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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Até Amanhã Camaradas. Manuel Tiago. «Ouça lá, Sr. Zé. Tenho estado a pensar e não acho bem a paródia que temos consigo. Há ocasião para tudo e por vezes não fica bem brincar. Qual é o seu apelido? O meu apelido?...»

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«(…) Diante de um lago lamacento, ensopado em humidade, a estação, tal como a aldeia, parecia deserta. Ninguém no átrio, ninguém no balcão das bagagens, ninguém à bilheteira, ninguém no cais. Nem o ruído de uma voz, nem de qualquer trabalho. Só o tiquetaque da chuva e o gorgolejar de um ralo invisível. Chegado ao fim do cais o forasteiro, ao voltar para trás, deu de súbito com um empregado de calças de ganga e samarra de surrobeco, parado junto ao relógio e olhando distraidamente a linha. A pergunta respondeu calmamente: O Zé Cavalinho deve estar por aí e já lho indica. Ele é lá desses sítios. E, olhando a chuva, acrescentou: E um grande ponto, o Zé Cavalinho. Tirou do bolso uma lata com tabaco, serviu-se e ofereceu: Uma cigarrada? O forasteiro limpou as mãos e fez o seu cigarro. Entretanto o ferroviário enrolara lentamente o tabaco, lambera a mortalha e procurava os fósforos no bolso. É um grande ponto, o Zé Cavalinho, repetiu pausado, ao mesmo tempo que expelia a primeira baforada. O forasteiro teve a clara ideia de que, antes de saber o que queria, teria de ouvir o outro, enquanto durasse o cigarro. Quando para cá veio trabalhar, ninguém o conhecia, começou ele. Como te chamas, como não te chamas, soubemos que era Zé. Passados dias perguntou-lhe um colega, que por sinal nós cá chamamos o Ruço: Donde é você, ó sócio? De Vale da Égua, respondeu ele. Isto não tem nada de extraordinário. Mas a rapaziada achou-lhe graça, e para que nos havia de dar?

O ferroviário chupou nova fumaça e continuou, numa voz calma, olhando distraidamente a chuva de novo mais densa e expelindo o fumo enquanto falava: Começámos a chamar-lhe o Zé da Égua. Não julgue que ele se zangou. Não senhor. Não o conhece? É bom sujeito, mas tem assim uma maneira um pouco cómica de dizer as coisas. Um dia disse-nos: Ouçam lá, rapazes! Se eu sou da égua, sou cavalo, e como sou pequeno, sou cavalinho. Melhor será chamarem-me Zé Cavalinho. Eu não sei fazer como ele e isto dito por mim não vale nada, mas, se você o ouvisse e visse, havia de achar graça. E, dando de quando em quando uma chupada no cigarro e expelindo lentas baforadas, o ferroviário continuou: Aquilo pegou e daí em diante ficou sendo o Zé Cavalinho. Todos lhe chamávamos assim, até o chefe, e ele não se mostrava nada zangado. Aqui está um tipo fixe, dizíamos nós. Ao menos não desconfia.

Até que uma vez o correio deixou uma carta para ele. Que diabo, pensei eu até pelo nome do Zé Cavalinho. Não consinto abusar assim do homem, que já não é nenhuma criança. Cada qual tem o seu nome. Isto pensava eu e parece-me que não pensava mal. Quando depois o encontrei, disse-lhe assim: Ouça lá, Sr. Zé. Tenho estado a pensar e não acho bem a paródia que temos consigo. Há ocasião para tudo e por vezes não fica bem brincar. Qual é o seu apelido? O meu apelido?, disse ele. Sim, o seu apelido, disse eu. A pelido de quê?, tornou ele. O seu apelido, o seu verdadeiro nome, disse eu. O meu nome?, disse ele. Mas sou Zé Cavalinho! Deixe-se de brincadeiras, Sr. Zé, eu pergunto-lhe isto a sério, disse eu. Mas eu também lhe estou a falar a sério, disse ele, chamo-me José Cavalinho, José dos, Santos Cavalinho. No momento eu julguei que era a brincar. Mas não. E assim mesmo o nome dele: José dos Santos Cavalinho. Puxando mais uma fumaça, o ferroviário, sem se preocupar com o efeito das suas palavras, continuou a olhar a chuva que escorria do beiral. Andámos muito tempo a pensar que nos divertíamos com ele e era o patife que se divertia connosco. E encaminhou o forasteiro até à porta. Aproveite que agora chove menos. Siga sempre junto ao muro. Já ai adiante encontra o barracão. Ele está lá de certeza e diz-lhe o que você quer». In Manuel Tiago, Até Amanhã Camaradas, Editorial Avante, 1989, Lisboa, 2001, ISBN 972-747-534-5.

Cortesia de EAvante/JDACT

JDACT, Manuel Tiago, Álvaro Cunhal, Literatura, Comunismo, A Arte, 

Até Amanhã Camaradas. Manuel Tiago. «O outro ficou uns instantes silencioso. Parecia hesitar, Observou com muito interesse o lenço com que o ciclista se limpava e voltou depois a olhar para a pasta de couro, para o fato encharcado, para a estrada inundada e para a chuva caindo»

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«(…) Fez-se um breve silêncio e os homens voltaram a olhar-se. Ná, isso não é para aqui, disse outra voz do lado da mesa. Como disse? Vale da Égua. Com certeza estava enganado, informou o velho do casaquinho. Nascera ali no sítio e ali vivera sempre. Nunca ouvira falar. Decerto se enganava. O velho falava e alguns sorriam. Esta não é a estrada para V...?, perguntou o desconhecido. É, sim, respondeu um dos homens. V..., é já adiante. Se não estivesse tanta chuva, viam-se daqui as casas. O desconhecido chegou à porta, olhou a estrada, tirou e torceu o boné e voltou para dentro, batendo violentamente com ele numa das mãos e mostrando o cabelo empastado na testa. Então nenhum dos senhores sabe? Caminho para onde?, perguntou lá do fundo o taberneiro, que ouvira tudo muito bem, mas entendia dever chamar a atenção do desconhecido para a casa onde se encontrava. Vale da Égua, disse um dos rapazitos. O taberneiro estendeu o beiço inferior, o que tanto podia mostrar não conhecer tal sítio como descontentamento porque o forasteiro se não decidia a fazer despesa. Bom, obrigado!, disse o desconhecido. E ajeitando o boné, puxando para-cima a gola do casaco, chegou-se à porta, olhou ainda o céu e fez-se de novo à chuva. Logo adiante encontrou as primeiras casas, acotoveladas ao longo da estrada inundada. Escorrendo em água, a grande aldeia parecia deserta. Só já no coração da terra descobriu, abrigado num telheiro, um homem gordo em mangas de camisa, com os polegares metidos nas cavas do colete. A sua pergunta, o homem acenou ligeiramente com a cabeça, convidando-o a abrigar-se também. Sempre na mesma posição e no mesmo sítio, mirava atentamente o forasteiro, reparando no seu fato modesto repassado. Não, não, vou vencer-te com o lenço a cara e o pescoço.

O outro ficou uns instantes silencioso. Parecia hesitar, Observou com muito interesse o lenço com que o ciclista se limpava e voltou depois a olhar para a pasta de couro, para o fato encharcado, para a estrada inundada e para a chuva caindo. O senhor não é destes sítios. Não, não sou. E acrescentou, batendo vigorosamente com os pés no chão para não arrefecer: Quem havia ontem de dizer o dia que hoje ia estar. Não era difícil, disse o gordo. Ontem choveu toda a tarde e de noite a chuva não parou. O ciclista compreendeu perfeitamente estas palavras. Elas significavam: Se não quiseres dizer, não digas o que te obriga a meteres-te ao temporal. Mas não julgues que me comes por parvo. Ao compreendê-las assim, pensou que fizera mal em abrigar-se ali.

Tanta chuva é capaz de dar cabo das culturas. Não dá cabo de nada, replicou o gordo com voz irritada. O mal é se não chovesse. Vê-se bem que o senhor não trabalha no campo. Se calhar é viajante. Não, não sou viajante, respondeu o forasteiro. Estou a arrefecer por estar parado, acrescentou esfregando as mãos e continuando a bater com os pés. Meter-se a esta chuva é que com certeza não dá saúde, disse o gordo. O ciclista compreendeu também perfeitamente estas palavras: O que tu queres é ir-te embora para evitares conversa, mas eu entendo-te muito bem. E o caminho para Vale da Égua? Sai daqui da terra? O gordo, sempre com os dedos nas cavas do colete, não bulia do mesmo sítio. O rosto parecia inalterável. Mas nos olhitos avermelhados adivinhava-se a profunda irritação da curiosidade insatisfeita. Eu sei lá onde isso fica!, exclamou como se a pergunta fosse um disparate. Sempre a bater os pés no chão, o forasteiro suspendeu o movimento das mãos que esfregava e voltou bruscamente a cabeça para o outro. Instintivamente o gordo deu um passo atrás, como esperando uma agressão. Já o forasteiro, com gestos lentos, ajustava as peúgas por fora das calças encharcadas, aconchegava o boné à cabeça e a gola do casaco ao pescoço, agarrava a bicicleta e saía à estrada. Então, bom-dia. Vá com Deus!, respondeu debaixo do telheiro a voz colérica do gordo. Abrandara o vento, chovia menos, mas na estrada inundada e cheia de covas, a bicicleta rolava com dificuldade. O ciclista lembrava-se do que lhe haviam dito: Apeias-te na estação, perguntas aí e logo te dizem. Não lhe conviera vir de comboio, mas deveria ter-se dirigido na mesma à estação. Pensando que se havia de ver da estrada, resolveu não perguntar nada a ninguém até lá chegar». In Manuel Tiago, Até Amanhã Camaradas, Editorial Avante, 1989, Lisboa, 2001, ISBN 972-747-534-5.

Cortesia de EAvante/JDACT

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