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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Mas o que está acontecendo, Señor Juez? Estou em minha casa. Gostaria de saber o que estavam vendo no meu televisor»

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«(…) Seguiram-se mais filmagens nocturnas. O esquema era o mesmo, até que, numa mudança abrupta de cena, a câmera mostrava um corredor, que recebia luz de uma porta aberta, ao fundo à esquerda. Avançou pelo corredor, revelando um quadrado mais claro na parede do fundo, com um gancho por cima dele. Os três homens ficaram subitamente paralisados, porque sabiam que estavam vendo o corredor anexo à sala em que estavam agora sentados. A mão de Ramírez gesticulou nessa direcção. A câmera tremeu. O suspense crescia e aumentava a expectativa dos três investigadores quanto ao horror do que poderia se seguir. A câmera chegou ao limiar da luz, o microfone colheu uns gemidos vindos da sala, um lamento trêmulo e sofrido de alguém que devia estar em tremenda agonia. Falcón queria engolir, mas a garganta se recusava. Não tinha saliva. Mer…, disse Ramírez, para quebrar a tensão. A câmera abriu o plano e entrou na sala. Falcón estava tão abismado que quase esperava vê-los aos três ali sentados, olhando para o aparelho. A câmera começou por focar o televisor, que, com o movimento, mostrava ondas e luzes piscando, mas não sem que se pudesse notar o desempenho explícito de uma mulher mastu… e ch… o se… de um homem, cujas nádegas se apertavam e relaxavam alternadamente. A câmera abriu num plano mais largo e Falcón manteve o pestanejar acelerado dos olhos perante a confusão de sons e as imagens esperadas. De joelhos no tapete persa, olhando para a tela de televisão, estava Raúl Jiménez, com a fralda da camisa caída para os lados, as cuecas no meio da barriga das pernas e as calças atiradas num monte atrás dele. De quatro, à sua frente, estava uma jovem com longos cabelos negros, cuja cabeça hirta informava Falcón de que estava olhando fixamente para um ponto determinado, se imaginando noutro lugar. Emitia os competentes sons de estimulação. Depois, a cabeça começou a se virar e a câmera saltou bruscamente para fora da sala. Falcón se pôs de pé num repente, batendo com as pernas contra a beira da mesa. Ele estava lá, disse. Ele estava... Quer dizer, ele esteve aqui o tempo todo.

Ramírez e Calderón se sobressaltaram nos lugares com a explosão de Falcón. Calderón passou a mão pelo cabelo, visivelmente transtornado. Olhou para a porta de onde a câmera estivera filmando a sala. A cabeça de Falcón estava num torvelinho, sem saber mais o que estava vendo. Imagem ou realidade. Avançou, recuou, tentou apagar a visão que tinha na cabeça. Tinha alguém de pé na soleira da porta. Falcón fechou os olhos com força e voltou a abri-los. Conhecia a pessoa. O tempo desacelerou. Calderón atravessou a sala com uma mão esticada. Señora Jiménez, disse. Juez Esteban Calderón. Os meus sentimentos... Apresentou Ramírez e Falcón; e a Sra. Jiménez, com invulgar dignidade, avançou pela sala como se passasse por cima de um cadáver. Cumprimentou todos com um aperto de mão. Não a esperávamos tão depressa, disse Calderón. Não havia muito trânsito, disse ela. Sobressaltei-o, inspector-chefe? Falcón compôs o semblante, que ainda devia manter vestígios da anterior perturbação. O que estavam vendo? Perguntou ela, assumindo o controle da situação, habituada a fazê-lo. Olharam para a tela. Branco e com ruído de estática. Não a esperávamos... Começou Calderón. Mas o que está acontecendo, Señor Juez? Estou em minha casa. Gostaria de saber o que estavam vendo no meu televisor.

Aproveitando o facto da pressão se centrar em Calderón, Falcón pôde observar a recém-chegada. Apesar de não conhecê-la, distinguia bem o género. Era o tipo de mulher que aparecia na casa do pai, quando o grande artista ainda era vivo, para comprar um dos seus trabalhos mais recentes. Não as obras especiais que o tornaram famoso. Essas já há muito que tinham seguido para coleccionadores americanos e para museus de outras partes do mundo. Este género procurava comprar trabalhos mais acessíveis, sobre Sevilha, pormenores de edifícios: uma porta, uma cúpula de igreja, uma janela, uma varanda. Devia ser uma daquelas mulheres requintadas que, com ou sem um marido aborrecido e rico, gostavam de levar para casa um quinhão do velho». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACTLiteraturaRobert Wilson

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Perguntou Ramírez. Espantosamente aborrecido, não é? Disse Falcón, sem achar que fosse, se sentindo estranhamente fascinado pela dinâmica do grupo familiar em diferentes locais»

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«(…) A gravação começava com imagens da família Jiménez saindo do Edifício del Presidente. Raúl e Consuelo Jiménez estavam de braço dado. Ela vestia um casaco de peles até aos pés e ele tinha um sobretudo cor de mel. Os rapazes estavam todos vestidos de igual, em verde e cor de vinho. Caminharam em direcção à Câmara, que se encontrava do outro lado da rua, e viraram à esquerda, para a Calle de Asunción. O filme saltava para o mesmo grupo mas com roupas diferentes, num dia de sol, saindo dos armazéns do El Corte Inglês, na Plaza del Duque de la Victoria. Atravessaram a rua em direcção à praça, que estava cheia de vendedores ambulantes de CD’s, carteiras e porta-moedas em pele. O grupo entrou no Marks & Spencer. A família foi sendo mostrada repetidamente, no meio de centros comerciais, em encontros na praia, em passeios na Plaza de España e no Parque de Marta Luisa, até dois dos três homens já estarem abafando os bocejos. Ele está nos mostrando que fez o trabalho de casa? Perguntou Ramírez. Espantosamente aborrecido, não é? Disse Falcón, sem achar que fosse, se sentindo estranhamente fascinado pela dinâmica do grupo familiar em diferentes locais. Vivia fascinado pela ideia de família, especialmente deste tipo, aparentemente feliz, e como seria ter uma; o que o levava a pensar porque teria falhado tão estrondosamente nesse campo. Uma mudança de rumo do filme fê-lo retomar abruptamente a atenção. Era a primeira gravação em que a família não aparecia em grupo. Raúl Jiménez e os filhos estavam no estádio de futebol do Bétis, num dia em que este jogava contra o Sevilla, como era patente pelos cachecóis, o derby local.

Lembro-me deste dia, disse Calderón. Perdemos por 4-0, disse Ramírez. Vocês perderam, disse Calderón. Nós ganhamos. Não me diga, disse Ramírez. Por quem torce, inspetor-chefe? Perguntou Calderón. Falcón não reagiu. Não lhe interessava. Ramírez lançou um olhar por cima do ombro dele, pouco à vontade com a sua presença. A câmera voltava ao Edifício del Presidente. Consuelo Jiménez, sozinha, entrava num táxi. Plano dela pagando o táxi numa rua arborizada, esperando por instantes até que o carro partisse, antes de atravessar a estrada, e subir vários degraus de uma casa. Onde é isto? Perguntou Calderón. Ele vai nos dizer, disse Falcón. Uma série de planos mostrava Consuelo Jiménez chegando à mesma casa em dias diferentes, com diferentes roupas. Depois o número da porta: 17. E o nome da rua: Calle Rio de la Plata. Aquilo é em El Porvenir, disse Ramírez. Isto é o futuro, disse Calderón. Cheira-me que temos aqui um amante.

Plano nocturno e a traseira de um grande Mercedes Classe E com placa de Sevilha. A imagem ficou fixa por um bocado. Ele não imprime grande ritmo ao argumento, disse Calderón, que depressa tinha atingido o seu patamar de saturação. Suspense, disse Falcón. Finalmente, Raúl Jiménez saiu do carro, trancou-o, saiu da zona iluminada da rua para a escuridão. Plano de uma fogueira em plena noite; pessoas à volta das chamas crepitantes. Mulheres com saias curtas, algumas revelando cintos de ligas e os remates das meias. Uma virou, se dobrou e voltou as nádegas para o fogo. Raúl Jiménez apareceu à beira da fogueira. Encetou uma conversa inaudível. Regressou a passos largos para o Mercedes com uma mulher atrás de si, cujos saltos altos a faziam tropeçar no chão irregular. Isto é na Alameda, disse Ramírez. Apenas o mais barato para Raúl Jiménez, disse Falcón. Jiménez empurrou a jovem para o banco de trás, lhe abaixando a cabeça como se fosse um suspeito da polícia. Olhou em redor e entrou atrás dela. O plano fixou a porta traseira do Mercedes, seguindo movimentos obscuros por trás do vidro. Não passou mais de um minuto e Jiménez saiu do carro, apertou a braguilha e estendeu uma nota à jovem, que pegou. Jiménez voltou a sentar-se ao volante. O carro arrancou. Foi uma rapidinha, disse Ramírez, previsível». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACTLiteraturaRobert Wilson

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «A gradual ocupação do litoral resultante da expansão da colonização portuguesa reduziu paulatinamente o número de enseadas acessíveis aos navios franceses na Costa do Pau-Brasil»

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A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) As tentativas francesas de criar colónias no Novo Mundo setentrional traduziram-se em rotundos fracassos. No decurso da sua terceira expedição (1541-1542), Jacques Cartier fundou o forte de Charlesbourg-Royal, nas imediações da embocadura do rio de São Lourenço, mas apenas conseguiu resistir dez meses, tendo iniciado a viagem de regresso à Europa em Junho de 1542. Francisco I nomeara, em 15 de Janeiro de 1541, o protestante Jean François de La Rocque, senhor de Roberval, tenente-general do Canadá, Saguenay e Ochelaga. As dificuldades de financiamento e de recrutamento obrigaram o rei e o dirigente da empresa a alistar nas prisões grande parte do contingente de 150 homens e mulheres. A frota de Roberval partiu de La Rochelle em Abril de 1542 e alcançou o seu destino em Agosto. Os colonos franceses reocuparam o estabelecimento fundado por Cartier, rebaptizado de France-Roy, mas não tiveram melhor sorte do que os seus antecessores, pois foram obrigados a retornar à Europa em Setembro de 1543. A oposição dos iroqueses, a dureza das condições climatéricas e o escorbuto dizimaram a maioria dos membros das expedições e contribuíram para o seu insucesso.
A continuada presença de navios franceses nas águas brasílicas constituía, ainda em 1548, um dos obstáculos que mais seriamente afectava o desenvolvimento da colonização lusitana. Em Maio desse ano, o alcaide de Igaraçu informava João III da passagem pela costa pernambucana de numerosas embarcações gaulesas destinadas à região dos potiguaras (que se estendia da Paraíba ao Cearát) e relatava a ocorrência de recontros navais com os franceses.
Luís Góis, residente na vila de Santos, alertava o rei, também em Maio de 1548, para o facto de a Coroa de Portugal correr o risco de perder o Brasil e os seus súbditos as vidas e as fazendas, devido às devastações provocadas no litoral vicentino pelas armadas gaulesas, compostas por sete a oito navios cada, que, desde 1546, demandavam anualmente o Cabo Frio e o Rio de Janeiro. O antigo companheiro de Martim Afonso instava o monarca a fornecer apoio naval aos moradores de São Vicente (mais de 600 portugueses e de 3 000 escravos) para, antes que fosse tarde de mais, expulsar os instrusos daquelas paragens.
Uma análise da conjuntura internacional em 1548 revelava a existência de sérios riscos para a manutenção da soberania lusitana sobre a totalidade do território brasílico. O falhanço das tentativas francesas de fixação no Canadá, bem como a cessação da guerra franco-espanhola criaram condições favoráveis para que o novo rei de França, Henrique II (1547-1559), apoiasse os anseios expansionistas dos seus súbditos normandos e bretões. Apesar de as negociações luso-francesas terem evoluído favoravelmente e permitido que o sucessor de Francisco I concordasse com o projecto de um duplo tribunal de arbitragem, que funcionaria simultaneamente em Paris e Lisboa, para dirimir os conflitos marítimos entre as duas Coroas, João III não nutriria grandes ilusões sobre a política que adoptaria o monarca gaulês relativamente ao Brasil logo que subjugasse a (revolta da gabelu, imposto sobre o sal) na Aquitânia e que terminasse a guerra com Eduardo VI de Inglaterra (1541-1553).
A gradual ocupação do litoral resultante da expansão da colonização portuguesa reduziu paulatinamente o número de enseadas acessíveis aos navios franceses na Costa do Pau-Brasil. As crescentes dificuldades encontradas pelos armadores norrnandos e bretões para manter as linhas comerciais com a América do Sul levaram-nos a envidar esforços no sentido de aliciar Henrique II a adoptar uma política oficial de apoio à penetração gaulesa nas paragens tropicais, até porque as várias tentativas de criação de estabelecimentos no hemisfério setentrional (Canadá), empreendidas pelo seu antecessor, haviam fracassado». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «Em Outubro, chegou ao local uma caravela que transportava Paulo Nunes, investido por João III no cargo de capitão de Pernambuco»

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A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) A embarcação do almirante gaulês, equipada com 18 canhões e transportando 120 homens, atingiu o litoral pernambucano em Março de 1531, altura em que os dois grupos de combate da esquadra portuguesa se encontravam a norte e a sul da região nordestina. Os expedicionários franceses, dirigidos por Jean Duperret, atacaram, saquearam e arrasaram a feitoria lusitana, que contava apenas com seis portugueses e com índios amigos (tabajaras), e construíram um novo entreposto fortificado na ilha de Santo Aleixo, território dos seus aliados caetés, defendido por uma guarnição de 60 a 70 homens. Aquela nau, após ter sido carregada com 5 000 quintais de pau-brasil, 300 de algodão, 3 000 peles, 600 papagaios e grande número de símios, levantou ferro de Pernambuco com destino ao porto de origem.
Na viagem de regresso ao reino, iniciada a 22 de Maio de 1532, a flotilha de Pero Lopes Sousa, que compreendia a nau Nossa Senhora das Candeías, uma das três unidades apreendidas em 1531, e o galeáo São Vicente, detectou na ilha de Santo Aleixo, no início de Agosto, dois navios gauleses, tendo afundado uma das naus e apresado a outra. O forte, dirigido pelo senhor de La Motte, foi atacado, tendo-se a guarnição rendido depois de dezoito dias de bombardeamento. Como represália por uma tentativa de assassinato do capitão português, foram enforcados La Motte e vinte dos seus homens. Depois de ordenar a destruição do estabelecimento gaulês, Pero Lopes dirigiu a reconstrução da feitoria portuguesa, que foi fortificada, no sítio posteriormente designado dos Marcos, na margem direita do canal de ltamaracâ, tendo designado Vicente Martins Ferreira e o bombardeiro Diogo Vaz para as funções, respectivamente, de comandante e condestável. Em Outubro, chegou ao local uma caravela que transportava Paulo Nunes, investido por João III no cargo de capitão de Pernambuco.
A esquadra, acrescida da nau entretanto aprisionada, zarpou do local a 4 de Novembro, tendo aportado a Faro em Janeiro de 1533. O monarca, depois de ter recebido Pero Lopes em audiência, determinou que se encarcerassem os trinta franceses no Limoeiro, que os quatro reys da terra do brasil fossem bem tratados e vestidos de seda, que se anulassem as instruções transmitidas à armada de Duarte Coelho para destruir o forte gaulês em terras pernambucanas e, finalmente, que se procedesse à arrematação na praça lisboeta dos dois navios apresados. A nau marselhesa, que transportava uma carga de produtos brasílicos avaliada em 62 300 cruzados, não teve melhor sorte que a feitoria galo-pernambucana. Já se encontrava em águas mediterrânicas, após ter efectuado uma escala em Málaga, quando foi capturada, em Agosto de 1532, pela armada do Estreito, capitaneada por António Correia, e conduzida a Lisboa. O empreendimento americano do barão de Saint-Blancard redundou, por conseguinte, num completo insucesso.
A coroa gaulesa somente no reinado de Francisco I tomou a iniciativa de procurar ocupar uma parcela do continente americano, organizando, entre 1534 e 1542, quatro expedições com o objectivo de criar a Nova França. No início de 1534, a administração joanina tomou conhecimento de que em França se aprestava uma armada com destino à América. No porto de Saint-Malo, dois navios comandados por Jacques Cartier preparavam-se para partir para a Terra Novale». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 11 de novembro de 2018

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Um erro, disse Falcón. Diga, inspetor-chefe? Perguntou Ramírez, por trás do ombro dele. O primeiro erro numa operação planeada»

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«(…) Ora, aqui estamos, disse Felipe. Assim me parece melhor. Um pêlo púbico, inspetor-chefe. Preto. Os três homens viraram-se simultaneamente para a janela, porque ouviram vozes abafadas por detrás dos vidros duplos e um som mecânico, como o de um elevador. Do lado de fora da varanda, apareceram lentamente dois homens de macacão azul, um com o cabelo comprido, preso em rabo-de-cavalo, e o outro cortado à escovinha e um olho negro. Estavam berrando para a equipa que, dezoito metros abaixo, acionava o mecanismo do monta-cargas. Quem são estes idiotas? Perguntou Felipe. Falcón saiu para a varanda, espantando os dois homens que se encontravam de pé na plataforma e que acabavam de ser içados por uma espécie de escada extensível, a partir de um caminhão estacionado na rua. Quem raio são vocês? Somos da empresa de mudanças, disseram e lhe viraram as costas para mostrarem, estampado em letras amarelas nos macacões, as palavras Mudanzas Triana Transportes Nacionales y Internacionales.
O juiz Esteban Calderón autorizou o levantamento do cadáver, que revelou outro elemento de prova para guardar num saco. Por baixo do corpo, estava um farrapo de algodão, cujo cheiro indiciava clorofórmio. Um erro, disse Falcón. Diga, inspetor-chefe? Perguntou Ramírez, por trás do ombro dele. O primeiro erro numa operação planeada. Então e os cabelos, inspetor-chefe? Se esses cabelos pertencerem ao assassino... Perdê-los foi um acidente. Deixar um trapo embebido em clorofórmio foi um erro. Ele pôs Raúl Jiménez inconsciente com clorofórmio, não quis guardar o farrapo no bolso, atirou-o em cima da cadeira e, depois, atirou Raúl para cima dele. Fora da vista, fora da lembrança. Não é uma pista assim tão importante... É um indício do tipo de mente com que deparamos. É uma mente cuidadosa, mas não profissional. Pode ter sido descuidado noutras áreas; por exemplo, na obtenção do clorofórmio. Talvez o tenha comprado aqui em Sevilha, num laboratório ou numa loja de artigos médicos; ou pode tê-lo roubado num hospital ou numa farmácia. O assassino pensou obsessivamente no que queria fazer à vítima, mas não em todos os pormenores do acto em si.
A sra. Jiménez foi localizada e informada. Mandámos um veículo levar os filhos para a casa da irmã, em San Bernardo, e trazê-la para cá. Quando o médico forense faz a autópsia? Perguntou Falcón. Quer estar presente? Perguntou Calderón, balançando o celular. Ele disse que ia fazê-la imediatamente. Não há necessidade, disse Falcón. Só quero os resultados. Há muito a fazer por aqui. Este filme, por exemplo. Creio que devíamos todos ver estas filmagens do La Familia Jiménez, já, antes que a sra. Jiménez chegue. Tem aqui mais alguém da brigada, inspetor? O Fernández está a falar com o conserje, inspetor-chefe. Diga-lhe para recolher todas as fitas cassetes das câmeras do sistema de segurança, vê-las com o conserje e tomar nota de toda a gente que ele não reconheça. Ramírez avançou para a porta. E outra coisa... Arranje alguém para indagar em todos os hospitais, laboratórios e lojas de produtos médicos sobre clorofórmio vendido a pessoas inusitadas ou frascos desaparecidos. E instrumentos cirúrgicos também. Falcón fez deslizar o móvel de TV/vídeo para a posição habitual, ao canto da sala. Calderón sentou-se na cadeira de pele. Falcón voltou a ligar o aparelho. Ramírez ficou em pé junto à cadeira do morto, que estava agora envolvida em plástico, pronta para seguir para os laboratórios da Policia Científica. Murmurou umas coisas para o telefone móvel. Calderón fez ejectar a cassete, inspeccionou a fita, voltou a introduzi-la e apertou o botão de rebobinar.
Os homens das mudanças ainda ali estão, inspetor-chefe. Agora não há ninguém para falar com eles. Eles que esperem. Calderón apertou o play. Sentaram-se todos pela sala e esperaram, no denso silêncio do apartamento vazio». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, tradução de Ana Pires e Pedro Pla, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sábado, 20 de outubro de 2018

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Este não gostou do filme, disse Felipe. Não se deve ver o que não se é capaz de aguentar, disse Jorge debaixo da mesa. Nunca gostei de filmes de terror…»

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«(…) ... E ter-se atirado em histeria à porta do apartamento do conserje, terminou Calderón, irritado com a interrupção de Falcón. Levou um certo tempo até conseguir extrair algum sentido das palavras dela e depois chamou o 091. O conserje veio aqui em cima? Não até à chegada do primeiro carro-patrulha, que veio selar a cena do crime. A porta estava aberta? Sim. E a criada... Onde está agora? Está sob o efeito de sedativos, no Hospital de la Virgen de la Macarena. Inspector Ramírez... Diga, inspector-chefe... Todas as conversas entre Falcón e Ramírez começavam assim. Era a maneira de Ramírez lembrar ao inspector-chefe que tinha vindo de Madrid e ficado com o lugar que ele, Ramírez, sempre presumira que iria ser seu. Peça ao subinspector Pérez para ir ao hospital e, assim que a criada... Já sabemos o nome dela? Dolores Oliva. Assim que ela reaja... Ele que lhe pergunte se viu alguma coisa estranha... Bem, sabe o que tem de perguntar. E indague quantas voltas deu à chave para abrir a porta e quais foram precisamente os seus movimentos antes de encontrar o corpo. Ramírez repetiu tudo ao subinspector. Já sabemos do paradeiro da sra. Jiménez e das crianças? Perguntou Falcón. Julgamos que estejam no Hotel Cólon. Na calle Bailén? Perguntou Falcón. Era o hotel de cinco estrelas em que ficavam todos os toreros, apenas a cinquenta metros da sua... Da casa do seu falecido pai... Uma não coincidência. Mandamos um carro lá, disse Calderón. Queria concluir o levantamento do cadáver logo que possível e remover o corpo para o Instituto Anatómico Forense antes de trazermos a sra. Jiménez aqui.
Falcón anuiu. Calderón deixou-os. Os dois peritos da Policia Científica; Felipe, beirando os cinquenta e cinco anos, e Jorge, quase nos trinta entraram, murmurando bom dia. Falcón olhou fixamente para o plugue do televisor caído no chão e decidiu não mencionar o facto. Fotografaram a sala e, entre eles, começaram a reconstituir um cenário. Entretanto, Jorge tirava impressões digitais de Jiménez e Felipe polvilhava o móvel da TV/vídeo e as duas capas de vídeos vazias. Estavam de acordo quanto à posição normal do aparelho e o facto de Jiménez olhar para ele habitualmente sentado numa cadeira reclinável de pele, cuja base giratória, quando deslocada, deixava uma marca circular no chão de madeira. O assassino tinha imobilizado Jiménez, retirado a cadeira de pele, que não se adequava aos seus propósitos, e ido buscar uma das cadeiras de espaldar alto, de modo a poder erguer o corpo com um único movimento de rotação. O assassino amarrou, em seguida, os pulsos de Jiménez aos braços da cadeira, lhe descalçou as meias, enfiou-as na boca e lhe prendeu os tornozelos. Em seguida, manobrou a cadeira, fazendo-a avançar alternadamente sobre as pernas, até ficar na posição ideal.
Os sapatos dele estão aqui debaixo, disse Jorge, apontando para o vão da mesa. Um par de mocassins cor de vinho com berloques franjados. Falcón apontou para uma zona desgastada no soalho em frente da cadeira de pele. Ele gostava de tirar os sapatos e sentar-se diante do televisor a esfregar os pés no chão de madeira. Enquanto via filmes pornográficos, disse Felipe, polvilhando uma das capas de vídeo. Este se chama Cara ou C… E a posição da cadeira? Perguntou Jorge. Para quê mudar tanta mobília de lugar? Javier Falcón avançou para a porta, voltou-se e abriu os braços para os investigadores. Impacto máximo. Um verdadeiro homem do espectáculo, concordou Felipe. Esta capa tem La Familia Jiménez, escrito a caneta de feltro vermelha e há um cassete no aparelho com o mesmo título e a mesma caligrafia. Não parece excessivamente aterrador, disse Falcón e todos olharam para o terror sublinhado a sangue em Raúl Jiménez, antes de retomarem o trabalho.
Este não gostou do filme, disse Felipe. Não se deve ver o que não se é capaz de aguentar, disse Jorge debaixo da mesa. Nunca gostei de filmes de terror, disse Falcón. Eu também não, disse Jorge. Não aguento tanta... Tanta...Tanta o quê? Perguntou Falcón, surpreso por estar interessado. Não sei... Normalidade, aquela portentosa normalidade. Todos nós precisamos de um pouco de medo para nos estimular, disse Falcón, admirando a gravata vermelha que trazia, com o suor a perolar-lhe outra vez a testa. Ouviu-se uma pancada debaixo da mesa, quando a cabeça de Jorge bateu na parte interior do tampo. Mer… Sabem o que é isto? Disse Jorge, recuando para fora do vão da mesa. É um naco da língua de Raúl Jiménez. Silêncio dos três homens. Meta-a num saco, disse Falcón. Não vamos encontrar nenhuma impressão digital, disse Felipe». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «Uma das finalidades primordiais da expedição comandada por Martim Afonso Sousa (1530-1532) relacionava-se com o combate à penetração francesa no Brasil»

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A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) As causas do insucesso da embaixada de Allesgle terão residido, por um lado, no facto de a Coroa lusitana considerar claramente atentatória dos seus direitos, à luz dos tratados internacionais e das bulas papais, ou seja, da doutrina do Mare Clausum, a intromissão de navios estrangeiros nas águas e territórios reservados a Portugal, pelo que julgava inteiramente legítimo que as suas esquadras reprimissem os infractores. Por outro lado, a enviatura gaulesa ocorreu na fase final das negociações com Carlos V para a resolução do problema das Molucas, circunstância que permite formular a hipótese de João III ter protelado propositadamente a resposta a dar ao representante da França enquanto não estivesse definitivamente solucionado o contencioso com o imperador. A missão de Allesgle contribuiu para que o governo joanino se certificasse de que a França não desistiria pacificamente de disputar a Portugal o comércio do pau-brasil e a soberania da Província de Santa Cruz. A celebração do Acordo de Saragoça (Abril de 1529), que encerrou o conflito com a Espanha sobre a delimitação das esferas de influência ibéricas no Pacífico, libertou João III de uma preocupação fundamental, uma vez que estava em jogo o monopólio do comércio das especiarias da Ásia de Sueste, e permitiu-lhe enfrentar mais resolutamente a ameaça turca no Índico e os desafios franceses no Atlântico e no Brasil.
O sistema de capitanias de mar e terra e a via diplomática revelaram-se incapazes de produzir os resultados desejados, ou seja, a eliminação da presença francesa na América do Sul. A manifesta insuficiência desse modelo para garantir o incontestável domínio português sobre o Brasil induziu o círculo governativo joanino a ponderar, no final da década de vinte, a adopção de soluções mais eficazes destinadas a assegurar a soberania lusitana sobre a totalidade do território americano que lhe pertencia de acordo com o Tratado de Tordesilhas. No entanto, o monarca francês não lhe reconhecia legitimidade, exigindo ironicamente que lhe mostrassem a cláusula do testamento de Adão que o excluía da partilha do Mundo.
Uma das finalidades primordiais da expedição comandada por Martim Afonso Sousa (1530-1532) relacionava-se com o combate à penetração francesa no Brasil. Logo a 31 de Janeiro de 1531, a esquadra apresou uma nau nas imediações do cabo de Percaauri (actual Pontal da Boa Vista) no litoral pernambucano. Aquela embarcação dispunha de artilharia e tinha os porões a abarrotar de pau-brasil. Na mesma data, foi detectada e tomada, nas proximidades da ilha de Santo Aleixo (9º 30' S), outra nau carregada do mesmo produto. No dia 2 de Fevereiro, a caravela então comandada por Pero Lopes Sousa abalroou e capturou, após renhido combate, uma terceira nau, igualmente provida de canhões, munições de guerra e grande carga de pau-brasil. Concluídas essas operações e efectuado o reagrupamento, a arnada rumou para norte, com destino a Igaraçu, onde, em meados de Fevereiro, tomou conhecimento de que a feitoria régía tinha sido assaltada e saqueada, em Dezembro de 1530, por um galeão francôs, tendo o respectivo feitor, Diogo Dias, dirigindo-se para abaía da Guanabara.
A 19 de Fevereiro de 1531, Martim Afonso decidiu queimar uma das naus apreendidas e enviar outra a Lisboa, sob o comando de João Sousa, com os prisioneiros franceses, 927 quintais de pau-brasil e relatórios dirigidos a João III. No mesmo mês em que partiu de Lisboa a armada lusitana, zarpou de Marselha La Pèlerine (antiga nau portuguesa São Tomé, pertencente ao armador portuense André Afonso, que fora capturada por corsários franceses) com destino ao Brasil. Tratava-se de um navio armado por Bertrand d’Ornesan, barão de Saint-Blancard, comandante da esquadra francesa de galés no Mediterrâneo, que pretendia fundar uma feitoria e estabelecer um núcleo de colonos no Novo Mundo português. Já não eram apenas os homens de negócios da França atlântica, sobretudo da Normandia e da Bretanha, que se interessavam pela Província de Santa Cruz. Os lucros proporcionados pelo comércio dos produtos brasílicos começavam, então, a despertar o interesse de alguns círculos navais e mercantis da França mediterrânica, onde se localizavam os centros económicos mais dinâmicos daquela monarquia, designadamente Lião e Marselha». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «João III deu posteriormente instruções ao seu embaixador em Paris para que diligenciasse no sentido de requerer a punição de Angoulême, por ter transmitido uma versão deturpada das negociações e ter ocultado a cópia do auto que então se redigira»

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A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) A existência de uma Casa de Valois relativamente poderosa no plano das forças terrestres tinha para a estratégia lusitana a vantagem de constituir uma ameaça latente à segurança das fronteiras imperiais, contribuindo, desse modo, para aliviar excessivas pressões espanholas sobre o Império Português, sobretudo numa conjuntura em que os contenciosos sobre as ilhas Molucas e a bacia platina se encontravam por solucionar. Daí que, apesar dos renhidos combates que se travaram entre portugueses e franceses no Atlântico e no Brasil, as duas monarquias tenham optado por nunca romper abertamente as hostilidades no âmbito europeu, já que receavam o imenso poderio territorial, económico e militar acumulado pelo imperador, bem como os prejuízos económicos que um total corte de relações acarretaria a ambos os reinos.
A França desejava continuar a exportar as suas produções para o espaço imperial português e a abastecer-se de mercadorias orientais em Lisboa. Portugal, por seu turno, pretendia que os súbditos de Francisco I não atacassem os navios que efectuavam as ligações com a feitoria da Flandres e que obrigatoriamente tinham de costear a região atlântica gaulesa. As informações provenientes de França de que uma armada de dez navios se aprestava para zarpar com destino ao Brasil levaram João III a investir Cristóvão Jaques nas funções de Governador das partes do Brasil, confiando-lhe a chefia de uma forte esquadra, formada por uma nau e quatro caravelas comandadas por experimentados capitães, designadamente Diogo Leite, Gonçalo Leite e Gaspar Correia, com a missão de aprisionar todas as embarcações estrangeiras que encontrasse na costa brasílica.
Os navios partiram de Lisboa, provavelmente no mês de Fevereiro de 1527, atingindo a feitoria de Pernambuco em finais de Abril ou inícios de Maio. Jaques tomou, então, conhecimento do ataque à nau San Gabriel, capitaneada por Rodrigo de Acuña, que se encontrava em reparação na embocadura do rio de São Francisco, perpetrado, no final de Outubro de 1526, por três navios franceses. Depois de ter mandado carregar a nau-capitânia de pau-brasil e de a despachar para Portugal com relatórios para o rei, Jaques decidiu empreender a busca das embarcações intrusas rumo ao Sul. Possivelmente em Julho, a esquadra lusitana surpreendeu, na Bahia, três naus bretoas. Após duro combate, foram afundados dois dos navios, apresado um terceiro e recuperada uma caravela portuguesa que havia sido capturada pela derrotada frota gaulesa. As tripulações francesas fugiram ou renderam-se, os pilotos e alguns membros da equipagem foram executados, tendo sido feito grande número de prisioneiros. Este grau de violência foi intencionalmente utilizado com o objectivo de dissuadir os mercadores normandos e bretões de continuarem a financiar o envio de navios ao Brasil, explicando-se ainda pelo facto de os comandantes das embarcações serem responsáveis pelo assalto do navio português destinado à Mina e pela morte de muitos dos seus tripulantes. Em Maio de 1528, o capitão-mor mandou regressar a caravela de Gonçalo Leite com uma remessa de pau-brasil e com cartas para João III. No final do ano, a armada de Jaques foi substituída por uma esquadra comandada por António Ribeiro que a 2 de Novembro já se encontrava em Pernambuco.
Os armadores dos navios franceses recorreram inicialmente ao conde de Lavall, lugar-tenente régio no ducado da Bretanha, e, posteriormente, ao próprio soberano no sentido de pressionar o rei de Portugal a compensá-los dos elevados prejuízos materiais e humanos provocados pela armada lusitana. Por carta-patente de 6 de Setembro de 1528, Francisco I cometeu ao rei de armas do título de Angoulême a incumbência de exigir ao governo de Lisboa uma indemnizaçáo no valor de 60 000 escudos para os seus súbditos bretões (Ivo Coadqungar, Francisco Guéret, Maturino Tournemouche, João Bureau e João Jamet), sob pena de mandar passar cartas de marca e represália contra os bens, navios e mercadorias dos portugueses até ressarcir integralmente aqueles homens de negócios das perdas sofridas.
O emissário do rei de França chegou à capital portuguesa a 18 de Janeiro de 1529, sendo.prontamente recebido por João III. Existem duas versões contraditórias sobre a forma como decorreram as negociações encetadas por Helies Allesgle na corte de Lisboa. O representante de Francisco I, através de um memorial datado de 3 de Julho desse ano, informou o seu soberano de que perïnanecera nove semanas na capital portuguesa sem que tivessem sido satisfeitas as reivindicações apresentadas, tendo-lhe o doutor Diogo Gouveia Sénior, um dos mais influentes conselheiros régios, retirado quaisquer esperanças na obtenção de sucesso para a sua missão. Todavia, aquele humanista ter-se-ia limitado a transmitir as deliberações oficiais, perfilhando a opinião de que se deveria proceder à libertação dos bretões para permitir o apuramento da verdade e o castigo dos franceses que afirmavam terem os homens de Cristóvão Jaques supliciado os prisioneiros.
O monarca lusitano comunicou a João da Silveira ter sugerido ao enviado francês que os queixosos recorressem aos tribunais portugueses que apreciariam o caso. O monarca João III deu posteriormente instruções ao seu embaixador em Paris para que diligenciasse no sentido de requerer a punição de Angoulême, por ter transmitido uma versão deturpada das negociações e ter ocultado a cópia do auto que então se redigira». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «… da Casa de Austria, que ambicionava concretizar o projecto da monarquia universal, defendido por um dos mais influentes colaboradores de Carlos V, o chanceler Mercurino Gattinara»

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As Rotas
La Carrera de Indias: Inconvenientes y Ventajas del Sistema Español de Comunicaciones Transatlánticas
«(…) Por todo ello, y empleando una expresión marinera, el sistema de flotas hizo agua a mediados del siglo XVII. Lo realmente ilógico fue mantenerlo durante tanto tiempo. Por qué paso tal cosa? La razón debe buscarse, sin duda, en los intereses de los grandes comerciantes de la Carrera de Indias vinculados a los Consulados comerciales de Sevilla, México y Lima. Estos hombres preferían la certeza de unas ganacias perqueñas, pero relativamente seguras, a exponerse a cambiar sus tradicionales sistemas monopolistas y entrar en una carrera de competencia a base de barcos mercantes más agiles y que, aprovechandose de su superior velociad, pudiesen romper los bloqueos. Este problema en el que se mezclan motivos tanto económicos, como de pura mentalidad comercial, fue una importante rémora que evitó la reforma del sitema. Esta no se comenzó a encarar com decisión hasta mediados del siglo XVIII y fue avanzando lentamente. Primero se suprimieron los convoyes a Tierra Firme y la compleja ruta que
enlazaba el Peú con Espafra a través de Panamâ. Las expediciones a Nueva España, mucho más simples, resistieron algo más, pero al final tuvieron que sucumbir también ante la realidad de los cambios históricos. In Pablo Emílio Perez-Mallaina

A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto

Em Maio de 1505 retornaram a Honfleur os sobreviventes da nau L'Espoir, orientada por dois portugueses (Sebastião Moura e Diogo Couto) contratados em Lisboa a peso de ouro. O navio destinava-se ao Oriente, mas, devido ao insuficiente domínio das técnicas de navegação na região austral, acabou por arribar, em 1504, ao Brasil, tendo os seus tripulantes permanecido vários meses na região de Santa Catarina. Entre o reduzido grupo que, na viagem de regresso, escapou ao ataque de um pirata bretão, encontrava-se Essomericq, filho do chefe carijó Arosca, que por todos os lugares de passagem era muito bem olhado, por não ter jamais havido em França personagem de tão longínquo país.
Os relatos dos homens da expedição capitaneada por Binot Paulmier de Gonneville espalharam-se velozmente pelos portos da França atlântica, divulgando notícias sobre as gentes e os produtos das terras austrais, facto que atraiu o interesse dos activos homens de negócios da Normandia (Ruão, Dieppe, Harfleur, Honfleur e Caen) e da Bretanha (Brest e Saint-Malo). Os armadores normandos e bretões começaram, a partir de então, a enviar cada vez com maior frequência navios para se abastecerem directamente de pau-brasil na Terra de Santa Cruz, assegurando, desse modo, o fornecimento de matérias corantes aos grandes centros gauleses produtores de tecidos. Utilizavam, ainda, intérpretes normandos, os truchements, que se fixaram em crescente número junto de alguns grupos tribais tupis.
A intensa actuação de corsários no Atlântico e de armadores bretões e normandos na América Portuguesa transformou-se rapidamente numa das preocupações prioritárias do governo de Lisboa. João III (1521 - 1557), firmemente determinado a afastar os súbditos do rei de França do Atlântico português e do Brasil, optou por uma estratégia que combinava uma intensa acção persuasiva junto da corte de Francisco I (1515 - 1547) com a adopção de medidas de cariz defensivo. No campo diplomático, o rei procedeu à nomeação de João Silveira para representar os interesses portugueses perante o monarca gaulês (de 1522 a Abril ou Maio de 1530). Idêntica medida tomou o governo de Paris, designando Honorato Cais para desempenhar as funções de seu embaixador em Lisboa, cargo que exerceu, embora de forma intermitente, ao longo de trinta e seis anos (de 1523 a 1558).
Nas suas relações com Portugal, Francisco I pretendia atingir simultaneamente dois objectivos que, no entanto, se revelavam contraditórios. Por um lado, procurava combater o monopólio português em Africa, no Brasil e no Oriente com a finalidade de proporcionar lucrativos negócios aos seus armadores e mercadores, contribuindo, desse modo, para fortalecer a componente atlântica da navegação e do comércio franceses e para criar melhores oportunidades de cobrança de receitas ao tesouro régio gaulês, depauperado pelos elevados custos das Guerras de Itália. Por outro lado, desejava firmar um tratado de aliança com o monarca lusitano com vista a obter apoios que lhe permitissem combater mais eficazmente Carlos V (1516 – 1519 - 1556). Apesar dos sérios prejuízos que os vassalos de Francisco I causavam à navegação e ao comércio portugueses, do forte sentimento popular anti-francês e das opiniões dos mais influentes membros do Conselho Régio, nomeadamente o infante Luís e o bispo de Viseu, partidários de uma política de claro alinhamento com o imperador e de frontal oposição à França, João III não quis adoptar medidas que contribuíssem para que o reino gaulês fosse demasiadamente enfraquecido pela dinastia de Habsburgo, em virtude de esta já estender a sua influência a uma vasta área que englobava a Espanha e o seu Império Americano, uma parte da Itália, o Império Germânico, a Flandres, o Artois e, por vezes, conforme a sorte das armas, a Borgonha. Com esta actuaçáo, o monarca português visava contrabalançar as tendências hegemónicas da Casa de Austria, que ambicionava concretizar o projecto da monarquia universal, defendido por um dos mais influentes colaboradores de Carlos V, o chanceler Mercurino Gattinara». In Pablo Emílio Perez-Mallaina e Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

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domingo, 3 de junho de 2018

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Os olhos iam absorvê-la. E pedir mais. Agora vai ver tudo, disse a voz. E eu forneço as lágrimas. A gota caiu no olho»

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«(…) Um ponto de luz, pequeno como uma estrela, perfurou a grande cúpula. Cresceu em círculo e tirou-o do seu poço negro. Não, quero ficar. Deixem-me aqui nas trevas da masmorra. Mas se sentia inexoravelmente arrastado, atirado para dentro do círculo em expansão, até ressurgir na sala, onde continuava James Cagney, e agora uma moça, que não representava a única diferença que havia a registar. Tinha um fio eléctrico lhe vincando o rosto. Tinha sido apertado com força por debaixo do nariz e atava-o ao espaldar alto da cadeira, de tal modo que sentia os contornos esculpidos de uma espécie de antigo brasão lhe penetrando no couro cabeludo. Mas havia mais. Valha-me Maria, Mãe de Cristo, Virgen de la Macarena, de la... De la Esperanza... O que me fizeram?
Sentia lágrimas quentes nas bochechas, correndo pelos lados do rosto até aos cantos da boca. Caíam-lhe pesadamente na camisa branca. Deixavam um sabor de metal adocicado entre os dentes. O que me fizeram. A tela da televisão rolou na direcção dele e se deteve junto dos seus joelhos. Estavam acontecendo demasiadas coisas ao mesmo tempo. Cagney beijava a moça, provocadoramente. A corda se enfiava em seu septo. O pânico crescia dos pés, espalhando-se violentamente pelo corpo, reunindo mais pânico pelo caminho, se afunilando à entrada dos órgãos, se dirigindo veloz para a aorta em compressão. Irreprimível. Imbatível. Impensável. Tinha o cérebro lívido, os olhos ardendo, as lágrimas irrompendo sem cessar. As pálpebras, rastilhos queimando na escuridão, avançavam sobre as pupilas negras e brilhantes, ferindo o branco dos olhos. Surgiu um conta-gotas na sua visão incendiada, com uma trémula gota de orvalho suspensa no tubo de vidro. Os olhos iam absorvê-la. E pedir mais. Agora vai ver tudo, disse a voz. E eu forneço as lágrimas. A gota caiu no olho. A fita começou a rodar e gemeu. James Cagney e a moça foram consumidos por uma crescente tempestade. Depois veio a gritaria e a administração meticulosa de lágrimas.
Tudo começou no momento em que entrou naquela sala e viu aquele rosto. Tinha recebido a ligação às 8:15, precisamente quando se preparava para sair de casa: um cadáver, uma suspeita de crime e um endereço. Semana Santa. Fazia sentido que houvesse pelo menos um assassínio na Semana Santa; não que tivesse algum efeito sobre as multidões que acompanhavam a deslocação diária de Virgens Santas, tremendo nos seus andores, convergindo para a catedral. Tirou cuidadosamente o carro do casarão que pertencera ao pai, na calle Bailén. Os pneus trepidaram nos paralelepípedos das ruas estreitas e vazias. A zona antiga, relutante em acordar em qualquer época do ano, estava especialmente silenciosa àquela hora durante a Semana Santa. Entrou no largo fronteiro ao Museo de Bellas Artes. As casas caiadas, emolduradas a ocre, estavam silenciosas por detrás das palmeiras altaneiras, duas colossais árvores da borracha e grandes jacarandás que ainda não tinham florido. Abriu a janela à manhã, ainda fresca devido ao orvalho da noite anterior, e rumou ao Guadalquivir e à alameda que forma o Paseo de Cristóbal Cólon. Teve uma sensação que beirava a satisfação, ao passar pelas portadas vermelhas da Puerta del Príncipe, na fachada da Plaza de Toros de La Maestranza, prestes a receber as primeiras touradas da semana que antecedia a Feria de Abril. Isto era o mais próximo que conseguia da felicidade, nos dias que corriam, e ainda durava quando virou à direita, depois da Torre del Oro, e atravessou o rio, que estava enevoado sob os primeiros raios de sol, afastando-se da parte velha da cidade. Na Plaza de Cuba, desviou-se do caminho habitual de ida para o trabalho, e desceu a calle de Asunción.
O novo juez de guardia, um muito jovem juiz de escala, estivera à sua espera no imaculado patamar de entrada, em mármore branco, do grande e dispendioso apartamento de Raúl Jiménez, no sexto andar do Edificio del Presidente. E tinha tentado avisá-lo. Lembrava-se disso. Prepare-se, inspector-chefe, dissera. Para o quê? Perguntou Falcón. Durante o embaraçoso silêncio que se seguiu, o inspector-chefe Javier Falcón tinha escrutinado minuciosamente o aspecto do terno do juez de guardia, que decidiu ser italiano ou de um estilista espanhol; Adolfo Dominguez, talvez. Caro, para um jovem juiz como Esteban Calderón, de trinta e seis anos e apenas um de serviço. A aparente falta de interesse de Falcón decidiu Calderón, que não quis ser tomado por ingénuo pelo inspector-chefe do Grupo de Homicidios de Sevilla, de quarenta e cinco anos, mais de vinte dos quais passados vendo gente assassinada em Barcelona, Saragoça, Madrid e agora Sevilha». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, tradução de Ana Pires e Pedro Pla, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «A Infanta debruçou-se e sussurrou qualquer coisa ao ouvido do pai. Diz a minha filha que o casamento não tem por força que ver com amor»

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O desejo de uma mulher
«(…) A sua filha mais velha, a infanta doña Isabel Clara Eugenia, estava de pé, atrás do trono. É um segredo mal guardado, o facto de a Infanta ser o conselheiro mais chegado do rei, bem como a sua filha preferida. Tem doña Isabel os olhos verdes e inteligentes do pai, mas o seu rosto cheio e jovial é muito mais caloroso. O cabelo castanho, trazia-o firmemente apanhado num rolo sobre a nuca. Cobria-o um toucado preto com um rebordo de pérolas, dornado por uma pena de avestruz e um alfinete de pedrarias. Fiz uma vénia e aguardei de cabeça baixa, como à espera da lâmina do carrasco. O aroma a laranja e alperce do perfume da Infanta acalmou a minha respiração agitada. Perturbando o silêncio pomposo, o vulto enorme do marquês destacou-se da multidão para me apresentar. Mais urso que homem, tem um peito poderoso, com a largura de dois, porém dirigiu-se agilmente para o trono. A sua estatura e rapidez fazem do meu mentor e amigo um adversário mortífero em duelo. Vestia de negro, como o rei, mas as suas roupas elegantes ostentavam rendas de prata e ouro. As pontas do seu bigode encerado apontam para cima, ao passo que a barba serpentina desce em espiral. O cabelo, que vem perdendo, revela muito do seu crânio. O nariz e as faces, como sempre, estavam vermelhos, fruto de muitas e lautas refeições e de incontáveis garrafas de vinho. Na vida de um homem, disse-me certa vez, vem um tempo em que a comida se torna mais apetecível que a mulher. Rezei por que, na minha vida, tal dia jamais chegasse.
Majestade, tenho o privilégio de vos apresentar don Juan Tenorio, vosso súbdito fiel. Da fé que o faz fiel será o inquisidor a ajuizar, resmoneou o rei, fazendo a multidão chilrear de gozo e a minha espinha arrepiar-se abominavelmente. A dar ouvidos às histórias que correm na corte, prosseguiu o rei, pousando agora em mim o olhar, seria levado a pensar que sois algum demónio. Apenas um homem, Majestade, respondi. As falas da corte fazem de qualquer homem um demónio. Ergui de relance o olhar e vi que o rei não pôde reprimir um ténue sorriso. Mais que ninguém, é ele vítima da maledicência e mesquinhez dos cortesãos. Disseram-me, continuou, que íeis anunciar esta noite o vosso noivado. O meu rosto deve ter traído a minha surpresa quando olhei para o marquês, cujo sobrolho, agora arqueado, revelava não ter sido ele a origem de semelhante rumor. Ter-me-ão enganado?, perguntou o rei. Iludem-vos os meus inimigos, Majestade. Não sucedeu enamorar-me. A Infanta debruçou-se e sussurrou qualquer coisa ao ouvido do pai. Diz a minha filha que o casamento não tem por força que ver com amor.
A vossa filha tem a vossa sabedoria, Majestade, disse, pondo os olhos, para lá do rei, nos da Infanta. Embora já com vinte e sete anos, ainda vive com o seu idoso pai. A mãe, casada aos quinze anos com o nosso rei para unir Espanha e França, morreu dois anos depois do nascimento de doña Isabel. Mesmo a irmã mais nova e sua única confidente, Catalina, já casou, há oito anos, com o duque de Sabóia. A Infanta aceitaria, sem dúvida, casar sem amor, contanto que o pretendente tivesse o título certo, o que não é naturalmente o meu caso». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Depressa! Mais depressa! Cristóbal estimulava a égua, brandindo as rédeas, enquanto transpúnhamos, aos solavancos, as portas da cidade. A “Bonita” percorreu velozmente o troço que ainda nos separava do Alcázar

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Uma centelha de paixão
«(…) Tal não consegui. Q futuro é reputadamente difícil de prever, Vossa Reverência. O vosso não, Don Juan, tornou frei Ignacio, rangendo os dentes. Tão logo se extinga o vosso favor junto de el-rei, cuidarei pessoalmente de que sejais punido por todos e cada um dos vossos pecados. Os maiores pecadores são sempre os últimos a ser punidos, Vossa Reverência. Com a vossa permissão, o Rei está à minha espera.
Também eu, replicou o inquisidor. porém, vergando-se à autoridade do rei, estalou os dedos para que os guardas nos deixassem passar. Os soldados e o mar de povo abriram alas e Cristóbal convenceu ansiosamente a égua a prosseguir. Ensinou-me há muitos anos o marquês a jamais mostrar fraqueza diante de um adversário, mas, assim que nos perdemos da vista de frei Ignacio, abati-me contra o fundo do meu assento e suspirei de alívio. Retomámos o galope e, ao descermos a derradeira colina antes da cidade, avistei as suas portas, acolhedoras como dois braços abertos. Na outra margem, contudo, sobressaía a pedra do Castillo de San Jorge, quartel-general da Inquisição (maldita), qual monstro apostado em sitiar a nossa Sevilha.
Depressa! Mais depressa! Cristóbal estimulava a égua, brandindo as rédeas, enquanto transpúnhamos, aos solavancos, as portas da cidade. A Bonita percorreu velozmente o troço que ainda nos separava do Alcázar, com a carruagem sacudida de um liado para o outro, até chegarmos enfim à Puerta del León.
Depois de me ter feito anunciar, abriram-se, pare eu passar, as pesadas portas de madeira, da altura de dois homens. Correndo para o interior do palácio, cheguei finalmente ao salón de Embajadores. Enchia o salão uma nobreza aduladora, e o ar achava-se carregado de um burburinho de mexericos de corte e intriga política. Apresentam-se as paredes revestidas de azulejo e estuque segundo os enredados motivos geométricos dos Mouros. Orlam a divisão colunas de mármore negro com capitéis dourados, unidas por arcos de ferradura. Olhei boquiaberto a abóbada de ouro que resplandecia como um céu estrelado. Foi ali mesmo, naquela câmara de recepção, que, há muito tempo, o rei Pedro, o Cruel, resolveu matar o seu irmão por se ter enamorado da princesa com quem ele próprio devia casar. Perguntei-me se também eu seria ali condenado à morte.

O desejo de uma mulher
A audiência estava a chegar ao fim quando fui chamado à presença da Coroa. Enquanto me dirigia ao extremo da câmara, fez-se silêncio entre a multidão. Todos alongavam o pescoço para ouvir. Ajoelhei ante o nosso rei, em quem a idade começa a manifestar-se. Os seus verdes olhos continuam argutos e desconfiados como sempre, mas o seu rosto cansado, com a barba grisalha, parece agora bem mais perto da cova. Sofre de gota, enfermidade que deve ter tornado insuportável a viagem desde Madrid, e tinha a perna direita assente numa cadeira de armar que lhe foi oferecida peio imperador da China. Somente a bancarrota do tesouro real, consequência de guerras a mais e de um império infinito, pode tê-lo forçado a vir receber os galeões carregados de riquezas que em breve aportarão a Sevilha. Sabia que o rei desprezava a presunção e a falsidade da corte tanto quanto eu, e via que não tentava dissimular o seu enfado. Deixava-se escorregar, o nosso devoto rei, pelo trono de mogno de espaldar direito, tão austero quanto ele». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Frei Ignacio Estrada tem rugas cavadas nas faces, e as suas têmporas, afundadas na cabeça, dão a impressão de terem sido prensadas num torno»

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Uma centelha de paixão
«(…) Amarrados a altos postes achavam-se doze homens e mulheres. Dois deles mantinham-se direitos, em ar de desafio, enquanto os corpos dos restantes pendiam já sem vida. Os mortos tinham optado por confessar a sua heresia e recebido, em paga, a mercê do garrote antes da fogueira. A seus pés, pilhas de lenha miúda e grossos toros alimentavam os enormes fogaréus que os devoravam, atingindo até mesmo as cruzes que encimavam cada poste. Por entre as chamas, vi o rosto de um mancebo que não teria mais que os dezasseis anos com que eu próprio chegara a Sevilha. Plebeus ou nobres, todos os hereges envergam o sanbenito com chamas e demónios pintados. Embora desconheça quais os seus crimes, alguns seriam por cerro seguidores de Lutero. Uma das mulheres era ruiva, motivo bastante para ter sido denunciada como bruxa. Igualmente amarradas a postes e ardendo ao lado dos hereges, viam-se as estátuas de madeira que permitem executar em efígie os que fugiram ou sucumbiram à câmara de tortura. Nem na morte se escapa à fúria da Inquisição (maldita). Estas figuras ornamentadas parecem tão reais como as imagens de Cristo Nosso Senhor na procissão da Semana Santa, e são os mesmos escultores que as talham.
É, para os inquisidores, de suma importância que a semelhança seja exacta; tão hábeis são os artistas que mesmo as lágrimas de madeira se diria deslizarem pela face das esculturas. As chamas lambiam a pele das vítimas ainda vivas. Enchiam-se os meus ouvidos com os seus gritos. Continua!, ordenei a Cristóbal, ansioso por não ficar outro instante naquele lugar diabólico. Não era possível, contudo, avançar, não apenas pela grossura da multidão mas também porque os soldados nos vedavam agora a passagem. Envergavam couraças vermelhas com pregos de metal sobre cotas de malha, largos cintos de cabedal negro afivelados à cintura, e redondos elmos de aço na cabeça. Empunhavam bestas disparadas por gatilho, o que as torna sobremaneira mortíferas. Abeiraram-se uns quantos da nossa carruagem. Só então vi quem se encontrava por trás deles. Ah, Don Juan, viestes ver o que o futuro vos reserva? Frei Ignacio Estrada tem rugas cavadas nas faces, e as suas têmporas, afundadas na cabeça, dão a impressão de terem sido prensadas num torno. Não exibe o manto negro nem o sumptuoso chapéu pontudo com rubra pluma usados pela maioria dos inquisidores. Em vez disso, traja simplesmente o hábito preto e branco de frade dominicano. Não usa chapéu, apenas a tonsura com a coroa de cabelo tão apreciada por qualquer monge. Ao pescoço traz uma cruz toscamente lavrada em tábua de oliveira. Embora já com mais de cinquenta anos, conserva os ombros largos de um robusto guerreiro de Deus. Era este homem o principal responsável pelo horror que então me cercava. Conquanto os inquisidores entreguem sempre as suas vítimas às autoridades civis para descartar a responsabilidade pelas execuções, toda a gente sabe quem manda pegar fogo à lenha. Frei Ignacio sempre se viu como um Cruzado que envia para a morte todo aquele que afronte a fé ou a pública decência. Subiu depressa na hierarquia da Inquisição (maldita) e é agora a mais importante figura logo após o Inquisidor-Mor. Conheço-o desde que foi meu professor no mosteiro. As suas lições não tiveram o condão de fazer que o estimasse. Nem os maiores pecadores, acrescentou com um sorriso impossível de distinguir de uma careta, logram escapar eternamente à Ira do Senhor. Respirei fundo e esforcei-me por reter a língua». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Quanto a mim, tinha necessidade de um cocheiro mas faltavam-me as posses para pagar a um adulto. Não teria mais de vinte e dois anos, e tornei-me como um irmão mais velho de Cristóbal»

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Uma centelha de paixão
«(…) Afaguei-lhe a maciez da face com o indicador. Lamento não poder dar-vos mais que uma noite de companhia, disse, mas é quanto posso dar a qualquer mulher. Don Juan, destes-me mais do que o meu marido jamais deu. Ouvira dizer que, nos vossos olhos, vê uma mulher pela primeira vez a sua verdadeira beleza. Elvira engoliu a saliva. Não era mentira nenhuma. Sorri e fiz uma vénia, ciente de que a alma de cada mulher é um tesouro único. Tendo crescido como órfão num convento, cedo descobri essa riqueza, que poucos homens têm o privilégio de contemplar. Foi nas palavras da Irmã Teresa, tanto como nos beijos da sua boca, que aprendi a escutar o murmúrio sossegado das alegrias, dos medos, dos anseios de uma mulher. O tanger dos sinos da igreja mais próxima foi como uma chibata a vergastar-me a pele. O meu cocheiro, Cristóbal, bateu à porta com impaciência. Eu sabia que a minha oportunidade de prestar homenagem ao Rei e conquistar o seu favor me estava a escapar por entre os dedos. Lamento ter de partir tão bruscamente, disse, pondo na cabeça o meu chapéu de plumas. O lugar para onde vou está a léguas de ser tão aprazível como este de onde me vou. A viúva recostou-se no seu leito com um sorriso de assentimento. Deitei mão à capa e à espada e saí num relâmpago.
Cristóbal é mais alto que eu a medida de uma cabeça, mas mais magro, e tem os membros tortos como os de um espantalho. Persignou-se com nervosismo, como sempre que me vê depois de uma das minhas aventuras amorosas. Outra viúva, senhor?, perguntou num estremecimento. Suponho que acreditas nos padres, quando dizem que uma viúva há-de viver como freira até se reunir no Céu com o seu marido… Pois deixa que te conte um segredo, Cristóbal: o desejo de uma mulher não fenece antes do seu último suspiro. O meu cocheiro corou e disse: a audiência, senhor. De que estamos à espera?, retorqui sorrindo, e saltei para a carruagem. Depressa! Cristóbal incitava a égua, sem dúvida temendo pela minha vida, embora não apenas por ela: os mortos não precisam de cocheiro. A Bonita compreendeu a nossa urgência tão-só pelo tom de voz, singularmente elevado, de Cristóbal, e largou a galope pelas ruas estreitas de Lebrija, com as rodas da negra carruagem a roçarem a cal dos muros. Ao contrário de outros cocheiros, Cristóbal não usa chicote. Tem um modo de sussurrar ao ouvido de um cavalo que o leva a fazer tudo o que pretende. Se é certo que, com os cavalos, goza deste dom, as mulheres, contudo, apavoram-no. Tal receio, sempre o teve, desde o dia em que o encontrei, no Arenal, era ainda um rapazito de doze anos. Fugira de casa e procurava trabalho.
Quanto a mim, tinha necessidade de um cocheiro mas faltavam-me as posses para pagar a um adulto. Não teria mais de vinte e dois anos, e tornei-me como um irmão mais velho de Cristóbal, enquanto juntos nos íamos fazendo homens. A carruagem corria veloz pela tosca estrada de terra que conduzia a Sevilha e as rodas levantavam pó em todas as direcções. Volvidas menos de duas horas de árdua cavalgada, divisei pela janela os belos muros da cidade, que a luz do poente estival incendiava de rosa e escarlate. Muralha adentro, a Giralda erguia-se aos céus. No cimo da torre assomava uma mulher de bronze, símbolo da fé da nossa Sevilha, com uma cruz numa das mãos e uma fronde de palmeira na outra. Ao lado do campanário, o círculo da Lua, que na véspera estivera cheia, repousava sobre a catedral como uma mulher satisfeita no seu leito celeste. Aproximávamo-nos de uma espessa multidão reunida no Prado de San Sebastián, não longe das muralhas da cidade, quando um fumo negro de súbito ocultou a Lua. O odor da carne queimada ofendeu-me o nariz e revirou-me o estômago. Olhei em torno apreensivamente, mas não havia outra estrada e Cristóbal sabia que era tarde para fazer meia-volta. A Bonita teve de parar, rodeados que estávamos de todos os lados pela turba que assistia, de boca aberta e olhos fulgentes de fascinação, a um espectáculo infernal». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Mais um beijo, rogou Elvira, puxando com brandura pela manga do meu gibão castanho-avermelhado, enquanto lestamente eu tratava de me vestir. Estava atrasado»

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A paixão é uma arte. O amor é uma aventura
«Escrevo nas páginas nuas deste diário para que a verdade venha a ser conhecida e a minha sorte não fique à mercê dos rumores e mentiras que já sopram pelas ruas de Sevilha. Quando morrer, muitos serão, estou certo, os que hão-de esforçar-se por fazer da minha vida uma moralidade, mas vida alguma pode ser tão facilmente compreendida ou enjeitada. Não me arriscaria a inscrever os meus segredos neste diário não fosse o meu amigo e protector don Pedro, marquês de la Mota, a tal me ter instigado. Objectei que nada do que escrevesse poderia ser lido enquanto fosse vivo sem que o Tribunal do Santo Ofício (maldito) me condenasse à fogueira. Ontem ainda o inquisidor em pessoa marcou a fogo semelhante perigo na minha imaginação. Terá sido porventura tão recente ameaça, ou o ultimato do rei, que enfim me moveu a pegar na pena e a embebê-la na tinta que ora dá forma a estas palavras. Insistiu o marquês em que é para bem da posteridade que devo escrever um diário, pois que a imoralidade verdadeira é nossa reputação. Mal seria, porém, apenas por vaidade que haveria de o escrever. Trinta e seis anos são passados desde o meu nascimento, ou, mais precisamente, desde que a minha mãe me expôs, envolto em faixas, no celeiro do Convento de la Madre Sagrada. É decerto sinal da idade ter permitido, pela primeira vez na vida, que me persuadissem a considerar de que maneira serei lembrado. Outro desejo, entretanto, me leva de igual modo a escrever: o de legar o que aprendi sobre as artes da paixão e a santidade da mulher. Visto que renunciei ao matrimónio e não tenho herdeiros de meu sangue, forçoso me é olhar para quantos vierem depois de mim como meus descendentes e tentar partilhar com eles quanto aprendi junto das mulheres que tive o privilégio de tão bem conhecer.
As recordações de um homem inclinam-se sempre para o louvor de si mesmo, por isso não irei valer-me somente do meu próprio testemunho mas transcrever, com roda a fidelidade possível, não apenas os casos mas também as palavras bradadas durante um duelo ou sussurradas durante um encontro apaixonado. É o sobredito orgulho que me leva a principiar o meu relato pelo mais ousado feito de sedução que jamais empreendi. Era minha ambição nada menos que libertar da sua clausura, no Alcázar, a casta e solitária filha do rei, por uma noite. Sabia que, sendo descoberto, teria o privilégio, na minha qualidade de homem nobre, de pousar a cabeça no cepo do carrasco e escapar dessa forma à desonra da forca. A ambição de um homem, todavia, como o seu destino, nem sempre é dele conhecida antes do tempo, e, ao deixar os braços da viúva Elvira, não tinha o menor augúrio dos riscos que, a noite passada, sobre mim pesavam.

Mais um beijo, rogou Elvira, puxando com brandura pela manga do meu gibão castanho-avermelhado, enquanto lestamente eu tratava de me vestir. Estava atrasado, não obstante ter sido avisado pelo marquês de que a minha vida dependia de estar presente na audiência do rei. A minha intenção de comparecer a tempo não podia ter sido mais firme, mas cedera ao descobrir que a jovem mulher que ontem à tarde tinha nos braços enviuvara por culpa do oceano. A sua solidão e o seu desejo não tinham conhecido refrigério nos longos cinco anos passados sobre a morre do marido. Só mais um, insistiu, agora com os lábios estendidos na direcção dos meus. Olhei o seu rosto sorridente e os seus negros cabelos, que o nosso desejo de há pouco deixara em desalinho. A limpidez dos seus olhos castanhos reflectia a chama das velas que cingiam o altar do leito. Como recusar semelhante pedido? Tomei-lhe as faces nas pontas dos dedos e aproximei-me, chegando-me ao seu rosto devagar, pois que tudo vai do antegosto. Rocei de leve os meus lábios nos seus e de seguida titilei com a ponta da língua o canto da sua boca. Tive o cuidado de a não sufocar de beijos para que não tivesse de se guardar do meu assalto. Provei-lhe o néctar orvalhado da boca quando me abriu as suas pétalas. Unidas as bocas, era palpável a sua sede, intenso o seu arquejar. Com as nossas línguas e lábios, bebemos um do outro uma poção doce como o mel. Quando, ao cabo de longo tempo, me afastei, Elvira levitava, de olhos cerrados, porém com a sede mitigada». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT