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sexta-feira, 22 de abril de 2011

António Oliveira Cadornega: Parte II. ««Para além da Historia Geral das Guerras Angolanas, Cadornega escreveu também a Descrição da muito populosa e sempre leal Vila Viçosa, Corte dos Sereníssimos Duques dos Estados de Bragança e Barcelos, que concluiu em 1683, mas que só foi publicada em 1983...»

Frontispício do manuscrito
da História Geral das Guerras Angolanas, escrito em 1680
(1623-1690)
Vila Viçosa
Cortesia de wikipedia

«Para além da «Historia Geral das Guerras Angolanas», Cadornega escreveu também a «Descrição da muito populosa e sempre leal Vila Viçosa, Corte dos Sereníssimos Duques dos Estados de Bragança e Barcelos», que concluiu em 1683, mas que só foi publicada em 1983, em edição preparada por Heitor Gomes Teixeira. Barbosa Machado atribui a Cadornega dois manuscritos que se perderam:
  • Compendio da expugnação do Reyno de Benguela, e das terras adjacentes. fol.,
  • Historia de todas as cousas, que succederão em Angola no tempo dos Governadores, que a governarão depois da guerra atè D. João de Lancastro. fol. Tom. 4.
Este último seria a continuação da História Geral das Guerras Angolanas (3 vols.). Apesar de este ter sido aprovado na altura pela «maldita» Inquisição para ser publicado, a verdade é que só o foi no século XX. Deveu-se isso à persistência e ao trabalho do Cón. José Matias Delgado (1865-1932) que, com muito saber e enorme paciência, anotou os dois primeiros volumes. O terceiro não se refere propriamente à história, mas à descrição da geografia e etnografia de Angola, pensando Delgado que não tinha necessidade de anotações. Mas também ele não viu a obra impressa. Mons. Manuel Alves da Cunha (1872-1947) anotou o 3º volume e promoveu a impressão da obra em 1940 e 1941.
As anotações são de facto, indispensáveis. Apesar do estilo franco e espontâneo de Cadornega, ele tinha as suas limitações que não o desonram, pois derivam sobretudo da sua falta de formação académica. Sobre o seu estilo e o conteúdo do livro, seguiremos o texto de Beatrix Heintze, que é especialmente incisivo.

Cortesia de rubelluspetrinus 
Cadornega começou a escrever os seus livros já com idade avançada e teve desde logo dificuldades em relação aos acontecimentos ocorridos antes da sua chegada a Angola em 1639. Aí errou praticamente todas as datas, tal como diz o anotador Matias Delgado. Quando descreve um acontecimento, não julga nem critica ninguém, limita-se a dizer o que se passou. No intuito de o saber, falou com inúmeras pessoas, e especialmente com os missionários capuchinhos, António de Gaeta e João António Cavazzi de Montecuccolo.
A Rainha Jinga é a personagem mais presente na sua história. Cadornega estava literalmente fascinado por ela, ora marcando-a com adjectivos incisivos, como «bicha peçonhenta», ora admirando a sua conversão à Fé de Cristo, com outros adjectivos:
  • «isto faz o tempo e estas cousas obra Deus como Pai de misericórdia, que de Leoas bravas, faz Cordeiras mansas».
Como o título da obra indica, as campanhas militares são o assunto principal dos livros, nomeadamente os 2 primeiros volumes. Não é um historiador objectivo, não esconde que defende o partido dos portugueses. As batalhas ganhas pelos portugueses são descritas em detalhe em muitas páginas, ao passo que resume as derrotas a poucas linhas.
A Rainha Jinga
Cortesia de rubelluspetrinus
Passa ao lado do tráfico negreiro, que era um dado adquirido e indiscutido, tal como se diz na Consulta do Conselho Ultramarino de 14-12-1652:
  • «… e a causa que para isto dá, é que faltam os escravos, único cabedal daquela Conquista (i.é, Angola), os que os havia antigamente por resgate nas feiras, ou por se cativarem na guerra». (MMA, XI, 245).
Mas acaba por sugerir para o século XVII o número de um milhão de escravos embarcados para as Índias Ocidentais no seguinte trecho:
  • «E se pode julgar a máquina de gentio que têm estes reinos; pelo que diremos que haverá cem annos que se começou a conquista destes reinos e têm hido hum anno por outro despachadas deste porto outo a dez mil cabeças de escravos, que são quasi um milhão de almas, salvo melhor arithmetica: por aqui se pode ver o que isto vem a ser; tirado os sete annos que estes reinos estiveram no cativeiro de Faraon ou dos Hollandezes. E a fora muitos que forão furtados aos direitos novo e velho, e ao subsídio; e isto succede em todos os navios que deste porto vão, qual mais, qual menos». (Vol. III, pag. 254).
A crónica das guerras angolanas de Cadornega representa ainda uma homenagem aos povos de Angola, que resistiram tanto quanto puderam a quem os queria subjugar e que venderam cara a sua liberdade, não parando de por ela lutar». In Arlindo Correia.

Cortesia de tudosobreangola

Cortesia de Arlindo Correia/JDACT

António Oliveira Cadornega: Parte I. «Concluiu em 1681 os três volumes da sua História Geral das Guerras Angolanas, mas a obra só veio a ser impressa em 1940-1941. Historiador português, natural de Vila Viçosa e falecido em Luanda, em 1690. Como militar, partiu para Angola em 1639, vindo a atingir o posto de capitão...»

Frontispício do manuscrito
da História Geral das Guerras Angolanas, escrito em 1680
(1623-1690)
Vila Viçosa
Cortesia de wikipedia

«António Oliveira de Cadornega não é muito conhecido, o que é uma injustiça. Concluiu em 1681 os três volumes da sua História Geral das Guerras Angolanas, mas a obra só veio a ser impressa em 1940-1941. Também não é muito citado no estrangeiro, onde crescem as dificuldades para o conseguir perceber totalmente, o que já não é fácil por vezes para nós, portugueses. Mas o seu livro é de uma pureza, espontaneidade e veracidade, de um entusiasmo e um patriotismo que nos deixam encantados. Entendo que alguém deveria pegar nos três volumes e reescrevê-los em português corrente de hoje, e daí surgiria certamente um «best-seller» que toda a gente teria prazer em ler. O seu carácter de homem bom está espelhado nos seus textos, mas vale a pena fazer algumas referências também à sua vida.
«António Oliveira Cadornega, historiador português, natural de Vila Viçosa e falecido em Luanda, em 1690. Como militar, partiu para Angola em 1639, vindo a atingir o posto de capitão. Foi o primeiro provedor da Misericórdia de Massangano e, em Luanda, fez parte do Senado da Câmara. Autodidata, deixou obra vasta e preciosa sobre a ocupação portuguesa daquele território nos séculos XVI e XVII. Destaca-se a História Geral das Guerras Angolanas». In Infopédia. 

Veríssimo Serrão afirma que nasceu em 1610, mas sem oferecer provas concretas disso. Sua irmã, Violante de Azevedo, dizia em 1662 ter 35 anos de idade, tendo nascido, portanto, em 1627. Com toda a probabilidade esta era a irmã mais nova, tendo vindo antes dela os irmãos Manuel, o mais velho, António e Francisca, sendo racional este espaço de 3 ou 4 anos entre o nascimento de António e o de Violante.

Cortesia de paraisodolivro
Por outro lado, quando Cadornega diz no seu livro ser em 1680, o português mais antigo em Angola, não quer dizer que é o mais velho em idade, como supõe Heintze, mas sim o que está há mais tempo na Conquista, isto é, há 41 anos; o que não admira, dada, por um lado, a mortalidade que ali grassava entre os brancos e, por outro, o facto de estes, em geral, abandonarem o país assim que podiam, depois de terminada a missão que tinham vindo cumprir.
Aos 15 anos, embarcou como soldado para Angola. Naquele tempo, abandonava-se nessa idade a casa dos pais, para ir para a Universidade, ou para iniciar o exercício de uma profissão.

Juntamente com seu irmão Manuel, terá estudado português e latim nas aulas dos Frades de Santo Agostinho, em Vila Viçosa. Em 1639, queria o pai que ambos prosseguissem os estudos, mas os dois irmãos decidiram ir à aventura para Angola, oferecendo-se como voluntários para a vida militar, Manuel como alferes e António como soldado. Para isso, pediram ao Duque de Bragança, futuro D. João IV, que escrevesse uma carta de recomendação para o recém-nomeado Governador-Geral, Pedro César de Menezes, com quem acabaram por embarcar no mesmo navio.

Luanda, século XVII
Cortesia de rubelluspetrinus
Porquê esta decisão? Entendo que os dois irmãos, inteligentes como eram, concluíram à evidência que, se tivessem algum sucesso na vida, acabariam mais cedo ou mais tarde nas masmorras da «maldita» Inquisição, destino fatal de todos os cristãos novos que de qualquer maneira se salientavam. Todo o êxito despertava invejas e, na sequência destas, surgiam as denúncias junto do terrível Tribunal. E os réus presos, para salvarem a vida, não tinham outra solução que não fosse confessar um vago judaísmo em que nem sequer acreditavam e denunciar todos os cristãos novos que conheciam, amigos e inimigos, parentes e estranhos. António certamente e também, com toda a probabilidade, Manuel, acabaram por morrer em Angola, não tendo nunca manifestado o desejo de regressar a Portugal.
Partiram, pois, os dois irmãos no mesmo navio que o Governador Geral nomeado, Pedro César de Menezes, tendo aportado a Benguela, como era carreira habitual das naves na altura e depois a Luanda, em 18 de Outubro de 1639. Pouco tempo depois, acontece a tomada de Luanda pelos holandeses e a população branca acaba por se refugiar toda na Vila da Vitória de Massangano.
A carreira militar de António prosseguiu e em 29 de Janeiro de 1649 foi elevado ao posto de capitão, posto em que, bastantes anos mais tarde, se reformou, tendo ficado a residir naquela fortaleza, pelo espaço de cerca de 28 anos». In Arlindo Correia.

Continua.
Cortesia de Arlindo Correia/wikipedia/JDACT

domingo, 24 de outubro de 2010

A Epistolografia. Mariana Alcoforado: «A autenticidade da confissão, o surpreendente poder de expressão do caos interior (...) a tensão dramática e eloquente que a missivista imprime às suas confissões, são algumas das notas novas e ainda vivas das Cinco Cartas de Amor»

Cortesia de recantodasletras

Durante o século XVII, a epistolografia ganhou fisionomia literária autónoma. Não se trata a epístola em verso, tão remota quanto Horácio, seu criador, mas da carta viva, em prosa, com função específica de informar acerca da vida pessoal ou alheia, e fazer comentários, a modo de Crónica ou reportagem da vida diária. Embora desde o Renascimento já se tenham cartas desse tipo (por exemplo, as cinco de Camões e as nove de Jerónimo Osório, intituladas Cartas Portuguesas), é só no decurso do Barroco que elas aparecem numa profusão e numa categoria poucas vezes atingidas, antes ou depois.

Marie de Rabutin-Chantal, marquesa de Sévigné (1626-1696), lembrada pela sua escrita. A maioria das suas cartas foram dirigidas à filha. 
Oferecem uma visão para os costumes sociais e os costumes da vida do século XVII francês.
Cortesia de flickr
O grande modelo no tempo é Madame de Sévigné, com seus oito volumes de Lettres, escritas a partir de 1671 e apenas publicadas no século XVIII. No caso, a carta faz as vezes do jornal, então ainda raro mesmo nas mais adiantadas metrópoles europeias. É fácil compreender que aos poucos a carta tornou-se exercício literário, chegando até a prescindir de destinatário certo. O epistológrafo imaginava um qualquer ou dirigia-se a uma audiência fictícia.

Cortesia de amazon 
A moda foi seguida em Portugal por uma série de escritores de nomeada, e os quais o Pa. António Vieira, D. Francisco Manuel de Melo, Frei António das Chagas, Cavaleiro de Oliveira e, de modo muito especial, Sóror Mariana Alcoforado.
(1640-1723)
Beja
Cortesia de auladeliteraturaportuguesa

Professa no Convento de N. Sra da Conceição na sua cidade natal. Em 1663, conhece Chamilly, oficial Francês servindo em Portugal durante as guerras da Restauracção. Enamoram-se. Um dia, porém, o militar regressa à França impelido por chamado superior. Está-se em 1667. Teriam trocado cartas, das quais só ficaram as escritas pela religiosa a quem é atribuída a autoria das Lettres Portugaises. Na realidade, a obra é escrita por Lavergne de Guilleraggues. Porém, este escritor francês da corte de Luís XIV publica em Paris, em 1669, a versão francesa de um texto em português escrito por uma freira, que é o conjunto de cinco cartas endereçadas ao marquês de Chamilly. As cartas estão assinadas por Marianne e, de facto, nessa data o marquês serve em Portugal, onde chega em 1665, integrado nas tropas francesas que ajudam Portugal na Guerra da Restauração. A controvérsia sobre a real autoria destas cartas tem-se prolongado até aos nossos dias. A existência histórica de Sóror Mariana Alcoforado, bem como a do seu apaixonado, não é posta em causa. As dúvidas surgem quanto à autenticidade das cartas. Para além do enigma literário que as cartas vêm criar, apócrifas ou não, as Lettres Portugaises lançam a moda dos romances organizados sob a forma de epístolas.


No mesmo ano são publicadas em Colónia com o título Lettres d'amour d'une religieuse portugaise. Nesta última edição, uma nota informa que as cartas foram dirigidas ao cavaleiro de Chamilly e tinham sido traduzidas para francês por Guilleragues. Boissonade faz saber em 1810 que encontrou um manuscrito das cartas que indica que a autora das mesmas se chamava «Mariana Alcaforada, religiosa em Beja». Os investigadores actuais duvidam, no entanto, da atribuição desta autoria. As cartas tiveram várias traduções para português, sendo a última de Eugénio de Andrade (Lisboa, Assírio Alvim, 1993).
Dali para a frente, foram lidas e traduzidas em várias línguas, sempre com progressivo interesse. Em 1810, Filinto Elísio pô-las em vernáculo.


Cortesia de wook
As cinco cartas amorosas possuem real importância e interesse e o seu tonus identifica-se perfeitamente com a índole literária portuguesa. Perpassa-as um violento sopro de paixão incontrolada, superior a todas as inibições e convenções e a todo impulso da vontade e da consciência moral. Paixão que não amor, pois o sentimento expresso contém na raiz um avassalador ímpeto carnal, explicável inclusive pela atmosfera barroca em que o caso amoroso se desenrola. As cartas expressam a sincera, franca e escaldante confissão duma mulher que se desnuda interiormente para o amante cínico, ingrato e ausente, com fúria de fêmea abandonada, sem qualquer rebuço ou pudor
Cortesia de minhamamiwordpress
«A autenticidade da confissão, o surpreendente poder de expressão do caos interior feito de apelos desencontrados, a ausência de qualquer trava moral, o ar de paganismo anterior aos preconceitos e convenções a exprimir o impulso primário dos sentidos, a tensão dramática e eloquente que a missivista imprime às suas confissões, são algumas das notas novas e ainda vivas das Cinco Cartas de Amor». Escritas por uma mulher, as Cartas ganham maior relevo ainda como documento «humano» e literário precisamente porque não visavam à publicação nem a ser encaradas como peça literária. 
A forma de comunicação, as Cartas são obra sem igual, e em nosso idioma é preciso aguardar o aparecimento de Florbela Espanca, no século XX, para que uma voz de angústia passional se erga tão alto e tão dolorosamente arranque da carne a confissão amorosa logo transformada em sonetos de primeira grandeza.
robertossetimadimensao
As Cartas de Amor da Sóror Mariana Alcoforado constituem um dos pontos altos do Barroco português.
 
Cortesia de wikipedia/JDACT