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terça-feira, 24 de março de 2020

Guia histórico das Ordens Religiosas em Portugal Das Origens a Trento. Um projecto de investigação. Bernardo V. Sousa, Maria F. Andrade, Maria IC Pina, Maria LOS Santos». Conscientes das dificuldades de abordagem desta temática, para a qual os estudos disponíveis são escassos, não estamos ainda certos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O projecto que agora apresentamos, aprovado pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), no âmbito do POCTI (Programa Operacional do Quadro Comunitário de Apoio III, 2000-2006) e financiado pelo prazo de dois anos (Novembro de 2001 a Novembro de 2003), consiste na elaboração de um guia histórico das ordens religiosas em Portugal que, em termos cronológicos, deverá ter início com o monaquismo pré-beneditino e terminar com as últimas fundações monástico-conventuais que se deram em Portugal Continental e Ilhas até ao final do reinado de Manuel I (1521). Trata-se de uma iniciativa coordenada por Bernardo Vasconcelos Sousa e que tem como instituição de acolhimento o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. A equipa de investigação é constituída por Maria Filomena Andrade, Isabel Castro Pina e Maria Leonor F. O. Silva Santos.

Conscientes das dificuldades de abordagem desta temática, para a qual os estudos disponíveis são escassos, não estamos ainda certos de que a informação que possamos vir a recolher nos permita dar início ao trabalho com um capítulo autónomo sobre o monaquismo pré-beneditino. No entanto, de forma mais ou menos desenvolvida, este será o ponto de partida da nossa investigação. Quando da candidatura deste projecto ao concurso Sapiens proj99, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, em Janeiro de 2000, a responsabilidade da investigação estava a cargo de José Mattoso. Devido à alteração de residência do prof. Mattoso, para Timor Lorosae, por período indeterminado, a coordenação do trabalho foi transferida para o seu actual responsável, Bernardo Vasconcelos Sousa.

Justificação
A afirmação de que as ordens religiosas tiveram grande importância na formação de Portugal é uma evidência histórica. Todavia, é preciso reconhecer que existe uma generalizada falta de conhecimentos precisos e bem fundamentados acerca das suas denominações oficiais e vulgares, dos seus respectivos ramos, dos lugares de implantação das suas casas, das datas de fundação, das sucessivas reorganizações e reformas, dos campos de actuação, diferenças de organização e objectivos, da sua articulação com o clero diocesano e os vários níveis de autoridades eclesiásticas, da sua relação com o poder civil, enfim de todos os dados históricos que permitem conferir àquela certeza algum conteúdo efectivo. Esta carência de informações objectivas dá lugar a confusões, interrogações sem resposta e mesmo a erros grosseiros em inúmeros casos em que se esperaria o contrário. Tais lacunas são particularmente sensíveis para a época medieval e para o princípio da época moderna, que foi, afinal, o período em que as ordens religiosas tiveram maior importância cultural, social, económica e política. Ora o contacto com monumentos e obras de arte deixados em todo o território nacional pelas ordens religiosas é uma experiência de todos os dias. A curiosidade do público pelo património artístico fica muitas vezes insatisfeita pela falta de respostas às suas interrogações. Os responsáveis pelos programas de turismo cultural e as câmaras municipais que desejam valorizar o património local não encontram disponíveis os dados necessários para o seu trabalho nesta área. O mesmo sucede, pelo menos em alguns casos, com os organismos centrais responsáveis pela preservação e restauro. Recorre-se com frequência ao Guia de Portugal iniciado por Raul Proença, mas esta obra, tão importante a vários níveis, apresenta, neste campo, várias lacunas, equívocos e até alguns erros. Noutro sector específico do património cultural, o dos arquivos e bibliotecas, sente-se também a falta de um instrumento prático e actualizado que contenha informações de base necessárias aos arquivistas e bibliotecários que têm de arrumar, classificar e valorizar a documentação de origem monástica e conventual e de a disponibilizar para os seus leitores. Com efeito, os espólios documentais e bibliográficos das ordens religiosas incorporados nos depósitos do Estado ou dispersos. Trata-se de uma época que as falhas da crítica, patentes em muitas crónicas monásticas dos séculos XVII e XVIII, semearam de confusões e de informações deturpadas. Estas têm sido parcialmente corrigidas, recentemente, em trabalhos dispersos, alguns deles muito especializados, e que por isso não atingem o grande público. Actualmente, contudo, a publicação pelo Círculo de Leitores do Dicionário e da História Religiosa de Portugal, contribuiu para fazer uma primeira síntese destes trabalhos e para disponibilizar novas reflexões sobre a história religiosa, que se aguardavam desde a publicação da obra de referência que é a História da Igreja em Portugal, de Fortunato Almeida, cujo volume para a época medieval data de 1910.
Por mãos de particulares só podem ser devidamente classificados e valorizados se forem correctamente identificados os organismos produtores e se forem organizados de forma a que se possam aí encontrar os dados pertinentes para a investigação e a reconstituição da sua história. Caso contrário, a parte monástica dos arquivos públicos e privados corre o risco de se tornar um monte informe de documentos descontextualizados e de difícil utilização pelos investigadores. Parece, pois, evidente a necessidade de proceder a um levantamento sistemático das informações de base acerca das ordens religiosas em Portugal, de forma a responder às necessidades aqui enunciadas e a permitir aos estudiosos o aprofundamento das suas investigações através da referência a bibliografia especializada e da indicação de depósitos arquivísticos pertinentes para o seu trabalho. Conciliando práticas científicas, atentas à crítica das fontes, com processos de tratamento informático que potencializam os dados recolhidos, colocando-os ao nível de tratamento desejável para futuras intervenções e actualizações, será possível contribuir para renovar as perspectivas de estudo e de abordagem dos institutos religiosos, alicerçando assim uma visão mais ampla e rigorosa da presença da Igreja em Portugal, durante a Idade Média». In Bernardo V. Sousa, Maria F. Andrade, Maria IC Pina, Maria LOS Santos, Guia histórico das Ordens Religiosas em Portugal Das Origens a Trento. Um projecto de investigação, FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), POCTI (Programa Operacional do Quadro Comunitário de Apoio III, 2000-2006, Wikipédia.

Cortesia de FCT/POCTI/JDACT

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… a concordar com Ângela Beirante quando concluiu, a partir dessas referências documentais que a valorização de Marvila parece posterior à Reconquista»

Cortesia de wikipedia e jdact

A expansão urbana nos finais do século XII. A densificação construtiva no planalto de Marvila
«(…) De resto, mau grado a precocidade da referência à paróquia de Marvila, em 1186, é indiscutível que nos decénios seguintes se observava ainda nas proximidades deste templo uma malha cadastral frequentemente interpolada por espaços vazios, denunciados pelo topónimo Pedreira ou pela doação de um ferragial em 1251, localizado a Este da igreja paroquial. Estes dados não permitem perspectivar a elevada densidade construtiva que seria espectável numa antiga medina. Pelo contrário, levam-nos a concordar com Ângela Beirante quando concluiu, a partir dessas referências documentais que a valorização de Marvila parece posterior à Reconquista. O registo arqueológico também não sustenta uma intensa ocupação do espaço nos séculos XI e XII. Resumindo-se praticamente à identificação de silos, que no momento em que a sua funcionalidade primária se esgotou foram colmatados com sedimentos que embalaram materiais de cronologia islâmica, a sua presença deve ser também encarada com precaução. Se em 2002 se verificava que no planalto de Marvila (…) nunca foram encontradas quaisquer estruturas de carácter habitacional ou outro, para além das fossas escavadas na rocha, a que habitualmente se chamam silos, as publicações posteriores sobre escavações na cidade não alteraram esse panorama (um artigo inserto na colectânea Santarém e o Magreb refere uma cisterna islâmica na Praça Sá da Bandeira sem no entanto apresentar qualquer comprovação material ou estratigráfica da cronologia proposta).
A permanente glosada aptidão cerealífera das planícies aluviais ribatejana e a sua posição, no cruzamento de importantes vias terrestres e fluviais dinamizariam em muito a propensão comercial da cidade, especialmente potenciada durante os primeiros séculos de domínio islâmico, período em que a linha de costa sofreu vários raides marítimos de que são exemplos as incursões normandas, enquanto a relativa interioridade de Santarém a tornou menos exposta a esta conjuntura de instabilidade militar (situação entretanto normalizada pela organização das defesas marítimas pelos califas omíadas nos finais do século X). Nesta perspectiva a frequência de covas de pão poderá significar não uma ocupação residencial generalizada mas antes a adscrição de amplas áreas ao armazenamento de produtos agrícolas.
A julgar pelos contextos arqueológicos estudados e já publicados, verifica-se de facto que nas duas centúrias que antecederam a conquista de Afonso Henriques, muitos silos foram abandonados, o que poderá denunciar um decrescimento dos excedentes agrícolas armazenados na vila. Uma explicação razoável para este processo seria a afirmação crescente da função comercial de Lisboa que passaria a redistribuir as produções do termo de Shantarin, embarcadas directamente na Ribeira. Muito embora a verificação desta tese só possa ser realizada com um estudo comparativo, que se afasta do propósito deste artigo, enquadra-se perfeitamente na imagem transmitida pelas fontes geográficas islâmicas coevas, que ilustra um processo de hierarquização dos pólos urbanos do Vale do Tejo, com vantagem para a cidade do estuário durante os séculos XI e XII.
Em conclusão, no actual patamar da investigação, cremos que o povoamento durante época islâmica estaria concentrado entre a Alcáçova e a necrópole agora identificada, enquanto a ocupação no planalto de Marvila, a existir, seria certamente muito incipiente. Os quatro a seis hectares ocupados pela cidade alcandorada, permitem perspectivar uma urbe de reduzidas dimensões (foi já sugerida uma área de 30 hectares, dos quais dois terços corresponderiam ao planalto de Marvila) quando comparada com as suas congéneres plenamente mediterrânicas como Sevilha ou Huelva, mas perfeitamente condizente com o seu posicionamento na periferia geográfica e política da rede urbana do Garb Al-Andaluz. E seriam ainda complementados pela área ocupada pela Ribeira. Muito embora seja necessário sistematizar as informações relativas ao arrabalde portuário, a sua importância para a dinâmica da urbe é revelada pela construção de uma muralha em época islâmica, sendo verosímil que a contabilização da sua malha cadastral faça triplicar o valor global (na Baixa Idade Média estendia-se por 10 há).
Como bem realçou Mário Viana é nesta dicotomia fortaleza/porto que a feição urbana da cidade deve ser entendida, afirmando-se como centro de consumo e plataforma de redistribuição comercial dos proventos da exploração agrícola, numa área cujas potencialidades de rendimento dinamizavam a estruturação de uma densa malha de pequenos núcleos de povoamento, glosada pelas fontes árabes e sugerida pela toponímia e que a arqueologia começa, ainda que timidamente, a comprovar (recentemente foi identificado um núcleo de povoamento rural islâmico junto a Muge, que se terá estruturado no século X). Este esquema de povoamento, com forte humanização dos campos no hinterland da cidade, poderia mesmo explicar a tardia urbanização de Marvila, só possível com um crescimento demográfico pós-reconquista, alimentado por uma eventual concentração populacional no centro urbano (a apropriação por parte dos monarcas da primeira dinastia de grandes parcelas de terreno junto ao Tejo poderia dinamizar o abandono de pequenos povoados estruturados em torno da sua exploração. Sobre as quezílias em torno das lezírias ribatejanas) e pela documentada chegada de colonos setentrionais, certamente atraídos pela produtividade das aluviões do Tejo mas também pela proximidade com as urbes meridionais que ainda hasteavam a bandeira do Crescente, repletas de recursos ao alcance de uma cavalgada estival». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… dentro nos muros da Villa, nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, mas antes se susteve sempre nos arrabaldes da Villa em palanques…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Assim, as tropas muçulmanas terão acampado no planalto de Marvila, en la montaña que domina a Santaren y esta contigua a ella, destruindo algumas construções no exterior das muralhas e preparando a partir daí o assédio às fortificações da cidade. Depois atacaram o complexo de Alpran, que transpuseram sem grande dificuldade, sendo que os seus defensores se salvaram in extremis, recolhendo ao interior da muralla de la alcazaba. A memória cronística portuguesa de Quatrocentos, muito embora apresente um versão diferente dos sucessos militares, também não nos afasta dessa interpretação registando que no contexto desse ataque o rei Sancho se fortificara não dentro nos muros da Villa, nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, mas antes se susteve sempre nos arrabaldes da Villa em palanques, e estancias, que com madeiras somente afortalezou. Consideramos que os primeiros muros mencionados por Rui de Pina correspondem a Alporão, sendo claro que a Alcáçova é um espaço militar individualizado materialmente, mas que não teria castelo. Já os palanques mencionados poderão significar uma reactivação da barbacã de terra batida almorávida, reforçada por estruturas em materiais perecíveis.
Verifica-se portanto que constituem informações absolutamente coincidentes com o sistema defensivo construído entre 1111 e 1147 descrito na DES. Registe-se também que ambas as descrições da ofensiva almóada relatam algumas estruturas habitacionais no planalto de Marvila, embora sejam unânimes em considerá-lo como arrabalde. Os desenvolvimentos posteriores à incursão almóada de 1184 são concordantes com a imagem esquemática do espaço urbano e peri-urbano fornecida pelas fontes já citadas. Muito embora a cidade tenha resistido, as fragilidades reveladas pelo sistema defensivo terão compelido o monarca Sancho I a reestruturá-lo (a fonte árabe afirma que transpuseram a linha de Alpram, enquanto as fontes cristãs oferecem a versão de que D. Sancho aguentara no palanque até à chegada de reforços. Da síntese destes dois testemunhos, a fragilidade da linha de Alporão sai relevada: o monarca português sentiu necessidade de reforçar a defesa no seu exterior). Nesse sentido se deverá entender a implantação topográfica do conjunto claustral de S. João de Alporão, junto das portas homónimas, reforçando portanto a sua protecção com um contingente de Hospitalários que na década de 80 do século XII eram presença cada vez mais frequente e eficaz nas campanhas militares portuguesas.
No entanto, a premissa fundamental seria obstaculizar a penetração de comitivas inimigas no planalto de Marvila, pelo que se iniciara a edificação de uma terceira linha de muralhas como demonstram as referências ao muro de Marvila em 1191 e às portas de Atamarma em 1218 e de Manços em 1232, sucessão cronológica que parece comprovar que este novo projecto construtivo se constituiu como uma reacção à aparente facilidade com que os almóadas assediaram a linha de Alporão e ameaçaram a Alcáçova.

A expansão urbana nos finais do século XII. A densificação construtiva no planalto de Marvila
Na sequência das informações documentais e arqueológicas que fomos tratando parece-nos prematuro defender que Marvila se tenha afirmado como centro cívico, religioso e comercial durante o domínio muçulmano. Em primeiro lugar pela conhecida aversão a vizinhar com áreas de necrópole que se encontrava, durante o século XI senão em utilização, certamente visível a cerca de 120 metros. Depois porque nos parece inverosímil que o poder almorávida deixasse sem protecção a zona mais nobre da cidade. Por último, as crónicas cristãs e árabes são consensuais em afirmar que os combates de 1184 decorreram num espaço de arrabalde, realçando a sua exterioridade face ao núcleo mais urbanizado». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «Mesmo não levando o carácter ofensivo deste castelo à letra, é indubitável que as guarnições de Leiria garantiam a defesa de Coimbra…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Recuperada pelos Almorávidas em 1111, a estratégia de Afonso Henriques durante os decénios seguintes, nomeadamente a fortificação de Leiria em 1135, anunciava um ataque eminente a Shantarin (de acordo com a Crónica de Afonso VII, a fortificação teria como objectivo  combater tanto Santarém como Lisboa e Sintra e outros castelos dos Sarracenos que estão na região. Mesmo não levando o carácter ofensivo deste castelo à letra, é indubitável que as guarnições de Leiria garantiam a defesa de Coimbra, mas podiam também assediar facilmente a linha do Tejo).
O relato da tomada de Santarém undecentista (De expugnatione Scallabis, doravante DES), regista indubitavelmente a reacção a essa conjuntura por parte do poder almorávida que criara em Alporão em data anterior a 1147, uma linha protectora composta por muralhas, torres e um baluarte, possivelmente antecedido por uma barbacã em terra batida (o governador almorávida ordenara o aterro dos fossos antigos até acima, à laia de um monte, com terra trazida às costas dos cativos), edificada com o entulhamento de um complexo defensivo anterior composto por fossos ou estruturas positivas (as leituras do documento latino não são consensuais, sendo que alguns autores referem entulhamento de fossos e outros de muros. Embora não dominemos o latim, parece-nos mais provável o transporte de terra para o interior de uma estrutura negativa, do que para cobrir uma muralha anterior. Adicionalmente, o acompanhamento arqueológico das ruas João Afonso\ 1º de Dezembro, registou duas estruturas negativas de grandes dimensões, escavadas no sentido Este-Oeste, colmatadas em período tardo-islâmico, uma delas junto da igreja de Marvila. Muito embora afastadas de Alporão, podem ser vestígios de um primitivo sistema defensivo que dificultava a progressão pelo planalto. Agradecemos a informação a Helena Santos que também coordenou esta intervenção). Este complexo defensivo foi portanto erigido poucos metros a oriente da área da intervenção arqueológica e poderá relacionar-se directamente com o terminus das inumações nesse espaço, que passaram a estar localizadas no interior do perímetro amuralhado. No entanto, reafirmamos que não foram registados indícios de urbanização anteriores à conquista cristã, o que sugere uma inexistência ou uma reduzida densidade construtiva na área, pelo que esta segunda linha de muralhas, mais do que defender contingentes populacionais significativos, teria como objectivo imediato criar um primeiro impedimento à progressão de beligerantes nas cotas mais elevadas da urbe.
Da mesma maneira que o campo cristão não esquecera que Afonso VI só conseguira tomar a cidade pela fome, o governador almorávida consideraria fundamental impedir que um eventual exército cristão levantasse cerco junto dos muros das Alcáçova. De facto, se os sitiados se circunscrevessem aos 4 hectares da alcáçova, para além de mais facilmente serem atingidos por projécteis arremessados do exterior, o acesso a recursos alimentares seria dificultado: o relevo envolvente dificultaria sortidas esporádicas e o espaço disponível para o armazenamento de víveres num momento prévio ao cerco seria bastante reduzido (nos finais da década de 80 foram escavados 26 silos islâmicos na alcáçova em apenas 36 metros quadrados, o que demonstra a concentração destas estruturas de armazenamento. Pelo menos neste ponto da Alcáçova estavam esgotadas as capacidades de armazenamento, não sendo possível abrir novas estruturas sem interceptar as existentes).
Os dados disponíveis parecem confirmar esta linha de interpretação e permitem perspectivar que em 1147 existiriam duas linhas defensivas autónomas. É certo que a DES regista que Afonso Henriques, investindo pela direita em direcção às portas de Alporão acabou por entrar pela porta da cidade, com muito maior segurança, o que sugere a existência de uma só cintura defensiva, sem separação material entre aquela entrada e a Alcáçova, tomada assim pela ardilosa penetração de uns poucos guerreiros. No entanto, cremos bastante plausível que o panegírico de um monarca que escorava o seu prestígio na proficiência militar, tendesse a abreviar os factos que conduziram à captura da cidade, concentrando-se exclusivamente na acção bélica mais espectacular, olvidando uma eventual entrega pacífica da Alcáçova (de acordo com José Mattoso, a rapidez da conquista, a sobrevivência de muitos habitantes, que rumaram posteriormente a Lisboa e o fraccionamento interno da sociedade local, indiciam que poderá ter havido conivência da parte de alguém da cidade, facilitando a entrada de Afonso Henriques), que se encontrava indiscutivelmente cercada por muros (as derrocadas do esporão, que reduziram sucessivamente a sua área, impedem a identificação rigorosa de um traçado romano, mas certamente estaria já cercada em período baixo-imperial), como nos demonstra a descrição da ofensiva almóada de 1184». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «Os seus aspectos formais são absolutamente consonantes com os rituais prescritos pela religião do Corão, uma vez que os cadáveres foram depositados em decúbito lateral direito…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Dada a implantação tipificada para as necrópoles islâmicas, invariavelmente no exterior da cidade dos vivos (as excepções admitidas estavam reservadas a personagens de elevado estatuto social, como elementos da família real ou em situações de assédio militar à cidade), é seguro que a zona a este de Alporão se manteve vazia de construções durante os primeiros séculos após a integração da cidade nos domínios muçulmanos uma vez que as inumações continuaram, interceptando frequentemente os contextos funerários anteriores. Os seus aspectos formais são absolutamente consonantes com os rituais prescritos pela religião do Corão, uma vez que os cadáveres foram depositados em decúbito lateral direito, no interior de simples fossas escavadas na rocha, não se detectando qualquer espólio votivo associado.
No entanto, se bem que todos os enterramentos identificados partilhassem as características mencionadas, verifica-se que alguns deles, restritos à secção Norte da área intervencionada, têm uma orientação ligeiramente desfasada da posição canónica, estando orientados Norte/Sul, com a face virada a Nascente. Já no quadrante sul e sueste da área intervencionada, todos as sepulturas estão dispostas na direcção NE/SW que no Al-Andaluz garantia um correcto alinhamento com a quibla (a sua direcção astronómica encontra-se em torno dos 100 graus, mas era considerado válido qualquer ponto no quadrante SE). Obviamente que os períodos de transição tendem a originar situações de heterodoxia, quer pela natural vigência de soluções de continuidade, quer pela reduzida intensidade dos novos comportamentos e opções culturais. O incremento da actividade arqueológica das últimas décadas tem-se revelado fundamental para revelar, ainda que timidamente, o conspecto material dessas alterações. A mesma hesitação na orientação dos enterramentos de período islâmico tem sido referenciada em assentamento rurais, estruturalmente menos permeáveis às mudanças culturais, como no sítio do Vale do Bouto, Loulé, onde algumas inumações em decúbito lateral continuaram a ser orientadas E-W, mas também em povoações marcadamente urbanas como Mértola, onde 13% dos esqueletos do Rossio do Carmo estão, à semelhança dos identificados em Santarém, depositados no sentido Norte-Sul.
Em ambiente urbano, o desajustamento da orientação nos primeiros momentos da presença islâmica pode ser explicado pela conversão de templos anteriores em mesquitas, o que implicava um desajustamento da quibla face à sua direcção astronómica e cartográfica. É certo que frequentemente o mirab era colocado na parede Sul por una aversion a orar hasta Este (a imitar a los cristianos), mas possivelmente, em especial nas cidades mais afastadas dos centros políticos e religiosos do Al-Andaluz e/ou junto de comunidades recentemente islamizadas, as igrejas poderão ter sido utilizadas sem alteração, o que explicaria a orientação N/S de algumas das sepulturas de Santarém e também de Mértola. Só a construção ex-novo de templos permitiria orientá-los perfeitamente para Meca pelo que a construção da mesquita aljama de Santarém pelo califa Hisam II, no século X, poderá ter contribuído para normalizar o ritual funerário, difundido definitivamente a solução canónica por todos os necrotérios da cidade.
Este espaço de necrópole foi abandonado ainda durante o domínio islâmico, uma vez que vários enterramentos foram interceptados por estruturas negativas, correspondendo certamente a silos, posteriormente reconvertidos em lixeiras e entulhados com despejos domésticos. Muito embora seja necessário sistematizar o estudo de todos os materiais arqueológicos recuperados no seu interior, a datação contextual da última utilização de algumas estruturas aponta para um período entre a segunda metade do século XI e a centúria seguinte.

A reorganização funcional nos séculos XI-XII
Consideramos que amortização da função funerária neste espaço não estará relacionada com um processo de expansão do tecido urbano, mas antes com os equilíbrios geoestratégicos observados no extremo ocidental da Península e que colocaram Santarém, precisamente nessa cronologia, na linha da frente dos confrontos entre as unidades políticas que se digladiavam pela sua administração. O sinal de alerta definitivo para o campo muçulmano terá sido a integração durante 18 anos da cidade nos domínios leoneses». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma outra representação da Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa: a tábua do martírio de S. Sebastião, de Gregório Lopes. Luísa Trindade. «… onde pormenores do Paço da Ribeira são por diversas vezes replicados, a orientação da escada do Paço, na tábua do Arrastamento pelas ruas, surge invertida ou espelhada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A representação da Rua Nova dos Mercadores, todavia, não terá pretendido ser um retrato fiel do espaço a que alude já que os edifícios, fugindo ao plano linear, conformam uma ampla praça em U, ou, de forma mais precisa, um terreiro, cujo especial alongamento perspéctico foi já cabalmente explicado por Joaquim Caetano, como fazendo parte da solução encontrada por Gregório Lopes para corrigir os efeitos da forma enviesada como, no corredor estreito e curvo da Charola, o observador acedia ao quadro. A composição do Martírio de S. Sebastião seria assim o resultado da utilização livre de um conjunto de referências, algumas longínquas, outras coevas e familiares ao pintor, no que não seria, aliás, um recurso invulgar na obra de Gregório Lopes, como foi sublinhado por Joaquim Caetano ou Paulo Pereira: na Degolação de S. João Baptista, de cerca de 1536, fica bem patente a colagem de referências várias: a igreja do Santo Sepulcro, na sua iconografia genérica de já longa tradição, planta centrada, corpo superior rasgado por duas janelas, surge contaminada por dois edifícios portugueses de manifesto impacto à época: a Galeria do Paço da Ribeira, em Lisboa, e a parte superior da fachada da igreja da Graça, erguida por Nicolau Chanterene apenas um ano antes, em Évora, cidade onde a corte permaneceria no decorrer de quase toda essa década.
São citações livres e abreviadas, frequentes no grupo de pintores lisboetas de Quinhentos. Espaços e arquiteturas que se manipulam, sujeitando-os à composição geral e à máxima eficácia narrativa. Por vezes subtis e discretas. Veja-se como, no grupo de pinturas dedicadas aos Santos Mártires de Lisboa onde pormenores do Paço da Ribeira são por diversas vezes replicados, a orientação da escada do Paço, na tábua do Arrastamento pelas ruas, surge invertida ou espelhada; já na Chegada das Relíquias de Santa Auta ao Mosteiro da Madre de Deus, a veracidade da portada da igreja tem por contraponto a localização fictícia do Tejo, não à frente como verdadeiramente acontece, mas atrás, única forma de tornar visível essa proximidade ao rio, deixando simultaneamente livre o primeiro plano para a Santa e o cortejo processional. Mais sugestivo, por constituir justamente um estratagema idêntico ao que Gregório Lopes adopta, se bem que pela forma inversa, é a representação do Paço da Ribeira no fólio 25 do Livro de Horas dito de D. Manuel, de António de Holanda, certamente ajudado por outros pintores, porventura até o próprio Gregório Lopes, como foi já aventado. A figuração de toda a estrutura monumental do Paço, desde o torreão ao corpo norte onde se concentrava o grosso dos aposentos da corte, passando pela longa varanda, obrigou a um rebatimento horizontal, ou planificação das frentes construídas em ângulo recto. No martírio, ao contrário, um só plano surge dobrado duas vezes, assim configurando as três frentes do terreiro em U. Mas voltemos às duas pinturas, a portuguesa e a flamenga: a similitude entre ambas funciona como confirmação recíproca, sobretudo porque nada parece ligá-las entre si, cronologia, autoria ou comitente. O único elo é o tema: ambas remetem, ainda que uma com total protagonismo, outra de forma discreta, para um espaço real e concreto: a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa, nos finais da década de 30 e ao findar do século XVI. Esta nova face da Rua Nova dos Mercadores levanta, porém, uma outra questão, pois desde a Exposição da Arte Sacra Ornamental, realizada em Lisboa em 1895, que a referida artéria tinha rosto: a representação do fólio 130 do Livro de Horas dito de D. Manuel, já aqui referido a propósito do Paço da Ribeira. A imagem integra o conjunto que ilumina o Ofício dos Mortos, de há muito tido como iconograficamente complexo, mais ainda após a profunda revisão operada por Vasco Graça Moura ao identificar, no conjunto, episódios de duas exéquias distintas: a trasladação do corpo de João II de Silves para a Batalha, em 1499, e as de Manuel I, ocorridas em Dezembro de 1521. Apesar das controvérsias geradas, um aspecto é consensual: os espaços urbanos que preenchem as tarjas representam arruamentos e edifícios de Lisboa. Na iluminura do fólio 129, o cortejo fúnebre de D. Manuel abandona o Paço da Ribeira pelas escadas que no ângulo davam acesso à sala grande e, desenhando uma curva de 180 graus, passa debaixo do Arco dos Paços, situado no extremo norte da extensa varanda. Daí, a procissão nocturna seguiria em direcção ao Mosteiro dos Jerónimos onde, de acordo com a vontade expressa do monarca, o seu corpo seria sepultado». In Luísa Trindade, Uma outra representação da Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa: a tábua do martírio de S. Sebastião de Gregório Lopes, Revista Medievalista, Nº 20, JUL-DEZ, 2016, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Uma outra representação da Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa: a tábua do martírio de S. Sebastião, de Gregório Lopes. Luísa Trindade. «Era, de facto, o nervo comercial de Lisboa, nela se concentrando lojas de panos e sedas de todas as sortes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Rasgada no reinado de Afonso III e reformulada algumas décadas depois por Dinis I, que nela concentrou o grosso do seu investimento imobiliário, a Rua Nova, invulgarmente ampla e rectilínea, sobretudo no contexto de uma cidade onde a marca islâmica seria então ainda vincadamente presente, foi, durante toda a Idade Média, a milhor e mais prinçipall da dicta çidade, para usarmos o testemunho de Afonso V. O seu calcetamento, acto então ainda muito circunscrito e pouco comum, foi ordenado por João II que seguiu a obra com particular interesse, não só mandando fazer uma planta pyntada em papell de 6 metros de comprimento, a partir da qual ele e os seus colaboradores mais próximos discutiam o andamento da obra, como também encomendando a pedra na região do Porto, seguindo o modelo que João I usara na Rua Formosa, acréscimo imenso de esforço e de custo só justificáveis pela excepcionalidade da rua no panorama urbano de então
Hieronymus Münzer, João Brandão de Buarcos ou Damião de Góis são apenas alguns dos que a enalteceram por motivos diversos: pela largura ímpar, atingindo quase 9 metros; por ser ornada de ambos os lados de altos edifícios, todos de três e quatro sobrados, ou por nela se juntarem todos os dias, comerciantes de todas as partes e povos do mundo. Era, de facto, o nervo comercial de Lisboa, nela se concentrando lojas de panos e sedas de todas as sortes, tendas de especiarias de todo o género, boticas ou livreiros. Nos sobrados de cima, continuando a seguir João Brandão, viviam inúmeros mercadores, homens muito abastados e de grossíssimas fazendas, dinheiro e trato. O elevado número de escravos, que levou Baccio da Filicaia a caracterizar Lisboa como um jogo de xadrez, tantos os brancos quantos os negros, as chamadas negras de canastra que, transportando os despejos domésticos à cabeça, espantavam os visitantes, ou a forma como os portugueses de bem trajavam, com longas capas negras que lhes deixavam apenas os braços de fora, como relata Jan Taccoen em 1514, são uma nota dominante nesta, como noutras representações das zonas centrais e ribeirinhas da cidade de Lisboa
Todavia, mais do que uma análise detalhada da obra ou do ambiente cosmopolita que evoca, importa aqui referir como o ângulo representado, uma vista frontal do casario, permite, pela primeira vez, observar em toda a sua especificidade a famosa Rua Nova dos Mercadores. Os edifícios de quatro e cinco pisos, ou de três e quatro sobrados para usar a terminologia da época, com lojas e sobrelojas na galeria térrea formada por esteios de pedra e madeira, mais de cento e quarenta e nove de acordo com contagem do século XVIII; o revestimento parcial das frontarias com madeira, os chamados fromtaes de tavoado ou os ressaltos das fachadas, soluções construtivas tipicamente medievais; a diferente altura dos edifícios ou a tipologia das janelas, cerradas por portadas de madeira basculantes, muitas delas dotadas de pequenas aberturas centrais, destinadas a deixar passar alguma luz, são características que, em conjunto, descrevem uma realidade concreta, documentam o espaço e o tornam reconhecível. Curiosamente, todas essas características, sem excepção, marcam presença na tábua do Convento de Cristo, realizada cerca de quarenta anos antes. O cotejo entre ambas as pinturas permite-nos abandonar a ideia de Gregório Lopes ter representado uma cidade anónima, identificando, pelo contrário, a representação da cidade habitada pelo próprio pintor, recorde-se que residia em Lisboa, junto ao mosteiro de S. Domingos, a escassas centenas de metros da Rua Nova dos Mercadores. Identificação que me parece ter passado até agora despercebida mas que, verdadeiramente, só seria possível a partir da descoberta da tela flamenga, ocorrida há cerca de cinco anos atrás. Lisboa quinhentista, portanto. Essa cidade que, sobretudo entre o Rossio e a recém renovada frente ribeirinha, com passagem obrigatória pelas ruas Nova d’El Rei e Nova dos Mercadores corporizava, na década de 1530, um dos principais entrepostos comerciais de toda a Europa, onde diariamente fundeavam caravelas e carracas vindas de todas as partes do mundo conhecido Lisboa, cabeça do Império, podia certamente repartir o espaço narrativo da tábua com Roma, essa outra caput mundi. Síntese de dois espaços que, simultaneamente, figuravam de forma particularmente legível o percurso da famosa relíquia de S. Sebastião: de Roma a Lisboa». In Luísa Trindade, Uma outra representação da Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa: a tábua do martírio de S. Sebastião de Gregório Lopes, Revista Medievalista, Nº 20, JUL-DEZ, 2016, ISSN 1646-740X.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… huma pedra Romana em que se lê o seguinte Antoniai M.S. Marcianai Anno IXXII, Memórias paroquiais»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) S. Martinho Bispo como informa o pároco da freguesia em 1758. Outra informação contida no mesmo documento reforça esta hipótese, uma vez que regista a existência no adro da igreja de huma pedra Romana em que se lê o seguinte Antoniai M.S. Marcianai Anno IXXII (Memórias paroquiais, volume 33). Obviamente, encaramos a proposta cronológica apenas como sinónimo de antiguidade, certamente induzida pelas características dos caracteres empregues na epígrafe. O que poderá significar que estamos perante uma lápide paleocristã, período em que a data da morte constava frequentemente da inscrição. Já no extremo NE da intervenção arqueológica foi identificado um conjunto de sepulturas cujas características demonstram que se organizou quando a presença visigoda na cidade era já uma realidade. Desde logo pela disposição das sepulturas, com uma irrepreensível orientação E-O, com a face orientada a nascente e organizadas em núcleos. Algumas foram ortogonalmente colocadas lado a lado, num esquema de disposição que poderá significar uma aglomeração com base em laços familiares, típica dos primeiros momentos da colonização germânica, impressão reforçada pela presença de ossários em algumas delas correspondendo, com elevada probabilidade, ao desejo de inumação junto de um parente anteriormente falecido. Ao nível do ritual, surgem indícios de que os indivíduos eram enterrados no interior de caixas de madeira, denunciadas pela presença de grandes pregos de ferro no registo arqueológico. Os adornos recolhidos permitem enquadrar pelo menos dois deles no ambiente cultural e na cronologia proposta: a inumação [640], sepultura [423], fazia-se acompanhar de dois anéis e no interior da sepultura [763], muito embora já não contivesse restos osteológicos, foram levantados dois brincos e uma pulseira em bronze, bem como um colar composto por várias dezenas de contas de âmbar com secção para-oval e corpo aplanado. Uma grande conta em vidro, com estrias exteriores, seria o elemento central desse adorno. O jarro de perfil piriforme proveniente da mesma sepultura, muito embora apresente dimensões mais reduzidas, oferece um paralelo evidente com materiais exumados na necrópole visigoda de Fuentes, Cuenca, datada entre os séculos VI e VII, bem como com a variante 3 da cerâmica funerária de El Ruedo, em Almedinilla. A sua morfologia aproxima-o também de recipientes recolhidos, na cidade de Mérida, em contextos que correspondem a despejos domésticos ocorridos entre os séculos VI e VIII. A presença de espólio votivo em sepulturas cristãs destes períodos foi já interpretada como uma forma de afirmação identitária dos arianos face à restante população cristã, o que colocaria alguns destes enterramentos numa data anterior à conversão de Recaredo ocorrida em 589, mas esta tese não é consensual entre os investigadores». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «A partir das primeiras taifas/período almóravida assinala-se por fim uma mutação da funcionalidade do espaço, com o início da escavação…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Durante os séculos finais da Idade Média, a estrutura urbana de Santarém assumiu uma feição polinucleada: junto ao rio Tejo, a Ribeira permitia o contacto com as vias de circulação fluviais que serviam o esporão da Alcáçova, ocupado desde tempos proto-históricos. Sobre a diacronia da ocupação de um terceiro núcleo localizado no planalto de Marvila, têm sido avançadas hipóteses de trabalho divergentes. Enquanto alguns autores, baseados no cadastro actual, entreviram sinais de urbanismo romano, outros investigadores tem argumentado que a expansão da malha urbana atingiu esta última zona durante o período islâmico e que corresponderia ao núcleo comercial da medina estruturado em torno da mesquita aljama, templo que seria o antecessor directo da igreja baixo-medieval de Marvila. Uma vez que rareiam fontes documentais anteriores ao século XII, a evolução urbana da cidade só poderá ser esclarecida recorrendo aos dados fornecidos pelas intervenções arqueológicas realizadas na cidade, que se multiplicaram nas últimas duas décadas. Se num primeiro momento os trabalhos estiveram praticamente circunscritos à Alcáçova, o advento da arqueologia preventiva na década de noventa do século passado resultou não só num exponencial aumento das escavações, como na sua dispersão por todo o chamado centro histórico.
Propomo-nos analisar os dados recolhidos durante uma escavação arqueológica que incidiu sobre uma área bastante extensa, cerca de mil metros quadrados e que decorreu entre Agosto e Novembro de 2007 e Junho e Setembro de 2008, nos números 5-8 da Rua Cinco de Outubro. A área intervencionada assumia-se à partida como fundamental para esclarecer a diacronia da evolução urbana de Santarém, na medida em que corresponde ao extremo oriental do planalto de Marvila, designado nas fontes medievais por Alpran e contemporaneamente por Alporão. Os constrangimentos topográficos implicam que a circulação entre este acidente de relevo e a Alcáçova se processe na área escavada, realidade atestada documentalmente para a Idade Média, mas que se teria estruturado logo em época romana. Esta última afirmação apoia-se na estratigrafia identificada, que permitiu determinar que a ocupação humana desta área se iniciou com uma necrópole de incineração, certamente utilizada pela população concentrada na Alcáçova, tendo sido identificadas várias deposições em urna e um possível ustrinum, contextos genericamente enquadráveis no período alto-imperial. Posteriormente e de forma aparente ininterrupta, o espaço foi sucessivamente acolhendo inumações cujas características, são consonantes com as soluções e evoluções decorrentes dos rituais funerários praticados nas urbes peninsulares entre os séculos III e X. A partir das primeiras taifas/período almóravida assinala-se por fim uma mutação da funcionalidade do espaço, com o início da escavação de grandes estruturas negativas, que geralmente são interpretadas como silos. Nos primeiros momentos do domínio cristão, a área continuou a acolher actividades e estruturas típicas das periferias urbanas como fornos de cerâmica, pedreiras e alcaçarias O processo de urbanização só se intensificará a partir dos séculos XIII-XIV, tendo sido registados vários espaços de habitação margeando arruamentos, sem nunca anular completamente algumas parcelas vazias de construções, mesmo durante o século XV, certamente dedicadas à produção agrícola. As claras evidências de actividade metalúrgica no local, demonstram também que a malha urbana não seria ainda especialmente densa nos finais da Idade Média.
Após esta descrição necessariamente sucinta dos dados recolhidos, concentremo-nos nas necrópoles visigoda e islâmica, cuja implantação e dispersão espacial fornecem pistas fundamentais para a recuperação da paisagem urbana num período em que o contributo das fontes documentais é diminuto. A afirmação progressiva dos preceitos rituais do Cristianismo, que culminará com a conversão de Constantino, torna especialmente complexa a tarefa de integrar cronologicamente os enterramentos baixo-imperiais. Paralelamente à progressiva difusão da inumação do cadáver em detrimento da opção pela incineração, vão também desaparecendo os espólios votivos que permitiriam uma datação contextual para o momento do enterramento. Assim, algumas sepulturas escavadas na rocha, onde ocorrem por vezes de elementos pétreos ou cerâmicos funcionando como muretes e tampas, não podem ser integrados cronologicamente sem recurso a métodos de datação absoluta, mas foram indubitavelmente depositados entre os séculos III e VIII. À semelhança do que se verifica em várias urbes peninsulares, em que as inumações paleocristãs ocorrem frequentemente nas proximidades de uma basílica peri-urbana, sobreposta aos cemitérios romanos e dominando por inerência um eixo viário de acesso preferencial à povoação, esta necrópole relacionar-se-ia com um templo localizado a Norte, nas cotas cimeiras do planalto. A sua eventual correspondência topográfica com a paroquial que aí se erguia após a conquista cristã, dedicada a S. Martinho de Tours, assume-se como forte possibilidade». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Uma outra representação da Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa: a tábua do martírio de S. Sebastião, de Gregório Lopes. Luísa Trindade. «… de autor desconhecido, o quadro, hoje cortado em duas telas, representa a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa»

Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa (c1570_1590)
jdact e wikipedia

«Entre 1536 e 1539, o pintor régio Gregório Lopes realizava para a Charola do Convento de Cristo, em Tomar, uma tábua representando o martírio de S. Sebastião. Integrada no âmbito da ampla reforma espiritual e material da casa religiosa, iniciada por Manuel I e continuada por João III, a escolha do tema, de raízes profundas na tradição do ocidente medieval, terá, porventura, obedecido igualmente a razões de carácter circunstancial: em primeiro lugar, a proximidade espiritual à principal vocação do Santo, militar e defensor da igreja, particularmente adequada a uma ordem monástico-militar como a de Cristo, sobretudo num momento em que se revia a regra à luz dos princípios fundacionais do cristianismo; em segundo lugar, a renovada importância que a figura de S. Sebastião despertava na década de trinta do século XVI. De facto, a devoção já longa a este mártir romano como protector contra a peste, flagelo que por esses mesmos anos assolava o reino e, com especial violência, a capital, ganhava um novo alento com a chegada de uma importante relíquia: o braço de S. Sebastião que, supostamente saqueado a uma igreja milanesa, fora trazido de Roma para Lisboa em 1531. Do seu sucesso contra as epidemias, dá conta Francisco Holanda quando, em 1571, refere os 40 anos que a cidade gozou de imunidade graças ao poder propiciatório da referida relíquia. É aliás a sua extrema relevância que, porventura, explica a lenda posta a circular logo no século XVII de que fora oferecida a João III pelo imperador Carlos V, seu cunhado. Desta tábua, já exaustivamente estudada no âmbito do universo pictórico por diversos autores, interessa-me focar um aspecto particular do discurso formal: a arquitetura que, em plano de fundo, encerra o campo figurativo e serve de cenário ao martírio do Santo.
De acordo com a tradição iconográfica, o episódio do primeiro martírio de S. Sebastião, atado a uma coluna ou árvore e rodeado de vários archeiros que sobre ele disparam uma intensa chuva de flechas, ocorre num espaço aberto com uma cidade por fundo. A partir do século XV, e sobretudo por via italianizante, a urbe representada é usada para contextualizar espacialmente a narrativa: a cidade de Roma, palco do suplício do guarda pretoriano. Ruínas clássicas, pórticos e colunatas ou edifícios de grande porte e planta centrada, constituem um expediente comum aos pintores do renascimento que assim aliam à marcação espacial a oportunidade de evocar directamente esse mundo aberto à pesquisa que era então a Antiguidade. Opção menos frequente no norte da Europa, onde as arquitecturas fundeiras replicam preferencialmente as cidades flamengas em que se movem os próprios artistas.
Por vezes conjugam-se tempos e realidades diferentes como no martírio de S. Sebastião da autoria de Luca Signorelli, onde a cidade medieval surge inconfundível por entre múltiplas e imponentes ruínas romanas. E tal não se deve apenas ao princípio de coetaneidade que tão frequentemente caracteriza as representações da época, particularmente visível, por exemplo, nas vestes ou cortes de cabelo das figuras. No caso do espaço urbano, e concretamente na representação do casario vulgar, a coetaneidade seria expectável se pensarmos que em 1498 o conhecimento da cidade clássica se reduzia praticamente aos edifícios de prestígio, as grandes ruínas ainda acessíveis, aliás entusiasticamente estudadas pelos próprios artistas modernos. A cidade comum, o casario em extensão, só a partir dos finais do século XVIII e das primeiras campanhas arqueológicas no Sul de Itália, seria minimamente conhecido.
Também Gregório Lopes combina as duas tendências na sua tábua, a flamenga e a italiana, ou, de forma mais precisa, a cidade coeva e a cidade antiga. A estrutura narrativa divide-se em vários registos justapostos: três em profundidade, três outros em superfície. A cena principal ocupa o primeiro plano, com o Santo ao centro da composição, ladeado pelos seus algozes; Santo e coluna constituem um eixo vertical que divide a tábua em duas partes: à direita, toda uma estrutura formal que convoca a Roma das perseguições de Diocleciano, materializada na grande rotunda directamente inspirada, como bem viu Paulo Pereira, na edição de 1521 de César Cesariano do tratado de Vitrúvio, mas também pela visão longínqua de outros martírios que a coluna de fumo não deixa passar despercebidos; na metade contrária, preenchendo todo o lado esquerdo do campo figurativo e despida de qualquer nota clacissizante, surge a cidade corrente ou do quotidiano, onde a vida parece decorrer indiferente ao drama que, simultaneamente, ocorre em primeiro plano.
Ora é justamente essa cidade, aparentemente feita de casario anónimo e indiferenciado, que me parece justificar uma nova atenção em função da recente identificação de uma outra pintura igualmente quinhentista. Refiro-me ao quadro pertencente à Kelmscott Manor Collection que, em Novembro de 2010, integrou uma exposição dedicada a marfins cingaleses do século XVI realizada no Museu Rietberg de Zurique, entre cujos curadores se encontrava Annemarie Jordan Gschwend, responsável pelo seu reconhecimento temático. Datável das últimas décadas do século XVI e de autor desconhecido, mas ao que tudo indica de origem flamenga, o quadro, hoje cortado em duas telas, representa a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa. Se dúvidas restassem, a famosa grade que no século XVI separava a área dos cambistas e que, por tão marcante, viria a justificar o outro topónimo por que ficou conhecida, Rua Nova dos Ferros, seria suficiente para garantir o reconhecimento daquela importante artéria de Lisboa». In Luísa Trindade, Uma outra representação da Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa: a tábua do martírio de S. Sebastião de Gregório Lopes, Revista Medievalista, Nº 20, JUL-DEZ, 2016, ISSN 1646-740X.

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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A imagem do outro na Crónica da Tomada de Ceuta pelo rei João I de Gomes Eanes de Zurara. Natália Albino Pires. «Nascido entre 1410 e 1420, Gomes Eanes Zurara é, na história da cronística portuguesa, o segundo cronista mor do Reino e substitui Fernão Lopes»

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«A imagem do outro depende integralmente do eu que a descreve e que a constrói e é uma temática tão antiga como a história da humanidade. Das primeiras imagens icónicas do outro nas pinturas rupestres ou na arte paleolítica à imagem do outro no texto literário ao longo dos milénios, evidencia-se um longo processo (re)construtivo. As descrições do outro, ao longo da história cultural da Humanidade, vão, com todas as dificuldades definitórias subjacentes a estes adjectivos, do grotesco ao belo e estão presentes em diversos âmbitos desde o literário ao filosófico (ao sociológico ou antropológico) da antiguidade até ao presente. Do ponto de vista cultural, a noção do outro tem sido quase sempre construída a partir da perspectiva do ocidental, quer estejamos a reportar-nos a textos da antiguidade clássica ou do século XX, sendo de destacar as descrições do outro que se julgava existirem nos territórios inabitados para lá do mundo conhecido; as risíveis descrições do outro patentes na literatura de viagens, tanto portuguesa como espanhola, inerentes à descoberta do Novo Mundo e, ainda, as teorizações iluministas francesas sobre o outro, em especial a teoria do bom selvagem, que contribuíram para evitar por algum tempo a escravatura dos índios no Brasil. Por outras palavras e pese embora a personagem referir-se às diferenças sociais entre homens e mulheres, a perspectivação do outro e a sua descrição são feitas por aquele que possui o poder da escrita tal como lembra a burguesa de Bath na obra de Chaucer ou tal como lembra o próprio Zurara a propósito da memória histórica na obra que ora analisamos: e quall he mais segura sepulltura pera quallquer primçipe ou baram uirtuoso, que a escpritura que rrepresemta o claro conheçimento de suas obras passadas. Certo toda a nobreza dos homeẽs fora destroida, sse as penas dos escpriuaães a nom poseram em fim.
Na Literatura, o percurso da construção da imagem do outro seria impossível de descrever no âmbito de um breve estudo porquanto se trata de um topos desenvolvido ao largo de séculos e, exactamente pelos mesmos motivos, também será inexequível traçar a sua presença no âmbito restrito de uma qualquer cultura particular. Assim, tendo em conta o seu contexto de redacção, as peculiaridades literárias e culturais subjacentes às primeiras crónicas da segunda dinastia e as relações mouro/cristão durante os séculos XV e XVI, procuraremos analisar a imagem do outro, particularmente, a imagem do mouro veiculada na Crónica da Tomada de Ceuta, de Gomes Eanes Zurara.

Contexto de redacção da Crónica da Tomada de Ceuta
Nascido entre 1410 e 1420, Gomes Eanes Zurara é, na história da cronística portuguesa, o segundo cronista mor do Reino e substitui Fernão Lopes no ofício de guarda das escrituras da Torre do Tombo em 1454. Por encargo de Afonso V, escreve a Crónica da Tomada de Ceuta por el Rei D. João I; a Crónica dos Feitos da Guiné; a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses e, finalmente, a Crónica do Conde D. Duarte de Meneses. Sem pretensão de aprofundar questões relativas ao contexto social, político e cultural da época em que a Crónica que analisamos foi escrita, importa, porém, ter presentes as palavras de Bertoli ou de Michelan. Com efeito, Bertoli lembra que as obras de Zurara fazem parte de um projecto de escrita para legitimar o poder régio e de parte da nobreza, bem como justificar suas acções. Este projecto está explícito nas três crónicas marroquinas que, por vezes, têm extensões de textos em comum. E Michelan reforça as suas palavras ao afirmar que: o papel das crónicas, produzidas sob a égide da dinastia de Avis, foi, fundamentalmente, de lançar as bases para a construção de uma imagem dinástica a ser fixada e transmitida para a posteridade, a partir, em grande parte, da exaltação política de tal dinastia, em que as figuras passadas serviam de alicerce para sustentar as acções presentes, além de criarem a ideia de continuidade política, mesmo com a mudança dinástica.
Antes de entrarmos na análise da imagem do mouro veiculada na Crónica da Tomada de Ceuta, parece-nos, também, relevante recordar que, à época da conquista de Ceuta, e até bem tarde na história moderna europeia, a guerra contra os mouros foi considerada justa e santa, procurando-se recuperar as antigas terras da cristandade (nomeadamente aquelas que haviam pertencido aos visigodos de quem os reis ibéricos se consideravam descendentes directos) e ancorando-se todos os actos de conquista nos baluartes teológicos da Igreja católica, isto é, na teorização de Santo Agostinho e na de São Tomás Aquino. Nesta medida e tal como lembra Michelan, as diferentes crónicas retomam sucessivamente tópicos utilizados pelos antecessores, nomeadamente: a história como mestra da vida, a referência e/ou a analogia às personagens antigas e bíblicas, a defesa do combate aos cismáticos e sarracenos, as menções às profecias, a constante referência à intervenção da providência divina, a ênfase sobre a lamentação dos mouros após as vitórias cristãs e a narrativa centrada nos monarcas». In Natália Albino Pires, A imagem do outro na Crónica da Tomada de Ceuta pelo rei João I de Gomes Eanes de Zurara Revista Medievalista, Nº 20, JUL-DEZ, 2016, ISSN 1646-740X.

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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Geografías Imperfectas. Linaje y poder en la obra de Luís Krus. Arsenio Dacosta. «Luís Krus asumía esta doble perspectiva, pero con un sesgo que iba más allá de la histoire des mentalités. Dicho sesgo, implícitamente, con los paradigmas de la antropología interpretativa»

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Linaje e imaginario nobiliario
«En este trabajo pretendo repasar algunos conceptos y motivos queridos para Luís Krus, particularmente el de linaje y el de imaginario nobiliario, y lo haré a partir de algunos textos que él analizó con exhaustividad. Recuérdese que en su tesis planteó algo tan novedoso como la concepción nobiliaria del espacio ibérico, precisamente en los livros de linhagens, tanto en lo que se refiere a la materialidad de las geografías señoriales como, sobre todo, al mundo de las representaciones del aludido imaginario nobiliario. Según Luís Krus, el Livro Velho se correspondería con a visão monástico-senhorial de um Portugal ibérico e rural. En cambio, el Livro do Deão ponía en valor a revelação hispánica do país régio e urbano. Finalmente, el Livro do Conde, el más amplio y complejo de todos, implicaría a teorização do destino hispânico. Antes de proseguir convendría detenerse brevemente en el concepto de linaje nobiliario. Como ya señaló hace tiempo el profesor José Mattoso, en el ámbito del imaginario medieval, hay un espacio no pequeño entre las ideas y el terreno de la práctica. Esto afecta de forma particular a la noción de linaje. Los medievalistas sabemos que dicha noción abarca realidades muy distintas y nada uniformes en la plena y baja Edad Media. Como bien recuerda Bernardo Vasconcelos Sousa, en los livros de linhagens se aprecia esa clara tendencia hacia la filiación unilineal (masculina) y una jerarquización vertical de las relaciones sociales. Sin embargo, también constatamos, incluso a finales del siglo XIV, la existencia de prácticas de sucesión y herencia bilaterales y de unos vínculos linajísticos muy amplios donde el elemento central de cohesión es la asunción de un antepasado masculino común. Este fetichismo del antepasado, generalmente el fundador epónimo del linaje, es el que planea en la definición de lo que Luís Krus denominaba família noble.
No es lugar para entrar en la categorización conceptual de linaje toda vez que no existe consenso entre los medievalistas y tampoco entre los antropólogos. Está por trazar la genealogía del concepto y, más aún, la transmisión del vocablo en los testimonios medievales. Como ha destacado recientemente el profesor José Carlos Ribeiro Miranda, en el ámbito galaico-portugués la difusión del concepto de linaje es estrictamente paralela al caso navarro, castellano y catalán. Más allá del fin legitimador del Liber Regum y después de la historiografía alfonsí para sus respectivas dinastías regias, el desarrollo social del concepto tiene uno de sus espacios en la literatura trovadoresca, con un sentido sincrónico, y sobre todo en los livros de linhagens, donde el linaje se materializa como realidad social y autoimagen. Recientemente, y aquí aprecio en mi obra la influencia de Luís Krus, me he preguntado si esas ideas sobre el linaje y la nobleza, aunque formuladas por autores concretos, incluyo aquí a los refundidores y copistas, pueden seguir siendo abordadas como una suerte de macrotexto. Creo imposible, incluso para la escala demográfica de un reino como Portugal, interpretar que estas ideas identifiquen a un estrato uniforme. La nobleza medieval se caracteriza por su diversidad y, sobre todo, por la pulsión jerárquica y competitiva que implica la exclusiva particularidad de cada linaje. Esto es lo que modula, en última instancia, que cada narrativa conservada obedezca a estrategias discursivas particulares. Para los livros de linhagens Luís Krus destacó que, a pesar de su imagen de conjunto, el objetivo de cada narrativa es subrayar el propio linaje en oposición al ajeno, aunque existan nexos reticulares entre unos y otros como demanda la lógica exogámica de la alianza. En este sentido, la idea de un macrotexto nobiliario quizá sea más fértil si se formula en términos de pluralidad de hebras macronarrativas, en expresión de Donald Maddox.
Luís Krus asumía esta doble perspectiva, pero con un sesgo que iba más allá de la histoire des mentalités. Dicho sesgo, implícitamente, liga la obra de Luís Krus con los paradigmas de la antropología interpretativa y antes que ella, con Max Weber. Clifford Geertz, referencia ineludible de la antropología actual, se sentía deudor de este último cuando definía al hombre como un animal inserto en tramas de significación que él mismo ha tejido. En su tesis doctoral y en muchos de sus penetrantes artículos Luís Krus está próximo a esta conceptualización de la cultura, sin conocerla, al tiempo que ejerce esa descripción densa geertziana que, como el resto de discípulos del profesor José Mattoso, ha sido una marca de escuela en la mejor tradición del medievalismo europeo. Ponerse en la piel del nativo, aquí el fidalgo portugués, está en el espíritu y en la letra de su obra, sin dejar de lado la sana distancia y su talento como observador de las experiencias ajenas». In Arsenio Dacosta, (data do texto: 5 de Outubro de 2015), Geografías imperfectas, linaje y poder en la obra de Luís Krus, Universidad de Salamanca, Psicologia Social y Antropologia, Revista Medievalista, Nº 20, JUL-DEZ, 2016, ISSN 1646-740X.

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Ecos de um Eco Maior Redacção da R. Medievalista. «No seu testamento, Eco pediu aos colegas e a todos os que lhe eram próximos para não promoverem, autorizarem ou participarem em colóquios (…) durante os dez anos que se seguirão à sua morte»

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Com a devida vénia

«No passado dia 19 de Fevereiro morreu em Milão Umberto Eco, com 84 anos. Figura de referência na cultura contemporânea, Eco incarnou o espírito e a acção do intelectual-social do século XX. Reconhecido e respeitado pela sua vastíssima erudição, desde a sua tese de doutoramento sobre São Tomás de Aquino até aos estudos na área da Semiótica, da Filosofia ou da Estética, nunca deixou de estar atento aos fenómenos da cultura de massas que marcam os nossos dias. Foi assim com a banda desenhada ou com o impacto dos media, e particularmente da televisão, sem esquecer o império da Internet, face ao qual o seu espírito crítico se manifestou por vezes de forma impiedosa. Ficaram célebres, por exemplo, as acutilantes considerações acerca dos efeitos da Internet e das redes sociais na imbecialização dos incautos. Figura mediática por excelência e à escala global, Umberto Eco nunca se fez rogado na utilização de tal estatuto para dar voz às suas opiniões em matérias culturais, mas também sociais e políticas. Poucos meses antes da sua morte, numa entrevista ao semanário português Expresso, falava desassombradamente, em nome de princípios humanistas e solidários, sobre as ondas de refugiados que demandavam uma Europa insensível e desarticulada. O saber e o rigor de Eco não eram inimigos do humor e da ironia. O cruzamento da mais densa temática filosófica da Idade Média com a estrutura do livro policial, como ocorre por exemplo n’ O Nome da Rosa, sem dúvida o romance que mais o celebrizou, confere um lado lúdico à sua obra ficcional. Mas até num livrinho à partida de assunto árido e desinteressante, como o célebre Como se Faz uma Tese em Ciências Humanas, cuja edição original italiana é de 1977 e que na sua tradução portuguesa de 1980 teve uma enorme influência na formação de sucessivas gerações de estudantes universitários na área das Ciências Sociais e das Humanidades no nosso país, o Autor consegue explicar de forma desempoeirada, concreta e prática os cânones do ofício, abordando questões tão prosaicas como as notas de rodapé, a elaboração de um plano-índice ou a apresentação da bibliografia num trabalho académico. A obra que dirigiu em quatro volumes, sobre A Idade Média, editada entre nós pela Dom Quixote, revela-nos a sensibilidade polifacetada de um Umberto Eco atento às mais recentes tendências da investigação. E não por uma questão de moda, mas pelo estimulante desejo de tudo relacionar, pela quase ânsia de tudo perceber, desde as estruturas materiais às formas do pensamento, da arte e da religiosidade, desde a viagem por espaços físicos ao imaginário das utopias. No seu testamento, Eco pediu aos colegas e a todos os que lhe eram próximos para não promoverem, autorizarem ou participarem em colóquios ou outros eventos públicos de qualquer espécie sobre a sua personalidade e a sua obra durante os dez anos que se seguirão à sua morte. Os mais afoitos na apropriação dos legados alheios tiveram e terão, pois, de se conter. Umberto Eco vale pelo que disse, escreveu e fez, muito mais do que pelo que dele se possa dizer. E se aqui o evocamos é pelo que lhe devemos, não pelo que nos possa render. Sem querermos pôr-nos em bicos de pés, estes são, à nossa medida, ecos de um Eco maior. Pelo que aqui fica dito e pelo que não cabe dizer, na Medievalista consideramos Umberto Eco como um daqueles gigantes a cujos ombros queremos subir para podermos enxergar mais além. Para vermos de modo mais nítido os longínquos tempos medievais, é certo. Mas também para entendermos melhor o nosso próprio tempo. Como Umberto Eco não se cansou de fazer». In Ecos de um Eco Maior, A Redacção, Revista Medievalista, Nº 20, JUL-DEZ, 2016, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT