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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «Depois de os meus primos me erguerem, me depositarem sobre um esquife de madeira e me levarem lá para fora, para a luz do sol, apercebo-me de que tinha estado…»

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«(…) Se não conseguir acalmá-la, a Lia consegue...
Antes ainda de acabar o meu pensamento, recordo-me de que a vida da minha mulher terminou há seis anos, no mesmo momento em que começou a da nossa filha. A minha mente identifica igualmente os túmulos dos meus pais num sufocante recôndito da memória que raras vezes visito. Desculpa estar tão fraco, murmuro para a minha filha. Enquanto ela chora, Yirmi tenta acalmá-la com palavras ternas e a seguir inclina-se e beija-me ambas as pálpebras, no que parece ser a sua forma de nos unir aos três, e um gesto de extrema maturidade para um jovem que só se tornou homem há alguns meses. Vindo algures de trás de mim, Yeshua volta a aproximar-se. Coloca a mão sobre a minha cabeça e apoia-a com força, como faz quando pretende curar um padecente. Chegou o tempo das canções, cita ele do Cântico de Shelomoh.
Começa a entoar um cântico e sinto-me fluir na direcção da sua voz, que conheço tão bem como a minha, e, quando ele ergue a mão da minha fronte, sigo a sua ausência para além da fronteira da minha carne. Agora pairo no ar, suspenso pelo som das suas palavras em hebraico e recordo-me do meu pai a contar-me como os antepassados se reúnem à nossa volta quando entoamos os hinos, e... Achas que consegues levantar-te, dodi?
A pergunta de Yeshua faz-me reentrar no corpo. Abano a cabeça, porque não consigo sentir as pernas. Mas agora já sabes quem eu sou?, pergunta ele. Uma recordação tola faz-me sorrir. Por vezes ensinante, outras vezes serpente, sussurro. É uma resposta que inventei quando éramos estudantes, para o pôr no lugar quando ficava cheio de si. Trata-se de um jogo de palavras: hewya significa serpente e hawa ensinar. Esperava que Yeshua risse; em vez disso, fala-me numa voz desanimada. Não, eu sou aquele que te empurrou da muralha para as garras do Senhor dos Céus. Embora talvez... Antes de conseguir completar a frase, os olhos enchem-se-lhe de lágrimas e aperta-me a mão. Consegues perdoar-me por chegar tarde de mais?, pergunta.
Tarde de mais para quê?, interrogo-me.

Depois de os meus primos me erguerem, me depositarem sobre um esquife de madeira e me levarem lá para fora, para a luz do sol, apercebo-me de que tinha estado dentro de uma das grutas escavadas na rocha, mesmo ao lado da estrada, a norte de Anathoth. Yeshua e Miriam, andando lado a lado, encaminham o nosso pequeno grupo para fora da necrópole, em direcção à estrada que leva para sul, para Betânia. Muitas das entradas dos túmulos exibem pão e fruta, que ali foram depositados e que atraem nuvens de moscas vorazes. Quando o meu avô me levanta a nuca para lhe colocar por baixo um pequeno coxim, pergunto-lhe porque me trouxeram para aqui. Então, não te lembras de nada, meu querido neto?, - responde-me. Não, não me parece. O meu filho levanta a palma da mão para me proteger os olhos da luz. Qual é a última coisa de que te lembras, pai?, pergunta-me. De olhos fechados, vejo-me sentado sobre um mosaico onde está desenhado um pássaro, rodeado pelas ferramentas do meu ofício. Estava a reparar o chão do nosso pátio, respondo. Acho que foi hoje de manhã.
O rapaz faz uma careta, como se lhe tivesse dado más notícias. A tia dele, Mia, afasta-o suavemente do caminho. Falamos lá em casa, Eli, diz ela. Por agora, limita-te a descansar. Pelo menos, diz-me quem morreu e de quem era o túmulo onde eu estava». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.
                                                            
Cortesia de PEditora/JDACT

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «Quando éramos crianças, costumava dizer que eu cheirava a pão de cevada quente. Lembro-me disso agora, tal como me lembro do meu nome…»

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«(…) Ele retira a mão do meu peito e acaricia-me a face. Shalom Aleikhem, dodi, murmura. A paz seja contigo, bem-amado. Sabe aramaico, o que me conforta. A barba que desponta torna-lhe as faces ásperas, e o cabelo castanho, que lhe dá pelos ombros, está todo emaranhado. Mostra-me um sorriso cansado mas feliz. Gostaria de se abandonar e rir o riso exausto de um homem que tem estado a chorar, penso. A neblina do esquecimento dentro de mim levanta-se nesse momento e reconheço-o. Contudo, parece mais velho do que me recordo, e desgastado no corpo. Será que está doente? Quando estendo a mão, com a intenção de lhe tocar na testa para ver se tem febre, ele agarra-ma e beija-a como se nos tivéssemos perdido um do outro há muitos anos. Respondi-te escondido no trovão, diz, tal como sempre nos saudávamos desde a infância. É uma citação do nosso versículo preferido dos Salmos. Onde estamos? Formulo a pergunta com os lábios, pelo menos, é essa a minha intenção, mas por qualquer motivo não consigo fazer-me entender.
Yeshua mostra-me uma expressão confusa. Em breve serás tu outra vez, diz-me. E nós vamos todos ajudar-te. Perscruto os rostos à minha volta, contando-os, catorze. De cada lado de Yeshua estão os meus velhos amigos, Miriam de Magdala e Yohanon ben Zebedee. Yohanon cortou o cabelo negro e espesso tão curto que parece ter posto uma touca jónica. Dirige-me um sorriso encorajador através das lágrimas. Os olhos delineados a kohl de Miriam parecem pisados. Traz vestida a sua túnica cor de açafrão, uma oferta de Yeshua, mas agora parece demasiado grande para ela, dificultando-lhe os movimentos. Por trás dela, trajando uma elegante toga e apertando o nariz, encontra-se Nicodemus ben Gurion, um dos benfeitores de Yeshua. Olha para mim com ar de quem tem medo de que eu seja um impostor. Será possível que eu tenha mudado tanto que pareça outro?
Ao fundo, mais altos do que os outros todos, estão os meus primos de Alexandria, os gémeos Íon e Aríston. Íon, o mais ousado dos dois, acena-me e sorri-me, com os seus modos agarotados. Miriam desvia-me os olhos dele quando ergue as mãos para me abençoar. Apercebo-me de um desenho cor de vinho do Zodíaco na palma da sua mão e tento perguntar-lhe o que é, mas tudo o que me sai da garganta é um som seco e arranhado. Começo a ficar ansioso por ver a minha mãe e o meu pai, mas não me parece que estejam connosco. Só tomo consciência de que estou a chorar quando sinto nos lábios um sabor salgado. A mulher dos membros longos, que agora reconheço como sendo a minha irmã Mia, pega-me na mão e coloca-a sobre o rosto, inalando profundamente o meu cheiro, mas em breve começa a tossir. Quando éramos crianças, costumava dizer que eu cheirava a pão de cevada quente. Lembro-me disso agora, tal como me lembro do meu nome, mas há muitas outras coisas que ainda me escapam. Será que estamos todos reunidos para o funeral do meu pai?
Onde estão os nossos pais?, consigo perguntar-lhe num sussurro rouco. Vai correr tudo bem, responde Mia. Não deves preocupar-te. Passa o braço à volta do velho que está ao seu lado. O avô Shimon atreveu-se a sair de casa para estar aqui contigo, diz-me em voz alegre. Em seguida, aponta-me a mulher pequena e de ar cansado que segura um bocado de tecido sobre a boca. A Marta também cá está, claro! Vieram muitos amigos. E o teu filho e a tua filha. Com um aceno da mão, chama-os para junto de si. Nahara treme. Está com o mesmo ar que tem quando é arrancada ao sono pelo som do trovão. Yirmiyahu, o irmão mais velho, o jovem de cabelo comprido e olhos ansiosos, pega-lhe ao colo, para ela ficar à minha altura. Nahara lança-me os braços à volta do pescoço. Abençoada seja a bondade do Senhor; quando se põe a soluçar, consigo dominar a tremura das mãos o tempo suficiente para lhe afagar o cabelo castanho e macio, embora o meu toque a faça chorar ainda mais». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.
                                                            
Cortesia de PEditora/JDACT

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «Depois de ter bebido, reparo que tenho um colar de âmbar à volta do pescoço. As contas são de um amarelo-leitoso»

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«(…) Qualquer coisa penugenta enrosca-se na concha da minha mão direita. Um rato? Será que esta caverna em que me aprisionaram é um antro infestado de bichos? Não consigo virar a cabeça para dar uma espreitadela. Abaixo do meu pulso palpita a esperança de que o animalzinho não me morda. Yaphiel, talvez aches isto cómico, mas mais tarde vim a descobrir que, em circunstâncias estranhas, a mão de um velho amigo pode parecer um rato trémulo. Sinto que me seguram por trás dos ombros e me colocam em posição vertical. O jovem de cabelo comprido e a mulher da cicatriz em forma de crescente desdobram um pano de linho grosseiro que se encontrava enrolado à volta do meu peito e pernas. Terei adormecido enquanto eles trabalham? A seguir só me lembro do velho choroso a colocar o seu xaile de orações sobre o meu sexo nu.
Um homem esguio, de capa e capuz de chamalote, leva-me aos lábios uma concha de madeira. É paciente comigo, este estranho de mãos generosas e fortes, e eu bebo sofregamente quando volta a dar-me de beber e outra vez e... Ao fim de algum tempo, divido-me em duas pessoas: um ser exausto, desesperado por matar a sede, e um observador distante e curioso que pergunta a si próprio por que razão um acto tão simples se tornou uma tarefa tão difícil, e o que é que toda aquela gente da Judeia quer de mim. Depois de ter bebido, reparo que tenho um colar de âmbar à volta do pescoço. As contas são de um amarelo-leitoso. Quando tento tocar-lhe, sinto a mão de novo atacada por tremores. Ajudem-me.
Não me sai a voz, mas o jovem de cabelo comprido lê-me o desespero na cara e ergue o colar para eu poder vê-lo. Será aquele que a minha mãe usava sempre? Mostra-lhe o talismã! Uma voz enfática de mulher diz-lhe que me mostre uma rodela de pergaminho que também me puseram ao pescoço. Nela estão grosseiramente desenhadas quatro figuras, todas com olhos ovais, ao estilo egípcio. Por cima das cabeças, os respectivos nomes angelicais: Mikhael, Gavriel, Uriel e Raphael. Por baixo das figuras, uma citação dos Salmos, escrita numa letra de criança: o Senhor é o teu único refúgio, o Altíssimo o teu auxílio. Por isso, nenhum mal te acontecerá, nenhuma epidemia chegará à tua tenda. É que Ele deu ordem aos Seus anjos para que te guardem em todos os teus caminhos.
A melodia de uma flauta, uma música frígia, simultaneamente triste e queixosa, alicia-me para o sono, que invade o meu corpo, quente e abundante como um mar que ondula suavemente. Algum tempo depois, tomo gradualmente consciência de um peso no peito. Dá-me a sensação de estar ali há muito tempo. O homem que me ajudou a beber beija-me nos lábios. Tirou o capuz. Tem os olhos vermelhos e inchados. Tem estado a chorar alguém, penso, e apetece-me perguntar-lhe se lhe morreu algum amigo, mas continuo incapaz de encontrar a minha voz». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 9 de dezembro de 2018

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «O coração aperta-se-me com a visão de tantos estranhos, e o meu primeiro pensamento é que tenho de apelar rapidamente à sua misericórdia»

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«(…) Eliezer, a porta que procuras sou eu!, grita. A voz é-me familiar, embora não seja capaz de a identificar. Antes que consiga voltar-me para ver quem é, sinto umas mãos empurrar-me para a frente. Caio e sou engolido pelas chamas. E, contudo, não me queimo nelas. E não morro. Vou cambaleando através das labaredas até dar comigo a voar num céu vermelho e magoado. Tenho o corpo revestido de penas prateadas. Yerushalayim ergue-se diante de mim e voo como uma flecha na direcção da sua cidadela. A Torre Faesal... Decido pousar-lhe no rebordo para avaliar as forças do inimigo, mas ao aterrar aí... Graças a essa metamorfose da emoção que nos marca para sempre como os filhos de Adam e Havvah, o vigoroso bater das minhas asas transforma-se nas batidas aceleradas do coração de um rapazinho galileu que acorda para dar consigo no seu quarto, nu, banhado em luar, perguntando-se de que maneira, e por que razão, se transformou num deus alado.

Tenho de te falar agora da semana que mudou a minha vida e me mandou para o exílio, aqui, em Rodes, e que te trouxe para o seio da nossa família. Vê se consegues imaginar-me como o viúvo e pai de dois filhos pequenos que eu era nessa altura, um homem que já celebrara trinta e seis aniversários com a família e os amigos, e que ainda não tinha a certeza do seu lugar no mundo... Uma tarde, acordo para me ver rodeado de uma amálgama de rostos que me são desconhecidos, iluminados pela luz cor de açafrão de uma dúzia de lanternas. O coração aperta-se-me com a visão de tantos estranhos, e o meu primeiro pensamento é que tenho de apelar rapidamente à sua misericórdia. Mas não digo uma palavra; sou um par de olhos que pestanejam, aterrados, à espera de pistas que me revelem a natureza da minha atribulação.
Por mero hábito, digo para mim próprio as palavras do Senhor ao profeta Yirmiyahu: não temas diante deles; porque estou contigo para te livrar. Mas uns gritos roucos vindos de um sítio que não consigo ver levam-me a contrair o rosto num esgar de medo, e apetece-me fugir. Em breve me chegam igualmente aos ouvidos sussurros apressados, que não consigo decifrar. As batidas insistentes e tensas dentro do meu peito fazem-me balançar de um lado para o outro, e tenho a garganta seca como areia. Nas profundezas da terra, é aí que os meus pensamentos em debandada parecem ter procurado refúgio. Um jovem de longos cabelos ergue uma tocha e inclina-se para mim, estudando-me com olhos húmidos e perturbados. Tem a túnica rasgada ao longo do colarinho.
Olho por cima do seu ombro e descubro sombras que fazem lembrar borboletas a esvoaçar num tecto de pedra pálida. Os odores pesados, doces e húmidos da mirra e do espicanardo enchem-me o peito ofegante. Trouxeram-me para uma caverna, penso. Tenho de tentar descobrir o que querem de mim antes de falar. Uma mulher pequena, de rosto tenso e olhos encovados e curiosos, debruça-se sobre mim. Segura um pequeno quadrado de tecido sobre a boca e o nariz, e perscruta-me como se tentasse resolver um cálculo complexo. Diz qualquer coisa ininteligível, em latim, talvez, e ergue as sobrancelhas, numa tentativa de me levar a responder-lhe. Pergunto-me porque não se dirige a mim em aramaico ou hebraico, ou grego.
Deve ser estrangeira. E os outros também. Contudo, estão quase todos vestidos à maneira de Judeia. À minha esquerda chora um velho corcovado, com o seu talit pelos ombros. Ao lado dele ergue-se uma mulher alta, de membros longos, dos seus quarenta anos, diria eu, apertando contra o peito uma mantilha de lã, como quem receia que ela lhe salte das mãos e fuja, se aliviar a pressão dos dedos. Tem o rosto devastado de uma alma perdida que viu demasiado, e o colarinho do peplos rasgado. A pequena cicatriz que ostenta no queixo, em forma de crescente, parece-me familiar». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «Vão chegar invasores do outro lado do rio Jordão e todos teremos de estar prontos para lutar. É essa a mensagem…»

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«(…) Quanto tempo decorreu entre o velho de faces escavadas e olhos lacrimosos que te escreve agora e o miúdo de oito anos, ligeiro como uma andorinha, que fui outrora? Segundo o calendário, passaram cinquenta e sete anos. E, contudo, segundo o meu coração alado, é o momento fugaz que me leva a fechar os olhos e pousar em Natzeret... Estou empoleirado na esteira do meu quarto. É o décimo segundo dia do mês de Tevet, muito depois da segunda ronda da noite, e, pela janela, vigilante, espreita a Lua. Estamos no ano sessenta e sete desde a conquista do Sião pelos romanos, e Augusto é o nosso imperador. Quando finalmente volto a adormecer, sonho que o senhor é uma águia vermelha cor de sangue, com uma poupa roxa e olhos pretos de azeviche. Pousada no canto do nosso telhado, contempla no horizonte a poalha do nascer do sol com uma expressão severa e atenta, como se o mundo inteiro dependesse da Sua vigilância. Quero tocar-Lhe, mas o medo do seu bico forte e aguçado tolhe-me os movimentos. Mesmo assim, ouso dar um primeiro passo cauteloso e, quando vejo que Ele, o Deus-Águia, não reage irado, aproximo-me um pouco mais. Quando chego ao lado d’Ele, ajoelho-me e estendo a mão com a cautela de um miúdo que iá assistiu a várias execuções, incluindo o apedrejamento da sua tia Zilpah. Transformo o meu gesto numa espécie de murmúrio de saudação, prova da minha boa vontade e intenções honradas. Com uma graciosa vénia, o Senhor inclina-se para mim, dando-me permissão. Faço deslizar as pontas dos dedos ao longo da plumagem fresca, firme e sedosa do Seu dorso. Tocar naquele corpo, tão compacto e poderoso, dá-me um arrepio. O Senhor inclina a cabeça para o lado; os Seus olhos escuros encontram os meus e fazem-me uma pergunta. Eliezer, digo-Lhe. Mas o meu pai chama-me Lazarus. Ele baixa as pálpebras, mostrando que entendeu. Será que nesse momento Ele e eu passamos por uma porta invisível? Agora, parece que residimos no nosso próprio tempo e espaço. Só uma década mais tarde, hei de dar voz aos meus sentimentos e transpô-los em palavras, que serão as seguintes: a nossa cumplicidade silenciosa criou uma ilha para ambos e, à volta dessa ilha, encontra-se tudo o que já fui outrora, e tudo o que nunca mais serei.
E, de repente, a cena muda... Estou de pé na muralha defensiva de pedra que circunda Natzeret. O Senhor, empoleirado no meu ombro direito, segura-se com firmeza, cravando-me na carne as Suas garras curvas e cor de ferrugem. Vão chegar invasores do outro lado do rio Jordão e todos teremos de estar prontos para lutar. É essa a mensagem que leio nos Seus olhos ansiosos e fixos na aurora cor de bronze que se espraia sobre a Galileia. Perscruto a silhueta das colinas que rodeiam a nossa vila, tentando descobrir os arqueiros e lanceiros de um exército estrangeiro, e nesse momento vejo uma espiral de chamas desdobrar-se no horizonte. Em breve se lhe seguem outras, e então entendo que me enganei, não é o Sol, ainda oculto, que anuncia o seu regresso; é o inimigo que incendeia os nossos pomares. Soltando um grito de guerra, o Senhor levanta voo e ergue-Se no céu com um restolho de asas que se abrem. Uns momentos mais tarde, ao voar em flecha sobre as chamas, o calor que delas emana transfigura-o, aumentando em dez vezes o seu tamanho e logo a seguir de novo noutras dez. Mas, num ápice, ei-Lo que desaparece por detrás de uma longínqua cordilheira de montes em chamas. A minha volta espraia-se um mar de fogo e fumo. Volta, vem ter comigo!, grito em desespero. Não quero morrer aqui! Atrás de mim, ouço uma voz de homem chamar-me pelo nome». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «Agora receio que os mais ardentes seguidores de Yeshua e eu acabemos por nos tornar inimigos, porque vim a saber que muitos deles ouvem o clangor do “shofar” da divindade em cada sílaba que pronunciou»

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«Talvez a intenção de Yeshua fosse simplesmente instalar-se no meu sonho como forma de juntar os nossos dois caminhos. Ao fim e ao cabo, numa idade ainda muito vulnerável, ele tivera de carregar o fardo de tudo aquilo que não se atrevia a revelar sobre o seu mundo interior e precisava de um companheiro que lhe ouvisse as confissões sem o julgar com severidade ou trair os seus segredos, e que estivesse disposto a atravessar a pé com ele as águas mais lodosas e traiçoeiras da Torá. Porém, e dado o seu conhecimento de tudo o que permanece escondido dos olhos dos restantes, talvez ele tenha querido sugerir que criou o meu sonho e o colocou na mente adormecida do rapazinho de oito anos que eu fora. Suponho que até seja possível que tenha querido fazer-me crer que recuara no tempo vinte e oito anos e o implantara em mim, de forma a parecer que eu, já em miúdo, fora capaz de profetizar os acontecimentos mais traumáticos da minha idade adulta. Se eu acreditasse que ele conseguira prever todo o âmbito e toda a forma de que se revestiria não só a vida dele como a minha, então, também teria de aceitar a inquietante noção de que ele já sabia há algum tempo onde a nossa jornada acabaria. Sabia que eu seria forçado a fugir com os meus filhos de um lar afogado em sangue, perseguido tanto pelo faraó como por Zadok, apertando nos meus braços trémulos a sua derradeira dádiva para mim. Onde morreres também eu morrerei, e aí serei sepultada. Foi a promessa feita por Rute, a Moabita, à sua sogra, Naomi, e, embora a fidelidade da jovem sempre me tivesse comovido, foi só quando murmurei as suas palavras de mim para comigo, no topo de uma colina estéril, enquanto o meu olhar se estendia por sobre o braço transversal da cruz de Yeshua e abarcava tudo o que a partir daí nunca viria a acontecer, que me apercebi de que era bem possível que ela considerasse um acto de bondade o facto de o Senhor pôr termo à sua vida.
Não gostaria de pensar que Yeshua me introduziu com cuidado, e ao longo de décadas, na intricada teia dos seus planos, simplesmente para no fim a puxar até ao último fio e deixar-se ficar, nu e destroçado, perante os seus executores. E, não apenas por causa das décadas de esperança que eu depositara nele. Para dizer a verdade, resisto a essa ideia porque descobri que não constitui qualquer consolo saber que há homens que conseguem fazer o que parece impossível a todos nós, feitos que desafiam qualquer tentativa de compreensão. Cuidado com os homens que não veem nenhum mistério quando olham para o seu reflexo. Foi o meu pai que me disse isto. Falava de um tirânico prefeito romano desse tempo, mas acreditava que todos nós somos mudados para melhor, tornamo-nos mais humildes e misericordiosos, no mínimo, quando reconhecemos que a nossa identidade tende a escapar-nos de cada vez que lutamos para a apanhar. E se o eu que dirige as nossas acções não for fixo e permanente, então, como poderemos alguma vez ter a certeza de quem somos e do que Deus nos pediu para fazer? Agora receio que os mais ardentes seguidores de Yeshua e eu acabemos por nos tornar inimigos, porque vim a saber que muitos deles ouvem o clangor do shofar da divindade em cada sílaba que pronunciou. Seria ele realmente um faraó ou rei judeu, como queriam fazer-nos acreditar? Se ao menos eu tivesse entrevisto a possibilidade de os romanos virem a prendê-lo... Então, tê-lo-ia pressionado a fugir comigo da nossa terra natal, e nunca teria aceitado um não por resposta. Mas no final, meu neto adorado, não houve tempo para súplicas nem discussões, o que, mais uma vez, é sinal de que nunca estamos verdadeiramente em casa neste mundo. Embora talvez o próprio Senhor desejasse ter mais tempo. Seria heresia supor que sim? Nesse caso, também já não me importa; três décadas de saudade e arrependimento deram-me o direito de te falar com franqueza.
Querido Yaphiel, para poder começar a escrever nesse pergaminho que agora tens nas mãos, comprei hoje de manhã tinta numa tenda do teu mercado favorito, o preferido dos vendedores de flores da nossa ilha e que se anima de vida todas as madrugadas, ao lado do templo de Atena. Quando cheguei a casa tranquei-me no meu quarto de orações secreto. consegues ver-me lá? Neste preciso momento, estou sentado no mosaico de Yeshua, sob o terebinto que cresce no centro do meu mundo. Imagina a ponta do meu cálamo a desenhar estas palavras. Imagina-me a tentar falar-te sobre assuntos que nunca poderão inscrever-se com facilidade ou desenvoltura num rolo de papiro. Imagina-te de pé no ponto final de cada frase. Estou decidido a não deixar nada por dizer, porque mereces que te dê uma explicação cabal sobre o motivo por que fui tão incrivelmente indelicado contigo no outro dia. E também porque me apercebi de que chegou finalmente a altura de te falar acerca do teu lugar na minha vida, há tanto tempo mantido em segredo, o que, por sua vez, significa que tenho de te falar sobre o homem que quiseste conhecer da última vez que estivemos juntos. De Yeshua. Ele é o nosso alef e o nosso tav, e todas as letras entre estas duas, porque ele é o autor da dádiva, aquele que nos reuniu, se conseguir ganhar coragem para tal, pedir-te-ei igualmente um favor que não posso pedir a mais ninguém. Um aviso: o teu avô não é o homem que julgavas que era. Significará isso que não és bem o jovem que sempre pensaste ser? Talvez. Só tu, meu filho, poderás ter a certeza. Pede e o teu desejo será concedido. Procura e encontrarás. Bate à porta e ela abrir-se-á para ti. In Yeshua ben Yosef
In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.

Cortesia de PEditora/JDACT