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domingo, 14 de janeiro de 2024

Arrancados da Terra. Lira Neto. «Os vestígios do antissemitismo na Península são tão antigos quanto tais artefactos. No início do século IV, pouco antes de o cristianismo vir a se tornar a religião oficial do Império Romano, um total de dezanove bispos católicos da antiga Hispânia já se reunia no Concílio de Elvira…»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Todo herege e cismático há de ser lançado ao fogo eterno, na companhia do Diabo e dos seus anjos, a não ser que, antes da morte, seja incorporado e reintegrado à Igreja, dispunha o Directorium inquisitorum.

A presença judaica na Península Ibérica remonta à noite dos tempos. Entre os diversos mitos de origem, fala-se de um neto do bíblico Noé, de nome Tubal, que teria chegado ao lugar dois séculos após o presumido dilúvio universal, para então povoar o território a partir da fundação da cidade de Setúbal. Mas há relatos históricos que creditam o advento do judaísmo aos mercadores embarcados nos navios fenícios que alcançaram a região por volta de 1200 a.C., na escala de rotas comerciais rumo às ilhas da Grã-Bretanha. Outras narrativas míticas atribuem o momento da chegada em torno do ano 900 a.C., a bordo das embarcações de longo curso construídas pelo rei Salomão, supostamente originárias do porto de Társis, cidade aludida no Antigo Testamento, da qual se desconhece a localização exacta.

Existem também versões que dão conta de os hebreus lusitanos serem os descendentes de alguma das dez tribos de Israel dispersas e perdidas para sempre quando da invasão dos assírios à cidade de Samaria, em 722 a.C. Em outra variante, poderiam vir a ser os sucedâneos da grande diáspora provocada pela primeira destruição de Jerusalém pelo imperador babilónico Nabucodonosor II, em 587 a.C. Ou, ainda, procedentes da segunda destruição, em 70 a.C., depois da ocupação da cidade pelas tropas do comandante Tito, filho do imperador romano Vespasiano, a quem aquele sucederia no trono.

Malgrado tantas controvérsias e especulações, é certo afirmar que os judeus já estavam instalados na Península desde o período no qual esta viveu sob o domínio do Império Romano e era conhecida pelo nome comum de Hispânia. Achados arqueológicos mais remotos indicam a ocorrência de lápides funerárias judaicas na actual Espanha datadas dos séculos II e III d.C. Na Lusitânia, província a oeste, no território que é hoje Portugal, foi desenterrada das ruínas de uma antiga vila romana, nas imediações da cidade de Silves, no Algarve, uma plaqueta de mármore, provavelmente do final do século IV d.C., onde se lê, em hebraico, o nome próprio Yehiel. Mais categórica ainda é a chamada Pedra de Mértola, fragmento de uma inscrição tumular encontrada na região do Alentejo e no qual se pode observar o desenho de uma menorá, o candelabro judeu de sete braços, símbolo máximo do judaísmo na Antiguidade, antes de a estrela de David ser adoptada como tal, em tempos modernos, encimado por caracteres e números que indicam uma datação exacta do calendário latino, equivalente ao ano de 482 d.C.

Os vestígios do antissemitismo na Península são tão antigos quanto tais artefactos. No início do século IV, pouco antes de o cristianismo vir a se tornar a religião oficial do Império Romano, um total de dezanove bispos católicos da antiga Hispânia já se reunia no Concílio de Elvira para firmar 81 cânones, a serem seguidos como preceitos obrigatórios da vida devota. Além de legislar sobre temas como a castidade e o celibato clericais, o documento disciplinava a coexistência, ou melhor, o isolamento, entre cristãos e judeus. Um judeu ficava proibido de casar e de manter relações sexuais com uma cristã. O mesmo valia para uma judia em relação a um cristão. O indivíduo de uma religião não poderia sequer comer à mesma mesa com o adepto da outra.

Ao longo dos séculos, a política ibérica em relação aos judeus alternou instantes de tolerância com momentos de perseguição extrema. Com a derrocada do Império Romano do Ocidente e a ocupação da Península pelos bárbaros visigodos, povo de origem germânica que a dominou por três séculos, entre 418 e 711 d.C., os judeus locais conseguiram viver em relativa tranquilidade. Pelo menos até que o reino visigótico também aderisse ao cristianismo e o rei Sisebuto ensaiasse, em 613 d.C., a primeira tentativa de conversão em massa, punindo os mais obstinados com o degredo e o correctivo de cem chibatadas. Centenas foram deportados, outros tantos morreram espancados, mas a maior parte passou a praticar o judaísmo em segredo.

A instabilidade interna e a crescente ameaça de ocupação dos territórios ibéricos por parte dos muçulmanos, a partir de cidades situadas no Norte da África, desestabilizaram o poderio visigodo. Nos estertores do reinado cristão de ascendência germânica, sucessivos concílios realizados em Toledo elegeram os judeus como bodes expiatórios, acusando-os de conspirar a favor da entrada dos islâmicos na Península. A cada conclave da Igreja, a intolerância mostrava-se mais aguda. De início, determinou-se que os filhos de criptojudeus deveriam ser retirados dos pais e entregues a um mosteiro. Em seguida, deliberou-se que os falsos conversos receberiam como castigo a morte por apedrejamento. Por fim, decidiu-se que os judeus renitentes deveriam ser conservados vivos, mas mantidos como escravos de senhores cristãos». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.


Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT


JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Religião, Conhecimento,

sábado, 13 de janeiro de 2024

Arrancados da Terra. Lira Neto. «Os sambenitos dos que deviam escapar ao fogo vinham assinalados com a cruz de santo André, em diagonal, na forma de x, de cor vermelha. As vestes dos condenados à pena máxima apresentavam imagens de labaredas desenhadas e coloridas à mão»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Lá em baixo, cabia aos eclesiásticos de maior hierarquia ocupar os assentos principais do tablado armado na praça. Reservava-se ao inquisidor-geral uma espécie de trono acolchoado e de madeira torneada, instalado em local altivo, decorado por alcatifas e dosséis de cetins, damascos e veludos, nas cores vermelha e dourada. Os penitentes eram acomodados à frente deles, em área do estrado mais despojada, adornado por simples tecido negro. Ficavam dispostos conforme a gravidade das respectivas acusações: os sujeitos a penas tidas como mais brandas, penitências espirituais, prisões, desterros, galés, exílios ou açoites, ocupavam as filas inferiores da arquibancada; os destinados a penas de maior severidade, o que em suma significava a morte pela fogueira, as superiores.

Os sambenitos dos que deviam escapar ao fogo vinham assinalados com a cruz de santo André, em diagonal, na forma de x, de cor vermelha. As vestes dos condenados à pena máxima apresentavam imagens de labaredas desenhadas e coloridas à mão. Se as chamas se mostrassem voltadas para baixo, entendia-se que uma providencial confissão de ter praticado o judaísmo em segredo, depois da condenação, resultara na clemência por parte dos inquisidores. Se as flamas estivessem direcionadas para cima, rodeadas por figuras de cães, serpentes, grifos, demónios e de uma estampa representando o rosto do próprio penitente, o destino inexorável seria a fogueira, purgatorius ignis, a entrega do herege ao fogo purificador. Nesse caso, para maior vexame, o sambenito era complementado pela carocha, chapéu alto e pontudo, feito de papel, ilustrado com motivos idênticos aos das vestes.

Tais sortes, contudo, podiam ser alteradas ao longo da cerimónia, a depender das atitudes e do comportamento do penitente. Um súbito pedido de confissão íntima aos inquisidores, mesmo à última hora, poderia provocar a interrupção momentânea do auto e a revisão da sentença prévia. Quando menos, uma declaração de arrependimento considerada sincera resultaria na caridade de se mandar estrangular o réu por meio do garrote antes de atirá-lo ao fogo. Estabelecia-se assim um círculo de incertezas que provocava suspense e mantinha inflamado o interesse da plateia.

Rezado o introito da Santa Missa, coube naquela manhã ao padre Francisco Ferreira, sacerdote da Companhia de Jesus, pregar o sermão aos presentes, em nome da redenção dos pecados humanos. As prédicas dos autos de fé em Portugal tinham como mote a censura à lei mosaica, a Lei de Moisés, o judaísmo, a exortação à Paixão de Cristo, a alusão ao Juízo Final e a referência aos castigos eternos prognosticados para os que se desvirtuassem dos mandamentos da Igreja, abraçando falsas doutrinas.

Seguia-se ao sermão a leitura do édito de fé, no qual todos os moradores locais eram advertidos a confessar as próprias culpas e a dar notícia, nos dias subsequentes, de quaisquer outras pessoas conhecidas incursas em delitos passíveis de investigação por parte dos inquisidores. Chegava-se, enfim, ao momento pelo qual a multidão mais ansiava: a leitura das sentenças dos acusados, feita por clérigos de voz altissonante, previamente escolhidos para a função. Um a um, ao ouvirem os respectivos nomes, os prisioneiros deviam levantar-se de seu lugar e caminhar para o centro do cadafalso, à vista de todos, a fim de ouvirem a súmula de seu processo e o consequente veredicto. Como eram muitos os réus, a cerimónia podia prolongar-se por horas e, às vezes, mesmo alguns dias. Mas a atenção da plateia jamais arrefecia.

O público acompanhava, com sádico regozijo, as reacções dos penitentes. Alguns deles choravam, baixavam a cabeça, tentavam esconder o rosto com as mãos. Outros, impetuosos, gritavam impropérios e atiravam pragas aos juízes, sendo de pronto amordaçados pelos guardas. Havia ainda os que se ajoelhavam, em desespero, implorando por misericórdia. Mas também os que permaneciam impassíveis diante da hora final, o que podia ser interpretado como gesto de derradeira arrogância.

Quando Gaspar Rodrigues foi chamado ao meio do tablado, o clérigo encarregado de ler a súmula de seu processo passou em revista todas as circunstâncias que o haviam levado a ser arrancado de casa, diante dos filhos pequenos, havia três anos e quatro meses, pelo meirinho e pelos guardas do Santo Ofício. A acusação: praticar o judaísmo em segredo, mesmo sendo baptizado na fé de Cristo. Era tido e havido na conta de herege. Vivia como católico em público, mas prestaria culto, na intimidade do lar, à Lei de Moisés. Tinha sido denunciado, portanto, como criptojudeu». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

 

Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT

 

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Religião, Conhecimento,

Arrancados da Terra. Lira Neto. «O vozerio do populacho era entrecortado pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo estrépito das matracas e pelo entoar contínuo de cânticos religiosos, a exemplo do Te Deum laudamus (Nós te louvamos, Senhor) e o Veni Creator Spiritus (Vem, espírito criador)…»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Aos 23 dias de Fevereiro do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1597, o quinto dia do mês de Adarde 5357, no calendário judaico, um friorento domingo de Inverno, Gaspar Rodrigues Nunes, 39 anos, comerciante com negócio instalado próximo ao Arco dos Pregos, pórtico de pedra da antiga muralha medieval de Lisboa, constava do grupo de noventa penitentes obrigados a envergar o traje da infâmia, a marca da desonra. A túnica de linho tingido de amarelo sem golas ou mangas, com meras aberturas para a cabeça e os braços, o chamado sambenito (corruptela provável de saccus benedictus, saco bendito) era o sinal imposto pela Inquisição (maldita) para identificar os hereges, os blasfemos, os apóstatas, os bígamos, os devassos, os sodomitas e, sobretudo, os que haviam atentado contra a fé em Cristo ao professar o judaísmo.

Uma forma de distinguir e apartar os perversos, as almas desviadas do rebanho de Deus, do convívio com os ditos bons cristãos e homens de bem do reino. Separar, a partir daquele momento e para todo o sempre, os que andam nas trevas dos que caminham na luz. Pela exibição ostensiva de suas culpas, os infiéis seriam expostos ao escárnio e ao desprezo dos considerados puros de coração. Quid enim magis persequitu vitam bonorum quam vita iniquinorum? Que coisa persegue mais a vida dos bons que a maldade dos maus?, indagava, em sermões, Afonso de Castelo Branco, bispo de Coimbra.

Na penumbra, antes dos primeiros raios da manhã, Gaspar e os demais sentenciados foram postos a caminhar em fila, pés descalços e velas amarelas nas mãos, cada um deles ladeado por dois servidores do Tribunal do Santo Ofício. À frente do grupo iam os frades dominicanos com seus hábitos brancos e negros, trazendo o estandarte da Inquisição (maldita), no qual constavam a cruz de madeira, símbolo da cristandade; a espada, distintivo do castigo contra os ímpios; e o ramo de oliveira, insígnia da benevolência com os pecadores arrependidos. Misericórdia e justiça, lia-se, a propósito, na divisa bordada às margens da flâmula.

Num cortejo subsequente à procissão dos condenados, planeado para sublinhar a autodeclarada dignidade de seus componentes, seguia a tropa de comissários do Santo Ofício, alguns à sela de cavalos ornamentados com penachos e arreios solenes. Abriam passagem para os mais altos dignitários da instituição, bem como para os juízes dos tribunais seculares e, por fim, para o inquisidor-geral, António Matos Noronha, por mercê de Deus e da Santa Igreja de Roma, bispo de Elvas,, gorro negro à cabeça, escoltado à luz de tochas empunhadas por nobres de destacada linhagem.

A fileira humana na qual marchava o inditoso Gaspar Rodrigues tinha início na saída dos cárceres do Tribunal, no Palácio dos Estaus, prédio mandado erguer em 1449 para albergar membros e convidados da corte, mas que desde 1571 servia de sede à Inquisição. Da praça do Rossio, a malta atravessou ruas e esplanadas centrais da cidade, sob os apupos e chacotas dirigidos pelos populares, até chegar ao Terreiro do Paço, defronte ao palácio real, junto ao Tejo. Ali, havia sido armado um cadafalso de madeira, estrutura em forma de palco flanqueada por um conjunto de arquibancadas, reservadas aos sentenciados. À margem do quadrilátero, espalhada por toda a redondeza, uma multidão aguardava, excitada, a chegada do préstito ao lugar no qual seria celebrada a sequência do auto de fé, ritual maior da Inquisição, evento carregado de simbologias encenadas de modo minucioso para despertar sentimentos de respeito, admiração e temor. Parece muito aceitado celebrar essa solenidade nos dias festivos, sendo proveitoso que muita gente presencie o suplício e o tormento dos réus para que o medo os retraia do delito, previa o Directorium inquisitorum, o Manual dos inquisidores.

O vozerio do populacho era entrecortado pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo estrépito das matracas e pelo entoar contínuo de cânticos religiosos, a exemplo do Te Deum laudamus (Nós te louvamos, Senhor) e o Veni Creator Spiritus (Vem, espírito criador), sobreposição de sons que conferia uma atmosfera ainda mais fragorosa ao espectáculo, a essa altura já iluminado pelo lusco-fusco do alvorecer.

Era costume o próprio rei, sentado ao lado da rainha e dos filhos, assistir à cerimónia do alto das janelas do palácio, convertidas em camarotes. Porém, havia dezasseis anos isso não ocorria, pois desde 1581 Portugal passara a ser governado pelo monarca espanhol, Filipe II, decorrência da União Ibérica, instituída após a crise dinástica provocada pelo trágico desaparecimento do jovem Sebastião na batalha contra os mouros nas areias do Marrocos. Com Filipe II governando a partir de Madrid, os lugares da sacada real, durante os autos de fé realizados em Lisboa, passaram a ser honrados pela assistência do Conselho de Governadores do Reino». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

 

Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT

 

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Religião, Conhecimento,  

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Arrancados da Terra. Lira Neto. «O cemitério judaico de St. James Place é um dos poucos vestígios dessa aventura ainda envolta em brumas. Uma saga que, caso seja considerada, permite estabelecer uma ligação directa entre as fogueiras da Inquisição (maldita) na Península Ibérica…»

 

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«(…) Na Peter Minuit Plaza, que recebeu esse nome, aliás, em homenagem a um dos directores da comunidade holandesa em Manhattan, encontra-se outro portal do tempo para a história de que trata este livro. Logo à entrada da praça, na base do mastro onde luzem as estrelas e listas da bandeira dos Estados Unidos, uma placa inaugurada em 1954, no tricentenário de um episódio quase mítico ocorrido em Nova Amesterdão, apresenta a imagem de dois leões ladeando a estrela de David, símbolos do judaísmo. Logo abaixo deles, lê-se a inscrição:

EDIFICADO PELO

ESTADO DE NOVA IORQUE

PARA HONRAR A MEMORIA

DOS VINTE E TRÊS HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS

QUE DESEMBARCARAM EM SETEMBRO DE 1654

E FUNDARAM A PRIMEIRA COMUNIDADE JUDAICA

NA AMÉRICA DO NORTE

Quem eram, afinal de contas, as tais 23 pessoas que aportaram em Manhattan no longínquo ano de 1654? Em que navio chegaram? De onde vinham? Seriam procedentes do Brasil, como muitos querem crer? Deixaram esses homens, mulheres e crianças evidências concretas, marcas incontestáveis da sua existência? É possível estabelecer, com solidez de fontes, as suas identidades e reconstituir as suas respectivas trajectórias? Ou não passará tudo de uma epopeia tão heróica quanto falsa, contrafacção histórica, mito de origem, como afirmam os investigadores mais cépticos?

É preciso procurar meticulosamente os fragmentos de um intrincado quebra-cabeça, para recompor as possíveis circunstâncias do episódio celebrado em bronze. Há peças desse enigma que não parecem encaixar, outras talvez permaneçam perdidas para sempre. Os documentos são esparsos, fugidios, exigindo múltiplos esforços de interpretação para produzir uma narrativa consistente, um relato que faça o mínimo sentido.

O cemitério judaico de St. James Place é um dos poucos vestígios dessa aventura ainda envolta em brumas. Uma saga que, caso seja considerada, permite estabelecer uma ligação directa entre as fogueiras da Inquisição (maldita) na Península Ibérica, a opulência da época de ouro dos Países Baixos, as guerras sangrentas do chamado Brasil holandês, e os primórdios da cosmopolita Nova Iorque. Como pano de fundo de toda essa trama, sobressai a vida eternamente à deriva dos que, para fugir à morte, se lançavam para os confins de outras terras e o desconhecido de novos mundos». In lira Neto, Arrancados da Terra, 2021, Penguin Random-House Grupo Editorial, 2021, chancela Objectiva, ISBN 978-989-784-257-3.

Cortesia de PRHGEditorial/JDACT

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Narrativa, 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Arrancados da Terra. Lira Neto. «… os nativos chamavam Manna-hata ouMan-a-ha-tonh (lugar onde se colhe madeira para fazer arcos [de flechas], segundo alguns; ilha de muitas colinas, para outros)…»

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«(…) Wall Street, a Rua da Muralha, recebeu esse nome devido à paliçada de madeira que existia na rectaguarda da povoação, para servir de protecção contra o ataque de índios, corsários, piratas e demais invasores. Constituído por estacas sólidas de pontas afiadas, com três metros de altura e cravado a mais de um metro de profundidade, o paredão tinha cerca de 700 metros de extensão. Atravessava a ilha de ponta a ponta no sentido longitudinal, do limite do East River às imediações da actual Trinity Church, a tradicional igreja anglicana na esquina de Wall Street com a Broadway, faixa de território então banhada pelas águas do rio Hudson (tudo a oeste dessa parte da ilha também é fruto de aterros posteriores).

No local em que havia a tosca amurada, os oito quarteirões da moderna Wall Street tornaram-se o símbolo máximo do poder financeiro. A exemplo do que ocorre nos demais cruzamentos da rua, a intersecção com Water Street é assinalada pela presença de executivos e trabalhadores de fatos sóbrios que se misturam com turistas de máquina fotográfica a tiracolo. A cada instante, do alto dos autocarros de dois andares apinhados de turistas, câmaras de telemóveis apontam em todas as direcções. Cinco cruzamentos adiante, deixando para trás os engravatados de ar impaciente e os forasteiros que caminham, abismados, de pescoço erguido, alcança-se a Peter Minuit Plaza, no ponto mais meridional da ilha.

Basta olhar em redor para constatar que quase ninguém se detém, por um minuto sequer, diante de um pequeno bloco de granito bruto a um dos cantos da praça. Nele está afixada a maquete em bronze de uma velha cidade colonial chamada Nova Amesterdão,- o nome com o qual os holandeses, primeiros colonizadores de uma região a que os nativos chamavam Manna-hata ouMan-a-ha-tonh (lugar onde se colhe madeira para fazer arcos [de flechas], segundo alguns; ilha de muitas colinas, para outros), baptizaram o que viria a ser Nova Iorque.

Embora seja detalhado, retratando casas de padrão holandês com telhados inclinados, sistemas de canais navegáveis, uma fortaleza à beira da água e até um típico moinho de vento, o mapa tridimensional em bronze não parece despertar a atenção dos passantes. Estes mostram-se mais interessados em seguir céleres para a esquerda, para apanhar o próximo ferry com destino a Staten Island, passeio com direito à visão das skyline de Manhattan sobre as águas; ou sobretudo à direita, a fim de enfrentar a fila quilométrica da bilheteira dos barcos que levam à Estátua da Liberdade. Mesmo entre os nova-iorquinos, a história de Nova Amesterdão ainda está rodeada por uma aura de mistério e desconhecimento. É provável que muitos dos cidadãos da ilha não associem as cores branca, azul e laranja da actual bandeira de Nova Iorque ao pavilhão tricolor da Holanda no século XVII, as mesmas que estão estampadas no escudo de uma das principais equipas de basebol da cidade, os New York Mets, assim como no emblema dos New York Knicks, a marca mais valiosa da NBA (National Basketball Association), segundo a revista Forbes». In lira Neto, Arrancados da Terra, 2021, Penguin Random-House Grupo Editorial, 2021, chancela Objectiva, ISBN 978-989-784-257-3.

Cortesia de PRHGEditorial/JDACT

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Narrativa,

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Arrancados da Terra. Lira Neto. «… agora, St' James Street sofre duas suaves inclinações à direita, mudando de nome e tornando-se, primeiro, Pearl Street (Rua da Pérola, assim baptizada graças às muitas ostras perlíferas encontradas na região pelos antigo, colonizadores)»

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Para viver o sem-fim da eternidade

«(…) Os poucos que têm oportunidade de entrar no local, com a devida autorização do reservado administrador oficial, constatam que, entre as covas remanescentes, a mais antiga está datada de 1683, portanto, decorridas quase três décadas da fundação do cemitério. A lápide original de pedra tosca, com epitáfio em versos hebraicos, foi posteriormente substituída por outra, de metal, com texto em ladino, língua semelhante ao espanhol arcaico falada pelos judeus sefarditas, isto é, os naturais de Sefarad, o nome citado no Antigo Testamento para uma terra que seria, segundo a tradição judaica, a Península Ibérica. Numa tradução livre, indica:

DEBAIXO DESTA LOUSA SEPULTADO,

JAZ BEN]AMIN BUENO DE MESQUITA.

FALECEU E DESTE MUNDO FOI TOMADO

NO 4 DE CHESHVAN, SUA ALMA BENDITA

AQUI DOS VIVENTES SEPARADA

ESPERA POR SEU DEUS, QUE RESSUSCITA

OS MORTOS DO SEU POVO COM PIEDADE

PARA VIVER O SEM.FIM DA ETERNIDADE

(1683)

O Cheshvan é o oitavo mês do calendário eclesiástico judaico. Além do idioma, o apelido do morto atesta a sua origem ibérica. Os que continuam a seguir por St' James com destino ao extremo sul de Manhattan mal desconfiam de que, talvez por não terem reparado no pequeno cemitério, deixaram para trás um dos possíveis limiares de uma história tão terrível quanto admirável, cheia de peripécias, reviravoltas e episódios trágicos que roçam o inacreditável, e, por isso mesmo, constituída por muitas incertezas, controvérsias e incógnitas.

Nesse ponto, o que mais chama a atenção são os grandes condomínios que se erguem dos dois lados da rua. É o caso do sinuoso Chatham Green, prédio de 21 andares e arquitectura modernista, construído em forma de S. Nada mais nas imediações remete para a época da instalação do cemitério. A ilha de Manhattan era atravessada por regatos, pântanos e quedas de água, ocupada por florestas de pinheiros, carvalhos e castanheiros imemoriais. Os copiosos estuários abrigavam colónias de mexilhões e mariscos. Alces e veados pastavam incautos pelos bosques, espiados por lobos selvagens' Os ursos também eram numerosos e ameaçadores. Cisnes, patos e gansos nadavam em rios cheios de salmões, trutas e linguados partilhando os alagadiços com mergulhões, garças e castores de pele lustrosa.

O pequeno núcleo habitacional existente no século XVII situava-se para além da área onde, agora, St' James Street sofre duas suaves inclinações à direita, mudando de nome e tornando-se, primeiro, Pearl Street (Rua da Pérola, assim baptizada graças às muitas ostras perlíferas encontradas na região pelos antigo, colonizadores); depois, Water Street (Rua da Água, pelo facto de, antes de os aterros centenários a terem distanciado cada vez mais das margens do East River, ela ter demarcado a costa da zona baixa a leste da ilha). Hoje, a rua dista cerca de 200 metros dos armazéns e barracões da antiga zona portuária, os mesmos que, revitalizados, abrigam hoje lojas de marca, restaurantes sofisticados e as instalações do museu marítimo da cidade. A velha Water Street, que antes margeava o rio, tornou-se um corredor de titãs arquitectónicos de vidro, cimento e aço. No ponto em que cruza a célebre Wall Street, chega-se por fim ao limite geográfico do que, em 1656, data da fundação da necrópole dos judeus, era então considerado o início da área urbana da Manhattan colonial». In Lira Neto, Arrancados da Terra, 2021, Penguin Random House Grupo Editorial, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

Cortesia de PRHGEditorial/JDACT

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Narrativa,

Arrancados da Terra. Lira Neto. «É difícil imaginar que uma região feérica como esta se situou, um dia, ainda que há cerca de três séculos e meio, numa zona rural»

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Para viver o sem-fim da eternidade

«Quem segue a pé de Chinatown em direcção ao Distrito Financeiro de Nova Iorque tarvez passe distraído pero número 55 de St. James Place, pelos 22 metros de comprimento de um muro baixo feito de pedras sobrepostas, encimado por grades pontiagudas e enferrujadas. Por trás dele, nada de excepcional parece chamar a atenção no pequeno descampado estabelecido metro e meio acima da calçada, o solo coberto de musgo e ervas daninhas. À primeira vista, aparenta ser apenas um terreno baldio, simples vazio urbano dando para os fundos deteriorados de prédios populares de três e cinco andares. Assim de passagem, só mesmo uma singular dose de atenção e curiosidade discernirá a praça rectangular disposta no solo do outro lado, as letras em alto-relevo recobertas pela pátina do tempo:

PRIMETRO CEMITÉRIO

DA

SINAGOGA ESPANHOLA E PORTUGUESA

SHEARITH ISRAEL

DA CIDADE DE NOVA IORQUE

1656-1833

Shearith Israel, nome da congregação mais antiga de Manhattan, significa Remanescente de Israel, referência ao povo judeu, o povo que presumivelmente descende da personagem bíblica Jacob, o último dos patriarcas, que segundo a Torá, o livro sagrado do judaísmo, foi rebaptizado Yisrael (aquele que luta com Deus), depois de medir forças com um anjo guardião disfarçado de ser humano. Os seus doze filhos terão dado origem às doze tribos israelitas, ou seja, ao povo de Israel. Se atraído pela discreta tabuleta, o observador mais atento perceberá que os blocos cinzentos dispostos de modo simétrico no terreno, do outro lado do gradeamento, são na verdade velhos túmulos e lápides funerárias, alguns deles quase ocultos pela vegetação rasteira. As inscrições dos jazigos, obscurecidas por sucessivas camadas de fuligem e poeira, revelam na sua maioria caracteres em hebraico.

À esquerda, outra placa metálica, ainda mais afectada pela oxidação fosco-esverdeada que denuncia a ausência de manutenção, apresenta uma breve informação adicional. Cravado num recôndito pórtico de tijolos, meio oculto pela gambiarra dos fios expostos que saem da parede do prédio vizinho, o letreiro indica que ali está o que resta do primeiro cemitério judeu nos Estados Unidos, consagrado no ano de 1656, quando foi descrito como fora da cidade.

É difícil imaginar que uma região feérica como esta se situou, um dia, ainda que há cerca de três séculos e meio, numa zona rural. De facto, os registos históricos dão conta de que, muito antes de os nivelamentos, aterros e drenagens alterarem de forma radical a topografia da ilha, as catacumbas dos judeus se encontravam mesmo fora da cidade, jazendo no sopé da colina de uma quinta bucólica, com vista privilegiada e imediata para o East River. Hoje, as sepulturas de St. James Place são uma relíquia histórica quase ignorada. Até princípios do século XIX, as dimensões do espaço eram bem maiores, embora já não consigamos defini-las com precisão. A progressiva expansão urbana acabou por tragar todo o espaço em redor, inclusive os próprios sepulcros, forçando a paulatina exumação de centenas de restos mortais, transferidos para outros locais à medida que a cidade se agigantava.

Reduzido a menos de 200 metros quadrados de área, o terreno submergiu numa relativa obscuridade. O cadeado no portão impede a entrada espontânea de visitantes. O mau estado de conservação e a presença de eventuais consumidores de crach pelas redondezas apressam o passo dos transeuntes, inibindo olhares mais contemplativos». In Lira Neto, Arrancados da Terra, 2021, Penguin Random House Grupo Editorial, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

Cortesia de PRHGEditorial/JDACT

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