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sábado, 21 de janeiro de 2012

Guimarães. A Irmandade de Nossa Senhora da Penha e a Imagem de Nossa Senhora do Ó. «Não conhecemos as vicissitudes que a imagem da Senhora do Ó sofreu depois de abandonar a igreja de S. Francisco e nem sequer dispomos de qualquer descrição sua. Talvez a documentação em poder da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha possa fornecer elementos que dêem continuidade a esta história»


Cortesia de votguimaraes 

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

História e Arte
A Irmandade de Nossa Senhora da Penha e a Imagem de Nossa Senhora do Ó
«Celebrando-se os 144 anos (e alguns meses) da primeira reunião para a instituição da Irmandade de Nossa Senhora da Penha e os 64 anos (e 4 meses) da inauguração do Santuário da Penha, decidi  lembrar que em 1871, uma imagem de "Nossa Senhora do Ó", existente na igreja conventual de S. Francisco de Guimarães, foi cedida aos devotos da Senhora da Penha para aí ser colocada à devoção dos fiéis.

Mas comecemos esta história pelo princípio. Diz o Abade de Tagilde que já no século XVI existia na igreja conventual de S. Francisco de Guimarães, um altar dedicado a Nossa Senhora do Ó, facto que foi confirmado em 1692 pelo Padre Torquato de Azevedo ao dizer que Pedro Lagarto e sua mulher instituíram um vínculo com jazigo nobre atrás da capella de Nossa Senhora do Ó, da igreja de S. Francisco. O mesmo Padre Torquato escreveu que na parede sul da igreja conventual existia “a capela de Nossa Senhora do Ó, administrada por seus confrades, e anexa à albergaria do Anjo”. Pouco tempo depois, em 1726, o Corregedor Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, no capítulo que dedicou ao Convento de S. Francisco de Guimarães, escreveu que “no corpo da igreja, da parte da epistola, abaixo da capela dos Santos Mártires, que está no cruzeiro, fica a capella de Nossa Senhora de Ó, de que são administradores os seus confrades e recolhem seus foros”. Esta localização é preciosa porque localiza o altar abaixo da capela dos Mártires de Marrocos (que então se encontrava no local hoje ocupado pelo altar do Senhor da Paciência), no lugar onde hoje se encontra o Altar de Nossa Senhora da Conceição.

Cortesia de viewphotos

Mas pouco tempo aí permaneceu, pois já lá não estava em 1737. Consta do Tombo das Rendas de Nossa Senhora do Ó, lavrado nesse ano, que esse altar estava então entre o altar de S. João Evangelista e o de Nossa Senhora da Embaixada. Como sabemos por outras fontes que o altar de S. João estava abaixo do altar dos Mártires de Marrocos, no transepto da igreja, e o altar de Nossa Senhora da Embaixada estava levantado no local hoje ocupado pelo altar de Nossa Senhora do Socorro, podemos concluir que em 1737 o altar de Nossa Senhora do Ó estava colocado no local onde hoje está a Árvore de Jessé.
Porque foi feita a mudança?... não o sabemos.

Através do Tombo de 1738, ficámos a saber que no altar dessa Confraria achava-se uma Árvore de Jessé, tendo ao centro a imagem de "Nossa Senhora do Ó", de pé, de vulto, dourada e estofada, com uma coroa de prata. A árvore de Jessé volta a ser referida no inventário da Confraria de 1777, mas dessa vez que qualquer referência a "Nossa Senhora do Ó":
  •  “…um Altar com uma Senhora com uma árvore de Jessé com doze Reis de pau, pintados, e seu retábulo, e uma sanefa de pau, de talha, e dourada, que custou 60$000”. A omissão do nome de Nossa Senhora do Ó foi certamente intencional, indicando que no alto da Árvore de Jessé já não estava a imagem da Senhora do Ó.
Uma pesquisa aturada do arquivo da Confraria não nos forneceu informações adicionais, mas tivemos mais sorte na busca que empreendemos no arquivo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães. No Livro 6º de termos, a folhas 120v, lê-se que no dia 24 de Abril de 1871 foi presente à Mesa Administrativa da Ordem Terceira o pedido de uma comissão de devotos de Nossa Senhora da Penha, pedindo a imagem de Nossa Senhora do Ó, cedendo o Senhor Lucínio Fernandes da Trindade (director da Philarmónica Vimaranense) para o lugar daquela, a imagem de Santa Cecília. Esse pedido foi deferido. E a imagem de Nossa Senhora do Ó, que outrora coroava a Árvore de Jessé da igreja de S. Francisco, e então se venerava no pequeno altar entre o arco da capela-mor e o arco de acesso à capela de Santa Ana, cedeu o seu lugar à linda imagem de Santa Cecília, que ainda hoje lá se encontra.

Cortesia de votguimaraes 

Não conhecemos as vicissitudes que a imagem da Senhora do Ó sofreu depois de abandonar a igreja de S. Francisco e nem sequer dispomos de qualquer descrição sua. Talvez a documentação em poder da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha possa fornecer elementos que dêem continuidade a esta história». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte IV. «Reivindicado pela Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, o jacente de D. Constança de Noronha regressou a esta igreja conventual onde, por sua vontade, quis ser sepultada. A Rainha Santa. ...Uma lenda. A presença da Rainha Santa Isabel no claustro franciscano de Guimarães tem livre curso pelo país inteiro»

Fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«Ao meio-dia do dia 1 de Outubro de 1938, a estátua jacente de D. Constança de Noronha foi retirada do local onde se encontrava, atrás do retábulo da igreja, e conduzida a título precário para o Museu de Alberto Sampaio.. Sugeriu A. L. de Carvalho que, após o seu restauro, recebesse a capela do Paço dos Duques de Bragança e pedra do sepulcro da santa duquesa, e havia certa lógica na sugestão porque ela aí tinha morado e aí falecera. Então, como ele sublinhou, “das janelas góticas que iluminam este recinto, dos vitrais que revestirão estas janelas, uma luz suavíssima, espiritualizada, talvez que nos ajude a recordar aquela Alta Dona que, no dizer das crónicas, morrera, por suas liriais virtudes, “em cheiro de santidade”.

Tal não aconteceu. Reivindicado pela Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, o jacente de D. Constança de Noronha regressou a esta igreja conventual onde, por sua vontade, quis ser sepultada. Cheguei a pensar que seria interessante colocar ao pé da estátua jacente uma placa onde fosse gravada a epígrafe atrás transcrita; mas desisti para não faltar à verdade: a epígrafe, em latim, diria que D. Constança de Noronha, descendente de Reis, e mulher do Duque, Dom Afonso, jazia escondida neste tumulo, ora, se é verdade que ela jaz escondida, a verdade é que não se esconde debaixo dessa pedra». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Escultura em pedra da Rainha Santa, fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

A Rainha Santa. Uma lenda
O artigo de António Lino publicado na revista «Brigantia» sob o título “O Convento de S. Francisco de Guimarães: o Convento de S. Francisco de Bragança” abre com estas palavras:
  • “O Convento de S. Francisco de Guimarães traz-nos à lembrança o provérbio: «filho és, pai serás…», as lutas em 1322 entre o Rei D. Dinis e seu filho o Infante D. Afonso (futuro Rei D. Afonso IV), e em 1355 entre este Rei D. Afonso IV e seu filho o Infante D. Pedro (futuro Rei D. Pedro I), em seguida à tragédia da Morte de Inês de Castro, lutas a que a Rainha Santa Isabel pôs termo, em Guimarães, no claustro do Convento de S. Francisco”.
A lenda, porque de lenda se trata, da presença da Rainha Santa Isabel no claustro franciscano de Guimarães tem livre curso pelo país inteiro, porque já a ouvi repetida na boca de alguns guias turísticos que demandam a nossa igreja.
Lenda?... Porquê?... Por uma razão, uma só, que arruma esta história para o domínio da fantasia - em 1355, quando supostamente fez as pazes entre o seu filho, D. Afonso IV, e o seu neto, o infante D. Pedro, a rainha santa já não era do número dos vivos, pois jazia sepultada na igreja do mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, desde 1336.

Escultura em madeira da Rainha Santa, fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Deve, no entanto, dizer-se, em abono da verdade, que não foi António Lino quem inventou esta lenda, pois já a encontramos em 1937 num opúsculo que A. L. de Carvalho dedicou ao Castelo de Guimarães. Denunciei a lenda no livro que escrevi em 2001, onde, depois de transcrever as palavras do cronista Rui de Pina que descrevem a reacção do infante D. Pedro ao saber da morte de Inês de Castro, citei as palavras cheias de dramático lirismo que A. L. de Carvalho acrescentou: “este Príncipe alucinado pela sua dor, cabeça em fogo, coração em chama, olhar em braza, declara guerra feroz e de extermínio a El-rei seu pai. A onda revolta dos seus partidários brame, rola, engrossa, levando na sua frente o amargurado Príncipe D. Pedro. Seu velho pai, acicatado pelas maldições da arraia-miúda, entre em Guimarães, barricando-se por detrás das suas altas e grossas muralhas». In Agenda Franciscana.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

sábado, 20 de agosto de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães: As Portas da Igreja. «Ladeada pelos dois contrafortes chanfrados que substituíram os pilares adoçados sacrificados pelo restauro dos anos 40 do século findo, está a porta principal da igreja, de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática…»

Cortesia de votsfrancisco

As Portas da igreja de S. Francisco.
«As pessoas que visitam esta igreja apenas reparam na sua porta principal que dá para o largo de S. Francisco, outrora chamado «Carvalhas de S. Francisco». Talvez valha a pena dedicar esta «Agenda» a essa porta e a todas as outras que se abrem na igreja conventual.

Porta Principal.
Ladeada pelos dois contrafortes chanfrados que substituíram os pilares adoçados sacrificados pelo restauro dos anos 40 do século findo, está a porta principal da igreja, de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática, capitéis decorados e ábaco destacado, a que se soma um novo par de colunas que, no interior, emoldura a porta. Das arquivoltas, apenas a primeira e a segunda se apresentam ornamentadas:
  • a mais ampla com uma fiada de grânulos, sobrevivência do românico, o que reforça a ideia de que pertenceu ao convento mandado demolir em 1322 por D. Dinis, ideia que António Lino subscreve, ao salientar as suas características mais antigas que as do corpo gótico,
  • a segunda com uma franja de flores-de-lis.

Cortesia de votsfrancisco

No que se refere aos capitéis, diz Pedro Dias em «Á Arquitectura gótica portuguesa», que são toscos, de colunelos muito grossos, podendo ver-se ainda a série de meias-esferas a debruar toda a obra, numa clara manifestação da persistência do arco românico, o que parece confirma a teoria da sua antiguidade acima expressa.
A ornamentação dos capitéis é do maior interesse:
  • quatro deles apresentam motivos vegetais, estilizados,
  • outros dois são de difícil interpretação, vendo-se um, à direita, representando uma cabeça humana envolta em folhagem (?) e outro, à esquerda, mostrando, afrontados, dois monstros híbridos, com cabeça de símio e corpo de leão.
Os capitéis das colunas mais avançadas são historiados e representam, segundo se julga, cenas da vida de S. Francisco:
  • à direita, o Santo apresenta-se pregando aos passarinhos, tendo ao pé uma ovelha, animal que o Santo Patriarca amava pela sua docilidade;
  • à esquerda, o Santo cuida de um enfermo, talvez de um leproso, dada a importância que teve para a sua conversão o encontro com um destes doentes.
Os capitéis do portal foram estudados em profundidade por Maria Dolores Fraga Sampedro, em ensaio publicado na «Revista de Guimarães, vol. 104».


Cortesia de votsfrancisco

Ao fundo da Nave.
À direita, encontramos uma porta, habitualmente encerrada, que dá acesso através de uma escada para piso inferior do claustro. A mais antiga referência a esta porta data de 1692 e foi escrita pelo Padre Torquato Peixoto de Azevedo nas suas «Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães». Nelas se lê, a páginas 344, que, por baixo do coro tem «uma porta que vae para o claustro». Umas décadas depois, em 1726, o bacharel Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, que foi corregedor desta comarca, deixou escritas as suas «Memórias ressuscitadas da província de Entre-Douro-e-Minho», mas nelas nada acrescenta, limitando-se a dizer que, debaixo do coro, fronteira a uma porta que dava para uma devesa, estava outra, que vai para o claustro. «A Corografia Portugueza», do Padre António Carvalho da Costa, 1706, também se lhe refere mas nada adianta.

Mais elucidativo é o testemunho do Padre António José Ferreira Caldas, em «Guimarães: apontamentos para a sua história, 1881», Testemunha que havia o altar de S. Marcos, «que à entrada da porta principal ocupava à direita o vão dum antigo túmulo, que em 1501 pertencia a Lopo Vaz, ouvidor geral Entre Douro e Minho, e que está fechado ao nível da parede, forrada de azulejo, pág.319». In Francisco José Teixeira, Belmiro Jordão, V.O. T. de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 1, 2006.

(Continua)
Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte III. «A 10 de Fevereiro de 1882, Martins Sarmento refere, entre os monumentos mais importantes existentes neste concelho, um túmulo “que se encontra hoje quasi desprezado por traz do altar-mor da Egreja de S. Francisco”. Em 1900, Albano Bellino aí o localiza, dizendo, ao fundo da capella-mor, mesmo junto da ábside, vê-se a tampa do tumulo da Duqueza de Bragança D. Constança de Noronha»

Fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«Segundo a História Seráfica (1656), essa transferência fez-se para o seu presbitério da parte da epístola, no qual à face da terra aparece só a pedra com que estava coberta, e nela se vê a sua figura com hábito, cordão e toalha sobqueixada ao modo de Terceira, e um livro aberto entre as mãos em sinal de devoção. Vê-se mais nesta pedra um buraco pelo qual com as contas e outros tais instrumentos tocavam suas relíquias, e numa tábua junto dela este dístico:
  • ALFONSI CONJUX DUCIS HOC CONSTANÇA NORONHA, REGIA PROGENIES, CONDITUR IN TUMULO. Quer dizer: “D. Constança de Noronha, descendente de Reis, e mulher do Duque, Dom Afonso, jaz escondida neste tumulo”.
Nova mudança do coro ocorreu em 1630, e nessa ocasião foi transferida a sepultura para trás do presbitério da igreja, onde Craesbeeck, cem anos depois, a viu no chão. Este autor culpa um guardião do convento, que não identifica, por ter mandado tirar o túmulo da sepultura que tinha, e lajear o lugar em que estava sepultada. Para complicar ainda mais a situação, um Guardião do convento, não sabemos se o mesmo, cedeu a capela-mor da igreja para sepultura de outras pessoas que ficaram jazendo junto à duquesa.

Cortesia de ordemdesaofrancisco

Em face desta situação, o Comissário da Ordem, Frei André de Guimarães, mandou ao Guardião que então servia que repusesse o túmulo no seu lugar de modo a que ficasse todo ele descoberto. Mas não foi possível - ficou descoberto apenas meio corpo, ficando o resto debaixo dos degraus. Na parte descoberta dessa sepultura ficou um buraco aberto para por ele se pudesse tirar terra, como anteriormente se tirava, e no degrau mais chegado à sepultura se pôs a inscrição acima reproduzida.

Com as obras de azulejamento da capela-mor e colocação da tribuna, perdeu-se a localização do túmulo. Contudo, pouco depois, propuseram-se os religiosos reedificar o pavimento da capela-mor da sua igreja “onde queriam colocar o corpo da venerável Senhora D. Constança de Noronha” e pediram para o efeito uma comparticipação à Câmara Municipal. Deliberou esta em sessão de 12 de Janeiro de 1744 pedir autorização a Sua Majestade para que se desse das sobras dos bens de raiz 400$000 reis aos frades de S. Francisco de esmola. Reconsideraram dois meses depois devido ao agravamento da situação financeira do município, tendo deliberado por maioria, com os votos favoráveis da Câmara e da Nobreza, que somente se lhes concedesse 200$000 reis (Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, Códice 1367, fls. 67 e segs.).

Cortesia de ordemdesaofrancisco

Os representantes dos mesteres reagiram, e em nova reunião foi confirmada a esmola inicial de 400$000 reis. Com estas obras, perdeu-se a memória da localização da sepultura da santa duquesa.

A 10 de Fevereiro de 1882, Martins Sarmento, em carta enviada a Joaquim Possidónio Narciso da Silva refere, entre os monumentos mais importantes existentes neste concelho, um túmulo “que se encontra hoje quasi desprezado por traz do altar-mor da Egreja de S. Francisco”. Refere-se, obviamente, ao túmulo de D. Constança de Noronha. Pouco depois, em 1900, Albano Bellino aí o localiza, dizendo:
  • ao fundo da capella-mor, mesmo junto da ábside, vê-se a tampa do tumulo da Duqueza de Bragança D. Constança de Noronha, com a sua estátua jacente, criminosamente abandonada. Foi ella a piedosa senhora, fallecida em cheiro de santidade, quem mandou construir a alludida capella-mór, onde então lhe deram sepultura condigna de que actualmente nem o logar se conhece!”.
A expressão “mesmo junto da ábside” parece indicar que estaria detrás do retábulo, junto aos janelões. Aí estava anos depois, quando A. L. de Carvalho a procurou: o sacristão apenas lhe pôde mostrar a tampa da sepultura, razão que levou Luís de Pina a criticar asperamente os que «arrumaram a sua estátua jacente para trás do altar-mor, fazendo companhia aos ratos, coberta de aranhas e castiçais velhos». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte II. «Em meados de Setembro de 1559, o coro da igreja foi mudado para a capela-mor. Nessa altura, a sepultura de D. Constança de Noronha encontrava-se entre a estante do coro e os degraus que davam acesso ao presbitério»

Fotografia de Fernando J. Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«Conta Frei Francisco de Santa Maria que o seu Paço se transformou em hospital de miseráveis, onde a duquesa curava com as suas mãos os enfermos, ainda os mais ascorosos de doenças malignas, sem nojo da sordidez e sem temor do contágio. A pedido da Duquesa, D. Afonso V, em carta de 22 de Maio de 1456, mandou às suas justiças e autoridades que não constrangessem com encargos, reais ou do concelho, as seis ou sete mulheres pobres recolhidas no oratório de Santa Cruz junto ao muro de Guimarães, «a quem dava todo o que lhes compria». Não foi somente o convento franciscano de Guimarães a beneficiar com a sua munificência:
  • no inventário do tesouro da Colegiada feito no reinado de D. Afonso V, consta «hua lampada de prata dourada q. poos a duquesa de Bragança q. pessou três marcos».
O guardião do convento, Frei Pedro, e os religiosos do mosteiro, tocados pelos milagres operados pela intercessão da piedosa duquesa, pediram ao juiz ordinário, João Afonso, que fizesse inquirição por testemunhas juradas pelos Santos Evangelhos acerca das maravilhas que se contavam a tal respeito. Essa diligência fez-se em 23 de Junho de 1488.

Cortesia de ordemsaofrancisco 

Diz Craesbeeck que esse documento andou perdido durante longo tempo mas, com grande alegria dos devotos da insigne duquesa, foi reencontrado em 1621.
Demonstrou o seu amor por esta igreja ao escolhê-la para receber os seus restos mortais. Mas, antes de deixar este mundo, fez questão de doar todos os seus bens a seu sobrinho, D. Pedro de Meneses, 3º conde de Vila Real, depois marquês do mesmo título, que adoptou por filho e herdeiro.
Transcreve A. L. de Carvalho parte de um documento levantado em 1620 por parentes da falecida duquesa junto das autoridades judiciais, que nos diz: “Viveu nos Paços desta Vila, aonde a dita Duquesa morreu, e deles a levaram à sepultura, à capela-mor de S. Francisco. E no meio dela, sobre a terra em que foi sepultada, se pôs e esteve sempre um túmulo de pedra levantado do chão, com a figura da Duquesa, de relevo, vestida no hábito da Ordem como irmã terceira que, dizem, foi, e com um livro aberto nas mãos esculpido na dita pedra. A dita Duquesa foi sempre tida e havida por santa, e comummente a nomeavam assim nesta Vila, como em outros lugares do redor. E até a umas ervas que estavam e ainda hoje nascem ao redor dos Paços, lhe chamam ainda as ervas da Duquesa Santa.

Cortesia de ordemsaofrancisco

E assim as pessoas que de febres e outras enfermidades adoeciam, se iam à sepultura encomendar à dita Duquesa Santa, tomando-a por intercessora com Nosso Senhor. E levavam terra da sepultura, que traziam por relíquia ao pescoço, e depois de terem saúde a tornavam a levar à dita igreja, e em um pano a penduravam em um ferro que para esse efeito ali estava… Isto viram algumas pessoas velhas, que ainda se lembram, e há algumas modernas que o ouviram a seus antepassados, e é público e notório nesta Vila que assim se passou”. Diz João Lopes de Faria, nas suas Efemérides, que esta intervenção dos parentes da falecida recebeu em 8 de Agosto de 1620 um despacho nos termos seguintes: “Pergunte-se às testemunhas que o suplicante apresentar, e de seus ditos se passem os instrumentos que pedem em forma de fé”.

Em meados de Setembro de 1559, o coro da igreja foi mudado para a capela-mor. Nessa altura, a sepultura de D. Constança de Noronha encontrava-se entre a estante do coro e os degraus que davam acesso ao presbitério. O documento de 1620 atrás parcialmente transcrito revela que, pouco tempo antes, tinham levado as suas ossadas para debaixo de um pequeno tabernáculo, junto aos foles do órgão, “cobrindo o chão da capela com um solhado de tabuado, sem aparecer nada da sepultura, escurecendo a memória dela». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

domingo, 14 de agosto de 2011

Guimarães. D. Constança de Noronha: Parte I. «Nesse jacente, a duquesa apresenta-se com o hábito de clarissa ou de terceira franciscana, abdicando dos sinais indicadores da sua posição social, à semelhança do que faziam frequentemente os terceiros franciscanos do sexo masculinos que se apresentavam com o respectivo hábito»

Fotografia de Fernando José Teixeira
Cortesiadevotguimaraes

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

«No absidíolo do lado do evangelho, na capela dos Almadas, encontra-se o jacente da sepultura de D. Constança de Noronha, segunda mulher de D. Afonso, 1º duque de Bragança, filho natural do rei D. João I, com quem casou em Julho de 1420 numa cerimónia íntima, pois são escassas as notícias a seu respeito. O contrato de casamento, assinado em Sintra a 23 de Julho de 1420, pelo rei D. João I, revela que esse consórcio foi tratado pelo próprio rei, comprometendo-se o soberano a dotá-la com treze mil dobras, das quais lhe entregava quatro mil; o Conde D. Afonso mais tarde entregar-lhe-ia de arras quatro mil coroas, dando como penhor as terras que possuía no termo de Guimarães.
D. Constança de Noronha nasceu em 1404 e era filha de D. Afonso, conde de Noronha e de Gijon, nas Astúrias, e de D. Isabel de Portugal. Era de descendência real, embora ilegítima: o seu pai era filho natural do rei Henrique II, rei de Castela, e a sua mãe, infanta D. Isabel, filha natural do nosso rei D. Fernando.

jdact

Nesse jacente, a duquesa apresenta-se com o hábito de clarissa ou de terceira franciscana, abdicando dos sinais indicadores da sua posição social, à semelhança do que faziam frequentemente os terceiros franciscanos do sexo masculinos que se apresentavam com o respectivo hábito. Assim se apresentaram numerosos reis e rainhas castelhanos e portugueses, entre os a rainha Santa Isabel, cujo jacente apresenta-a também o hábito de clarissa, exemplo que deveria ser do conhecimento de D. Constança de Noronha.
Enviuvou em 1461 e faleceu sem deixar filhos em 16 ou 26 de Janeiro de 1480.

Segundo a tradição, D. Constança de Noronha, tomou o hábito franciscano em 1461 e frequentava a igreja do convento de S. Francisco de Guimarães, à qual doou a sua Fonte dos Cães e financiou o levantamento da sua capela-mor. Em 9 de Agosto de 1461, a duquesa, nos seus paços de Guimarães, fez escritura obrigando as rendas e direitos que possuía na vila de Guimarães ao pagamento de 12 000 dobras que havia prometido a D. João, filho de D. Fernando, duque de Bragança, em dote e casamento com D. Isabel de Noronha.

Cortesia de estadosentido

Há quem diga que no fecho da abóbada da ábside desta igreja está representado o seu brasão ducal, mas não é verdade. No fecho dos dois tramos da abóbada da capela-mor encontram-se as armas de D. João I, seu sogro, um escudo assente sobre a cruz de Avis, encimado pela coroa real. Era este o brasão de armas de D. João I, antes de a Cruz de Avis ser colocada dentro do escudo, tendo torres na bordadura, em vez de castelos.

D. Constança era uma princesa em tudo admirável pela formosura, agrado e afabilidade, dizia D. Caetano de Sousa. Se é verdade que viveu em penitência o seu casamento, disfarçando como podia essas penitências, a partir de 1461, viveu mais austeramente a sua viuvez no Paço dos Duques, em Guimarães, ainda em construção, entregando-se à caridade, deixando para trás a munificência régia «nos aparatos, nos ofícios, nas assistências e qualidades dos criados» de que fala a «Nobiliarquia Portuguesa». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT