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quarta-feira, 3 de abril de 2024

Poesia. Nuno Júdice. «Deuses… vós sois animais destruidores… invoco a memória de um fruto amargo, a sabedoria corrompida nos labirintos da inteligência»

jdact

Exílio

«As planícies áridas de uma inspiração antiga deram-me a conhecer

O seguinte, que eu era um poeta único, o Anunciado, o Iluminador das tardes

Violetas do Bósforo e Antineia… e que ninguém, durante os anos

Criadores de uma imaginação múltipla, regressaria às fórmulas arcaicas

Que os medíocres ousaram, furiosos de Resto…

E eles! Devoradores de impressão, que zelo sustenta ainda

Os seus corpos? Antes os influenciasse Saturno, o criador de Obscuridade

Divina… ou ouvissem os horóscopos pronunciados nas margens

Tempestuosas do sul… ou ainda voltassem a um lugar abrigado

A elucidar as profecias e comentários de um povo áugure… mas eles

Não ouviram, nunca, asmatemáticas polares do sonho!...»

[…]

In Nuno Júdice, 50 Anos de Poesia, Antologia Pessoal (1972-2022), Publicações Dom Quixote, 2022, ISBN 978-972-207-457-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Nuno Júdice, Poesia, Cultura, 

domingo, 31 de março de 2024

No 31. A Pintura de Paisagem na Poesia de Nuno Júdice. Para uma Leitura Gnóstica e Geopoética do Mundo. Egídia Souto.«Na esfera da história das artes plásticas portuguesas, a paisagem assume um carácter totalmente independente com o romantismo e posteriormente com a vigência da estética naturalista…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«É uma paisagem teatro do mundo, onde dialogam essencialmente filosofia, religião e pintura, que o poeta Nuno Júdice tenta alcançar. O sujeito poemático testemunha as metamorfoses pelas quais vai passando o cosmos. Estar no mundo, em harmonia com este, pressupõe uma nova filosofia onde a paisagem é mais filosófica e poética que geográfica - palimpsesto de todos os possíveis. O poeta, num eixo géo-poético e pluridisciplinar, cria uma paisagem que nasce de uma cosmologia criativa e de uma natureza inabitada e elegíaca, sublimada muitas vezes pelo quadro. Não será a pintura de paisagem um caminho para a perfeição? Ou talvez uma resposta para o lugar do ser no mundo, numa absoluta fusão do corpo com o poema? Ou será a pintura de paisagem uma contemplação do eu à espera da revelação?» In Resumo

«Nuno Júdice é uma das vozes poéticas mais significativas da literatura portuguesa desde os anos setenta. Na sua obra a paisagem e particularmente a pintura de paisagem são fundamentais como afirma o próprio: A minha relação com a natureza é determinante para o nascimento do poema, e isso tem a ver com a memória das estações, o clima. Mas o mais importante é o lado de transformações e variedade da paisagem

É uma paisagem teatro do mundo, onde dialogam filosofia, religião e pintura, que o poeta Nuno Júdice tenta alcançar desde a Noção de Poema (1972). A paisagem metamorfoseada que o poeta nos dá a ler, é um espelho da realidade. Como se pode ler em As Máscaras do Poema (1998) : Vemos então que a metáfora exige a presença de um contexto duplo: o de uma realidade, que se refere ao sujeito e transporta uma relação inconsciente desse sujeito como no seu todo ou em parte; e o de uma outra cena, em que uma peça destacada desse real vai sofrer uma outra designação, introduzindo um elemento de estranheza na percepção do real pelo sujeito. (AMP, 65)

Perante estas afirmações coloca-se a questão de compreender, na senda de Novalis, Heidegger, Kant e Edmund Burke, a transformação do sujeito através da paisagem. Mas de que forma é que o poeta transforma por seu turno a paisagem? Não será a pintura um caminho para o absoluto ? Ou será uma contemplação do eu à espera da revelação? Para responder a esta problemática, a minha leitura, à luz dos conceitos de ekphrasis, concederá uma grande importância ao mar lugar sagrado que atravessa toda esta obra. Tomarei como linha directiva a géo-poética defendida por Kenneth White. Trata-se não apenas de alcançar perspectivas geográficas, artistas ou filosóficas mas sim de caminhar, de traçar e calcorrear rotas que incluam o mundo, os homens e os lugares. Kenneth White refere que: La géopoétique, basée sur la trilogie éros, logos et cosmos, crée une cohérence générale – c’est cela que j’appelle « un monde.

Ora a paisagem que nós dá a ler e a ver Nuno Júdice aproxima-se de um certo panteísmo espinosiano no sentido em que esta surge como símbolo de reencontro com o sublime e o cosmos. E isto num ponto de vista que procura ascender às zonas de obscuridade do homem face si mesmo à procura de explicações da vida levando-nos a pensar no que Heidegger designava por dasein. Como se pode ler nestes versos de Estado dos Campos: O que corresponde ao reconhecimento do mundo, ou aquilo que, para uns, é uma explicação da vida, está contido nessa dimensão da natureza que nos é inacessível (…).

Antes de me debruçar em exemplos concretos de ecfrasis onde veremos inventariadas paisagens impressionistas e românticas começo por expor algumas noções de paisagem, a nível histórico. Michel Collot, um dos nomes mais significativos da geografia literária considera que le paysage est un carrefour où se rencontrent des éléments venus de la nature et la culture, de la géographie et de l’histoire, de l’intérieur et de l’extérieur, de l’individu et de la collectivité, du réel et du symbolique. Se, antes do século XIX, a noção de paisagem é pouco empregue e significa um país, e uma porção de espaço, hoje este conceito é interdisciplinar. Em Portugal, foi em 1567 que surgiu pela primeira vez com o nome de paugagem, numa referência na quarta parte de Crónica do Sereníssimo Senhor Rei D. Manuel de Damião de Góis.

No entanto é principalmente na época romântica que a paisagem se torna grande produtora de emoções e de experiências subjectivas como constata a historiadora Diana dos Santos. O gosto pela natureza e pelo sublime desenvolveu-se a partir do século XVIII em Inglaterra e Alemanha e é em torno desta estética que nos reunimos hoje. Pois para Nuno Júdice é primordial o retorno, quase metafísico, à natureza numa concepção de Schelling que implica um sistema que reúne Natureza e espírito com o intuito de atingir o absoluto» In Egídia Souto, A Pintura de Paisagem na Poesia de Nuno Júdice. Para uma Leitura Gnóstica e Geopoética do Mundo, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Via Panorâmica, Porto,  Instituto de Filosofia, Universidade do Porto, ifilosofia@letras.up.pt.

 Cortesia de FaculdadeLetrasUniversidadePorto/JDACT

Paisagem, poesia, pintura, JDACT, Conhecimento, Cultura,  

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Poesia. Dia do Mar. Sophia Mello B. Andresen. «Nasceram, como um fruto, da paisagem, a brisa dos jardins, a luz do mar, o branco das espumas e o luar»

jdact

Dionysos

«Entre as árvores escuras e caladas

O céu vermelho arde,

E nascido da secreta cor da tarde

Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro

Habita a sua face e cada membro

Tem essa perfeição vermelha e plena,

Essa glória ardente e serena

Que distinguia os deuses dos mortais».

Os Deuses

«Nasceram, como um fruto, da paisagem,

A brisa dos jardins, a luz do mar,

O branco das espumas e o luar

Extasiados estão na sua imagem».

In Sophia Mello Breyner Andresen, Dia do Mar, Editora Caminho, 2009, ISBN  978-972-211-586-5-

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Sophia Mello B. Andresen, Poesia, Cultura,

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Poesia. Dia do Mar. Sophia Mello B. Andresen. «És tu quem anuncia o poema nas estradas. E o vento torcendo as árvores desfolhadas canta e grita que tu vais chegar»

jdact

«É para ti que se enfeita e se consome

Desgrenhada e florida, a Primavera.

É por ti que a noite chama e espera.


És tu quem anuncia o poema nas estradas.

E o vento torcendo as árvores desfolhadas

Canta e grita que tu vais chegar.

Endymion

Por ti lutavam deuses desumanos.

E eu vi-te numa praia abandonado

À luz, e pelos ventos destroçado.

E os teus membros rolaram nos oceanos.

In Sophia Mello Breyner Andresen, Dia do Mar, Editora Caminho, 2009, ISBN  978-972-211-586-5-

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Sophia Mello B. Andresen, Poesia, Cultura,

domingo, 13 de agosto de 2023

Poesia. Natália Correia. «E os olhos emigrantes no navio da pálpebra encalhado em renúncia ou cobardia. Por vezes fêmea. Por vezes monja…»


Cortesia de wikipedia

Auto-retrato

«Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis».

A defesa do poeta
«Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
dou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis…».
(…)

In Natália Correia, Poesia completa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Natália Correia, Poesia, Açores, 

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Poesia. Soneto. Antero de Quental. «Mas que filha de reis, que anjo ou que fada, era essa que assim a mim descia, do meu casebre à húmida pousada?»

jdact

1862 - 1866

Visita

«Adornou o meu quarto a for do cardo,

Perfumei-o de almíscar recendente;

Vesti-me com a púlpura fulgente,

Ensaiando meus cantos, como um bardo.


Ungi as mãos e a face com o nardo

Crescido nos jardins do Oriente,

A receber com pompa, dignamente.

Misteriosa visita a quem aguardo.


Mas que filha de reis, que anjo ou que fada

Era essa que assim a mim descia,

Do meu casebre à húmida pousada?


Nem princesas, nem fadas. Era, flor,

Era a tua lembrança que batia…

Às portas de ouro e luz do meu amor!

In Antero de Quental, Sonetos Completos, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.


Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, Antero de Quental, Poesia, Açores, Cultura,

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Poesia. Soneto. Antero de Quental. «Sim, vivo e quente! E já a luz do dia não virá dissipá-lo nos meus braços como névoa da vaga fantasia…»

jdact

1862 - 1866

Amor Vivo

«Amar! Mas dum amor que tenha vida…

Não sejam sempre tímidos harpejos,

Não sejam só delírios e desejos

Duma doida cabeça escandecida…

 

Amor que viva e brilhe! Luz fundida

Que penetre o meu ser, e não só beijos

Dados no ar, delírios e desejos

Meu amor… dos amores que têm vida…

 

Sim, vivo e quente! E já a luz do dia

Não virá dissipá-lo nos meus braços

Como névoa da vaga fantasia…


Nem murchará do Sol à chama erguida…

Pois que podem os astros dos espaços

Contra uns débeis amores… se têm vida?»

In Antero de Quental, Sonetos Completos, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

 JDACT, Antero de Quental, Poesia, Açores, Cultura,

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais…»

 

jdact

«(…) Pessimismo antropológico e cosmológico até, mas nem sempre expresso através das formas literárias consuetas, dos achadilhos conceituosos da tese e da antítese, como em Petrarca e nos petrarquistas, da afirmação e da negação, da dúvida e da fé, da ilusão e da sua consciência lúcida (desilusão), da aceitação e da atitude inconformista, do crer e do duvidar. É talvez especificamente melódico o recurso à expressividade de um humorismo transcendente para significar a problemática da dor pelo próprio sujeito experimentada. A vocação do moralista ergue-o na passagem do concreto para a reflexão sentenciosa, mas sem um divórcio temático do aforístico em relação ao vivencial ou ao religioso.

Não raro, as fontes clássicas insinuam na palavra poética o recurso a uma erudição profundamente assimilada, mas porque o poeta sabe colocá-la no seu verdadeiro plano de arte ou de artifício, nunca a cultura abafa a experiência, e por isso nunca o artifício sábio ou técnico se sobrepõe à arte. Mas estamos em crer que os sonetos mais artisticamente valiosos de dom Francisco Manuel são os de tema predominantemente religioso, como Antes da Confissão. Já num outro estudo tivemos oportunidade para relevar os elementos essenciais de valorização estética desta composição e não vamos aqui repetir-nos. A palavra poética, nesta parte de As Segundas Três Musas, assume, como na Retórica renascentista, a plenitude de um valor directamente ligado ao humano. Não há dúvida de que uma tal poesia exprime, na arte, o próprio homem.

As Éclogas.

A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas.

A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo. O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados.

Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: Caminha sempre a um justo fim direito, / fugindo todo extremo perigoso. E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de dom Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes.

[...]» In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII,

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665)…»

jdact

«Dom Francisco Manuel Melo (1608-1666) ocupa de há muito tempo, como prosador, um lugar eminente na história da literatura portuguesa. São poucos, porém, os críticos que tenham consagrado à sua obra poética a atenção que ela merece. Já alhures escrevemos que a minimização do valor poético de dom Francisco Manuel Melo é, não raro, o resultado de posições apriorísticas ou ideias preconcebidas. Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665), mais um produto do talento multiforme do autor, do que a expressão literária autêntica de uma experiência humana profundamente sentida e vivida. Estamos em crer que, salvo poucas e honrosas excepções, podem contar-se pelos dedos aqueles que algum dia tenham contactado, em convívio diuturno, o mundo poético do Melodino, pois, de contrário, ter-se-iam logo apercebido do valor estético ímpar de algumas composições. Entre aqueles que, entre nós, estudaram a poesia de dom Francisco Manuel, merecem ser distinguidos José Pereira Tavares que, em 1921, nos deu uma edição antológica das suas Rimas Portuguesas e Orações Académicas, e, mais recentemente, António Correia de A. Oliveira, que ao nosso autor consagrou vários estudos de valor excepcional. Outros  investidores se têm ocupado do Melodino, nomeadamente Hernâni Cidade e Maria de Lourdes Belchior, com invulgar argúcia e erudição: mas não em trabalhos monográficos, ex professo dedicados à sua poesia.

Não nos cabe, estudar mais ou menos detidamente As Segundas Três Musas, mas só dedicar-lhes um antelóquio superficial: a poesia apresentar-se-á por si mesma, no valor genuíno da sua significação humana e estética. Seja-nos, contudo, lícito pôr em relevo um ou outro aspecto temático e de técnica formal mais digno de realce, principalmente numa perspectiva de pesquisa dos valores de fidelidade artística da palavra significante à sua carga vital de significado. Corresponde, então, a poesia do Melodino às dores da experiência vivencial expressa poeticamente? Cumpre-nos aqui observar, in limine, que o prisioneiro da Torre Velha fez da sua vida um poema, ou melhor, a sua vida está toda ela, com o sinete de uma experiência dolorosa, nalguns dos seus poemas. Documentá-lo é, porventura, mais fácil do que enunciá-lo.

Os Sonetos

A primeira parte de As Segundas Três Musas é formada por 100 sonetos, alguns deles documentos interessantes de engenhoso conceptismo, com profusão de imagens requintadas e metáforas de elaboração aguda. Nascem, assim, obscuridades e ambiguidades intencionais, bem de acordo com os preceitos da doutrina barroca. Não obstante tudo isso, que é afinal o tributo pago pelo autor à moda do tempo, já um crítico de grande autoridade foi levado a escrever que o nosso poeta preanuncia, nesta parte da sua obra, a lira anteriana. Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, quer repetindo alguns tópicos do petrarquismo numa poesia amorosa que, apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, dom Francisco Manuel consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil.

Não raro o tom vagamente preceptivo e normativo identifica-se com o epigramático: aliás o poeta hauria a lição em fontes autênticas, como são as da sabedoria popular que exprime o mais saboroso do seu suco em provérbios e ditos exemplarmente concisos. Também a consciência do tempo breve, da fugacidade da vida, da efemeridade das coisas, na certeza de que viver é peregrinar na terra do exílio, tem em dom Francisco Manuel um intérprete inspirado, a despeito da dificuldade de um tal tratamento poético, já então exemplarmente fixado em obras-primas consagradas como as de Sá Miranda e Camões, para só referirmos dois nomes da literatura portuguesa que lhe serviram de modelos e de mestres». In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII, 

domingo, 25 de setembro de 2022

Camilo Pessanha. Poesia. «Que se evola do teu nome vulgar! Enobreceu-o a quietação do olvido, Ó doce, ingénua, inscrição tumular»

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No Claustro de Celas

«(…) Eis quanto resta do idílio acabado,

Primavera que durou um momento...

Como vão longe as manhãs do convento!

Do alegre conventinho abandonado...


Tudo acabou... Anêmonas, hidrângeas,

Silindras, flores tão nossas amigas!

No claustro agora viçam as ortigas,

Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

 

Sobre a inscrição do teu nome delido!

Que os meus olhos mal podem soletrar,

Cansados... E o aroma fenecido


Que se evola do teu nome vulgar!

Enobreceu-o a quietação do olvido,

Ó doce, ingénua, inscrição tumular».

Soneto de Camilo Pessanha, Coimbra

JDACT

Camilo Pessanha, Poesia, JDACT,  Clepsidra,

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Poesia. Trago Alentejo na Voz. «Ai, ventos na madrugada, que me transcendem demais, amigos, amigos, papoilas no trigo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Trago Alentejo na voz

Do cantar da minha gente
Ai, rios de todos nós
Que te perdes na corrente
Ai, rios de todos nós
Que te perdes na corrente

Ai, planícies sonhadas

Ai, sentir de olivais

Ai, ventos na madrugada
Que me transcendem demais
Ai, ventos na madrugada
Que me transcendem demais

Amigos, amigos, papoilas no trigo

Só lá eu as tenho
E de braço dado contigo a meu lado
É de lá que eu venho

E de braço dado, cantando ao amor
Guardamos o gado, papoilas em flor
Que o vento, num brado, refresca o calor

E de braço dado, contigo a meu lado

Cantamos, amor

Ai, rebanhos de saudades
Que deixei naqueles montes
Ai, pastores de ansiedades
Bebendo a água nas fontes

Ai, pastores de ansiedades
Bebendo a água nas fontes

Ai, sede das tardes quentes
Ai, lembrança que me alcança
Ai, terra prenhe de gente
Nos olhos de uma criança

Ai, terra prenhe de gente

Nos olhos de uma criança

Amigos, amigos

Papoilas no trigo, só lá eu as tenho
E de braço dado, contigo a meu lado
É de lá que eu venho
E de braço dado, cantando ao amor

Guardamos o gado, papoilas em flor
Que o vento num brado, refresca o calor
E de braço dado, contigo a meu lado
Cantamos, amor
E de braço dado, cantando ao amor


Guardamos o gado, papoilas em florQue o vento, num brado, refresca o calor

E de braço dado, contigo a meu lado
Cantamos, amor»

https://youtu.be/2eE-OlTMTtE

Cortesia de Wikipedia/Musixmatch/JDACT

JDACT, Poesia, Alentejo, A Arte,

terça-feira, 8 de março de 2022

Poesia. Brasil. Paulo Moska, Francisco Gonçalves e Maria Betânia. «Onde estará o meu amor? Se a voz da noite responder onde estou eu, onde está você estamos cá dentro de nós. Sós»

Cordesia de wikipedia e jdact

Onde estará?

Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Onde estará o meu amor?»

Estou Pensando

«Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu, pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Pensando em você
Pensando em você
Pensando em você
Pensando em você»

Cortesia de wikipedia/JDACT

JDACT, Poesia, Encantamento, Brasil, 

sexta-feira, 4 de março de 2022

Poesia e Música. «I'm sorry you're tired the evening has hardly begun. Desculpe, você está cansado, a noite mal começou…»

jdact

Thanks For The Dance

«Thanks for the dance
I'm sorry you're tired
The evening has hardly begun

Thanks for the dance
Bride of the inspired
One-two-three, one-two-three, one

There is a rose in your hair
Your shoulders are bare
You've been wearing this costume forever
So turn up the music
Pour out the wine
Stop at the surface
The surface is fine
We don't need to go any deeper

Thanks for the dance
I hear that we're married
One-two-three, one-two-three, one
Thanks for the dance
And the baby you carried
It was almost a daughter or a son

And there's nothing to do
But to wonder if you
Are as hopeless as me
And as decent
We're joined in the spirit
Joined at the hip
Joined in the panic
Wondering if
We've come to some sort
Of agreement

It was fine, it was fast
We were first, we were last
In line at the
Temple of pleasure
But the green was so green
And the blue was so blue
I was so I
And you were so you
The crisis was light
As a feather

Thanks for the dance
It was hell, it was swell, it was fun
Thanks for all the dances
One-two-three, one-two-three, one»

In Leonard Cohen - Thanks for the Dance

Obrigado pela dança

«Obrigado pela dança
Me desculpe, você está cansado
A noite mal começou

Obrigado pela dança
Noiva do inspirado
Um-dois-três, um-dois-três, um

Há uma rosa no seu cabelo
Seus ombros estão nus
Você está vestindo esse traje para sempre
Então aumente a música
Despeje o vinho
Pare na superfície
A superfície é fina
Não precisamos ir mais fundo

Obrigado pela dança
Ouvi dizer que somos casados
Um-dois-três, um-dois-três, um
Obrigado pela dança
E o bebê que você carregou
Era quase uma filha ou um filho

E não há nada a fazer
Mas para saber se você
São tão sem esperança quanto eu
E tão decente
Estamos unidos no espírito
Juntas pelo quadril
Juntou-se ao pânico
A pensar se
Chegamos a algum tipo
De acordo

Foi bom, foi rápido
Nós fomos os primeiros, fomos os últimos
Em linha no
Templo do prazer
Mas o verde era tão verde
E o azul era tão azul
Eu era assim eu
E você era assim você
A crise foi leve
Como uma pena

Obrigado pela dança
Foi o inferno, foi incrível, foi divertido
Obrigado por todas as danças
Um-dois-três, um-dois-três, um…»

Tradução: Leonard Cohen - Thanks for the Dance

Cortesia de wikipedia

Poesia, Dança, Eternidade, Leonard Cohen,