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domingo, 6 de novembro de 2022

As Igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas. Vítor Serrão. «… Torres Novas remonta à dominação romana, sendo de destacar a presença, nas proximidades da cidade, das ruínas musealizadas de uma vila romana, a Villa Cardilium…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Panorama da História e das Artes Torrejanas

«(…) O património artístico das três igrejas torrejanas foi visto, assim, como uma espécie de laboratório em aberto, reunindo valências estéticas consideradas suficientemente atractivas e esclarecedoras, possibilitando que fossem analisadas em moldes integrais, em devida concatenação com outras áreas do saber, como a Conservação e Restauro, a Iconografia e a Iconologia e, naturalmente, a História Religiosa, política, económica e social. Em suma, fala-se de (e com) obras de arte no quadro de uma espécie de peritagem de âmbito pluridisciplinar em que nelas possam ser identificadas as potencialidades estilísticas e as legitimações de estatuto artístico e determinado o grau de importância relativa que lhes cabe tributar.

Este livro visa cumprir, assim, um estudo sistemático da arquitectura, do urbanismo e dos acervos artísticos das três igrejas torrejanas recém-intervencionadas segundo o programa específico, chamado Na Rota da Arte e na Promoção Social, no âmbito de uma parceria com a Câmara Municipal de Torres Novas para a Regeneração Urbana do Centro Histórico, integrada no mais vasto Programa Operacional da Região Centro do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional). Foi objectivo fundamental impor e divulgar uma revisão actualizada de conhecimentos sobre essa matéria, unindo o alargamento da pesquisa arquivística ao da análise comparativa, valorizando conjuntos e obras de arte que jazem no limbo do esquecimento (ou são apenas admiradas enquanto peças ligadas ao culto) sob o ponto de vista da História da Arte, sensibilizando as pessoas para a sua fruição, e contribuindo assim, numa palavra, para fixar uma adequada dinamização do turismo patrimonial nesta cidade ribatejana.

Impõe-se, portanto, dar a conhecer melhor tais componentes nos acervos que enobrecem o património histórico-artístico da cidade de Torres Novas e que impõe maior conhecimento e divulgação públicas. Esta cidade, pertencente ao Distrito de Santarém, instalada na região Centro e sub-região do Médio Tejo, situa-se junto ao Parque da Serra d’Aire e Candeeiros e tem origens que remontam a tempos anteriores à Reconquista. Banhada pelo rio Almonda, Torres Novas é sede de um dos mais arcanos municípios nacionais, com cerca de 270 km² de área e uma população que ronda hoje os 40 000 habitantes distribuídos pelas dezassete freguesias do seu Concelho. O Município é limitado a noroeste pelo concelho de Ourém, de que está separado pelo maciço da serra como fronteira natural, a leste pelos concelhos de Tomar, Vila Nova da Barquinha e Entroncamento, a sueste pelo da Golegã, a sul pelo de Santarém e a oeste pelo de Alcanena. Em termos gerais, a Torres Novas medieval possuía um termo que chegou a ter cerca de 450 km2, quase o dobro dos 278 km2 por onde se estende o actual concelho!

Terra de pergaminhos históricos, Torres Novas remonta à dominação romana, sendo de destacar a presença, nas proximidades da cidade, das ruínas musealizadas de uma vila romana, a Villa Cardilium, residência senhorial muito conhecida devido aos valiosos mosaicos que preserva. O Concelho remonta ao princípio da Nacionalidade, já que a vila, conquistada aos mouros por dom Afonso Henriques em 1148, recebe carta de foral em 1190 por iniciativa de dom Sancho I, sendo esse foral confirmado por outros monarcas. Além destes diplomas, o Concelho regia-se pelos documentos denominados Foros de Torres Novas, reguladores do seu direito consuetudinário e considerados da maior importância para o estudo do Municipalismo português. Nascem as quatro paróquias e são várias as confrarias e irmandades que se documentam na vila desde os séculos XIII e XIV, estudadas por Iria Gonçalves, testemunho de um desenvolvimento comunitário de uma vila considerada por excelência terra do pão, do vinho e do azeite». In Vítor Serrão, As Igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas, Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Gráfica Almondina, 2012, Depósito Legal: 342911/12.

Cortesia de IHA/FLULisboa/GAlmondina/JDACT

 JDACT, Vítor Serrão, Religião, Cultura e Conhecimento, História, Ribatejo, Torres Novas,

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

As Igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas. Vítor Serrão. «… objectos de culto e, por isso, mantêm incólume as suas dimensões de intermediários de fé, não deixando por isso de ser também e sempre obras de arte»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em breves palavras desejo manifestar o meu louvor e agrado pela oportuna publicação sobre o património religioso de três Igrejas de Torres Novas (Salvador, São Tiago e São Pedro). O Professor Doutor Vítor Serrão, autor da obra, além da autoridade e reconhecida competência na história da arte, é também um ribatejano que se dedica de alma e coração a investigar a memória cultural da sua região. Temos assim garantida a qualidade e interesse da presente publicação. Apresenta-se como um estudo integral. De facto, o autor, tendo presentes e apoiando-se em estudos de outros pesquisadores, procurou novas fontes de informação e integra, numa visão de conjunto, a investigação pessoal e os trabalhos anteriores que abriram o caminho ao conhecimento do património de Torres Novas. Associando áreas como a arquitectura, a iconograia, a história religiosa ou social, alcança uma perspectiva rica e esclarecedora do património artístico das três Igrejas paroquiais de Torres Novas. A leitura torna-se interessante e enriquecedora. A oportunidade da obra decorre da necessidade actual de cultivar a memória e reconhecer as nossas raízes. Assistimos, realmente, a uma perda da memória. Sem recordação não encontramos raízes nem referências. As pessoas correm hoje o risco de viver apenas para o presente e de sobrevalorizar o efémero e o provisório, permanecendo à superfície da realidade e caindo num vazio e num deserto de valores e ideais. Ora a memória religiosa evoca representações e símbolos de um mundo transcendente, marcado pela harmonia e pela estética e gerador de paz. Não é apenas uma lembrança de realidades de outros tempos. A memória cristã traz à mente e ao coração (recordar é trazer ao coração) pessoas e factos que admiramos e veneramos (santos, acontecimentos bíblicos ou da história da igreja) e com os quais nos sentimos em casa. São, portanto, como estrelas que nos orientam no caminho incerto da vida […]. In Prefácio, Bispo Emérito de Santarém, Abril de 2012

Panorama da História e das Artes Torrejanas

«A cidade de Torres Novas oferece aos seus visitantes a presença de um património histórico, artístico, arquitectónico, urbanístico, arqueológico, etnográico e paisagístico de grande interesse. Impõe-se dá-lo a conhecer melhor ao público em geral, e aos estudiosos em particular, no que toca às suas componentes de arquitectura e de arte religiosas, concretamente o que pertence às igrejas paroquiais de Salvador, de São Tiago e de São Pedro, dando maior atenção às existências patrimoniais e compelindo à sua visita.

Na realidade, o património artístico existente em Torres Novas não se resume à existência do velho castelo medieval, nem às colecções de escultura e lapidária do Museu Municipal, ou à pintura do paisagista Carlos Reis (1863-1940), considerado a maior celebridade da arte torrejana e um dos nomes de referência do naturalismo nacional. Também as igrejas, antigos conventos, ermidas e capelas, e as peças de arte sacra oriundas dos desafectados espaços de culto da antiga vila e museologicamente conservados, atestam um acervo que se impõe pela quantidade, qualidade e diversidade dos seus espécimes.

A arte sacra de que aqui falamos inclui, além da arquitectura dos templos propriamente dita, numerosíssimas peças de vários géneros artísticos, desde a imaginária em madeira, terracota e pedra, à pintura a óleo, a têmpera e a fresco, ao azulejo, à paramentaria, ao mobiliário, às pratas e alfaias litúrgicas, ao estuque, e a outras componentes. Impunha-se o seu estudo em termos históricos, formais, estilísticos, iconográficos e artísticos, razão pela qual se empreendeu uma análise destes acervos seguindo, como se impunha, a metodologia da História da Arte, quer pela via da investigação dos arquivos (em muitos casos com fundos inexplorados), quer pela via da análise laboratorial de peças nos casos em que se verificaram processos de conservação e restauro, quer pelo estudo estilístico e comparativo das obras de arte de per si. No âmbito de uma disciplina científica como a História crítica da Arte, que visa, à luz dos seus próprios conceitos e modos de fazer, dar a conhecer melhor as obras de arte, estimular o acto da suas leitura na sua componente de integralidade, saber avaliá-las como produtos específicos de conjunturas, épocas e situações do tempo histórico (e além do tempo histórico), foi tarefa minha, também, saber situá-las em contexto, entendê-las como objectos vivos dotados de fascínio duradoiro e como testemunhos estéticos dotados de carga trans-memorial, a fim de poder justamente unir, tanto quanto foi possível, as componentes do gestor das artes com a do historiador-crítico e com a do connoisseur de obras artísticas, sem esquecer que muitas destas peças são, também, objectos de culto e, por isso, mantêm incólume as suas dimensões de intermediários de fé, não deixando por isso de ser também e sempre obras de arte». In Vítor Serrão, As Igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas, Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Gráfica Almondina, 2012, Depósito Legal: 342911/12.

Cortesia de IHA/FLULisboa/GAlmondina/JDACT

JDACT, Vítor Serrão, Religião, Cultura e Conhecimento, História, Ribatejo, Torres Novas, 

segunda-feira, 9 de março de 2020

Alpalhão. Património Histórico e Artístico. Vítor Serrão, João Cosme, Carmen Balesteros e Margarido Ribeiro. «Há nella Mrizericordia com provedor e irmãos e hospital, erecta pella devoção e doaçans dos devotos que fazem de renda reqularmente cem mil reis, e cento e trinta réis»

jdact

Memória 16
«(pag. 141). Fica esta villa na provincia do Alemtejo, bispado de Portalegre.
He de el-Rey nosso senhor, ahinda que tem alguas terras de comenda, como Montalvão, Niza que se chamam terras do Mestrado, e da comenda que há da Ordem de Christo. Hé o seu comendador o Excelentissimo duque de Lafoens.
Tem quatrocentos e vinte fogos; e mil e quatrocentas pessoas sogeitas a hua só freguesia de Nossa Senhora da Graça, igreja apresentada por el-Rey na Meza da Com[s]ciencia por concurso, com vigario que tem dous moyos de trigo e meyo, vinte e oito mil réis e cincoenta e dous almudes e vinho, e o pé-de-altar trinta mil réis.
Tem coadjutor com dous moyos de trigo, e seis mil réis, vinte e cinco almudes de vinho. Thezoureyro com hum moyo e quinze alqueires de trigo, três arrobas de cera lavrada, cinco mil reis, oito alqueyres de azeyte.
Esta igreja tem seis altares: da Senhora da Graça que hé o orago, da Senhora da Purificação, do Menino Deus, da Senhora do Rozario, do capelo do Arcediago e das Almas.
Tem quatro irmandades a que chamam confrarias: das Almas e do Rozario, e das (pag. 142) Chagas e da Senhora da Purificação.

Está esta villa situada em hum campo mas ahinda que plano, tem sua altura donde se avista Montalvão, distante duas legos; e Niza, outras duas; Castelo Branco, oito; Villa Velha, quatro, e Aris duas; Castelo de Vide, duas. O seu termo tem por todas as partes meya legoa, muito fecundo de senteyo, feyjão e milho meudo e algum trigo.

Há nella Mrizericordia com provedor e irmãos e hospital, erecta pella devoção e doaçans dos devotos que fazem de renda reqularmente cem mil reis, e cento e trinta réis.

Tem capitão-mayor, dous capitaens da Ordenança, hum de Auxiliares, e hum sargento-mor. Fora da villa tem hua ermida de Santo Antonio, outra de S. Sebastiam e do calvario; e outra meya legoa distante de Nossa Senhora da Redonda, imagem muito milagroza e de grande veneração não só para os desta villa mas tambem para as circunvizinhanças, e honde vêm com muitas romarias de Veram. E os da villa da Amieyra, distante três legoas, vêm todos os anos; a Justiça e toda a Nobreza com provizão de el-Rey para fazerem gastos à custa dos bens do concelho.
Dentro tem duas ermidas: a de S. Pedro e da Santa Caza da Mizericordia. Tem dous juizes ordinarios, escrivam de camera, escrivão dos orphãos, escrivão do judicial e notas, (pag. 143) alcayde.
A mizericordia governa-se pello compromisso da de Lisboa.
Tem esta vrlla finalmente seu sinal de muralha que hé ao redor hua parede mais larga, arruinada e quazi posta no alicerce, e hum castello no meyo com hua das quatro faces arruinada pelos castelhanos em Mayo de mil e settecentos e quatro. Este pello terremoto foi só o que padeceo nesta villa perecer hua pequena parte lá do alto da mesma face offendida, que as outras três se conservam inteiras. Dista de Portalegre quatro legoas, de Lisboa trinta e duas.

(Rio)
Há mais hua ribeyra que, por fazer ao rio Sor, lhe deu a sua origem, que hé junto à aldeã de Lagoa, termo de Portalegre, ahonde de huns regatos se forma; e na distancia de duas legoas, a esta villa por cujo termo passa, faz moinhos que moem nos annos bem regulados de Outubro athé Mayo.
Pela pequenhez deste termo alcançaram os moradores desta villa provizoens dos senhores reys passados para serem os pastos comuns, e poderem entrar com os seus gados no termo da villa de Niza.
Há mais outra ribeyra ou riozinho chamado do Figueirô, de tão excelentes bordalos que, entrando hum homem desta villa em hua igreja da cidade de Coimbra a tempo que se faziam exorcismos a hum energúmeno (pessoa que nunca veyo a esta terra, nem o conhecia), disse o diabo: oh, homem de Alpaham! Bons bordalos de Figueirô! 0h! 0h! E por a não acabarem o diabo, guarde Deos a quem me manda fazer este papel». In João Cosme e José Varandas, Memória 16, Memórias Paroquiais, 1758, Lisboa, Caleidoscópio, Alpalhão, Património Histórico e Artístico, Vítor Serrão, João Cosme, Carmen Balesteros e Margarido Ribeiro, 2015, ISBN 978-989-205-579-4.

Cortesia de TurismoAlentejoRibatejo/JFAlpalhão/LAAlpalhão/JDACT