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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «… um tal Leonardo, o homem que tinha assassinado o marquês de Loulé à paulada, em Salvaterra de Magos, ao que constava…»


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O Mistério da Foz
«(…) Ora, esse era um sentimento perigoso, à época, e trouxe-lhe grandes dissabores. O primeiro deles foi uma pendência com um tal Leonardo, o homem que tinha assassinado o marquês de Loulé à paulada, em Salvaterra de Magos, ao que constava, a mando ou com a anuência do próprio infante Miguel. O crime horrorizou os homens bem formados mas nada se fez para o castigar, até ao dia em que o tal Leonardo, convencido da sua impunidade, decidiu gabar-se do que fizera à porta de uma taberna e Mateus, que por ali passava em patrulha, lhe deu voz de prisão. O homem resistiu, armou zaragata, mas foi dominado e arrastado até ao quartel da Rua do Salitre.
Aquela acção policial foi louvada pelos superiores e pela imprensa liberal, porém, logo se moveram influências na penumbra dos gabinetes e Leonardo foi solto. Nas semanas seguintes Mateus teve por diversas vezes de se bater para escapar a emboscadas que lhe armavam nas vielas de Lisboa. Numa delas foi ferido por uma feia punhalada, perdeu muito sangue e esteve várias semanas hospitalizado. Ainda que tivesse conseguido salvar a vida, ficou bem ciente de que era uma pessoa marcada para os partidários do então exilado Miguel. E era-o numa cidade onde matar um homem se fazia por dez réis de mel coado.
Essa evidência devia ter feito dele uma pessoa mais discreta e cautelosa. Mas Mateus tinha no cumprimento do dever a bússola orientadora da sua vida e não mudou de atitude nem de caminho. De volta ao serviço continuou a actuar contra as violências e os abusos, viessem de onde viessem. Até certa altura, os sucessivos comandantes da Guarda, que estimavam o seu zelo e a sua rectidão salomónica, deram cobertura aos seus actos, mas em 1828 tudo isso mudou quando Miguel, regressado a Portugal, usurpou o trono e dissolveu as Cortes. A violência ganhava asas, o cacete fervia nas ruas, e começaram a multiplicar-se pelo reino fora as agressões aos malhados (liberais), as suas prisões arbitrárias e, até, as suas execuções. O tio de Trancoso, um dos mais notórios liberais da Beira, foi preso, os seus bens confiscados e acabou por morrer na prisão de Almeida.
Mateus sentiu a morte do tio como uma nova tragédia na sua vida, todavia não quis entendê-la como um sinal de alarme. Ao invés de muitos outros liberais que fugiram do reino, ele recusou a emigração não porque tivesse medo da vida noutro país, mas porque o dever lhe impunha que permanecesse ali. Não sabia ao certo que dever era esse. Talvez uma obrigação para com a imagem que tinha de si próprio; talvez o respeito da memória e da vontade do tio. O facto é que ficou num Portugal onde já não havia espaço para pessoas como ele. Temerário e teimoso, voluntariamente indiferente às nuvens negras que se acumulavam no horizonte, persistiu na sua já lendária rectidão e foi castigado por viárias vezes, despromovido para o posto de tenente e transferido para o Porto, onde não voltara desde a tragédia da Ponte das Barcas.
Chegou à cidade na manhã em que se enforcavam dez liberais. As forcas tinham sido levantadas na Praça Nova e os tambores rufavam, cavernosos, tenebrosos, chamando as pessoas ao suplício. Estava um dia cinzento e caía uma chuva miudinha, que não demovia o povo imenso que se juntara na praça, seguindo tudo com olhos ávidos e cruéis. Na orla daquele recinto apinhado dezenas de senhoras guarneciam as janelas de primeiro e segundo andar, espreitando por detrás de leques, num misto de horror e de curiosidade mórbida.
E Mateus ali ficou a cumprir a sua primeira missão policial no Porto, de dentes cerrados, com a roupa encharcada colada ao corpo, maldizendo a sua índole demasiado respeitadora da lei e a estúpida escolha da carreira militar. Foi nesse estado de desconforto físico e de revolta interior que viu os condenados descerem da Relação, em cortejo, carregando as tumbas da Misericórdia que lhes acolheriam os cadáveres. Lenta e metodicamente as forcas desempenharam a sua negra função e à uma da tarde a tragédia estava consumada. Depois de mortos, as cabeças dos enforcados foram separadas do tronco para serem pregadas e expostas em postes altos, como ele já vira fazer em Lisboa aos estudantes enforcados no Cais do Tojo. E, ao presenciar aquele espectáculo macabro, sentiu uma angústia indizível». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde acabou por ganhar um asco visceral aos corcundas (forma como os liberais se referiam aos miguelistas) e à sua violência infrene»

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O Mistério da Foz
«(…) Fosse por que razão fosse, deu esse passo com tal entusiasmo e empenho que, um ano volvido, já cingia uma banda de alferes. Nesse primeiro momento de recompensa, Mateus congratulou-se por ter dado aquele rumo à sua vida. Era, então, muito atraído pelo luzimento da vida militar e o brio e o mérito com que desempenhava as missões de que o incumbiam, fizeram com que, em breve, chegasse a tenente e, alguns anos depois, a capitão, o mais jovem capitão do regimento. Como prémio pelos bons serviços prestados foi transferido para a Guarda Real de Polícia, ficando a comandar a 4.a Companhia, à qual cabia a patrulha da parte norte de Lisboa e subúrbios.
Sentiu-se honradíssimo com aquele comando. Estavam na Guarda Real os melhores soldados, os mais fortes e mais firmes, e ele fez por merecê-los. Mas os tempos eram difíceis e os mares encapelados. Corria, então, a Primavera de 1822 e os dias revolviam-se na agitação política decorrente da revolução. O rei viera do Brasil no Verão anterior, mas a sua chegada não apaziguara o ódio entre realistas e constitucionais. Pelo contrário, acirrara-o pois na comitiva que, acompanhava o monarca vinham muitos inimigos do espírito liberal, como dona Carlota Joaquina, a megera de Queluz, ou o infante Miguel, que cedo se tornou o chefe da contra-revolução. E, com os meses a passar, o inevitável braço-de-ferro começou a pender para os miguelistas, o que Mateus muito lamentou, ainda que não fosse um liberal assumido. A bem dizer, a política nunca lhe interessara. Na idade em que muitos dos seus camaradas de armas já tinham paixões e convicções ele tinha apenas vagas curiosidades e nenhuma comoção política parecia suficientemente forte para provocar vibrações nos seus nervos. Em seu redor os países explodiam em revoluções e pronunciamentos, os povos reivindicavam liberdades, igualdades, sufrágios, constituições, muitos dos seus colegas liam e decoravam os discursos das assembleias, os escritos de Mirabeau e as doutrinas dos filósofos que preparavam as revoluções, mas ele não costumava perder tempo a pensar nisso. Para quê? Os homens eram todos falsos e venais, fossem eles absolutistas ou constitucionais, e ele já vira como até as mais generosas ideias liberais podiam alienar-se e transfigurar-se em armas tão impiedosas como as baionetas de Soult. A letra da lei era a única coisa em que podia depositar uma confiança cega e ele, um incréu, seguia a legislação civil e os regulamentos militares com uma devoção quase religiosa.
O tio dissera-lhe um dia: ser livre é ser amante da ordem e escravo da lei. Nós não somos livres à maneira dos tigres. Somos livres como homens racionais o devem ser: na obediência da lei, Mateus, na obediência da lei!
Mantivera essa máxima e as leis passaram a ser, a par dos sentimentos que o faziam superar-se ou comover-se, as únicas âncoras da sua existência. Coração e lei iam imprimindo os mapas muitas vezes contraditórios que orientavam os seus rumos; o resto pouco lhe interessava. Todavia, a luta política daqueles dias tumultuosos passava-se à sua frente, debaixo dos seus olhos, e era-lhe impossível não ver que os malhados (designação que os miguelistas davam aos liberais) procuravam seguir a lei e que os seus opositores a violavam e deformavam, sem olhar a meios. Foi, portanto, por razões morais e afectivas que Mateus Vilaverde acabou por ganhar um asco visceral aos corcundas (forma como os liberais se referiam aos miguelistas) e à sua violência infrene». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta…»

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O Mistério da Foz
«(…) Soltou um grito agudo quando um dos rapazes lhe acertou acidentalmente uma pedrada numa perna. Ai, canalha.., ides ver, ides ver, ameaçou, de punho cerrado. Mas logo retomou a sua conversa com Vilaverde: só se for a criada... Quem? A criada do senhor Bessa. Mora ali abaixo e estava prenhe. Dizem que está de cama. Está, está, confirmou alguém do grupo de vizinhos, que, entretanto, se acercara. Então, cá pra mim foi o amásio dela que fez este lindo serviço, sentenciou Eufrásia. Vilaverde assentiu com a cabeça e concluiu, virando-se para o cabo de polícia que o acompanhava: bom, já temos uma suspeita. Interroguem a criada. Eu não tenho mais nada a fazer aqui. Fez um aceno enquanto subia para a sela e já com o cavalo em andamento atirou um rápido cumprimentos ao senhor comissário, afastando-se sem olhar para trás.
O cabo arrebitou a arma e fez uma continência desajeitada. Era um homem esquelético e idoso que parecia deslocado, quase grotesco, naquele arremedo de saudação militar. Vilaverde lamentava aquela gente tosca que, sem remuneração alguma, se prestava a patrulhar as ruas infestadas de criminosos. E lamentava ainda mais os homens velhos que, ali no Porto, eram usados para o serviço da noite. Quando o sol se punha lá iam aqueles pobres de Cristo nas suas rondas, ao ritmo do seu passo arrastado e escudados nas suas armas ferrugentas, sem fechos nem pederneiras. Às vezes eram espancados e roubados. Ser cabo de polícia era um mau negócio para o bolso e para o corpo porque as isenções oferecidas pela lei não compensavam as agruras do serviço.
Os comissários de bairro também não ganhavam nada com a função, mas desses ele não tinha qualquer pena. Eram uns completos inúteis que o chamavam por tudo e por nada, para investigar e deslindar as coisas mais óbvias e comezinhas. Infelizmente não tinha outro remédio senão comparecer à chamada. Havia dois anos que estava, por ordem superior, em missão especial ao serviço da Polícia do Porto, subordinado ao Juiz do Crime e disponível para actuar em qualquer parte da cidade e arredores, da Campanhã até à Foz e da Ribeira à Igreja da Lapa. E que trabalho duro e insano, o seu! Para além da investigação criminal, no terreno, cabia-lhe verificar os relatos que periodicamente os comissários dos bairros enviavam à autoridade superior. Estava farto daqueles papéis ensebados, escritos com má caligrafia e fórmulas repetitivas, e ainda mais farto das vidas sórdidas que eles devassavam e expunham. Já tinha a sua conta de homens esfaqueados e de mulheres espancadas ou abusadas. Ainda anteontem vira morrer nos braços do facultativo a pequena Rosa, uma menina loura e triste que vivia na Bainharia. Dizia-se que o pai abusava dela e Mateus chegara a apertar com o homem e a interrogar os vizinhos.
Mas todos negaram e as suspeitas adormeceram até ao momento em que o chamaram de urgência, juntamente com o médico. Rosinha desfazia-se em sangue, pois o pai dera-lhe uma mezinha qualquer para afazer desmanchar. Uma mulher da vida chamou-o de uma porta com ditos e provocações: tenho aqui uma coisa para ti, lindinho. Olha qu’isto é melhor que seda... Ele ignorou-a e pôs o cavalo a trote, afastando-se dali. Não gostava da Rua de Santa Catarina. Mesmo nos dias luminosos aquelas casas cinzentas entremeadas de granito, nos sítios onde ainda não se edificara, tinham um ar lúgubre, demasiado pesado e escuro para quem queria começar bem o dia. Aquela rua era triste e ele estava cansado de tristezas, saturado da miséria humana com que quotidianamente lidava ali no lodo da sociedade. E, em bom rigor, nada daquilo lhe competia. Apesar do pomposo título de inspector, e de lhe terem permitido manter a farda, o cavalo e um impedido às ordens, a sua era uma missão menor e menorizante, um castigo encapotado a que a sua vida o levara e continuava a levar.

Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta, acolhedora, confortável, e foi num ambiente próspero e carinhoso que ele viveu até aos nove anos de idade. De súbito, sem pré-aviso, todo o mundo feliz e despreocupado da sua infância ruiu como um castelo de cartas quando as tropas de Soult invadiram a cidade e os seus pais e irmãos se perderam no desastre da ponte das Barcas. Acolhido em Trancoso por um tio materno, coronel de milícias, passou os anos seguintes a dissipar o pungente luto no ar áspero das serranias e a fazer-se homem, sob a enérgica orientação daquele parente de grande coração e imponentes bigodes marciais. Aos dezasseis anos foi para Lisboa assentar praça como cadete no Regimento de Cavalaria 1, aquartelado em Alcântara. O tio encorajou-o a dar esse passo e ele deu-o sem saber exactamente porquê. Talvez para se livrar de Trancoso, que era, podia jurá-lo, uma das mais tristes vilas de Portugal. Ou então, para agradar ao tio para quem os valores militares se sobrepunham a quaisquer outros. Ou, se calhar, para exorcizar, na atmosfera dos quartéis, o desastre de guerra que marcara tão cruelmente a sua vida. Não sabia». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto…»

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O Mistério da Foz
«(…) O inspector Vilaverde conduziu o cavalo, a passo, pela Rua de Santa Catarina e quando chegou à casa vinte e oito desmontou, sem pressas. Juntara-se ali uma pequena multidão atraída pela desgraça e ele ordenou ao cabo de polícia que dispersasse a gente que rodeava o cadáver. Era um recém-nascido, parecia de tempo e a sua carinha inocente e engelhada, estava aterradoramente lívida. O inspector pôs-se de cócoras e esteve alguns segundos a observar o solo, como um camponês que meditasse sobre as duras incertezas dos seus torrões. Depois, pegou com cuidado naquele corpo pouco maior do que a sua mão e com um dedo indicador ergueu-lhe o queixinho, vencendo a rigidez da nuca. Havia uma marca avermelhada em redor do pescoço que sugeria um estrangulamento. Aquela pobre alminha nascera viva e fora assassinada aos primeiros respiros. E, pior ainda, as várias equimoses indicavam que tinha sido batida ou, pelo menos, atirada violentamente para aquele pátio.
Mateus Vilaverde ergueu-se devagar com um esgar de repulsa na cara. Era um homem relativamente magro, de corpo flexível e bastante mais alto do que os circundantes, e talvez por isso parecesse que não mais parava de se erguer. O cabelo, curto e negro, reforçava-lhe o ar descrente e a tristeza atormentada no olhar. Usava o uniforme de tenente da Guarda Real de Polícia, casaca azul, calça branca e bota alta, que complementava com um chapéu claro, de aba larga. Uma faixa de algodão, de um vermelho pálido, já desbotado, cingia-lhe a cintura e, sobre ela, um cinto de cabedal de onde pendia uma pistola. Acendeu um cigarro, que arrumou displicentemente a um canto da boca, e esteve alguns segundos de pálpebras fechadas, virado para o sol da manhã. Gostava de ficar assim com o fumo a subir-lhe pela cara e a causticar-lhe a pele, enquanto deixava que a luz avermelhada lhe atravessasse as pálpebras e viesse aquecer-lhe as ideias. Não precisava de ver mais nada para imaginar o que ali se passara. Daí para a frente seria apenas o desfiar das perguntas de rotina: sabes quem fez isto?, perguntou, descerrando os olhos e virando-se para o dono da casa.
O homem fitou-o com ar assustado. Era uma criatura baixa e soprada, de barriga rotunda, barba por fazer e aspecto muito sujo. Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância, e respondeu: não, senhor. Eu cá não sei, meu senhor. Pensa bem... Não viste gente por aqui? Não ouviste barulhos? O homem encolheu os ombros e oscilou a cabeça de um lado para o outro, como se negasse, mas confidenciou que ouvira qualquer coisa no quintal, um baque, um ruído, uma restolhada, mas não ligara. Só há pouco é que vimos o santinho aqui no chão. A Eufrásia estava à minha beira, disse, indicando a mulher. Eufrásia era uma figura volumosa, de gestos largos, carrapito oleoso e bigodeira negra, quase masculina. Contava as coisas com grande minúcia, como se tivesse presenciado tudo, passo a passo, e de tempos a tempos lançava as mãos à cabeça e atroava os ares com lamúrias e gritos exaltados. Junto a ela, em semicírculo, um grupo numeroso de vizinhos inteirava-se da ocorrência. Alguns escutavam a mulher com a indiferença de quem já se habituara aos dramas do quotidiano. Outros, sorviam-lhe as palavras, indignavam-se com o que ouviam, davam opiniões. Mais afastado, um bando de rapazes ria e atirava pedras aos gatos, alheio às preocupações dos adultos.
Eufrásia chega-te aqui, mulher. Ora conta tu, ordenou-lhe o marido. Obedecendo ao chamamento, ela virou costas aos vizinhos e dirigiu-se ao inspector numa corridinha pesadona. Trazia um brilho voraz no olhar e vinha pronta a recomeçar a sua narrativa desde o princípio. Mas Vilaverde não precisava de uma nova versão daquele triste acontecimento e, para atalhar caminho, perguntou-lhe directamente, enquanto apagava o cigarro: vossemecê sabe quem foi? Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto e limpando as mãos ao avental, negou, com toda a veemência da sua voz esganiçada: eu não, Jesus, credo! Se eu soubesse quem era matava-a. Eu desgraçava-me, mas matava-a com estas mãos, prometeu, mostrando as mãos vermelhas e rudes, de dedos sapudos, muito abertos. Fazer isto ao santinho... Ai, valha-me Deus, Virgem Santa... Aqui na rua não há gente dessa, não senhor!» In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «O inspector Vilaverde conduziu o cavalo, a passo, pela Rua de Santa Catarina e quando chegou à casa vinte e oito desmontou»

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O mistério da Foz
«(…) Passava da meia-noite quando Sátiro Costa saiu do quarto de Maria. A estalagem estava mergulhada num silêncio morno e ele subiu a escada pé ante pé, pisando ao de leve e muito devagar para evitar os estalidos dos degraus. Chegado ao seu quarto despiu-se lentamente e deitou-se na cama sem fazer barulho. Quando se cobria com o lençol ouviu, vindo da outra ponta do corredor o som de uma cama que rangia e sorriu com malícia. O hóspede maganão andava, como ele, a encantar a sua sereia. Quando estava quase a adormecer pareceu-lhe ouvir de novo o barulho cadenciado da cama e disse de si para si que aquele melro sabido não dava descanso à pobre senhora...
Adormeceu com um sorriso satisfeito e acordou com as galinhas, às seis da manhã. A mulher ainda dormia e, como habitualmente, ele deixou-a ficar na modorra quente daquele amanhecer de Verão. Encheu a bacia com infinito cuidado, um fiozinho a escorrer do jarro num murmúrio de águas distantes, lavou-se e vestiu-se o mais silenciosamente que pôde. Quando por volta das seis e um quarto desceu para tomar o café da manhã e tratar da escrita, coisa que fazia sempre àquela hora, notou o silêncio que vinha do quarto grande. Os pombinhos estavam cansados, pensou, e deixavam-se dormir mais um pouco. Esboçou um sorriso cúmplice, compreensivo, e foi à sua vida. Só se admirou verdadeiramente com o sossego que entorpecia o quarto do fundo quando, já perto das oito, ouviu gritar ôôôoo e viu chegar, lá fora, numa nuvem de pó, a carruagem e o cocheiro da antevéspera.
Subiu as escadas intrigado e bateu com suavidade à porta do quarto dos viajantes. Depois, como não obtivesse resposta, insistiu com mais intensidade: Senhor... Senhor! Meu senhor! Está lá em baixo o cocheiro à espera de Vossa Excelência. Que recado dou ao homem? Mas o quarto permanecia num profundo silêncio. Não se ouvia um restolhar, um movimento, uma respiração, e o estalajadeiro inquietou-se. Os seus gestos tornaram-se agitados, precipitados, e as mãos começaram a transpirar. Que diabo se passava ali? Experimentou abrir a porta, mas estava fechada por dentro.
Alarmou-se. Os lábios gelaram-se-lhe num beicinho aflito. Correu abaixo à procura de ajuda e chegando esbaforido ao pé do cocheiro, informou-o do que se passava: não percebo... Ninguém responde. Estão fechados por dentro. O cocheiro inteiriçou-se, espantado: homem, aí anda coisa... O barco para o Brasil sai às dez. O melhor é meter a porta dentro. Mas o estalajadeiro hesitava. Num relance anteviu desgraças, suspeitas, demandas, complicações, viu a sua ruína. Pensou em tudo e pensou em nada... Seria do peixe que tinham comido ao jantar? A cozinheira preta temperava-o à moda de África e ele imaginou um torpor, um tóxico, uma indigestão, qualquer coisa que tivesse caído mal naquelas barrigas pouco sazonadas às comidas fortes. Meter a porta dentro?
Não, não..., não podemos fazer isso, advertiu, de mãos bem abertas e braços esticados à frente do corpo, como que a repelir essa ideia. Nem eu nem vossemecê queremos trabalhos com a lei. Deus queira que não haja nada mas não podemos arriscar... Faça-me um favor, vá ao Porto. Ao Porto?, estranhou o outro. Sim, sim... Corra homem. Traga-me aqui um médico e um polícia.
O inspector Vilaverde conduziu o cavalo, a passo, pela Rua de Santa Catarina e quando chegou à casa vinte e oito desmontou, sem pressas. Juntara-se ali uma pequena multidão atraída pela desgraça e ele ordenou ao cabo de polícia que dispersasse a gente que rodeava o cadáver. Era um recém-nascido, parecia de tempo e a sua carinha inocente e engelhada, estava aterradoramente lívida. O inspector pôs-se de cócoras e esteve alguns segundos a observar o solo, como um camponês que meditasse sobre as duras incertezas dos seus torrões». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

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O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Na manhã seguinte o hóspede acordou cedo, alugou uma mula para ir ao Porto e a senhora ficou confinada ao quarto»


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O mistério da Foz
«(…) Não te inquietes, disse. Aqui já não há qualquer perigo. Ia a acrescentar qualquer coisa, mas logo se calou devido à aproximação do estalajadeiro. Costa inclinou-se de travessa pronta e ouvido à escuta. Infelizmente os hóspedes serviram-se em absoluto silêncio e nada transpirou até ele. Reparou, contudo, que o homem não tinha metade do dedo anelar da mão esquerda. Um acidente, pensou. Está tudo bom, senhor?, atreveu-se a perguntar. Sim, muito bom. Agora deixa-nos, por favor, ordenou o viajante. Sátiro Costa afastou-se depressa mas ainda a tempo de o ouvir dizer com voz baixa e num tom tranquilizador: sossega, Francisca. Ninguém sabe onde estamos e depois de amanhã embarcamos para o Brasil... Podes respirar de alívio.
Aquela frase ficou a ressoar nos ouvidos do estalajadeiro e ainda lá estava, à espera de respostas, quando voltou à mesa com os doces. Mas a conversa mudara e rolava agora por Penafiel e pelos rabos-de--palha de uma tal Felizarda. Nada que lhe iluminasse as dúvidas ou que esclarecesse as curiosidades sobre aquela gente e, por isso, retirou-se, contrariado. Começou a pensar em questões práticas. Seria necessário dar parte ao comissário subalterno da passagem daquele casal de adventícios? Talvez fosse melhor dizer qualquer coisa pois não queria problemas com a Polícia. Ainda assim, só daria parte depois de eles terem partido e quando, provavelmente, já fossem no mar alto, felizes e descansados, a caminho do Brasil.
Na manhã seguinte o hóspede acordou cedo, alugou uma mula para ir ao Porto e a senhora ficou confinada ao quarto, onde tomou o almoço e o jantar. Sátiro passou todo o santo dia numa curiosidade inquieta. Que iria o homem fazer à cidade? E que faria aquela senhora ali fechada em misterioso silêncio? Dormiria? Leria? Jogaria cartas? Sem saber o que pensar lançou-se em mexeriquices, interrogou as criadas e foi mesmo ao ponto de espreitar à fechadura e de escutar à porta do quarto grande, mas sem sucesso. Ainda que o hóspede tivesse regressado do seu passeio a meio da tarde, só voltou a ver a senhora horas depois quando o casal desceu para cear, na mesma mesa que tinha utilizado na noite anterior. Desta vez trocavam poucas palavras, ela continuava tensa, e comiam depressa.
Sátiro observava-os de longe, cada vez mais intrigado. Por momentos virou a sua atenção para Maria, que arrumava, em bicos dos pés, umas loiças no aparador do fundo, e foi ao olhá-la que lhe pareceu ver o vulto de alguém lá fora, a passar por uma das janelas. Foi um relance, apenas, uma afloração tão vaga e fugaz, que ficou na incerteza do que realmente vira. Pensou de imediato no azeiteiro de Vilar que andasse por ali a rondar-lhe a criada e, cerrando os punhos de raiva, saiu num ápice da estalagem preparado para afugentar o metediço, todavia não viu ninguém. Ainda desconfiado contornou a casa, mas ao verificar que não havia vivalma nas imediações, riu-se da sua precipitação. Fora, provavelmente, a ramada de uma árvore que tocara o vidro da janela, impelida pelo vento e iluminada pela lua. Ou então uma ilusão óptica ditada pelo ciúme, que viera remexer a sua imaginação.
Quando voltou para dentro já os dois hóspedes tinham terminado a refeição e retiravam-se para o aposento. Tinham um ar muito calmo, agora, e bocejavam ambos com as mãos em frente da boca, para disfarçar. Maria guiava-lhes o caminho escada acima. Os dois castiçais bem erguidos nas suas mãos punham longas sombras no soalho e Sátiro Costa, que ficara no vestíbulo a apreciar a majestade lenta e sorumbática com que os hóspedes subiam os degraus, suspirou profundamente. Não havia dúvida de que aquele par viera devolver à estalagem a sua antiga dignidade. Que pena tinha que partissem tão cedo!
A luz e as sombras foram-se escoando pelo corredor e desapareceram para voltarem algum tempo depois nos passos elásticos, satisfeitos, quase saltitantes, de Maria. Mandaram-me abrir as portadas, informou ela. Querem ver o mar... O olhar da criada luzia, sugestionado pelo doce idílio que imaginava no quarto grande. Ao passar pelo estalajadeiro deu-lhe a entender que o queria nessa noite. E ele, suspirando de enlevo, anuiu e sorriu-lhe, semicerrando os olhos como um gato bem nutrido e dengoso». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

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sábado, 21 de maio de 2016

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «O viajante parecia agradado com o que via e perguntou, dirigindo-se ao estalajadeiro: o que tens para a ceia? Borrego, senhor. Borrego, broa, uma sopa de couve acabadinha de fazer e sobremesa, claro está»

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O mistério da Foz
«(…) O viajante parou no vestíbulo, olhou em redor, inspecionando o local. Demorou-se nos travejamentos do tecto, nas várias janelas poeirentas que amorteciam a luz, num quadro que coloria a parede com uma movimentada cena de caça, na porta remota ao fim do corredor. Olhou para todos os quadrantes e só depois disse o que pretendia: precisamos de um quarto para esta noite e a próxima. Quero o melhor que tenhas, exigiu. O preço é o que está ali?, perguntou, indicando com um esticar do queixo a pequena tabuleta de madeira que se erguia a meio do balcão, logo a seguir à campainha. Sátiro Costa assentiu timidamente com a cabeça. Ainda pensou fazer mais barato, mas o recém-chegado não lhe deu tempo para isso. Muito bem. Arranja-nos água quente para nos lavarmos. Costa obedeceu de pronto e ordenou para o cimo das escadas, elevando a voz: Maria, leva água quente para o quarto grande. Depressa! Os viajantes iam-se dirigindo agora para a sala de jantar e ao vê-los entrar naquele espaço mortiço o estalajadeiro sentiu-se tomado de uma constrangedora vergonha. A divisão parecia-lhe demasiado escura, boa para marinheiros e outras aves de arribação mas imprópria para acolher gente daquela estirpe. Onde anda este rapaz que se esqueceu das luzes?, protestou, a meia-voz.
Ele próprio riscou pressurosamente um fósforo e acendeu algumas velas. Primeiro, claro está, as dos dois castiçais de parede, com espelhos reflectores. Depois algumas outras. A luz amarelada e ainda hesitante revelou uma divisão ampla cheia de mesas quadrangulares. A criada de touca e avental branco que as limpava parou, intrigada, de pano na mão e expressão respeitosa. Ao fundo, semiescondida atrás da parede que separava a sala da cozinha, a cozinheira negra afadigava-se em redor do panelão da sopa. Grandes rolos de vapor escapavam-se pela chaminé e o lume do fogão de alvenaria fazia rebrilhar, em tons avermelhados, os vários utensílios de cobre pendurados nas paredes bem como os pratos e os frascos, que enchiam as prateleiras. No lado oposto da sala, um grande fole pendia de uma escápula, na parede, e junto a ele uma lareira apagada abria a sua bocarra enegrecida numa promessa de futuros confortos de Inverno.
O viajante parecia agradado com o que via e perguntou, dirigindo-se ao estalajadeiro: o que tens para a ceia? Borrego, senhor. Borrego, broa, uma sopa de couve acabadinha de fazer e sobremesa, claro está. Doces aqui do Porto. Ah, acrescentou com o indicador bem espetado no ar, e bom vinho do Douro. Muito bem, ceamos daqui por duas horas. Arranja-nos uma mesa à parte... Não queremos ser incomodados. Os hóspedes subiram a escada, à frente do rapaz que ia carregando, esforçadamente, as bagagens para cima. Voltaram cerca de duas horas depois e instalaram-se numa mesa afastada, posta expressamente para eles numa ponta da divisão. O estalajadeiro mandara acender todas as velas e a sala de jantar resplandecia como nas melhores horas de antigo fausto da sua estalagem. Pusera-se uma noite clara e silenciosa, igual às dos últimos dias, e lá fora, ao fundo dos rochedos e da areia, o mar adormecia numa placidez melancólica.
Maria, apaziguada pela presença daqueles desconhecidos de bom trato, moderara os seus ímpetos e serviu a sopa com um cuidado extremo para não entornar as tigelas fumegantes. Os viajantes comiam devagar, com modos pausados, mas percebia-se que a jovem senhora estava tensa. De tempos a tempos lançava olhares nervosos, temerosos, para a janela mais próxima. O homem, pelo contrário, parecia tranquilo e seguro de si. Falava muito, fazia gestos veementes, abrindo os braços e explicando qualquer coisa ou desculpando-se de alguma falta. Às vezes tomava a mão da senhora e beijava-a com ternura e enlevo. Os seus olhos azuis brilhavam, então, com uma luz entusiasmada e pareciam maiores quando fixavam os olhos dela. À distância, Sátiro Costa ia observando a cena e fervendo num lume de muitas curiosidades. Que gente seria aquela que ali lhe surgira envolta numa nuvem de pó e de mistério? De onde vinham e para onde iriam? Por que razão estavam na sua estalagem e que laço uniria aqueles dois? As perguntas e as conjecturas vinham-lhe sem parar ao cérebro e desinquietavam o seu temperamento efeminado. Decidiu ser ele mesmo a servir a carne, para poder apanhar qualquer coisa que lhe revelasse uma ponta daquele enigma. Na altura própria, aproximou-se da mesa com uma travessa bem fornecida de borrego, couves, castanhas e batata. A jovem mulher olhava de novo, apreensivamente, para a janela. O homem, como se lhe lesse a alma, tocava-lhe meigamente na mão e fazia um sorriso prazenteiro e confiante que encorajava o sorriso vago e desfalecido dela». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «O homem de cabelo louro não respondeu. Ficou a observar o cocheiro e os rapazes que descarregavam o tejadilho da carruagem e colocavam rapidamente no chão várias malas…»

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O mistério da Foz
«(…) Mas como poderia ele ter ânimo? O negócio corria mal, definhava, sem passantes nem residentes. Às vezes os marinheiros e passageiros dos navios que fundeavam na barra, acorriam a fazer alguma despesa, um vinho quente, uma empada de galinha, uma broa de Avintes, mas há quatro ou cinco dias que a estalagem não via um único cliente, para amostra. Numa tal escassez não havia ânimo que resistisse e ele encaminhou-se em passo lento, vencido, para a porta da sala de jantar, atraído pelos estalidos longínquos da lenha a crepitar no fogão da cozinha e pelo cheiro reconfortante da sopa de legumes, magros consolos a que deitava mão para esquecer o desalento. E foi ao entrar na divisão que, olhando através da janela do fundo, viu a nuvem de pó que rolava, veloz, na estrada paralela ao rio. Olha... Alguém que vai cheio de pressa para o Porto, comentou alto, virando-se para a mulher que parara no vestíbulo ainda com a roupa nos braços. Mas Adélia não reagiu. Mantinha o olhar fixo nas camisas e nas saias, como se estivesse a examiná-las palmo a palmo e limitou-se a encolher os ombros. Desacompanhado, Sátiro Costa voltou a olhar lá para fora no preciso instante em que a carruagem inflectiu à esquerda, tomando o estreito caminho que conduzia à sua estalagem. Com o coração em sobressalto, o estalajadeiro rodou sobre si próprio, galgou o vestíbulo num passo inesperadamente lesto e, para melhor acolher aquela sorte que lhe caía do céu, abriu de par em par a porta da estalagem. Depois, vendo chegar a carruagem, disse repetidas vezes ao vosso dispor, apesar de saber que a sua voz hospitaleira era engolida pelo troar arrastado e metálico do rodar do veículo e pelos berros do cocheiro: ôôoo! Ôôôoo!
O homem puxava as rédeas com um gesto enérgico, pregando as mãos ao peito e inclinando o tronco para trás, num enorme esforço para suster a corrida dos cavalos. Ôôôooo..., repetiu quando a carruagem se imobilizou a escassos passos do estalajadeiro num ranger de freios, madeiras e tirantes. Pairou, então, sobre a Estalagem Costa um silêncio expectante, prenunciador de novidades, cortado apenas pelo resfolegar cansado dos animais. Depois, o cocheiro saltou em terra e a portinhola da carruagem abriu-se, deixando passar um homem alto, com farto cabelo louro e uma pêra bem cuidada. Teria à roda de trinta e cinco anos, um olhar directo, agudo, um olhar de águia, e um porte altivo. Vestia uma sobrecasaca azul-marinho, de bom corte, e o estalajadeiro percebeu pela indumentária e pela postura que estava perante alguém de posses e de boa criação: um homem habituado a mandar.
O passageiro desceu devagar e de forma majestosa os dois estribos que o separavam do chão, olhando para a estrada que tinha acabado de percorrer. Após um breve momento de observação do que o rodeava, sacudiu a poeirada que pairava no ar e, virando-se para trás, esticou a mão para dentro da carruagem, ajudando outra pessoa a sair. Era uma mulher de estatura mediana e figura delgada e graciosa. Ainda que viesse parcialmente velada por um grande chapéu, percebia-se que era mais nova do que o companheiro de viagem, sua irmã ou filha, talvez. Teria uns vinte anos, quando muito, e uma pele muito suave e branca que contrastava com o cabelo de um preto brilhante e profundo. Uma bela mulher, sem dúvida, de colo alto, pescoço alongado e mãos pequenas. Os seus olhos doces, realçados por longas pestanas, fixaram-se por momentos no estalajadeiro, mas o seu olhar parecia toldado por uma vaga inquietação e logo se desviou. Quando desceu da carruagem fê-lo com retraimento, como se receasse ser reconhecida ou como se temesse o que ia encontrar. Sátiro Costa chamou os rapazes da estalagem para que ajudassem com a bagagem e, de seguida, aproximou-se dos recém-chegados, repetindo, em respeitosa curvatura: ao dispor de Vossas Excelências.
O homem de cabelo louro não respondeu. Ficou a observar o cocheiro e os rapazes que descarregavam o tejadilho da carruagem e colocavam rapidamente no chão várias malas, caixas de madeira, sacos de lona cinzenta e três arcas pequenas. Assim que o trabalho de descarga ficou concluído, o passageiro abriu a bolsa que trazia à cintura e deu uma moeda ao cocheiro. Na quinta-feira quero-te aqui às oito da manhã, sem falta, exigiu. Recebes o resto nessa altura. Muito bem, senhor, respondeu o homem, descobrindo-se. Pode Vossa Senhoria ficar descansado. O outro virou-lhe as costas e entrou na estalagem em passo decidido, levando a jovem mulher pelo braço. À frente de ambos, o estalajadeiro abria o caminho, andando às arrecuas e fazendo, de tempos a tempos, pronunciadas mesuras. Os seus olhos, de novo iluminados, estavam fixos nos recém-chegados, hipnotizando-os, seduzindo-os, agradecendo-lhes, em silêncio, aquela inesperada preferência pela sua casa». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

terça-feira, 1 de março de 2016

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Desafiava-o, desobedecia-lhe, exigia-lhe arrecadas e fios de ouro, que ele, obediente e manso, dava, enganava-o com o moço de estrebaria e com o azeiteiro de Vilar…»

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O mistério da Foz
«As portadas da janela chiaram nos gonzos e fecharam-se com grande estrondo, espantando os pombos. O estalajadeiro estremeceu com a brutalidade da pancada, parou de regar o canteiro das begónias e, olhando para cima, gritou, irritado: devagar, Maria! Não é pra partir, mulher! A criada não lhe respondeu. Aquela Maria tinha um feitio difícil, um geniozinho, como dizia a cozinheira, e nos últimos dias uma zanga com a irmã que vivia na Ribeira pusera-a trombuda, de maus modos e poucas falas. Era nesse estado de espírito que andava agora pelo primeiro piso da estalagem a fechar as portadas, uma das suas obrigações diárias. E, pelo que se via, embirrara com aquelas grandes janelas viradas a poente que tinham estado languidamente escancaradas a beber o ar do mar e a luz majestosa do entardecer enquanto ela se revolvia num caldo negro de ressentimentos e maus fígados. Com jeito, mulher, com jeito..., ralhou o estalajadeiro. E depois, remoendo várias pragas para si próprio, acrescentou em voz baixa: estúpida! Não lhe custou a ganhar...
Ia para quinze anos que Sátiro José Costa era dono daquela estalagem e nunca se encolhera diante das criadas. Dizia-lhes o que tinha a dizer e quando não estava satisfeito punha-as na rua. Com Maria, porém, era diferente: refreava-se e aturava-lhe as venetas pelos momentos de luxúria que ela lhe consentia. A troco do acesso à sua alcova e aos seus encantos, aquela Maria tomara liberdades, medira-lhe as fraquezas e fazia dele o que muito bem queria. Desafiava-o, desobedecia-lhe, exigia-lhe arrecadas e fios de ouro, que ele, obediente e manso, dava, enganava-o com o moço de estrebaria e com o azeiteiro de Vilar, e tudo isso ele suportava com estoicismo mudo, na mira do calor do seu seio e da visão esplêndida daquele corpo flexível e jovem, nu sobre a cama. As carnezinhas lascivas de Maria tinham-no convertido num mártir da paixão. Mas se, como mártir, aceitava com resignação ser desautorizado e, até, enganado, como patrão não suportava que ela lhe maltratasse o material. Aquelas janelas não iam lá com gestos bruscos. Exigiam cuidado e uma certa reverência, pois nelas se haviam debruçado alguns dos nomes mais ilustres e respeitáveis da história recente do reino. Ali tinham estado o muito chorado marquês de Loulé, o Manuel Fernandes Tomás, que Deus tinha, e, até, o marquês de Palmela, que pernoitara no quarto maior, poucos dias antes da fuga no Belfast (navio que na madrugada de 3 de Julho de 1828, após o fracasso da insurreição contra o rei Miguel, conduziu os chefes liberais para Inglaterra, deixando o exército entregue à sua sorte). Isso, claro está, nos bons velhos tempos, quando a estalagem formigava de clientes famosos e quando a palavra Costa ainda era sinónimo da melhor casa de hóspedes de São João da Foz e, talvez mesmo, de todo o Baixo Douro. Agora, infelizmente, os tempos eram outros, tão decaídos que davam pena. Desde que o rei Miguel subira ao trono, os clientes de boa posição rareavam, talvez por não quererem ser vistos na casa de um homem tido por liberal. Já lá iam quatro anos de penúria e o correspondente decréscimo dos ganhos tornava impossível obstar à degradação do edifício. Havia rombos no telhado, muitas madeiras lascadas e apodrecidas, e a frontaria estava coberta de salitre e de musgo. As paredes exteriores enchiam-se de fendas, a sua cor amarela ia morrendo a cada novo dia e as letras pintadas por cima da porta principal já quase não se liam, esvaídas numa tinta gasta e na sujidade parda daquele ar de princípios de Junho. Nas últimas semanas não caíra uma única gota de chuva no Porto e qualquer aragem mais forte levantava nuvens de poeira acastanhada que engoliam e enevoavam tudo.
O estalajadeiro suspirou, desalentado. Assim que tivesse ânimo e vagar, teria de pintar de novo o nome Costa, e desta vez em vermelho-vivo e letras de côvado. Talvez assim fosse visível da estrada, por entre o pó, e ajudasse a devolver à estalagem o seu antigo esplendor. Lançando um olhar dorido e nostálgico à vereda deserta que subia da estrada até ao seu estabelecimento, Sátiro Costa passou pela arrecadação para guardar o regador e o ancinho que estivera a usar, e, após ter tirado o avental esverdeado e sacudido o pó dos sapatos, entrou cabisbaixo no vestíbulo da estalagem. Era um homem de baixa estatura, ombros largos e andar desequilibrado pois os pés, muito pequenos, sustinham mal o peso do seu corpo anafado. Os seus olhos e gestos, dantes ágeis e expressivos, tinham perdido vivacidade e os seus abundantes caracóis castanhos iam embranquecendo com as agruras dos tempos. Ainda assim, a barriguinha redonda e os lábios grossos que, sob a barba rala, mexiam incessantemente como se beijassem o ar, vinham pôr um tom risonho de bacorinho rosado naquela figura pacata e, mesmo que o não fosse, Sátiro parecia um homem feliz. Foi, por isso, com um paradoxal ar de felicidade que, ao cruzar-se com a mulher, que levava, nos braços, um molho de roupa para engomar, o estalajadeiro lamentou a continuação da má sorte: mais um dia sossegado, Adélia. Ânimo, homem, atirou-lhe ela. Ânimo! Não há mal que sempre dure. Com a ajuda de Deus havemos de nos arranjar». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.


Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Exílio, os Açores e o Cerco do Porto. Luís Sousa Coutinho nas Guerras Liberais. António Ventura. «Se exceptuarmos Miguel, sobre quem existe uma abundante bibliografia alimentada por um certo culto que se prolongou até ao presente século, são raros os estudos sobre os seus apoiantes mais destacados»

Cortesia de ricardomoita e jdact

(...) eu preferi abandonar pátria, família, empregos e bens; eu perdi bastante, mas não perdi tudo, porque, bem pouco perde quem conserva a honra.

«A primeira metade do século XIX foi um dos períodos mais agitados e turbulentos da nossa História, em que as intervenções estrangeiras e os confrontos ideológicos assumiram, por vezes, a forma de guerra efectiva. A implantação do liberalismo em Portugal revelou-se um processo conturbado e doloroso, gerador de cisões profundas na sociedade portuguesa que tiveram como momento decisivo e mais traumático a Guerra Civil que decorreu, de modo intermitente, desde 1822 e, de forma continuada, de 1832 a 1834. De um lado e de outro distinguiram-se figuras notáveis, coerentes e abnegadas que tudo sacrificaram em prol dos seus ideais e do modelo de sociedade que tinham como mais conveniente para o seu país. Naturalmente que a História é escrita pelos vencedores, cabendo aos vencidos um papel secundário de palhaço pobre, são outro que corporiza todos os vícios e todos os males e que, por isso mesmo, merece antecipadamente a derrota. Visão simplista esta que justifica a vitória de uns pela posse exclusiva da razão quando, afinal, existem várias razões, e o seu triunfo não se explica, necessariamente, pela justeza dos postulados.
Quando estudamos as Guerras Liberais, imediatamente emergem uns quantos nomes de protagonistas de primeiro plano no campo liberal, sobre os quais existe uma abundante bibliografia, Palmela, Sá da Bandeira, Terceira, Saldanha... - Ficando muitos outros na penumbra do desconhecimento. O mesmo já não sucede com o campo miguelista e com as suas figuras cimeiras. Se exceptuarmos Miguel, sobre quem existe uma abundante bibliografia alimentada por um certo culto que se prolongou até ao presente século, são raros os estudos sobre os seus apoiantes mais destacados. O caso do visconde de Santarém é uma excepção, centrando-se o interesse dos autores mais na sua obra como historiador. Outros destacados miguelistas foram estudados mais na vertente de teóricos da contra-revolução. Faltam estudos sobre os estadistas, os militares e os eclesiásticos miguelistas, excepção para José Agostinho Macedos e frei Fortunato de São Boaventura, tanto até 1834 como no período subsequente à derrota em que sobressai o incansável labor de António Ribeiro Saraiva. Centenas e centenas de liberais de todas as tendências partilharam as agruras do exílio e a glória da vitória, depois de tanto sofrimento, apenas constando de notas marginais nas obras clássicas sobre aquela época. O exílio liberal foi terrível, como todos os exílios políticos, agravado pela hostilidade de alguns governos europeus que toleravam de má vontade a presença desses portugueses expatriados, e, ainda mais, pelas divisões que lavraram entre eles, justificadas umas por razões do foro ideológico e outras por ódios e rivalidades pessoais. A maior parte da enorme produção literária dada à estampa na emigração está relacionada com disputas e querelas fratricidas...
Vitorino Nemésio escreveu uma obra notável sobre a vida dos emigrados liberais e do seu longo calvário até ao triunfo final; nessas páginas surgem, aqui e ali, nomes de personagens de segundo plano que carecem de um estudo mais aprofundado. Um deles é o 3.º conde de Alva, depois 1.º marquês de Santa Iria, um aristocrata e militar distinto, considerado e relacionado com algumas das melhores famílias do reino e que nos propomos estudar.. Ao mesmo tempo, publicamos um interessante conjunto de cartas suas escritas durante o exílio e a guerra civil, dirigidas a sua cunhada, D. Teresa Sousa Holstein, condessa de Vila Real, que são documentos pungentes onde se reflecte o drama pessoal do expatriado, profundamente marcado por dramas familiares, mas também o evoluir do conflito. Cremos que será mais um contributo valioso para a História de Guerra Civil e do exílio liberal.

O 3.º conde de Alva e 1º marquês de Santa Iria
A morte sem descendência dos primeiros condes de Alva, João Sousa Ataíde e D. Constança Luísa Monteiro Paim, 3.ª Senhora do morgado de Alva, fez com que o título passasse para a irmã da condessa, D. Maria Antónia de S. Boaventura Meneses Paim, a qual casou com Rodrigo Sousa Coutinho, filho segundo dos 11.os condes de Redondo. Deste consórcio nasceram sete filhos, mas só dois com descendência: Francisco Inocêncio Sousa Coutinho Meneses Monteiro Paim, progenitor dos condes de Linhares e dos marqueses do Funchal, e seu irmão gémeo, Vicente Roque José Sousa Monteiro Paim, senhor do morgado de Alva, capitão do regimento de Dragões de Chaves e diplomata nas cortes de Paris e Turin. Este último casou duas vezes. A primeira com D. Teresa Vital Câmara Coutinho, filha dos 9.os senhores das Ilhas Desertas, de quem teve uma filha, D. Isabel Juliana Bazeliza José Sousa Coutinho Paim, mãe do duque de Palmela». In António Ventura, O Exílio, os Açores e o Cerco do Porto, D. Luís Sousa Coutinho, primeiro marquês de Sta Iria, nas Guerras Liberais, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-138-9.

Cortesia Colibri/JDACT

terça-feira, 12 de março de 2013

Invasão Liberal no Algarve. A Derrocada do Absolutismo. Mário Domingues. «Os liberais não perderam o seu tempo. Apoderaram-se do arsenal da cidade, que se encontrava bem provido. Simultaneamente, o duque da Terceira mandava metade das suas forças em perseguição de Molelos pela estrada da Quarteira»

jdact

(Continuação)

«Logo ao romper da manhã de 25, bem, municiados e apetrechados, avançaram sobre Tavira, onde entraram ao meio-dia, depois de uma breve escaramuça, na ponte do Almargem. A esquadra de Napier surgiu no porto, enquanto as tropas ocupavam a cidade, de onde a população fugira, atemorizada. Mas o duque da Terceira mandara afixar um edital tranquilizador, prometendo paz e liberdade, o que animou vários moradores a regressarem a suas casas. Nessa tarde do dia 25 apresentou-se em, Tavira uma deputação de Vila Real de Santo Anitónio a declarar que aderia à causa constitucional, pelo que partiu imediatamerrüe para ali um destacamenrto, comandado pelo coronel Breyner, armado e municiado, que estabeleceu naquela vila uma força regular. As operações realizavam-se rapidamente, mas sem precipitações. Na manhã imediata, o duque da Terceira avançou sobre Olhão, onde foi recebido com entusiasmo, e logo na rnanhã de 27 entrava em Faro, em cujas águas não tardou em surgir a esquadra liberal. Tudo se operava com regular precisão, colhendo de surpresa as defesas miguelistas daquela província.
Comandava as armas absolutistas do Algarve o general-visconde de Molelos, que só se lembrou das suas funções quando os constitucionais já desembarcavam na praia de Alagoa. As suas forças eram constituídas por 1600 homens e oito bocas-de-fogo. Mandando reconhecer à pressa as forças desembarcadas, logo verificou na escaramuça da ponte do Almargem que não poderia opor-se ao invasor e retirou para Faro, onde aliás não se demorou, abandonando a cidade antes de que lá chegasse o duque da Terceira. Então, acompanhado de vários funcionários da província e de outras individualidades mais comprometidas no miguelismo, foi refugiar-se na serra de São Bartolomeu de Messines, mas ainda aqui não conseguiu manter-se, pois uma brigada liberal, perseguindo-o, obrigou-o a tomar a direcção do Alentejo.
Então, como a população de Faro parecesse duvidar de que um exército tão pequeno tivesse probabilidades de êxito, o duque de Palmela desembarcou e, no intuito de inspirar confiança naquela gente receosa de futuras represálias miguelistas, estabeleceu logo urn governo provisório do Algarve, procedendo à aclamação da rainha D. Maria II, em cujos autos recolheu as assinaturas das principais individualidades de Faro.
Os liberais não perderam o seu tempo. Apoderaram-se do arsenal da cidade, que se encontrava bem provido. Simultaneamente, o duque da Terceira mandava metade das suas forças em perseguição de Molelos pela estrada da Quarteira, e ele próprio, com a outra metade, marchava sobre Loulé. Qanto a Napier, já abastecido de água e frescos, passava de Faro para Lagos. No entanto, o general miguelista ia retirando sempre, deixando à disposição do duque todo o interior da província e todas as baterias do litoral. A escuna absolutista Elisa passara para os liberais e prendera o capitão, ao mssmo tempo que a tripulação acordara em ficar ao serviço dos constitucionais. O Algarve achava-se, pois, todo submetido aos defensores de D. Maria II.
Notava-se, porém, certa resistência passiva resultante do terror e da propaganda fanática de frades e de pregadores reaccionários, levada a cabo em favor de Miguel, apresentado como heróico defensor da Igreja. Antes de abandonar o Algarve, onde não podia manter-se, o visconde de Molelos requisitou do governo de Lisboa urgente remessa de dinheiro e munições de guena com que pudesse opor-se às forças do duque da Terceira. Na capital, o conde de Basto, famoso pela violência com que perseguia os liberais, não sabia como acudir às necessidades de defesa do regime subitamente atacado por vários lados. Acabavarn de informá-lo de que, perto de Tomar, se formara uma guerrilha que se apoderara das armas existentes nos depósitos realistas e seguira para Barquinha, Alpiarça e Almeirim, a revoltar os anseios contra Miguel. Querendo extinguir o incêndio revolusionário que se ateara mandou marchar para Aldegalega em 9 de Julho o brigadeiro Raimundo Pinheiro com forças milicianas de Tomar e de Tavira, caçadores 1, mais um batalhão de infantaria 14 e um esquadrão de cavalaria 2. E Pinheiro seguiu logo de Aldegalega ao encontro de Molelos, cuja situação era difícil». In Mário Domingues, A Derrocada do Absolutismo, Evocação Histórica, Edição Romano Torres, série Lusíada, Lisboa, 1977.

Cortesia de R. Torres/JDACT

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Marvão: Na Primeira Guerra Carlista e nas Guerras Liberais. Alguns documentos da secretaria do General António Álvares Pereira

Cortesia de marvao.portalegredigital
Marvão na Primeira Guerra Carlista e nas Guerras Liberais.
Alguns documentos da secretaria do General António Álvares Pereira

por António Ventura

Com a devida vénia a António Ventura publico algumas palavras do artigo acima citado e referenciado na Revista «A Cidade», Portalegre, Nº 1 (Nova Série), Janeiro-Junho, 1988, pp. 63-80.

O processo de desagregação do Antigo Regime em Portugal e Espanha, bem como a instauração do liberalismo em ambos os países, apresentam, nas primeiras décadas do século XIX, um paralelismo com frequentes pontos de contacto. As coincidências cronológicas sucedem-se, prolongam-se para além da vitória e consolidação do constitucionalismo. Os acontecimentos ocorridos no país vizinho determinam tomadas de posição, suscitam a alteração de correlações de forças, funcionam como modelos a seguir.

Monumento aos heróis da Guerra Peninsular em Lisboa
Cortesia de wikipédia
A Guerra Peninsular (ou da Independência, como é conhecida em Espanha) unifica a Península e converte-a num único campo de batalha, embora influencie de maneira diferente o curso dos acontecimentos nos dois países. Dela nascem as Cortes e a Constituição de Cádis (1812), iniciando em Espanha um processo de instauração do liberalismo, interrompido, em 1814, pelo regresso de Fernando VII, com a derrogação da Constituição e o restabelecimento do Santo Ofício. Esse retrocesso é apenas perturbado, no ano seguinte, pelo frustrado pronunciamento de Espoz y Mina e Diaz Porlier, e pela igualmente gorada conspiração de Luís de Lancy, na Catalunha, em 1817.
Em Portugal, pelo contrário, a guerra não influencia o ascenso do liberalismo. É necessário aguardar por 1820, ano em que Rafael del Riego Nuñez e António Quiroga iniciam o pronunciamento de Cabezas de San Juan, - repõem em vigor a lei fundamental aprovada em Cádis e obrigam o rei a jurá-la, para que, no Porto, no dia 24 de Agosto, se inicie um movimento liberal que tem na Constituição gaditana um dos seus referenciais.

Em ambos os países, o período que medeia entre 1820 e 1823 é de confronto entre partidários e adversários das novas ideias, com outra coincidência: a hostilidade dos dois monarcas - João VI e Fernando VII - para com as mudanças desejadas pelos revolucionários. A conjuntura europeia era, aliás, desfavorável aos regimes instaurados em 1820 nos dois reinos peninsulares, numa época em que a Santa Aliança, constituída em 1815 para preservar a Europa do perigo «bonapartista», exercia uma tutela efectiva e vigilante. As potências conservadoras não se mostraram hostis ao sucedido em Espanha, num primeiro momento, mas os seus reflexos em Nápoles levam a uma intervenção nas Duas Sicílias. Fernando VII, influenciado pelo ambiente internacional e pelas pressões dos sectores mais conservadores, pronuncia o discurso de abertura das Cortes ao qual agregou a célebre «Coletilla» (1-3-1821), provocando, assim, a queda do ministério.

A situação interna agrava-se. O ministro imperial da Rússia entrega ao ministro espanhol, Francisco Cea Bermudez, uma nota onde critica o regime revolucionário. A tentativa republicana de Jorge Bassières, na Catalunha, e o assassinato de Matias Vinuesa acelararam a decisão. Em Abril de 1823, um poderoso exército francês, os «Cem Mil Filhos de S. Luís», entra em Espanha e põe termo à sua segunda experiência constitucional.

Cortesia da CMVila Franca de Xira
Também em Portugal, e no ano de 1823, ocorre o pronunciamento conhecido por «Vilafrancada», no qual convergiaram tanto absolutistas como liberais moderados descontentes com o alegado radicalismo da Constituição de 1822. Esse pronunciamento tem como pano de fundo a ameaça de invasão estrangeira, como é referido no manifesto de D. Miguel datado de Maio. Em Espanha, inicia-se a chamada «década ignominiosa» (1823 a 1833). No nosso país, a vantagem não é clara para nenhum dos lados. «Vintistas», liberais moderados e absolutistas confrontam-se, agrupando-se estes últimos em redor da rainha Carlota Joaquina - irmã de -Fernando VII - e de D. Miguel. No Norte eclodem revoltas. A Abrilada (1824),ponto alto da contra-revolução, não tem êxito. O Infante D. Miguel parte para o exílio. A morte de João VI, a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV, a abdicação a favor de sua filha Maria da Glória e o exercício da regência por Isabel Maria, desenrolam-se num clima de permanente conflito entre portugueses. Durante este período, os absolutistas portugueses, muitos dos quais refugiados em Espanha, desenvolvem uma intensa actividade. Unidades completas de soldados, com os seus oficiais à frente, desertam para o país vizinho e lançam vibrantes proclamações. (Foi o caso do general António Tavares Magessi, que se retirou para Espanha com forças de Elvas, Campo Maior, Alandroal, Extremoz e Vila Viçosa. Daquele país, lançou proclamações a partir de Valverde de Segalles e Almendral, datadas de Agosto de 1826. Cf' Documentos para a História das Cortes Gerais da Nação Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1884, Volume II, pp. 176-179, 328-329 e 590).

 As conexões entre realistas portugueses e espanhóis já foram objecto de diversos estudos, com destaque para os de Joaquim del Moral; mas estamos perante um tema vastíssimo e digno da atenção dos estudiosos do nosso século XIX. O tradicionalismo triunfa, em Portugal, com a coroação de D. Miguel, como rei absoluto (1828). A Península está em sintonia. Os levantamentos do Porto (1828), de Espoz y Mina (1830) e Torrijos (1831), este último com o epílogo dramático fixado no célebre quadro de Antonio Gisbert, não alteram a situação.
Tela de Honoré Daumier, 1833
Cortesia de wikipédia
A Guerra Civil em Portugal e em Espanha
A partir de 1830, a conjuntura europeia conhece novas e sensíveis alterações. Em França, a Revolução de Julho provoca a queda de Carlos X e do seu ministro Polignac. Aos Bourbons sucede Luís Filipe, o «Rei Burguês». Em Inglaterra, o ministério conservador de Wellington é alijado do poder. A Bélgica torna-se independente. Durante o ano de 1831, têm lugar em Londres importantes negociações para a obtenção de um empréstimo destinado a financiar a expedição dos emigrados liberais portugueses ao seu país. Dessas negociações, que decorreram sob os auspícios do ministro britânico Palmerston, resultará a concessão de um empréstimo de dois milhões de libras obtido de um grupo de financeiros ingleses e franceses, desempenhando nesse processo um papel relevante um espanhol, futuro primeiro-ministro e figura cimeira da desamortização: Juan Alvarez Mendizabal.

A armada liberal parte de Belle Ille a 10 de Fevereiro de 1832 e chega à ilha de S. Miguel, nos Açores, a 22 do mesmo mês. A 27 de Junho, as forças liberais deixam aquele arquipélago e desembarcam perto do Porto, Mindelo, a 8 de Julho, tomando a cidade. Inicia-se, assim, uma guerra civil que opõe, no território português, liberais e miguelistas, e que só terminará em Maio de 1834, com a derrota daqueles últimos.

Em Espanha, a morte de Fernando VII, ocorrida a 29 de Setembro de 1833, e a proclamação da viúva, Maria Cristina, como Rainha Governadora, vai despoletar um conflito latente há muito. O irmão do falecido rei, D. Carlos Maria Isidro, divulga a 1 de Outubro o «Manifesto de Abrantes», onde se considera o legítimo monarca, seguido dos «Decretos de Santarém», datados de 4 do mesmo mês, já assinados como Carlos V, rei de Espanha. Se, como justamente salienta Carlos Marichal «de início, o carlismo nasceu como uma causa sem chefe», as correntes tradicionalistas que se manifestavam desde 1822, encontram, agora, uma figura em redor da qual se polarizam.

Cortesia d revista «A Cidade»
Os partidários de D. Carlos fomentam sublevações nas Vascongadas, em Navarra, Catalunha, Aragão, Castela e Valência (11). A guerra civil, a Primeira Guerra Carlista, (A 1ª Guerra Carlista, também chamada Guerra dos Sete Anos, decorre de 1833 a 1839. Em 1846 e até 1849 tem lugar um novo conflito, localizado na Catalunha, com ampla participação carlista: a Guerra «dels Matiners». Finalmente, a 2ª Guerra Carlista desenrola-se de 1872 a 1876. Sobre as Guerras Carlistas em geral, o grande inventário bibliográfico continua a ser o de J. Del Burgo, Bibliografia de las Guerras Carlistas y de las Luchas Políticas del siglo XIX, Pamplona, 1953-1955, 3 volumes. Algumas obras recentes com boas sínteses: Jaime Torras Elías aborda no seu trabalho La Guerra de los Agraviados, (Barcelona, Universidade de Barcelona, Publicaciones de la Cátedra de Historia Geral de España, 1967) o conflito conhecido como guerra dos «Malcontents» (Catalunha, 1827), no qual participam forças conservadoras que se integrarão no Carlismo. De Josep Carles Clemente, Las Guerras Carlistas, Barcelona, Ed. Peninsula, 1982, sobre os três conflitos e Historia del Carlismo Contemporáneo (1935-1972), Barcelona, Grijalbo, Col. Dimensiones Hispanicas nº 13, 1972, importante para a compreensão do carlismo de hoje. O pequeno volume de Vicente Garmendia, La Segunda Guerra Carlista (1872-1876), Madrid, Siglo XXI, E. Estudios de Historia Contemporánea, 1976, traça um panorama sucinto daquele conflito, acompanhado de uma antologia de textos programáticos e teóricos), inicia-se no país vizinho, defrontando-se, por um lado, a facção apostólica, e, por outro, a de Maria Cristina e sua filha, a futura Isabel II, apoiada nos liberais.

D. Carlos Maria Isidro, que se encontrava em Portugal desde 29 de .Março de 1935, encontra um ambiente de franco apoio. O embaixador espanhol, D. Luís Fernández de Córdova, abandona Lisboa. A 17 de Outubro de 1833, D. Carlos é declarado conspirador e usurpador do trono espanhol e os seus bens sequestrados. D. Miguel, seu cunhado, apoia-o firmemente. A praça fronteiriça de Almeida passa a funcionar como base de operações dos seus partidários.

MARVÃO, Chave do Alto Alentejo
A praça forte de Marvão, antigo castelo medieval reforçado com numerosos baluartes e tido como inexpugnável, constituía a chave para o domínio da região norte-oriental do Alto Alentejo. Era comandada pelo coronel Francisco da Silva Lobo, oficial prestigiado e fiel a D. Miguel, quando, em Junho e Julho de 1833, uma guerrilha constitucional percorreu a região, resistindo aquela praça às intimações de rendição. Refira-se, a propósito, que a guerrilha constitucional portuguesa era chefiada por um antigo coronel do exército espanhol, D. Manuel Martinini, que se fixara em Portugal como próspero comerciante e industrial em Punhete (Constança).

Tanto Luz Soriano como Possidónio Mateus Laranjo Coelho salientam a importância estratégica de Marvão: «Esta praça cuja cidadela é naturalmente inacessível, reunindo com vantagem da sua posição topográfica a da riqueza dos seus armazéns e munições de guerra, fora escolhida pelo Infante D. Carlos, para dela se corresponder para o interior da mesma Espanha, e dali agenciar armas e munições, e para, finalmente, as distribuir aos seus aderentes». «A praça (...), pelas vantagens que oferecia (...), tinha sido, por sua vez escolhida como lugar de refúgio dos emigrados espanhóis que acompanhavam o infante D. Carlos».
Marvão funcionou, pois, como base de apoio logístico para os carlistas. Ali se encontravam os elementos dispersos reorganizados pelo brigadeiro D. Fernando Peñarola, que partiram para incursões em território espanhol, como a que teve por alvo a pequena aldeia de Pino, junto à fronteira, perto de Valência de Alcântara.

Cortesia da CMCastelo de Vide
D. Carlos Maria Isidro em Castelo de Vide e Marvão (Outubro de 1833)
A corte de D. Carlos, em Portugal, era o início da guerra, em localidades junto à fronteira. Podemos reconstituir, na região de Castelo de Vide e Marvão, em Outubro de 1833, até à sua partida para Castelo Branco, recorrendo a um interessante documento que nos permite seguir a sua marcha. Trata-se de um diário escrito por uma testemunha coeva residente na primeira daquelas localidades, Manuel Maria dos Santos Cordeiro, que foi anotando as diversas ocorrências naquela vila e zonas limítrofes, até final de 1833. O texto foi corrigido posteriormente, contém referências à Convenção de Évora-Monte, por exemplo, e algumas das informações são imprecisas. O seu valor é, porém, inegável.

Vejamos, pois, o que sucedeu desde princípios de Outubro, omitindo tudo o que não diga directa ou indirectamente respeito a D. Carlos Maria Isidro e à actividade carlista.
«Segunda-feira, 9-10-1833.
Foi aqui esperado D. Carlos de Bourbon, deEspanha, com grande aparato e pompa nas Casas da Câmara. Chegou efectivamente aqui, trazendo de comitiva 3 oficiais de cavalaria e 28 soldados de guarda de honra; e um oficial francês e um grande número deles espanhóis. Vinha como seu Ajudante de Campo o novo General nomeado para esta Província, de que já falámos, e de que então soubemos o nome. Era o célebre General José António de Azevedo e Lemos, que, como Marechal Graduado e Comandante em Chefe das tropas realistas, assinará mais tarde, 1834, a Convenção de Évora-Monte (...). Depois de entrarem na vila, tendo sido esperados pela Câmara Municipal, oficiais de Ordenanças, milicianos, c1érigos, frades, seculares e povo, e com repique dos sinos e mais honras foram hospedados nas Casas da Câmara; e depois de D. Carlos ter dado beija-mão, foi visitar a Igreja matriz de Santa Maria da Deveza e o castelo; e às quatro horas da tarde se retirou e, acompanhado por muitos seculares e pessoas que eram autoridades judiciais na vila, e que voltaram à noite, tendo ele [D. Carlos] ficado em Mérida de onde saiu no dia 20.
(…)

Os Documentos da Secretaria do Gen. António Pinto Álvares Pereira
António Pinto Álvares Pereira (Vila Real, 1790 - Estremoz, 29/7/1834), Assentou praça no regimento de Cavalaria de Chaves. Cadete em 1/11/1797, Alferes em 17 do mesmo mês e ano, Tenente em 20/9/1808 e Capitão graduado da mesma data, passando à efectividade e 4 de Setembro de 1814. Fez a Campanha de 1801 e a Guerra Peninsular. (…) Liberal quando se encontrava em Elvas, em 1823, é processado sob a acusação de ser pedreiro livre. (…) A 4 de Novembro de 1832 é enviado para Marvão, de onde foi libertado após a ocupação da praça pelos liberais. Foi então nomeado Governador das Armas do Alentejo do Alentejo. Morreu vitimado pela cólera morbus.
Localizámos no Arquivo Histórico Militar um conjunto de documentos pertencentes à Secretaria daquele oficial general, que se dividem em dois grupos. O primeiro compreende diversa correspondência de autoridades espanholas e tem como marcos cronológicos, Dezembro de 1833 e Abril do ano seguinte. O segundo inclui documentos sobre a presença do General José Ramón Rodil em Castelo de Vide, em Maio de 1834, no seu esforço para capturar D. Carlos.

Neste trabalho debruçamo-nos somente sobre o primeiro grupo, e através desses documentos detectamos os esforços desenvolvidos por um liberal espanhol de Valência de Alcântara, D. Jayme Carbó, coronel graduado comandante do 20º Batalhão do Regimento de Infantaria da Rainha de 2ª linha, bem como de outros elementos do país vizinho, no sentido de auxiliarem quer a tomada de Marvão, quer o seu abastecimento posterior. Vejamos, pois, esses documentos, dos quais transcrevemos as passagens mais significativas.
Carta de D. Jayme Carbó. Valência de Alcântata, 16/12/1833.
Valencia de Alcantata 16 de Deciembre de 1833
Exmo Señor
Mi mas Venerado Brigadier General. En su muy apreciable carta de 14 del actual à que tengo el honor de contestar veo consignados los buenos sentimientos que caracterizam a V. E. y de que yá tenia noticia. Coincidiendo con ellos me parece deber asegurarle que puede contar ahora y en cualquier circunstancia com mis vivos deseos de ser útil a V. E. y a su gobierno en todo cuanto sea compatible com los deberes militares que me ligan com mis superiores. Me hago cargo de los apuros en que V. S. pueda verse, y desde luego le ofrecería mis fuerzas si a tanto se me autorizase. Sin embargo, mi hanelo por servir a V. E. y complacerle, me ha sugerido ciertas ideas que debemos conferenciar personalmente V. E. y yo, debiendo manifestarle que entretanto que espero esta hora, he oficiado con urgencia al Sr. Gobernador de Badajoz para que nos facilite unos Artilleros instruidos al afecto que V. E. indica.
Al benemérito capitán D. Miguel Zancada dador de esta podrá V. E. indicar por el pronto se ofrezca seguro de que merece toda mi confianza por sus excelentes virtudes.
Recibí los oficios que V. E. se servió incluirme para S. M. la Reyna mi Señora y el Exmo. Ministro de la Guerra a los cuales he dado el curso que V. E. apetecía.
Crea V. E. Sr. Bridadier que ansío darle pruebas de lo mucho que me merece y de la distinguida consideración com que se ofrece de V. E. muy atento y decidido amigo y servidor.
G. B. L. M de V. E.
Jaime Carbó

Como se deduz deste documento Jayme Carbó simpatiza com a causa liberal portuguesa mas debate-se entre as suas convicções pessoais e as ordens dos superiores.
(…)

O governo espanhol procura capturar D. Carlos e Rodil é encarregado dessa missão. Primeiramente, de forma discreta, é autorizado a atravessar a fronteira e a operar em território português o tempo necessário para se apoderar da pessoa do Infante, voltando com ele imediatamente à nossa fronteira, onde pudesse tê-lo sob custódia com toda a segurança, na praça de Badajoz ou onde Rodil escolhesse. Depois, foi a entrada em força do exército daquele general na Beira Baixa e a sua marcha para sul em colaboração com os liberais portugueses. Deteve-se em Castelo de Vide, cuja rendição recebeu, e a esse movimento se refere o segundo grupo de documentos, cópias autenticadas pelo seu punho. In António Ventura, Revista «A Cidade».

 
Um texto retirado do Munícipio de Marvão: Guerras Liberais, 1832-1834
Em Junho/Julho de 1833, a Praça de Marvão, comandada pelo miguelista Coronel Francisco da Silva Lobo, resiste às intimações de rendição feitas pela guerrilha constitucional, por sua vez comandada pelo antigo coronel do exército espanhol, D. Manuel Martini. Neste período, servia de refúgio, base de apoio logístico e ponto de partida para incursões em Espanha, aos carlistas que acompanhavam o infante espanhol, D. Carlos Maria Isidro (1788-1855). Decorria em Espanha a Primeira Guerra Carlista ou Guerra dos Sete Anos (1833-1839), sendo os carlistas comandados pelo brigadeiro D. Fernando Peñarola. Em 12 de Dezembro de 1833, é conquistada a Praça de Marvão pelas tropas liberais, reunidas sob a designação de Legião Patriótica do Alentejo, com ajuda de tropas espanholas e com a cumplicidade de elementos do interior da fortaleza. De Dezembro de 1833 a 26 de Março de 1834, Marvão é cercada pelas tropas miguelistas, sob o comando do Brigadeiro António José Doutel.
As tropas liberais, comandadas pelo General António Pinto Álvares Pereira, eram abastecidas a partir do território espanhol. Foram socorridas, a 22 de Março de 1834, por forças vindas de Espanha, comandadas pelo Tenente-General José Joaquim de Abreu. O cerco levantado a 26 de Março é referido em documento militar de 1861, de forma muito elogiosa e nos seguintes termos: A esta Praça está ligado um facto histórico que muito a honra; foi o memorável sítio que ela sustentou por uns poucos de meses em 1834, tornando-se, por este feito d'armas, o baluarte da liberdade na Província do Alentejo.

Cortesia de António Ventura/Revista A Cidade/JDACT