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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Páginas Desconhecidas. A Ditadura de Saldanha. O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «Dentro deste círculo moral e nesta atmosfera miasmática, que poderá ser um novo partido constitucional? Para ele serão as mesmas exigências duma política de contradição, a que se votará à nascença»

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«(…) Não se suicida, pois, a ditadura. Morre naturalmente de senilidade, duma senilidade, duma senilidade precoce, que se seguiu imediatamente ao nascimento. Obra dum velho, é, como a velhice, impotente e frouxa. Morre de lazeira, nada mais. Que dure uma semana, um mês, isso nada significa. Está moralmente morta. É quanto importa. A questão toda está agora na sucessão do morto. Quem será o herdeiro? Os velhos partidos, naturalmente? Mas os velhos partidos estão julgados e condenados pela opinião, e sobre tudo pelos próprios actos. O que significa qualquer deles no poder, senão a repetição dos mesmos erros, das mesmas tendências e dos mesmos homens? Ora a política é movimento e novidade. Recuar dois anos ou quatro anos atrás não é política: é simples arqueologia. Em Portugal é, sobretudo, paleontologia.
Se os velhos programas foram reprovados, e pateados os velhos homens, será porventura uma solução política levá-los outra vez ao poder? Para quê? Para os reprovar e patear de novo? Em tal caso, fôra então a política um círculo vicioso sem significação, e a História uma sabatina banal e tediosa. Mas a História é movimento e progresso. Assim, pois, a história contemporânea de Portugal, ou se há-de imobilizar, como a da China, ou sair dos velhos partidos, buscando horizontes novos, como convém a um povo que não condescende benevolamente com a morte que o invade.
Um Fonte, um Loulé, um bispo de Viseu, serão sempre, dadas as prisões partidárias que os ligam, a idade que contam, e a incapacidade de renovação intelectual que os caracteriza, serão sempre o mesmo bispo de Viseu, o mesmo Fontes, o mesmo Loulé. Tudo isto está visto e sabido. Não vale a pena recomeçar a Regeneração ou o Movimento de Janeiro. Logo, a crise excede os velhos partidos constitucionais. Vai além do que eles podem e sabem. A política tradicional, reduzida ao absurdo pelos factos, não está à altura das exigências da situação. Mas pergunta-se: não poderão surgir novos partidos dentro do Constitucionalismo? Novos grupos, podem: novos partidos, é impossível. Guerrilhas, certamente: exércitos, de modo algum. E porque não podem?
Porque é exactamente o Constitucionalismo que os torna a eles, a esses velhos partidos, absolutamente impotentes. Porque é a contradição ingénita do sistema que esteriliza e anula os homens. Porque é a organização monárquica, com as suas peias, as suas exigências, as suas despesas, que reduz a nada a inteligência administrativa e a habilidade política da Regeneração, como põe em cheque o patriotismo sincero e a boa vontade popular dos homens de Janeiro. Dentro deste círculo moral e nesta atmosfera miasmática, que poderá ser um novo partido constitucional? Para ele serão as mesmas exigências duma política de contradição, a que se votará à nascença. Encontrará os mesmos prejuízos, que a sua origem o obrigará a respeitar. Será tão incapaz, tão ininteligente e tão corrupto como os seus antecessores». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

Páginas Desconhecidas. A Ditadura de Saldanha. O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «”Morre, porque se suicida?” Não: nem mesmo se suicida. O suicídio é um acto de energia, que requer força, vontade, qualidades activas, embora mal dirigidas, mas reveladoras de vida»

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«(…) Por gora isto é somente um boato, e nós esperamos ansiosamente saber o que nele há de verdade. Se a emboscada de 19 de Maio desse em resultado o preparar o país para a República, como já deu a mostrar a inanidade do Constitucionalismo, devíamos aplaudi-la. Nós republicanos, devíamos aplaudi-la, porque toda a reforma que permita ao povo dizer o seu voto, toda a reforma que lhe dê autonomia que desoprima, é por nós, e para nós. O que porém nem este, nem nenhum ministério constitucional, conseguirão resolver é a questão da Fazenda.
A série de reformas, que correm como prováveis, em quase nada atenuarão o deficit. O marechal, católico como é, não pode cortar o subsídio ao clero, o marechal não pode suprimir o generalato principesco do nosso magro Exército, o marechal não extinguirá o corpo diplomático, pois que nele vai colocando todos os seus; e não fazendo o ministério isto, não preencherá o deficit, e não preenchendo o deficit, não liquidará a dívida, e não liquidando a dívida, a bancarrota é fatal. A questão da Fazenda é a questão insolúvel, aquela que impede a resolução de todas as outras. E a questão da Fazenda chama-se a questão monárquica. É por isso que nós, desejando ardentemente a realização do programa que corre como do ministério, não confiamos em que o governo saído da empresa de 19 de Maio seja capaz de o realizar». In A República, nº 4, 1870.

«A ditadura, depois de dois meses de inépcia, senão de alguma coisa pior, mostrou a sua impotência, como os governos legais tinham já mostrado a sua também. Que resta, pois? A reforma, farol nominal dos nossos políticos contemporâneos, some-se cada vez mais nas profundidades do horizonte. A reforma, depois de se mostrar impossível dentro da legalidade, mostra-se impossível fora dela. A ditadura está evidentemente morta, e morta dum modo estranho. É uma ditadura, criada pela necessidade de medidas capitais e avançadas, que morre porque, depois de dois meses de poder indisputado e quase absoluto, não encontrou uma única medida com que correspondesse ao seu programa e à situação do país, que, segundo ela, exigia actos radicais.
Foi aceita geralmente sem grande hostilidade, por muitos até com esperança. Hoje ninguém crê nela. Não a acham má, propriamente, mas inútil: não é tirânica, é inepta. Quis ser uma revolução social, e alcançou, apenas um ridículo oficial. Morre, porque se suicida? Não: nem mesmo se suicida. O suicídio é um acto de energia, que requer força, vontade, qualidades activas, embora mal dirigidas, mas reveladoras de vida. Ora, a ditadura não tem actos: tem algumas palavras, e essas vulgares, vagas, insignificantes. Se os decretos dos ditadores foram-se revolucionários em alguma coisa, foi apenas na gramática. Ora isto não basta». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Páginas Desconhecidas: O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «Depois das descobertas da filosofia moderna, modificou-se sensivelmente a fisionomia que até há pouco a Grécia antiga tinha para nós: um naturalismo artista que na infantilidade bela das suas criações servia de prólogo ao subjectivismo cristão»

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Da Moral religiosa entre os Gregos. Mitologia
«(…) Neste caso, quanto a nós, se achou a Grécia; e igual processo houve de dar-se com a marcha da sua civilização. Porque as leis imutáveis que ontem determinaram um certo movimento sempre se repetem; alteram-se exteriormente os fenómenos que produzem, segundo as circunstâncias a que a lei se aplica, mas ela em si não pode afastar-se da sua precisão lógica. Ora parece fora de dúvida que a eliminação sucessiva e sempre crescente das diferenças, a que chamaremos provinciais, dentro do todo de uma nação, ´+e uma lei. O movimento inteiro de um povo tende para se aproximar de um tipo sintético, que, afinal, se impõe e absorve em si os diferentes tipos anteriores, na medida que o consentem os elementos climatológicos, geográficos, combinando-se com a evolução superior da consciência.
Analogamente ao que sucede na biologia, também parece que na formação dessa síntese histórica se dá uma como que selecção natural; entre os vários tipos de uma nacionalidade, há um que, em virtude de condições peculiares, se sobrepõe aos outros e como que os domina, concorrendo superiormente para a formação do tipo sintético. A plasticidade de um certo carácter e a adaptação especial `s condições que a história propõe, eis o que os exemplos do tempo nos indicam como sendo as qualidades mais especialmente próprias, para que um tipo provincial acentue mais pronunciadamente o tipo geral nacional.
Eis aqui, quanto a nós, a maneira por que se deve encarar-se a importância das diferenças que se observam entre os caracteres dórico e jónio, aqueles entre quem unicamente podia dar-se a concorrência, e entre quem a selecção natural tinha de escolher. A miúdo sucede também não ser o povo mais nobremente ilustre, mais fortemente dotado, mais rico, mais belo, mais recto, aquele que vence ao struggle for life da civilização; parece, ao contrário, que estas qualidades são elementos necessários de derrota; e compreende-se que o sejam, quando observamos que o ideal e uma pura concepção do espírito, irrealizável na natureza. Os povos fortemente idealistas são os heróis, mas, como todos os heróis, são também os mártires.
A sua palavra profética ouve-se ao longe na História, mas como relâmpagos que voam depois de iluminar o espaço. A maleabilidade, uma certa fraqueza moral relativa, o scepticismo, o espírito prático são as melhores armas para vencer na luta da vida. Isto explica como o génio dórico verdadeiramente profético, teve de emudecer perante a maior plasticidade, perante o scepticismo e o temperamento mais naturalista do ateniense, que a partir do IV século pode dizer-se resumir em si o tipo sintético do grego.
Primitivamente, porém, e depois de feitas estas observações, devemos aceitar a definição que Isócrates dá da Grécia: é um feixe de nacionalidades. Qual o valor dos seus caracteres morais, e como foi que cada uma delas contribuiu para a evolução religiosa, que causas determinaram essa evolução, e que consequências provêm dela, eis o que vamos estudar.
Depois das descobertas da filosofia moderna, modificou-se sensivelmente a fisionomia que até há pouco a Grécia antiga tinha para nós: um naturalismo artista que na infantilidade bela das suas criações servia de prólogo ao subjectivismo cristão. Com efeito, se pretendermos ainda medir o valor das ideias morais dos gregos, ou pelos mitos naturalistas homéricos, ou pelo seu pan-helenismo ateniense posterior a Plateias e Salamina, erraremos. O dorismo prova um estado de subjectivismo religioso, paralelo pelo menos ao naturalismo Jónio, cuja evolução seguiremos até à filosofia dos eleáticos; e tacteando os sintomas de constituição de uma filosofia da Natureza em Demócrito e em Epicuro, e de uma filosofia do espírito em Xenófanes e m Anaxágoras, não nos será difícil encontrar na história moral da Grécia os elementos da trichotomia, que é para o espírito colectivo o que as idades são para o indivíduo».

In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Páginas Desconhecidas: O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «A República. Fora da República, o mundo político oferece ao povo; hoje a incapacidade, amanhã a bancarrota, depois a anarquia, depois, depois… Quem sabe dizer o que virá depois?»


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(continuação)

«Para ele serão as mesmas exigências duma política de contradição, a que se votará à nascença. Encontrará os mesmos prejuízos, que a sua origem o obrigará a respeitar. Será tão incapaz, tão ininteligente e tão corrupto como os seus antecessores. Que resta, pois? Fora dos governos legais e das ditaduras constitucionais, o que resta? Sair do Constitucionalismo.
Sair francamente, radicalmente, sem transigências, sem contemplações do funesto ‘regimen’, que não sabe senão comprometer, desacreditar, anular as melhores vontades, que uma fatal ilusão leva a abraçar-se com ele.
Sair do equivoco, dos meios termos, dos sofismas oficiais, para a grande luz do céu democrático, para o ar livre da vida popular.
Sair, - para a República.
A situação é claríssima. Temos a inapreciável felicidade de encontrar nos factos, nos factos palpáveis do dia, os melhores argumentos da nossa causa. A impotência dos governos legais, de um lado, do outro a impotência da ditadura, são as premissas oficiais de que o espírito público tira sem esforço, naturalmente, como que instintivamente, esta conclusão:
  • A República. Fora da República, o mundo político oferece ao povo; hoje a incapacidade, amanhã a bancarrota, depois a anarquia, depois, depois… Quem sabe dizer o que virá depois?
Conclusão do artigo de “A República”, 1870, nº 7.

Da Moral religiosa entre os Gregos
Mitologia
O nome de gregos, dizia Isócrates, designa menos um certo povo do que uma sociedade de homens educados e polidos; e melhor todos os que participam da nossa civilização, do que os que partilham a mesma origem.
Até que ponto é exacta esta afirmação? Apresenta de facto a Grécia antiga uma unidade de raça selada com um mesmo cunho de criações instintivas, por toda a parte irmãs? Ou foi, como diz Isócrates, um império e não uma nacionalidade? Nas agremiações políticas dos povos podem, com efeito, distinguir-se estas duas classes: As Nações e os Impérios. O tipo de Império, tal como no-lo deram na história antiga os romanos, e na moderna os alemães ou os ingleses, agregações etnológicas inorgânicas, determinadas por um princípio de moral ou religiosa ou política, difere profundamente do outro tipo, de Nação, que é a unificação de todos os representantes de uma mesma individualidade etnológica num corpo político, com são hoje a Itália, a Espanha, a França e a Alemanha.
Contestar a irmandade de origem de todas as populações que no período das migrações assentaram na Grécia, é coisa que o estado da erudição histórica não autoriza; mas essa mesma erudição nos permite observar as profundas diferenças que entre si distinguiam as regiões gregas. Quem olhar para a Grécia, especialmente nos períodos que antecedem as guerras médicas, há-de por força reconhecer uma situação análoga ao que ofereciam na Idade Média as nações chegadas hoje a um estado de unidade proximamente completa. Entretanto a Espanha, por exemplo, unificada por meio de revoluções sucessivas, foi por muitos séculos um verdadeiro feixe de nacionalidades, cujos traços característicos, mal apagados ainda, não é difícil descobrir (245)». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

continua
Cortesia de Seara Nova/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Páginas Desconhecidas: O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «Assim, pois, a história contemporânea de Portugal, ou se há-de imobilizar, como a da China, ou sair dos velhos partidos, buscando horizontes novos, como convém a um povo que não condescende benevolamente com a morte que o invade»

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«Quem será o herdeiro? Os velhos partidos, naturalmente?
Mas os velhos partidos estão julgados e condenados pela opinião, e sobre tudo pelos próprios actos. O que significa qualquer deles no poder, senão a repetição dos mesmos erros, das mesmas tendências e dos mesmos homens?
Ora a política é movimento e novidade. Recuar dois anos ou quatro anos atrás não é política: é simples arqueologia. Em Portugal é, sobretudo, paleontologia. Se os velhos programas foram reprovados, e pateados os velhos homens, será porventura uma solução política levá-los outra vez ao poder? Para quê? Para os reprovar e patear de novo? Em tal caso, fora então a política um círculo vicioso sem significação, e a história uma sabatina banal e tediosa. Mas a História é movimento e progresso.
Assim, pois, a história contemporânea de Portugal, ou se há-de imobilizar, como a da China, ou sair dos velhos partidos, buscando horizontes novos, como convém a um povo que não condescende benevolamente com a morte que o invade. Um Fontes, um Loulé, um bispo de Viseu, serão sempre, dadas as prisões partidárias que os ligam, a idade que contam, e a incapacidade de renovação intelectual que os caracteriza, serão sempre o mesmo bispo de Viseu, o mesmo Fontes, o mesmo Loulé. Tudo isto está visto e sabido. Não vale a pena recomeçar a Regeneração ou o Movimento de Janeiro.
Logo, a crise excede os velhos partidos constitucionais. Vai além do que eles podem e sabem. A política tradicional, reduzida ao absurdo pelos factos, não está à altura das exigências da situação. Mas, pergunta-se: não poderão surgir novos partidos dentro do Constitucionalismo?
Novos grupos, podem: novos partidos, é impossível. Guerrilhas, certamente: exércitos, de modo algum. E porque não podem?
Porque é exactamente o Constitucionalismo que os torna a eles, a esses velhos partidos, absolutamente impotentes. Porque é a contradição ingénita do sistema que esteriliza e anula os homens. Porque é a organização monárquica, com as suas peias, as suas exigências, as suas despesas, que reduz a nada a inteligência administrativa e a habilidade política da Regeneração, como põe em cheque o patriotismo sincero e a boa vontade popular dos homens de Janeiro.
Dentro deste círculo moral e nesta atmosfera miasmática, que poderá ser um novo partido constitucional?
Para ele serão as mesmas exigências duma política de contradição, a que se votará à nascença. Encontrará os mesmos prejuízos, que a sua origem o obrigará a respeitar. Será tão incapaz, tão ininteligente e tão corrupto como os seus antecessores (239)».
Parte do artigo publicado inA República”, 1870, nº 7.

In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

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Cortesia de Seara Nova/JDACT

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Páginas Desconhecidas: O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «A ditadura está evidentemente morta, e morta dum modo estranho. É uma ditadura, ‘criada pela necessidade de medidas capitais e avançadas’, que morre porque depois de meses de poder indisputado e quase absoluto, não encontrou uma única medida com que corresponde ao seu programa…»




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«A nação que sofre os grandes déspotas yem como desculpa a coacção; a que não derruba as pequenas e medrosas ditaduras merece muitas vezes apenas o desprezo da História.
Cuidado, porém, com os substitutos. Os que combatem a actual situação não valem mais do que ela. Nem estes nem os outros podem, já o dissemos, salvar o país sem o vender. Já vêm que salvação!
A nação deve, pois, não considerar os homens, mas as ideias. É verdade que os homens servem-se muitas vezes delas como de instrumentos para as suas ambições, e não faltam documentos para provar que o duque de Saldanha proclamaria a República amanhã, se julgasse poder fazer-se o presidente dela.
Isto prova duas coisas:
  • A primeira é que a política do actual gabinete se resume em saber o que se pode fazer do país que mais renda aos que agora administram;
  • A segunda é a ignorância do duque, que ainda se lembra de pensar em República, com poder executivo no presidente. Conclusão do artigo in “A República”, 1870, nº 6.
VII
A ditadura, depois de dois meses de inépcia, senão de alguma coisa pior, mostrou a sua impotência, como os governos legais tinham já mostrado a sua também. Que resta, pois?
A reforma, farol nominal dos nossos políticos contemporâneos, some-se cada vez mais nas profundidades do horizonte. A reforma, depois de se mostrar impossível dentro da legalidade, mostra-se impossível fora dela. A ditadura está evidentemente morta, e morta dum modo estranho. É uma ditadura, ‘criada pela necessidade de medidas capitais e avançadas’, que morre porque, depois de dois meses de poder indisputado e quase absoluto, não encontrou uma única medida com que corresponde ao seu programa e à situação do país, que, segundo ela exigia ‘actos radicais’.
Foi aceita geralmente sem grande hostilidade, por muitos até com esperança. Hoje ninguém crê nela. Não a acham má, propriamente, mas inútil; não é tirânica, é inepta. Quis ser uma revolução social, e alcançou, apenas, um ridículo oficial.
Morre, porque se suicida? Não! Nem mesmo se suicida. O suicídio é um acto de energia, que requer força, vontade, qualidades activas, embora mal dirigidas, mas reveladoras de vida.
Ora, a ditadura não tem actos; tem algumas palavras, e essas vulgares, vagas, insignificantes. Se os decretos dos ditadores foram revolucionários em alguma coisa, foi apenas na gramática. Ora isto não basta.
Não se suicida, pois, a ditadura. Morre naturalmente de senilidade, duma senilidade precoce, que se seguiu imediatamente ao nascimento. Obra dum velho, é, como a velhice, impotente e frouxa. Morre de lazeira, nada mais.


Que dure ainda uma semana, um mês, isso nada significa. Está moralmente morta. É quanto importa. A questão toda está agora na sucessão do morto. Quem será o herdeiro? Os velhos partidos, naturalmente?
Mas os velhos partidos estão julgados e condenados pela opinião, e sobre tudo pelos próprios actos. O que significa qualquer deles no poder, senão a repetição dos mesmos erros, das mesmas tendências e dos mesmos homens? (238)»
Início do artigo publicado in “A República”, 1870, nº 7.

In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

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terça-feira, 5 de junho de 2012

Páginas Desconhecidas: O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «O povo tem nas leis licença para se reunir, para ensinar, mas ao povo é proibido crer. Para o não católico, a Carta Constitucional é uma inquisição, que não tira a vida do homem, mas que diminui, porque corta direitos, a vida do cidadão»


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«Nós dizemos, das bases aos cimos, qual a edificação que propomos, forte para o futuro, e salvadora para este momento. Abraços, união íntima com todas as nações livres, queremo-la decerto, quando essa união for tal, que ninguém possa esmagar abraçando.
Contra uma união com a monarquia espanhola, que nem a História nem a opinião justificam, contra a união feita para a vaidade de dois ambiciosos e para o amparo do Império francês, levantamos nós o nosso grito e levantaremos amanhã um partido inteiro. É junto a nós o lugar dos verdadeiros portugueses, que desde este momento não podem deixar de ser verdadeiros republicanos». Conclusão do artigo publicado in “A República”, 1870, nº 6.

VI
«Os homens que fazem duma nação o instrumento do seu interesse particular e das suas ambições encontraram ultimamente, para se desculpar, uma teoria que se funda na ignorância e na imbecilidade de todo um povo, no meio do qual eles se dão a atitude do último iluminado e consciente.
O César ou o ditador faz à força a felicidade do seu país sem o consultar, sem o lisonjear, sem que se importe, ao colocá-lo no lugar mais adiantado, das vistas saudosas que ele lança para a sua antiga situação. O povo é criança, e precisa de um tutor que pense por ele: o ditador afasta-o francamente para os seus brinquedos, para o proverbial ‘pan y toros’, e governa só.
Muitas vezes, quase sempre, o homem que se supôs mais inteligente e hábil que toda a sua nação, é apenas um ambicioso e um aventureiro: o que ele, porém, precisa ter é a coragem e a forte iniciativa, que muitas vezes fazem, na História, com que essas figuras de déspotas se imponham à imaginação e à poesia.
Há, porém, mais abaixo, muito mais abaixo, os pequenos ditadores que, julgando a nação tão idiota como os antecedentes, a temem todavia. Estes lisonjeiam as massas, adulam o povo: os cortesãos precisam ter uma genuflexão para o rei; estes áulicos do povo precisam fazer alguns milhões delas. Depois, à nação, onde as grandes palavras são tão queridas como as grandes instituições, atira-se-lhe com uma lei que fala na reunião livre (porque se supõe o povo tão néscio e tão mentecapto que tome por um presente do poder o que ele há muito possuía nos costumes e de facto), e com uma outra, que torne o ‘ensino livre’, prometendo ‘todavia regulamentá-lo’.
Havia uma liberdade realmente a conquistar; mas essa, porque não era uma adulação ao povo, porque era um benefício real, não aparece nem aparecerá nos decretos falazes do duque de Saldanha:
  • É a liberdade de consciência, a liberdade dos cultos.
O povo tem nas leis licença para se reunir, para ensinar, mas ao povo é proibido crer. Para o não católico, a Carta Constitucional é uma inquisição, que não tira a vida do homem, mas que diminui, porque corta direitos, a vida do cidadão. A formação do ministério da Instrução Pública poderia ser uma instituição realmente democrática, se não fosse apenas, estamos autorizados a supô-lo, a criação aperfeiçoada de um mais segundo ócio (236)».
Início do artigo publicado in “A República”, 1870, nº 6.

In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.
  

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Páginas Desconhecidas: O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «Nós propomos a formação de uma nação independente, livre, rica, próspera, exemplo para o Mundo. Saldanha salva o país matando-o, cura as nossas finanças incorporando-as no orçamento de Espanha, onde vê para si uma larga verba: não é um ministro de Portugal, é o governador de uma província espanhola»



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«Em Espanha, como em todos os grandes países, é sempre popular a anexação dum território. O monarca que puder levar Portugal em dote será aceite por todos os partidos.
Um príncipe português satisfaria assim, ao mesmo tempo, a política francesa e os desejos espanhóis.
Demais, é possível que, pela sua coadjuvação neste negócio, a França possa ressuscitar com vantagem a velha questão da fronteira do Ebro.
Prim, nas últimas declarações feitas ao Congresso, deixa claramente entrever que uma união com a coroa portuguesa é o último plano sobre que demora as suas atenções. O não se poder eleger monarca senão pela maioria dos membros das Cortes, torna impossível toda a candidatura que não puder pagar a sua subida ao trono com quatro milhões de súbditos…
Vejamos agora os motivos pessoais de Prim e de Saldanha.
O príncipe Carlos de Bragança tem uma longa menoridade, e a História aí está para mostrar se há ambição e interesses nesses dois chefes do movimento que analisamos. Serão eles, durante essa menoridade, os chefes da Península Ibérica. Prim terá assim um rei para Espanha que o não possa expulsar do poder; Saldanha não precisará, para satisfazer à sua opulência e às suas prodigalidades, de vender todos os dias por embaixadas ou por empréstimos o seu acatamento e o seu respeito às leis.
Sejamos justos: em Saldanha ainda imperam outros motivos. A situação de Portugal não se resolve pela monarquia e pela independência. As nossas coisas só têm uma cura: - é a República. Este jornal não se tem limitado, cremos, a dizê-lo gratuitamente. Assim, pois, para Portugal só há duas soluções: a República, a queda e a liquidação da Monarquia, ou a venda a Espanha.
Nós pregamos hoje a primeira, e combateremos por ela amanhã. Saldanha adoptou a segunda.
Nós propomos a formação de uma nação independente, livre, rica, próspera, exemplo para o Mundo. Saldanha salva o país matando-o, cura as nossas finanças incorporando-as no orçamento de Espanha, onde vê para si uma larga verba: não é um ministro de Portugal, é o governador de uma província espanhola.
Não há, já o dissemos, senão duas soluções: a República ou a anexação à Espanha monárquica.
Só nós, assim, podemos levantar o grito de combate contra o plano ibérico, porque só nós temos um plano salvador para este país. Os jornais da oposição, que têm clamado contra a venda da pátria, não têm direito para o fazer. Que solução dariam eles às nossas finanças e à nossa situação? Que podem fazer com a monarquia?
É preciso arrasar pela base os velhos edifícios e erguer, no lugar deles, melhor monumento. DESTRUAM ET AEDIFICABO: eis a nossa divisa. Saldanha vende Portugal; mas a monarquia e os ministérios constitucionais haviam de deixar que lho tomassem das mãos inertes e incapazes (234)».
De “A República”, 1870, nº 6

In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

Continua
Cortesia de Seara Nova/JDACT