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terça-feira, 2 de julho de 2024

Amin Maalouf. As Cruzadas vistas pelos Árabes. «… algumas mulheres preparam comida. A chegada dos fugitivos com os turcos no seu encalço espalha o terror. Alguns, que tentaram atingir os bosques vizinhos, são rapidamente alcançados»

jdact e wikipedia

A Invasão. 1096-1100

«(…) É verdade que os franj perderam cerca de seis mil homens, mas os que restam são seis vezes mais numerosos, e esta é a única oportunidade para se livrarem deles. Para tanto, ele preferiu destacar dois espiões, gregos, para o acampamento de Citivot, afim de anunciar que os homens de Renaud estão em excelente condição, que conseguiram apoderar-se da própria Nicéia, e que estão firmemente decididos a não permitir que seus correligionários lhes disputem as riquezas. Enquanto isso, o exército turco preparará uma gigantesca emboscada. De facto, os rumores cuidadosamente propagados suscitam no acampamento de Citivot a confusão prevista. Formam-se grupos, injuria-se Renaud e seus homens. Logo tomam a decisão de pôr-se a caminho para participar do saque de Nicéia.

Mas eis que, subitamente, não se sabe muito bem como, um homem que conseguiu escapar da expedição de Xerigordon chega, revelando a verdade quanto à sorte de seus companheiros. Os espiões de Kilij Arslan pensam ter fracassado em sua missão, já que os mais sábios entre os franj pregam a calma. Mas, passado o primeiro momento de consternação, a exaltação volta.

A multidão se agita e brada, quer partir imediatamente e não mais para participar de meros saques, e sim vingar os mártires. Aqueles que hesitam são tratados de covardes. Finalmente, os mais enfurecidos obtêm ganho de causa, e a partida é fixada para o dia seguinte.

Tendo seu artifício descoberto, ainda que o objectivo houvesse sido previamente atingido, os espiões do sultão triunfam e mandam dizer ao seu senhor que se prepare para o combate. Na madrugada de 21 de Outubro de 1096, os ocidentais deixam seu acampamento. Kilij Arslan não está longe. Ele passou a noite nas colinas próximas a Citivot. Seus homens estão nos seus lugares, bem escondidos. Ele mesmo, de onde está, pode avistar ao longe a coluna dos franj levantar uma nuvem de poeira.

Algumas centenas de cavaleiros, a maioria sem armadura, andam na frente, seguidos por uma multidão de infantes em desordem. Estão andando há menos de uma hora quando o sultão ouve o clamor que se aproxima. O sol que se ergue atrás dele golpeia-os em pleno rosto. Prendendo a respiração, ele faz sinal aos seus emires comandados para que se mantenham alertas.

O instante fatídico é chegado. Um gesto apenas perceptível, algumas ordens sussurradas aqui e ali, e eis os arqueiros retesando lentamente seus arcos. De repente, mil flechas jorram num único e longo assobio. A maioria dos cavaleiros desaba nos primeiros minutos. Depois, os infantes são dizimados por sua vez. Quando se travou o combate corpo-a-corpo, os franj já estavam derrotados.

Aqueles que se encontravam na rectaguarda voltaram correndo para o acampamento, onde os que repousavam eram despertados. Um velho sacerdote celebra um ofício religioso, algumas mulheres preparam comida. A chegada dos fugitivos com os turcos no seu encalço espalha o terror. Alguns, que tentaram atingir os bosques vizinhos, são rapidamente alcançados». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

Amin Maalouf, JDACT, Literatura, Cruzadas, Árabes,

Amin Maalouf. As Cruzadas vistas pelos Árabes. «Podem ser vistos, nesses primeiros dias de Outubro, olhando desesperadamente para o céu, mendigando algumas gotas de chuva. Em vão. Após uma semana um cavaleiro chamado Renaud…»

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Invasão. 1096-1100

«Kilij Arslan é apanhado de surpresa. Quando lhe chegam as primeiras noticias, os atacantes já estão sob os muros de sua capital; e o Sol ainda não atingia o horizonte quando os cidadãos veem subir a fumaça dos incêndios. Imediatamente, o sultão manda uma patrulha de cavaleiros, que se choca com os franj. Esmagados pelo número, os turcos são massacrados. Apenas raros sobreviventes voltam, ensanguentados, para Niceia. Vendo seu prestígio ameaçado, Kilij Arslan resolve começar a batalha imediatamente, mas os emires de seus exércitos o desaconselham. A noite já vai cair e os franj retiram-se às pressas para seu acampamento.

A vingança terá que esperar. Contudo não por muito tempo. Aparentemente animados com seu sucesso, os ocidentais repetem a façanha duas semanas mais tarde. Dessa vez, o filho de Suleiman, avisado a tempo, segue passo a passo sua progressão. Uma tropa franca, compreendendo alguns cavaleiros, mas sobretudo milhares de saqueadores esfarrapados, pega a estrada de Niceia, depois, contornando a aglomeração, dirige-se para o leste e toma de surpresa a fortaleza de Xerigordon. O jovem sultão se decide.

À frente de seus homens, cavalga rapidamente em direcção à pequena praça-forte onde, para comemorar sua vitória, os franj embebedam-se, incapazes de imaginar que seu destino já esteja selado. Pois Xerigordon apresenta uma armadilha que os soldados de Kilij Arslan conhecem bem, mas que esses estrangeiros inexperientes não foram capazes de descobrir: o abastecimento de água que se situava fora, bastante longe das muralhas. Então os turcos não precisam de muito tempo para interditar seu acesso. Basta-lhes tomar posição ao redor da fortaleza e não se mover mais. A sede luta por eles.

Para os sitiados, começa um suplício atroz: eles chegam a beber o sangue de suas montarias e sua própria urina. Podem ser vistos, nesses primeiros dias de Outubro, olhando desesperadamente para o céu, mendigando algumas gotas de chuva. Em vão. Após uma semana um cavaleiro chamado Renaud, chefe da expedição, aceita a capitulação com a condição de que lhe seja poupada a vida. Kilij Arslan, que exigiu que os franj denunciem publicamente a sua religião, não fica pouco surpreso quando Renaud se diz pronto não só a converter-se ao islamismo, mas também a combater ao lado dos turcos contra seus próprios companheiros. Vários de seus amigos, que se prestaram às mesmas exigências, são enviados como prisioneiros para as cidades da Síria ou da Ásia Central. Os outros são mortos pela espada. O jovem sultão está orgulhoso de sua proeza, mantém-se ponderado. Após ter concedido a seus homens um prazo para a tradicional partilha dos bens restados da guerra, ele os coloca em alerta a partir do dia seguinte». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

Amin Maalouf, JDACT, Literatura, Árabes,

Amin Maalouf. As Cruzadas vistas pelos Árabes. «Não tendo provavelmente mais nada que obter de sua vizinhança, eles tomaram, dizem, o rumo de Niceia, atravessando alguns vilarejos, todos cristãos, e apossaram-se das safras que acabavam de ser colocadas em celeiros»

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A Invasão. 1096-1100

«(…) Mesmo se o exército bizantino, dilacerado há anos por crises internas, fosse capaz de lançar-se sozinho numa Guerra de Reconquista, ninguém ignora que Alexis sempre pode apelar para auxiliares estrangeiros. Os bizantinos nunca hesitaram em recorrer aos serviços dos cavaleiros vindos do Ocidente. Mercenários com armaduras pesadas ou peregrinos a caminho da Palestina, são numerosos os franj que visitam o Oriente. Em 1096 eles não eram estranhos aos muçulmanos. Cerca de vinte anos antes, Kilij Arslan ainda não era nascido, mas os velhos emires lhe contaram, um desses aventureiros de cabelos louros, um tal de Roussel de Bailleul, que conseguira estabelecer um Estado autónomo na Asia Menor, marchou inclusive sobre Constantinopla. Apavorados, os bizantinos não tiveram outra escolha senão apelar para o pai de Kilij Arslan, que chegou a duvidar do que ouvia quando um enviado especial do basileu veio suplicando-lhe que voasse para socorrê-lo. Os cavaleiros turcos tinham-se então, de facto, dirigido para Constantinopla e conseguido vencer Roussel. Por isso, Suleiman fora generosamente recompensado em ouro, cavalos e terras.

Desde então, os bizantinos desconfiam dos franj, mas os exércitos imperiais, constantemente carentes de soldados experientes, veem-se obrigados a contratar mercenários. Não unicamente franj, aliás; os guerreiros turcos são numerosos sob as bandeiras do império cristão. E precisamente graças a compatriotas engajados no exército bizantino que Kilij Arslan fica sabendo, em Julho de 1096, que milhares de franj se aproximam de Constantinopla. O quadro pintado pelos informantes deixa-o perplexo. Esses ocidentais parecem-se muito pouco com os mercenários que se costuma ver. É verdade que há, entre eles, algumas centenas de cavaleiros e um número importante de infantes armados, mas também há milhares de mulheres, crianças, velhos em andrajos: parece um povo desalojado de suas terras por um invasor. Conta-se também que trazem todos, costuradas nas costas, faixas de tecido em forma de cruz. O jovem sultão, encontrando dificuldades em avaliar o perigo, pede aos seus agentes que dobrem a vigilância e que o deixem constantemente a par dos factos e condutas desses novos invasores. Como medida de precaução, ele manda verificar as fortificações de sua capital. As muralhas de Niceia, que tem mais de um farsakh (seis mil metros) de extensão, são coroadas por 240 torres. A sueste da cidade, as águas calmas do lago Ascanios constituem uma excelente protecção natural.

No entanto, nos primeiros dias de Agosto, a ameaça torna-se mais evidente. Os franj atravessam o Bósforo, escoltados por navios bizantinos e, mesmo sob um sol opressivo, avançam ao longo da costa. Apesar de terem sido vistos saqueando a caminho mais de uma igreja grega, pode-se ouvi-los bradar que vem exterminar os muçulmanos. Seu chefe seria um eremita chamado Pierre. Os informantes avaliam que sejam algumas dezenas de milhares, mas ninguém sabe dizer onde seus passos os levam. Parece que o imperador Alexis resolveu instalá-los em Citivot, um acampamento que ele acomodou anteriormente para outros mercenários, a menos de um dia de caminhada de Niceia. O palácio do sultão fica em estado de alerta. Enquanto os cavaleiros turcos preparam-se para alar seus cavalos a qualquer momento, assiste-se a um vaivém continuo de espiões e batedores que relatam os mínimos movimentos dos franj. Conta-se que cada manhã eles deixam o acampamento em hordas de vários milhares para explorar a vizinhança, onde saqueiam algumas fazendas e incendeiam outras, antes de voltar para Citivot, onde seus pares disputam os frutos da razia. Não há nada disso que possa realmente atemorizar os soldados do sultão. Nada também que possa preocupar seu senhor. Durante um mês, a rotina se repete. Mas eis que um dia, por volta de meados de Setembro, os franj modificam bruscamente seus hábitos. Não tendo provavelmente mais nada que obter de sua vizinhança, eles tomaram, dizem, o rumo de Niceia, atravessando alguns vilarejos, todos cristãos, e apossaram-se das safras que acabavam de ser colocadas em celeiros, nesse período de colheita, massacrando sem piedade os camponeses que tentavam resistir. Crianças de colo teriam sido queimadas vivas». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

Amin Maalouf, JDACT, Literatura, Árabes,

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «Naquele ano, começaram a chegar informações sucessivas sobre a aparição de tropas de franj vindas do mar de Mármara em grande multidão. As pessoas amedrontaram-se»

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Agosto de 1099. Bagdade

«(…) Em Bagdade, a decepção dos refugiados será tão grande quanto as suas esperanças. Antes de encarregar seis altos dignitários da corte para que efectuassem uma investigação sobre esses acontecimentos desagradáveis, o califa Mustazhit-billah expressa a sua simpatia pela causa. E preciso dizer que não se ouvira mais falar nesse comité de sabios? O saque a Jerusalém, ponto de partida de uma hostilidade milenar entre o Islão e o Ocidente, não provoca, na hora, nenhuma reacção. Foi preciso esperar cerca de meio século antes que o Oriente árabe se mobilize perante o invasor, e que a chamada ao jihad lancada pelo cádi de Damasco à tenda do califa seja celebrada como o primeiro acto solene de resistência. No inicio da invasão, poucos árabes medem imediatamente, como al-Harawi, a amplitude da ameaça vinda do Oeste. Alguns adaptam-se até rápido demais à nova situação. A maioria só procura sobreviver, amargurada e resignada. Alguns colocam-se como observadores mais ou menos lúcidos, tentando compreender esses acontecimentos tão imprevistos quanto novos. O mais cativante deles é o cronista de Damasco, Ibn al-Qalanissi, jovem letrado de uma família de notáveis. Testemunho ocular, ele tem 23 anos, em 1096, quando os franj chegam ao Oriente e se aplica em consignar por escrito os acontecimentos que chegam ao seu conhecimento. A sua crónica narra fielmente, sem envolvimento excessivo, a progressão dos invasores, tal como é vista na sua cidade. Para ele, tudo começou nesses dias de angústia em que chegam a Damasco os primeiros rumores...

 

A Invasão. 1096-1100

Olhem para os franj! Vejam com que fúria lutam por sua religião, enquanto nós, os muçulmanos, não demonstramos ardor algum em travar a Guerra Santa. In Saladino

Naquele ano, começaram a chegar informações sucessivas sobre a aparição de tropas de franj vindas do mar de Mármara em grande multidão. As pessoas amedrontaram-se. Essas noticias foram confirmadas pelo rei Kilij Arslan, cujo território era o mais próximo desses franj. O rei Kilij Arslan de quem fala aqui Ibn al-Qalanissi ainda não tem 17 anos quando os invasores chegam. Como primeiro dirigente muçulmano a ser informado da sua chegada, esse jovem sultão turco de olhos levemente puxados será o primeiro a infligir-lhes uma derrota e posteriormente o primeiro a ser vencido pelos seus temíveis cavaleiros. Desde Julho de 1096, Kilij Arslan sabe que uma imensa multidão de franj está a caminho de Constantinopla. Imediatamente, ele teme o pior. É claro que ele não tem ideia alguma dos objectivos reais perseguidos por essa gente, mas a vinda deles ao Oriente bastava para que se atemorizasse. O sultanato que ele governa abrange uma grande parte da Ásia Menor, um território que os turcos acabam apenas de arrancar aos gregos. Na verdade, o pai de Kilij Arslan, Suleiman, foi o primeiro a apossar-se dessa terra que se chamaria, muitos séculos mais tarde, Turquia. Em Niceia, capital desse jovem Estado muçulmano, as igrejas bizantinas continuam mais numerosas do que as mesquitas. Se a guarnição da cidade é formada por cavaleiros turcos, a maioria da população é grega, e Kilij Arslan não tem ilusões quanto aos verdadeiros sentimentos de seus súbditos, para os quais ele será sempre um chefe de bando bárbaro. O único soberano que eles reconhecem, aquele cujo nome é murmurado em todas as suas orações, e o basileu Aléxis Comneno, imperador dos romanos. Na realidade, Aléxis seria antes o imperador dos gregos, os quais se proclamam herdeiros do Imperio romano. Essa qualidade lhes é, aliás, reconhecida pelos árabes, que, no século XI como no século XX, designam os gregos pelo termo rum, romanos. O domínio conquistado pelo pai de Kilij Arslan em detrimento do Imperio grego é chamado, inclusive, de sultanato dos rum.

Na época, Aléxis e uma das figuras mais prestigiosas do Oriente. Esse quinquagenário de baixa estatura, olhos cintilantes de malícia, de barba bem cuidada, modos elegantes, sempre paramentado de ouro e ricas roupagens azuis, exerce um verdadeiro fascínio sobre Kilij Arslan. É ele quem reina sobre Constantinopla, a fabulosa Bizâncio, situada a menos de três dias de caminhada de Niceia. Uma proximidade que provoca no jovem sultão sentimentos mistos. Como todos os guerreiros nómadas, ele sonha com conquista e pilhagem. Não lhe desagrada sentir as riquezas legendárias de Bizâncio ao alcance da mão, mas ao mesmo tempo sente-se ameaçado: sabe que Aléxis nunca perdeu as esperanças de recuperar Niceia, não somente porque a cidade sempre foi grega, mas principalmente porque a presença de guerreiros turcos, a tão curta distância de Constantinopla, constitui um perigo permanente para a segurança do Imperio». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O Périplo de Baldassare. Amin Maalouf. « Esta obra acaba de ser impressa em Moscovo há alguns meses. E já todos aqueles que sabem ler a leram. Indicou-me com o dedo o título em caracteres cirílicos, e pôs-se a recitar com fervor…»

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O Centésimo Nome

«(…) Ao dizer isto, passeava o olhar pela loja, procurando sondar aquela confusão de livros, de estatuetas antigas, de objectos de vidro, de vasos pintados, de falcões empalhados; e perguntando-se, a si mesmo, mas poderia muito bem exprimi-lo em voz alta, se, não estando já o meu pai, eu poderia ser apesar de tudo de alguma ajuda. Eu tinha já vinte e três anos, mas a minha cara, redondinha e barbeada, devia ter ainda reflexos infantis. Eu tinha-me erguido, com o queixo espetado. O meu nome é Baldassare, fui eu que lhe sucedi. O meu visitante não deu qualquer sinal de me ter ouvido. Continuava a passear o olhar pelas mil maravilhas que o rodeavam, com um misto de encanto e de angústia. De todas as lojas de curiosidades, a nossa era, desde há cem anos, a mais bem fornecida e a mais conceituada do Oriente. Vinham procurar-nos de todos os lugares, de Marselha, de Londres, de Colónia, de Ancona, como de Esmirna, do Cairo e de Ispahan. Depois de me medir uma vez mais com o olhar, o meu russo deve ter-se conformado. Sou Evdokime Nikolaevitch. Venho de Voronej. Elogiaram-me muito a sua casa. Assumi imediatamente o ar da confidência, era essa, então, a minha maneira de ser afável. Estamos neste comércio há quatro gerações. A minha família é de Génova, mas há muito tempo que se instalou no Levante...

Ele abanou várias vezes a cabeça, querendo dizer que sabia tudo isso. Na verdade, se lhe tinham falado de nós em Constantinopla, era a primeira coisa de que deviam tê-lo informado. Os últimos genoveses nesta parte do mundo... Com algum epíteto, algum gesto evocador de loucura ou uma extrema originalidade transmitida desde sempre de pai para filho. Eu sorri e calei-me. Ele voltou-se imediatamente para a porta, gritando um nome e uma ordem. Apareceu um criado, um homenzinho corpulento de fato negro entufado, com um gorro direito na cabeça, e os olhos no chão. Trazia uma caixa cuja tampa levantou para dela retirar um livro, que estendeu ao seu senhor. Julguei que tinha a intenção de mo vender, e fiquei imediatamente de pé atrás. No comércio de curiosidades, muito cedo aprendemos a desconfiar dessas personagens que chegam com ares importantes, declinam a sua genealogia e as suas nobres relações, distribuem ordens à esquerda e à direita, e que, no fim de contas, só nos querem vender um qualquer traste venerável. Único para eles, e portanto, por via de consequência, único no mundo, não é verdade? Se lhes propomos algum preço que não corresponda àquele que tinham imaginado, melindram-se, dizem-se não apenas explorados, mas insultados. E acabam por se afastar proferindo ameaças. O meu visitante não tardaria a tranquilizar-me: não estava em minha casa nem para vender nem para regatear.

Esta obra acaba de ser impressa em Moscovo há alguns meses. E já todos aqueles que sabem ler a leram. Indicou-me com o dedo o título em caracteres cirílicos, e pôs-se a recitar com fervor: Kniga o vere..., antes de se lembrar de que era preciso traduzir: O Livro da Fé una, verdadeira e ortodoxa. Olhou-me pelo canto do olho para ver se essa formulação fizera ferver o meu sangue de papista. Eu estava impassível. Tanto por fora como por dentro. Por fora o sorriso polido do mercador. Por dentro o sorriso trocista do céptico. Este livro anuncia que o apocalipse está às nossas portas! Indicou-me uma página, perto do fim. Está aqui escrito com todas as letras que o Anticristo aparecerá, de acordo com as Escrituras, no ano do Papa de 1666. Repetiu este número por quatro ou cinco vezes, ocultando de cada vez um pouco mais o mil do início. Depois observou-me, esperando as minhas reacções. Eu tinha, como toda a gente, lido o Apocalipse de João, e tinha-me detido por momentos nessas frases misteriosas do décimo terceiro capítulo: Que aquele que tem a inteligência conte o número da Besta. Porque o seu número é um número de homem e o seu número é seiscentos e sessenta e seis. Está escrito 666 e não 1666, sugeri eu timidamente. É preciso ser cego para não ver um sinal tão evidente!» In Amin Maalouf, O Périplo de Baldassare, 2000, Editora Difel, 2001, ISBN 978-972-290-884-9.

Cortesia de EDifel/JDACT

JDACT, Amin Maalouf, Literatura, 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O Périplo de Baldassare. Amin Maalouf. «Depois reconsidero, regresso em memória a todos esses bons anos normais em que cada dia se passava na espera das alegrias da noite»

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 «Nas vésperas do ano 1666, o mundo vive um pavor supersticioso, já que, segundo a Bíblia, 666 é o número da Besta e anuncia o Apocalipse. Baldassare Embriaco, um negociante de livros e antiguidades, descendente de uma família genovesa há muito radicada no Levante, inicia por esta altura uma busca que o leva a percorrer diversas cidades. É durante esta viagem que, em Inglaterra, assiste ao Grande Incêndio de Londres, em Setembro de 1666. Mas nem mesmo este incidente o faz desistir do seu propósito: Baltasar está decidido a recuperar um livro que vendera a um emissário francês, intitulado O Centésimo Nome, uma obra da qual se diz que contém o nome secreto de Deus e permite divisar o futuro». In Sinopse

 O Centésimo Nome

«Quatro longos meses nos separam ainda do ano da Besta, e ela já aí está. A sua sombra obscurece-nos os peitos e as janelas das nossas casas. À minha volta, as pessoas já não sabem falar de outra coisa. O ano que se aproxima, os sinais prenunciadores, as predições... Por vezes digo a mim mesmo: deixá-la vir! Deixá-la esvaziar por fim o seu alforge de prodígios e de calamidades! Depois reconsidero, regresso em memória a todos esses bons anos normais em que cada dia se passava na espera das alegrias da noite. E maldigo abertamente os adoradores do apocalipse. Como começou esta loucura? Em que espírito germinou ela primeiro? Debaixo de que céus? Não poderia dizer com exactidão, e, no entanto, de certa maneira, sei-o. Daqui onde me encontro, vi o medo, o medo monstruoso, nascer e crescer e expandir-se, vi-o insinuar-se nos espíritos, até nos dos meus familiares, até no meu, vi-o sacudir a razão, espezinhá-la, humilhá-la e depois devorá-la. Vi acabarem-se os dias felizes.

Até aqui, vivera com serenidade. Prosperava, tinha boa aparência e fortuna, um pouco mais em cada estação; não cobiçava nada que não estivesse ao meu alcance; os meus vizinhos adulavam-me mais do que me invejavam. E, de súbito, tudo desaba à minha volta. Esse livro estranho que aparece, depois desaparece por minha culpa... A morte do velho Idriss, de que ninguém me acusa, é certo... A não ser eu mesmo. E essa viagem que tenho de fazer a partir de segunda-feira, a despeito das minhas reticências. Uma viagem da qual hoje me parece que não regressarei. Não é pois sem apreensão que traço estas primeiras linhas neste caderno novo. Ainda não sei de que maneira vou relatar os acontecimentos que se deram, nem aqueles que já se anunciam. Um simples relato dos factos? Um diário íntimo? Um roteiro? Um testamento?

Talvez devesse falar primeiro daquele que em primeiro lugar despertou as minhas angústias a propósito do ano da Besta. Chamava-se Evdokime. Um peregrino de Moscóvia, que veio bater-me à porta há dezassete anos, pouco mais ou menos. Porquê dizer pouco mais ou menos? Tenho a data exacta no meu registo comercial. Foi a vinte de Dezembro de 1648. Sempre anotei tudo, e principalmente os ínfimos detalhes, aqueles de que acabaria por me esquecer. Antes de entrar pela minha porta, o homem fizera o sinal da cruz com dois dedos estendidos, depois baixara-se para não chocar com o arco de pedra. Trazia uma grossa capa negra, tinha mãos de lenhador, dedos grossos, uma espessa barba loura, mas uns olhos minúsculos e a testa estreita. A caminho da Terra Santa, não fora por acaso que parara em minha casa. Tinham-lhe dado o endereço em Constantinopla, dizendo-lhe que era aqui, e só aqui, que tinha hipóteses de encontrar aquilo que procurava. Gostaria de falar ao senhor Tommaso. Era o meu pai, disse eu. Morreu em Julho. Deus o receba no Seu Reino! E que ele acolha também os santos mortos da vossa família! A troca de palavras fazia-se em grego, a nossa única língua comum, embora nem eu nem ele, com toda a evidência, a praticássemos correntemente. Troca hesitante, insegura, em consequência do luto, para mim ainda doloroso, para ele inesperado; e também devido ao facto de que, falando ele a um papista apóstata e eu a um cismático tresmalhado, tínhamos o cuidado de não pronunciar nenhuma palavra que pudesse ferir as crenças do outro. Após um breve silêncio comum, continuou: Lamento muito que o vosso pai nos tenha deixado». In Amin Maalouf, O Périplo de Baldassare, 2000, Editora Difel, 2001, ISBN 978-972-290-884-9.

Cortesia de EDifel/JDACT

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sábado, 24 de abril de 2021

O Século Primeiro depois de Beatriz. Amin Maalouf. «Amei até ao fim o século da minha juventude, os seus entusiasmos ingénuos, os seus ingénuos terrores à aproximação do milénio, ainda e ainda o átomo, e de novo a epidemia»

jdact

«Tu estás no jardim de uma estalagem de Praga

E sentes-te muito feliz com uma rosa sobre a mesa

E observas em vez de escrever o teu conto em prosa

A cetónia que dorme no coração da rosa». In Apollinaire

«Dos acontecimentos que relato nestas páginas não fui mais que uma testemunha entre outras, mais aproximado que a multidão de espectadores, mas tão impotente como eles. o meu nome, eu sei, foi mencionado nos livros, isso causou-me outrora um certo orgulho. Mas já não causa. A mosca da fábula podia exultar porque a carruagem chegou a bom porto; de que se teria ela vangloriado se a viagem tivesse acabado num precipício? Esse foi o meu papel, na verdade, o de um sonâmbulo supérfluo sem sorte. Pelo menos não fui nem lorpa nem cúmplice. Nunca andei atrás de aventuras, mas às vezes a aventura fez-me sair do covil. Se eu tivesse podido escolher, tê-la-ia confinado ao único universo que me apaixonou desde a infância e que, com oitenta e três anos devidamente festejados, me apaixona ainda sem descanso: os insectos, esses admiráveis liliputianos, resumos de elegância, de habilidade, de imemorial sabedoria. Tenho o hábito de esclarecer os meus interlocutores profanos de que não sou, de modo algum, um defensor dos insectos. Com os animais ditos superiores, que nós, os homens, cedo escravizámos e abundantemente massacrámos, de que triunfámos de uma vez para sempre, podemos permitir-nos doravante ser magnânimos. Não com os insectos. Entre eles e nós a luta prossegue, quotidiana, implacável, e nada autoriza a predizer que o homem sairá vencedor. Os insectos estavam nesta Terra bem antes de nós, continuarão lá ainda antes de nós, e quando pudermos explorar os planetas longínquos serão mais depressa os seus congéneres do que os nossos que lá encontraremos. Com o que nos sentiremos, penso eu, reconfortados.

Já o disse, não sou um defensor dos insectos. Mas certamente um dos seus tenazes admiradores. Como não o ser? Que criatura alguma vez destilou matérias mais nobres que a seda, o mel ou o maná do Sinai? Desde sempre, o homem esforça-se por copiar destes produtos de insectos a textura e o gosto. Que dizer também do voo da mosca vulgar? Quantos séculos nos serão ainda precisos para imitá-la? Sem falar da metamorfose de uma miserável larva. Eu poderia invocar uma infinidade de exemplos. Não é esse o meu propósito. Nas páginas que vão seguir-se, não é da minha paixão pelos insectos que se trata, mas justamente dos únicos momentos da minha vida em que me interessei com prioridade pelos humanos. A ouvirem-me, tornar-me-ão facilmente por um urso misantropo. Isso não seria propriamente verdade. Os meus estudantes conservam de mim a melhor recordação; os meus colegas não disseram excessivamente mal; às vezes fui sociável, sem exagero; até cultivei, em pousio, duas ou três amizades. Sobretudo terá havido Clarence, e depois Beatriz; mas delas voltarei a falar. Digamos, para resumir sem mentir, que raramente suportei os zumbidos das misérias quotidianas, mas que aos grandes debates do meu tempo prestei constantemente um ouvido novo. Amei até ao fim o século da minha juventude, os seus entusiasmos ingénuos, os seus ingénuos terrores à aproximação do milénio, ainda e ainda o átomo, e de novo a epidemia, depois esses buracos de Dárnocles por cima dos pólos. Foi um grande século, a meu ver o maior, talvez o último grande, foi o século de todas as crises e de todos os problemas; hoje, no século da minha velhice, só se fala de soluções. Eu pensei sempre que o Céu tinha inventado os problemas e o Inferno as soluções. Os problemas empurram-nos, maltratam-nos, fazem-nos perder as estribeiras, fazem-nos sair de nós próprios. Salutar desequilíbrio, é pelos problemas que todas as espécies evoluem; é pelas soluções que elas se entorpecem e extinguem. Será por um acaso que o pior crime da nossa memória se tenha intitulado solução, e final?

E tudo o que observo hoje à minha volta, esse planeta enfezado, soturno, obscurecido, este desfraldar de ódios, essa universal frialdade que tudo envolve como uma nova era glaciar..., não é o fruto de uma genial solução? Contudo o fim do milénio tinha sido grandioso. Uma embriaguês nobre, contagiosa, devastadora, messiânica. Nós acreditávamos todos que a Graça ia tocar pouco a pouco a Terra inteira, que todas as nações poderiam em breve viver na paz, na liberdade, na abundância. Doravante, a História não seria mais escrita pelos generais, pelos ideólogos, pelos déspotas, mas pelos astrofísicos e pelos biólogos. A humanidade saciada só teria como heróis os inventores e os que a divertiam. Eu próprio nutri durante muito tempo essa esperança. Como todos os da minha geração, eu teria encolhido os ombros se me tivessem predicto que tantos progressos morais e técnicos se verificariam reversíveis que tantas vias de comunicação voltariam a fechar-se, que tantos muros poderiam ressurgir, tudo isso por culpa de um mal omnipresente e contudo insuspeitado.

Porque odioso logro do destino o nosso sonho se desmantelou? Como chegámos a isso? Porque fui obrigado a abandonar a cidade e toda a vida civil? O que eu queria contar aqui, o mais fielmente, o mais escrupulosamente possível, é a lenta eclosão do flagelo que nos envolve depois dos primeiros anos do novo século, arrastando-nos nessa regressão sem precedente, parece-me, tanto pela sua amplitude como pela sua natureza. Apesar do terror ambiente, esforçar-me-ei por escrever até ao fim com serenidade. Neste instante, sinto-me ao abrigo do meu antro de alta montanha, e a minha mão não treme nada por cima deste velho repertório ainda virgem a que vou confiar os meus fragmentos de verdade. Encontro até, na evocação de certas imagens do passado, uma alegria em que a minha pessoa se compraz, a ponto de esquecer por momentos o drama que presumidamente vou relatar. Não é uma das virtudes da escrita deitar horizontalmente na mesma folha horizontal o fútil e o excepcional? Tudo readquire num livro a espessura negligenciável da tinta achatada». In Amin Maalouf, O Século Primeiro depois de Beatriz, 1992, Medialivros, Difel, 2008, ISBN 978-972-290-919-8.

Cortesia de Medialivros/Difel/JDACT

JDACT, Amin Maalouf, Literatura, Oriente,

quarta-feira, 20 de maio de 2020

As Cruzadas vistas pelos Árabes Amin Maalouf. «Sem ver-se desencorajado, o pai da futura sultana retomara com determinação a construção dos seus navios de guerra»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Invasão, 1096-1100
Os franj estão chegando
«(…) O emir Tchaka tinha para isso um plano muito coerente. Assim, fora-se instalar num porto perto de Esmirna, sobre o mar Egeu, onde, com a ajuda de um armador grego, constituíra uma verdadeira frota de guerra compreendendo bergantins leves, naus a remo, dromons, birremes ou trirremes, ao todo cerca de uma centena de embarcações. Numa primeira etapa, ele ocupara diversas ilhas, principalmente Rodes, Quios e Samos, e estendera a sua autoridade sobre o conjunto da costa do Egeu. Assim formando um império marítimo, proclamara-se basileu, organizando o seu palácio de Esmirna segundo o modelo da corte imperial, e lançara a sua frota sobre Constantinopla. Enormes esforços foram necessários de Alexis para conseguir rechaçar o ataque e destruir parte das naus turcas.

Sem ver-se desencorajado, o pai da futura sultana retomara com determinação a construção dos seus navios de guerra. Era perto do final do ano de 1092, momento em que Kilij Arslan voltava do exilio, e Tchaka pensara que o jovem filho de Suleiman seria um excelente aliado contra os rum. Propusera-lhe então a mão da sua filha. Mas os cálculos do jovem sultão eram bem diferentes dos de seu sogro. A conquista de Constantinopla parecia-lhe um plano absurdo. Em contrapartida, nenhum dos que o cercavam ignorava que ele buscava a eliminação dos emires turcos que tentavam constituir um domínio na Ásia Menor, isto é, em primeiro lugar Danishmend e o demasiadamente ambicioso Tchaka. Portanto o sultão não hesitara, convidara seu sogro para um banquete e, tendo-o embebedado, apunhalara-o com as suas próprias mãos. Tchaka tinha um filho que assumiu a sucessão, mas que não possuía nem a inteligência nem a ambição de seu pai. O irmão da sultana contentou-se em gerir seu emirado marinho até aquele dia do ano 1097, em que a frota dos rum chegou inopinadamente ao largo de Esmirna, trazendo a bordo um mensageiro inesperado: a sua própria irmã.
Esta demorou para compreender as razões da solicitude do imperador para com ela, mas enquanto e comboiada para a cidade onde passou a sua infância, Esmirna, tudo fica claro. Ela é encarregada de explicar ao seu irmão que Alexis tomou Niceia, que Kilij Arslan foi vencido, e que um poderoso exército de rum e franj vai em breve atacar Esmirna com a ajuda de uma imensa frota. Para salvar sua vida, o filho de Tchaka e convidado a conduzir sua irmã para perto do seu esposo, em algum lugar na Anatólia.
Não tendo sido recusada a proposta, o emirado de Esmirna deixa de existir. No dia seguinte à queda de Niceia, toda a costa do mar Egeu, todas as ilhas, e a parte ocidental da Ásia Menor escapam, portanto, das mãos dos turcos. E os rum, ajudados pelos seus auxiliares francos, parecem decididos a ir mais longe.
Mas, no seu refúgio nas montanhas, Kilij Arslan não depôs as armas. Passada a surpresa dos primeiros dias, o sultão prepara activamente sua resposta. Ele pôs-se a recrutar tropas, aliciar voluntarios e proclamar o j i had, anota Ibn al-Qalanissi. O cronista de Damasco acrescenta que Kilij Arslan pediu a todos os turcos que o ajudassem, e numerosos deles responderam ao seu chamamento. De fcato, o primeiro objectivo do sultão e selar uma aliança com Danishmend. Uma simples trégua não basta mais. É imperativo agora que as forcas turcas da Ásia Menor estejam unidas, como se fossem um só exército». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN 978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições 70/JDACT

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «Antes de se afastar, ele envia uma mensagem de adeus aos defensores da cidade para avisá-los da sua dolorosa decisão e lhes recomendar que hajam conforme os seus interesses»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Invasão, 1096-1100
Os franj estão chegando
«(…) Kilij Arslan está empenhado de corpo e alma na batalha de Malatya, quando, nos primeiros dias de Maio, chega um novo mensageiro, ofegante de cansaço e medo. Os franj estao às portas de Niceia, e começam a sitiá-la. Não são mais, como no Verão, bandos de saqueadores esfarrapados, mas verdadeiros exércitos de cavaleiros pesadamente equipados. E desta vez, os soldados do basileu os acompanham. Kilij Arslan tenta acalmar os seus homens, mas ele próprio está torturado de angústia. Deve abandonar Malatya ao seu rival e voltar para Niceia? Estará certo de ainda poder salvar a sua capital? Não irá perder nas duas frentes? Após consultar demoradamente os seus mais fiéis emires, surge uma solução, uma forma de compromisso: ir ver Danishmend, que é homem honrado, colocá-lo a par da tentativa de conquista empreendida pelos rum e os seus mercenários, assim como da ameaça que pesa sobre todos os muçulmanos da Ásia Menor, e propôr-lhe que cessem as hostilidades.
Antes mesmo que Danishmend tenha dado a sua resposta, o sultão despacha uma parte do seu exército para a capital. De facto, uma trégua é concluída após alguns dias, e Kilij Arslan toma sem demora o rumo do oeste. Mas, no momento em que atinge as alturas próximas de Niceia, o espéctaculo que tem diante dos olhos lhe congela o sangue nas veias. A soberba cidade que lhe legou seu pai está cercada por todos os lados; uma multidão de soldados está ali, ocupada em por no lugar torres móveis, catapultas e instrumentos que servirão ao assalto final. Os emires são taxativos: não há mais nada a fazer. E preciso recuar para o interior do país antes que seja tarde demais. O jovem sultão não consegue, no entanto, resignar-se a abandonar assim a capital. Ele insiste em tentar uma última investida ao sul, onde os sitiantes parecem menos solidamente entrincheirados. A batalha começa na madrugada de 21 de Maio. Kilij Arslan joga-se furiosamente no corpo-a-corpo e o combate arde até ao cair da noite. As perdas são igualmente pesadas dos dois lados, mas cada um conserva as suas posições. O sultão não insiste. Ele compreendeu que nada mais lhe permitira afrouxar o cerco. Obstinar-se em lançar todas as suas forças numa batalha que se esboça tao desfavorável poderia prolongar o cerco por algumas semanas, até alguns meses, mas ele incorreria no risco de colocar em jogo a existência do seu próprio sultanato. Originário de um povo essencialmente nómada, Kilij Arslan sabe que a fonte do seu poder reside em alguns milhares de guerreiros que o obedecem, não na posse de uma cidade, por mais atraente que ela seja. Aliás, ele logo terá escolhido para a sua nova capital a cidade de Konya, localizada mais para o leste: esta fronteira, os seus descendentes vão conservá-la até ao início do século XIV. Ele jamais verá Niceia.
Antes de se afastar, ele envia uma mensagem de adeus aos defensores da cidade para avisá-los da sua dolorosa decisão e lhes recomendar que hajam conforme os seus interesses. O significado é claro, tanto para a guarnição turca quanto para a população grega: é preciso entregar a cidade a Alexis Comneno e não aos seus auxiliares francos. São iniciadas negociações com o basileu, que, à frente das suas tropas, tomou posição a oeste de Niceia. Os homens do sultão tentam ganhar tempo, na esperança, sem dúvida, de que o seu senhor possa voltar com reforços. Mas Alexis se apressa: os ocidentais, ameaça ele, preparam-se para o assalto final, e então ele não garantira mais nada. Lembrando-se do comportamento dos franj no ano anterior nas proximidades de Niceia, os negociadores ficam aterrorizados. Já vislumbram a sua cidade saqueada, os homens massacrados, as mulheres violentadas. Sem mais hesitar, aceitam entregar a sua sorte nas mãos do basileu, que fixa ele mesmo as modalidades da rendição.
Na noite de 18 para 19 de Junho, soldados do exército bizantino, turcos na sua maioria, são introduzidos na cidade por meio de barcas que atravessam em silêncio o lago Ascanios, e então a guarnição capitula sem combate. As primeiras luzes do dia, os estandartes azuis e ouro do imperador já tremulam sobre as muralhas. Os franj renunciam ao assalto. No seu infortúnio, Kilij Arslan receberá dessa forma um consolo: os dignitários do sultanato serão poupados e a jovem sultana, acompanhada do seu recém-nascido, será recebida em Constantinopla com honras reais, agredindo os franj. A jovem mulher de Kilij Arslan e filha de Tchaka, aventureiro genial, um emir turco muito famoso as vésperas da invasão franca. Aprisionado pelo povo rum enquanto efectuava uma razia na Ásia Menor, impressionara os seus carcereiros pela sua facilidade em aprender grego, idioma que apos alguns meses falava com perfeição. Brilhante, hábil, argumentador, tornara-se um visitante regular do palácio imperial, que o havia até agraciado com um título de nobreza. Mas essa espantosa promoção não lhe bastava. Ele almejava mais, muito mais aliás, queria tornar-se imperador de Bizâncio!» In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN 978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições 70/JDACT

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «Ofegante, ele declara sua mensagem: os franj estão aí; novamente, eles atravessaram o Bósforo, ainda mais numerosos do que no ano anterior»

jdact e wikipedia

A Invasão. 1096-1100
«(…) Embriagado pelo sucesso, Kilij Arslan quer ignorar as informações que se sucedem, no inverno seguinte, a respeito da chegada de novos grupos de franj em Constantinopla. Para ele, e mesmo para os mais sábios de seus emires, não há mais nada com que se preocupar. Se outros mercenários de Aléxis ousassem ainda transpor o Bósforo, seriam feitos em pedaços como aqueles que os precederam. No espírito do sultão, é tempo de voltar às preocupações cruciais do momento, isto é, à luta sem mercê que trava desde sempre contra os príncipes turcos, seus vizinhos imediatos. E ali, e em nenhum outro lugar, que será decidido o destino de seu domínio. Os confrontos com os rum ou seus estranhos auxiliares franj nunca passarão de um intermédio. O jovem sultão está bem colocado para sabê-lo. Não foi num desses intermináveis combates de chefes que seu pai Suleiman perdeu a vida em 1086? Kilij Arslan tinha então apenas sete anos, e deveria ter assumido a sucessão sob a regência de alguns emires fiéis, mas fora afastado do poder e levado para a Pérsia sob pretexto de que sua vida corria perigo. Adulado, cercado de cuidados, servido por uma legião de escravos atenciosos, ainda que estreitamente vigiado, com interdição formal de visitar seu reino. Seus hospedeiros, ou melhor, seus carcereiros, não eram senão os membros de seu próprio clã: os seldjúcidas.
Se há, no século XI, um nome que ninguém ignora, das fronteiras da China ao longínquo território dos franj, é esse. Vindos da Ásia Central com milhares de cavaleiros nómades de longos cabelos trançados, os turcos apossaram-se em alguns anos de toda a região que se estende do Afeganistão ao Mediterrâneo. Desde 1055, o califa de Bagdad, sucessor do Profeta e herdeiro do prestigioso império abássida, e apenas um boneco dócil em suas mãos. De Ispahan a Damasco, de Niceia a Jerusalém, seus emires ditam a lei. Pela primeira vez em três seculos, todo o Oriente muçulmano está reunido sob a autoridade de uma única dinastia que proclama sua vontade de devolver ao Islão a sua glória passada. Os rum, esmagados pelos seldjúcidas em 1071, nunca se recuperaram. A Ásia Menor, a mais vasta de suas províncias, foi invadida; sua própria capital não está mais em segurança; seus imperadores, entre os quais o próprio Alexis, não cessam de enviar delegações ao papa de Roma, chefe supremo do Ocidente, suplicando-lhe que convoque a Guerra Santa contra esse ressurgimento do Islão. Kilij Arslan não se sente pouco orgulhoso por pertencer a uma família tão prestigiosa, mas também não se ilude quanto a aparente unidade do império turco. Entre os primos seldjúcidas não se conhece solidariedade alguma: é preciso matar para sobreviver. Seu pai conquistou a Ásia Menor, a vasta Anatólia, sem a ajuda de seus irmãos, e foi por ter querido estender-se para o sul, em direcção à Síria, que ele foi morto por um de seus parentes. E, enquanto Kilij Arslan era mantido a forca em Ispahan, o domínio paterno foi despedaçado. Quando, em fins de 1092, o adolescente foi solto graças a uma contenda entre seus carcereiros, sua autoridade não se exerce além das muralhas de Niceia. Ele tinha então apenas 13 anos.
Depois, foi graças aos conselhos de emires do seu exército que pôde, por meio da guerra, do crime ou da astúcia, recuperar uma parte do legado paterno. Hoje, ele pode-se gabar de ter passado mais tempo sobre a sela de seu cavalo do que em seu palácio. No entanto, quando chegam os franj, nada ainda está definido. Na Ásia Menor seus rivais continuam poderosos, mesmo que, felizmente para ele, seus primos seldjúcidas da Síria e da Pérsia estejam mergulhados em seus próprios conflitos. Notadamente, a leste, nas alturas desoladas do planalto da Anatólia, reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, o Sabio, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, e instruído nas mais diversas ciências. Ele vai em breve tornar-se herói de uma epopeia célebre, intitulada A Gesta do Rei Danishmend, que descreve a conquista de Malatya, uma cidade arménia situada a sudeste de Ancara e cuja queda é considerada pelos autores da narrativa como a curva decisiva da islamização da futura Turquia. Nos primeiros meses de 1097, quando se deu a chegada em Constantinopla de uma nova expedicão franca, era anunciada a Kilij Arslan que a batalha de Malatya já se abrira. Danishmend cerca a cidade, e o jovem sultão recusa a ideia de que este rival, que se aproveitou da morte de seu pai para ocupar todo o Nordeste da Anatólia, possa alcançar uma vitória tão prestigiosa. Determinado a impedi-lo, dirige-se à frente de seus cavaleiros para as cercanias de Malatya e instala seu acampamento próximo ao de Danishmend a fim de intimidá-lo. A tensão aumenta, as escaramuças multiplicam-se, cada vez mais mortais.
Em Abril de 1097, o confronto parece inevitável. Kilij Arslan se prepara. O essencial de seu exército está reunido sob os muros de Malatya quando chega, defronte de sua tenda, um cavaleiro extenuado. Ofegante, ele declara sua mensagem: os franj estão aí; novamente, eles atravessaram o Bósforo, ainda mais numerosos do que no ano anterior. Kilij Arslan permanece calmo. Nada justifica tamanha preocupação. Ele já enfrentou os franj, e sabe portanto o que esperar deles. Finalmente, e apenas para tranquilizar os habitantes de Niceia, e em particular sua esposa, a jovem sultana que em breve daria à luz, que ele pede a alguns destacamentos de cavalaria para irem reforçar a guarnição da capital. Ele mesmo estará de volta assim que tiver terminado com Danishmend». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

sábado, 8 de outubro de 2016

Escalas do Levante. Amin Maalouf. «… o doutor Ketabdar tinha de certo modo abusado dela, agira de uma maneira irresponsável e indigna, contrária a toda a ética médica, guiado apenas pelos seus baixos apetites...»

jdact

«(…) Tanto mais que ela nem sempre estava em estado de crise. Parecia mesmo dar, de vez em quando, sinais de lucidez. Oh, não de verdadeira lucidez! Conheci-a no fim da sua vida, e observei-a. Nunca esteve lúcida ao ponto de se aperceber do seu estado. E tanto melhor assim, pois teria sofrido demasiado. Mas atravessava longas horas de tranquilidade em que não gritava, não gemia, em que podia mostrar-se de uma grande ternura para com aqueles que a rodeavam. Por vezes, punha-se a cantar, numa voz vacilante e no entanto melodiosa. Ainda tenho no ouvido uma canção turca que falava das raparigas de Istambul passeando nas praias de Oskuder. E outra, de palavras obscuras, onde se falava de Trebizonde e da morte. Quando a minha avó cantava, toda a casa se punha em silêncio para ouvi-la. Ela conseguia ser tão enternecedora. Com um rosto sereno, e um andar gracioso, até aos seus últimos dias. Imagino facilmente que o marido tivesse desejo de abraçá-la. E que ela se encolhesse de encontro a ele com um risinho de menina bem comportada. Depois, para se justificar aos seus próprios olhos, o doutor teria elaborado as teorias adequadas. Com toda a boa-fé...
As quais teorias se mostraram inoperantes, poder-se-ia objectar, visto que na velhice a minha avó continuava sem se curar! As coisas não são assim tão simples. Ela não se curou, é certo, o choque salutar não se produziu. Mas soube ser para o filho uma mãe extremosa. E quando mais tarde viveu connosco na mesma casa, nunca sentimos a sua presença como um peso. As suas crises eram espaçadas, e sem consequências duráveis. Se é certo que a maternidade a não tinha curado, também não tinha certamente agravado o seu caso, e parece-me que lhe tinha feito bem. Mas poucas pessoas estavam dispostas a ver as coisas sob esta luz. O velho médico foi criticado... Que digo eu, criticado, ele foi arrastado na lama! Uma verdadeira fúria. De murmurações, imprecações, insultos, calúnias. É claro, ele era casado, o mais legalmente possível, e ninguém podia censurar aquele homem por ter concebido um filho com a sua esposa legítima. Mas não podiam deixar de pensar que, dadas as circunstâncias, existia uma espécie de contrato moral, e que ao engravidar aquela mulher que já não era senhora da sua razão, o doutor Ketabdar tinha de certo modo abusado dela, agira de uma maneira irresponsável e indigna, contrária a toda a ética médica, guiado apenas pelos seus baixos apetites...
E quando, para se defender, ele tentara expor as suas curiosas teorias, desconsiderou-se um pouco mais. Pois quê?, diziam os seus detractores, usar a esposa como um rato de laboratório? Mortificado pela hostilidade que o assaltava de todos os lados no entardecer de uma vida exemplar, o velho médico deixara-se invadir pelo sentimento de haver faltado ao seu dever, de haver traído a sua missão, e ter caído na indignidade. Nenhum dos seus colegas, nenhum membro da augusta família, nenhum notável de Adana queria já cruzar a porta da sua casa. O meu pai dizia-me: tratavam-nos como pestíferos! E ria muito alto!» In Amin Maalouf, Escalas do Levante, Difel 82, Algés, 1997, ISBN 972-290-355-1.

Cortesia de Difel/JDACT

Escalas do Levante. Amin Maalouf. «O choque brutal da vida viria compensar o choque brutal da morte. O sangue resgataria o sangue. Teorias... Teorias... Porque se podia muito bem imaginar o contrário»

jdact

«(…) Foi ao regressar a casa, nessa noite, no seu coche, através das ruas barulhentas de Galata, sacudido, meio ensonado, que o doutor Ketabdar deu consigo a sonhar com uma coisa insensata. Coisa que no entanto foi, no dia seguinte, propor à mãe de Iffett: visto que o estado da filha iria exigir cuidados permanentes durante anos, visto que não era possível interná-la, ele propunha-se levá-la para Adana, no sul da Anatólia, onde possuía uma casa; dedicar-se-ia a ela dia e noite, mês após mês, ano após ano, ela seria a sua única paciente, e pouco a pouco, se Deus quisesse, havia de voltar a si. Ocupar-se dela dia e noite, ano após ano? E na sua própria casa? A mãe teria achado o médico pretensioso e inconveniente se ele tivesse falado assim noutras circunstâncias. Porque aquilo que não era dito tal e qual, e, no entanto, claramente sugerido, era que o médico, viúvo, pensava em tomar Iffett por esposa. Noutras circunstâncias, dizia eu, a coisa teria sido impensável. Mas agora ninguém podia já pensar em casar a filha alienada do soberano caído com uma das altas personagens que ainda há pouco ambicionavam essa honra. portanto a mãe resignara-se. Em vez de deixar internar a filha até ao fim dos seus dias, mais valia confiá-la àquele homem respeitável que parecia querer-lhe bem, que a trataria, que a preservaria da vergonha e dos escândalos... Estranho lar, não é verdade? um marido velho que era antes de mais nada um médico assistente; uma jovem esposa demente que ele rodeava de cuidados e de afecto, mas que passava por vezes dias inteiros a gemer ou a gritar sem motivo aos ouvidos dos criados, uns extenuados, outros apiedados. Ninguém duvidava de que se tratava de um casamento fictício, destinado apenas a evitar a inconveniência da coabitação de um homem e de uma mulher sob o mesmo tecto, ao abrigo dos olhares. Casamento de conveniência, portanto, casamento de aparência; ou antes de complacência. Um acto de devoção, em suma. Sim, da parte do velho médico, uma acção caritativa. Mas, um dia, Iffett ficou grávida. Seria consequência de um momento de desvario? Ou o fruto de uma terapia audaciosa? Era caso para perguntar! A acreditar no filho do casal, que é nem mais nem menos que o meu pai, é a segunda a explicação a reter: o doutor Ketabdar tinha as suas teorias; pensava demonstrar que uma mulher como a sua, que perdera a razão em consequência de um choque, podia recuperá-la graças a outro choque. A gravidez, a maternidade... Mas principalmente o parto. O choque brutal da vida viria compensar o choque brutal da morte. O sangue resgataria o sangue. Teorias... Teorias... Porque se podia muito bem imaginar o contrário: o marido médico, constantemente ao lado da esposa, vestindo-a, despindo-a, dando-lhe banho todas as noites, uma bela e jovem mulher a quem adorava profundamente, a ponto de lhe consagrar todos os momentos da sua vida, como poderia ele contemplá-la sem se emocionar? Como poderia percorrer com as mãos e com os olhos a superfície lisa do seu corpo sem que crescesse nele o desejo?» In Amin Maalouf, Escalas do Levante, Difel 82, Algés, 1997, ISBN 972-290-355-1.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «… reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, “o Sábio”, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências»

jdact e wikipedia

A Invasão. 1096-1100
«(…) Embriagado pelo sucesso, Kilij Arslan quer ignorar as informações que se sucedem, no Inverno seguinte, a respeito da chegada de novos grupos de franj em Constantinopla. Para ele, e mesmo para os mais sábios de seus emires, não há mais nada com que se preocupar. Se outros mercenários de Aléxis ousassem ainda transpor o Bósforo, seriam feitos em pedaços como aqueles que os precederam. No espírito do sultão, é tempo de voltar às preocupações cruciais do momento, isto é, à luta sem mercê que trava desde sempre contra os príncipes turcos, seus vizinhos imediatos. E ali, e em nenhum outro lugar, que será decidido o destino de seu domínio. Os confrontos com os rum ou seus estranhos auxiliares franj nunca passarão de um intermédio. O jovem sultão está bem colocado para sabê-lo. Não foi num desses intermináveis combates de chefes que seu pai Suleiman perdeu a vida em 1086? Kilij Arslan tinha então apenas sete anos, e deveria ter assumido a sucessão sob a regência de alguns emires fiéis, mas fora afastado do poder e levado para a Pérsia sob pretexto de que sua vida corria perigo. Adulado, cercado de cuidados, servido por uma legião de escravos atenciosos, ainda que estreitamente vigiado, com interdição formal de visitar seu reino. Seus hospedeiros, ou melhor, seus carcereiros, não eram senão os membros de seu próprio clã: os seldjúcidas.
Se há, no século XI, um nome que ninguém ignora, das fronteiras da China ao longínquo território dos franj, é esse. Vindos da Ásia Central com milhares de cavaleiros nómades de longos cabelos trançados, os turcos apossaram-se em alguns anos de toda a região que se estende do Afeganistão ao Mediterrâneo. Desde 1055, o califa de Bagdad, sucessor do Profeta e herdeiro do prestigioso império abássida, e apenas um boneco dócil em suas mãos. De Ispahan a Damasco, de Niceia a Jerusalem, seus emires ditam a lei. Pela primeira vez em três seculos, todo o Oriente muçulmano está reunido sob a autoridade de uma única dinastia que proclama sua vontade de devolver ao Islão sua glória passada. Os rum, esmagados pelos seldjúcidas em 1071, nunca se recuperaram. A Ásia Menor, a mais vasta de suas províncias, foi invadida; sua própria capital não esta mais em segurança; seus imperadores, entre os quais o próprio Alexis, não cessam de enviar delegações ao papa de Roma, chefe supremo do Ocidente, suplicando-lhe que convoque a Guerra Santa contra esse ressurgimento do Islão.
Kilij Arslan não se sente pouco orgulhoso por pertencer a uma família tão prestigiosa, mas também não se ilude quanto a aparente unidade do império turco. Entre os primos seldjúcidas não se conhece solidariedade alguma: é preciso matar para sobreviver. Seu pai conquistou a Ásia Menor, a vasta Anatólia, sem a ajuda de seus irmãos, e foi por ter querido estender-se para o sul, em direcção à Síria, que ele foi morto por um de seus parentes. E, enquanto Kilij Arslan era mantido à força em Ispahan, o domínio paterno foi despedaçado. Quando, em fins de 1092, o adolescente foi solto graças a uma contenda entre seus carcereiros, sua autoridade não se exerce além das muralhas de Niceia. Ele tinha então apenas 13 anos. Depois, foi graças aos conselhos de emires do seu exército que pode, por meio da guerra, do crime ou da astúcia, recuperar uma parte do legado paterno. Hoje, ele pode se gabar de ter passado mais tempo sobre a sela de seu cavalo do que em seu palácio. No entanto, quando chegam os franj, nada ainda está definido. Na Ásia Menor seus rivais continuam poderosos, mesmo que, felizmente para ele, seus primos seldjúcidas da Síria e da Pérsia estejam mergulhados em seus próprios conflitos.
Notadamente, a leste, nas alturas desoladas do planalto da Anatólia, reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, o Sábio, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências. Ele vai em breve tornar-se herói de uma epopeia célebre, intitulada A Gesta do Rei Danishmend, que descreve a conquista de Malatya, uma cidade arménia situada a sudeste de Âncara e cuja queda é considerada pelos autores da narrativa como a curva decisiva da islamização da futura Turquia. Nos primeiros meses de 1097, quando se deu a chegada em Constantinopla de uma nova expedição franca, era anunciada a Kilij Arslan que a batalha de Malatya já se abrira. Danishmend cerca a cidade, e o jovem sultão recusa a ideia de que este rival, que se aproveitou da morte de seu pai para ocupar todo o Nordeste da Anatólia, possa alcançar uma vitória tão prestigiosa. Determinado a impedi-lo, dirige-se à frente de seus cavaleiros para as cercanias de Malatya e instala seu acampamento próximo ao de Danishmend a fim de intimidá-lo. A tensão aumenta, as escaramuças multiplicam-se, cada vez mais mortais». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

sábado, 6 de agosto de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «É verdade que os “franj” perderam cerca de seis mil homens, mas os que restam são seis vezes mais numerosos, e esta é a única oportunidade para se livrarem deles»

jdact e wikipedia

A Invasão. 1096-1100
«(…) Para os sitiados, começa um suplício atroz: eles chegam a beber o sangue de suas montarias e sua própria urina. Podem ser vistos, nesses primeiros dias de Outubro, olhando desesperadamente para o céu, mendigando algumas gotas de chuva. Em vão. Após uma semana um cavaleiro chamado Renaud, chefe da expedição, aceita a capitulação com a condição de que lhe seja poupada a vida. Kilij Arslan, que exigiu que os franj denunciem publicamente a sua religião, não fica pouco surpreso quando Renaud se diz pronto não só a converter-se ao islamismo, mas também a combater ao lado dos turcos contra seus próprios companheiros. Vários de seus amigos, que se prestaram às mesmas exigências, são enviados como prisioneiros para as cidades da Síria ou da Ásia Central. Os outros são mortos pela espada. O jovem sultão está orgulhoso de sua proeza, mantém-se ponderado. Após ter concedido a seus homens um prazo para a tradicional partilha dos bens restados da guerra, ele os coloca em alerta a partir do dia seguinte. É verdade que os franj perderam cerca de seis mil homens, mas os que restam são seis vezes mais numerosos, e esta é a única oportunidade para se livrarem deles. Para tanto, ele preferiu destacar dois espiões, gregos, para o acampamento de Citivot, afim de anunciar que os homens de Renaud estão em excelente condição, que conseguiram apoderar-se da própria Nicéia, e que estão firmemente decididos a não permitir que seus correligionários lhes disputem as riquezas. Enquanto isso, o exército turco preparará uma gigantesca emboscada. De facto, os rumores cuidadosamente propagados suscitam no acampamento de Citivot a confusão prevista. Formam-se grupos, injuria-se Renaud e seus homens. Logo tomam a decisão de pôr-se a caminho para participar do saque de Nicéia. Mas eis que, subitamente, não se sabe muito bem como, um homem que conseguiu escapar da expedição de Xerigordon chega, revelando a verdade quanto à sorte de seus companheiros. Os espiões de Kilij Arslan pensam ter fracassado em sua missão, já que os mais sábios entre os franj pregam a calma. Mas, passado o primeiro momento de consternação, a exaltação volta. A multidão se agita e brada, quer partir imediatamente e não mais para participar de meros saques, e sim vingar os mártires. Aqueles que hesitam são tratados de covardes. Finalmente, os mais enfurecidos obtêm ganho de causa, e a partida é fixada para o dia seguinte. Tendo seu artifício descoberto, ainda que o objectivo houvesse sido previamente atingido, os espiões do sultão triunfam e mandam dizer ao seu senhor que se prepare para o combate. Na madrugada de 21 de Outubro de 1096, os ocidentais deixam seu acampamento. Kilij Arslan não está longe. Ele passou a noite nas colinas próximas a Citivot. Seus homens estão nos seus lugares, bem escondidos. Ele mesmo, de onde está, pode avistar ao longe a coluna dos franj levantar uma nuvem de poeira. Algumas centenas de cavaleiros, a maioria sem armadura, andam na frente, seguidos por uma multidão de infantes em desordem. Estão andando há menos de uma hora quando o sultão ouve o clamor que se aproxima. O sol que se ergue atrás dele golpeia-os em pleno rosto. Prendendo a respiração, ele faz sinal aos seus emires comandados para que se mantenham alertas. O instante fatídico é chegado. Um gesto apenas perceptível, algumas ordens sussurradas aqui e ali, e eis os arqueiros retesando lentamente seus arcos. De repente, mil flechas jorram num único e longo assobio. A maioria dos cavaleiros desaba nos primeiros minutos. Depois, os infantes são dizimados por sua vez. Quando se travou o combate corpo-a-corpo, os franj já estavam derrotados. Aqueles que se encontravam na rectaguarda voltaram correndo para o acampamento, onde os que repousavam eram despertados. Um velho sacerdote celebra um ofício religioso, algumas mulheres preparam comida. A chegada dos fugitivos com os turcos no seu encalço espalha o terror. Alguns, que tentaram atingir os bosques vizinhos, são rapidamente alcançados. Outros, mais espertos, protegem-se numa fortaleza abandonada que apresenta a vantagem de ser encostada ao mar. Não querendo assumir riscos inúteis, o sultão renuncia a sitiá-los. A frota bizantina, rapidamente avisada, virá recuperá-los. Dois a três mil homens escaparão assim. Pierre, o Eremita, que se encontra há alguns dias em Constantinopla, tem dessa forma, ele também, a vida salva. Mas seus partidários têm menos sorte. As mulheres mais jovens foram raptadas pelos cavaleiros do sultão para serem distribuídas aos emires ou vendidas nos mercados de escravos. Alguns rapazes experimentam o mesmo destino. Os outros franj, cerca de vinte mil, sem dúvida, foram exterminados. Kilij Arslan jubila. Acaba por aniquilar esse exército franco que diziam tão temível, sendo que as perdas de suas próprias tropas são insignificantes. Contemplando a vasta destruição amontoada a seus pés, ele acredita viver um de seus mais belos triunfos. E, no entanto, raramente na História, uma vitória terá custado tão caro àqueles que a obtiveram». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT