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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As Duas Caras. Guimarães. Barroso da Fonte. «Depois de ter dado à luz o nosso querido País, Guimarães continuou a alimentar as suas conquistas, fornecendo filhos seus que, nos séculos XVII e XVIII militaram, com destaque, em Mazagão, ajudando a gravar páginas gloriosas da epopeia norte-africana»


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«(…) Uma terceira família Vimaranense que deixou fama em Mazagão tinha o apelido de Ferreira. O tronco nascera em Guimarães, na pessoa de Domingos Ferreira. Silvestre Ferreira Silva, seu filho, partiu para aquela praça do norte de África, servindo nas armas, desde 1 de Novembro de 1712, até 13 de Setembro de 1721.Aí casou com D. Luísa da Conceição que descendia dos Riscados de Mazagão. Tiveram dois filhos e duas filhas, uma das quais se chamava Cláudia Maria de África. Finalmente, uma quarta figura vimaranense, aparece nos registos dos portugueses que passaram por Mazagão. Chamou-se D. Jerónima Cardosa e foi registada em 18 de Novembro de 1729.Sabe-se que nasceu em Guimarães e rumou até àquela praça do norte de África, com o intuito de servir como parteira. E não foi inútil essa função, na medida em que nasciam em Mazagão algumas centenas de crianças, em cada ano.
Augusto Ferreira Amaral termina assim a sua comunicação, em 1978: Depois de ter dado à luz o nosso querido País, Guimarães continuou a alimentar as suas conquistas, fornecendo filhos seus que, nos séculos XVII e XVIII militaram, com destaque, em Mazagão, ajudando a gravar páginas gloriosas da epopeia norte-africana. Depois deste excelente relato sobre o relevante papel dos vimaranenses na expansão ultramarina não tivemos coragem de olvidar esta ligação às principais praças marroquinas. Ninguém, até hoje, se terá lembrado de estabelecer este elo a Guimarães. Mas ele é decisivo e constitui mais um soberano pretexto para encher de orgulho as gentes da cidade-berço.

Relação entre Portugal e Marrocos
Uma questão que pode colocar-se, face ao papel dos portugueses nas principais praças do norte de África, permite interrogar a consciência colectiva, sobre o determinismo da nossa trajectória histórica: que destino teria cabido a Portugal se, em vez de apostar na expansão através dos mares, tivesse concentrado a sua acção em Marrocos, o prolongamento do Algarve?
Em 1915, Carneiro Moura, proferiu uma palestra que foi publicada no Boletim Comemorativo do V Centenário da Tomada de Ceuta, da Sociedade de Geografia de Lisboa. São interessantes as considerações que faz em torno desta questão. E por isso mesmo deixo aqui algumas passagens mais significativas: O que Portugal, por uma hábil política, deveria ter feito, era expandir o seu génio civilizador por toda a parte, onde chegassem os seus navegantes e os seus empreendedores homens de comércio, mas correu perigo a sua consistência de Estado, desde que tentou deixar governos e leis, militares e funcionários, por toda a superfície da terra.
Foi excessiva a dispersão. Portugal, que não fora pequeno e insuficiente para levar o seu génio civilizador às costas do oriente e do ocidente de África, deixando pelo Atlântico o rasto duma passagem heróica, e que pôde afirmar a sua mentalidade no Industão e no oriente asiático, no Japão e no arquipélago de Sonda, preparou a sua ruína, quando pretendeu materializar o seu grande poder expansivo em instituições políticas de organizações dispersas e enfraquecedoras. Se Portugal, depois de levar a toda a parte a influência da sua civilização, se tem confinado na obra política e de domínio que se limitasse à acção mediterrânica, com base no domínio marroquino, outro teria sido o seu caminho através da História. Tudo teria mudado.
No século XVI ocuparam os portugueses vários pontos da costa marroquina do Atlântico. Não soubemos, porém, herdar o poder dos Merinides de Fez, como os espanhóis não puderam recebê-lo dos Zianides de Tlemcen, quando estas duas dinastias desapareceram, em 1554. Se no século XVI não andássemos empenhados na absorvente aventura marítima, teriam compreendido os portugueses dirigentes de então que, já que era impossível prosseguir nas conquistas dentro da península, estava aberto e indicado o caminho para realizar um maior Portugal no Gharb d'além mar. Marrocos seria, naturalmente a prolongação do Algarve, o Ghard d'áquem mar, que Afonso III conquistara aos mouros». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

As Duas Caras. Guimarães. Barroso da Fonte. «No século XVI, Marrocos era um país sem segurança, sem governo, e, graças a certas aproximações étnicas, nenhum povo europeu poderia melhor que o português realizar a obra da civilização e organização marroquina»


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Relação entre Portugal e Marrocos
«(…) Dois cherifes, descendentes de Ali, fixaram-se, no fim do século XIII, no sul de Marrocos. O primeiro, estabelecido no vale de Draa, originou a dinastia dos cherifes saadios, que, depois de vencer os Merinides, governou em Marrocos até 1659. O segundo, estabelecendo-se em Sidjilmassa, é o fundador dos cherifes hassanides que substituíram os cherifes saadios, cujos descendentes ainda hoje governam em Marrocos. A dinastia hassanide atingiu o apogeu do seu poder sob Mulai-Abu-Nacer-Ismais (1672-1727), o qual, apoiado por negros, dominou os berberes, rasgou o país de estradas, engrandeceu a sua residência em Meknes, expulsou os portugueses das costas do Atlântico e, em 1684 tirou Tânger à Inglaterra, que nós lhe havíamos cedido em 1661. A Espanha continuou na posse de Ceuta, que Portugal lhe cedera em 1668.
Morto aquele enérgico chefe, a sua dinastia foi enfraquecendo sempre e as tribus berberas de Marrocos têm, depois daquela morte, vivido independentes. Quer dizer: teria sido possível a Portugal, com firme e hábil política, criar, defender, sustentar e engrandecer uma prolongação do seu domínio no Gharb d'álem mar. Mais facilmente o teria feito do que sustentar o império da Índia, onde ficou perdido muito e mal empregado esforço de gente portuguesa. Hoje, Marrocos é um anacronismo junto à civilização europeia.
O Maghreb e Aksa é o extremo ocidente impenetrável e feroz. Ainda até há pouco os navios que se aproximavam das costas do Rif corriam grave risco. As potências rivais deixaram prolongar aquele desafio contra a civilização. A França, que tinha em Marrocos uma fronteira de 1000 quilómetros, justifica os seus direitos sobre o desmantelado império. Já pela declaração de 8 de Abril de 1904 a Inglaterra reconhecera os direitos da França sobre Marrocos pela sua ligação com a Algeria e a Tunísia. Portugal poderia ter realizado em Marrocos a obra que a França pôde realizar na Algeria, a nova França. Marrocos é a região do norte de África mais valiosa e favorecida; lá a invasão árabe não foi devastadora.

Mapa de Marrocos em 1912

A região marroquina é a mais arborizada, e ali as chuvas são abundantes e regulares. A cordilheira do Atlas defende Marrocos da devastação do deserto. O litoral marroquino é extraordinariamente fértil. O subsolo, pouco conhecido, é presuntivamente tão rico como o da Argélia e o da Espanha. Está ali uma grande riqueza a explorar, e que grandeza não teria Portugal atingido, se, em vez de andar mundo fora a procurar experiências distantes, se habilitasse, na tradição mineira de Adiça, a desenvolver as indústrias agrícola e extractiva nos campos vastos dos seus naturais domínios.
É Marrocos a região do norte africano onde a influência dos invasores tem sido mais passageira. Ali domina o fanatismo muçulmano mais vivo. Os dez milhões de marroquinos são ferozes contra os cristãos. Mas isso não prova que os portugueses não pudessem, ali mais facilmente do que na Índia, prolongar o seu império. Os marroquinos nunca puderam organizar-se em poder regular. Ao lado do blad-el-maghzen (país do governo) existe o bad-el-esciva (país dos insubmissos). A região de Marrakech e a de Fez, bem como o Gharb propriamente dito, têm organização de governo.
O Gharb é um maravilhoso país agrícola, sobretudo para a criação de gados. O Rif e a região montanhosa dos Braber são ocupados por sociedades anárquicas, sectárias e incultas. O país de Jabala é de gente insubmissa, como em regra toda a região montanhosa marroquina. No século XVI, Marrocos era um país sem segurança, sem governo, e, graças a certas aproximações étnicas, nenhum povo europeu poderia melhor que o português realizar a obra da civilização e organização marroquina. Esta obra, porfiada e útil, não a quiseram realizar os homens de Portugal, enleados na obra aventurosa e dispersiva do domínio através dos mares. E grande podia ter sido a obra de Portugal em Marrocos, onde ainda hoje não há comunicações com o interior. Há apenas, nas regiões menos desorganizadas, algumas nzalas, espécie de casas de refúgio. Ainda hoje, para ir de Marrakech a Fez, é necessário passar pela região de Rabat para evitar os latrocínios de Zaian e Zemmur». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças. «Em 2004 a cidade de Mazagão foi classificada pela ‘Unesco’ como “Património Mundial”, constituindo um importante exemplo do intercâmbio das culturas europeia e marroquina. As primeiras obras portuguesas em Mazagão foram realizadas por ordem do rei Manuel I»


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Vejamos a Breve Descrição que o IGESPAR faz de Mazagão
«A cidade portuguesa de Mazagão, actual El Jadida, localiza-se em Marrocos, na costa ocidental africana, a sul de Casablanca. Foi fundada pelos portugueses nos inícios do século XVI como entreposto comercial e militar na rota marítima para a Índia. A cidade manteve-se na posse da coroa até 1769, data em que foi conquistada em definitivo pelos marroquinos. Após a retirada portuguesa, a cidade esteve cinquenta anos abandonada o que lhe valeu a designação de al-Mahdouma (a arruinada). Já no século XIX , o sultão Moulay Abderrahmane reabilitou a cidade que passou a chamar-se El Jadida (a Nova). Mazagão, inserida no perímetro urbano de El Jadida, apresenta ainda hoje diversos testemunhos da presença portuguesa: o primitivo castelo, a fortaleza, a cisterna e as igrejas de Nossa Senhora da Assunção, da Piedade e de Nossa Senhora da Luz. Em 2004 a cidade de Mazagão foi classificada pela Unesco como Património Mundial, constituindo um importante exemplo do intercâmbio das culturas europeia e marroquina. As primeiras obras portuguesas em Mazagão foram realizadas por ordem do rei Manuel I, que aí mandou erguer um castelo em 1514, traçado pelos irmãos Diogo e Francisco de Arruda. Considerando-se pouco eficaz o sistema defensivo manuelino, João III encomendou ao engenheiro italiano Benedetto de Ravena o projecto de construção de uma cidade fortificada. A construção da obra ficou a cargo de João de Castilho e João Ribeiro. Esta fortaleza, fundada em 1541, constitui o primeiro exemplo de arquitectura militar europeia erguida fora da Europa, tendo influenciado as praças portuguesas posteriormente construídas no Norte de África. A fortaleza de Mazagão apresenta a forma de um quadrilátero irregular, rematado por quatro frentes abaluartadas. Duas das faces estão viradas à costa e duas ao eixo terrestre, facto que traduz o carácter iminentemente militar e defensivo da construção. Atestando a sua robustez, o fosso da fortaleza permitia a entrada de embarcações através do sistema de comportas. No interior da praça localizavam-se vários equipamentos de assistência como o hospital, a vedoria, os celeiros, o palácio do governador, os armazéns, a cisterna, o chafariz, igrejas e ermidas. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, antiga padroeira da vila, guarda ainda hoje lápides funerárias portuguesas. São também visíveis alguns vestígios do antigo Palácio dos Governadores no edifício da actual mesquita. A cisterna, localizada no pátio interior da primitiva fortaleza manuelina, foi construída por João de Castilho, tendo sido concluída em 1547 por Lourenço Franco». In IGESPAR



Continuando:
«A fonte que vimos citando diz-nos que não ficaram por aqui estes Carvalhos Vimaranenses. Um sobrinho de João Fernandes Carvalho, filho dum irmão que se chamou António de Freitas Padrão, que teve o nome de Manuel de Freitas Padrão, nasceu em Guimarães, mas logo se mudou para Mazagão, onde prestou serviço, desde 1 de Novembro de 1772, até 31 de Outubro de 1728, como militar e em diversos postos. Rezam as crónicas que travou, sempre com grande êxito, vários combates com os mouros. Até que viria a morrer numa pelourada na batalha que os Portugueses travaram com mais de 3 mil mouros, em 13 de Janeiro de 1742. O combate durou quatro horas, tendo morrido 120 mouros e 3 portugueses, entre os quais Manuel de Freitas Padrão. Pela sua carreira brilhante teve várias recompensas durante a vida e depois da morte, através de família. Casara em Mazagão com D. Francisca Valente da Costa de quem teve um filho, João Fernandes Carvalho, que morreu solteiro e duas filhas, ambas casadas em Mazagão.
Um outro Vimaranense, sobrinho do vedor Fernandes Carvalho, se notabilizou nessa Praça marroquina: Lucas de Freitas Carvalho, filho de Sebastião Carvalho. Assentou praça em 1 de Novembro de 1712, servindo o exército português até 18 de Maio de 1726, como cavaleiro espingardeiro. Mas não acabou, por aqui, a sua carreira militar, pois serviu em vários postos da hierarquia, até 8 de Janeiro de 1758 data em que faleceu. Casara em Mazagão com D. Inês Soares, havendo quatro filhas e quatro filhos do enlace matrimonial. Todos os varões seguiram a carreira das armas. E um deles, de nome Sebastião Carvalho, chegou ao posto de alferes. Os últimos anos de vida passou-os no Brasil, dedicando-se à lavoura.
Mas não foi só a família dos Carvalhos, de origem Vimaranense, que marcou presença em Mazagão. Também a família dos Velacos Bélicos deixou rasto, pelos tempos fora. O primeiro suporte foi João Lourenço Bélico, nascido em Guimarães. Era filho de António Lourenço e partiu para Mazagão, onde serviu como militar, entre Janeiro de 1672 e 8 de Março de 1692, data em que morreu, após uma queda, quando perseguia os mouros. Aí casou com D. Joana de Veloso. Nasceram, deste casamento, quatro filhos e uma filha. António Lourenço Velasco, Francisco Gonçalves Velasco, Manuel Lourenço Velasco e João Lourenço Bélico, filhos do casal, serviram as armas e todos moraram na Casa-Real. Sabe-se que os três primeiros casaram aí mesmo e todos tiveram muitos filhos, alguns dos quais, após o abandono da Fortaleza, se fixaram em Lisboa, onde, diz a nossa fonte, ainda perdura o apelido de Velasco Bélico». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças. «… ponderando as vantagens e os inconvenientes da sustentação daquela última possessão norte-africana, optou pelo abandono, dando nesse sentido instruções ao governador Dinis Melo Castro Mendonça»



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Vimaranenses em Mazagão
«Foi Jaime, duque de Bragança que em 29 de Agosto de 1513, desembarcou no porto de Mazagão, próximo da cidade de Azamor, com a deliberada intenção de a conquistar, cumprindo ordens do rei Manuel I. O duque Jaime projectou para ali uma fortificação que albergasse dois a três mil moyos de pãao, garantindo a V.A. que he o melhor porto do mundo. O rei aceitou o desafio e, no ano seguinte, estava construída a fortificação que o duque Jaime sugerira. Usufruía de uma localização ideal para os objectivos dos Portugueses que nela permaneceram durante dois séculos e meio.
Distava a cerca de 400 quilómetros da ponta de Sagres, constituindo uma linha avançada para reabastecimento das expedições que viriam a suceder-se, rumo aos muitos destinos da lusitana gente. Actualmente a cidade de Mazagão está integrada na cidade marroquina de El Jadida. Entre 1541e 1550 foram sucessivamente evacuadas algumas praças portuguesas, Santa Cruz do Cabo Gué, Azamor, Safim e Arzila, pelo que a partir dessa data ficou Mazagão a constituir a única cidade portuguesa na costa ocidental marroquina. Esse facto fez com que se intensificassem as lutas movidas pelos mouros da província de Duquela. Essas lutas prolongaram-se até à segunda metade do século XVIII, sobressaindo sempre, com nota alta, a acção dos Portugueses. Até que em plena época pombalina se verificou o golpe fatal para a nossa presença. Em 1769 os maometanos cercaram a praça e o conde de Oeiras, ponderando as vantagens e os inconvenientes da sustentação daquela última possessão norte-africana, optou pelo abandono, dando nesse sentido instruções ao governador Dinis Melo Castro Mendonça.
Na sequência dessa decisão os portugueses que ali residiam, foram evacuados para Lisboa, via marítima, o que causou grande descontentamento na maior parte das pessoas. Algumas delas encontraram dificuldades à chegada a Lisboa. E por isso meteram-se a caminho, atravessaram o Atlântico, em embarcações da Coroa, fixando-se na foz do Amazonas, no Brasil, aí fundando uma cidade a que chamaram, precisamente, Mazagão. A praça de Mazagão distava a escassos 16 quilómetros de Azamor. Tinha 6 ha de área, rodeada pelo mar e, na parte restante, com muros de 15 metros de altura, contra 8 de largura. A partir do século XVII a população residente em Mazagão rondava os dois mil habitantes, 70% dos quais pertenciam à casa real.
De Guimarães partiram para Mazagão nobres famílias que por ali criaram raízes. No século XVII, por exemplo, saiu Manuel de Freitas Padrão que exerceu a actividade de pintor. Mais tarde foi escrivão e almoxarife. João Fernandes de Carvalho, nascido em Guimarães, fixou-se em Mazagão, em 10 de Agosto de 1698. Aí prestou serviço militar até Outubro de 1726. Depois de 27 anos como soldado infante, ascendeu, sucessivamente, a outros postos militares, chegando a alferes. Em 1 de Novembro de 1726 assumiu as funções de vedor-geral, cargo que exerceu até 31 de Dezembro de 1733, com elevada competência. Os três anos seguintes ocupou-os como procurador do povo, que era dos cargos mais honrosos e nobres da vila.
Pela brilhante carreira que desempenhou obteve merecê régia do ofício de comissário de mostra de Mazagão por 6 anos, vindo a ser cavaleiro professo na Ordem de Cristo. Casou duas vezes. A primeira mulher chamou-se D. Antónia Veiga que já era viúva de um dos mais nobres cidadãos da praça de Mazagão, de apelido Valentes. Deste casamento houve uma filha que igualmente casou bem, em Mazagão. O segundo casamento aconteceu com D. Maria da Cunha, filha do alcaide-mor Luís de Loureiro Abreu, oriundo da nobreza do tempo. Deste segundo matrimónio nasceram 4 filhas e 2 filhos. Os rapazes chamaram-se Luís de Loureiro Abreu Carvalho e António de Freitas Padrão. Sabe-se, segundo Augusto Ferreira do Amaral nos conta num estudo que foi publicado no III volume das Actas do Congresso Histórico (1978), que o filho Luís serviu nas forças armadas de Mazagão, desde 16 de Janeiro de 1744 até 1755, ocupando, sucessivamente, os postos de soldado infante, cavaleiro, espingardeiro, tenente e capitão da guarda dos apartados. Seguiu o exemplo do pai casando 2 vezes e teve 2 filhos: Domingos Vaz Pinho e João Luís Loureiro Abreu». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças. «Na primavera de 1513 Manuel I montara o quartel-general em Évora, cidade de que muito gostava. E, a partir daí, deu as suas instruções para que o norte de África fosse tarefa prioritária da expansão portuguesa. É então que Jaime, o duque de Bragança, regressa do exílio…»


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Em 1513, Jaime, quarto duque de Bragança, conquista Azamor
«Damião Peres começa o seu estudo afirmando que nos primeiros anos do século XVI o domínio português em Marrocos cifra-se na posse das praças setentrionais: Ceuta, Alcácer-Ceguer, Tânger, Arzila, Safim, Azamor e Meça.
Desde 1504, Manuel I mudou a sua política marroquina, substituindo a exploração comercial pelo domínio militar. Com este procedimento procurava cortar o passo aos castelhanos que já tinha ascendência, desde os princípios do século XV, no presídio de Santa Cruz do Mar-Pequeno, na costa fronteira à Grã-Canária. E, no ano de 1504, tinham chegado a Agadir, de onde, pouco depois, foram expulsos pelos mouros.
Para demonstrar aos castelhanos que aquele terreno era objectivo português, o rei Manuel I permitiu que João Lopes Sequeira edificasse, à sua custa, uma fortaleza perto de Agadir, dando-lhe o nome de Santa Cruz do Cabo de Guer. Em 1506, Manuel I enviou Diogo de Azambuja com uma expedição, com o objectivo de fundar uma outra fortaleza a meia distância, entre Cabo de Guer e Safim, próximo de Mogador que era um porto de piratas. A fortaleza recebeu o nome de Castelo Real ficando ele próprio capitão, não só de Castelo Real como de Safim. Por essa mesma altura mandou edificar uma terceira praça que recebeu o nome de Aguz.
Por essa altura o rei português tinha assegurado ao papa Leão X que os portugueses iriam abrir caminho em todo o reino de Fez e de Marrocos, pacificando esses territórios para a Fé católica.
Na primavera de 1513 Manuel I montara o quartel-general em Évora, cidade de que muito gostava. E, a partir daí, deu as suas instruções para que o norte de África fosse tarefa prioritária da expansão portuguesa. É então que Jaime, o duque de Bragança, regressa do exílio, em 1496 e, à custa dos seus próprios bens, entretanto devolvidos, organiza a expedição composta por três mil soldados de infantaria e meio milhar de cavaleiros, com nobres famílias à frente, avançado para os objectivos atrás enunciados.
Sabe-se, é Damião Peres que o escreve, que a expedição foi planeada para sair do Tejo, em 15 de Julho de 1513. Contudo, somente saiu em 16 de Agosto. A primeira frota chegou a Lagos em 17 e, dia 18, passou em Faro, onde todos se ajuntaram. Em 22 de Agosto deu o duque  Jaime a conhecer os verdadeiros fins da missão expedicionária. Alcançar a foz do Rio Azamor era o objectivo, o que foi conseguido, após cinco dias de viagem. Só que surgiu um intenso nevoeiro que complicou a missão. O duque resolveu desviar as atenções, desembarcando em Mazagão. Foi em 29 de Agosto. Durante 4 dias descansaram os expedicionários, enquanto se estudavam os últimos pormenores para o assalto que seria coroado de êxito, em 3 de Setembro de 1513. Mais este feito dos portugueses depressa correu mundo.
O próprio papa agradeceu ao rei Lusitano. E alguns autores célebres o Resende, a Camões, a Gil Vicente. Também os artistas da época resumiram esses feitos em três tapeçarias que se encontram na Fundação da Casa de Bragança, em Vila Viçosa. A primeira simboliza o desembarque. O segundo painel alude aos preparativos e o cerco; e, finalmente, o terceiro painel refere-se ao cerco da praça. Era hábito, nessa altura, traduzir em tapeçarias, a partir do desenho, os factos mais relevantes da vida nacional.
Como se sabe também no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, existem 4 tapeçarias, conhecidas pelo nome de Pastrana, por terem sido encontradas, em 1915, na vila de Pastrana, a cerca de 47 km a norte de Madrid. Essas tapeçarias simbolizam, do mesmo modo, o desembarque das nossas tropas, em Arzila (1471), o cerco e o assalto.
A quarta reporta-se à entrada dos Portugueses na cidade de Tânger, sem qualquer resistência. A presença dos portugueses está, desta forma, bem documentada nos museus nacionais». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

sábado, 13 de outubro de 2012

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças. «Por isso o mapa da época chama Algarve ao Norte de África, o que explica os títulos dos reis portugueses de então: ‘Senhor dos Algarves, de Aquém e Além-Mar em África’»


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(Continuação)
«’Em 1458, após várias discussões na Corte, a ofensiva africana seguia em frente: em 23 de Outubro de 1458, Afonso V toma Alcácer Ceguer aos mouros. Situada a meio caminho entre Tânger e Ceuta, Alcácer Ceguer será portuguesa durante 102 anos, mas a sua importância foi sendo cada vez menor por culpa da capacidade inimiga. Assim, a conquista e a expansão portuguesas em Marrocos praticamente nunca passaram do litoral, dada a força crescente dos inimigos que se aliavam pontualmente contra Portugal. O nosso único grande recurso era o poder naval. E isso ressalta claramente quando se olha para o mapa e se verifica que de Alcácer Ceguer a Mogador são tudo fortalezas erguidas na costa, castelos de pedra fincados na areia e beijados pelo Atlântico, o mesmo do Algarve, de Lisboa e do Porto. Daí Alcácer Ceguer, Arzila, Casablanca, Azamor, Mazagão, Safi, Aguz e Mogador. Batalhar em África, nesse tempo, era deixar abertas as linhas de navegação que conduziam à Índia e guardar os apetites contra o Algarve. Por isso o mapa da época chama Algarve ao Norte de África, o que explica os títulos dos reis portugueses de então: ‘Senhor dos Algarves, de Aquém e Além-Mar em África’.

Em 1513, Jaime, quarto duque de Bragança, conquista Azamor
Já vimos que o quarto duque de Bragança, Jaime, conquistou Mazagão, em 29 de Agosto de 1513. Aportou aí por conveniência, já que o seu principal objectivo era a conquista do porto de Azamor, cumprindo ordens de Manuel I, seu tio.
Em Mazagão que um ano depois estava transformado num dos mais importantes portos do norte de África, o duque Jaime estacionou para os preparativos do assalto a Azamor.
O historiador Damião Peres escreveu, em 1951, um opúsculo acerca da ‘conquista de Azamor pelo Duque de Bragança, Jaime’. Nesse opúsculo resume os pormenores do ataque e da ocupação desta fortaleza que teve grande importância para o nosso país.
Diz Damião Peres que na manhã de 3 de Setembro de 1513 fez Jaime a entrada triunfal em Azamor, acompanhado do seu luzido estado-maior de fidalgos. Algumas povoações vizinhas de Azamor, mal souberam da eficácia da operação, abandonaram as suas habitações. E esse feito lusitano assustou a população marroquina, a ponto de chegarem a Portugal os ecos desse feito expansionista.
Damião Peres começa o seu estudo afirmando que nos primeiros anos do século XVI o domínio português em Marrocos cifra-se na posse das praças setentrionais: Ceuta, Alcácer-Ceguer, Tânger, Arzila, Safim, Azamor e Meça». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças: «O que nos levava ao Norte de África? Era a busca do trigo, a expansão da Fé, o dar ocupação e terras à nobreza, a tentativa de cortar as rotas sarianas do ouro e dos produtos da África de além-deserto, conseguir bases de apoio para os barcos na sua descida pela costa africana»


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«Depois desta interpretação explicativa vem a tradução do latim para o português que diz o seguinte:

No dia seguinte, porém, sábado, festa de S. Bartolomeu, 24 do mesmo mês de Agosto, antes do nascer do sol, exortando o rei aos homens de armas, uns pelas recentes brechas do muro, outros encostando escadas à vista (do inimigo), entram com sumo ímpeto a cidade, onde também se travou uma luta acérrima e houve grande mortandade nos que já combatiam a pé quedo.
Depois a maior parte dos mouros refugiam-se tumultuariamente no fortificadíssimo castelo, onde, assim como era mais difícil a entrada, assim também foi maior o perigo e maior a mortandade que se seguiu. Prolongou-se até o meio-dia por toda a parte, um combate atroz, qual o costuma ser entre vencedores cheios de ira e vencidos desesperados. De mouros de ambos os sexos que sobreviveram ao grande morticínio e de riquezas fez-se maior presa do que era de supor, em vista do tamanho da cidade. É que era o principal empório desta região. O liberalíssimo rei deu todos os despojos aos soldados’.


Até há poucas décadas atrás, nas escolas primárias, havia mapas de Portugal de Aquém e Além-Mar. E os reis do tempo chamavam-se ‘Senhores dos Algarves de aquém e além-mar em África’, querendo com esse designativo dizer que o norte de África era português.
Pinto Garcia, director de ‘Notícias Magazine’, acompanhou, em Novembro de 1993, um grupo de Amigos dos Castelos que visitaram as fortalezas de Marrocos que foram fundadas pelos portugueses. Do que viu e ouviu fez uma reportagem:

O que nos levava ao Norte de África? Era a busca do trigo, a expansão da Fé, o dar ocupação e terras à nobreza, a tentativa de cortar as rotas sarianas do ouro e dos produtos da África de além-deserto, mesmo conseguir bases de apoio para os barcos portugueses na sua descida pela costa africana. Na época existia a ideia de que Marrocos era um grande celeiro. Parte da dieta alimentar estaria assim resolvida. Mas a conquista de Ceuta foi uma ilusão. De 1418 a 1421, os portugueses de cercadores passaram a cercados. Com o desenrolar dos acontecimentos foi fácil de verificar que o potencial militar português não tinha força por terra. Regista-se então uma alteração estratégica: passamos a utilizar a via marítima.
Em 1458, após várias discussões na Corte, a ofensiva africana seguia em frente: em 23 de Outubro de 1458, Afonso V toma Alcácer Ceguer aos mouros. Situada a meio caminho entre Tânger e Ceuta, Alcácer Ceguer será portuguesa durante 102 anos, mas a sua importância foi sendo cada vez menor por culpa da capacidade inimiga. Continua».

In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças: «E como na terça-feira, sexto dia depois da partida, entrasse no porto de Arzila, opulentíssima cidade dos mouros, no dia seguinte, quarta-feira, ainda que o mar, pela sua braveza, tornasse perigosíssimo o desembarque da gente, contudo o Rei, de ânimo esforçado para todas as dificuldades…»


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«Além dos estudos que Reinaldo dos Santos publicou, outros trabalhos se foram editando sobre as mesmas tapeçarias, merecendo destaque a ‘separata da Revista de Artilharia’ (1987) da autoria de Nuno Varela Rubim. São 40 páginas de análise histórica e militar que nos serviram de apoio ao que sobre essa matéria publicámos em ‘Aspectos Menos Conhecidos do Paço dos Duques de Bragança’ (1991).
Como a função deste livro não é tanto a descrição do pormenor técnico do Museu, como a história que nos liga ao norte de África, remetemos o leitor para aquele livro da nossa autoria, ficando-nos com alguns elementos que naquele não inserimos, por desconhecimento, na altura. De facto veio-nos à mão uma cópia da tradução latina da primeira e terceira tapeçarias, reproduzidas em ‘1943 e 1949’ respectivamente. A versão foi feita pelo latinista José Maria Rodrigues a pedido de José de Figueiredo. É pena que não tenhamos a tradução da segunda e da quarta tapeçarias porque seria um bom contributo para o seu estudo integral.
A primeira tapeçaria simboliza o ‘Desembarque’ e nela se lê o seguinte: ‘Real Fabrica de Tapices – STVYCY, Madrid 1943’. Mais acima lê-se também: ‘Reproduccion de VN Tapiz Del Siglo XV Que Representa El Desembarco Del Rey Alfonso V de Portugal En Arcila. Reconstituyo El Dibujo Faustino Alvarez’.
A tradução do latim para o Português reza assim:
  • O sereníssimo e vitorisíssimo (D.) Afonso V, pela graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves de aquém e de além-mar em África, como já muitas outras vezes (o tinha feito), para exaltação da fé católica, assim também no ano do Senhor de 1471, a 15 do mês de Agosto, festa da Beata Virgem (Maria), navegando do porto de Lisboa, juntamente com o Sereníssimo príncipe (D.) João, seu filho único, primogénito e herdeiro, passou à África com uma frota de quatrocentas naus e outras embarcações e com um exército de trinta mil homens, a fim de combater contra os mouros, pela fé de Cristo. E como na terça-feira, sexto dia depois da partida, entrasse no porto de Arzila, opulentíssima cidade dos mouros, no dia seguinte, quarta-feira, ainda que o mar, pela sua braveza, tornasse perigosíssimo o desembarque da gente, contudo o Rei, de ânimo esforçado para todas as dificuldades, considerando que por muitos motivos, nada lhe era mais perigoso nesta conjuntura do que a demora e a hesitação, suplantado o risco da vida pelo grande ardor da fé, saiu para terra, afundando-se em volta muitos batéis e perecendo submergidos pelas ondas alguns nobres, com suma dor dele.
Da segunda tapeçaria que simboliza o ‘Cerco’ (outros chamam-lhe o ‘assalto’) sabe-se que foi reproduzida em 1944. Não temos a tradução do texto que nela se lê. Também não possuímos a tradução da quarta tapeçaria que simboliza a entrada em Tânger e que foi reproduzida em 1936. Mas temos a tradução da terceira que significa o assalto e que tal como a primeira procura retransmitir o arraial dentro do palanque com Arzila ao centro e o friso de gávias e mastros de naus ao fundo, distinguindo-se a divisa régia. Mas como diz o intérprete do texto latino ‘à estática do cerco segue-se a dinâmica do assalto em que a hoste se precipita contra as brechas da muralha entre uma chuva de dardos que criaram as adargas e o ramalhar duma floresta de aço’».




In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças: « Essas quatro tapeçarias foram encontradas, em 1915, por José de Figueiredo e Reinaldo dos Santos. Numa deslocação a Pastrana, vila que dista a cerca de 47 km a NE de Madrid, identificaram essas três valiosas peças que se reportam à tomada de Arzila pelas tropas Portuguesas, em 1471»



jdact e cortesia de wikipedia

«Do opúsculo que seguimos para ligar Geraldo Geraldes ao norte de África transcrevemos um mapa que explica “as incursões terrestres e marítimas dos portugueses e dos mouros entre 1178 e 1184”.
O norte de África, nomeadamente Marrocos, foi o varandim para as cruzadas que, a partir de 1415, os Portugueses iriam desenvolver, umas com mais brilho do que outras, mas todas demonstrativas da coragem e do estoicismo que o Povo Lusitano sempre colocou nas suas decisões.

Arzila - Portuguesa desde 1471
Quem passa pelo Museu do Paço dos Duques de Bragança repara, naturalmente, em 4 riquíssimas tapeçarias. Duas dessas tapeçarias encontram-se no salão dos “Passos Perdidos, desembarque e cerco”, uma terceira está exposta no “Salão dos Banquetes, o assalto a Arzila”, e a quarta, vê-se no “Salão Nobre”, simbolizando a entrada triunfal dos Portugueses em Tânger, sem qualquer resistência e com João de Bragança à frente das tropas.
Essas quatro tapeçarias foram encontradas, em 1915, por José de Figueiredo e Reinaldo dos Santos. Numa deslocação a Pastrana, vila que dista a cerca de 47 km a NE de Madrid, identificaram essas três valiosas peças que se reportam à tomada de Arzila pelas tropas Portuguesas, em 1471. Em 1924 Reinaldo dos Santos voltou a Pastrana, fotografou essas tapeçarias e, no ano seguinte, publicou um livro sobre elas, chamando ao livro:
  • “As Tapeçarias da Tomada de Arzila”.
Em 1926 Afonso de Ornelas voltou a Pastrana e aí descobriu a quarta tapeçaria. Todas elas foram executadas com base nos painéis de Nuno Gonçalves, um artista Português do século XV. Terão sido dadas pelos Filipes a um dos filhos do português Rui Gomes da Silva que optou pela vida eclesiástica, com o nome de frei Pedro Gonçalez de Mendonça (1564-1639). Veio a ser bispo de Granada, Saragoça e Siguença, tendo feito da igreja de Pastrana o panteão dos Silvas. Daí o ter reunido, nessa Igreja, as Tapeçarias que os Filipes lhe ofereceram e que se reportavam à tomada de Arzila e de Tânger pelas tropas portuguesas.
Quando, em 1915, foram identificadas, o Governo Português fez diligências junto do governo Espanhol para lhe devolver as tapeçarias. Contudo foram infrutíferas essas diligências. De facto o Governo galego apenas permitiu que fossem reproduzidas, ficando os originais no Escorial. Essas cópias acabaram por ser atribuídas ao Museu do Paço dos Duques de Bragança, constituindo um elo de ligação dos Vimaranenses às conquistas do norte de África. Afonso de Bragança, como se sabe, foi quem comandou as tropas na tomada de Ceuta. Mazagão foi fundada pelo Duque de Bragança, Jaime.
O mesmo duque conquistou Azamor. Quer em Tânger, quer em Arzila, quer em Safi, Aguz, Mogador, Casa Branca, Azamor e Mazagão, sempre os Vimaranenses deram provas de valentia e de portuguesismo. Era justo, portanto, que as Tapeçarias, encontradas em Pastrana, fossem doadas ao “Museu da Cidade-Berço”, onde permanecem, como espólio raro, a justificar os milhares, quiçá, um milhão de visitantes que por ali passam». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

sábado, 16 de junho de 2012

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças: «… governador de Sijilmeça, capital do Drá, de que deveria receber festivamente os reforços, mas assassinar o chefe português. E assim aconteceu, terminando, traiçoeiramente, a carreira brilhante de Geraldo Geraldes que tivera, ele sim, o primeiro rasgo de expansão ultramarina, só retomado em 1415, com a tomada de Ceuta»



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Sonho de África Nasceu com Portugal
«Em 28 de Junho de 1961 foi proferida, na sociedade Histórica da Independência de Portugal, uma palestra pelo bolseiro do Instituto de Alta Cultura para a Investigação de História Luso-Árabe. A essa palestra chamou o autor: “o primeiro projecto de expansão ultramarina portuguesa no reinado de Afonso Henriques.
José Garcia Domingues, autor do importante trabalho, negou ao infante Henrique o pioneirismo na expansão ultramarina. Antes defendeu que a ideia da expansão ultramarina portuguesa apareceu no reinado de Afonso Henriques, coincidindo com o aparecimento da própria nacionalidade. E diz mais:
  • esse projecto nasceu com Geraldo Geraldes, o ‘Sem-Pavor’ ou o ‘Cid Português’, como ficou conhecido.
Segundo demonstra José Garcia Domingues neste trabalho que foi publicado no nº 24, ano XXI, ‘da Revista Independência (1961)’, por essa altura, Geraldo Geraldes, encontrar-se-ia no norte de África ao serviço do Califa de Almóadas (Iussuf). Cerca do ano de 1173, Afonso Henriques, entristecido com isso, fez todos os esforços para que Geraldo regressasse a Portugal, cessando a sua colaboração aos muçulmanos. Não há entre os testemunhos de Mário Domingues e de José Garcia Domingues, uma ligação que explique como é que, depois de tomar Évora, através de uma traição aos mouros, Geraldes (entre 1166 e 1173) se tenha passado, de facto, para o lado dos mouros.
O que diz este último autor é que Geraldo Geraldes, “possivelmente se tenha associado nas campanhas contra os leoneses que os Almóadas realizaram. Essas campanhas levaram a um ataque à Cidade Rodrigo e à tornada de Alcântara”.
O seu chefe dessas campanhas, temendo que voltasse a reforçar as tropas de Afonso Henriques, levou-o para África. Foi em 1176 que Geraldo partiu de Sevilha para Marrocos, por ordem de Iussuf que dele queria valer-se para entrar no Sahará. Nessa ocasião passaram por Tânger e Geraldes prestou relevantes serviços ao Califa Iussuf que mais tarde o nomeou governador de Suz, região que tinha Tarudante por capital e se prolongava até às praias de Agadir.
Na qualidade de senhor de Suz e com a ausência do Califa de Marrocos, Geraldo Geraldes escreveu, através de um emissário, a Afonso Henriques, explicando-lhe a força que tinha como governador dessa região do norte de África, com muitos portos, em boas condições de serem utilizados, para que os Portugueses entrassem em Marrocos. Mais se disponibilizava ao rei de Portugal para lhe facilitar a tarefa, para o que bastava o rei responder-lhe afirmativamente, acertando pormenores do plano.
Lamentavelmente a carta foi apreendida ao mensageiro. E o Califa Iussuf, chamou Geraldo à sua presença, não lhe disse que apanhara a carta e desafiou-o a ir, com a sua gente, para o Drá, onde a revolta se desencadeara violentamente. O ‘Sem Pavor’, na boa fé, aceitou mais este desafio, partindo para o Drá, a sul de Marrocos. Só que o Califa tinha avisado o governador de Sijilmeça, capital do Drá, de que deveria receber festivamente os reforços, mas assassinar o chefe português. E assim aconteceu, terminando, traiçoeiramente, a carreira brilhante de Geraldo Geraldes que tivera, ele sim, o primeiro rasgo de expansão ultramarina, só retomado em 1415, com a tomada de Ceuta.
José Garcia Domingues tentou demonstrar, com a conferência proferida em 1961, que Geraldo Geraldes foi o “profeta-vidente do império Português em Marrocos”. E se trazemos a figura de Geraldes a este trabalho com o qual pretendemos, fundamentalmente, clarificar o significado das duas caras, é porque sobressai em toda a História de Portugal uma epopeia de inesgotável significado que nunca é demais recontar». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3. 

Cortesia de Guimarães/JDACT