como também não perdera tempo a passar das palavras à acção. Certo de que a liberdade, a ciência e a cultura não sobrevivem nem se desenvolvem sob o império da guerra, corajosamente tomou o seu posto na barricada. O Globo surgiu num dos momentos mais dramáticos da História europeia e do nosso país, quando Hitler já chegara ao poder e tinha encenado a grande farsa do incêndio do Reichstag, acelerando a descida aos infernos, de que nos fala Bento Caraça. Na mesma altura, em Portugal, o fascismo salazarista consolidava o seu domínio, plebiscitava fraudulentamente uma nova constituição política e intensificava a repressão sobre o movimento operário e sindical, que a breve trecho iria destroçar com a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional e a fascização dos sindicatos.
É conhecido o texto publicado na última página do primeiro número do jornal, a sua declaração de princípios, a nosso ver saída da pena de Bento Caraça. O que até agora se ignorava é o texto intitulado Linha Geral, encontrado no espólio. Foi certamente o documento original definidor da linha de orientação aprovada pelo colectivo do jornal. Por razões que uma simples leitura torna óbvias, jamais foi divulgado, muito embora a declaração de princípios que foi publicada se tenha inspirado no texto Linha Geral, depois de o expurgar, claro está, das inconveniências que a censura veria com maus olhos e de lhe ter aprimorado a forma. Ao evocar-se a participação de Bento Caraça no amplo movimento internacional contra a guerra e o fascismo na Europa, não é possível deixar no esquecimento a conferência A Cultura Integral do IndivíduoProblema Central do Nosso Tempo, um dos marcos mais significativos do seu envolvimento nessa luta. Proferida em Maio de 1933, na Universidade Popular Portuguesa, a convite da novel União Cultural Mocidade Livre, a conferência antecedeu em alguns meses o lançamento do Globo, sendo proferida perante uma assistência predominantemente juvenil, perturbada mas ansiosa por compreender o curso inquietante dos acontecimentos políticos, económicos e sociais que sacudiam o mundo dos seus dias. Perante esses jovens, numa análise clara e objectiva, Bento Caraça traçou as linhas gerais da evolução do mundo ocidental nos últimos tempos, a matriz dos problemas e das inquietações então vividas, sublinhando que o que o mundo for amanhã, é o esforço de todos nós que o determinará. Há que resolver os problemas que estão postos à nossa geração. Para tal, era indispensável, antes de tudo, conhecer quais são esses problemas, quais as soluções que importa dar-lhes, saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos. E mais adiante alertou: O que estamos actualmente vivendo e sofrendo não é apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida.
A conferência, uma análise invulgarmente lúcida sobre os dias tormentosos da década de 30, representou para os jovens que então a escutaram uma mensagem de estímulo e de esperança. E não é muita ousadia admitir que essa mensagem permanece viva e actual, em muitas das suas páginas». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Homem e o Livro. História dos Livros. M. Iline. «Este primeiro livro não se parece nada com os dos nossos dias. Tinha pés e mãos e não estava arrumado numa prateleira: sabia falar e até cantar. Enfim, ‘era um livro vivo!’ “Era um homem”»

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O Livro Vivo
«Como seria o primeiro livro? Seria impresso ou escrito à mão? Seria de papel ou de qualquer outro material? E se, por acaso, ainda existe, em que biblioteca se poderá encontrar?
Conta-se que houve uma vez um homem suficientemente ingénuo para querer procurar este primeiro livro em todas as bibliotecas do mundo. Passava dias inteiros a rebuscar em montes de livros carcomidos e amarelecidos pelo tempo. Já tinha o fato e o calçado cobertos duma espessa camada de pó, como se acabasse de chegar duma longa viagem por uma estrada poeirenta. Por fim, caiu duma daquelas grandes escadas que se apoiam nas prateleiras das bibliotecas, e morreu. Mas, ainda que ele tivesse vivido mais cem anos, as suas pesquisas não teriam tido resultado. O primeiro livro já tinha aparecido na terra muitos milhares de anos antes de ele nascer.
Este primeiro livro não se parece nada com os dos nossos dias. Tinha pés e mãos e não estava arrumado numa prateleira: sabia falar e até cantar. Enfim, era um livro vivo! Era um homem. Nesses tempos remotos, quando os homens não sabiam ler nem escrever, quando não existiam nem livros, nem papel, nem tinta, nem caneta, as tradições dos antepassados, as leis e as crenças não se conservavam em prateleiras mas na memória dos homens. Estes morriam, mas as tradições continuavam vivas e transmitiam-se de pais para filhos. Ao passarem de boca em boca, as histórias modificavam-se um tanto: acrescentavam-se umas coisas e esqueciam-se outras. O tempo polia-as como a água dum rio pule as pedras. A lenda dum bom guerreiro tornava-se a história dum gigante que não temia nem o dardo nem as setas, que corria pelos bosques como um lobo e dominava as alturas como uma águia.
Nos recantos ignorados deste mundo há ainda uns velhotes que contam estas histórias de que nunca poderíamos encontrar a origem escrita; chamam a essas histórias contos de fadas ou lendas. Há muito tempo, na Grécia, costumava-se cantar a Ilíada e a Odisseia, que eram as histórias das guerras havidas entre gregos e troianos. E passaram séculos antes que se escrevesse o que se cantava. Um cantor, ou aedo, como lhe chamavam os gregos, era sempre bem recebido numa festa.
Imaginemo-lo sentado, encostado a uma coluna larga, com a lira pendurada por cima dele. O banquete está quase no fim, estão vazias as grandes travessas de carne e vazios estão também os cestos de pão. Acabaram de retirar as taças de ouro de duas asas; os convidados estão satisfeitos e esperam a música. O aedo pega na lira, tange as cordas e começa a longa história do astucioso Ulisses e do valoroso Aquiles. Os cantos dos aedos eram lindos, mas os nossos livros são muito mais agradáveis porque, com alguns escudos, podemos comprar uma edição da Ilíada que se traz facilmente na algibeira. E este livrinho não nos pede nada, nem de comer nem de beber, e nunca está doente nem morre. E isto faz-me lembrar uma história: História de uma Biblioteca Viva.
Era uma vez, em Roma, um comerciante rico que se chamava Itelius. Contam-se maravilhas das suas fabulosas riquezas. O seu palácio era tão vasto que nele teriam cabido todos os habitantes da cidade. Reunia todos os dias, à mesa, trezentas pessoas escolhidas entre os cidadãos mais ilustres e mais cultos. Não havia só uma mesa em casa de Itelius; havia trinta, todas cobertas de magníficas toalhas bordadas a ouro.
Itelius dava aos seus convidados os mais finos cozinhados, mas, nesse tempo, não se ofereciam aos convidados só pratos escolhidos: era preciso dar-lhes também os prazeres duma conversa espirituosa. Ora, a Itelius nada faltava, excepto a instrução. Mal sabia ler. As pessoas que aceitavam os seus convites com prazer, riam dele à socapa.
Era-lhe impossível sustentar uma conversa à mesa, e se, por acaso, conseguia que lhe dessem atenção, reparava que os convidados reprimiam a custo os seus sorrisos. Não podia suportar semelhante coisa, Mas era demasiado preguiçoso para estar muito tempo a ler um livro e não estava habituado a maçar-se. Itelius pensou muito tempo na maneira de remediar o caso e, finalmente, achou o que lhe era preciso».

In M. Iline, O Homem e o Livro, História dos Livros, Biblioteca Cosmos, direcção de Bento de Jesus Caraça, nº 1, Epopeias Humanas, Lisboa, 1947.

Cortesia de Cosmos/JDACT

sábado, 4 de maio de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «O aparecimento de o Globo outra coisa não foi senão o prosseguimento da caminhada que há muito vinha fazendo, uma nova arma que empunhou em defesa da cultura e da liberdade»

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«Caraça publicou no semanário Liberdade o artigo A Luta contra a Guerra, onde afirma a dado passo:
  • Existem, sem dúvida, núcleos apreciáveis de homens firmes, de homens de boa vontade, que, na luta contra a guerra, põem o melhor da sua inteligência e da sua actividade, o recente congresso de Amsterdam é disso uma prova bem patente mas, infelizmente, a maioria, a grande maioria dos intelectuais apresta-se para uma nova renegação do espírito. Mais adiante, a concluir o artigo, veio o aviso e a profissão de fé. Que todos se apercebam bem disto no momento que passa, a trincheira da luta pela humanidade é a trincheira da luta contra a guerra. É a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição. A minha está escolhida há muito tempo.
Uma outra das acções não clandestinas que empreendeu contra a guerra e contra o fascismo, que na Europa e em Portugal já iniciara o seu monstruoso percurso de alguns anos, foi certamente a publicação do Globo, o quinzenário de que foi co-director com José Rodrigues Miguéis. De vida efémera, o primeiro número veio a público em 11 de Novembro de 1933, tomando o lugar que o seu homónimo, o semanário O Globo, abandonara algum tempo atrás, suspensão motivada, ao que parece, por dificuldades económicas. Propriedade da Sociedade Cooperativa Editorial Globo, ainda em organização, o periódico tinha a sua sede em Lisboa, na Praça dos Restauradores. Indicava como redactor-principal M. Ramos Cunha e, como editor, um nome igualmente pouco conhecido por nós, M. Luiz Rodrigues. Projectado, à partida, para sair todas as semanas, tal propósito jamais foi concretizado, e o jornal acabou com o segundo número às mãos da censura.
Não terá sido fortuita a escolha do dia 11 de Novembro para a saída do primeiro número de o Globo, 11 de Novembro foi data da assinatura do Armistício da Primeira Guerra, e o seu aparecimento neste dia decerto quis sublinhar em público as preocupações maiores que norteavam o grupo do Globo, os perigos da guerra e do fascismo. De tal modo as duas questões avultavam entre as preocupações dos responsáveis do periódico que toda a primeira página do número inicial lhes foi consagrada, publicando o editorial Duas Datas, e um sugestivo desenho do artista Bernardo Marques. Neste desenho, um ilusionista bem adornado de medalhas com a cruz suástica e postado em frente a um cartaz anunciador do Circo Europa, faz voar de uma cartola duas solitárias pombas, enquanto com a outra mão exibe uma segunda cartola pejada de armas de guerra…
No editorial, que se admite ser do seu punho, Bento Caraça põe a nu a situação internacional existente, dominada pelos interesses imperialistas e pelos monopólios:
  • Vivemos, neste triste fim de 1933, as horas amargas de febre e de incerteza que precedem os grandes conflitos; prepara-se um novo grande crime contra a humanidade. Para que esse crime seja possível, são postos em acção todos os meios, corrida desenfreada aos armamentos, preparação do ambiente moral pela excitação dos antagonismos de raças, a mentira e o ódio postos ao serviço dos fabricantes de canhões.
O aparecimento de o Globo outra coisa não foi senão o prosseguimento da caminhada que há muito vinha fazendo, uma nova arma que empunhou em defesa da cultura e da liberdade». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «Intelectual lúcido e atento aos problemas do mundo e do país, profundamente fiel às suas origens, conhecia bem a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geração. Despertar»

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«Intentava, assim, levar de vencida um atraso de várias décadas e o tradicionalismo reinante, no Estado e no próprio corpo docente universitário. De todo esse labor, realizado de mãos dadas com outros matemáticos e investigadores, de Lisboa e do Porto, viriam a nascer, sucessivamente, diversas instituições, o Núcleo de Matemática, Física e Química (1935), o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia (1938) e, em seguida, a Sociedade Portuguesa de Matemática (1940). Igualmente, foram lançadas algumas publicações científicas, entre elas ocupando lugar de relevo a Gazeta de Matemática, surgida em 1940. Oito anos mais tarde, já gravemente doente, Bento Caraça ainda pôde impulsionar e colaborar no lançamento da Revista de Economia, encabeçada por um numeroso grupo de investigadores, muitos deles seus antigos discípulos.
A actuação inovadora do professor e do pedagogo, a actividade pioneira do cientista e, ainda mais, a lucidez e a determinação da intervenção política de Bento Caraça de há muito constituíam para Salazar e o seu regime um pesadelo de todas as horas. Por tudo isto, em Outubro de 1946, e sob o pretexto da assinatura e divulgação pública do documento O MUD perante a Admissão de Portugal na ONU, o ditador não teve pejo em demiti-lo, assim como a Mário Azevedo Gomes, de professor do seu Instituto, primeiro acto da monstruosa vaga de demissões que, em Junho do ano seguinte, iria decapitar a nossa Universidade de um grande número dos seus melhores quadros.

Em Luta Contra a Guerra e o Fascismo na Europa
As preocupações intelectuais de Bento Caraça não podiam, no entanto, ter por confins as salas de aula do edifício da Rua do Quelhas, nem tão-pouco se esgotavam nas acções de investigação levadas a cabo no âmbito do Movimento Matemático, do CEMAE e da Gazeta de Matemática ou nas tarefas de presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Intelectual lúcido e atento aos problemas do mundo e do país, profundamente fiel às suas origens, Bento Caraça conhecia bem a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geraçãodespertar a alma colectiva das massas. Sabia também, como afirmou mais adiante na mesma conferência, que precisamos para não trair a nossa missão, de nos forjarmos personalidades íntegras, de analisarmos o nosso tempo e de actuar como homens dele.
E sabia, igualmente, que as frentes de luta pela cultura, pelo ensino, pela ciência, não podem ser dissociadas das frentes de luta económica, social e política, todas se integrando na frente mais ampla e abrangente da luta pela transformação da sociedade. Os primeiros passos desta caminhada terão sido dados, talvez, à volta de 1928-29. Existe no seu espólio um testemunho de muito interesse, as duas cartas que dirigiu a F. Desphelippon, membro do conselho de administração do semanário Monde, de tendência marxista e dirigido pelo escritor comunista Henry Barbusse. Bento Caraça não era, e as duas cartas demonstram-no bem, um simples leitor e assinante do periódico. Com efeito, respondendo ao apelo do Monde, enuncia detalhadamente na primeira carta, de 18/9/1929, a sua opinião sobre as secções que o semanário deveria ter, quais os temas principais que deveria tratar regularmente, entre eles, sublinhando a necessidade de uma ou mais páginas de actualidade, uma página de vulgarização de doutrinas políticas e sociais e, por último, uma página de informação económica, política e social sobre a URSS.
Na segunda carta, de 16/10/1930, depois de ter anunciado a projectada criação de um núcleo de Amigos do Monde, Caraça traça um quadro esclarecedor das preocupações que em Portugal também existiam à face dos preparativos de uma nova guerra, assim como da necessidade igualmente sentida de organizar o movimento de massas que a ela se opusesse, um movimento que apenas esboçava os primeiros passos tímidos, como a carta deixa entrever:
  • Ao mesmo tempo gostaria de ter indicações sobre organizações como a Liga Anti-Imperialista, a Liga Internacional contra o serviço militar, que acaba de ser criada, etc. Aqui, a juventude radicaliza-se e há muita gente que desejaria realizar qualquer acção internacional, mas está desorientada, o divórcio entre os jovens e os velhos é completo; estes dormem sobre recordações antigas e aqueles despertam mas sem saber ao certo, creio eu, o que pretendem. O momento é único para uma acção séria e vós podeis ajudar-nos nessa obra.
Dois anos mais tarde, em Novembro de 1932, seguro e determinado, toma posição pública contra as ameaças de guerra que dia a dia se adensavam sobre a Europa. Admirador de Romain Rolland (dos seus ideais, da sua obra e dos seus apelos contra a guerra e contra o fascismo) e paladino das recomendações do Congresso Internacional contra a Guerra, organização pela Frente Mundial contra a Guerra e realizado em Amesterdão em Agosto de 1932, Caraça publicou no semanário Liberdade o artigo A Luta contra a Guerra». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «… labor no campo da investigação matemática, ao nível do impulso e do persistente esforço de criação de instituições e de instrumentos de trabalho científico para o desenvolvimento da ciência matemática em Portugal»

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«Não foi fácil o caminho que o trouxe do monte alentejano até à cátedra do Instituto Superior de Comércio (mais tarde Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, actualmente, Instituto Superior de Economia e Gestão). A morte da protectora, D. Jerónima, a proprietária da Herdade de Casa Branca, quando estava prestes a concluir o curso liceal, impuseram-lhe para sobreviver e prosseguir os estudos, no momento em que a mesada começou a rarear e depois se extinguiu por completo, o redobrar das explicações que dava. Foi no liceu, nas vésperas de completar dezasseis anos e quando frequentava o sexto ano do curso, que Bento Caraça terá escrito as suas primeiras prosas e alguns poemas, estes últimos destinados a uns cancioneiros que circulavam entre os alunos. Manuscritos, ao que parece, é o próprio Caraça que a eles faz referência, não encontrámos até agora qualquer rasto da sua existência, nem na biblioteca do Liceu de Pedro Nunes, nem no espólio de Bento Caraça. Encontrámos, isso sim, três textos dessa época, um, sem data, o poema o Fragmentos de Um Drama Inédito; o segundo, igualmente sem data, mas que é possível determinar ter sido escrito por volta de Fevereiro de 1917, Crítica sobre a novela Mariana; e, o último, um prefácio para a mesma novela, Mariana, escrito em 17/12/1918.
Os dois últimos textos comentam, numa escrita escorreita e de apurado sentido crítico, a referida novela, que fora escrita por Luís Ernâni Dias Amado, já nesse tempo amigo chegado de Caraça e seu condiscípulo. Concluído o curso liceal em 1918, com a média final de 19 valores, logo se matriculou no antigo Instituto Superior de Comércio. Seguro de si, fez questão de inscrever, resoluta e profeticamente, logo na primeira folha do seu caderno escolar: Hei-de ser o primeiro aluno do meu curso. Estava-se em 28 de Fevereiro de 1919, e Bento Caraça ainda não tinha completado dezoito anos de idade. Mas, como sempre foi um homem de palavra não tardou que, ainda nesse ano, em 1 de Novembro, fosse nomeado segundo assistente temporário do Instituto. Terminado o curso com elevadas classificações, cumprindo, assim, o que a si próprio prometera, logo foi nomeado, em 1924, primeiro assistente temporário, cargo que, três anos mais tarde, passou a definitivo. Foi acerca desta última nomeação e em seu abono que o professor catedrático Aureliano Lopes Mira Fernandes, matemático de grande nomeada e seu mestre, em carta dirigida ao Conselho Escolar do Instituto, teceu considerações que merece a pena reproduzir aqui, muito embora parcialmente:
  • O Senhor Bento Caraça exerceu as funções de segundo assistente das cadeiras de Matemática, desde o seu terceiro ano de aluno desta Escola, com tal proficiência, desvelo pedagógico e nítida compreensão da sua ingrata missão de aluno e mestre, que nunca ao de leve colidiram os seus deveres de camaradagem escolar com as suas obrigações docentes.
E logo adiante sublinhou:
  • Saber, aptidão docente, conhecimento claro das preferências mentais dos alunos e dos processos e incentivos com que mais facilmente se consegue da sua atenção e do seu esforço a assimilação da verdade; imperturbável serenidade e prudência no julgamento, sem desmandos de exigência, mas também sem complacentes tibiezas; inexcedível zelo e amor profundo à difícil e tantas vezes inglória profissão de ensinar; tais são, Senhor Presidente, as qualidades que fazem do Senhor Caraça um dos melhores instrumentos da dificultosa tarefa que a esta Escola incumbe na nobilitação e progresso do ensino superior em Portugal.
Foi longa a citação. Mas a verdade é que esta carta constitui, a nosso ver, o testemunho mais fiel e mais esclarecedor do que realmente foi, desde a primeira hora, a vida docente do matemático e pedagogo Bento de Jesus Caraça. O reconhecimento público das suas invulgares capacidades de professor, os seus méritos de pedagogo bem depressa o levaram à cátedra universitária, em Dezembro de 1929, com 28 anos. E levaram-no também, ainda antes de ser catedrático, a ter assento em três comissões nomeadas pelo Governo para, respectivamente, estudar as medidas tendentes a conseguir-se a extinção do analfabetismo, fazer inquérito preparatório da reforma do ensino secundário, definindo o seu questionário e elaborando as respectivas conclusões e, a última comissão, encarregada de elaborar um trabalho sobre as modificações a introduzir no ensino médio industrial e comercial.
Não menos assinalável foi o seu labor no campo da investigação matemática, talvez não propriamente no plano teórico, como apontam alguns dos seus pares, mas antes ao nível do impulso e do persistente esforço de criação de instituições e de instrumentos de trabalho científico indispensáveis para o desenvolvimento da ciência matemática em Portugal». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Cultura Integral do Indivíduo. Problema Central do Nosso Tempo. 1933. Bento de Jesus Caraça. «Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir. Perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem…»


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«Os espíritos moços, como sempre, viviam os acontecimentos com intensidade, despertavam para as preocupações mais fundas, auscultavam o futuro cheios de optimismo, uniam-se para pensar. Foi desse ambiente que nasceu a União Cultural Mocidade Livre. O futuro imediato não correspondeu às aspirações e impaciências desses espíritos juvenis e ardentes. O desenvolver da vida social europeia seguiu por caminhos que haviam de provocar a revisão de muitos optimismos fáceis e, em contrapartida, fazer abrir muitos olhos para realidades cruéis, em suma, proporcionar grandes lições. Tudo isso fez que se amortecessem alguns entusiasmos das primeiras horas. Que importa? É essencial que tenham existido! Mas foram mais algumas ilusões perdidas, dir-se-á. Não. As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sobre o pântano estéril da vida sem formas. Benditas as ilusões, a adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer. Sem ilusão, nada de sublime teria sido realizado, nem a catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de Galileu.

Quis a União Cultural Mocidade Livre que, neste seu primeiro acto público, eu lhe prestasse a minha colaboração, dizendo-vos algumas palavras acerca da sua razão de ser, da necessidade da sua existência, das suas intenções de acção futura. Aceitei, se bem que me não tenha proposto fazer-vos a apresentação desse organismo que, em boa hora, alguns espíritos moços decidiram fundar. Essa apresentação está sobejamente feita pelo simples facto da sua constituição, e a junção feliz, no seu próprio nome, das duas palavras «cultura» e «mocidade» abre horizontes rasgados para a esperança daqueles que, não tendo desesperado de viver melhores dias, vêem precisamente numa renovação espiritual da geração nova a condição indispensável para a realização das ideias que lhes são caras.
Quero afirmar aqui a minha inteira solidariedade com estes moços que pretendem compreender e viver o seu tempo e trazer-lhes, do mesmo passo, a minha modesta contribuição para o seu labor que será fecundo, na medida da força e poder de sinceridade que puserem, através ainda das maiores dificuldades, em se conservarem iguais a si mesmos, fiéis a si mesmos. Esta foi a intenção com que aceitei o encargo que me cometeram. Encargo pesado, pois não é fácil tarefa o alguém abalançar-se hoje a emitir juízo, por mais despretensioso que ele deseje ser, sobre o tempo que vivemos. Mas não há também tarefa mais importante nem mais urgente. O que o mundo for amanhã, é o esforço de todos nós que o determinará. Há que resolver os problemas que estão postos à nossa geração e essa resolução não a poderemos fazer sem que, por um prévio esforço do pensamento, procuremos saber, por uma análise fria e raciocinada, quais são esses problemas, quais as soluções que importa dar-lhes – saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos.
E pensemos, agora que ainda o podemos fazer. Amanhã pode ser tarde, porque a tempestade que tem vindo a acumular-se sobre as nossas cabeças pode desencadear-se e arrastar-nos nos seus turbilhões brutais. A violência da borrasca não nos permitirá que façamos mais do que gestos elementares e instintivos que só não nos trairão se forem, a todo o momento, orientados e dominados por uma personalidade de uma só peça, aquela personalidade que agora temos de forjar – enquanto é tempo. O dizer-se que a época actual é caracterizada essencialmente por uma perturbação e inquietação vivas, é já quase um lugar comum, de tal maneira isso se impõe, mesmo após o mais superficial exame. Não é, contudo, demasiado repeti-lo, pois há muitos sujeitos de ouvido duro que ainda o não compreenderam ou não quiseram compreender e que, numa cegueira teimosa, continuam a querer aplicar, para medida de valores numa sociedade abalada nos seus fundamentos, aqueles padrões cujo uso já de há muito não é legítimo.
Desenganem-se essas pessoas. O que estamos actualmente vivendo e sofrendo não é apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida». In Bento de Jesus Caraça, 1933, União Cultural Mocidade Livre, Cadernos da Seara Nova, 1939.

continua
Cortesia de Seara Nova/JDACT

sábado, 8 de dezembro de 2012

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «… o pequeno Bento vivesse o primeiro dos acontecimentos marcantes da sua vida, a chegada do primeiro livro, trazido pela mão de José Percheiro, um trabalhador migrante sem eira nem beira, em busca de trabalho»

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Semeador de Cultura e Cidadania
«Mas o que já é conhecido acerca da sua vida , da intervenção que teve em áreas essenciais da sociedade portuguesa do seu tempo, no ensino, na cultura, na vida cívica, permite avaliar a dimensão e a qualidade dessa intervenção, quanto ela foi determinante em tantos casos. Levada a cabo nas condições mais adversas, a sua obra pedagógica, cultural e cívica é certamente uma das mais fecundas de todas as que foram empreendidas no nosso país ao longo do século que findou.
Por tudo isto, é bem compreensível que de Bento Caraça se diga, com inteira justiça e servindo-nos das suas próprias palavras, que ele foi um daqueles intelectuais que se conservaram sempre fiéis à sua própria classe e aos seus ideais de emancipação humana e não desertaram ingressando no tampo contrário.

Do Monte Alentejano à Cátedra Universitária
Alentejano, de Vila Viçosa, filho de humildes camponeses alentejanos sem terra, Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901, numa dependência modesta do Convento das Chagas, utilizada pela Casa de Bragança para alojamento dos seus serviçais. Dois meses mais tarde, seu pai foi contratado como feitor por Raul Albuquerque, proprietário da herdade de Casa Branca, na freguesia de Montoito.
Não foi muito longa a permanência no monte. Mas durou o tempo suficiente para que o pequeno Bento vivesse o primeiro dos acontecimentos marcantes da sua vida, a chegada do primeiro livro, trazido pela mão de José Percheiro, um trabalhador migrante sem eira nem beira, em busca de trabalho. Admitido para as lides da lavoira, por ali se conservou por algum tempo, até que um dia mostrou ao seu pequeno companheiro das escassas horas de folga um livro de leitura escolar que trazia no alforge.
Maravilhado, o pequeno Bento logo na primeira lição ficou conhecendo o abecedário e, pouco tempo depois, já lia correntemente todo o livro, deixando boquiaberto o improvisado mestre-escola. Camponês errante, José Percheiro bem depressa meteu pés ao caminho em demanda de outros lugares. Mas não o fez sem antes deixar nas mãos de Bento o livro maravilhoso e de, com insistência, aconselhar a mãe a não deixar de o mandar à escola, pois ele ‘não era uma criança como as outras’. Bento Caraça não terá perdido para sempre o rasto deste seu primeiro "mestre":
  • existe no seu espólio uma carta de José Percheiro (então hospitalizado e inválido), com a data de Dezembro de 1932 e enviada de Alcobaça, na qual alude e agradece o apoio que Bento Caraça lhe dava.
Surpreendida e fascinada com as invulgares capacidades intelectuais reveladas pelo filho do seu feitor, a mulher do proprietário, D. Jerónima, não tardou em sugerir a seus pais assumir o encargo do seu sustento e educação. Bento deixou, assim, aos cinco anos, o seu monte, passando a viver em Vila Viçosa, num quarto que D. Jerónima lhe destinou na sua casa. A partir deste momento e até à chegada ao Liceu Normal de Pedro Nunes, em Lisboa, não há outra memória do percurso feito por Bento Caraça, a não ser aquele testemunho em boa hora deixado pelo seu amigo e condiscípulo na escola primária de Vila Viçosa, António Lobo Vilela. Pouco conhecido e raramente citado, é, no entanto, um documento valioso que vem trazer luz sobre essa fase tão ignorada de Bento Caraça. Vale a pena recordá-lo:
  • Fui condiscípulo de Bento Caraça na escola primária cuja professora era minha prima, D. Ana da Silva Reis, senhora bondosa mas severa que, seguindo os preceitos da pedagogia da época, despertava as inteligências preguiçosas com ruidosas séries de palmatoadas, e deixava as pequeninas mãos inchadas e entorpecidas. O Bento Caraça, aluno excepcional, deve ter sido um dos raros discípulos de D. Ana que nunca experimentou a humilhação e a dureza da palmatória. Naquele tempo, a tabuada era recitada em coro, numa cantilena que acabava por ficar no ouvido de todos, mas, antes disso, era preciso que alguém a conhecesse já para dar as entradas: sete vezes oito, cinquenta e seis; sete vezes nove... O Caraça, com a sua voz suave e firme, era já, nessa época, um admirável chefe de naipe”.
Da passagem pelo Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém, que frequentou durante três anos, apenas sobreviveu o certificado do júri de exame do terceiro ano». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa (1.38.010), 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «… cientista e pedagogo de renome internacional; fomentador e dirigente de instituições e periódicos científicos e culturais; conferencista e autor de ensaios inesquecíveis. … repartiu sabiamente e com quotidiano empenho, a sua vida, e tão breve ela foi»

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Semeador de Cultura e Cidadania
A figura de Bento de Jesus Caraça, o seu magistério universitário e a sua actividade científica, o seu labor cultural e a sua constante intervenção cívica e política, marcou profundamente a vida portuguesa contemporânea, desde os últimos anos da década de 20 até aos nossos dias.
Professor catedrático da Universidade Técnica de Lisboa, cientista e pedagogo de renome internacional; fomentador e dirigente de instituições e periódicos científicos e culturais; conferencista e autor de ensaios inesquecíveis; militante comunista e impulsionador de movimentos unitários de resistência ao fascismo, clandestinos e legais, por tudo isto repartiu, sabiamente e com quotidiano empenho, a sua vida, e tão breve ela foi.
Detentor de excepcionais qualidades intelectuais, possuidor de uma vasta e sólida cultura científica, histórica, filosófica e artística e, além disso, abnegado obreiro apetrechado com as ferramentas do materialismo dialéctico e do materialismo histórico, Bento Caraça repudiou com firmeza o isolamento na "torre de marfim" do sábio e do pensador. Por isto o vemos, desde muito cedo, na primeira linha daqueles que, correndo os mais graves riscos, pela acção clandestina ou pela luta a peito descoberto, fizeram frente à repressão e ao obscurantismo do Estado Novo.
Homem de diálogo e de consensos, sem esquecer jamais os princípios essenciais que o norteavam, teve sempre, pela vida adiante, a preocupação de agitar ideias, convicto como estava e fez questão de sublinhar, ao terminar a conferência A Escola Única, que agitar ideias, a despeito do que dizem certos escribas abafadores de cultura, agitar ideias é muito mais do que viver, porque é ajudar a construir a vida.
Foram anos tormentosos, os da primeira metade do século passado, e foi nesses anos que Bento Caraça viveu, sendo contemporâneo, portanto, no plano nacional, do derrube da monarquia e das esperanças nas promessas trazidas pela Primeira República, bem cedo perdidas; da vida perturbada desta e da chegada da ditadura militar, que a deitou por terra; do malogro das várias tentativas revolucionárias, em especial as de 1927 e 1931, contra essa mesma ditadura militar; da ascensão do Estado Novo e da formação e desenvolvimento do movimento antifascista em Portugal; da fascização dos sindicatos e da greve insurreccional de 1934, do anseio a breve trecho frustrado de derrubar o fascismo, logo que a Segunda Guerra Mundial terminou.
Do mesmo modo, foi contemporâneo, a nível internacional, da Primeira Guerra Mundial e da revolução socialista de Outubro; da devastadora crise económica mundial de finais dos anos 20 e começos da década de 30; da tomada do poder pelo fascismo e pelo nazismo em vários países europeus; da implantação da república em Espanha e das experiências exaltantes da Frente Popular, neste país e em França. Foi contemporâneo, ainda, da Guerra Civil espanhola e da Guerra Mundial de 1939-1945 e, por fim, da esperança renascida, com a vitória das forças democráticas do mundo sobre o nazi-fascismo.
Contemporâneo de tantos e de tais acontecimentos, dessa época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir (as palavras são suas), em nada surpreende, ao percorrermos as páginas da história portuguesa desses anos dolorosos mas de esperança, nelas encontrarmos a cada passo a presença moral e a presença física de Bento Caraça:
  • a sua abnegada intervenção nas grandes batalhas travadas pelo povo português ao longo dos anos contra o obscurantismo e pela cultura,
  • a sua participação na luta contra a guerra e o fascismo,
  • o seu empenho de todas as horas nos movimentos cívicos que pugnavam pela reconquista das liberdades.
Em suma:
  • a sua participação no despertar a alma colectiva das massas, que por demais sabia ser a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossas geração, como reconheceu perante os jovens da União Cultural Mocidade Livre que o escutavam na sede da Universidade Popular em 25 / 5 / 1933, durante a inesquecível conferência que aí realizou.
Ainda não surgiu a biografia de Bento Caraça tão ansiosamente esperada, o seu retrato em corpo inteiro. Mas o que já é conhecido acerca da sua vida , da intervenção que teve em áreas essenciais da sociedade portuguesa do seu tempo, no ensino, na cultura, na vida cívica, permite avaliar a dimensão e a qualidade dessa intervenção, quanto ela foi determinante em tantos casos». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa (1.38.010), 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Bento de Jesus Caraça. Conceitos Fundamentais da Matemática. «As qualidades são relações orientadas, se os consequentes mudam, mudam as relações. Uma folha de amoreira tem, para a árvore, a qualidade de ser um órgão de respiração, para o bicho da seda, a de ser um meio de nutrição, para o homem, a de ser verde…»


jdact

«Por exemplo, suponhamos que A e B são duas espécies animais, das quais B se alimenta de A. Nesta relação, o sentido A→B implica para o consequente B uma fonte de ‘conservação’, e o sentido B→A implica para o consequente A uma fonte de destruição.
A relação é ‘uma’, simplesmente os seus dois sentidos têm significados distintos para os respectivos consequentes.
Pode acontecer que os dois sentidos duma mesma relação tenham o mesmo significado; diremos então que se trata duma ‘relação simétrica’.
Por exemplo: de acordo com a ‘lei de gravitação de Newton’, entre dois corpos c e c', de massas m e m', desenvolve-se uma força, atractiva cuja intensidade é proporcional ao produto m x m' ; aqui, os dois sentidos c→c’ e c’→c têm o mesmo significado, desenvolvimento duma acção atractiva.

Definição de qualidade:
  • Sejam A, B, … L componentes dum isolado; ao conjunto de todas as relações A→B, … A→L dá-se o nome de qualidades de A em relação a B, … L.
Desta definição resultam algumas consequências importantes:
  • Dados dois objectos A e B, entre eles existem sempre relações de interdependência; a cada uma delas corresponde uma qualidade de A em relação a B, e uma qualidade de B em relação a A; se a relação for ‘simétrica’, cada uma das duas qualidades que dela resultam diz-se também ‘simétrica’. Por exemplo, a qualidade atractiva existente entre duas massas quaisquer m e m’ é simétrica; é também simétrica a ‘qualidade de equivalência’ entre dois conjuntos;
  • Não se pode falar de ‘qualidades intrínsecas’ dum ser ou objecto, de qualidades que residam no ‘objecto-em-si’. As qualidades são relações orientadas, se os consequentes mudam, mudam as relações. Por exemplo, uma folha de amoreira tem, para a árvore, a qualidade de ser um órgão de respiração, para o bicho da seda, a de ser um meio de nutrição, para o homem, a de ser verde, de poder servir de meio económico, etc.;
  • É indispensável que o leitor se familiarize com a ideia de plasticidade e fluência da noção de qualidade, que se compenetre bem desta verdade fundamental, a ‘isolado novo, qualidades novas’. É preciso sempre, quando se consideram as qualidades dum ser, pensar no isolado a que ele pertence, ‘pensar no seu contexto’, só em relação ao contexto é que as qualidades têm significado.
Assim como há níveis de isolado, assim há também ‘níveis de qualidade’


Noção de quantidade
Há qualidades que não são susceptíveis de admitir graus diferentes de intensidade, isto é, qualidades a respeito das quais se não podem fazer juízos de ‘mais que, maior, menos que, menor’». In Bento de Jesus Caraça, Conceitos Fundamentais da Matemática, Tipografia Matemática, Lisboa, 1951.

continua
Cortesia da Tipografia Matemática/JDACT