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quarta-feira, 26 de junho de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Então, padre, o senhor não crê que Deus castigue os povos pelos pecados dos reis? Creio sobretudo que Deus castiga os povos pela sua estupidez e pela dos seus governantes…»

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«(…) Refere-se Vossa Excelência à fé do padre Villaescusa? Basta olhar para ele. Que Deus me castigue se me engano, mas esse frade não acredita em Deus. Que diz o senhor, padre Almeida? É desses homens que falam, gritam, agitam, ameaçam, tudo em nome da doutrina mais pura, mas que jamais se atrevem a olhar para dentro de si próprios. Alguma vez o ouviu referir-se ao Evangelho? Acredita Vossa Excelência que tenha a menor noção de caridade? O padre Villaescusa acredita em tudo o que a Santa Madre Igreja acredita, mas, sobretudo, acredita na Igreja, à qual pertence e que encarrega de acreditar por ele; dentro da qual espera progredir e, sobretudo, mandar. Suspeita de que nunca chegará a ser Papa, mas não põe de parte vir um dia a ocupar esse cadeirão que Vossa Excelência ocupa, nem que seja apenas para ordenar um auto-de-fé e a seguir morrer. É quase certo que, nessa altura, a morte não o assustaria e que a receberia com o prazer de quem alcançou no mundo tudo o que desejou. O Inquisidor-mor não lhe respondeu imediatamente. Padre Almeida, para quem viveu tanto tempo no meio dos selvagens, o senhor manifesta um bom conhecimento dos homens civilizados.
Foi precisamente porque atingi esse conhecimento que preferi viver entre os índios. Não acreditariam no nosso Deus, mas acreditavam a sério nos deles. Soou uma campainha de prata anunciando que o intervalo tinha terminado. Entraram na sala pela mesma ordem por que tinham saído, e ocuparam os seus cadeirões. O Inquisidor-mor concedeu a palavra ao padre Villaescusa. Reverendos padres, foram três as questões que nos congregaram nesta sessão solene: posta de lado a primeira, cuja solução acato por obediência, embora convencido de que, nessa comissão encarregada de a resolver, haverá oportunidade de ouvir a minha voz, passo a expor a segunda: Sua Majestade o Rei manifestou, dando com isso provas de um descaramento que só pode tolerar-se por ser régio, o seu desejo de ver a Rainha nua. As leis de Deus opõem-se; as do reino também, ou, pelo menos, os nossos inveterados costumes e protocolos, que têm força de lei. Qual é a opinião de Vossas Paternidades? Respondeu-lhe um silêncio, quebrado finalmente pelo padre Almeida, alguém admitiu na sua consciência que inevitavelmente.
Penso que, por se tratar de uma questão pessoal, excede as nossas incumbências, a não ser que o padre Villaescusa demonstre o contrário. Para o demonstrar, respondeu o capuchinho, com uma ponta de exaltação temperada pela segurança com que falava, bastar-me-á enunciar a terceira questão, profundamente relacionada com a segunda e também com a primeira: o Senhor que tudo pode, premiador dos bons e castigador dos maus, torna extensiva aos reinos de Espanha a sua indignação pelos pecados do Rei. O povo sabe-o, e anda receoso de sofrer um castigo pelos males que não fez. Neste momento espera-se uma grande batalha nos Países Baixos, decisiva para as nossas armas, e a Frota das Índias aproxima-se das nossas costas. É lógico que Deus nos castigue fazendo-nos perder a batalha e deixando que a frota seja assaltada e roubada pelos corsários ingleses. Não vejo a lógica em parte nenhuma. Um frio medular sacudiu os ossos dos presentes, salvo os do Inquisidor-mor, que assistia ao debate com dissimulado regozijo.
Então, padre, o senhor não crê que Deus castigue os povos pelos pecados dos reis? Creio sobretudo que Deus castiga os povos pela sua estupidez e pela dos seus governantes, e que os ajuda quando estes não são estúpidos. Rogo a Vossa Paternidade que considere o estado dos grandes países nossos vizinhos. A Inglaterra é já uma grande potência, senhora do mar; é-o também, embora só da terra, a França; não o é já o Grão-turco, modelo de desgoverno. Da defunta rainha de Inglaterra, que levou o seu país à prosperidade, não temos informações muito favoráveis acerca dos seus costumes, e menos ainda da sua fé. O cardeal que governa em França também não é um exemplo de virtudes pessoais, mas parece inteligente e enérgico. De modo que a sua teoria só pode aplicar-se à Espanha. Não tenho inconveniente, padre, em aceitar a sua resposta, com a condição de que substitua Deus pelo Diabo. Uma protecção mais forte que a de Deus, ou uma inibição de Deus em benefício do Diabo?
Não estou nos segredos de Deus, não posso dizer como levará a cabo o seu castigo. A única coisa que sei é que a presença do Diabo é clara, como o é em toda a ocasião em que os desígnios de Deus são frustrados pelos homens. Por um mau governo, por exemplo? Ou por um bom governo, que importa? E dispõe Vossa Reverência de algum indício que denuncie a presença, ou a intervenção, do Diabo no caso que nos ocupa?» In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «É o que tem a opinião popular, Excelência: há sempre alguém que a cria e a dirige, mas depois cada qual pensa por sua conta»

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«(…) Não é impossível, padre Almeida, que um dia destes tenha de comparecer, em carro fechado e escoltado, para responder às perguntas que este Santo Tribunal queira fazer-lhe acerca da ortodoxia e da sua doutrina particular; mas, entretanto, quero manifestar-lhe que o senhor me é simpático, que gostaria que almoçássemos a sós antes de ter que o deter, e que lamento que a sua missão em Inglaterra ponha a sua vida em perigo. Não conheço os costumes nem os métodos da justiça inglesa, mas do que tenho a certeza é de que a minha mão não poderá chegar até àquelas terras para lhe aliviar os tormentos. Aqui seria outra coisa. O padre Almeida fez-lhe uma vénia muito gentil, mais francesa do que espanhola. Excelência, agradeço-lhe essa prova de deferência, e manifesto-lhe por meu turno a minha disposição tanto para o ouvir como para partilhar a sua mesa, embora o advirta de que, depois de tantos anos de ausência do mundo civilizado, é possível que as minhas maneiras não sejam tão refinadas quanto a vossa presença exigiria.
Isso não importa, padre. Por muitos que tenham sido os seus anos de afastamento do mundo, o que se aprende uma vez nunca mais se esquece. Mas advirto-o por meu turno de que a minha mesa é frugal. A Santa Inquisição (maldita) é rica, mas o seu chefe é medianamente pobre. Ofereço-lhe uma sopa juliana, bem condimentada, é certo, e um lombo de porco de vinha-d’alhos que o meu cozinheiro, um homem do Norte, prepara com exemplar sabedoria, e ao dizer isto olhou de soslaio para o padre Almeida, que respondeu tranquilamente: não tenho nada contra esse lombo de porco, Excelência. Vai para sete anos que não o provo. Nesse caso, acha bem amanhã ao meio-dia? E não terá Vossa Excelência que mandar prender-me antes? Procurarei evitá-lo.
Um fâmulo abria passagem por entre o grupo de frades em direcção ao Inquisidor-mor. Com a devida licença, aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Inquisidor-mor respondeu-lhe: trá-lo cá imediatamente e, muito cortês, esclareceu o padre Almeida: é um próprio do Valido. Sabe Deus o que terá acontecido a Sua Excelência. O fâmulo vinha já com o mensageiro, um cavalheiro respeitabilíssimo, de meia idade, membro de alguma ordem, a que o fâmulo abriu passagem até o deixar diante do Prelado. O mensageiro pôs-se de joelhos, beijou a mão que se lhe estendia, ou antes, o anel de ametista, e deixou nela uma carta selada. O Inquisidor-mor abriu-a, leu-a e pediu ao fâmulo que lhe trouxesse com que escrever. Enquanto esperava, mandou o mensageiro levantar-se, e disse confidencialmente ao jesuíta: anda toda a gente alvoroçada, pedindo a Deus clemência pelos pecados dos grandes, e à frente de cada grupo vai um frade exaltado. Mas o que parece tê-los assustado é a presença de uma enorme cobra que muitos dizem ter visto. Uns pensam que vai derrubar as muralhas da cidade; outros a Alcáçova real, e, a maioria, a sua própria casa, porque todos se sabem pecadores.
É o que tem a opinião popular, Excelência: há sempre alguém que a cria e a dirige, mas depois cada qual pensa por sua conta. O fâmulo aproximava-se já com uma escrivaninha portátil, que ofereceu ao Inquisidor-mor. Este escreveu no papel: pancada a torto e a direito. Não teria importância se algum desses frades, com uma perna partida, ficasse três meses de cama para meditar, e passou o escrito ao padre Almeida. Não gostaria de estar na pele dos pregadores. Também eu não. O Inquisidor-mor fechou a carta, selou-a e entregou-a ao mensageiro, ao mesmo tempo que lhe oferecia a mão em sinal de despedida. O mensageiro sumiu-se por entre os frades querelantes e desapareceu. A culpa de todo esse alvoroço tem-na o padre Villaescusa. A fé ardente, às vezes, é inadequada para manter a ordem pública». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

terça-feira, 4 de junho de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Se o senhor não se importa, preferia contemplar um acontecimento bastante mais modesto»

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«(…) Não há memória de que tal multidão se haja alguma vez reunido, nem de que os mesmos actos se tenham repetido mais vezes do que aquelas que eu, no pouco que olhava, podia ver, pois tudo era nascer, comer, reproduzir-se e morrer, e nenhum outro acontecimento se destacava, uma batalha ou uma festa. certamente que as havia, umas e outras, mas o conjunto incalculável da humanidade comia-as, e tudo parecia igual, monótono e informe. Interessa-lhe algum acontecimento especial, algo verdadeiramente extraordinário? Porque ali pode ver como estão a abrir o ventre à mãe de César, e, um pouco mais abaixo, como o mesmo César, algo mais velho, claro, cai sob os punhais conjurados e cobre a cabeça com o manto. E claro que, se lhe interessa ouvir Marco António, verá que as suas palavras verdadeiras foram um pouco menos bonitas que as que Shakespeare lhe atribui, e não tão bem declamadas como as que Marlon Brando diz; nesse caso, respondi-lhe, prefiro continuar a ler Shakespeare. Gostaria de assistir à estreia de Júlio César no Globe? Ali vemos Londres perfeitamente...
Se o senhor não se importa, preferia contemplar um acontecimento bastante mais modesto. Aconteceu numa aldeia galega, ribeira de uma rua, há um pouco mais de meio século: exactamente no dia treze de Junho de 1910. Nessa altura nasceu um menino, e eu gostaria de assistir... Não quero dizer ao parto, naturalmente: segundo os meus preconceitos, não seria bem visto que eu estivesse presente como espectador do meu próprio nascimento, pelo facto de ser a minha mãe quem grita. Pareceu-me que Cagliostro me olhava com benevolência sorridente; de qualquer forma tive perante mim a casa onde nasci, a sala dessa casa, a alcova da minha avó, onde acabavam de deitar a minha mãe. Era um dia muito bonito, o meu pai contemplava-o, ou fingia que o fazia, pois estava nervoso, conforme mostravam os pés inquietos e os cigarros que ia fumando. As mulheres entravam e saíam, na sala e na alcova, e ouviam-se como que gemidos distantes ou reprimidos. Perguntou-me Cagliostro se eu desejava esperar que aquilo terminasse, dado que duraria seguramente algumas horas; eu respondi que não, que o desenlace me bastava, e então mostrou-me como saíam c6m um recém-nascido do quarto bem envolto nas suas fraldas, já lavado, e o mostravam ao meu pai. O meu pai não sabia o que fazer. Dá-lhe um beijo, homem!, disse-lhe a que me trazia nos braços, provavelmente uma das minhas tias. E o meu pai beijou-me, então.
Esta visão escassamente duradoura, nada grandiosa, embora indubitável; a percepção insólita de acontecimentos e de pessoas que se estendiam como num deserto imenso (esse deserto é, seguramente, a Mente em que se realizam); a convicção de ser maciça e de vulto aquela gente e de que todos respiravam, fizeram com que eu levasse a sério e recebesse como verdade o que o Grande Copta me mostrava, e tive então a ideia de lhe pedir que me ilustrasse acerca de Napoleão, de quem provavelmente tinha sido contemporâneo, ou cuja época tinha atravessado, como quem desde os tempos de O Colar da Rainha chegou até aqui; ao que desatou a rir, e me disse que, se eu tivesse interesse, um interesse razoável e discreto, me ajudaria a averiguar por mim próprio, embora noutra ocasião. Não sei porquê, Ariadne, interpretei aquele riso como a corroboração, como um testemunho excepcional de que Claire anda na verdade, porque se não significa que Napoleão nunca existiu, é preciso tomá-lo como a asserção convencida de que nenhum de nós existe: foi, sem dúvida, o riso que nega a realidade de tudo, e este é ainda o momento em que, se o recordo, algo treme e se arrepia no meu interior». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «O tampo do piano é tão brilhante, senhor, que dá gosto mirarmo-nos nele! Sabe que estava lá a minha irmã Cósima? Não me ligou nenhuma, de modo que pude observá-la…»

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«(…) Quando Myriam estava quase a cumprir dezasseis anos, escrevi a sua tia, à condessa Prisciliana, convidando-a a passar uma temporada connosco e, na noite da sua chegada, depois de as princesas se terem retirado, combinei com ela a melhor maneira de comunicar a Myriam quem era o seu pai; não um pobre grão-duque sempre ameaçado pelas baionetas do Águia mas, sim, um homem famoso em toda a Europa que, apesar de ter que se acolher à benevolência dos grandes, sabia que o seu nome era ainda maior, cimentado numa obra imarcescível e não numa biografia discutível. Não pude evitar que a rapariga goste de mim, porque esse foi o desejo de sua mãe mas, como também a eduquei no sentido do dever e na fortaleza de ânimo, julgo que, se não puseres demasiado dramatismo na revelação, a menina receberá o seu presente de aniversário com serenidade e sem derramar uma lágrima, ainda que talvez não com alegria. Podes também dizer-lhe que, se desejar conhecer o pai, eu estou disposto a pagar-lhe uma viagem até Weimar, que é onde Liszt vive agora, e a ti também, se quiseres acompanhá-la. Da têmpera que demonstrou Myriam haveria muito a dizer se fosse coisa que se divulgasse mas convém não esquecer que, de certo modo, apesar de seu pai ser famoso e da sua mãe ser uma princesa reinante, a história da sua origem deveria ser, para todos, um segredo de alcova. No próprio dia do seu aniversário, quando todos se haviam retirado, incluindo a tia Prisciliana, que abusava do café e da palavra e não havia quem a mandasse para a cama, apareceu Myriam, sentou-se ao meu lado, esteve silenciosa uns minutos e disse-me, depois: senhor, quero comunicar-lhe que hoje é o dia mais infeliz da minha vida. E eu respondi-lhe: o facto de saberes o que sabes não muda nada entre nós.
Eu creio que muda, senhor, ainda que, de momento, talvez mude pouco. O meu propósito é renunciar a esta situação falsa de princesa feliz e independentizar-me paulatinamente. Como sei que Vossa Alteza me ama, não deixarei de o consultar acerca das minhas determinações. Mas peço-lhe que compreenda que a minha obrigação é separar-me. Queres conhecer teu Pai? É, provavelmente, a minha obrigação; não creio que seja o meu gosto. É a primeira coisa sobre a qual quero consultar-vos. Vai a Weimar. No regresso da viagem só me comentou: o meu pai, senhor, é um homem admirável, apesar de muito preocupado com a salvação da sua alma porque, ao beijar-me a fronte, me disse que eu era o seu pecado, quando sei que tem pelo menos outros três. A tia Priscilíana desatou a rir e chamou-me hipócrita. Mas o meu pai não se riu e vi-me numa situação tão violenta que, para se notar menos a minha presença, me pus a meter o nariz por aquelas bandas. Meu pai vive numa casinha com um grande salão, com um grande piano e muitas fotografias. São todas de duquesas, de princesas, de imperatrizes e algumas de reis.
O tampo do piano é tão brilhante, senhor, que dá gosto mirarmo-nos nele! Sabe que estava lá a minha irmã Cósima? Não me ligou nenhuma, de modo que pude observá-la: é feia e dura, não gostei dela. Também parece preocupar-se muito com a salvação da alma do meu pai, mas pergunto-me como irá fazê-lo rodeado de tantas mulheres belas e tantas recordações más. A propósito, senhor, o retrato de minha mãe não está naquele harém. Creio que foi na época do regresso de Myriam, ou muito pouco tempo depois, que recebi o primeiro relatório do Incansável Observador do Mistério. Poderia ter averiguado, mas não o fiz, quem era aquele sujeito que durante um certo tempo me enviou, com regularidade, as notícias de tudo o que de extraordinário e maravilhoso acontecia nas terras do grão-ducado mas, principalmente, na sua capital. A sua releitura faz-me, com frequência, feliz e reconheço que, graças a esses papéis, vivi boa parte da minha vida com uma porta aberta para esse mundo no qual pouca gente crê: provavelmente com razão, mas uma das coisas que tenho aprendido é que não são precisas razões para crer. Esse primeiro relatório dizia, textualmente: Sereníssimo Senhor: ouvi contar a meu avô que, durante muitos anos, informou regularmente o avô de Vossa Alteza de tudo o respeitante a alguns factos que passam despercebidos ao comum dos vossos súbditos mas que nem por isso deixam de ter importância para os que governam um país. Poderemos chamar-lhes, se o vocábulo lhe agradar, premonições. Se meu avô interrompeu os seus serviços à Coroa e ao Estado, isso deveu-se a que o sucessor de vosso avô, vosso sereníssimo pai, jamais tenha prestado atenção a esses papéis, nem nunca tenha acreditado neles, mas convém recordar que, em tempo de vosso pai, as coisas deste mundo andavam melhor e os habitantes do outro estavam sossegados. Eu, que recebi de meu avô e de meu pai a capacidade de ver, acho-me na obrigação de reatar aquele antigo costume com a esperança, quase com a certeza, de que essas revelações serão bem recebidas. Mas não esqueço, ao mesmo tempo, que o meu dever de súbdito é não incomodar o soberano. Por semelhante razão, se os termos deste primeiro escrito merecerem a atenção e o interesse de Vossa Alteza, peço-vos que, nos ofícios do domingo, leveis a sobrecasaca cor de tabaco que tão escassamente vos favorece. Vê-la e vislumbrar a pluma será quase o mesmo». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «O espaço é circular e giratório. Tal como não se abarca o fim, escapa-nos o princípio…»

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«(…) E como eu mostrasse, não sei se manifestada em gesto mais ou menos estupefacto (ou talvez estúpido), uma certa incompreensão ou pelo menos algum cepticismo, Cagliostro continuou:

V. deverá ter ouvido uma infinidade de vezes o tema do Livro da História. Sem querer, querendo talvez até indicar precisamente o contrário, a frase, esvaziada do seu conteúdo convencional, pode depois ser recheada de verdade. Repare que num livro coexistem o princípio, o fim e os meios, e só quando se submete a uma leitura a que chamamos regular, é que o seu conteúdo se mostra como um antes e um depois. Mas, quem é que duvida que se pode ler de outra maneira, o fim primeiro, a solução antes de se pôr o problema? E que se pode avançar e retroceder e parar, e andar de novo, e todas as combinações e experiências temporais que se desejarem? A coexistência de todos os acontecimentos humanos permite a quem está no segredo, a quem sabe contemplar a história no seu conjunto, um modo de leitura semelhante: desde o começo misterioso até ao presente, que é o que fazem os historiadores; desde o presente ao futuro, que é o que fazem os profetas, que foi o que eu fiz quando mostrei a uma rainha o tipo da sua morte, ou o que fez João em Patmos quando nos mostrou o modo do nosso fim, embora com tal excesso de metáforas, analogias e precauções, que se torna difícil averiguar qualquer coisa que não seja a de que a nossa morte, a de todos, nos chegará pelo fogo, se bem que ninguém, nem sequer eu próprio, saiba quando, porque nessa parte do futuro a História se vê um pouco oculta pela bruma. É o mesmo que acontece, ou parecido, quando se tenta averiguar a data da morte pessoal: fica sempre para poente, e é tão móvel, e quanto mais uma pessoa se torce para a ver mais ela se lhe escapa.

Então, interrompi-o, existe uma direita e uma esquerda nesse panorama? Será, talvez, como um quadro? Exactamente. A anulação do tempo beneficia o espaço. A história é uma espécie de paisagem com figuras, se bem que praticamente interminável. Aquilo a que continuamos a chamar o passado fica à esquerda; em frente, o presente, e o futuro à direita. O espaço é circular e giratório. Tal como não se abarca o fim, escapa-nos o princípio, embora eu, por algumas suspeitas, me incline a acreditar na nebulosa. O meu símio íntimo quase me batia na consciência com as gargalhadas do seu regozijo. Repetia Este gajo!, sem descanso, e chegou a distrair a minha atenção, e, o que é mais grave, convenceu-me ao ponto de receber a revelação de Cagliostro com ironia interior, com aparente respeito. E é preciso adormecer para ver isso?, perguntei-lhe. Hipnotismo e coisas dessas. Talvez aquele olhar que Cagliostro me devolveu me chegasse carregado de desdém. A Maria Antonieta não precisei de a adormecer. V. valeu-se de uma bola de cristal. Qualquer superfície reflectora serve: um vidro da janela, a superfície do mar quando está calmo. A vez em que aqui o nosso amigo (e indicou Ashverus com um gesto) precisou de umas certas comprovações, valemo-nos de um espelho. O espelho tem a vantagem, devido à moldura, de ser possível espreitar por ele e até atirar-se dele para a corrente, ou planar sem limitações. Possível, em que medida? Desatou a rir. V. acaba de me perguntar se lhe é possível a si. Pois claro que sim, homem! A visão do conjunto da história é acessível a todo aquele que for capaz de suportar realidades tão pouco toleráveis e, sobretudo, tão pouco inteligíveis como o infinito e o absurdo. Pensei que ia explicar-me porque é que tinha usado aquelas duas palavras, em aparência tão comprometedoras (embora, trazidas frivolamente, não queiram dizer nada), e fiquei suspenso, à espera; o que ele fez foi sair da sala e voltar ao fim de alguns momentos com um espelho, não muito grande, que colocou à minha frente, em cima de uma cadeira: parecia velado, o espelho, se bem que com um véu interior que lhe retirasse profundidade e impedisse qualquer reflexo; eu, ao olhar para mim, não me via; e, de repente, acendeu-se, como que por detrás do vidro, isto é, com uma luz distante e leitosa que se derramou por uma superfície inabarcável, pululante como um formigueiro ou uma vermineira gigantescos». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Hoje já não sou o Grande Oriente, mas sim o Grande Copta, e enquanto tal me obedecem…»

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«(…) Evoquei sobretudo aquele começo de um deles em que Cagliostro, ignorado como tal pelo leitor, viajante anónimo e nocturno, ascende pela ladeira de uma montanha numa noite de chuva e vento, ascende apesar das vozes que o aconselham a retroceder, que o ameaçam se continuar, até que por fim, nas ruínas de um castelo provavelmente gótico e depois de um rito iniciático interrompido e frustrado, o viajante e catecúmeno é nada menos que Cagliostro, o Grande Oriente da Maçonaria. Ah!, disse ele. Aquilo era um bom tempo, era um bom tempo, embora mais perigoso do que este. Mas eu nunca fui maçon, ou pelo menos não o fui da espécie racionalista, mas sim da mística, e por isso é que me passei para os rosa-cruz até conseguir fundar a minha própria seita, ou, se preferirem, a minha própria organização. Hoje já não sou o Grande Oriente, mas sim o Grande Copta, e enquanto tal me obedecem mais de cem mil cidadãos deste país; tenho pactos firmados com os Templários e relações financeiras com o Vaticano. A Casa Branca ignora a grandeza do meu poder. O presidente pode, é claro, declarar a guerra e enviar para outros céus marines e mísseis, coisa que a mim me está vedada; mas se eu maquinar uma revolução, levo o país à ruína em menos de uma semana. Claro que não me interessa fazê-lo e que, na realidade, sou uma potência conservadora; mas talvez um dia dê uma prova menos aparatosa do meu poder, se bem que prefira dar um sinal da minha ciência, experiência de séculos transmitida em segredo e com perigo, na qual se resumem os saberes que não convêm ao Poder, que se opõem à Ordem e que contradizem a Verdade. A minha ciência é a única, a verdadeira revolução.
Dizia isto como que a brincar, enquanto o meu símio interior me sussurrava:

Vejam-me só este gajo! Que bem que ele sabe o papel, e que papel escolheu! Gostava mesmo de saber quem ele é e donde é que vem. Pela cara parece bizantino.

De facto, apesar dos seus ares de homem moderno, no seu rosto alongado e oliváceo, que às vezes me faz lembrar o teu, ainda havia muito de santo helénico, de cara traçada segundo as normas e os princípios de uma arte que inscreve o corpo humano num sistema de círculos e quadrados em que só respeita o Áureo Número. Daquela vez em que me levaram de visita ao mosteiro russo instalado nas montanhas que ficam para oeste da Northway, e em que me deixaram bisbilhotar na oficina do monge que pintava ícones, numa tábua encostada a um canto e meio suja via-se o esboço de um rosto como o de Cagliostro. Certa noite, já não me lembro qual, disse-nos ter nascido em Mantinea. O que me revelou, não importa agora quando, foi exactamente isto, que é o que nos diz respeito e me aconselha trazê-lo aqui:

Nem o passado existe nem o futuro. Tudo é presente, como bem advertiram os teólogos quando afirmaram que toda a vida do homem e do Cosmos, isso a que chamamos história e da qual uma boa parte está ainda por acontecer, é pura actualidade na mente divina. Enganaram-se apenas quanto a Deus, que não existe (Ashverus sorriu e abanou a cabeça: tinha os seus motivos para o fazer); mas a história, mesmo sem Mente a que remeter-se, é pura actualidade, tudo está a acontecer agora mesmo, e se nós o percebemos como passado, como presente e como futuro, isso deve-se tanto a organizações mentais como também a estruturas verbais. Não foi essa suposta fluência a que chamamos tempo o que determinou os verbos, mas sim ao contrário: o tempo como experiência e como realidade é sustido pelas palavras enquanto expressão de um modo de a mente estar organizada». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Muitas vezes, ao longo da vida, tentei desembaraçar-me de semelhante personagem, expulsá-lo de mim através dos mais incríveis exorcismos…»

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«(…) Não impedem ninguém de se aproximar, não se recatam de ninguém quando falam e, no entanto, ninguém os entende, e não por falarem numa língua arcaica, mas sim por se referirem a um mundo que não conseguimos imaginar. Certamente que ao livreiro não lhe foi encomendada qualquer missão, mas espera o pedido um dia destes. E já vão três imortais. Do quarto vou falar-te agora mesmo: não é dos milagrosos, mostra patente de que Deus tudo pode, mas sim dos técnicos, possuidor de um segredo químico que lhe permite conservar-se, o que o priva do halo transcendente e o confina aos limites da nossa humanidade. Conheci-o por intermédio de Ashverus e a meu pedido, numa noite de Inverno, num lugar estranho de Greenwich Village; estranho, não porque apresentasse ou fizesse pressentir circunstâncias ou caracteres extraordinários, mas sim, precisamente, pela sua vulgaridade, tão evidente, tão chamativa e tão tranquilizadora; descansava-se nela, protegia como o regaço de uma mãe, era uma casinha de dois andares, com dois buracos em cima e um no piso térreo, a cuja porta o meu amigo bateu de uma maneira combinada e no qual nos introduziu aquele que a seguir se apresentou como sendo o conde Cagliostro: sem surpresa de qualquer uma das partes, pois tinha sido avisado de quem eu era, de forma que foi uma apresentação convencional nas fórmulas, cerimónias e sorrisos. Agradou-me aquele a quem não sei se hei-de chamar farsante ou considerá-lo como a autêntica pessoa a que o seu nome remete, e devo dizer que outro tanto me aconteceu com os outros, me acontece ainda: Ashverus e os dois emissários do Céu, pois, por mais alto que seja o refinamento de uma inteligência, por mais rica que seja a sua experiência em acontecimentos invulgares, por mais dilatada que seja a sua tolerância intelectual, permanece sempre no interior consciência, encolhido, essa espécie de símio racional repleto de sensatez que desconfia de uns homens porque se declaram imortais, que os cataloga imediatamente como impostores. Muitas vezes, ao longo da vida, tentei desembaraçar-me de semelhante personagem, expulsá-lo de mim através dos mais incríveis exorcismos, sobretudo nas ocasiões em que, por ter seguido os seus conselhos, cometi uma meia dúzia de erros de que posso arrepender-me e que me foram formando; mas não foi possível, porque ele é eu mesmo, é uma parte indestrutível de mim e, sobretudo, incansável na sua charlatanice matemática e na sua maneira de avisar ou de insultar: mais por símbolos do que por conceitos. Durante todo o tempo que duraram as minhas relações com aqueles irrepreensíveis cavalheiros, Enoch, Elias, Ashverus e Cagliostro, não fez mais do que increpar-me e rir-se de mim, ao ponto de temer, naquela noite em Greenwich Village, que o anfitrião, tão amável, chegasse a ouvir as suas gargalhadas, que não são emocionais, como as de toda a gente, mas sim carregadas de lógica. Isso não deve ter acontecido, pois Cagliostro manteve até ao fim a sua cortesia, não mostrou desconfiança, nem sequer suspeita. Também não havia motivos aparentes, pois eu ouvia-o entre arrebatado e pasmado, ou, melhor dizendo, ouvia a conversa faiscante daqueles personagens que, ao longo dos dois últimos milénios, se tinham encontrado amiúde, umas vezes amigos, outras, em campos opostos, e que se referiam agora a grandes acontecimentos ou a figurinhas de que já não resta memória: de qualquer forma, pedaços inteiros do passado pareciam reviver naquela conversa, e foi precisamente essa palavra, passado, que pronunciei numa das minhas escassas intervenções, a que deu ensejo a Cagliostro para me impingir um discurso que mais parecia uma lição de cátedra, pois até comportava nada mais que uma interpretação desconhecida da história e uma nova metafísica do tempo. Mas, antes de repetir (sempre na medida que as minhas recordações o permitam) as suas palavras ou as suas ideias, quero deixar testemunho dos preliminares da nossa conversa, quando lhe contei até que ponto o seu nome e a sua figura me eram familiares e sempre admirados, bem como frequentemente relembrados, inclusivamente com emoção e terror, a partir dos tempos da minha infância em que José Bálsamo, um dos seus muitos nomes, ia e vinha e reclamava a minha atenção enquanto protagonista de uns romances sobejamente lidos». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «E quem ousa levar a sério alguém que se confesse imortal? Assim foi possível, assim ainda o é, que aquele que se chama a si mesmo Enoch»

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«(…) Não sei de ninguém que o tenha comentado, nem em privado nem em público, para achar estranho ou para se rir, e quase suspeito que pouca gente terá lido as páginas em que o conto, nas autobiográficas, precisamente, e não nas de amena invenção: pois se assim não fosse, se fossem relativamente conhecidas, como é que não ia existir um leitor suficientemente inteligente, suficientemente sensível para se deter no facto, para interrogar o protagonista, ou, se não o considerasse como tal, o narrador? Mas a verdade é que nunca me perguntaram por Ashverus, até ao ponto de me fazerem crer que a memória do seu nome se perdeu, pois não quero pensar que se interprete o meu relato como sendo fantástico, senão mesmo como invenção trocista, daquelas que não se podem receber com a desejada seriedade, mas sim com a irritação ou com a repulsa que a mentira exige. Vejo-me, pois, na necessidade de repetir, ainda que com menos palavras, que Ashverus e eu nos encontrámos num café de Nova lorque numa tarde de Estio, e que naquele momento se iniciou uma curiosa amizade que ainda mantemos, se bem que já não como outrora, convivência frequente de entrevistas e demorados colóquios, mas sim recados periódicos ou notícias indirectas que me chegam de qualquer parte do globo: Salisbúria ou Valparaíso, pois insiste no seu ofício de procurar a paz ali onde ela se altera. A sua última missiva rezava textualmente:

De Santiago tive de sair disparado, e o postal traz o carimbo de Callao.

Não esperava a menor relação de Ashverus com o livro de Claire nem com o tema de Napoleão. Ashverus não escreve história: tem vindo a fazê-la há, aproximadamente, dois mil anos; das maneiras mais peregrinas, nos lugares menos suspeitos e sempre com nomes sob os quais ninguém poderia imaginar esconder-se outra coisa. Se o menciono aqui, se me refiro a ele, é porque graças a ele conheci e lidei em Nova Iorque com pessoas, frequentei círculos, sobre os quais as polícias costumam estar mal informadas, mas que não é por isso que deixam de ter a sua importância, pelo menos para mim. É claro que Nova Iorque, conforme algumas vezes concordámos, é uma das cidades mais mal conhecidas do mundo, precisamente porque abundam as pessoas que pensam tê-la na cabeça como um mapa, e que com o resultado da sua experiência escrevem romances ou livros de sociologia. Acontece, por exemplo, que os homens verdadeiramente raros, esses que escapam a qualquer classificação, bem como às concepções racionais, excluídos pouco a pouco de outros lugares onde se vai tornando difícil dissimular-se e ir andando, têm vindo a convergir em Nova lorque, onde seriam procurados se praticassem a antropofagia ritual ou a poligamia, se negociassem descaradamente no tráfico de mulheres ou na droga; mas um inventor de religiões (suponhamos frequente), a quem inquieta? E quem ousa levar a sério alguém que se confesse imortal? Assim foi possível, assim ainda o é, que aquele que se chama a si mesmo Enoch, e assegure ser o da Bíblia, coloque diariamente a sua barraca e a sua bandeira estrelada num passeio da Rua Quarenta e Três, quase esquina com a Quinta, e depois de declarar que o Senhor o arrebatou aos Empíreos há uns quantos séculos e que lá em cima permaneceu vivo entre os santos e, a bem dizer, de reserva, revele que Vem agora à Terra para anunciar o fim do mundo, que chegará de um momento para o outro, que está, como quem diz, ao virar da esquina no século em que estamos, e a pregar, por conseguinte, o arrependimento e a penitência. Do mesmo modo, num lugar não distante do café em que nos conhecemos, Ashverus e eu, num rés-do-chão pequenito de um edifício enorme, aquele que diz chamar-se Elias, e vende livros antigos, por pouca confiança que se tenha com ele, conta a quem quiser ouvi-lo a história do carro de fogo que o levou pelos ares: pois alguém me garantiu que um e outro se encontram todos os dias numa tasca hebraica, e que falam sem fim da sua experiência no Paraíso». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Dois dominicanos e dois franciscanos tinham-se posto a discutir sobre os pecados do Rei, à luz das informações chegadas, a uns e a outros, por vias populares»

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«(…) Não é esse o nosso caso, respondeu o padre Villaescusa. O Rei não foi às put… porque a Rainha o tenha repelido. Investiguei tudo: o Rei há várias semanas que não acorre aos aposentos da Rainha. Não houve, pois, rejeição que explique, sem a justificar, uma infidelidade. Foi neste momento que o inquisidor-mor interrompeu a discussão com um bocejo: tão grande que quase se lhe desencaixa a mandíbula; tão sonoro que cobriu a resposta do padre Almeida. Reverências, disse, não vos parece que o primeiro ponto da discussão está suficientemente debatido? Consta-nos que o Rei foi às put…, mas o padre Almeida, com o seu enorme senso comum, semeou a dúvida de que os Reis nossos senhores estejam efectivamente casados. Eu disse a dúvida, não a certeza. Nomear-se-á uma comissão que estude o caso e emita o seu parecer. Fica de pé um pecado, no ar outro, mas aquele é da incumbência do confessor, não deste alto Tribunal. Observo que Vossas Mercês estão encaloradas. Eu também. Proponho um descanso, enquanto nos refrescamos com umas bebidas frias que mandei preparar. Suspende-se, pois, a sessão por meia hora. Os presentes que tinham estado sentados puseram-se de pé, com rebuliço de hábitos de diversos cortes e cores. Os contendores daquela batalha dialéctica esperaram que o inquisidor-mor saísse, depois de ter recolhido (o inquisidor-mor) as longas caudas da sua vestimenta. À saída respeitaram uma rigorosa ordem de hierarquias, de modo que, sem se olharem, o padre Villaescusa e o de Almeida saíram a par. No claustro esperavam-nos os refrescos.

Distribuíram-se por afinidades teológicas e pela preferência por determinadas bebidas: uns pela água de cevada, outros pela salsaparrilha, outros ainda pela popular orchata, salvo o inquisidor-mor, que preferiu um copo de frio clarete bebido na sua taça etrusca, uma jóia que trouxera de Itália, adquirida após misteriosos e arriscados tratos em que tinham participado um cardeal da Santa Cúria e uma prostituta de clara linhagem, muito afecta aos interesses da Santa Sé, da qual tinha recebido um título de princesa que arrastava por leitos ilustres, ou pelo menos ricos: Sua Excelência acariciava o requintado cristal enquanto saboreava o vinho, e tanto os seus dedos como a sua língua estremeciam de recordações gloriosas. Olhava, da sua altura, para os seus colegas, e, salvo o padre Enríquez, que era irmão de um grande de Espanha, metido a frade devido a um fracasso amoroso, e o padre Almeida, evidentemente distinguido com a sua preferência, considerava os restantes como labregos empanturrados de textos em latim, malcheirosos alguns, toscos de maneiras os demais, vindos da gleba, fugitivos do arado. Algum deles não tardaria a ser bispo. Meu Deus, oxalá que o fosse de terras longínquas, onde restavam tantos índios por converter, ainda que fosse à chicotada! Tudo menos recebê-los em audiência mês após mês, àqueles frades, para lhe exporem questões de heresias rurais, listas de suspeitos judaizantes e mouriscos, ou de gentes ignaras de estranhas práticas sexuais. Quem não será judeu neste país? E recordou a sua trisavó, conversa de Saragoça, que em tempos do rei Fernando tinha escorado com os seus dobrões uma antiquíssima casa de godos que se desmoronava. Tinha tirado a luva da mão esquerda, luva roxa de arcebispo in partibus, para apreciar melhor a frescura do clarete e o delicado talhe do cristal.
Dois dominicanos e dois franciscanos tinham-se posto a discutir sobre os pecados do Rei, à luz das informações chegadas, a uns e a outros, por vias populares. As possibilidades eram três, segundo as ditas informações: quatro cópulas e um fracasso à quinta, as quatro cópulas sem fracasso, e o fracasso como única realidade pecaminosa. O que se discutia não deixava de ser complicado: se as quatro cópulas deviam considerar-se como um único delito, ou como quatro; se o fracasso, isolado ou em conjunto unitário, deveria considerar-se também como pecado mortal em matéria de intenção ou se, dadas certas circunstâncias bastante incertas e difíceis de deslindar, tais como se a intenção tinha sido provocada pela cúmplice ou se tinha obedecido a um impulso real podia entender-se como meramente venial; finalmente, se a cúmplice, sem dúvida alguma sabedora de com quem partilhava o leito e a quem oferecia a sua colaboração para o pecado, devia ou não ser considerada ré de um delito contra o Estado, e não só como habitual pecadora contra Deus, e, portanto, transferida para a jurisdição ordinária para que a julgassem segundo as leis civis. Armavam tal confusão, em latim e em romance, que a maior parte dos presentes tinham acabado por formar uma roda e os escutavam com mostras de aprovação ou de repulsa, salvo o padre Rivadesella, que se ria deles francamente. O padre Almeida não figurava entre os vociferantes: tinha-se encostado a uma pilastra e observava como a luz dourava os ramos das árvores, e como mais abaixo ia morrendo nas flores. O inquisidor-mor aproximou-se dele, sorridente». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

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terça-feira, 21 de maio de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta»

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«(…) Quando o padre Almeida pediu que lhe permitissem tirar a sotaina, porque fazia muito calor, mais do que com hostilidade, a maior parte dos membros do Supremo fitaram-no atentamente, já não irados, mas estupefactos, e embora quase todos pensassem que conviria examinar aquele desconhecido em matéria de ortodoxia, a maior parte deles tinha admitido, sem graves dificuldades mentais, que não seria necessário o tormento, e que um hábil interrogatório bastaria. E entre eles figuravam bastantes com reputação de hábeis interrogadores. O padre Almeida dobrou cuidadosamente a sotaina e pô-la sobre o seu assento, com o chapéu. Reverendos senhores, não vou citar os santos padres nem os textos sagrados. Apenas me permitirei recordar-vos a unanimidade de todos os moralistas e de todos os teólogos em exigirem, como condição básica do casamento, a liberdade dos cônjuges. Ora bem, seriam os nossos amados Reis livres ao casarem-se? Passeou os olhos à sua volta. Ouviam-no, mas não pareciam dispostos a responder-lhe, salvo o padre Villaescusa. Quem duvida? Foram interrogados de acordo com as formalidades do cerimonial, e ambos disseram que sim. E poderiam dizer que não? Rogo a Vossa Paternidade que medite a resposta.
O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta. Subtil, diz Vossa Reverência? Pois eu vejo o caso bem claro: trata-se de dois príncipes imbuídos desta condição; trata-se de dois adolescentes, que foram educados na obediência a seus pais, que, além disso, são Reis. Como poderiam dizer que não? No entanto, os seus sins estavam condicionados pelo duplo carácter de príncipes e de adolescentes. Não foram afirmações livres. De entre a massa dos peritos saiu uma voz de cana rachada. Talvez o padre Almeida não se aperceba de que está a pôr em causa o mais antigo dos nossos costumes, o de que os pais concertem o casamento dos filhos, bem como o de solicitar a anuência da Igreja. O padre Almeida voltou-se para o falante, que era um frade velho de uma ordem secundária. Eu não ponho nada em causa. Eu nem sequer julgo. Limito-me a apresentar a Vossas Paternidades factos indiscutíveis, dos quais, para este caso, e só para este caso, me permito tirar ilações. O resto é da incumbência deste Santo Tribunal (maldito), não da minha.
Mesmo supondo que o padre Almeida tivesse razão, a ulterior consumação do casamento legaliza-o e santifica-o. O padre Almeida não precisou de mudar de posição, nem sequer de mexer a cabeça: o seu interlocutor encontrava-se diante dele, bem visível na sua cólera contida, mas evidente. Rogo ao reverendo padre Villaescusa que imagine por um momento que dizem a um adolescente: logo à noite tens que entrar no quarto da Rainha, e fazer isto e aquilo. E que dizem à Rainha: logo à noite, o Rei entrará no teu quarto: não lhe oponhas resistência, porque é a tua obrigação. De facto, padre: era essa a sua obrigação. Quem se atreve a duvidar? A obrigação da esposa é receber o seu esposo no leito e, como Vossa Paternidade diz, não lhe opor resistência. Admito que também fosse a obrigação do Rei; mas quem vai obrigado não vai livre. Se seguíssemos a sua doutrina, a maior parte dos casamentos seriam ilegais. Isso, reverendo padre, não sou eu que tenho que o concluir. Limito-me a mostrar a vossas reverências que os sucessivos acessos do Rei ao corpo da Rainha foram fruto do dever, não da liberdade. Esquece Vossa Mercê a obrigatoriedade do dever conjugal? Do ponto de vista do Rei ou da Rainha?, arguiu rapidamente o jesuíta. Eu entendo-o como recíproco, interveio da sua altura um dominicano do Supremo; ainda que, naturalmente, na maior parte dos casos seja uma obrigação da esposa, que nem sempre está disposta e, no entanto, deve aceder, para evitar males maiores». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

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Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias»

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«(…) Depois de instalados na sala de reuniões, de acordo com as categorias e seguindo um critério piramidal, ainda se rezaram mais latinórios, estes sem música, e a coisa ficou como num cenário de teatro: o inquisidor-mor no topo, embora a cauda do seu hábito descesse até aos níveis inferiores e estendesse sobre as lajes o triplo triângulo do seu remate; depois vinham os juízes proprietários, o padre Pérez, o padre Gómez, o padre Fernández y Enríquez Hinestrosa, assim até seis, com hábitos brancos, hábitos pretos e hábitos combinados; uns gordos, outros magros, rechonchudos de cara ou chupados, reservados ou expansivos: tudo o que no mundo se sabia de Deus e de tudo o que lhe diz respeito estava armazenado nas cachimónias daqueles seis, que votavam as decisões, e, em caso de empate, desempatava o inquisidor-mor; o qual, além disso, tinha o privilégio de vetar os acordos colegiais e de os substituir pela sua opinião própria, caso que se verificava poucas vezes, sobretudo por causa das más-línguas. Mais abaixo sentavam-se os diferentes peritos: daquela vez, um por cada ordem, incluindo os premonstratenses e algumas ordens novas, como a Societate Iesu, a que pertencia o padre Almeida. Entravam e saíam com discrição, bufos, esbirros e demais gentalha, a que se vedou a entrada um pouco antes do juramento. A partir deste, a grande sala do conselho ficou encerrada para o exterior: ampla e sombria, iluminada por candelabros, era dominada por um Cristo entre duas luzes: pouco Cristo e muitas velas para local tão amplo, onde o que avultava era o presidente. Tão refinado, tão aborrecido, lá em cima, no seu cadeirão, quase nimbado, quase divino sob o barrete de quatro pontas agudas! Costumava ferrar uma soneca depois de receber o juramento dos presentes e fazer o resumo dos temas, ou dos factos que se iam discutir; desta vez acrescentou a notícia de que a suspeita Marfisa, que o Santo Tribunal (maldito) tinha convocado e mandado prender, não tinha sido encontrada. Certamente, alguém a preveniu, e fugiu. E muitos lamentaram-no, sobretudo o padre Villaescusa, capelão do palácio, que suava no nível dos peritos consultores.
Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias. Para começar, o padre Villaescusa manifestou o seu desacordo com a exposição que se fizera dos factos, de tal modo redigida que dava a impressão de que se tinham reunido por causa de uns pecados veniais do monarca. Não é que tivessem mentido, ele não dizia isso!, mas tinham-se contado sem intercalar censuras, comentários ou condenações. Nada de pecadilhos! Um verdadeiro adultério e uma verdadeira profanação do santo sacramento do matrimónio! E foi aqui que o padre Almeida, o jesuíta transeunte e destinado ao martírio, se levantou e pediu a palavra. É para manifestar as minhas dúvidas de que se tenha cometido adultério. Vossa Paternidade nega que o Rei passou a última noite nos braços de uma prostituta?, perguntou-lhe o padre Villaescusa, admirado e ao mesmo tempo irritado, e com um tom de voz como se o padre Almeida viesse de outro planeta e se tivesse expressado numa língua desconhecida. Ou será que Vossa Mercê nega a verdade do que acaba de nos ser lido? Diz-se claramente que o Rei passou a noite nos braços dessa tal Marfisa.
Deus me livre de semelhante atrevimento! Então? Qual é a opinião do padre Almeida? Simplesmente, duvido de que Suas Majestades estejam casados, pelo menos perante o Senhor. Todos voltaram os olhos para o jesuíta português, e qualquer coisa como uma rajada de incompreensão colectiva sacudiu aqueles espíritos esclarecidos. Até que o inquisidor-mor, da sua altura indiferente, se dignou examiná-lo com curiosidade, e foi precisamente ele que perguntou: que diz o senhor, padre Almeida? O jesuíta continuava de pé, e aquela convergência de olhares reprovadores não parecia afectá-lo. À pergunta do inquisidor-mor seguiram-se várias vozes. Explique-se, explique-se. E o padre Villaescusa acrescentou: o que acaba de dizer incorre numa dupla sanção, da Igreja e do Estado, porque está a atribuir aos Reis nada menos do que um concubinato. É verdade, ainda que eles o ignorem; mas a Igreja não pode ignorá-lo. Insisto, padre Almeida, que seja mais explícito, rogou, com voz apaziguadora, o do assento eminente». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

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Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco»

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«(…) Os velhos princípios, Diego, vão perdendo vigência, os tempos mudam e as pessoas pensam de maneira diferente. Não tenho nada contra o nu em privado, sobretudo às escuras, mas levá-lo para a rua é como tirar o sal à comida. Não sei que vai ser de nós. Ao que se diz por aí, e já há algum tempo, abundam os cabr… complacentes; e que acontecerá se a coisa alastra? É o que eu te digo, Diego. Que vai ser de nós? De ti e de mim, por exemplo. No que a mim me toca, Excelência, resta-me pouco tempo de vida, e, desde que haja vinho... Bebeu o que restava no copo. O inquisidor-mor fechou os olhos e recordou os velhos tempos de Roma. A ave passou roçando os vidros da janela e escondeu-se no alto cipreste que ocupava o centro do pátio quadrangular.
Primeiro foi um Te Deum, a quatro vozes mistas, com repetida intervenção do órgão, que umas vezes ficava por baixo, como quem serve de suporte às piruetas melódicas, e, outras, as perseguia na sua complicada ascensão: laudamus, laudamus, laudamus, até chocar e se reflectir nas altas abóbadas; outras, por fim, excluía-as da corrente sonora, e era o único a subir e a encher o espaço com o resfolegar da sua abundante tubagem; uma música de muito mérito, trazida de Roma, concebida para a imensidão do Vaticano, que naquela capela de mediana dimensão ficava um pouco grande: de tal modo que às vezes vibravam as paredes e estremeciam as colunas. Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco: era um mercedário seco, especialista na questão De auxilus, que não tinha nada a ver com a ordem do dia, mas que não se podia deixar de fora de uma consulta geral como aquela. Quando terminou o Te Deum, formou-se no claustro a procissão; duas filas de hábitos variados e o inquisidor-mor atrás: muito teso, embora um pouco distraído, indiferente aos pajens que lhe seguravam a cauda. Cantavam o Veni Creator, segundo o cantochão, que lhes era mais acessível do que aquelas polifonias romanas, ainda que o cantassem com vozes frouxas e bastante ásperas. Não saía muito bem, mas tanto fazia. Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros. O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o inquisidor-mor com que justificava a sua presença. O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

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A Bela Adormecida Vai à Escola. Gonzalo Ballester. «Pelo torn da voz, o Rei conheceu a magnitude da censura. Sim, Gibbs, já sei. Tu cumpres o teu dever para que eu cumpra o meu»


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A casinha do bosque
«(…) Gibbs sentiu-se defraudado como todas as manhãs. Havia muitos anos que desejava que o Rei respondesse ao seu chamamento e saltasse da cama agilmente, como aqueles gentlemen que ele servira durante os anos de aprendizagem. Mas o Rei empenhava-se em não ser um gentleman, tal como se ernpenhava em não ser bastantes coisas. Diga-se em abono de Gibbs que a sua cara não traduziu o desapontamento porque, se o seu pensamento nâo era muito respeitoso para com o Rei, era-o sempre para com o seu senhor. Limitou-se a pegat nurn velho relógio despertador, a dar-lhe corda e soltá-la muito perto da orelha real. A campainha fez um estrépito horrível e Canuto saltou da cama. Que se passa, Gibbs?, perguntou com voz assustada.
Bom dia, senhor. Está uma excelente manhã. Aquelas palavras bastavam para que o Rei se situasse na realidade quotidiana. Aquilo que Gibbs acrescentava sempre a mesma coisa, contribuia para firrnar a sua situação e dar-lhe uma certa consistência. São oito horas em ponto, sire. Lamento ter-me visto na necessidade de fazer uso do despertador. Está bem, Gibbs. Que horas são? Já lhe disse, Majestade: oito em ponto. O Rei deitou uma olhadela à marrhã. O aspecto cinzento da neblina desanimou-o. Devias deixar-me dormir até às nove, Gibbs. Nas manhãs como esta não há ninguém nas ruas, e o meu passeio é muito aborrecido. Por que é que nem ao menos uma vez te esqueces de me chamar? Ficava-te muito agradecido. Gibbs atreveu-se a olhá-lo com assombro. Majestade!
Pelo torn da voz, o Rei conheceu a magnitude da censura. Sim, Gibbs, já sei. Tu cumpres o teu dever para que eu cumpra o meu. Procurou os chinelos às apalpadelas, e quando os encontrou pôs-se de pé. Gibbs, entretanto, acorrera com a bandeja. O châ, Majestade. A água quente para se lavar e barbear. Como se barbeará hoje Sua Maiestade? Com navalha ou com máquina? Canuto demorou a decidir-se, porque aquele era um dos poucos actos verdadeiramente livres que lhe eram permitidos, e todas as manhãs o gozava com dramática fruição, como se estivesse a escolher entre a vida e a morte. Com navalha, disse finalmente, com o mesmo entusiasmo com que se tivesse decidido continuar a viver. Gibbs pegou numa navalha e assentou-a na palma da mão com movimentos de grande sabedoria, enquanto o Rei, sentado numa cadeira, aproveitava a barba para continuar a sonhar. Mas a água estava fria, e o frio na pele fez-lhe dar um safanão. Que água tão fria, Gibbs! Quando terei eu uma casa de banho como deve ser? Gibbs continuou a ensaboat a real epiderme. Os reis deste país, sire, nunca tiveram casa de banho. É uma tradição e as tradições não se podem alterar. Além disso, o orçamento real não dá para instalar uma casa de banho em condições, com as suas tubagens, as suas torneiras de níquel e todas essas coisas tão brilhantes que se vêem nas lojas do ramo e que nunca se sabe para que servem, mas que são caríssimas.
Canuto suspirou». In Gonzalo Torrente Ballester, A Bela Adormecida Vai à Escola, 1983, Editorial Caminho, Uma Terra Sem Amos, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1052-7.

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domingo, 19 de maio de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Não sei o que pensou Franz Liszt, porque rasguei, sem ler, a carta com que me respondeu. Lamento que tenha sido…»

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«(…) Mandou chamar sua tia, a condessa Prisciliana, mulher de grande experiência; fechou-se com ela e, quando quis explicar-me o combinado pedi-lhe que o mantivesse secreto. Durante a gravidez escreveu vinte cartas a Liszt e recebeu três: não li nenhuma delas. Nasceu a menina e Amélia teve umas febres, que ocultou até já não haver remédio. Disse-me: obrigada, Ferdinando, e perdoa-me, e morreu. Esqueceu-se de me avisar de que a criança deveria chamar-se Myriam, mas eu não o havia esquecido. O meu primo, a Águia do Leste, teve um ataque de riso quando soube do nascimento de Myriam e da morte de Amélia. A Myriam, como presente, mandou-lhe um título de condessa, talvez para que não se visse obrigada, quando atingisse a maioridade, a andar pelo mundo com um nome que não fosse seu. Pois, é verdade, foi um pormenor do Águia! Os títulos do seu império andam muito cotados. Escrevi a Franz Liszt uma carta autógrafa na qual lhe dizia:

Meu caro senhor: há já uns meses que passou umas semanas no meu palácio e deleitou com a sua arte a então princesa reinante, minha esposa Amélia. Lamento ter que lhe comunicar a sua morte, assim como o nascimento da princesa Myriam, cujo desvalimento de mãe o meu povo tenta compensar com o seu entusiasmo. Não se esqueça de que fui seu amigo. Ferdinando Luís.

Não sei o que pensou Franz Liszt, porque rasguei, sem ler, a carta com que me respondeu. Lamento que tenha sido, se o foi, uma carta sublime, dessas que podem completar o retrato de um génio se algum curioso as descobre num arquivo ou num lote de leilão. Quanto a mim, posso dizer que a pequena Myriam me parecia tão indefesa, com a sua grande fronte prematura de músico excepcional, que me propus criá-la como se fosse minha. Rosanna ajudou-me durante muitos anos. Se alguma vez tive ciúmes, foi do amor que mutuamente mostravam, pelo receio de que algum dia me excluíssem dele, quando viessem a saber, inevitavelmente, que o pai delas é tonto. Enganei-me.

Uma vez, a Águia do Leste e eu encontrámo-nos em Marienbad: iam comigo as princesas e desejou conhecê-las. Quando isto sucedeu, se Carlos Frederico Guilherme pensava declarar guerra à França, ainda não o havia manifestado, mesmo que considerasse a guerra ganha. Que maneira ele tinha, num mundo com classe, de conduzir a sua patuda figura de janízaro misto! As minhas filhas saudaram-no com uma reverência impecável e com um desprezo tão discreto que nem ele, constantemente desconfiado, pôde captar, mas que me divertiu. Não assim o que imediatamente me comunicou:

Como Rosanna será tua herdeira, vai-a já preparando para o casamento com o nosso primo Raniero. Raniero pertence à melhor família da Silésia oriental, está na escola militar e, quando a tua filha tiver chegado à idade de casar, Raniero será, pelo menos, comandante. O teu grão-ducado é um dote suficiente, mas também indispensável, de modo que também te conviria ir pensando na abdicação como prenda de casamento.

Viu-se que, mais tarde, mudou de opinião porque não esperou, para nos invadir, pelo casamento de Rosanna e pela minha abdicação, da qual tardiamente veio a saber. Não deixa de ser curioso que Rosanna, muitíssimo parecida com sua mãe, goste de música como gosta e que, pelo contrário, Myriam, que conserva a sua ampla fronte de génio prematuro, mas que é suficientemente bonita, lhe interessem as ciências naturais. Ainda falam de parecenças!» In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Respondi-lhe que lhe agradecia muito, mais aquela prova de lealdade e que, como compreendia a situação dela e a aprovava…»

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«(…) Eu também gostava de o ouvir, a esse mago, quando tocava, e também quando falava e nos contava as suas recordações de pessoas famosas de Paris, umas mortas, como Chopin, outras ainda vivas, como a famosa George Sand (de quem, aliás, se ria). Apercebi-me sem grande esforço da simpatia mútua nascente entre Amélia e Franz Liszt. Pensei na minha mulher: esta criatura pode ver a sua beleza fanar-se sem ficar com uma recordação de amor e saí de casa. Pouco depois de ler a carta de Liszt, Amélia veio, uma noite, aos meus aposentos e confessou-me que estava grávida. Há muitas razões, entre outras, a nossa lealdade mútua, pelas quais ponho nas tuas mãos a solução. Aceito, se for legal, o repúdio, porque tens esse direito; também aceito o divórcio; estou disposta, ainda assim, a partir e a ter um filho secreto, mas será um segredo inevitavelmente relativo, porque ser sabido de todas as más línguas de Viena faz parte do costume e do tolerável. Se te ocorrer alguma outra solução, obedecer-te-ei.
Respondi-lhe que lhe agradecia muito, mais aquela prova de lealdade e que, como compreendia a situação dela e a aprovava, lhe pedia que ficasse no palácio e tivesse o filho como se fosse meu, se não a envergonhasse o facto de a criança usar o meu nome e passar por legítima diante do mundo. Nesse oferecimento vejo a nobreza do teu coração, mas peço-te que me dês algum tempo para pensar. Admitirás, dada a tua magnanimidade, que consulte o pai? Naturalmente, sabes onde está agora? Uma princesa reinante tem sempre um pretexto para passar uns dias em Karlsbad. Avisa-me com antecedência da tua viagem e terei tudo preparado. Foram e vieram cartas entre Amélia e Franz Liszt. Não sei o que ele faria com as que recebia: eu atirei para o fogo as cópias sem as ler porque, não será um direito básico de qualquer pessoa o segredo do seu adultério?
Vou tal dia, disse-me Amélia; e tal dia partiu. Decidimos que o que vier nasça aqui e passe por teu até atingir a maioridade e, então, lhe seja revelado quem é. É esse o teu desejo? Não, respondeu, e começou a chorar; não acho justo dar-te um filho para depois to tirar, e continuou chorando. Por algum gesto involuntário deduzi que a sua entrevista com o génio das melenas escorridas, do estupendo nariz, dos dedos como gaivotas, não tinha sido feliz: Amélia havia-lhe falado da possibilidade de se divorciar, que ele recusou pelo facto de a sua religião não lho permitir. O mais grave, contudo, foi a carta que o meu primo enviou a Amélia. Não te lembras de que eu te proibi de teres mais filhos? A que propósito te passou pela cabeça ficares grávida? Se for menina, sorte vossa, do tonto com quem te casaste e tua; mas, se for varão, negar-lhe-ei, com provas, a legitimidade e não o reconhecerei como herdeiro.
Caramba para a Águia do Leste, como chamava Amélia ao meu primo! Chegou a altura do nascimento de Myriam. Disse-lhe: convém que encarregues alguém da tua inteira confiança de revelar à tua filha quem é, quando chegar o momento, para o caso de qualquer um de nós desaparecer. Pensas morrer?, perguntou-me com susto. Não, mas convém prever tudo». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 18 de maio de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...»

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«(…) A carta de Franz Liszt à minha esposa Amélia, copiada em duplicado pelos esbirros do meu primo, pagos pelo erário público do meu pais, dizia: meu amor, com que força te ergues à minha frente quando executo o Segundo Concerto! Quão próxima ficas, como sinto a tua pele, quando toco os Sonetos! Graças à minha música, poderei reviver constantemente a nossa história tão breve, fá-la-ei tão duradoura como eu próprio e, se além do limite houver música, e eu creio que sim, nela persistirá o nosso amor inesquecível. Deus, que me deu a harmonia, deu-te a maternidade. O que na tua carta descreves das emoções da tua gravidez, é música feita vida. Perguntas como quero que se chame. Se for menina, Myriam, não sei porquê. Ou, melhor, sei: porque nesse nome vejo reunidas todas as virtudes e belezas de uma mulher. Myriam. Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...
Convém que eu conte a conversa havida entre mim e Amélia no próprio dia do nosso casamento, quando um monte de sorrisos falsos fechou a por… da nossa intimidade. Veio dizer-me que eu lhe era simpático, que entendia a minha situação e que considerava justo que eu conhecesse a sua. Não me amava nem esperava amar-me nunca. Aceitava o casamento a que a haviam obrigado com a mesma inteireza e sentido do dever com que o aceitavam a maioria das princesas, vimos ao mundo para isso, ainda que, diferente de muitas delas, considerasse, mais leal do que calar-se, ter comigo aquela conversa e fazia-o como uma homenagem, porque me sabia capaz de a compreender, não como tantos brutos que apelam à honra, fazem cenas, e acabam levando com os cor… como qualquer outro. Respondi-lhe que concordava, mas que tinha a obrigação de dar um herdeiro à minha minguada coroa e que só podia conseguir isso com a colaboração dela, se possível de bom grado e não forçada. Chegámos a um acordo e nasceu Rosanna. Agradeceu-me porque, apesar de gerada sem amor, era sua filha e amava-a. Se há, ou não, algum motivo para ter outro filho, já o discutirem. E não houve, porque o meu primo me mandou dizer que, para os seus planos, bastava uma princesa e eu que arranjasse uma amante: que pena que não possa sê-lo eu!, disse, rindo, Amélia, quando lhe dei a ler o ultimato do nosso primo; em vez disso sou tua amiga, a tua boa amiga.
E dedicou-se ao cuidado de Rosanna como mãe excelente. O pior foi que eu me apaixonei por ela sem jamais me atrever a dizer-lho: achava-a tão afectuosa, tão sincera, tão bem disposta comigo, que compreendi a dor que lhe causaria, quem sabe até, se a piedade, ao saber que eu a amava. Foi nesta situação que apareceu Franz Liszt, cuja chegada à minha capital não descrevo porque terei que o fazer com outra semelhante, ainda que convenha recordar que a sua passagem pelas ruas causou mais entusiasmo do que a breve passagem do corso, quando lá esteve; mas temos que ver a diferença: Napoleão, pequenote; Franz Liszt, um galarote entre mulheres. Por outro lado, a música do piano, tocada por Franz Liszt, sempre soa melhor do que a dos canhões, mesmo tocada por Napoleão. O imperador da França entrou no meu palácio como em sua casa e sem saber ao certo onde entrava, para além de num lugar para dormir, e a Franz Liszt convidei-o eu, porque Amélia gostava de música». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 29 de dezembro de 2018

A Bela Adormecida Vai à Escola. Gonzalo Ballester. «Canuto abriu os olhos no quarto escuro e decidiu, como todas as manhãs, que o estrondo tinha sido uma alucinação e que podia continuar a dormir»

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A casinha do bosque
«(…) Em compensação, uns e outros detestavam-no, e as sátiras de uns atacavam a instituição e a pessoa, enquanto as dos outros respeitavam a instituição. Uns e outros mantinham as aparências e procediam por alusões de que toda a gente, menos Canuto, possuía a chave, e tanto os monárquicos como os republicanos acrescentavam cada dia um pequeno detalhe ao mito nacional do rei Canuto, símbolo sempre, para uns, da suprema estupidez, e para outros da maior perversidade, em ambos os casos injusto, porque Canuto era medianamente bom, como o seu antepassado Hamlet, e muito mais inteligente do que a maioria daqueles que o rodeavam.
Finalmente, consideravam-no um fim de raça. Como ninguém lhe desejava descendentes que lhe pudessem suceder, propagara-se a lenda da sua esterilidade, e nunca se pensara num casamento de conveniência, e como as potências estrangeiras não incluíam a aliança com Canuto nos seus projectos políticos, e como não despertasse amor nas princesas casadoiras, não porque não fosse bonito e amável, mas porque relatórios secretos, muitos deles procedentes de Gisela, contribuíam para a sua má reputação como possível marido, os republicanos esperavam a sua morte para realizar aquilo a que chamavam a salvação política do país, e os monárquicos para a dignificação da Monarquia na pessoa do presumível herdeiro. Por todas estas razões, Canuto perntanecera solteiro.
O dia de Canuto começava com o tiro disparado, do alto de uma torre, por um velho canhão às oito horas em ponto da manhâ. Acordava com o estrondo, e invariavelmente confessava a si próprio que gostaria de dormir um pouco mais, e voltava a adormecer. Davam-lhe uma hora para a higiene pessoal. Às nove tinha que dar o seu habitual passeio a cavalo pelas ruas da cidade, sem escolta nem vigilância, para que os cidadãos se convencessem de que ele era um ser inofensivo, para além de indefeso. De regresso ao palácio às dez, entrava na biblioteca, onde o esperavam os diários matutinos convenientemente seleccionados, que ele tinha que ler e quase aprender como uma lição nos parágrafos e passagens assinaladas a lápis vermelho pelo senhor Camareiro-Mor, factótum e chefe da camarilha palaciana.
Na manhã em que começa esta história, o tiro de canhão das oito horas soou rotundo e impertinente como de costume. Canuto abriu os olhos no quarto escuro e decidiu, como todas as manhãs, que o estrondo tinha sido uma alucinação e que podia continuar a dormir. Nesse mesmo instante entrou Gibbs, o seu criado de quarto. Trazia na mão uma bandeja com um jarro de água e o first cup of tea que Canuto introduzira nos seus hábitos depois de uma breve estada em Inglaterra, convidado pessoal do Príncipe de Gales. Gibbs deixou a sua carga sobre uma cómoda, avançou pela alcova, abriu a janela e os cortinados. Uma luz tristonha e fria penetrou no quarto. Lá fora chovia. Gibbs aproximou-se do leito real e disse: bom dia, Majestade. Está uma excelente manhã. E Canuto respondeu com voz turva: já sei, Gibbs. Tenho muito sono». In Gonzalo Torrente Ballester, A Bela Adormecida Vai à Escola, 1983, Editorial Caminho, Uma Terra Sem Amos, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1052-7.

Cortesia de Caminho/JDACT